Projeto Diversidade Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Nínive Degen de Carvalho
Entrevistado por Sofia Tapajós
Domingos Martins, 20 de abril de 2026
Código: DCC_HV018
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Entrevista de Nínive Degen de Carvalho, entrevistada por Sofia Tapajós. Domingos Martins, 20 de abril de 2026. Projeto Diversidade Cultural Capixaba, entrevista número DCC_HV018. Obrigada pelo seu tempo.
R – Disponha.
P/1 – Eu vou começar perguntando o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Meu nome é Nínive Degen de Carvalho, nasci em Domingos Martins, em 10 de abril de 2003.
P/1 – Nínive, você sabe por que você tem esse nome?
R – Meus pais escolheram de um livro de nomes, na verdade, sem saber da origem. Gostaram de como soava e escolheram por esse motivo. Depois, logo em seguida, minha avó, que era uma pessoa mais religiosa, falou: “Vocês sabem que é um nome bíblico?”. E meus pais foram pesquisar, gostaram, continuaram gostando, não interferiu na escolha deles e ficou assim. Meu avô ficou apavorado, porque, assim, é um nome que, à primeira vista, causa um pouco de estranheza, e aí ele teve um pouco de dificuldade de pronunciar, mas foi tudo bem, depois passou.
P/1 – Você falou dos seus avós. O que você lembra deles de quando você era criança?
R – Eu convivi com os meus avós maternos até a minha adolescência. A minha mãe, quando eu era criança, dava aula de Língua Portuguesa, e eu ficava com o meu avô na casa dos meus avós. Era muito legal, eu adorava passar o meu tempo lá, minha infância. Meu avô era uma figura engraçada assim. E a minha avó também era aquela pessoa que tem um instinto materno natural. Então, apesar de ela nunca ter estudado, nos anos mais tardes da vida dela, ela trabalhava no hospital, auxiliando, né, ali na limpeza, na parte de enfermagem também. Mas, como ela teve dez filhos, pra ela era, assim, natural,...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Nínive Degen de Carvalho
Entrevistado por Sofia Tapajós
Domingos Martins, 20 de abril de 2026
Código: DCC_HV018
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Entrevista de Nínive Degen de Carvalho, entrevistada por Sofia Tapajós. Domingos Martins, 20 de abril de 2026. Projeto Diversidade Cultural Capixaba, entrevista número DCC_HV018. Obrigada pelo seu tempo.
R – Disponha.
P/1 – Eu vou começar perguntando o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Meu nome é Nínive Degen de Carvalho, nasci em Domingos Martins, em 10 de abril de 2003.
P/1 – Nínive, você sabe por que você tem esse nome?
R – Meus pais escolheram de um livro de nomes, na verdade, sem saber da origem. Gostaram de como soava e escolheram por esse motivo. Depois, logo em seguida, minha avó, que era uma pessoa mais religiosa, falou: “Vocês sabem que é um nome bíblico?”. E meus pais foram pesquisar, gostaram, continuaram gostando, não interferiu na escolha deles e ficou assim. Meu avô ficou apavorado, porque, assim, é um nome que, à primeira vista, causa um pouco de estranheza, e aí ele teve um pouco de dificuldade de pronunciar, mas foi tudo bem, depois passou.
P/1 – Você falou dos seus avós. O que você lembra deles de quando você era criança?
R – Eu convivi com os meus avós maternos até a minha adolescência. A minha mãe, quando eu era criança, dava aula de Língua Portuguesa, e eu ficava com o meu avô na casa dos meus avós. Era muito legal, eu adorava passar o meu tempo lá, minha infância. Meu avô era uma figura engraçada assim. E a minha avó também era aquela pessoa que tem um instinto materno natural. Então, apesar de ela nunca ter estudado, nos anos mais tardes da vida dela, ela trabalhava no hospital, auxiliando, né, ali na limpeza, na parte de enfermagem também. Mas, como ela teve dez filhos, pra ela era, assim, natural, praticamente. Eu fui muito feliz, minha infância foi muito feliz com eles. A minha avó foi diagnosticada com Parkinson quando ela tinha mais ou menos 50 anos e conviveu com a doença até os 80. Ela nunca deixou de ser ativa, nunca deixou a doença abalar a saúde mental dela. Ela continuava fazendo as coisinhas dela. Ela fazia flores de EVA. Então, ela esquentava as formas de EVA e fazia as flores assim [movimenta as mãos]. Um trabalho manual lindíssimo que os filhos, e a minha mãe todos têm até hoje, como uma lembrança dela.
P/1 – E o que você fazia na casa deles?
R – Meu avô tinha um aquário lindíssimo de peixes, que era a minha televisão. Ficava horas ali vendo aqueles peixes no aquário. A minha tia herdou esse aquário. Então, é uma das memórias mais saudosas que eu tenho do meu avô. Quando eu vou na casa dessa minha tia, eu amo ficar lá olhando aquele aquário de novo. É como se ele fosse uma pequena caixinha com as minhas memórias da infância ali, sabe? Aqueles peixinhos também. Eles também tinham um terraço na casa deles, em que tinha vários pássaros, que meu avô adorava também. E a minha avó tinha muitas flores, muitas plantas. Infelizmente, eu não herdei dela esse dom com as plantas e tudo, mas os meus pais ainda têm. A gente tem um quintal lá em casa com muitas flores, muitas plantas, que eu adoro. Ficar com as plantas, ver esse aquário de peixes, os pássaros. Meus avós também falavam alemão e pomerano, além do português. E é uma coisa... Aquele sentimento de por que eu não aproveitei, né? Pra ter aprendido a língua com eles, o idioma. Mas é uma meta que eu ainda tenho de vida, até como uma maneira de prolongar o legado deles, sabe?
