Seu Orlando como todos os dias, estava de pé, quase na porta de sua padaria...Padaria já bem conhecida em São Paulo, principalmente dos descendentes italianos, no coração do Bixiga.
Na frente era (e ainda é) o estacionamento da padaria, naquela época, meados de 1968, isso era um luxo na cidade. Assim ele viu parar aquele Volkswagen duas cores, cor vinho com rodas brancas, impecável, novo em folha, e sair de lá um jovem senhor, talvez uns 45 anos (naquela época, mais de 40 era quase idoso), que com certeza era mais velho que ele(que tinha 30 anos), mas ainda jovem bem apessoado, de mangas de camisa e paletó, sapatos nos" trinques"! Tipo um "quatrocentão", sabe como é? "Opa! Está chegando um bom cliente!", seu Orlando pensou com seu botões... E logo o "almofadinha" entrou, e começou a pegar tudo o que tinha de bom e de melhor exposto...agitou toda a padaria e empregados! Seu Orlando bem viu que era bem nascido o moço, já que era conhecedor de queijos e vinhos...Que beleza! Uma venda e tanto! O moço muito bem educado, de postura, que falava bem e baixo, foi rápido, certeiro, sem muitas delongas pois sabia bem o que era bom! Encheu uns 4 cestos, e foi ao caixa, pagar ao seu Orlando... Colocou de repente as mãos no bolso do paletó, calças e "puxa...a carteira deve ter ficado no carro!" Naquela época, se comprava a dinheiro! Nem cheque nem cartão... "Mas o que é isso! Sem problemas!" seu Orlando falou..."como a compra está pesada, vou pedir ao atendente levar com vc as compras, e vc volta até aqui para acertar, ou entregue para ele, que é de confiança". E assim foi feito. Seu Orlando estava tranquilo, e chamou um dos seus melhores empregados da padaria para ajudar e acompanhar o moço com as compras até o carro. Deu 5 minutos, e o empregado voltou sozinho e foi indo para o balcão. Seu Orlando perguntou: "e o moço?" "Agradeceu mas nem me deu caixinha, e já se foi..." "Como assim? Ele já foi? E o dinheiro das compras?!" "Sei não, seu...
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Seu Orlando como todos os dias, estava de pé, quase na porta de sua padaria...Padaria já bem conhecida em São Paulo, principalmente dos descendentes italianos, no coração do Bixiga.
Na frente era (e ainda é) o estacionamento da padaria, naquela época, meados de 1968, isso era um luxo na cidade. Assim ele viu parar aquele Volkswagen duas cores, cor vinho com rodas brancas, impecável, novo em folha, e sair de lá um jovem senhor, talvez uns 45 anos (naquela época, mais de 40 era quase idoso), que com certeza era mais velho que ele(que tinha 30 anos), mas ainda jovem bem apessoado, de mangas de camisa e paletó, sapatos nos" trinques"! Tipo um "quatrocentão", sabe como é? "Opa! Está chegando um bom cliente!", seu Orlando pensou com seu botões... E logo o "almofadinha" entrou, e começou a pegar tudo o que tinha de bom e de melhor exposto...agitou toda a padaria e empregados! Seu Orlando bem viu que era bem nascido o moço, já que era conhecedor de queijos e vinhos...Que beleza! Uma venda e tanto! O moço muito bem educado, de postura, que falava bem e baixo, foi rápido, certeiro, sem muitas delongas pois sabia bem o que era bom! Encheu uns 4 cestos, e foi ao caixa, pagar ao seu Orlando... Colocou de repente as mãos no bolso do paletó, calças e "puxa...a carteira deve ter ficado no carro!" Naquela época, se comprava a dinheiro! Nem cheque nem cartão... "Mas o que é isso! Sem problemas!" seu Orlando falou..."como a compra está pesada, vou pedir ao atendente levar com vc as compras, e vc volta até aqui para acertar, ou entregue para ele, que é de confiança". E assim foi feito. Seu Orlando estava tranquilo, e chamou um dos seus melhores empregados da padaria para ajudar e acompanhar o moço com as compras até o carro. Deu 5 minutos, e o empregado voltou sozinho e foi indo para o balcão. Seu Orlando perguntou: "e o moço?" "Agradeceu mas nem me deu caixinha, e já se foi..." "Como assim? Ele já foi? E o dinheiro das compras?!" "Sei não, seu Orlando! Ele só agradeceu e foi embora." "Minha nossa senhora da Achiropita!!!! Não posso acreditar!Que prejuízo! E logo eu, que dificilmente me engano..." Não é possível isso!!!! Saiu rapidamente da padaria, atravessou a rua, mas o carro já não estava lá... Atordoado, aquele dia, seu Orlando nem conseguia pegar no sono à noite, por saber que passaram a perna nele! "Caspita!!!! " Ele pensava...A dona Vilma não se conformava de vê-lo assim tão chateado... E teria que acertar do próprio bolso o prejuízo com os outros sócios da padaria!
