P/1 – Vanusia, a gente vai começar a entrevista, fala o seu nome completo.
R – Vanusia Assis Santos.
P/1 – Quando que você nasceu?
R – Onze de janeiro de 71.
P/1 – Onde?
R – Caetité, Bahia.
P/1 – Qual o nome dos seus pais, Vanusia?
R – Da minha mãe, Ambrosina Assis Santos e do meu pai, Joventino José dos Santos. Da minha mãe pode ser também Ambrosina Santana dos Santos, os documentos têm as duas formas.
P/1 – E o quê que ela fazia, a sua mãe? Ou faz…
R – Minha mãe trabalhou em casa nesses últimos anos, minha mãe faleceu há dois anos atrás. Ela, nos últimos anos, trabalhava… Era a mulher como se fala, do lar. Mas quando ela chegou aqui, ela foi doméstica, depois cuidou das crianças do bairro onde a gente morava para que as mulheres pudessem ir trabalhar, lavou roupa, mas sempre assim, cuidados da casa, assim, sempre nesta função.
P/1 – E que época ela veio pra cá?
R – A gente chegou…
P/1 – Não precisa nem lembrar o ano…
R – Em 74, por aí. A gente veio com a nossa… Meu pai tinha vindo já na frente, ele é pedreiro, trabalhava já aqui, e a gente ficou na Bahia e depois, a gente veio, aí veio a família toda, minha mãe e os cinco filhos, eu sou a caçula.
P/1 – E lá, onde você nasceu, você viveu lá até vir pra cá?
R – Eu vim com três anos.
P/1 – E você tem lembranças dessa época em que você vivia lá? Lembranças da sua casa?
R – Não tenho muita lembrança de lá, não. As lembranças que eu tenho… Porque depois, a gente voltava para a Bahia quando a gente ainda era criança, as férias a gente passava lá, então a gente chegou a ir algumas vezes criança, depois quando a gente já ficou assim, adolescente, já não dava mais para ir, já tinha trabalho e aí não dava para ir a família toda. Mas eu cheguei a ir algumas vezes ainda pequena, com cinco, sete e aí sim, eu tenho algumas lembranças. Da roça, que é onde os pais da minha mãe moravam, né, toda a família da minha mãe, que era… O município chamava Careta que já era mais roça, porque Caetité é uma cidade, é um município que fica lá no centro-sul da Bahia, assim e é sertão, mas a roça era ainda mais para o sertão.
P/1 – E vocês, quando iam para essas férias, vocês ficavam nesse lugar em que a sua avó morava?
R – Isso, na casa da minha tia Maria, que é onde a minha avó ficou, essa tia que cuidou dela. E também nas casas de todos os outros parentes, mas a referência era essa casa da irmã da minha mãe, chamada Maria.
P/1 – Vocês iam todos juntos?
R – Nesse período, a gente ia.
P/1 – Seu pai também?
R – Meu pai também. Nós tivemos umas idas para a Bahia, a família toda junta, era as férias, né?
P/1 – Você gostava?
R – Gostava muito, era muito diferente do que a gente tava vivendo aqui e, ao mesmo tempo, muito igual, porque, na minha casa, minha mãe manteve muito uma Bahia dentro da minha casa, então acho que era gostoso reencontrar isso, só que numa coisa maior, num espaço maior. Então, eu lembro de um umbuzeiro que tinha na frente da casa da minha tia, então a gente podia comer fruta à vontade. Aqui, quando a gente tava aqui, a gente não podia comer muito fruta, até porque aqui em São Paulo já é caro, né, então lá tinha umbu, eram poucas frutas e poucas coisas, mas com muita fartura. Então, por exemplo, milho, a gente comia muito curau, assim, se lambuzava de curau e lembro de coisas assim, de banhar no rio, de situações de dar de cara com cobra, né, coisas de medo, eles não tinham TV nesse lugar, mesmo em Caetité não tinha TV quando a gente voltava lá, então, as noites eram de contação de histórias, então tinham umas histórias de muito medo. Era gostoso, era meio pavoroso também porque não tinha energia elétrica, e tinha muito morcego na casa. Eu lembro que ficava com muito medo de estar lá. Mas quando amanhecia, o dia era muito amplo, né, muita terra, então era…
P/1 – Festas você…
R – Festas, lembro de rodas na casa da minha tia, de jogar verso um para o outro… Que mais...
