O EFEITO COLATERAL DO SILÊNCIO
Cuiabá, agosto de 2024. Sala do CAPS no bairro CPA IV. O atendimento deveria durar exatamente cinquenta minutos. A médica psiquiatra, seguindo o protocolo, me fez aquela velha pergunta cotidiana:
— Como você está se sentindo?
No dia a dia, a gente sabe que ninguém quer mesmo saber a resposta. O balconista da farmácia ou o conhecido que passa por você na rua perguntam por mera convenção social, por educação. Mas naquele dia a doutora perguntou e eu respondi. Desabafei uma hora e vinte minutos que precisavam caber dentro de cinquenta. Quando ela me interrompeu, porque a fila de espera do consultório não parava, guardei os meses restantes de papo psiquiátrico no peito e fui embora. Era a história de uma memória tentando justificar a validade do que eu estava sentindo.
Em outra consulta geral, um médico me questionou:
— Você tem alguma alergia?
— Dipirona. Fico com enjoo.
— Enjoo não é alergia — rebateu ele, rígido.
— Me dê o remédio para ver se eu não o devolvo. Ele bate, causa um desconforto e volta. Meu organismo rejeita. Se isso não for alergia, então defina o que é.
A medicina moderna diz que a alergia é uma resposta exagerada do sistema de defesa contra o que vem de fora. O nome vem do grego: allos (estranho) e ergon (reação). Para o doutor o meu enjoo à dipirona era apenas um efeito colateral. Nada sutil.
— E porque você tem enxaqueca crônica? — ele quis saber.
— Bem, quando eu era criança...
E lá se vai uma hora e vinte minutos tentando explicar porque as coisas são como são.
Após dois anos afastado do trabalho por causa das ideações que giravam sem parar e me roubavam o sono, acumulei três conselhos profissionais. Duas psiquiatras e uma doutora em cultura, diretora e roteirista me deram o mesmo veredito: “Escreva para esvaziar a cabeça”.
Atendi a ordem. E depois de revirar o chão batido de Minas Gerais no primeiro volume, aqui estou eu, aqui está...
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Cuiabá, agosto de 2024. Sala do CAPS no bairro CPA IV. O atendimento deveria durar exatamente cinquenta minutos. A médica psiquiatra, seguindo o protocolo, me fez aquela velha pergunta cotidiana:
— Como você está se sentindo?
No dia a dia, a gente sabe que ninguém quer mesmo saber a resposta. O balconista da farmácia ou o conhecido que passa por você na rua perguntam por mera convenção social, por educação. Mas naquele dia a doutora perguntou e eu respondi. Desabafei uma hora e vinte minutos que precisavam caber dentro de cinquenta. Quando ela me interrompeu, porque a fila de espera do consultório não parava, guardei os meses restantes de papo psiquiátrico no peito e fui embora. Era a história de uma memória tentando justificar a validade do que eu estava sentindo.
Em outra consulta geral, um médico me questionou:
— Você tem alguma alergia?
— Dipirona. Fico com enjoo.
— Enjoo não é alergia — rebateu ele, rígido.
— Me dê o remédio para ver se eu não o devolvo. Ele bate, causa um desconforto e volta. Meu organismo rejeita. Se isso não for alergia, então defina o que é.
A medicina moderna diz que a alergia é uma resposta exagerada do sistema de defesa contra o que vem de fora. O nome vem do grego: allos (estranho) e ergon (reação). Para o doutor o meu enjoo à dipirona era apenas um efeito colateral. Nada sutil.
— E porque você tem enxaqueca crônica? — ele quis saber.
— Bem, quando eu era criança...
E lá se vai uma hora e vinte minutos tentando explicar porque as coisas são como são.
Após dois anos afastado do trabalho por causa das ideações que giravam sem parar e me roubavam o sono, acumulei três conselhos profissionais. Duas psiquiatras e uma doutora em cultura, diretora e roteirista me deram o mesmo veredito: “Escreva para esvaziar a cabeça”.
Atendi a ordem. E depois de revirar o chão batido de Minas Gerais no primeiro volume, aqui estou eu, aqui está você, aqui estamos nós neste segundo calhamaço. Uma reação nada sutil ao estranho mundo de fora. Sejam bem-vindos a Vila Velha, Espírito Santo, 1984.
