Ópera Urbana
Entrevistado por Cláudia Leonor
Depoimento de Francisco Capuano Scarlato
São Paulo 05/08/2009
Realização Museu da Pessoa
Entrevista OPCN_CB017
Transcrito por Keila Barbosa
P/1 – Senhor Francisco, eu vou pedir para o senhor falar o seu nome completo, o local e a data de nascimento.
R – Francisco Capuano Scarlato. Nasci em São Paulo, no Bairro do Bixiga, e tenho hoje, nasci em 39, estou com 70 anos.
P/1 – E o senhor cresceu no Bixiga, o senhor falou que o senhor é “Bixiguento”, como é que é isso, o senhor falou isso?
R – Nasci no Bixiga... É realmente hoje quando se fala do Bixiga, é uma forma irônica de falar, principalmente em função da presença da cultura italiana, do povo italiano que ocupou a maior parte daquele bairro, entendeu?
P/1 – E o senhor é descendente de italiano?
R – Sou, sou descendente de italiano.
P/1 – Quem que veio para o Brasil?
R – Meus avós... Meus avós.
P/1 – E o que o senhor...não, pode falar...
R – Não...
P/1 – Não, o senhor ia completar.
R – Eu ia colocar que, quando eu nasci, e quando criança, o Bixiga, na rua, a gente só se ouvia falar em italiano. A língua, praticamente, que se falava no bairro era o italiano.
P/1 – Era, né?
R – Então... já que você vai perguntar sobre a Avenida Paulista (risos)... a Avenida Paulista foi sempre um divisor de duas São Paulo: a São Paulo antiga, que se estendia do Bixiga até o Centro, e a nova São Paulo, que descia pelas ladeiras aí dos Jardins, em direção ao Vale dos Pinheiros. E ela sempre teve, a Avenida Paulista, um marco simbólico de ter sido sempre representativa da, vamos assim dizer, do poder, da nobreza.
P/1 – Da nobreza e do poder econômico...
R – Da nobreza e do poder econômico. Começou como sede da aristocracia, com os grandes casarões, e depois são derrubados para se instalarem os bancos. Então ela teve uma vocação de nobreza, quer dizer, colocando “nobreza”, entre aspas, (risos)...
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Ópera Urbana
Entrevistado por Cláudia Leonor
Depoimento de Francisco Capuano Scarlato
São Paulo 05/08/2009
Realização Museu da Pessoa
Entrevista OPCN_CB017
Transcrito por Keila Barbosa
P/1 – Senhor Francisco, eu vou pedir para o senhor falar o seu nome completo, o local e a data de nascimento.
R – Francisco Capuano Scarlato. Nasci em São Paulo, no Bairro do Bixiga, e tenho hoje, nasci em 39, estou com 70 anos.
P/1 – E o senhor cresceu no Bixiga, o senhor falou que o senhor é “Bixiguento”, como é que é isso, o senhor falou isso?
R – Nasci no Bixiga... É realmente hoje quando se fala do Bixiga, é uma forma irônica de falar, principalmente em função da presença da cultura italiana, do povo italiano que ocupou a maior parte daquele bairro, entendeu?
P/1 – E o senhor é descendente de italiano?
R – Sou, sou descendente de italiano.
P/1 – Quem que veio para o Brasil?
R – Meus avós... Meus avós.
P/1 – E o que o senhor...não, pode falar...
R – Não...
P/1 – Não, o senhor ia completar.
R – Eu ia colocar que, quando eu nasci, e quando criança, o Bixiga, na rua, a gente só se ouvia falar em italiano. A língua, praticamente, que se falava no bairro era o italiano.
P/1 – Era, né?
R – Então... já que você vai perguntar sobre a Avenida Paulista (risos)... a Avenida Paulista foi sempre um divisor de duas São Paulo: a São Paulo antiga, que se estendia do Bixiga até o Centro, e a nova São Paulo, que descia pelas ladeiras aí dos Jardins, em direção ao Vale dos Pinheiros. E ela sempre teve, a Avenida Paulista, um marco simbólico de ter sido sempre representativa da, vamos assim dizer, do poder, da nobreza.
P/1 – Da nobreza e do poder econômico...
R – Da nobreza e do poder econômico. Começou como sede da aristocracia, com os grandes casarões, e depois são derrubados para se instalarem os bancos. Então ela teve uma vocação de nobreza, quer dizer, colocando “nobreza”, entre aspas, (risos) correto? Então, o que mais me impressiona, neste momento, eu costumo dizer que às vezes eu passo pela Paulista, para tentar me lembrar do silêncio da Paulista.
P/1 – Nessa época dos casarões?
R – Dos casarões, que eu e o meu avô, aos domingos, nós costumávamos vir passear, saíamos do Bixiga, para vir passear na Avenida Paulista, que ela era muito bonita. Os casarões, com aqueles jardins enormes, poucos carros... a Avenida Paulista era uma Avenida dos moradores, ela não era uma Avenida de trânsito para ligar nenhuma parte da cidade.
P/1 – O senhor se recorda quando que ela começou a mudar de aspecto?
R – Olha, na verdade a mudança da Paulista, ela está muito associada à mudança da Metrópole de São Paulo, quando o Centro antigo começou a se estagnar, quando ele começou a não comportar mais as funções do novo capital, do novo dinamismo de uma cidade que se industrializava, se transformava, na verdade, na cidade do café, a cidade de indústria, foi mais ou menos no final dos anos 50, que o centro antigo esclerosou; então tinha que se procurar um novo centro, que comportasse as funções financeiras, e aí começa, eu me lembro, inclusive, da construção da Avenida, quando ela começa a sofrer todo aquele desmonte, para se fazer a Paulista de hoje.
P/1 – Maravilha, me fala uma coisa, hoje o que o senhor mais gosta da Avenida Paulista?
R – Olha, a Paulista pra mim, eu gosto de São Paulo como um todo, amo o centro histórico, mas a Paulista, para mim, simboliza a modernidade, o dinamismo, sem bairrismo nenhum, mas o dinamismo e a vitalidade de São Paulo, entendeu? Essa é uma artéria que foi o sangue da vitalidade de São Paulo.
P/1 – Eu queria que o senhor deixasse registrado, o senhor tem dois livros sobre a cidade de São Paulo, né?
R – Tenho.
P/1 – Eu queria que o senhor falasse um pouquinho sobre isso.
R – O primeiro foi sobre a... justamente essa metamorfose que o automóvel trouxe para a cidade de São Paulo, foi o grande projeto de reurbanização, que aconteceu nos anos 50 porque houve um desmonte geral da cidade. Então o meu livro trata do automóvel e a metropolização de São Paulo.
P/1 – Qual o título do livro?
R – É... “A Metrópole e a Transformação Gerada pelo Automóvel”, e o segundo foi sobre o Bairro do Bixiga que o título é “Autofagia e Renovação Urbana do Bairro”, que mostra, que nesse processo, o Bairro acabou sendo devorado, entende, absorvido por todo esse dinamismo de modernização, e o italianismo e a italianidade do Bixiga foi pro ar (risos), entendeu?
P/1 – Maravilha, muito obrigada pela entrevista do senhor.
R – De nada.
P/1 – Foi muito bacana.
R – Foi uma satisfação, sim, porque quando se fala de São Paulo, eu quero estar presente.
P/1 – (risos) Maravilha...
R – Tá bom?
P/1 – Nossa...
(FINAL)
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