Projeto Memórias das Águas: Rios e Ruas
Entrevista de Adriano Oliveira Sampaio
Entrevistado por Bruna Oliveira (P/1), Levi Andrade (P/2) Teresa de Carvalho (P/3)
São Paulo, 25 de maio de 2026.
Entrevista N° RIO_HV006
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Adyel Beatriz
Revisada e editado por Levi Andrade
[00:32] P/1 – Gostaria que você dissesse os nomes dos seus pais.
R – Meu pai se chama Walter Miranda Sampaio e minha mãe, Oliveira Sampaio.
[00:32] P/1 – Como você descreveria seus pais?
R – Meu pai é uma pessoa que teve que abandonar as origens. Ele e minha mãe nasceram em Jacobina, na Chapada Diamantina, na Bahia, e vieram para cá tentar a vida. Meu pai começou cedo a trabalhar num clube — o Palmeiras. Foi o único emprego dele a vida inteira: trabalhou 51 anos lá. Vejo meu pai como uma pessoa que trabalhou muito e que conseguiu construir uma vida aqui em São Paulo, mesmo vindo de uma região onde não havia muita oportunidade. Conseguiu se estabelecer e nos dar uma boa criação, apesar das dificuldades — no começo a gente era muito pobre. Mas ele conseguiu construir uma vida bacana aqui. Tenho muito orgulho, porque meu pai sempre me levou para a natureza, para o contato com ela. Me levava para pescar na Represa Guarapiranga, me levava para pescar em rios selvagens no Vale do Ribeira. Tenho muito essa lembrança. A gente ia todo ano para Jacobina visitar os meus avós. Meu avô é descendente de indígena — ele fazia redes de pescar e tarrafas, é filho de indígena, dos payayás [povo indígena do sertão baiano]. Então tenho também essa parte indígena na minha família, que é muito bonita e que valorizo muito. Minha mãe era uma pessoa tranquila, caseira. Era manicure por um bom tempo e gostava muito da natureza também. Minha casa tinha muitas plantas — minha mãe gostava de explorar a natureza atrás de plantas, orquídeas. Essa lembrança que tenho muito dela é esse cuidado, esse amor que ela tinha pelas plantas. Minha casa era muito cheia de plantas de todo tipo. Ela fazia muitos remédios caseiros, sempre trouxe muito isso dos povos indígenas, de fazer o próprio remédio em casa.
[03:21] P/1 – Você é filho único?
R – Não, tenho uma irmã…
P/1 – Mais velha?
R – … mais nova, dois anos. O nome dela é Adriana Oliveira Sampaio. Meu pai não foi muito criativo na hora de colocar nome — não sei por que nos chamou de Adriano e Adriana.
[03:51] P/1 – Me conta como seus pais se conheceram.
R – Se conheceram lá na Chapada. Depois meu pai veio para cá, ficou aquele namoro à distância, até que minha mãe veio para cá e eles se casaram em 1970. Eu nasci em 1971.
[04:02] P/1 – Você contou que ia todo ano a Jacobina visitar os avós. Como foi essa convivência com eles?
R – Sim, convivi com eles. Meu avô materno inclusive fez uma tarrafa para mim, porque eu gostava da água — passava um rio na frente da casa dos meus avós, chamado Rio do Ouro. Sempre vendo meu avô fazendo redes, eu queria ser igual a ele, pescador. Tinha uns 7, 8 anos. Peguei uma rede de embalar limão, dois pauzinhos, e fui ao riacho tentar armar essa redinha num lugar raso com pedras. Fui mais tarde ver: havia duas piabinhas e uma traíra pequenininha. Mostrei ao meu avô. Quando ele viu que eu havia conseguido pegar peixe com aquela redinha tão pequena, fez para mim uma tarrafa menor do que as de adulto, para uma criança daquele tamanho aprender a pescar jogando tarrafa. E no quintal da minha avó havia uma nascente, um olho d'água. Eu ia lá brincar — era minha diversão. Fazia uns lagos pequeninhos, colocava girino, peixinho, gostava de ver aquela água correndo. Tenho essa lembrança de ficar pegando peixinhos e girinos e colocando nesses lagos. As plantas da minha avó também lembro muito — um monte de planta. Essa é a lembrança que tenho do meu avô, da Chapada Diamantina, lugar onde também morei um tempo depois, quando tinha uns 20 e poucos anos.
[06:29] P/1 – Você contou que visitava a Chapada quando criança e depois foi morar lá. Havia diferença?
R – A diferença foi viver lá mesmo. Foi muito marcante aquela época — 1992 e 1993 —, porque foi a pior seca do século no sertão. Aprendi lá a dar um valor diferente para a água. A seca foi tão grave que as pessoas estavam indo embora e todas as estradas tinham cheiro de gado morto, porque não havia água para a criação de animais. A água que havia, a prioridade era para beber e cozinhar. Para o banho, tinha que ser de caneco, com a água tirada do poço. E essa mesma água do banho a gente ainda aproveitava para lavar o quintal, tamanha era a escassez. Meu pai tinha uma terra lá e não faltava água, mesmo com aquela crise hídrica. Ele fazia captação de água do riacho, construiu reservatórios e nunca faltou. E havia uma fartura grande de frutas: manga, umbu, caju, acerola, coco. Quando tem fartura lá de frutas é muita coisa mesmo. Lembro disso — que mesmo num lugar relativamente pobre, a gente tinha fartura de comida plantada pela gente, criação de galinha, pescaria. Muita coisa tirada da própria terra. Era muito bacano o sistema que meu pai fez de captação de água e depois irrigação por gotejamento. Convivi com isso também. A escassez de água eu vejo como uma coisa criada pela gente mesmo, quando não cuida dela, quando não tem um cuidado especial com esse elemento que, na minha opinião, é o mais importante da natureza.
