Um menino escondido na noite
Chovia pouco, então a rua cheirava a terra molhada e a luz do fim de tarde derramava-se como se alguém tivesse aberto um frasco de âmbar. Foi ali, entre a calçada e o último ônibus, que o vi pela primeira vez: um menino pequeno, de cabelos desordenados e olhar velho como quem já viu muitos crepúsculos. Ele parecia escorregar do dia, não fugir, apenas dissolver-se no tom laranja do céu, como se pertencesse àquilo e também a nada.
O menino caminhava devagar, como quem tem pressa de nada, e nele havia a mesma calma que observo quando o sol se inclina para a despedida. Cada passo seu deixava sombras que dançavam ao redor, filigranas que o vento distribuía pelos postes, pelas folhas. Quando a noite veio, ele não gritou, não correu; acomodou-se bem no centro dela, pequeno e quase invisível, e esperou.
À sua volta, a cidade parecia suspirar. As janelas tornavam-se estanques de luz; as vozes, um rumor distante. O menino, com as mãos nos bolsos, olhava para cima, olhava para as estrelas que, uma a uma, acendiam como faróis tímidos. Era no silêncio desse encontro que eu o compreendi melhor: ele não trazia apenas a aparência de criança, mas aquela curiosidade dócil e a honestidade dos pensamentos que se guardam quando tudo se aquieta.
Falamos pouco. Não eram necessárias palavras. Quando ele apontava para uma estrela, eu sentia que me mostrava uma parte da alma que eu costumava esconder. Os pensamentos mais sinceros, aqueles que a pressa do dia varre para debaixo do tapete, vinham à tona. Havia, naquelas conversas mudas, uma espécie de hortus conclusus (jardim fechado): um lugar secreto onde a esperança brotava, discreta e insistente.
As horas passaram. O menino encolhia-se como quem conserva calor, e eu observava o movimento do céu, essa máquina silenciosa que gira e nos oferece a alternância do que perdemos e do que ganhamos. A noite, para ele, era um manto confortável. Para mim, tornou-se espelho. Em...
Continuar leitura
Um menino escondido na noite
Chovia pouco, então a rua cheirava a terra molhada e a luz do fim de tarde derramava-se como se alguém tivesse aberto um frasco de âmbar. Foi ali, entre a calçada e o último ônibus, que o vi pela primeira vez: um menino pequeno, de cabelos desordenados e olhar velho como quem já viu muitos crepúsculos. Ele parecia escorregar do dia, não fugir, apenas dissolver-se no tom laranja do céu, como se pertencesse àquilo e também a nada.
O menino caminhava devagar, como quem tem pressa de nada, e nele havia a mesma calma que observo quando o sol se inclina para a despedida. Cada passo seu deixava sombras que dançavam ao redor, filigranas que o vento distribuía pelos postes, pelas folhas. Quando a noite veio, ele não gritou, não correu; acomodou-se bem no centro dela, pequeno e quase invisível, e esperou.
À sua volta, a cidade parecia suspirar. As janelas tornavam-se estanques de luz; as vozes, um rumor distante. O menino, com as mãos nos bolsos, olhava para cima, olhava para as estrelas que, uma a uma, acendiam como faróis tímidos. Era no silêncio desse encontro que eu o compreendi melhor: ele não trazia apenas a aparência de criança, mas aquela curiosidade dócil e a honestidade dos pensamentos que se guardam quando tudo se aquieta.
Falamos pouco. Não eram necessárias palavras. Quando ele apontava para uma estrela, eu sentia que me mostrava uma parte da alma que eu costumava esconder. Os pensamentos mais sinceros, aqueles que a pressa do dia varre para debaixo do tapete, vinham à tona. Havia, naquelas conversas mudas, uma espécie de hortus conclusus (jardim fechado): um lugar secreto onde a esperança brotava, discreta e insistente.
As horas passaram. O menino encolhia-se como quem conserva calor, e eu observava o movimento do céu, essa máquina silenciosa que gira e nos oferece a alternância do que perdemos e do que ganhamos. A noite, para ele, era um manto confortável. Para mim, tornou-se espelho. Em cada reflexo encontrei perguntas que sempre deixei por responder, sobre partidas, sobre retorno, sobre as coisas que são apenas nossas enquanto as guardamos no escuro.
Quando a madrugada começou a rumorizar no horizonte, o menino sorriu. A primeira luz apareceu como uma promessa sussurrada; uma tênue linha de prata que rasgou o azul. Era como se o mundo acordasse com cuidado, devolvendo cor aos prédios, desenhando novamente os contornos das árvores. O menino levantou-se, esticou o corpo como quem desperta de um longo sono, e naquela pequena rotina havia a elegância de um ritual antigo.
Ele caminhou até o lugar onde o dia nascia, um ponto indistinto no leste, e permaneceu ali, imóvel, observando o astro que retornava. O sol surgiu com uma presença majestosa e maternal, como se não houvesse nada de extraordinário em renascer depois de cada abandono. O menino, então, começou a mudar: a sua sombra encurtou, seu corpo aqueceu, e por um instante tudo nele brilhou com a claridade que vinha do céu. Não era transformação, pensei, era reconhecimento, era a revelação de que cada recomeço nos cabe por inteiro.
Segui-o até o primeiro café aberto. Vi-o entrar e, por um segundo, perdi a noção de qual deles era mais real: o menino que se esgueirava pela noite ou o que agora tomava seu lugar sob a luz do dia. Pedi café, e quando voltei à mesa onde ele estava, já não era o mesmo e, ao mesmo tempo, era exatamente o mesmo. Havia ali a soma das lições que a noite ensinara: que é preciso silenciar para ouvir, e que é preciso ter coragem para reaparecer.
Antes de ir embora, ele olhou para mim e fez um gesto miúdo, quase imperceptível, como se me presenteasse com algo que não cabia em palavras. Percebi, então, que o menino não era só uma figura; era um compasso que marcava uma cadência entre partidas e chegadas. Era o aviso de que cada manhã nos oferece páginas em branco e que, a cada gesto, podemos decidir o que escrever nelas.
Saí pensando no ciclo que nos rege entre a beleza dos crepúsculos e a promessa das auroras, então, senti a companhia do menino como quem carrega um talismã. Talvez ele voltasse ao entardecer, talvez não; talvez todos nós sejamos, em algum tempo, crianças que se escondem para se reencontrar. Caminhei com a sensação de que, enquanto houver horizonte, haverá razão para desaparecer e para reaparecer, e que esse movimento, simples e contínuo, é o que dá ritmo à vida.
Oswaldo C. Macedo
Recolher