Mas o tempo passa, e assim, as noites mal dormidas e os prejuízos se dissolvem no tempo. Mas o que é para ser, é para ser...
Seu Orlando, homem empreendedor e trabalhador, logo depois entrou de sociedade com um amigo numa lanchonete...Já tinha duas filhas, as coisas não eram fáceis..Tinha que trabalhar lá à noite, já que de dia estava na padaria. A lanchonete era pequena, somente com um balcão em U, nem muito conhecida, mas fazia um Cheese salada especial, na praça Carlos Gomes, em frente ao Cine Jóia. A clientela estava aumentando, e seu Orlando, até na chapa ficava... Noite daquelas, eis que entra um homem, de cavanhaque e bem vestido, e pede para o garçom nada menos que 10 X saladas para viagem, mais 5 porções de batatas fritas, 10 hot dogs...queria saber se tinham embalagem para viagem, ao que o garçom respondeu que sim, e pediu um Sundae e uma água enquanto aguardava o pedido.. Seu Orlando estava na chapa, e não no balcão. Logo vem o garçon trazendo aquele pedido enorme...Seu Orlando, curioso, pergunta: "Puxa! Quem foi que pediu? Me mostra!" E quando o garçom aponta...era ele! O almofadinha do Fusca!!! "Ei, vc! Que está fazendo aí? Veio acertar comigo o que me roubou na padaria??? " E o almofadinha, mais do que depressa, saiu correndo da lanchonete, atravessou a praça, e entrou no seu Fusca! O mesmo!!!!!...seu Orlando em disparada atrás...quase pula o balcão, mas não deu...o ronco do motor foi mais rápido, e mais uma vez, o velhaco se safou... Inacreditavelmente, mais uma vez eles tinham que se cruzar! E seria mais um prejuizo! Como era possível!?
São Paulo na verdade era ainda , naquela época, uma cidade pequena... Se nossa senhora Achiropita ajudar, ele há de encontrar novamente esse safado, pensava.
E o tempo passa novamente, provavelmente já mais de um ano, e seu Orlando quase esqueceu da estória...
Mas era um domingo, ele em casa, na Vila Mariana, saiu para comprar carne no açougue perto da casa. Entra, e fica a espera de ser atendido! O açougue estava lotado...e tantas pessoas de costas, mas de repente, ele olha, e quem está lá??? Ele mesmo!!! Pegando várias sacolas de carnes sendo outras levadas por um empregado!!! "Seu Jorge!!! Esse é ladrão!!! " Seu Orlando gritou. E em seguida o tumulto dentro do açougue! "Como assim, Landinho??? O que está acontecendo???", falou o açougueiro. "Esse homem já te pagou???" "Não, ele vai pegar a carteira que esqueceu no carro!" "Esse é ladrão! Me roubou na padaria! Do mesmo jeito!!! Chama a polícia, seu Jorge! Ele quer te roubar!!! Esse cara é um gatuno!!!" E o moço, sem saída, já dizendo...mentira! não devo nada...pode deixar tudo aí que vou buscar a carteira! "Seu Jorge, vai com ele! Se não ele vai fugir!" "Fica aí, Landinho" Calma! Mas não, seu Jorge o acompanha, e ele paga sua conta. E pior, volta ao açougue e diz: " Vc quer me difamar!!! Chama sim a polícia... Como pode falar isso se nem te conheço!!! Chama a polícia, esse homem é louco!" E naquele tumulto e gritaria, eis que chega mesmo a polícia...mas ele pagou a conta, e quem foi fazer um passeio na delegacia, foi seu Orlando... "Oh rapaz! Vamos dar uma volta na delegacia para vc esfriar a cabeça!", diz o policial. E a muvuca se instala! Mais do que depressa, o almofadinha vai embora, e assim, seu Orlando, sangue italiano bravo, fica até vermelho de tanta raiva, acaba na delegacia de polícia, para se acalmar!!! "O senhor , seu guarda, está pegando o cara errado! Ele que é ladrão!" Mas ele pagou, moço. Vamos nos acalmar! Que tristeza! E seu Orlando entra no carro de polícia...