[09:20] P/1 – Como era essa relação com a água na infância?
R – Meu pai sempre me levava para lugares onde havia natureza e água, para pescar, para tomar banho de rio. Às vezes a gente ficava acampado vários dias na frente de algum rio do Vale do Ribeira. À noite só via a fogueira acesa a noite inteira, por causa dos bichos — onde a gente estava havia perigo até de onça, no meio da Mata Atlântica fechada. Gostava muito dessas aventuras, de ficar vários dias na beira do rio, pescando, em contato com a natureza bem isolada. Só eu, meu pai, os amigos dele e aquela natureza exuberante. A gente acampava debaixo de uma árvore centenária cujo tronco era enorme. Quando ia para a Bahia, para a Chapada Diamantina, o contato com a natureza e com a água também era grande. Passava um rio na porta da casa dos meus avós e na terra do meu pai também havia um rio. Tanto que na primeira vez que entrei no rio, com aquela redinha de embalar limão, me contaminei com esquistossomose [doença causada por parasitas presentes em águas contaminadas]. Falo para todo mundo que quando entrei no rio fui literalmente contaminado. Foi a única vez que fiquei internado, dois ou três dias, com 7, 8 anos. Organismo pequeno para uma doença tão forte, mas me curei.
[11:41] P/1 – Depois ficou com medo de entrar no rio?
R – Não, nunca. Essa ligação com rios, lagoas, sempre foi forte para mim. Sempre gostei muito. Tanto que tinha aquário em casa. Sempre fui conectado com essa coisa da água, a vida toda.
[12:10] P/1 – Tem algum cheiro, algum sabor ou um lugar que você traduza como o lugar da sua infância?
R – A Represa Guarapiranga. Lembro muito dela, ficava esperando o dia de ir lá. Aquele cheiro da natureza, o cheiro do lugar onde há um rio — das árvores, das folhas, das flores.
[13:05] P/1 – Como era quando vocês iam para a represa?
R – A família toda no fusquinha do meu pai. A gente atravessava São Paulo até a zona sul, porque onde meu pai trabalhava, no Palmeiras, havia um clube de campo na beira da Guarapiranga. Às vezes a gente ficava dias lá. Houve uma ocasião que me marcou muito: vi dois peixes na beira da água, dois mandis [peixes de água doce com ferrão venenoso]. Não sabia que esse peixe tem ferrão. Vi eles tão fáceis na beira do rio e fui pegar — um me ferroou. Meu dedo ficou três vezes o tamanho normal. Fiquei apavorado, a dor é horrível. Fui ser medicado. São essas coisas da própria natureza — a gente tem que aprender a lidar e a respeitar.
[14:29] P/1 – Onde você morava na infância?
R – Nasci na Pompeia. Morei lá até 2013, 2014. Toda a minha infância, juventude e uma parte da vida adulta foi lá no bairro da Pompeia, antes da especulação imobiliária.
[14:40] P/3 – Havia nascentes, você tinha contato com as águas na Pompeia?
R – Sim. Na minha rua havia uma bica d'água de uma nascente que nascia na frente de uma igreja. Todo mundo do bairro bebia água lá. Quando éramos moleques empinando pipa e dava sede, a gente ia beber água lá — sabia que aquela água era boa, porque vinha gente de longe para buscar aquela água, encher galão e levar embora. Aquela bica ficava correndo 24 horas, e está lá até hoje. E eu sabia que havia um rio ali, canalizado, que quando chovia muito aparecia. Mas não sabia qual era. Todo mundo falava 'o Riozinho'. O nome Rio Água Preta eu vim a saber depois, através de consultas de mapas e de amigos.
[15:52] P/1 – O que você gostava de fazer na infância, além do contato com a natureza?
R – Quando era muito criança — 7, 8, 9 anos — gostava de jogar bola, empinar pipa. Vendia coisas: vendia gelinho, que minha mãe fazia, com um isopor na feira. Vendia revistas em quadrinhos de gibi que eu colecionava. Era um moleque de família pobre naquela época, que se virava para ter um dinheirinho. Para comprar minha linha e minha pipa, eu tinha que arrumar um meio. Trabalhei alguns anos em feira livre, com 9, 10 anos, numa barraca de frutas. Gostava da feira, era um lugar onde podia ganhar meu troco, fazia carreto para as senhoras — ajudava a levar as sacolas até a porta da casa. Depois comecei a trabalhar em pizzaria, de entregador, e depois entrei num banco. Com 16 anos entrei no Banco do Brasil como menor auxiliar de serviços gerais. Ah, gostava muito de empinar pipa. Tinha uma turma grande de amigos. Era bem moleque danado mesmo — a rua era a minha casa. Chegava com o pé preto em casa. Jogava bola em terreno baldio, subia no telhado dos vizinhos para pegar pipa, quebrava telha. Quando chegavam as férias era pipa 24 horas. Empinava durante o dia e à noite ficava fazendo, afiando o bambu — a pipa não vinha pronta, tinha que pegar o bambu, afiar, confeccionar. Soltava balão também. Coisas de moleque de rua, que naquela época ficava mais na rua, conhecia os moleques da outra rua, tinha um time de futebol em cada rua.
[19:39] P/1 – Me conta um pouco dessa vida de rua.
