Nome do Projeto: Memória Petrobras
Depoimento de: Neivaldo Escavelo
Entrevistado por: Márcia de Paiva e Ana Maria Bonjour
Local da gravação: Madre de Deus/BA
Data: 07/10/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista: PETRO_CB582
Transcrito por Flávia de Paiva
P/1 – Boa tarde.
R – Boa tarde.
P/1 – Gostaria de começar esta entrevista pedindo que você nos diga o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Neivaldo Escavelo do Amaral. É três de julho de 1965 o nascimento, em Salvador, Bahia.
P/1 – Neivaldo, conta pra gente como foi o seu ingresso na Petrobras.
R – O meu ingresso na Petrobras foi o seguinte: eu servi a Marinha de Guerra do Brasil, né, durante quatro anos. Eu via sempre os rebocadores daqui da Transpetro, fazendo reparo lá. Inclusive, eu que fazia reparo nesses rebocadores lá, quando trabalhava na área de reparo naval. Era marinheiro militar, mas trabalhava nessa função. E daí eu ficava observando aquele pessoal da Petrobras que ia lá no rebocador fazer o serviço, e dizia: “olha, eu ainda vou trabalhar na Petrobras.” E, tanto é que, eu pedi a minha baixa antes de ser promovido. Deixei de ir pra cabo, a minha promoção de cabo da Marinha chegou, e eu desisti de assinar o contrato por mais quatro anos com a Marinha porque a minha intenção era fazer um concurso para ingressar na Petrobras. Isso foi em setembro de 1985. Eu pedi a minha baixa e em fevereiro de 1986, eu fiz o concurso. O concurso único que ainda dava pra pegar, quando abriu, foi pra ajudante. Mandei o meu currículo, eles exigiam nível técnico, quatro anos de experiência. Então, encaixou tudo nesse momento. Aí, eu fiz o concurso, passei, passei em décimo segundo lugar. Foram cento e quarenta e poucas pessoas – acho - que passaram. Eu passei em décimo segundo e aí fiquei na expectativa, né? Aí, em julho de 1986 eles me chamaram, em junho eu já tinha dado baixa da marinha. Em questão de 30 dias, em agosto eu fiz exame médico,...
Continuar leituraNome do Projeto: Memória Petrobras
Depoimento de: Neivaldo Escavelo
Entrevistado por: Márcia de Paiva e Ana Maria Bonjour
Local da gravação: Madre de Deus/BA
Data: 07/10/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista: PETRO_CB582
Transcrito por Flávia de Paiva
P/1 – Boa tarde.
R – Boa tarde.
P/1 – Gostaria de começar esta entrevista pedindo que você nos diga o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Neivaldo Escavelo do Amaral. É três de julho de 1965 o nascimento, em Salvador, Bahia.
P/1 – Neivaldo, conta pra gente como foi o seu ingresso na Petrobras.
R – O meu ingresso na Petrobras foi o seguinte: eu servi a Marinha de Guerra do Brasil, né, durante quatro anos. Eu via sempre os rebocadores daqui da Transpetro, fazendo reparo lá. Inclusive, eu que fazia reparo nesses rebocadores lá, quando trabalhava na área de reparo naval. Era marinheiro militar, mas trabalhava nessa função. E daí eu ficava observando aquele pessoal da Petrobras que ia lá no rebocador fazer o serviço, e dizia: “olha, eu ainda vou trabalhar na Petrobras.” E, tanto é que, eu pedi a minha baixa antes de ser promovido. Deixei de ir pra cabo, a minha promoção de cabo da Marinha chegou, e eu desisti de assinar o contrato por mais quatro anos com a Marinha porque a minha intenção era fazer um concurso para ingressar na Petrobras. Isso foi em setembro de 1985. Eu pedi a minha baixa e em fevereiro de 1986, eu fiz o concurso. O concurso único que ainda dava pra pegar, quando abriu, foi pra ajudante. Mandei o meu currículo, eles exigiam nível técnico, quatro anos de experiência. Então, encaixou tudo nesse momento. Aí, eu fiz o concurso, passei, passei em décimo segundo lugar. Foram cento e quarenta e poucas pessoas – acho - que passaram. Eu passei em décimo segundo e aí fiquei na expectativa, né? Aí, em julho de 1986 eles me chamaram, em junho eu já tinha dado baixa da marinha. Em questão de 30 dias, em agosto eu fiz exame médico, fiz exame médico em julho aliás, e em primeiro de agosto eu estava aqui trabalhando, tinha ingressado.