CAPÍTULO 1
O PRUMO DOS TRILHOS
O trem partiu da estação de Governador Valadares em 1984. Eu já havia trilhado aquela mesma estrada de ferro de Vitória a Minas com meu avô materno, apenas à passeio. Naquela época, o trajeto era leve. Mas agora o prumo era outro. A viagem tinha gravidade definitiva de uma mudança.
Embarcamos na plataforma da estação de Valadares. A locomotiva cuspiu sua fumaça e nos lançou em direção ao horizonte. Conforme os trilhos ganhavam velocidade, se aproximava do pontilhão antes de Derribadinha, me encolho no banco. Por causa do destino adiante, levei a maior surra da minha vida.
Atravessamos o pontilhão de ferro que nos jogou para o outro lado do Rio Doce e ele vai correr rente aos trilhos pelos próximos duzentos quilômetros de pó e incerteza.
As estações iam passando pela janela, desfilando um inventário de paisagens. Primeiro Derribadinha, com a fazenda dos cocos, motivo da maior surra da minha vida. Logo depois Tumiritinga, o chão onde meu avô materno mantivera um sítio e o tempo parecia correr com o trem.
Voando nos trilhos, os vagões nos levaram até a Estação Ferroviária de São Tomé do Rio Doce, onde, cruzando o rio de balsa, alcançava-se a cidade de Galileia; cruzamos a Barra do Cuieté e a movimentada Conselheiro Pena;
Os trilhos rasgaram as terras de Crenaque, o território dos antigos “Botocudos do Leste” ou “aimorés”. Olhando aquela imensidão, pensei em Ailton Krenak, nascido na vizinha Itabirinha. O líder indígena, ambientalista e filósofo que, anos mais tarde, escreveria sobre as Ideias para Adiar o Fim do Mundo, ali encontrava suas próprias raízes, naquela mesma terra firme que o trem cruzava com pressa.
Passamos por Resplendor e Itueta — que décadas depois, em 2006, veria sua geografia mudada com a inauguração da Usina Hidrelétrica de Aimorés;
Foi então que a paisagem nos ofereceu o seu monumento mais imponente: o Rochedo de Pedra Lorena. Aquela gigantesca formação rochosa de granito erguia-se soberana no município de Aimorés, na divisa dos estados, desenhando um contorno místico contra as nuvens carregadas do céu.
Chegamos a Aimorés, a divisa exata de Minas com Espírito Santo. É o ponto geográfico onde o Rio Manhuaçu se une a nós e ao Rio Doce. Foi ali que a minha mãe olhou a paisagem e falou:
— Aqui é a divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo. Lembra que seu pai já morou aqui?
— Lembro — respondi.
Ela pronunciou aquelas palavras com o peso aliviado de quem acreditava que uma vida ruim estava ficando para trás, mas também carregada do sonho secreto de o meu pai entrar naquele trem e nos resgatar daquela viagem. Mas ela se enganava: a vida ruim estava bem guardada, encaixotada junto com nossos pertences no vagão de bagagens daquele trem, e não houve resgate.
Colei o rosto na janela, tentando identificar a casa onde meu pai morou e para onde ele já havia me trazido no passado, para passar os dias sentado na sala comendo bananas. Meus olhos procuram, mas não consegui identificar a construção. O trem acelerou e deixou Aimorés para trás. Minas Gerais ficava para trás. Naquele momento tive a nítida e dolorosa sensação de estar sendo enxotado de Minas. Era como se minha terra me dissesse: “Pegue suas coisas e saia”. Uma curva definitiva escondeu a cidade atrás dos montes mineiros.
Apenas dois quilômetros depois, surgiu no horizonte Baixo Guandu, já em solo capixaba. Continuamos na companhia do Rio Doce, o companheiro mais fiel e silencioso de toda a nossa viagem.