R – Tinha um cara na minha rua que todo mundo tinha medo, que havia passado pela Febem [Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor]. Eu mesmo tinha medo. Mas se eu apanhasse e chegasse em casa e falasse para o meu pai, ele falava: 'Volta lá e enfrenta.' Então para mim era isso — eu tinha que enfrentar. Nunca mais mexiam comigo depois. Era assim a vida de moleque de rua, para sobreviver na rua. Minha mãe tinha que trabalhar muito, meu pai também. A liberdade naquela época era maior. Lembro que bem cedo, com 7 anos, já andava na rua. A gente ficava na porta de um bar por causa de um time de várzea, de futebol de várzea. Os adultos quando tinham jogo levavam toda a molecada para os campos de várzea espalhados pela cidade de São Paulo. Às vezes tinha briga no campo. Era um tempo bem diferente.
[21:58] P/1 – Você mencionou que está aqui com os indígenas há algum tempo. Como isso se conecta com o que você vivia antes?
R – Quando a gente quer levar uma vida alternativa, sair fora desse sistema, é muito difícil. Encontro um pouco disso aqui com os indígenas — esse modo de vida diferente. Por isso estou aqui com eles há algum tempo, para aprender mesmo sobre isso, levar um modo de vida diferente. E a simplicidade deles, a humildade — gosto muito disso também, que me lembra um pouco de como as pessoas eram na minha infância. Hoje a gente vê muita ostentação, muito consumismo. Aqui não.
[22:53] P/1 – Como era a relação com a sua irmã na infância?
R – Era boa. Brincávamos juntos às vezes, mas não muitas. Minha irmã era um pouco mais protegida, como mulher. Eu era mais solto, mais desbravador.
[23:52] P/1 – Você contou sobre o futebol de Várzea. Seu pai trabalhava no Palmeiras — como era o futebol na sua casa?
R – Por causa do meu pai, tinha um gosto pelo Palmeiras, o clube onde ele trabalhava. Então você acaba torcendo. E por causa disso a gente sempre estava no clube em festas para os funcionários. Eu lembro que não tinha muito brinquedo quando era criança — os brinquedos eram os que eu mesmo fazia. Mas o único brinquedo que eu recebia era na festa de fim de ano dos funcionários do clube. Ficava feliz. A maioria dos brinquedos que eu mais gostava eram os que eu fazia: carrinho de rolimã, pinball de madeira — que naquela época era uma febre —, jogos com bolinha, elástico. Brincadeiras mais lúdicas. Subir em árvore, pegar goiaba, explorar terreno baldio, entrar em casa abandonada. Gostava muito de fazer essas coisas.
[25:41] P/1 – Tinha alguma coisa que você queria ser quando fosse adulto?
R – Não, deixei a vida me levar. Não pensava muito nisso. Trabalhei na área comercial muitos anos — fui corretor da Amil [empresa de planos de saúde] e cheguei a ser um dos melhores corretores do Brasil. Foi quando consegui comprar meu apartamento e uma casa para minha filha. Não tinha nada antes. Quando comecei a ganhar dinheiro, a primeira coisa foi comprar um teto, porque lembro da luta do meu pai para comprar a primeira casa dele, com quase 50 anos. No começo morávamos num quintal com várias casas, tipo um cortiço. Lembro do cheiro das comidas de cada casa — você falou sobre cheiro e me lembrei disso. Cada casa tinha um cheiro gostoso, diferente. E havia aquela coisa de comer na casa dos outros, que não existe mais hoje. Só faço isso aqui na aldeia. Que eu tomo café em casa, se eu passar em três casas aqui, vou tomar café nas três, porque eles vão dizer: 'Come aí, come aí'.
[27:47] P/1 – Como foi a escola para você?
R – Foi bom. Mas sofri muito bullying — talvez porque minha escola ficava num bairro mais de rico, apesar de ser escola pública. Mas eu era um moleque que não era quieto. Fui um bom aluno no ensino fundamental.
[29:02] P/1 – Como foi esse começo da vida de trabalho, quando ficou mais profissional, com carteira assinada?
R – Com 15 anos entrei no banco e assinei minha primeira carteira CLT. Trabalhei até 2001 como CLT — sete anos em bancos, depois uns 17 ou 18 anos como corretor de seguros. Em 2013 estava meio cansado da área de vendas. Havia chegado ao ápice, mas depois as regras mudaram, as empresas de saúde recebiam muita reclamação do Procon, e eu já não me sentia bem vendendo algo cuja idoneidade eu questionava. Dava um dinheiro bom, mas não me sentia bem. Aí comecei a migrar aos poucos. Comecei a participar de uma horta comunitária na minha rua. Depois de dois, três meses, com a ideia de ocupar os espaços públicos, formamos um grupo e descobri uma praça com nascente.
[30:35] P/1 – O que aconteceu quando você começou a mexer com a nascente?
R – Quando comecei a mexer com a nascente, voltaram na minha cabeça todos aqueles pensamentos de quando era criança — vendo a nascente no quintal da minha avó, vendo meu pai fazer captação de água. Pareceu que era um chamado. Comecei a sonhar com a água. Tinha sonhos muito vívidos: andava na beira do rio, olhava para ele, via os peixes na superfície tentando respirar com dificuldade. Ficava desesperado. Tive outro sonho em que na praça da nascente estavam captando água porque a da Sabesp havia acabado, e eu via vários prédios futurísticos ao redor — como se no futuro a gente voltasse a captar a água dos nossos rios. Também sonhei com lugares onde eu não sabia que havia rios. Sonhei com o estacionamento de uma padaria e vi um rio no lugar — onde o asfalto estava, eu via o rio. Perguntei depois a um amigo geógrafo, e ele confirmou que o rio passava exatamente ali. Quando cheguei à aldeia em 2014 e conversei com o pajé sobre esses sonhos, ele disse: 'Isso não é somente um sonho, é um chamado. É um caminho que você tem que seguir.' E ele falou: 'Se você for por esse caminho, os rios não vão te deixar faltar nada, vão te dar tudo na vida.' Eu guardei muito isso.