P/1 E eles te contavam uma história sobre a sua família?
R – A minha avó era uma pessoa que gostava de colecionar memórias. Então, minha mãe herdou dela uma Bíblia muito grande, uma Bíblia enorme assim. E no meio dessa Bíblia, tem alguns espaços para se colocar registros mesmo. Tem aquelas fotos muito antigas das irmãs da minha avó, do casamento, da primeira Eucaristia dos filhos. Então, todas essas coisas estão ali registradas nessa Bíblia enorme, com datas e quem é essa pessoa, quem é aquela pessoa, minha avó gostava de escrever, sabe? Acho que até para lembrar. Tem tudo isso registrado lá, que eu particularmente adoro. Adoro essa parte histórica da minha família. Tenho um projeto, ainda inacabado, de revisitar a árvore genealógica ali. Estou tentando há algum tempo já montar essa árvore, porque é um trabalho árduo, porque envolve muita pesquisa, exige muito tempo. Mas é engraçado a gente ter esse tipo de traço na nossa personalidade, que muitas vezes a gente, se parar para pensar, é herdado, sabe? É passado. Da mesma forma que a minha avó gostava de ir atrás de registrar as fotos, de escrever atrás das fotos reveladas… Ela escrevia quem era aquela pessoa, em qual data aquele evento ocorreu. Eu gosto de ir atrás também, de registrar essa parte da minha família.
P/1 – E os seus pais?
R – Os meus pais, eles sempre me apoiaram muito nessa parte também. Eles adoram que eu vá atrás, que eu pesquiso. O meu pai não é daqui de Domingos Martins. Ele nasceu numa cidade daqui do estado, chamada Itaguaçu. E, mais tarde, a minha mãe... Na época, se fazia o Magistério, né? Que era uma forma das pessoas estudarem, para além do ensino superior. Então, como muitas pessoas não tinham muito acesso ao ensino superior aqui, tinha o Magistério. Minha mãe começou o Magistério aqui. E, se eu não me engano, meio que encerrou a turma, e ela teve que ir para outra cidade estudar. Ela foi lá para Itaguaçu, lá ela conheceu o meu pai. Eles começaram a namorar. Ela acabou os estudos, veio de volta para Domingos Martins. Logo em seguida, ele veio pra cá também. Ele veio para Domingos Martins e eles se casaram em 94, 92, algo assim. Daqui a dois dias é aniversário de casamento deles, inclusive. Eles fazem 30 e alguma coisa, anos de casados, eu não tenho certeza. Meus pais tiveram muitos cachorros, sempre gostaram de ter muitos cachorros. Tanto que eles demoraram a ter filhos, né? Eles casaram em 92, 94, algo assim. E eu fui nascer só em 2003. Eles tinham uma salsichinha chamada Lilica. E, quando eu perguntavam para a minha mãe se ela queria ter filhos, ela falava: “Ah, já tenho a Lilica”. Depois, eles decidiram que “Tá bom, vamos tentar uma”. E aí, tem eu. Sou filha única dos meus pais.
P/1 – E o seu pai trabalha com o quê?
R – Meu pai é multifacetado. Ele já teve muitas profissões na vida dele, mas, atualmente, ele trabalha com transporte de pessoas. Ele trabalha com transporte de pessoas e além disso, ele também trabalha com cozinha alemã. Ele aprendeu a fazer as comidas típicas alemãs. É uma parte até em carência aqui no município, porque quem se dedicava mais a essa parte da comida tradicional eram as pessoas mais velhas, mais idosas e tal. E, assim como tudo, vai se deixando de passar para as gerações. Ele se dedicou, há uns anos atrás, a aprender mesmo, a cozinhar tudo. E, agora, ele trabalha com essa parte. Ele prepara almoços, jantares, para quem tiver interesse nessa parte, é bem legal.
P/1 – Você sabe como ele aprendeu?
R – Sim. Tem duas pessoas aqui no município. Na verdade, tem mais, mas, assim as principais que trabalham com essa parte, né? Uma delas é a Dulce. A Dulce faz essa comida alemã para fora há alguns anos também. Mas ela... Todos eles aprenderam com uma pessoa principal, que se chama Dona Hilda Braun. É uma pessoa muito importante aqui para a história do nosso município. Foi uma das fundadoras do Grupo Folclórico Bergfreunde de Campinho também e ela costura os trajes típicos alemães aqui no município. Foi ela que ensinou o meu pai a cozinhar comida alemã.
P/1 – E tem alguma receita que você goste muito?
R – Eu sou suspeita, porque eu acho que eu diria que o salsichão, é a minha parte preferida da comida alemã, mas uma boa batata alemã também é bem interessante. E, apesar do meu pai não se dedicar a essa parte da confeitaria, uma parte que eu gosto mais, assim, da questão dos doces e tal, o Apfelstrudel para pessoas mais formiguinhas, assim, é uma coisa especial também.
P/1 – Você cozinha?
R – Eu gosto como um hobby, eu gosto de... A parte de comida salgada, eu confesso que não é tanto do meu interesse, mas a confeitaria é algo que desde criança eu sempre gostei muito. Eu lembro de ter 7, 8 anos e perturbar minha mãe para fazer doce na cozinha e ela estar ali me ajudando a fazer as coisas. É algo que eu carrego até hoje. Eu adoro.
P/1 – E aí, voltando um pouco para a sua infância, do que você brincava?