Mais adiante, cruzamos Mascarenhas de Moraes. Pela janela, via-se o comércio efêmero da estação: ambulantes ofereciam biscoito de polvilho, exibidos em balaios de taquara forrados e cobertos com pano de prato, por cinquenta centavos — exatamente o mesmo valor que eu cobrava por uma engraxada de sapatos no Mercado Municipal de Valadares. Olhando pela fresta do vidro, comecei a reparar naquelas pessoas, naquelas vidas ali fora e nas vidas aqui dentro, cada uma ocupando o seu espaço no mundo. Um senhor idoso equilibrava-se com calma em cima de sua bicicleta. Vendo aquela cena, lembrei-me de que eu nunca tive uma bicicleta minha; aprendi a pedalar usando a do meu avô. O brilho nos meus olhos confunde minha mãe e ela me oferece um biscoito. Pego aquele troféu oco e sem peso e tento saciar a inveja das vidas que não são minhas. O barulho do estalo na boca soma-se ao barulho do comércio passageiro, deixando o gosto salgado da falta e a poeira branca nos lábios.
Logo à frente, o Rio Doce sumiu de vista por alguns instantes. Mas não demorou para reaparecer, tranquilo e manso, parecendo correr sem pressa alguma, como se não soubesse ou não se importasse para onde estava indo.
A viagem seguiu por Itapina. Pela janela, avistei sua ponte histórica inacabada — uma promessa iniciada em 1956, dentro do programa de industrialização e modernização do governo Juscelino Kubitschek, que deveria encurtar o caminho até Colatina, mas que restou ali, estagnada no tempo como um esqueleto de concreto sobre as águas. Para disfarçar a incompetência latente em um monumento inacabado, muitos a chamam de ponto turístico, cenário para ensaios fotográficos de quem busca registrar o amor em um local calmo, fora da correria. Afinal, essa ponte não vai a lugar nenhum.
Colatina veio em nossa direção, os morros e as casinhas se movimentando lá fora enquanto o Rio Doce nos deixava seguir sozinhos por causa da região montanhosa. Sem a calmaria das águas, ficamos atentos ao primeiro túnel do trecho, com seus trezentos metros de extensão. A montanha se aproximou rápido demais; por um instante, parecia que o trem ia colidir com o paredão de pedra. De repente, os vagões da frente sumiram na escuridão e o trem penetrou o breu.
Três segundos se passaram até que as luzes internas se acendessem. O barulho lá dentro tornou-se forte, estridente como tambores estalados de alta frequência. Num ritmo enlouquecido, os flanges das rodas do trem sibilavam pelo atrito, roçando metal com metal nas laterais dos trilhos, misturando rolamentos, impactos, clique-claques e tuc-tucs ensurdecedores. Tão rápido quanto sumiu, o céu nos resgatou em sua clara e inevitável aparição. Saímos do interior da terra, mas, seis quilômetros à frente, outro túnel nos aguardava — este maior, de seiscentos metros. Todo aquele som do ferro batendo nos ouvidos repetiu-se nas paredes de pedra por muito mais tempo. Havia pressão, a vibração e velocidade.
Neste momento, imbuído por essa descarga de emoção, longe das terras de Minas e do fantasma do meu pai, pensei que Vila Velha poderia, sim, ser um bom recomeço. Afinal, lá tinha o mar.
Foi então que o rio retornou à janela, manso, como se quisesse nos perguntar se estávamos gostando da viagem e o que achávamos daquelas intervenções humanas na natureza. Em pensamento, respondi:
— Tranquilo, seu Rio! Bom tê-lo de volta.
Mas acho que ele esperava uma resposta mais sincera — não aquela convenção ensaiada de quando nos perguntam, por educação, sobre como estamos. O Rio Doce nos deu as costas de novo, como se estivesse me encarando de cima e dizendo:
— E essa cara suja de pó de minério? E esse cabelo duro, esturricado? Quem você pensa que engana?
Volto o olhar para a janela, e a paisagem que se desenha na ausência do rio vem em minha direção: é deslumbrante. Montanhas imensas e casinhas branquinhas nas colinas deslizam lá fora, bem como anseia a velha canção. Mas as músicas que tocam no meu ouvido enquanto escrevo agora são Ponta de Areia e Tudo Que Você Podia Ser, ditando o ritmo dos trilhos no papel e a imagem do ferro cortando vales e montanhas.
Olho para aquelas vidas distantes que deslizam lá fora e me pergunto: como seria viver assim? Como seria a vida das outras pessoas? À primeira vista, parece tão solitário! Mas, na verdade, pensando bem, deve ser solidário.