[32:39] P/1 – Como surgiu o trabalho com as nascentes?
R – Criei uma iniciativa no Facebook chamada Existe Água em SP e comecei a mostrar as nascentes da cidade — em tudo que é lugar fazia um vídeo curto, bem amador, e jogava na internet. O primeiro vídeo que fiz deu 500 compartilhamentos e 100 mil visualizações. Mostrei um riacho aqui no bairro com água limpa e falei: 'Olha quanta água limpa, e dizem que está faltando água'. Aquilo chamou atenção. Aí vieram jornalistas de vários lugares, até uma TV da China veio me entrevistar. Ao mesmo tempo que identificava nascentes, comecei a fazer intervenções nelas. Sem dinheiro nenhum, comecei a montar micro-ecossistemas, lagos com peixes e plantas, para chamar atenção para a questão da água. No início sem ganhar nada. Depois virou um trabalho — escolas começaram a me chamar para educação ambiental, fiz um curso de permacultura, comecei a trabalhar com projetos de recuperação de nascentes, não só em aldeia, mas na cidade. E também em aldeia fora de São Paulo, com os Kariri-Xocó [povo indígena de Alagoas], no interior de Alagoas. E aqui com os Guarani, fazendo o desassoreamento do riacho. Foi aí que se formou meu trabalho de verdade, virando algo mais sério.
[35:45] P/1 – Como você aprendeu esse trabalho de recuperação de rios?
R – Muito na prática. Aprendo mais na prática do que na teoria. Comecei pela prática primeiro e depois fui fazer os cursos — de plantas aquáticas, de permacultura. Quando comecei a fazer os cursos, já tinha uma base de prática muito grande, de mexer mesmo com rios e pequenos riachos, que é o forte do meu trabalho. Igual aqui na aldeia: estamos no começo de um projeto para desassorear todo esse rio até o fim e substituir os eucaliptos por mata nativa. Estamos buscando editais, trabalhando em parceria com outras pessoas — com os indígenas e com pessoas de fora, como a Riciane…, e a Suerda Deboa, do território do Jaraguá, que faz a gestão de um centro cultural chamado Morada de Jaraguá. Fui criando essa conexão com essas pessoas desde quando cheguei aqui e enxerguei o potencial de trabalho, de regeneração, de renaturalização. O potencial hídrico que há aqui é enorme — é uma caixa d'água.
[37:12] P/1 – Como você vê a relação das pessoas com a natureza na cidade?
R – Mesmo numa cidade tão urbanizada como São Paulo ela tem um potencial de natureza — a natureza está aí, a gente vê vários sinais de que está presente na nossa vida, mesmo que pouco, por causa das poucas áreas verdes. O que eu vejo através disso é que o afastamento da natureza deixa as pessoas muito doentes, e elas nem sabem que estão doentes. Muitos dos problemas mentais que acometem as pessoas estão muito conectados a isso, a essa falta de natureza na vida. Porque a gente é natureza — precisamos da terra, precisamos respirar este ar. Conforme as pessoas foram vindo da zona rural para a cidade e criando seus filhos na urbanidade, foi se perdendo isso. Tem gente que tem nojo de lama, de barro, de terra. Eu moro num bairro próximo das aldeias e vejo o preconceito muito grande que as pessoas da cidade têm com os indígenas. Falam 'índio sujo'. Não, isso não é sujo — é a terra, é a nossa mãe. Eu ando igual a eles no dia a dia, com lama no óculos, com barro em tudo. Não estou sujo: isso aqui é terra em mim.
[40:25] P/3 – Você contou que começou a ir para a horta e depois descobriu o parque das nascentes. O que fez você pensar nesse movimento de se ligar a essas iniciativas? Qual foi o ponto de virada?
R – Foi justamente encontrar a nascente lá na praça e entender dentro de mim — e até espiritualmente — que isso era um chamado. Depois que comecei a frequentar a aldeia, comecei a me entender melhor. Para mim não é só um trabalho, é uma coisa muito maior. A causa indígena e a questão dos rios e das nascentes é um motor da minha vida. É o que me movimenta, o que me faz sentir vivo e me dá sentido. O mais importante é que estou fazendo o que gosto. Nesses doze anos que estou aqui aconteceu muita coisa. Me envolvi não só com a questão da natureza, mas com a luta dos povos indígenas. Morei uma época aqui em 2017. Quando morei aqui, pude participar da luta dos Guarani quando subiram na antena e desligaram os sinais de TV, porque o governo estadual queria cancelar a demarcação. Fui testemunha. Subimos pela mata, os guerreiros. Isso é muito marcante para mim — ter participado como apoiador e como testemunha.
[43:01] P/1 – Como você enxerga o papel do trabalho que desenvolveu?
R – Quero tocar o coração das pessoas, falar da importância da água, falar que a questão do meio ambiente é responsabilidade de todo mundo. Cada um pode fazer sua parte, mesmo que seja reciclar um lixo ou economizar água em casa. E falo que a gente tem que ocupar os espaços públicos e pensar em maneiras de fazer a gestão também — participar da gestão, não deixar o sistema nos entorpecer. A gente esquece de olhar para o céu por causa desse modo de vida, como diz Ailton Krenak [escritor e liderança indígena brasileiro]. A gente precisa se envolver. Como diz, esqueci o nome…
P/3 – Nego Bispo [Antônio Bispo dos Santos, 1959-2023, quilombola, escritor e pensador brasileiro].