R – Nossa, eu sempre gostei muito de brincar de professora. Então, o clássico, né? Todos os bichinhos empilhados, assistindo à aula com aqueles quadros que se penduravam e canetas. Eu sempre gostei muito, muito da brincadeira de professora. Sempre gostei muito de boneca, no geral. Mas como os meus pais também tinham um quintal, eu lembro de fazer vários experimentos com flores e pegar várias gramas e plantas diferentes, para o terror dos meus pais, né, porque eu destruía as plantas deles. Então, misturava tudo, dizia que estava fazendo perfume, essas coisas assim. A gente sempre teve muito bicho lá em casa, né? Meus pais sempre tiveram muitos cachorros. Então, durante boa parte da minha infância, sempre brinquei muito com os cachorros lá de casa. Aí, quando eu tinha mais ou menos uns seis anos, o meu pai, numa das multiprofissões que ele teve, ele tinha uma borracharia, na época. Aí, apareceu um filhotinho de gatinho desse tamanhinho, assim, lá na borracharia. Eu falei: “É meu agora e ninguém tira mais ele de mim”. Aí, eu levei ele para a minha casa. E a partir desse dia, a gente sempre teve gatos lá em casa. Esse gatinho, esse primeiro, eu não tenho mais ele, mas hoje em dia eu tenho dois gatos, que são o amor da minha vida. Ninguém encosta neles [risos].
P/1 – Você tinha algum brinquedo favorito?
R – Sempre gostei muito de boneca, no geral, assim. Boneca de pano, boneca de bebê, assim. Mas um brinquedo favorito, acho que seriam as minhas pelúcias, porque, pensando agora, eu não me desfiz de nenhuma delas. Elas estão todas lá guardadas na casa dos meus pais. Sempre gostei de coelhinhos.
P/1 – Mas alguma delas tem o seu xodó?
R – Sempre gostei de coelhinhos, muitos coelhinhos de pelúcia, assim.
P/1 – E na escola? Você lembra do seu primeiro dia na escola?
R – Eu lembro do primeiro dia, porque foi assim: na época que eu estava na escola, surgiu no jardim de infância. Eu iria começar o primeiro ano do ensino fundamental, no ano seguinte. Surgiu uma lei que crianças, a partir do dia 31 de março, não poderiam fazer o primeiro ano, porque elas tinham que ter seis anos completos. E eu faço aniversário no dia 10 de abril. A minha mãe… Eu já estava apresentando os sinais ali de pronta para a alfabetização. Minha mãe não queria me deixar mais um ano ali na pré-alfabetização. Então, ela procurou uma escola particular daqui da cidade e perguntou: “Olha, a lei já está sendo aplicada aí? Se eu quiser colocar Nínive, como é que funcionaria?”. Ela falou: “Não, pode botar. Ela vai vir para o primeiro ano, porque ela faz seis anos no dia 10 de abril, não vai interferir, não tem problema, não vai interferir na alfabetização dela. Pode trazer”. Eu passei o primeiro ano do ensino fundamental todo ali nessa escola particular, uma escola pequena, tinha 18 alunos na minha turma. Então, eu já estava… Me alfabetizei ali. E no ano seguinte, não tinha mais a necessidade de eu estudar ali naquela escola. O ensino público daqui sempre foi muito bom. A minha mãe falou: “Ótimo. Você fez o jardim de infância no ensino público, fez a sua alfabetização que tinha que ser feita na escola particular, vamos voltar para a escola municipal. Vamos voltar para o ensino público”. E aí, o primeiro dia do meu segundo ano, então, do ensino fundamental lá nessa escola foi, assim, traumatizante. Eu lembro como se fosse ontem, porque era uma criancinha, né, de seis, sete anos ali, e a escola era muito grande quando comparada com a escola que eu estava anteriormente. A minha turma tinha 30 alunos. Eu não conhecia aquela professora. No intervalo, o recreio, era algo completamente anormal, do que eu estava acostumada. A professora me colocou perto dessa menininha, que ela super me intimidava, assim. Ela me obrigou a sentar com ela no intervalo. E eu não queria, mas eu fiquei com muito medo dela. Então assim, foi isso.
P/1 – E os seus amigos na escola? Depois, você fez amizade?
R – Não, depois fiz amizades. E algumas das minhas coleguinhas da escola anterior, eu acho que elas também fizeram esse movimento de irem para o ensino municipal, eventualmente, mas a escola era grande. Então, se lá na outra escolinha particular era uma turma de 18 alunos no primeiro ano, quando nós fomos para o municipal, eram quatro turmas de segundo. Então, A, B, C e D, sabe? Eu realmente cheguei, assim, ali sozinha, só eu e o mundo.
P/1 – E teve alguma professora ou professor que te marcou?
R – A minha professora do primeiro ano do fundamental, com certeza, foi uma professora que me marcou muito, a tia Flávia. Ela era uma professora nata, eu diria. Foi ela que me alfabetizou, né? E quando eu comecei a dar aula de inglês… Eu comecei a dar aula de inglês muito novinha. Quando eu tinha 15 anos… Eu comecei a dar aula de inglês. Sempre tive muito interesse pelo cargo de professora, talvez pela minha mãe ser professora também. E aí quando eu tinha 15 anos, eu comecei a dar aula de inglês. Quando eu tinha uns 17, 18, eu comecei a trabalhar nessa escola, que era a escola antiga que eu estudava lá no primeiro aninho. Foi comprada por outro grupo, outras pessoas e tal, mas ela continuou lá durante todos esses anos. Então, se a gente for parar para pensar, eu estudei lá, eu tinha 6 anos, eu voltei pra lá trabalhando com 17 anos. Eu tive a oportunidade de trabalhar com ela, sabe? Como a minha colega de trabalho. Isso pra mim é muito significativo.
P/1 – E o fundamental II, como que foi?