Dona Vilma atende o telefone: "Como assim na delegacia?" "Disseram que tenho q ficar aqui para esfriar a cabeça!" Justo ele, ele que tinha sido enganado, acabou horas lá dentro... Era injusto isso!...ele não podia crer que era ele quem estava lá, falando com os policiais... Horas depois ele sai desnorteado!
Mais uma vez seu caminho cruzou com o daquele homem, e novamente o almofadinha se deu bem... Seja como for, o tempo foi passando, a cidade crescendo, e os negócios do seu Orlando indo bem...
Meses depois, seu Orlando saiu tarde da padaria...já era noite, mas um padeiro tinha faltado, e ele teve que ficar lá. Tudo tinha que estar certo para as entregas aos restaurantes no dia seguinte. E agora, ele não estava mais na lanchonete. Sobrava pouco tempo para descansar e ficar com a família. Devia ser mais de 10 da noite, cansado e com fome, foi até o restaurante bem ao lado da padaria (Restaurante Mexilhão, que existe até hoje)...depois de um dia longo e exaustivo, ir até lá tomar um copo de cerveja com seu Antonio, antes de ir para casa ia cair bem... Entra, e vai se dirigindo ao caixa, onde seu Antonio estava...vê uma mesa grande, vários homens sentados, jantando, e eis que...quem ele vê??? Ele mesmo...o almofadinha!!! Não, não era possível! Era muita cara de pau o infeliz estar no restaurante ao lado da sua padaria!!! Sim, claro! As portas da padaria fecham às 20h...já eram mais de 10 da noite...quem poderia imaginar?
Seu Orlando não teve dúvidas...o sangue italiano ferveu e não o deixou nem pensar! Se aproximou da mesa e pergunta: "é aqui seu próximo calote? Seu Antonio...muito cuidado!!!! Esse é o homem que me roubou na padaria, que queria me enganar na lanchonete, e ia dar o golpe no açougue! Este é o gatuno que te contei!" "Landinho, calma!" "Calma nada! Esse é um cara de pau! Malandro! Gatuno!" E claro, o restaurante inteiro já olhando para aquele fusuê! Mas desta vez, o almofadinha se levanta e diz: "Quanto é que fiquei te devendo??? Vou pagar agora, pois não aguento mais te encontrar! Vc está prejudicando minha vida! Diga quanto é que te devo! Quanto foi ???" e seu Orlando fala, e ele tira a carteira recheada de dinheiro, e pagou...
Seu Orlando pegou o dinheiro , e saiu do restaurante sob o olhar de todos que lá estavam, mas satisfeito, como nunca antes!
E a história deles, termina por aqui... Seu Orlando hoje tem quase 78 anos, 3 filhas, Andrea, Paula, Juliana, 3 netos, Luca, Matteo e Sofia, mas dona Vilma ano passado se foi.
Depois daquilo, ele nunca mais cruzou com o almofadinha e nunca soube seu nome.
A padaria, Basilicata, existe no mesmo endereço, tem 102 anos, e ainda é da família.
E quem conta agora esta história sou eu, Andrea Rinaldis Laurenti Magri, sua filha mais velha.
Obrigada!
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