R – … é, um quilombola, Nego bispo, né? A gente precisa se envolver, gosto muito dessas frases. Desse pessoal que tem um entendimento. A gente precisa se envolver com os povos da terra, escutar mais eles e ter práticas mesmo. Gosta da coisa da prática. Fazer, juntar as pessoas com o mesmo propósito e fazer. Isso tem uma força muito grande. Vejo quando a gente faz mutirão aqui e a gente fala: “pô, acho que a gente não vai fazer muito”. Quando vê a gente faz além da minha expectativa e é legal que todo mundo sai feliz. É um trabalho que tem muita alegria, quando a gente tem contato com a natureza. Então eu gosto muito dos multirações. Tem vários mutirões na cidade, você está participando, se envolvendo com essa questão e lutando. A gente precisa ter voz e cobrar os políticos. Então é esse nosso papel eu penso. Meu papel aqui na sociedade é não ficar, sabe, alienado em casa se distraindo porque eles querem isso e a gente acaba caindo nessa. É fácil cair.
[45:45] P/1 – Me conta sobre o seu Ari e o que ele representou para você.
R – O seu Ari foi um pai para mim. Quando cheguei aqui, ele me recebeu tão bem, como um filho mesmo. Era uma época em que a aldeia começava — só morava ele aqui, depois veio a Tamikuã e tinha só a Cristina. A aldeia sofria muitas ameaças, faziam incêndios criminosos para queimar o cano da nascente, entrava gente estranha. As pessoas tinham medo de vir morar aqui ainda. O seu Ari foi um mestre para mim, porque foi ele que me mostrou tudo isso e deu força para esse trabalho. Vinha muito engenheiro, arquiteto aqui e dizia que era impossível fazer na mão. Certa vez estava com um neto dele e fomos pesquisar na internet como se faz um lago assim. Ele falou: 'Você não vai achar, isso é muito ancestral.' A gente procurou e ele não achou mesmo. Não tem registro. Então o seu Ari foi a pessoa que me deu a liberdade de fazer todo esse trabalho, de chamar pessoas de fora para se juntar com os Guarani. Fui um elo. Comecei a fazer atividades aqui toda semana: festival de cultura Guarani, caminhada pelo território, mutirões, trouxe e ainda trago escolas. Isso eu faço como agente cultural. Surgiam convites para os Guarani irem a algum lugar, e eu ia junto. Foi importante porque nessa época os Guarani ainda não estavam tão inseridos como hoje, dentro da universidade, dentro dos espaços públicos e políticos. Isso mudou muito. Você vê até muita gente se autodeclarando indígena — há uma nova geração muito forte vindo aí.
[49:22] P/1 – Como você chegou aqui?
R – Foi por acaso. Conheci minha companheira, a Camila, e vim morar com ela aqui, porque a mãe dela havia falecido e havia uma casa. Quando vim conhecer a aldeia, pensei imediatamente: preciso fazer alguma coisa. Como pode estar tendo reintegração de posse e quase ninguém vindo apoiar — especialmente os não indígenas, os juruá [palavra Guarani para 'não indígena'], como os Guarani chamam. Foi importante porque nessa época eu consegui levar os Guarani à praça das nascentes — saímos com um grupo para apoiar a luta deles. Conseguimos um advogado, trouxemos o IPHAN e o IGC, fizemos uma série de ações que para mim foram um aprendizado enorme, porque eu não conhecia a luta indígena até então. O cacique ia à reunião de reintegração de posse e fazia questão de que eu fosse junto, com a Funai e com o advogado. Eu até perguntava o que eu to fazendo aqui, né? Era só para acompanhar ele na porta, lógico, não podia entrar na audiência. Entrava só o cacique, a FUNAI… Então eu fui aprendendo bastante com a apoiar a luta deles, a gente fez um movimento importante. Fizemos o Abraço Itacupê — logo após ter levado os Guarani à Praça da Nascente, fizemos um chamado para as pessoas virem à aldeia. Vieram 200 pessoas. Fizemos um cartaz com 'Jaraguá Guarani' e pedimos que todo mundo espalhasse pelas redes sociais. Dois meses depois, o ministro da Justiça assinou a portaria declaratória que está valendo hoje para a demarcação. A luta Guarani aqui se tornou mundialmente conhecida — vieram jornais de todo o mundo fazer essa matéria.
[52:58] P/1 – Me conta a história da Praça das Nascentes e do Ocupa e Abrace. E como foi cavar o lago.
R – Com a ideia de ocupar a Praça da Nascente, formamos um grupo, fizemos reuniões e criamos um coletivo. Além de ocupar com festival, pensamos no cuidado das nascentes, em regenerá-las. Começamos a fazer isso sem falar com o poder público — nem sabíamos que era preciso pedir autorização. Quando fizeram a praça, não priorizaram as nascentes: havia locais impossíveis de caminhar porque a água se espalhava, virava charco, o mato crescia sem cuidado. Quando a gente chegou e começou a cuidar, o poder público apareceu e disse que não podíamos fazer aquilo. Tínhamos começado a cavar um lago em grupo, mas paramos. Só que essa ideia nunca saiu da minha cabeça. Um dia, sem falar para ninguém, fui lá com um amigo meio na surdina e começamos a fazer. Foi um choque — tanto para o meu coletivo como para os moradores. Tinha gente que achou lindo, tinha gente que não gostou tanto, porque eu fui lá e fiz sozinho, porque achei que tinha que ser feito e não ia esperar mais. Acho que as pessoas podem fazer intervenção no espaço público quando são capacitadas para isso. Não é só o poder público. A gente precisa adotar mais soluções baseadas na natureza para minimizar os efeitos das mudanças climáticas — é urgente. Temos mais de trezentos rios na cidade que poderiam ser parques lineares, que poderiam fazer uma cidade mais voltada para as pessoas e para a natureza.