R – Aí eu estudei a minha infância inteira nessa mesma escola municipal. Então, segundo até o nono ano. Foi muito marcante a transição para o quinto ano, que é justamente o fundamental II, porque eu lembro de ser… Engraçado… Porque primeiro a gente ia estudar de manhã. Então, o primeiro, o segundo, o terceiro e o quarto ano eram na parte da tarde, na escola. E o quinto, o sexto, o sétimo, o oitavo, o nono, das crianças grandes, eram na parte da manhã. Quando a gente fazia essa transição, era uma coisa, de outro mundo. Essa era a primeira parte, a segunda era poder escrever de caneta, né? Então, assim, ansiosa para comprar todas as canetas e poder escrever de caneta. Mas foi… Eu gostei muito do segundo ano do ensino fundamental II. Fiz amizades muito legais, tive professores maravilhosos.
P/1 – E, além da escola nessa época, o que você fazia?
R – Eu sempre fui uma pessoa com muitas atividades extracurriculares, e apesar de não ser boa em quase nenhuma, eu me esforçava. Então, eu comecei a estudar inglês muito novinha, quando eu tinha sete anos. Eu comecei a estudar inglês, estudei até os 14, numa escola, né, num centro de ensino. Me formei no inglês, com 14 anos, fiz certificações, fiz aquelas provas, né, de proficiência na língua inglesa. E, aqui no município, tem um projeto muito legal, chamado Projeto Criança Cidadã. Nesse projeto, todas as crianças residentes do município têm direito a fazer essas atividades extracurriculares, sejam elas de esportes ou artísticas. Eu tentei todos os esportes que você pode imaginar, vôlei, handebol, basquete, futsal, ginástica artística. Era um desastre em todos eles, mas estava lá. Fiz balé, também, durante um tempo. Fiz natação, durante um tempo, também. A natação eu me encontrei, foi um esporte legal, eu confesso. Foi bem bacana. E a parte das artes, também. Então, fiz teatro durante alguns anos, que foi a minha parte preferida, foi o teatro. Biscuit, pintura em tela, pintura em tecido. A única que eu não me arrisquei, porque aí já é demais, foi o desenho.
P/1 – E aí, como que você chegou aqui no grupo?
R – Então, o Grupo Bergfreunde foi o resultado de muita persistência e teimosia adolescente, porque, até então, eu nunca tinha tido contato com a dança folclórica. Aqui no município existiam os grupos infantis, juvenis, mas, por algum motivo, quando eu era criança, eu nunca apresentei muito interesse. Até porque é mais difícil manter a parte do juvenil e das crianças ali, do infantil. E aí, quando eu tinha 13 anos, na festa tradicional aqui de Domingos Martins, que é a Sommerfest [Festival da Imigração Alemã] , teve uma apresentação de um grupo que eles trouxeram lá de Santa Catarina. Eu estava lá na praça assistindo a essa apresentação. Quando eu assisti àquilo, estrelas apareceram nos meus olhos, um novo mundo se abriu diante de mim e eu falei: “É isso que eu quero fazer. É isso aí que eu quero fazer. Eu quero vestir essas roupas, quero fazer esses movimentos. É isso. Minha vida é isso”. E aí fui atrás, falei: “Mãe, a gente tem que encontrar o coordenador do grupo. Eu quero entrar, quero entrar, quero entrar no grupo e tal, tal, tal”. E ela falou: “Tá bom. Então, vamos atrás”. E aí, entramos em contato com a coordenadora e ela falou: “Olha, o grupo juvenil, ele não está mais ativo no momento. A gente está com carência de jovens e tal. O que está ativo no momento é o adulto, mas você é muito nova pra entrar no adulto. A gente tem ali alguns adolescentes com 16, 17 anos e você tem 13”. Eu fiquei arrasada, fiquei muito decepcionada, muito chateada. Falei: “Não, não tem como, vamos, quero continuar. Mãe, por favor, fala com ela, se eu fizer 14 anos e tal. Eu faço qualquer coisa, só quero entrar, só quero dançar”. E aí, minha mãe também me ajudou muito nessa questão. Ela foi lá, conversou, falou com a coordenadora: “Olha, ela quer muito entrar agora. É importante que vocês mantenham essa chama de querer fazer parte enquanto ela ainda é jovem. E pode ser que daqui a dois anos ela não queira mais, que ela perca o interesse. Então deixa ela fazer 14 anos e deixa ela ensaiar e tal”. E aí, ela falou: “Não, tá bom. Então, faz 14 anos e aí você pode vir ensaiar”. E aí, comecei a ensaiar em março ali, logo perto do meu aniversário de 14 anos, comecei a ensaiar. Eu ia antes para os ensaios. Os ensaios acontecem sempre aos domingos, sempre aconteceram aos domingos, às 17 horas da tarde. Eu chegava mais cedo, às 15 h, 16 h, para aprender os passos básicos. Depois, ficava das 17 h até às 19 h, que era o final do ensaio, assistindo a eles dançarem ali. Eu ficava lá sentadinha, só dando play na música e assistindo todo mundo dançar. E aí, em junho do mesmo ano, eu fiz minha primeira apresentação. Também foi um pouco traumatizante, mas foi bem legal.
P/1 – E você falou que você ficava aprendendo os passos. Quem que te ensinava?
R – A coordenadora, a Natália. Na época, ela era coordenadora há algum tempo já. E aí, ela vinha mais cedo comigo e com mais algumas outras meninas pra a gente aprender os passos básicos. Alguns meninos se solidarizavam também e chegavam um pouco mais cedo para ajudar a gente a dançar.
P/1 – E o que você sentiu quando você começou a ver o ensaio?