P/1 – Seu pai é baiano, também?
R – Todos nós somos da Bahia, a gente… Ele era de uma outra… Não é município, Caetité é um município, esses lugares que são roças, isso me fugiu o nome, agora, ele era de uma outra fazenda chamada Língua de Vaca que, na verdade, é Santo Antônio, oficial era Santo Antônio, mas era muito conhecido como… “Da onde você é?” “Sou de Língua de Vaca e você?” “Sou de Careta!” “Eu sou do Mucambo”, então eram nomes que faziam parte da minha infância: “Fulano do Mucambo vai vir aqui” “Mané cego, aquele cantador de folias de Reis tá vindo visitar vocês”, porque a gente chegava, era gostoso, as pessoas iam nos visitar e ofereciam almoço ou um café da tarde, sempre assim com essa coisa da fartura. Lembro de uma vez que eu passei mal, também lá e o que me curou, eu não sei se foi na mesma situação, mas eu lembro que uma foi beber leite da teta da vaca tirada. Eu não sei se eu passei mal por causa desse leite, mas eu acredito que não, então era gostoso essa coisa da criança poder estar em contato com essa coisa bem da roça, mesmo. E a outra vez que eu passei mal, o que me curou, minha mãe me deu um caju assim, ainda tava meio verde, e aí lembro meio adstringente, uma coisa que limpou o que eu tava sentindo.
P/1 – E Vanusia, você falou que aqui a sua mãe mantinha uma Bahia, muitos costumes, do quê que você lembra? Daí, já aqui na sua casa.
R – Eu falo disso porque… Bom, são muitas coisas, mas por exemplo, a culinária, né, a minha mãe não se abriu para a culinária de São Paulo, isso foi trazido pelas minhas irmãs mais velhas que já em contato com amigas daqui da cidade, então, começaram a incorporar coisas para dentro da casa, né, mas a minha mãe, a culinária dela era bem sertaneja…
P/1 – Fala umas coisas assim, que você gostava bastante.
R – Essa Bahia que eu tô falando não é a Bahia lá do acarajé, por exemplo, é uma Bahia do sertão, né? Então, maxixe, os picadinhos, maxixe ou banana verde com carne, chuchu, abobora, o café da manhã, o meu café da manhã era muito da roça, né, então a gente… É muito engraçado que, outro dia, eu tava conversando com a minha filha e com o Paulo e eles falando: “O que você gosta?”, e tal, e eu gosto de uma coisa meio papa, porque assim, quando eu era… E era forte, né, a gente não percebe a riqueza que a gente tinha porque, na verdade, era um café da manhã reforçado, batata doce amassada com leite, por exemplo, então fazia aquela papa assim e eu adorava quando era criança, isso. O cuscuz nordestino amarelo, o que aqui em São Paulo chama tapioca, mas que a gente chama beiju, então muito beiju com café com leite, mandioca de manhã com manteiga, batata doce, o cuscuz amarelo. Então, até um tempo atrás, eu fiquei com um probleminha de saúde e eu fui numa nutricionista e ela investigou essa coisa da minha vida, minha história e tal e aí, eu falei: “Eu fico encanada, porque as pessoas falam daquela coisa de comer fruta de manhã que é super saudável, mas pra mim não é legal, eu não consigo nada gelado de manhã, então, pra mim, tem que ser uma coisa bem quentinha, que tem a ver com essa história. E ela falou: “Você precisa voltar pra essa tua alimentação”, porque eu tava ficando doente, claro, por conta das coisas que a gente come hoje e tudo mais, mas ela falou assim: “Tenta voltar pra essa tua alimentação do cuscuz, da batata, da mandioca, o beiju”. Essa questão da culinária era totalmente sertaneja. Outra coisa, a minha família era uma casa onde os primos jovens vinham trabalhar em São Paulo, naquela época, eu tô falando dos anos 70, ainda tinha a coisa da indústria, se eu não me engano, mas eles trabalhavam em indústria, eu acho que ainda tava forte a questão da indústria e eles vinham trabalhar aqui. A gente morava numa casa… Depois de um tempo, a gente foi morar numa casa maior e o meu pai dividiu essa casa, um quarto ficavam todos esses primos e eram muitos homens, acho que uns 12, 14, que era como se eles tivessem criado uma pensão dentro da própria casa, eu falei que era grande, mas não era, eram só dois quartos. Um quarto dormia os meus pais com todos os filhos e no outro quarto, dormiam todos esses primos e eles fechavam porque eram homens, tal. Minha mãe, ela cozinhava e lavava para eles e cozinhava e lavava para a família e cuidava de muitas crianças da rua.