[57:14] P/1 – Me conta como foram feitos os lagos aqui na aldeia.
R – Quando chegamos aqui, encontramos um rio assoreado. Conforme o assoreamento cresceu, o leito d'água sumiu, virou uma esponja — cresceram taboa e capim. Eu nunca havia feito um trabalho assim, tão grande. Então, o que fizemos primeiro? Observar. Sem desenhar projeto nenhum, fazer igual os indígenas: observar, observa. Passando todo esse tempo lá, pelas quatro estações, comecei a entender o tempo dos Guarani. Não foi muita gente que me explicou — foi ficando no lugar e observando os ciclos: da árvore, do vento, da chuva. Você começa a entender como funciona o tempo para os Guarani. Isso era incrível. O tempo novo, que eles chamam de Arapyaú, começa em agosto e setembro — quando a natureza floresce, as folhas nascem, as flores aparecem, os frutos chegam, os animais procriaram. E o tempo velho, que é agora — a natureza está mais lenta, pouca chuva, os bichos mais quietos. É também um tempo de ficar um pouco mais introspectivo e contemplativo. Quando a gente começou a fazer esse trabalho, começamos a entender essa lógica da água. Quando a gente viu aquele monte de mato, onde a gente vai começar a cavar… Antes de começar o trabalho, tive um sonho: um Guarani de cabelo branco me levava pela mata, me colocou debaixo de uma árvore e disse: 'É aqui que você tem que começar a cavar.' Esse sonho não saiu da minha cabeça. Peguei uma enxada e desci sozinho, fui debaixo daquela árvore. Bati a primeira enxada no charco e saiu um bloco de matéria orgânica. 'Não é tão difícil.' Fiz um lagoinho e fui embora, que ia começar a chover. Passei uns dias, desci lá de novo para ver. E perguntei sobre a árvore para os Guarani — eles disseram que era uma árvore sagrada usada para banho espiritual. Quando desci, o lagoinho que havia feito já estava cheio de peixinhos. Não sei de onde apareceram, se a água trouxe com a chuva. Falei: 'Confirmou meu sonho — é aqui que vamos começar.' Aí começamos a procurar o caminho da água no meio da vegetação de taboas, cortando e vendo onde havia mais água, qual era o caminho que ela ia fazendo, desenhando os meandros com a própria enxada. Descobrimos o caminho natural da água. Decidimos manter esse caminho natural e trabalhar ali fazendo o lago. Se tivéssemos usado máquina como os engenheiros e arquitetos estavam sugerindo, teríamos perdido tudo isso. É um trabalho que não tem prazo. Nunca estipulamos um tempo para terminar. O tempo é o tempo em si — não é o nosso tempo, é o tempo das coisas: da água, do vento, da árvore, dos bichos. Entendendo esse tempo, você consegue se conectar mais com você mesmo e com a natureza. Aqui posso dizer que é uma escola para mim — doze anos de vivência com os indígenas. Até fiquei 100 dias aqui, pedindo permissão para viver o cotidiano deles e entender mais.
[01:07:13] P/1 – Quem são os seus rios?
R – São três. O Rio do Ouro, em Jacobina, na terra dos meus avós — foi o primeiro rio que entrei, o primeiro em que peguei um peixinho. O Rio Água Preta. E o Ribeirão Manguinhos, que é esse aqui, que a gente pode ir lá ver daqui a pouco. Esses três rios são os rios da minha vida.
[01:07:42] P/1 – E que histórias eles contam para você?
R – É minha vida. Acho que a parte mais importante da minha vida é essa conexão que fiz com os rios. Passei muito tempo aqui, muitas vezes só eu e a natureza e Deus. Foi uma coisa muito profunda — fazer meditação, conversar com o rio, sentir mesmo que o rio é uma das partes mais importantes da minha vida. Tenho uma coisa muito forte com os rios: sair na rua sem mapa e encontrar rios debaixo das ruas. Quando saía para identificar nascentes, a gente andava de 15 a 30 km num dia. Comecei a ver uma nova cidade, uma possibilidade de uma cidade nova pela ótica dos rios — descobrir nascente em lugar que você nem imagina. Já descobri nascente numa sala de uma casa. E vi gente que captava essa água nas periferias para distribuir. Uma vez fui numa casa que tinha uns 30 baldes num canto. Perguntei à dona da casa para que serviam. 'Dos vizinhos. Quando falta água, minha casa fica aberta até meia-noite — todo mundo pegando água.' Havia três nascentes. Vi muito essa questão da solidariedade que existe nas pessoas quando faltam recursos tão importantes. A gente só vê captação de água dos rios, transposições que prejudicam. O Rio São Francisco está assoreando. A aldeia onde trabalho em Alagoas fica às margens do São Francisco, a gente tomava banho no rio ali. Hoje já tem pouco peixe. Precisamos cuidar da água e saber usá-la com inteligência. Não sou contra o uso da água dos rios — precisamos dela —, mas tem que ser feito com inteligência. A gente tem mais água disponível do que parece, mas não capta água da chuva. Em vez de reservatório grande como a Cantareira, hoje temos tecnologia para fazer reservatórios menores, com tratamento local e a própria população fazendo a gestão. Deveríamos ter duas torneiras em casa: uma da Cantareira e uma dos nossos rios locais.
[01:13:43] P/1 – Tem alguma história desses doze anos aqui que você queira contar?