R – Nossa, era uma das melhores sensações do mundo, assim. Eu acho que é engraçado, porque a dança, o ensaio, a apresentação é algo que é quase sempre como se fosse a primeira vez. Até porque a gente aprende muitas danças novas, sempre é muito desafiador. A gente sempre fica ansioso, sempre dá um frio na barriga antes de dançar uma dança nova. Ontem mesmo, a gente estava ensaiando. Ontem era domingo, era dia de ensaio e a gente está aprendendo uma dança nova. E assim, o frio na barriga é como se eu estivesse vindo aqui pela primeira vez, sabe? Ensaiar e aprender a dança folclórica.
P/1 – E essa sua primeira apresentação, como foi?
R – Ela foi no Festival do Vinho, que é uma festa tradicional também daqui do município, que acontece em junho de todos os anos. Isso foi lá em 2017, então há algum tempo atrás, quase 10 anos. Eu tinha 14 anos, tinha acabado de completar 14 anos e, assim, podemos dizer que pouquíssimo tempo de experiência, né? Dois meses. Estava muito, muito, muito, muito nervosa. Muito nervosa mesmo, ansiedade, assim, minhas mãos tremiam, suavam. E eu tinha que ir apresentar. Uma coisa muito marcante que aconteceu é porque a gente veste o traje. O traje tem muitos detalhes, tem correntes, tem fios que ficam soltos, e é uma roupa até desconfortável. Então, a gente vem ensaiar com roupas de treino, assim, confortáveis, mas quando a gente vai dançar é outra história, outra roupa. Tem essa questão para a gente se acostumar também, a gente que está iniciando na dança folclórica. E aí, quando eu estava dançando, logo uma das primeiras danças, assim, um dos fios da minha roupa prendeu no botão do rapaz que estava dançando comigo. E, assim, foi desesperador, ainda bem que ele era muito experiente. Eu mal conseguia focar na minha própria dança, eu ainda tinha que tirar a minha roupa que estava grudada na dele, sabe? Foram, assim, sabe aqueles minutos de pânico? Na verdade, nem minutos, segundos de pânico, porque, pareceu uma hora ali até conseguir desenganchar uma roupa da outra.
P/1 – Você pode descrever mais como são esses trajes?
R – Eles são muito diferentes entre si, porque varia muito de grupo folclórico para grupo folclórico. O traje que é utilizado pelo nosso grupo de dança, ele é um traje chamado de Miesbach, que é uma cidade da Alemanha que deu o nome a esse traje. Ele é um traje típico, um traje folclórico tradicional, mas ele não é um traje que remete fielmente aos trajes que as pessoas usavam tradicionalmente antigamente. Por quê? O traje de Miesbach é um traje criado, então, ele foi criado para ser estéticamente agradável. Então, pegou-se partes de diferentes trajes folclóricos e foi se criando ele para que ele fosse o mais bonito de todos. Assim, de maneira muito suspeita para falar, ele realmente é o mais bonito de todos. Ele é composto por uma blusa que se usa embaixo, uma blusa branca, podendo ser de manga comprida ou de manga curta. Ele é adaptável para as diferentes estações do ano. Por cima, se utiliza um colete preto e esse colete tem flores no busto, podendo ser flores coloridas, flores vermelhas, aí depende muito também da ocasião que aquele traje está sendo vestido. Se for um casamento, é uma cor, se for outro tipo de celebração, um batizado, é outra cor. No colete, além das flores, ele é preso por correntes, correntes cheias de medalhinhas, assim, todas entalhadas, correntes pratas. E aí, essas correntes vão cruzando para manter a sustentação desse colete. Da maneira que eu estou sentada aqui, com o colete, eu não consigo ficar da maneira que eu estou aqui. A gente sempre vai ficar assim [mostra]. Porque ele é cheio de barbatanas também. Então, ele mantém a nossa postura ali. A saia, que o comprimento dela também é relativo, a nossa saia é bem comprida, vai até os tornozelos, até pra não atrapalhar na questão da dança também, mas podendo ser um pouco mais curta. A variação dela depende muito do que o grupo está se propondo, né? As meias, são meias de lã, todas bordadas. Os sapatos, são sapatos de dança. O xale e o avental, que também são combinados. O nosso grupo tem o xale e o avental brancos, azuis e rosas. E aí, a gente escolhe a cor que a gente vai usar de acordo com o evento em que a gente está indo também. Além do chapéu, nós temos algumas variações de chapéu, mas o mais tradicional é um chapéu preto, com correntes douradas e flores atrás.
P/1 – Você falou de algumas festas que acontecem aqui na cidade. Como são essas festas?
R – A mais tradicional delas é a Sommerfest, que é a festa que comemora a colonização do nosso município. É uma festa tradicional alemã inspirada na Oktoberfest, que acontece em Munique também. Alguns anos nós tivemos algumas edições da Oktoberfest [Festival de cerveja e cultura alemã] aqui, apesar de não ser a mais tradicional. A Sommerfest acho que está completando seus 30 anos, algo nesse sentido. Algumas edições, 35ª, 36ª edição, por aí. Além da Sommerfest, em outros pontos do nosso município, em outros distritos, existem outras festas tradicionais também. No distrito de Aracê, tem a Festa do Morango, no distrito de Melgaço, tem a Pommerfest [Festival que celebra a cultura pomerana], que é a festa pomerana lá do distrito. Então, essas festas promovem a cultura. E uma das coisas mais tradicionais das festas são as apresentações dos grupos folclóricos. Se eu não me engano, o nosso município, atualmente, tem 10 grupos folclóricos, entre alemães, pomeranos e italianos.
P/1 – E você lembra a primeira? [corte na gravação] Quais as suas primeiras lembranças do Sommerfest?