P/1 – Ficavam na sua casa?
R – Na minha casa. Era uma casa que tinha um quintal com outras famílias também, a gente morava na casa da frente, que era um sobrado, mas atrás tinham outras casas, então, tinha uma outra família da Bahia que não eram parentes, de outra região, esses sim, eram da região mais litorânea e tinha uma outra família do Ceará, que foi a minha amiga de infância, assim, tinha uma menina da mesma idade. Então, era essa movimentação, né, meu pai sempre foi um cara de festa no sentido de fazer festas em casa, forró, então ele gostava, a família toda vinha, era esse centro, então quando eu falo assim, que era essa Bahia, porque enquanto a gente era pequeno, a gente não se abriu muito, a não ser a gente na escola, né, mas minha mãe era mais mesmo de manter essas tradições e vivia com todos esses primos que tinham os costumes de lá também, era uma casa, realmente, de chegada desses parentes.
P/1 – E as brincadeiras, Vanusia, com todo esse movimento, você lembra? Vocês brincavam na rua ou não?
R – Brincávamos na rua, sim. Eram muitas brincadeiras. Brincava muito na rua com bola, ciranda, beijo, abraço, aperto de mão, já fui me relacionando com as amigas de São Paulo, então eu não tinha bicicleta e essa minha amiga, que ela inclusive aparece em uma das fotos…
P/1 – O nome dela, qual é?
R – Alessandra. Ela tinha bicicleta e o irmão também tinha e aí, eu não tinha, então a gente roubava a bicicleta do irmão para a gente poder andar juntas e era muito engraçado, porque a gente era muito difícil tirar a bicicleta sem ele perceber, a gente tinha que passar por cima de um portão meio alto, assim. Essa era uma das brincadeiras também que a gente fazia e rodava o bairro. Chegamos a ir, uma vez, para um circo que era numa região um pouquinho mais afastada e a gente foi de bicicleta e nós ganhamos o ingresso, escola deu e a gente foi. E a gente sumiu e foi meio traumático para os pais, né? Ficamos no circo, assim, à tarde.
P/1 – E conseguiram entrar no circo, então?
R – Conseguimos e ficamos assistindo, acho que ficamos bastante tempo, porque as pessoas começaram a nos procurar, então, foi… Não foi legal para os pais, pelo menos, não foi legal. Pra gente foi ótimo, né?
P/1 – Que bairro era, Vanusia, a sua casa?
R – Esse daí era Vila Bertioga, Mooca, Vila prudente, por ali.
P/1 – E você disse que tinham festas quando vocês iam passar as férias, né, com a família?
R – Isso.
P/1 – Você lembra de alguma festa que você curtia, se impressionava porque era…
R – Acho que só as festas juninas, mesmo, né? Festa de São João, São Pedro que eu me lembro que erra feito na casa da viúva, se eu não me engano. Era assim, quem dava a festa de São Pedro lá eram as viúvas e era forró à noite inteira com tocador mesmo de forró, de sanfona, triângulo, e eu sempre gostei da festa também. Eu acho que, das filhas, eu que puxei mais o meu pai no sentido da dança, assim, que a gente… Eu e ele, a gente tem essa paixão pela dança, eu gosto de sair para dançar. Eu tô nesse momento, inclusive, sem dançar e tô sentindo isso fisicamente no meu corpo, na minha saúde, mesmo, assim, tô precisando voltar a dançar.
P/1 – E Vanusa, nesses momentos, você dançava bastante?