O banco era reversível, com um encosto basculante que permitia inverter o sentido da poltrona para o passageiro, o que abria a possibilidade de viajar de costas para o horizonte. Viajando assim, a paisagem demora desaparecer na janela. Quando o vagão tinha poucos passageiros, ou se a família estivesse viajando em quatro pessoas e você desse a sorte de conseguir comprar os números de acentos certos na bilheteria, o prumo da viagem mudava: dava para colocar um banco no sentido da linha e o outro na direção contrária. Criava-se ali um espaço privativo e generoso entre os assentos, permitindo que todos viajassem um de frente para o outro, compartilhando o mesmo quadrado de chão em movimento.
A paisagem se transforma. Surge um lago. Uma lagoa. A Lagoa Pau Gigante. Fico pensando: será que é o gigante do Baratão de Valadares? Passamos por Cavalinho. Logo em seguida, a ponte da Rodovia Governador Mário Covas, a BR 101, surge imponente sobre a ferrovia. Ali vende-se muito queijo. Aliás nesta região das lagoas — Lagoa do Pau Gigante, Lagoa do Limão, do Camargo, do Amarelo, do Batista, lá do outro lado, é onde o rio Doce aproveita pra nos deixar de vez, e segue rumo à Linhares e Aracruz
Uma passarela de pedestres anuncia uma vila e o apito confirma: Vila Nova. Penso comigo mesmo: Oi Vila Nova, estamos indo para a Vila Velha. Outra ponte se projeta — a BR 259 e a BR 101 entrecortam o nosso trilho de ferro, ora passando por baixo, ora cruzando por cima. Quem não tira o rosto da janela sempre carrega aquela curiosidade miúda do que vem a seguir depois de uma curva. Piraqueaçu, João Neiva... cidades que se prenunciam no vagão através de algum monólogo aleatório de alguém que, mesmo viajando sozinho, insiste em dizer a ninguém que vai descer, ajeitando-se com as bagagens. Elas se mostram ao longe, efetivamente, pelo apito premonitório.
O apito do trem anuncia mais uma aproximação: o Túnel. Diz a lenda entre os viajantes que este tem um quilômetro de extensão. A montanha avança em nossa direção e sei que ela não vai se mover dali. A locomotiva se prepara mais uma vez. O som, a sibilância, a bateria descontrolada — aí o seu nome ganha essa conotação exata: louca motiva —, e somos lançados em segundos de trevas ensurdecedoras. A iluminação fraca dos vagões é paliativa e causa apenas um alivio genérico, enquanto os tambores loucos continuam batendo dentro daquela máquina contínua a setenta quilômetros por hora. A velocidade se representa inteira através do som e do balanço irregulares.
Meu coração parece que vai ter uma reunião de emergência com a alma e o corpo. No instante em que combinamos de nos abraçar e gritar — coração, corpo e alma —, a mente intervém e o clarear tímido da tarde finalmente desponta na saída da rocha. O que eu estaria fazendo em Valadares neste exato momento? Será que um dia vou ver meu pai de novo?
Os pensamentos da minha mãe se encontram com os meus através de um reflexo no vidro, e a resposta dela nos olhos é que não. Mãe lê os pensamentos do filho. Um abraço e um aconchego na poltrona... bem que eu queria.
De repente, o cenário limpa. Sem rio, sem túneis. Restam apenas as montanhas capixabas e a vida seguindo o seu rumo.
Ibiraçu surge na janela, trazendo a rodovia ES-257 correndo por baixo de nós. O nosso trem cruza por cima do asfalto, sustentado por um grande viaduto de concreto, uma estrutura maciça e forte o suficiente para aguentar toneladas de aço em movimento.
No calor do vagão, alguém no banco de trás comenta, em tom de mistério, que lá no alto daquelas montanhas verdes e escondidas, os monges vivem em silêncio, num mosteiro budista. Ao ouvir a palavra silêncio, colo o rosto no vidro e tento espiar por entre as copas das árvores, buscando as construções sagradas no topo. Mas o trem corre rápido demais por trás dos vales, guardando o segredo da montanha e dos monges só para ele.
Pedro Palácios desponta na janela, e com ele mais um túnel que rasga a base da rocha, nos aproximando de Fundão. É bem nessa altura que o maquinista aciona o aviso sonoro, ordenando que fechemos as pesadas janelas de metal. O alerta é claro: algumas pessoas costumam ficar na beira da linha esperando a nossa passagem para arremessar pedras contra os vagões.