R – Nossa, é porque na primeira Sommerfest que eu participei, eu tinha um ano de idade. Eu trouxe até fotos dessas participações. Mal andava e eu já estava desfilando, porque um dia do final de semana da Sommerfest, tem um desfile cultural. Então, os grupos de dança, a Banda Cultural Martinense, todos desfilam para os cidadãos da cidade verem os trabalhos. São feitos carros alegóricos. Então, um ano de idade, eu já estava lá desfilando com o meu pai, apresentando com muito orgulho a cultura do nosso município. São 23 anos que eu tenho, são 22 Sommerfest vividas, sabe? Porque ainda não veio a próxima, né? Todo ano é um compromisso que não dá pra desmarcar.
P/1 – Tem alguma história que tenha acontecido em alguma dessas festas?
R – Olha, quando eu era criança, os meus pais me perderam em uma. A cidade fica muito, muito, cheia. E eu era bem criancinha e sabe ali no meio do grupo de amigos? Passou alguém, “perdeu a Nínive [barulho de automóvel passando]. Perdeu a Nínive”, ficou alguns minutos desaparecida e depois voltou a estar tudo bem,. Mas outros Sommerfests, muito... Outros dois, na verdade, muito marcantes que nós fizemos foi as Sommerfests de 2018, porque foi logo em seguida ao acidente que o grupo tinha sofrido. Nós perdemos 11 integrantes do grupo. A gente precisou se reerguer praticamente do zero como grupo de dança. E aí, na festa do ano seguinte, foi muito bonito ver, assim, o movimento de pessoas que se dispuseram, que se doaram para estar ali. Eram tantas pessoas que não cabiam no palco pra dançar. Esse foi outro momento muito marcante. E em 2019, no ano seguinte, era o ano em que o grupo estava completando seus 35 anos de atividade. Nós fizemos uma apresentação muito, muito, muito, legal baseada nos contos dos irmãos Grimm. Então, era uma apresentação de contos de fada. E realmente, parecia um conto de fadas foi muito, muito, bonita. E no ano passado, que é a terceira, muito marcante, foi a primeira vez que o grupo de dança se apresentou com música ao vivo. Então, nós fizemos uma colaboração entre o Grupo Folclórico Bergfreunde de Campinho e o Grupo Cultural Martinense, que é a banda daqui do município, para fazer essa apresentação com música ao vivo, que é algo extremamente raro entre grupos de dança. Geralmente, se dança com música mecânica, pela praticidade da música mecânica, para a execução dos movimentos em si, a música ao vivo requer um pouco mais de atenção, um pouco mais de cuidado. E aí, quando a gente teve a oportunidade de fazer essa colaboração, foi muito, muito, especial.
P/1 – Você falou de 2017, o acidente. Você quer falar um pouco sobre ele?
P – O acidente foi algo, para dizer o mínimo, marcante, , na minha vida, até porque, na época, eu me achava muito madura, mas hoje, olhando pra trás, eu tinha só 14 anos, eu era uma menina. E, se a gente for analisar a linha do tempo, eu comecei os meus ensaios no grupo em março daquele ano. Em junho, eu fiz a minha primeira apresentação. Em setembro, foi feita essa viagem, né, no dia 7 de setembro de 2017. Era a minha primeira viagem sem os meus pais, minha primeira viagem também no grupo de dança para dançar, a minha primeira vez nessa festa em Juiz de Fora, que é a festa alemã do bairro Borboleta. E aí, a viagem, na minha cabeça, é quase como um sonho, porque foram tantos momentos legais, foi tão marcante, o sentido de perfeita mesmo, das pessoas estarem se dando bem, de todo mundo estar se divertindo muito, juntos ali, celebrando. Não aconteceu absolutamente nada de ruim nessa viagem. Quando o retorno aconteceu, eu demorei muito pra processar o que tinha acontecido. Tanto na hora do acidente, em relação à dimensão daquilo, sabe? Porque foram 11 vidas interrompidas ali abruptamente, de uma maneira muito brutal. E os próximos, pelo menos, 5 anos ali, foram muito difíceis, na questão do trauma, de fazer qualquer tipo de viagem de ônibus, de carro, ainda é muito difícil pra mim, mas aos poucos a gente vai superando, até para não deixar de viver em razão disso, mas ainda assim é extremamente difícil. E a saudade, né, que a gente sente das pessoas que se foram, porque apesar do pouco tempo que eu tive de contato com elas, foram 6 meses, é uma família, sabe? Eles te abraçam, a gente abraça quem chega também, é literalmente uma família. Você ter esse convívio interrompido de uma maneira tão trágica é uma coisa que te afeta muito como pessoa.
P/1 – E aí, voltando um pouco para os estudos. O que você fez quando terminou a escola?
R – Eu fiz o meu terceiro ano na pandemia. Então, foi complicado. Todos os vestibulares eram online, e eu sempre fui muito de humanas, sempre gostei muito de História e Língua Portuguesa. Unindo a útil ao agradável, eu fui fazer a faculdade de Direito. Gostei muito, apesar de ter feito o meu primeiro ano na pandemia. Foi online, aquela vai, não vai, né, presencial. Estudei em Vitória durante esse tempo. Me formei, mas eu comecei a dar aula muito jovem, dar aulas de inglês. E os idiomas sempre estiveram muito presentes na minha vida. Então, sempre me dediquei muito ao inglês, durante um tempo comecei a estudar francês, estudei durante 3 anos. E aí, durante esse período, sempre continuei me dedicando. No final da minha faculdade, eu voltei a dar aulas de inglês particular, que é uma coisa que eu sempre gostei muito de fazer. Eu tento me equilibrar entre a advocacia e a docência, porque acho que a gente tem que fazer o que a gente ama.
P/1 – Falando da pandemia. Como foi esse período para você?