R – No começo eu chegava muito chocado em casa. Às vezes chorava de ver um rio poluído, o próprio poder público jogando esgoto ali. Mas também me sentia muito atraído por isso — do caos pode sair uma coisa boa. Acredito muito na regeneração, em trazer de volta os nossos recursos naturais. Encontrei muitas nascentes que nunca imaginei encontrar, com muita água, e as pessoas usando essas águas. Há nascentes na periferia que têm lideranças comunitárias cuidando por 20, 30, 40 anos. Uma história bacana: outro dia estava numa comunidade, procurando uma nascente debaixo dos barracos. Saiu uma menina na janela, de uns 15, 16 anos, e disse: 'Ah, você é o cara das nascentes — minha professora passa seus vídeos na escola.' Quando cheguei em casa, chorei de emoção. Senti que meu trabalho tinha valor, que estava se espalhando. Era muito amador — uma câmera simples, um vídeo curto mostrando a nascente e contando qual rio era. Às vezes colocava um morador antigo, da terceira idade, para contar como era antes. Sempre tem uma história de quando as pessoas podiam usufruir, podiam ter contato com a água, antes de os rios serem canalizados. Mais de 70% dos nossos rios estão canalizados desde os anos 1960 e 1970. As gerações novas foram perdendo essa memória.
[01:18:28] P/1 – Se você quiser, deixe uma mensagem para esses três rios da sua vida.
R – Minha mensagem é que vou continuar lutando por eles enquanto estiver vivo — lutando para um dia estarem libertos, descanalizados, despoluídos. Este aqui, desassoreado. Quero dedicar a minha vida a vocês. Vocês são parte muito importante da minha vida.
[01:19:12] P/1 – Me conta como você conheceu a Camila.
R – Foi na praça das nascentes, num festival… P/1 – Me conta essa história, que festival que foi?
R – … Da praça da Nascente…
P/1 – Que ano?
R – … O primeiro, logo no primeiro. Conheci ela, me interresei e surgiu um clima.
P/3 – Ela é mãe da sua filha?
R – Não é do meu primeiro casamento por volta de 2000.
[01:19:39] P/1 – Me conta sobre a sua filha — como foi se tornar pai e qual é o nome dela.
R – Laís. Ela já é adulta, tem 27 anos, está terminando psicologia. A Camila não é a mãe dela — foi do meu primeiro casamento, lá pelos anos 2000. Foi mágico ser pai, apesar de ter me separado quando ela era bem criança. Gostava de levá-la ao Sesc para assistir peça de teatro infantil — eu ficava mais animado do que ela. Gostava desse universo de teatro de bonecos, de fazer coisas manuais nas oficinas. Uma vez fizemos juntos uma boneca de jornal — uma Emília —, e ela ficou mais feliz com aquela boneca do que com qualquer Barbie de loja, porque a gente tinha feito. Levava ela nos parques, no Parque da Água Branca, já levei no Vale do Ribeira, enfiei ela na lama também. Ela gosta muito, tem essa relação com a natureza.
[01:21:01] P/1 – Como a Camila se relaciona com esse mundo que você construiu?
R – Ela vai a alguns eventos e mutirões, acha bacana o que faço. Ela viu minha luta para chegar até aqui — não foi nada fácil, foi dedicação de corpo e alma. Gosto da minha história porque percorri um caminho muito diferente — nunca planejaria um caminho desse. Fui seguindo os sinais do universo. Dentro da cosmovisão dos povos indígenas e do que aprendi da cultura deles, fui sentindo isso como uma coisa espiritual mesmo, que vem primeiro. Me entreguei a isso e abri mão de muita coisa, principalmente de coisas materiais. Minha família ficava dizendo: 'O que você vai fazer? Você está maluco.' Mas eu sabia que era uma coisa que estava dentro de mim. Deixei fluir. E a conexão que eu tinha perdido com a natureza foi se refazendo. A conexão que fiz com os Guarani também é, para mim, uma relação de afeto — ganhei uma família. Já é a quarta geração que estou vendo aqui: desde o cacique que faleceu, já estou conhecendo os bisnetos dele. Isso me completa como ser humano. Me sinto privilegiado por ter isso na minha vida, por ter aberto essas portas. Se tivesse continuado na minha profissão antiga, talvez estivesse com depressão hoje. Não que não tenha meus momentos difíceis, mas posso dizer que estou em um processo de cura contínua. Estou aqui entendendo o modo de vida deles, aprendendo, levando essa solidariedade para a minha vida — essa coisa de dividir tudo. Na nossa sociedade não existe muito isso no dia a dia.
[01:24:51] P/1 – Quais são os seus sonhos?
R – Ver um dia esses rios recuperados. Poder um dia ter na cidade uma política de recuperação dos rios, de cada vez mais abrir todos os rios — todos. Não deixar nenhum fechado. Ver esses rios livres: livres do asfalto, da canalização, do esgoto. Com vida, com biodiversidade maior na cidade. É meu sonho.
[01:25:44] P/1 – Como foi contar um pouco dessa história para o Museu da Pessoa?
R – É muito bom estar falando, relembrando essas passagens que me trouxeram até aqui hoje. Se vocês se interessaram, é porque tenho alguma coisa boa para contar. É bom estar passando essa mensagem — dos rios, da água, dos povos indígenas. Como isso é importante nos dias de hoje, com tudo que está acontecendo. Eles sabem cuidar da casa deles. A gente, lá fora, não sabe cuidar da nossa casa. E nada melhor do que aprender com eles. Ter essa oportunidade de conhecer uma nova cultura e trazê-la para a minha vida foi muito importante. Estou resgatando a minha essência — que acho que é a essência de todo mundo, mas que às vezes se perde pelos caminhos da vida. Quero continuar o que os meus ancestrais faziam, dar continuidade através do meu trabalho, levando a mensagem da importância dos rios e dos povos indígenas para o planeta. Os povos da terra: não só os indígenas, mas os quilombolas, os caiçaras, os ribeirinhos. Minha vida quer estar sempre próxima dessas pessoas. É onde sinto que estou vivo, onde minha vida ganha um sentido muito grande.