Com todas as guilhotinas de metal travadas, o interior do trem mergulha novamente no breu. Resta apenas o ronco bruto da locomotiva. De repente, a primeira pedra bate na lataria. Em seguida, outra, e mais muitas. O barulho é seco e assustador. Penso comigo mesmo se aquilo não seria uma espécie de tradição local: quem nunca atirou a primeira pedra que atire a primeira pedra.
Quando o maquinista finalmente libera a abertura das janelas, o ar fresco entra e nos damos conta de que os morros de terra mineiros ficaram há muito tempo para trás. Em vez deles, nos deparamos com os imponentes picos rochosos capixabas, erguendo-se como monstros cercados de plantas rústicas. São os afloramentos de inselbergs e os arbustos resistentes que fazem companhia à densa Mata Atlântica.
Cariacica, Espírito Santo. Sinto o cheiro forte da maré no ar — aquele mesmo odor que meu avô, no passado, havia me garantido que a gente acaba se acostumando.
Depois de uma longa e arrastada chegada — porque os adultos no vagão insistiam em dizer que havia chegado, mas o trem parecia não parar nunca —, alcançamos, enfim, a Estação Pedro Nolasco, erguida ao lado da Segunda Ponte que conecta Vila Velha à ilha de Vitória, a capital. Lá do outro lado, na Ilha do Príncipe, fica a rodoviária.
Descemos do vagão. Nos dirigimos até o setor de bagagens e começamos o trabalho de carregar nossos pertences pelos portões laterais, até a calçada do lado de fora da estação. Ali na frente, misturavam-se alguns caminhõezinhos de frete e carroças de tração animal. Acomodamos a nossa mudança em uma dessas carroças. Alguém seguiu acompanhando os pertences, enquanto o restante de nós caminhou até o ponto na praça de São Torquato para pegar o ônibus de linha.
Minha mente tenta desenhar que éramos eu, a mãe e o Didi. Ou, talvez, o Didi já estivesse lá em Vila Velha nos esperando. Tento buscar o prumo dos fatos e lembro que o Waltinho já havia ido embora muito tempo antes, para morar temporariamente com o meu pai, depois que a mãe o chamou de monstro.
Não estou falando mal da minha mãe, só estou registrando as coisas como elas foram. Na minha memória, a cena se passa na varanda da nossa antiga casa em Governador Valadares. Eu estava em um canto, quieto, apenas escutando a conversa. O Waltinho permanecia em pé do outro lado, encostado na parede, olhando pra baixo, e a mãe, no meio do espaço, esbravejava dizendo que não o aguentava mais, que ele não era gente, que era um monstro. Meu pai, sentado em uma cadeira, chamou o meu irmão para o colo e disse com firmeza: "Você não é um monstro. Você vai morar comigo. Pega as suas coisas".
O pai fez um mapa e deu ao Waltinho orientações e uma nota de quinhentos cruzeiros. Ele foi pra casa do meu tio, irmão do pai, e ficou lá até que a mãe apareceu e tomou o dinheiro dele e ameaçou dizendo que era pra ele voltar pra casa, senão ela voltaria e arrastava ele até em casa — Acho que a mãe tava perdendo a cabeça. O Waltinho não teve escolha, saiu no outro dia cedo, pegou a linha do trem e foi a pé, sessenta quilômetros, andando pela linha do trem, até a estação de São Tomé do Rio Doce, pediu ao barqueiro para atravessar e pelas orientações, chegou à porta do pai. Quando o pai abriu a porta, o Waltinho permitiu ao corpo que desmaiasse. E assim foi o segundo a partir.
O terceiro, o Didi, também já tinha batido asas antes para morar com os tios em solo capixaba. Ele tocava violão muito bem e se enturmava com facilidade em qualquer lugar. Éramos, na verdade, na exata verdade daquele instante, apenas eu e a minha mãe desembarcando daquele trem de ferro. Nossa bagagem resumia-se a um fogão vermelho, uma botija de gás e algumas caixas de papelão com panelas e miudezas. Nossas vidas eram apenas mais uma dessas coisas amarradas na carroça.
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