R – Ai, da maneira que pode ser pra uma menina de 17 anos. Eu estava no final do ensino médio. Estava começando o meu terceiro ano, tinha estudado um mês ali, o famoso terceirão. Eu estudava na escola estadual que a gente tem aqui de ensino, onde tem o nosso ensino médio. E nossa, eu adorava, sempre gostei muito de ir para a escola, sempre gostei muito de estudar. E aí, quando veio a pandemia, foi meio chocante assim , porque primeiro a gente achava que ia ficar duas semanas em casa, e depois eu vi todo o meu terceiro ano indo ladeira abaixo, tendo que estudar online, sem contato com os meus amigos, sem formatura para a gente. E é difícil, porque eu sinto que a gente precisa muito de marcos na nossa vida assim, para o nosso cérebro mesmo entender que a gente está encerrando um ciclo e começando outro. E a gente nunca teve isso, sabe? A gente mal conseguiu terminar uma coisa para já começar outra. E tem o desespero da adolescência, né, que a gente acha que a gente está atrasada. Tinha que começar a faculdade logo, tinha que decidir o que eu queria fazer logo. E isso foi muito marcante assim. Hoje em dia, eu fico pensando como o que teria sido talvez diferente, ser uma menina de 17 anos que não viveu a pandemia, o que teria me afetado. Mas me trouxe muitas coisas boas também, de entender o momento que o mundo estava vivendo, de parar para respirar. E, sabe, o mundo parou. Então, a nossa vida parou junto com ele também.
P/1 – E você quando estava na faculdade era em Vitória, mas você mudou para lá?
R – Então, sim e não, porque durante o primeiro ano eu fiquei meio online, meio presencial. E uma coisa muito interessante aqui do nosso município é que existem muitos transportes de pessoas para o ensino superior, justamente para promover o acesso ao ensino superior. Então, as pessoas vão e voltam todos os dias, são cerca de 45 quilômetros de Domingos Martins à Vitória. As pessoas se locomovem todos os dias, saindo daqui às 17 horas da tarde pra quem estuda à noite, que é a maioria, na verdade. Então, saem daqui às 17 horas da tarde. Quando a aula termina por volta das 22 h, eles voltam pra casa chegando aqui às 23 horas, mais ou menos, se nada acontecer no caminho. Eu fiz isso durante um tempo, esse ir e voltar, mas, com o tempo acabou, ficando insustentável para mim, porque é uma rotina bem complexa e outras demandas, como estágio, esse tipo de coisa que acabaria interferindo. Eu fiquei em Vitória durante o restante do período da minha faculdade, mas eu voltava pra cá todos os finais de semana, porque eu gostava de Vitória, mas eu gostava daqui muito mais.
P/1 – E quando você estava em Vitória, o que você mais sentia falta daqui?
R – A paz, a tranquilidade, a segurança, disso assim. A vida aqui é como se o tempo corresse um pouco mais devagar, sabe? Apesar de Vitória ser uma capital muito tranquila também, quando comparada a outras no Brasil, mas no interior é diferente. A montanha, a vegetação, o céu azul, o céu estrelado à noite e a tranquilidade do dia a dia, sabe? Você acordar de manhã e ouvir os pássaros cantando na sua janela é muito diferente.
P/1 – O que Domingo Martins representa para você?
R – A minha vida, a minha história, representa o meu coração, sabe? Tudo o que eu amo, tudo o que eu gosto está aqui.
P/1 – E o que o grupo folclórico representa para você?
R – Uma grande parte disso tudo, sabe? É engraçado porque existe Nínive antes do grupo e existe Nínive depois do grupo, e eu acho que eu posso dizer isso, em nome de todo mundo que dança ou que já dançou na vida, porque é como se a gente ficasse viciado, sabe? Você pode dar um tempo, se dedicar a outras coisas na sua vida durante alguns anos, porque demandas, né? É uma coisa que exige muito de dedicação, de doação, de tempo. Então, se outras coisas surgem, você às vezes põe elas como prioridade, mas tem certeza de que lá no fundo da sua cabeça, do seu coração, a vontade é de voltar o mais rápido possível, sabe? O quanto antes você puder.
P/1 – O que você sente quando você chega no ensaio?
R – É muito legal chegar no ensaio, sabe? A gente se vê semanalmente, e são pessoas com vidas, rotinas, horários muito diferentes, assim, profissões, Até faixa etária, né? Os nossos mais jovens têm 15, 16 anos, e os mais velhos... Ai, tô com medo de falar a idade, mas não sei se... Enfim, tô com medo de falar a idade, mas não sei se chegaram nos 60, talvez, mas, assim, 50 e poucos. São pessoas muito diferentes. E aí, ver todo mundo reunido aqui em prol disso é muito legal, é muito emocionante. Você sentir que, cara, que legal, essas pessoas tiram o domingo delas, o domingo à tarde, às vezes, chuvoso, como estava ontem, por exemplo, um domingo que você queria ficar em casa, vendo filme debaixo das cobertas, essas pessoas saem da casa delas. A gente não está falando de cinco pessoas, a gente está falando de trinta, ra vir aqui dançar, sabe? É mágico, não tem outra palavra para isso.
P/1 – E por que você sai da sua casa para dançar?
R – Boa pergunta [risos]. É uma ótima pergunta. É um combustível, assim, sabe? É um combustível pra vida mesmo, de você ver um sentido em algo, sabe? É isso, eu tô levando a cultura do meu município para outras pessoas. E o calor das apresentações, o calor dos ensaios é algo muito legal, mas o calor das apresentações também é algo muito diferente, sabe? Crianças, idosos, adultos, adolescentes, todo mundo, você... Quando você olha aquele público ali te olhando, você entende, é isso. É o brilho do olhar dessas pessoas, é por isso que eu faço isso, porque é mágico, é mágico para quem faz, é mágico para quem assiste, é mágico para quem toca. É mágico.
