Me chamo Karine, 42 anos, sou de Santa Catarina, técnica em enfermagem e mãe orgulhosa de três lindas princesas.
Sou a filha mais velha de três irmãos, meus pais se casaram muito jovens, com 16 e 18 anos. Por pertencerem a uma denominação evangélica tradicional e conservadora, era comum que os matrimônios se realizassem logo, evitando que atos impensados causassem escândalo entre os fiéis e a desonra da família. Desde muito nova tive muitas responsabilidades com meus irmãos e afazeres domésticos, cuidava de tudo e todos, menos de mim. Mas isso é outra história.
Conforme ia crescendo, tinha mais tarefas a cumprir, não pude viver minha adolescência. Mas gostava de cuidar dos outros, adorava crianças e tinha facilidade em lidar com elas. Minha avó paterna precisou ser hospitalizada, e foi a primeira vez que cuidei de alguém num hospital. Como eu gostei daquilo! Do ambiente, de ver as enfermeiras trabalhando até o cheiro era bom. Além da minha avó, auxiliava as outras pacientes, senti um prazer enorme ao fazer aquilo. Daí pra frente, sempre acompanhava familiares internados. Casei, tive minhas meninas, por anos vivi pro lar, meus sonhos adormeceram, não tinha o direito de realizar o dever falava mais alto. Meu sogro adoeceu e prontamente me dispus a cuidar dele. As 12 horas que passava dentro do hospital voavam, era prazeroso demais estar ali, poder ajudar ele e os outros três pacientes do mesmo quarto. O tempo todo as enfermeiras me observando.
Uma delas disse: você sabe muito bem lidar com as pessoas, é atenciosa e não tem nojo de nada, porque não faz o técnico em enfermagem? Respondi: acho que não dou conta, imagina voltar pra sala de aula? Ela: claro que dá, aliás vai ter o processo seletivo pro curso na escola x. Se inscreve e faz a prova.
Fiquei com aquilo na cabeça, comentei com meu marido toda empolgada e como sempre, ele jogou um balde de água fria dizendo que eu não dava conta, era burra demais. Mesmo assim,...
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Me chamo Karine, 42 anos, sou de Santa Catarina, técnica em enfermagem e mãe orgulhosa de três lindas princesas.
Sou a filha mais velha de três irmãos, meus pais se casaram muito jovens, com 16 e 18 anos. Por pertencerem a uma denominação evangélica tradicional e conservadora, era comum que os matrimônios se realizassem logo, evitando que atos impensados causassem escândalo entre os fiéis e a desonra da família. Desde muito nova tive muitas responsabilidades com meus irmãos e afazeres domésticos, cuidava de tudo e todos, menos de mim. Mas isso é outra história.
Conforme ia crescendo, tinha mais tarefas a cumprir, não pude viver minha adolescência. Mas gostava de cuidar dos outros, adorava crianças e tinha facilidade em lidar com elas. Minha avó paterna precisou ser hospitalizada, e foi a primeira vez que cuidei de alguém num hospital. Como eu gostei daquilo! Do ambiente, de ver as enfermeiras trabalhando até o cheiro era bom. Além da minha avó, auxiliava as outras pacientes, senti um prazer enorme ao fazer aquilo. Daí pra frente, sempre acompanhava familiares internados. Casei, tive minhas meninas, por anos vivi pro lar, meus sonhos adormeceram, não tinha o direito de realizar o dever falava mais alto. Meu sogro adoeceu e prontamente me dispus a cuidar dele. As 12 horas que passava dentro do hospital voavam, era prazeroso demais estar ali, poder ajudar ele e os outros três pacientes do mesmo quarto. O tempo todo as enfermeiras me observando.
Uma delas disse: você sabe muito bem lidar com as pessoas, é atenciosa e não tem nojo de nada, porque não faz o técnico em enfermagem? Respondi: acho que não dou conta, imagina voltar pra sala de aula? Ela: claro que dá, aliás vai ter o processo seletivo pro curso na escola x. Se inscreve e faz a prova.
Fiquei com aquilo na cabeça, comentei com meu marido toda empolgada e como sempre, ele jogou um balde de água fria dizendo que eu não dava conta, era burra demais. Mesmo assim, me inscrevi. Mais de sessenta candidatos pra 30 vagas, fiz a prova sem ter estudado nada. Passei em segundo lugar. Fiquei orgulhosa de mim, esperava pelo menos um parabéns dele, o que ouvi foi que não daria conta e abandonaria o curso rapidinho. Me matriculei, as aulas iniciaram, eu era a aluna mais velha da turma, tinha 34 anos. O curso era puxado, tinha estágio de manhã, aula a tarde e aulas práticas no laboratório a noite.
Não tinha emprego fixo, o pouco que ganhava vinha do crochê e bordado ponto cruz que aprendi muito cedo, mas ainda era pouco pra cobrir as despesas do curso. Mesmo sendo escola pública, tinha gastos com material, alimentação e transporte, tanto pra escola quanto estágio. No final do primeiro ano, comecei a cuidar de pacientes, minha professora tinha um home Care e me convidou pra trabalhar com ela.
A rotina ficou mais pesada, estágio, aula e agora tinha um paciente em noites alternadas, ia pra casa a cada um dia e meio. Nessa época, o pai das meninas estava afastado do trabalho, então assumiu todo o cuidado delas.
Enquanto meu paciente dormia, eu aproveitava pra fazer meus trabalhos, relatórios de estágio e estudar pra prova, me dediquei muito pra ser a melhor, muitas vezes acabava dormindo durante as aulas, mas minhas professoras relevavam, sabiam da minha rotina, tirava boas notas e me destacava nos estágios. Comecei fazer os relatórios dos alunos das outras turmas, tirava uma grana extra e aprendia mais. O curso finalizando, de 33 alunos do início, sobraram 11. Saiu um edital do processo seletivo pra um hospital do estado, me inscrevi, queria testar meus conhecimentos, toda a turma se inscreveu. A concorrência era enorme, 1400 candidatos pra 24 vagas. Fiz a prova e aguardei sair o gabarito. Comecei a conferir minhas respostas e tomei um baita susto: das 30 questões acertei 25, mal pude acreditar, conferi várias vezes. No outro dia durante a aula, todo mundo desanimado por ter ido mal, a professora perguntou pra cada um o número de acertos, a maioria não passou de 14 , quando respondi 25, foi até engraçado todos se voltando simultáneamente pra mim com ar de espanto. Logo virei notícia na escola toda. Quando saiu a classificação final, fiquei em nono lugar, estava no top 10 entre mais de mil pessoas. Ano letivo encerrado, fui a juramentista na colação de grau. Quanto orgulho de mim! Três dias depois, assumi minha vaga na UTI. Aos 35 anos descobri que meu dom é cuidar do próximo.
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