P/1 – E aí como foi o seu primeiro trabalho aqui? Conta um pouquinho como foi.
R – O meu primeiro trabalho, quando eu tive a entrevista com o gerente aqui, ele me perguntou, pelo meu currículo ele verificou que eu trabalhava muito nessa área de reparo, mandrilhando mancais de navio, reparando todos esses trabalhos...
P/1 – Era o que, perdão?
R – Eu trabalhava na mandrilhadora...
P/1 - Mandrilhadora. E isso é o que?
R – Esses mancais que apóiam os eixos dos navios ________, eles sofrem desgaste. Então, eu recuperava tudo aquilo. Os soldadores enchiam os mancais e a gente mandrilhava, ou seja, recuperava para o diâmetro nominal, né, o tamanho normal. Então, quando eu mostrei o meu currículo, o gerente perguntou pra mim se, eu tivesse que carregar chapa, eu carregaria. “Carrego. Até um tanque desses aí, eu tenho que carregar” (risos) Mas o meu primeiro serviço foi na caldeiraria, esmerilhando chapa, mas sempre naquele desejo de dar continuidade a minha profissão que eu tinha, né? E, com dois meses, o contramestre chamado Sergipe, conversando com ele, ele me deu oportunidade. E, com quatro meses de ajudante, eu já estava liderando a equipe de usinagem. Eu já tava com a equipe de mecânicos trabalhando comigo, então, eu já tinha um bom entrosamento com o pessoal.
P/1 – E aí, de lá pra cá, conta um pouco mais da sua trajetória aqui dentro.
R – De lá pra cá, dentro desses três meses, enfrentei logo uma greve, logo de primeira. Até de se estranhar por eu ter sido militar, e a gente saía pra fazer o patrulhamento também, até pra botar ordem nas pessoas fazendo o movimento e tudo isso. E com três meses, a quarto meses, eu participei de uma greve. Eu acho que foi uma coisa, assim, um pouco estranha porque eu era militar...
P/1 – Você já estava sindicalizado?
R – Eu já estava sindicalizado.
P/1 – Desde que entrou?
R – Desde que entrei. O Sindicato foi a primeira coisa que foi feita, pra gente poder estar sindicalizado. Então, nesse período de quatro meses já estava participando do movimento. E aí, acho que eu comecei a perceber que pra gente poder conquistar tem que lutar, né? Aí, comecei a participar junto com meus colegas e foi uma greve boa. Se não me engano, foi uma greve de uns vinte e poucos dias; e eu estive lá fora.
P/1 – Isso em que época mais ou menos? Você se lembra?
R – Em 1986.
P/1 – 1986?
R – Se não me engano, foi em novembro ou uma coisa assim. Final do ano de 1986.
P/1 – Então você mal entrou, já...
R – Mal entrei, já peguei uma greve pela frente. E aí, eu comecei a sentir a necessidade que, as pessoas antes passavam o fato de eu ser militar e eu estar defendendo a ordem. Mas, às vezes, não dava pra entender porque eu nunca tinha passado por aquilo, né? Os militares de uma certa forma, hoje até os militares entram em greve. Mas naquele tempo, os aumentos, principalmente os militares federais, eles já tinham aumento, não tinham nem o que reclamar, às vezes, passavam até da expectativa.
P/1 – E isso ficou como um conflito pra você, assim no início, ou não?
R – Um pouquinho. Porque eu nunca tinha participado assim, né? Mas depois que eu participei da primeira, e vi que, realmente, nós tivemos um resultado, dali por diante eu aprendi que pra gente conquistar tem que lutar.
P/1 – Tomou gosto?
R – Tomei gosto. Aí eu participei, comecei a ser piqueteiro, como dizem aí, né? Parava mesmo, a gente não temia. Parava o carro do superintendente; também de boas maneiras, né? Ia pro superintendente; deixava passar; todas essas posições não sofremos aí.
P/2 – Você chegou a ocupar algum cargo dentro do Sindicato?