[01:28:25] P/1 – Tem alguma coisa que não te perguntei que você queira contar sobre a sua vida?
R – Acho que falei bastante. Mas quero acrescentar que viver com os povos indígenas foi um reencontro comigo mesmo. Quando os Guarani e outras etnias ocuparam a antena de transmissão aqui no Pico do Jaraguá [maior altitude do município de São Paulo, com 1.135 m], desligando os sinais de TV, foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. A gente subiu de madrugada. Foram 60 guerreiros. Eu era o único não indígena subindo com eles. Outros grupos fecharam as entradas do parque — mais ou menos 300 indígenas participaram dessa ação. Quem guiava os guerreiros pela mata até a antena eram os jovens da aldeia. O pajé ia por último, rezando. Quando chegamos lá em cima, a polícia estava toda lá embaixo negociando. Os Guarani estavam desligando os sinais das TVs, de celular, de cartão, da CPTM. À noite, quando eles começaram a fazer a reza circular, eu olhava para a cidade ao fundo e sentia: 'Não tem como não falar que essa terra não é indígena.' São Paulo é terra indígena. O que percebia neles — um sentimento de coragem, alegria e fé. Estavam lutando por uma causa justa. Todo mundo estava feliz e com muita coragem, a ponto de ir até o fim, mesmo que isso custasse a vida. Teve um momento em que a polícia queria subir pela mata. Um indígena escutou o coronel e mandou recado para cima. O Tiago falou ao comandante da polícia: 'Se sua polícia subir pela mata, temos mais 700 guerreiros lá.' Olhei para ele: 'Mas onde estão esses 700 guerreiros?' 'São os espíritos dos nossos ancestrais.' Nossa, eles são muito estratégicos. E quando recebem uma ameaça, a primeira coisa que fazem é se reunir e rezar, rezar, rezar — até a resposta vir. Ficamos três dias lá em cima, dormindo no chão, com muita dificuldade. Mas havia muita risada também. Tinha uns operadores de TV apavorados que se trancaram numa sala. Subiram dois policiais para negociar e, quando viram os indígenas com cocar, pintura de guerra e arcos gigantes, um deles quase ficou do lado dos indígenas. Os Terena [povo indígena do Mato Grosso do Sul] estavam determinados e queriam entrar em confronto com a polícia se não houvesse resposta. No final, o secretário de segurança de São Paulo assinou um documento comprometendo-se a não criminalizar ninguém que estava lá em cima. Foi esse o acordo que os Guarani fizeram com a polícia. O governo voltou atrás. Foi uma linda luta. No dia seguinte fizemos um festival aqui — com as etnias que estavam acampadas e outras que tinham participado. Estavam presentes quase todas as lideranças, outros caciques, pajés de outras etnias. Uma comemoração inesquecível. Quando desci de lá, vim tão adrenalizado que chorava e ria ao mesmo tempo. Você cai na real do que aconteceu. Meus amigos começaram a me dizer para apagar todas as redes sociais, que aquilo ia ser classificado como terrorismo. Aí eu ria. E depois chorava. Era muita adrenalina.
[01:43:14] P/2 – Quando você aprendeu a nadar e onde?
R – Acho que foi na Guarapiranga. Depois fiz aula de natação muito novo no Palmeiras. Mas nadei muito em rios mesmo, com bastante correnteza. Às vezes armava a rede, entrava no rio para mergulhar e tinha que nadar por causa da correnteza. Aprendi assim também. E aqui na aldeia era direto nadar no lago, nadava todo dia.
[01:44:23] P/1 – Em nome do Museu da Pessoa, em meu nome e em nome da Teresa, do Levi, do Vitor e do Ally, agradeço muito por você ter compartilhado a sua história.
R – Obrigado vocês pela oportunidade…
P/1 – Muito, muito emocionante
R – … ha, que bom.
P/1 – Muito emocionante e muito engraçado
R – Tem umas partes engraçadas. Deixa eu lembrar outra história. Logo no começo aqui, o cacique havia feito armadilhas no meio da mata para mostrar às pessoas que vinham visitar vários tipos de técnicas. E eu andando por lá caí numa. Aí escuto o cacique: 'É, cuidado, aí está cheio de armadilha.' Eu disse: 'Pois é, acabei de cair numa.' Mas foi metade do corpo só. Cacique descobriu — cai numa armadilha. E há as coisas espirituais também. Quando eu morava aqui, você via coisas. Uma vez, na minha casinha bem isolada no mato, saí para fazer as necessidades e ao voltar vi alguém entrando dentro da minha casa. Fui ver — não tinha ninguém. Outra vez fiquei um mês aqui tomando conta de uma casa. Mandei foto para a dona dizendo que estava tudo bem. Só que a aldeia inteira estava lá. Era a maior bagunça, maior zoeira, festa — uma casa comunitária mesmo. Havia também uma época em que eu tinha uma casa aqui e dei para um indígena jovem que havia casado e estava sem moradia. Os Guarani disseram que posso construir uma casinha para vir alguns dias dormir aqui, trazer os amigos que trabalham comigo. Ainda não construí, mas pretendo.
FIM DA ENTREVISTA.
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