P/1 – Você pode falar um pouco desse lugar onde a gente está?
R – Então, aqui é o Centro Cultural Martinense. Ele é o local onde o Grupo Cultural Martinense ensaia as suas músicas, e o Grupo Cultural Martinense é a banda daqui do nosso município. Durante um tempo, o Grupo Folclórico ensaiava num lugar chamado Hotel Imperador, que é o hotel do nosso município, durante muito tempo funcionou como hotel, hoje em dia funciona como uma sede da Prefeitura, para Secretaria de Cultura e Turismo, tem aulas de música lá também. Só que, com o acidente, não fazia mais sentido pra gente ensaiar lá, sabe? Pelas memórias que a gente tinha do lugar e tal, então, era algo que realmente parou de fazer sentido. E aí, muito generosamente, o Grupo Cultural Martinense cedeu o espaço para gente, e agora a gente tem essa colaboração de ensaiar aqui durante os finais de semana, nos dias que eles não estão utilizando. E é um lugar interessante, porque tem muito acervo deles, assim, os instrumentos que eles utilizam, muitas fotos da história do Grupo Cultural Martinense. E é legal, muitas vezes durante os ensaios, fico perdida nas fotos, imaginando o contexto que eles estavam tocando. São fotos de uma época que eu nem imagino como era, que são os anos 50, 60, 70, durante todo esse percurso que eles caminharam, eu fico perdida imaginando as circunstâncias da época, sabe?
P/1 – E hoje no seu dia a dia, o que você faz?
R – Hoje, além do Grupo de Dança aos finais de semana, eu também trabalho como advogada e dou aulas de inglês para adolescentes e adultos.
P/1 – E o que o grupo de danças te ensinou?
R – Nossa, incontáveis lições. Primeiro, a evoluir como pessoa, sabe? Porque, como eu disse, é uma família, né? Então, tem a parte boa e a parte ruim de uma família. A convivência é algo difícil. Ainda mais com as pessoas, são opiniões diferentes, são vidas diferentes, histórias diferentes, isso te ensina a ser mais paciente, te ensina a ser mais colaborativo com os outros, até porque a dança não é sozinha, né? Você tem um par ali para dançar com você, você tem um grupo ali dançando com você. Então, você tem que olhar para si, você tem que olhar para o outro que está dançando ali, tem que olhar para os outros como um todo, te ensina a ter esse olhar micro, esse olhar macro, te ensina a ser mais altruísta, né? Porque a gente não recebe nada pra estar aqui, a gente recebe o aplauso do público e é isso. E a perseverança de estar aqui, por exemplo, existem danças que a gente assume o desafio de “Cara, essa dança é muito bonita, a gente tem que apresentar ela”. E você ensaia, e você ensaia, e você ensaia, e você ensaia e não dá certo, não dá certo, e você tem que continuar acreditando que uma hora vai dar, porque como eu disse, não depende só de você, depende de todo mundo. Ai, são tantas outras lições assim, mas eu acho que as que me vêm de cabeça são essas.
P/1 – E o que é indispensável para a continuidade do grupo?
R – O amor, o amor à cultura, assim, sabe? É uma coisa que a gente não pode deixar morrer, principalmente nas próximas gerações, então... Desde 2017, 2016, por aí, foram reativados os grupos infantil e juvenil, justamente para que essa chama se perpetue. Porque o grupo, ele é vivo, então, pessoas entram, pessoas saem, ele passa por momentos de seca, por momentos de abundância, tanto de pessoas quanto financeiramente. A gente precisa de recursos também, é uma instituição sem fins lucrativos. Então, a gente precisa se manter, a gente precisa fazer a manutenção dos trajes, a manutenção de absolutamente tudo, sabe? A gente não pode deixar o amor morrer para que realmente ele continue crescendo, continue florescendo, e a gente continue colhendo os frutos da nossa cultura, que é tão viva.
P/1 – E quais são seus sonhos para o futuro do grupo?
R – Eu acho que um sonho a longo prazo, talvez não tão longo assim, mas é algo que o grupo já realizou, mas eu gostaria de realizar enquanto eu ainda estiver nele, que é ir para a Alemanha, fazer a viagem para lá como grupo, assim, para a gente ver de perto a nossa história, e é algo pra mim e para o grupo, sabe? Por ter esse feito conquistado, entende? A gente já foi, acho que em 2001, tem algum tempo já, o grupo em si, mas é outro feito, né, a gente ir para lá de novo. Um deles, inclusive um dos meus outros sonhos já foi realizado, que é dançar com a música ao vivo, que é algo lindíssimo, é um show mesmo. Acho que é isso.
P/1 – Quais ações para a sua vida, para além do…
R – Continuar dançando, com certeza, é um sonho, assim, que nada na minha vida me impeça de continuar fazendo o que eu amo até quando eu puder, e manter as pessoas que eu amo por perto o máximo de tempo possível, sabe? E acho que é isso.
P/1 – E o que você achou de contar a sua história hoje?
R – Achei… Estou procurando um adjetivo. Eu achei renovador, porque tinha muito tempo que eu não parava para pensar mesmo. Acho que não é o tipo de coisa que a gente faz rotineiramente parar para pensar na nossa história, para pensar em quem a gente é, o que a gente vive. Então, acho que a palavra seria isso, renovador.
P/1 – Tem alguma coisa mais que eu não te perguntei que você queira falar?
R – Acredito que não, acho que eu falei bastante [risos].
P/1 – Então, é isso. Muito obrigada.
R – Muito obrigada. Eu amei.
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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