R – Não, dentro do Sindicato não. Mas eu trabalhei sempre junto das pessoas que eram membros do Sindicato, tinham cargos, sempre dando apoio. Porque a questão de lutar era nossa também; não era só do Sindicato. Cada um de nós tinha a sua necessidade, tinha, como se diz, esse espírito de luta. O Sindicato é uma organização, onde são os colegas nossos as lideranças de luta. Mas a luta é feita por todos nós. Nós temos que dar apoio pra eles. E eu sempre participei junto assim, com esses líderes. Eu sempre estive ao lado deles, mas cargo mesmo, eu nunca tive não.
P/2 – E tem algum outro momento de luta, sem ser essa greve de 86 que você citou aí, do Sindicato que você se lembra?
R – Tem, todas as outras greves, né? Nós, de uma certa forma, tínhamos um Governo que, diferente totalmente do dos dias de hoje. Hoje, nós temos um Governo em que o cidadão é mais participativo; nós somos ouvidos. Aqui dentro mesmo, nós temos um grupo, um fórum, nessa Petrobras aqui - eu participo dele também – onde nós temos reuniões com os gerentes, conversamos com eles, né? Então, temos esse espaço porque nós conquistamos, também, com essa luta. Esses anos todos, buscamos isso. E, naquele tempo, era meio complicado.
P/2 – E como é, pra você, a relação do Sindicato com a Petrobras?
R – Muito boa. Eles, hoje, têm mais abertura pra conversar, negociar. A base também, os próprios funcionários, hoje, sentem, assim, a gerência mais participativa. Isso aí, acho que é uma grande colaboração do governo que nós temos hoje. Porque, nos Governos anteriores, nós não tínhamos esse espaço. Até no governo do Fernando Henrique, esse espaço pra nós nunca foi oferecido, com toda essa nossa luta. E temos essa conquista e cabe a nós zelar por isso com ordem, decência, sabendo negociar. Muitas pessoas pensam porque o governo é PT, que, às vezes, pode até tentar se aproveitar disso. Só que não há proveito nisso. A ordem tem que continuar. Agora, você tem o quê? Uma condição maior de negociar, né? A participação dos empregados é maior em todos os aspectos.
P/ 2 – Neivaldo, desses seus anos todos de trabalho, conta pra gente uma história marcante ou alguma lembrança que você gostaria de destacar.
R – Tenho, tenho uma lembrança que a Temadre aqui, não abria concurso para mecânico, enquanto que na região, de dois em dois anos, os ajudantes faziam concurso para mecânico. E era uma dificuldade porque eu mesmo fiquei aqui três anos; então, pra você passar a mecânico, teria que fazer concurso. E eles não abriam concurso aqui, você teria que fazer fora, na região. E quando chegava na região, eles não aceitavam o pessoal que vinha de fora, queria só o pessoal deles. Então, ficava esse conflito. Até que surgiu uma oportunidade, eu fiz o concurso para o Gepem, plataforma marítima, né? Eu passei em primeiro lugar nesse concurso. Eu e um outro colega, que passou em segundo lugar. Eram 26 vagas, tinham mais de 600 empregados inscritos, nessa mesma condição. E era interno e externo. Foi um concurso que pegava o pessoal de dentro e de fora; abriu, então, o interno também podia se inscrever. E fiquei naquela expectativa. Quando eu procurei no Gepem, eu tinha mandado a minha carta pra cá e não tinha chegado. E quando fui ver, o 15º empregado já tinha sido chamado e eu não. Eu fiquei muito assim, decepcionado, né? Fui lá em cima, no setor de pessoal e eles disseram que eu já tinha sido promovido a uns três meses atrás, coisa que nunca existiu na Petrobras. O cidadão sabia quando ele seria promovido, mas você ser promovido e saber três meses depois...
P/1 – E aí, qual era a explicação? Por que não te avisaram?
R – Não queriam me liberar.
P/1 – O seu chefe?
R – Não quis me liberar. Disse que a mão-de-obra ele não podia dispensar.
P/1 – Ele que estava boicotando?
R – Isso, juntamente com o setor pessoal. Aí, eu disse pra ele: “olha, se realmente a mão-de-obra é boa, por que vocês fizeram o concurso?” Ele disse: “Não, isso era norma da empresa.” Naquele tempo, a Petrobras tinha esse negócio: aqui é uma norma ali é outra. Aquelas normas, só verbais, né, nada por escrito; então, era uma questão mais pessoal. E daí, fiquei por aqui e estou aqui a 18 anos.
P/1 – Ma aí, você acabou conseguindo a sua promoção?
