Eu tinha por volta de três ou quatro anos. Madrugadinha virando dia, aquele clarão frágil das cinco da manhã entrando pela janela. Eu dormia na mesma cama que minha mãe e uma amiga dela — a mesma amiga que, dias antes, tinha feito um ritual envolvendo sangue e coração de animal. Eu era criança, mas lembro dela deixando o despacho na rua.
Acordei primeiro. Quando abri os olhos, no pé da cama, vi um espírito feito de fumaça escura. A forma lembrava os dementadores de Harry Potter, mas não era igual: ele tinha só o buraco dos olhos e da boca, o resto era sombra densa.
Assustado, comecei a chamar minha mãe. Eu só conseguia repetir: “mãe, bicho, mãe, bicho”. O espírito, tentando me calar, se transformou no desenho que eu mais amava: O Fantástico Mundo de Bob. Ele repetiu a cena do Bob descendo pelo escorrega — exatamente o sonho que eu tinha de viver aquilo.
Mesmo assim eu não parei. Chamei minha mãe ainda mais forte, balancei ela até acordar. No instante em que ela abriu o olho, o espírito desapareceu como fumaça. Ela não viu nada. Disse que não tinha nada ali. Eu voltei a dormir.
Anos depois, continuei relatando tudo exatamente igual. Com o tempo, pela minha insistência, minha mãe passou a acreditar.
Hoje sou formado em teatro, escrevo poesias, textos e músicas, e transformei essa lembrança na canção que leva o mesmo nome — uma música que canta essa história real e está prevista para ser lançada no ano que vem.