R – É, porque a promoção foi do concurso. Eu fiz pra mecânico e passei.. Então, eu já era mecânico, só que não era pra cá. Eles me aproveitaram e disseram que não me liberaram porque eu ia ser mecânico aqui. Eles não me promoveram. Disseram que eu já estava como mecânico a uns três meses, quando eu fiz o concurso e passei.
P/1 – E o seu trabalho atual? Fala só um pouquinho do seu dia a dia, como é que é?
R – Hoje eu atuo na área de automação, inclusive com um coordenador muito bom, uma pessoa excelente, bastante humana, responsável, competente, que é o engenheiro Roberto Carlos Ramos. Uma pessoa excelente, um bom coordenador, tem muita visão. E, estou atuando na área de automação.
P/1 – E essa área de automação, explica um pouco pra gente que é de fora, como é.
R – É a motorização dessas válvulas, que os operadores trabalham na área abrindo válvula, não é? E, com a automação, a gente bota o quê? Válvulas motorizadas, ou seja, da sala, através de painel, ele abre, ele controla, ele abre e fecha o que quer tudo da sala, não precisa ir na área fazer esforços manuais, não é? O homem não se envolve mais nesses esforços assim. É mais no painel de controle. Então, nós trabalhamos automatizando tudo isso aí. Levando do campo ao painel, na sala, e de maneira segura. Além de ter essa comodidade, a pessoa não precisa se desgastar muito, tem a segurança do sistema.
P/1 – Tem alguma outra história engraçada, curiosa, interessante que você gostaria de contar?
R – Tenho.
P/1 – Então, conta uma história engraçada.
R – Lá na oficina, naquele tempo antigo, aquele pessoal antigo, né, a uns 18, 15 anos atrás, nessa faixa aí, tinha uma brincadeira lá de jogar saco de água. E, às vezes, tinha uns colegas também que armavam uns saquinhos com farinha, em cima, assim, e quando o cidadão passava, ele puxava, o saco abria e dava um banho de farinha. Era uma confusão danada. Mas era uma turma muito unida. E as brincadeiras eram mais isso aí; a turma se acabava de dar risada, um dava banho no outro.
P/1 – Banho de farinha e de água?
R – De água ou farinha, armavam mesmo. Às vezes você ia passando e aí recebia um saco de água e molhava a roupa toda. E, também, futebol aqui. Futebol aqui no Terminal, eu sempre fui campeão.
P/1 – Vocês tem um time?
R – Eu brinco com a turma aqui, mas o setor de manutenção sempre foi o campeão de todos os torneios que do Terminal. O time era muito bom, sempre tivemos pessoas boas de bola.
P/1 – Neivaldo, eu queria te perguntar também, o que você acha da iniciativa da Petrobras e do Sindicato fazerem esse Projeto Memória e se você gostou de ter participado.
R – Muito bom porque, e felizmente, como eu disse, hoje, como nós temos uma outra visão. O Brasil, hoje, tem um outro rumo em questão de liderança, com o Presidente que nós temos hoje aí. E acho que se o país, a partir do Presidente, começa tomar um rumo, as empresas também. Porque antes, eu sabia de todas essas entrevistas, mas era mais, assim, direcionada às gerencias, pessoas de coordenação gerência. E nós, como empregados, a nossa participação era bem pouca. Um ou outro, que trabalhava bem próximo do gerente, na parte administrativa que estava. E que a construção mesmo da Petrobras, somos todos nós, né, principalmente o homem chão de fábrica: é o mecânico, o eletricista, é o ajudante, é o técnico. Hoje eu estou na situação de técnico em manutenção, mas eu não esqueço. Eu valorizo cada estagiário, cada ajudante, cada contratado; se eu encontro na área, eu trato bem, porque eu já passei um pouco por isso e senti. Hoje eu estou numa situação mais de supervisão, mas eu sei o que é trabalhar porque são o quê? 13 anos na ativa, no trabalho pesado. Eu estou cinco como técnico; diminuiu o esforço físico, mas a responsabilidade aumentou, não é? Mas foi uma iniciativa muito boa porque, acredito, abriu a oportunidade de participação de todos nós. Que gerentes participem, que coordenadores participem, mas que o chão de fábrica participe também, porque são pessoas importantes para o crescimento, principalmente, da nossa Empresa.
P/1 – Tá. Muito obrigada pela sua participação.
R – Tá ok, de nada, disponha.
(fim da entrevista)
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