R – Já quando criança, dançava bastante, gostava de fazer aquela coisa das brincadeiras, voltando, de apresentação, como se você tivesse num programa de TV, né? Tinha uma outra coisa também das brincadeiras que eu me lembro, tinha um senhor que era dessa família baiana que morava no quintal, ele… Eu lembro dele, assim, um senhor bem negro, já de cabelos brancos, aquele preto velho, bem observador, sabe? E, com ele, a gente brincava também, ele fazia uma brincadeira comigo de caixinha de fósforos, de contar assim, esconder, aí eu tinha que descobrir. Eu lembro dessa cena de ficar horas ali brincando com ele enquanto minha mãe estava lavando roupa no tanque. Porque o quintal era compartilhado, né, o tanque, por exemplo, era todo mundo compartilhava, então me lembro dessa cena, lembro também da minha mãe montar bichinhos no chuchu, bonequinhas assim, de alguma verdura, colocando também a coisa do palito de fósforo e ali a gente ficava entretido e ela lavando roupa e a coisa da dança e da música também sempre fez muito parte da minha brincadeira, né, a gente não tinha um grupo, a família não tinha um grupo musical ou essa prática, mas sempre fez parte da minha brincadeira e das festas de família, né?
P/1 – Tinha muita música, né, e as pessoas dançavam?
R – É.
P/1 – Vanusia, e o seu pai sempre conviveu com vocês?
R – Sempre.
P/1 – E você disse que a sua mãe já faleceu e ele?
R – Tá vivo.
P/1 – E ele continua trabalhando?
R – Ele continua trabalhando bem pouco tempo. Agora, ele tá assim, naquela coisa, se tem alguma coisa em casa pra fazer, ele tá com 86 e ele sobre ainda no telhado para tirar uma telha pra arrumar, porque ele é pedreiro, né?
P/1 – Ele sempre trabalhou com construção?
R – Sempre. Quando ele tava na Bahia, parece que ele foi, também, marceneiro, chegou a construir alguns móveis, cadeiras, bancos, coisas assim. Mãe ele é pedreiro, mesmo, então, trabalhou com construção e sempre fez coisas na nossa casa e essa história do pedreiro é muito engraçada, agora lembrei de um detalhe. Quando eu tava na escola, ali nessa primeira casa que a gente morou aqui em São Paulo, meu pai construiu uma casa muito grande, assim, bonitona e tal e eu lembro de ter orgulho de falar que o meu pai que tinha feito aquela casa. Depois fiquei pensando: imagina, né, por causa que ela era muito bonita a casa no bairro. E eu passava com as minhas amigas e falava: “Meu pai que fez essa casa”.
P/1 – Faz todo sentido, né? Ele que construiu, mesmo, né?
R – Ele que construiu, justamente. Que mais?
P/1 – Era o produto do trabalho dele e pelo jeito, trabalhava bem, né?
R – Trabalhava super bem assim, fez a nossa casa depois que a gente conseguiu comprar também…
P/1 – Então, você começou a falar da escola. Você começou a estudar nesse bairro?
R – Isso.
P/1 – Depois, a gente vai voltar para a escola, mas vocês ficaram até que época, mais ou menos nessa casa, nesse lugar, desse jeito? Que idade, mais ou menos, você tinha?
R – Fiz o ginásio, então a gente ficou até os 14, eu acho.
P/1 – Depois é que vocês mudaram?
R – Sim. A gente mudou algumas vezes. A gente chegou numa primeira casinha, essa eu era muito pequena, não lembro tanto. Mas era também bem movimentada, com muitos parentes em várias casas. Depois a gente foi para essa grande que era uma casa de frente… É engraçado que eu continuo reproduzindo que é grande, mas na verdade, a casa não era grande, mas era muito maior do que a que a gente tinha morado até então, a gente tinha morado em casinhas muito pequenas, várias casinhas no quintal. Essa não, era uma casa de frente, então era um sobrado, uma coisa assim, de frente, ela tinha dois quartos como eu falei no inicio.
P/1 – Mas tinha muita gente, né? Cabia muita gente…
R – Tinha. Já tinha um quintal maior. E fomos para essa e nesse bairro que eu estudei, né, ali, Vila Bertioga.
P/1 – Então fala dessa escola, que lembranças você tem dessa escola que você ficou bastante tempo.
R – Lembranças…
P/1 – De situações, de professores que te marcaram… Do que você gostou ou do que você não gostou.
R – Recentemente, teve uma campanha, não sei como chama isso no Facebook, uma hashtag, que eles chamam, né, “meu professor racista” e aí, isso foi acho que um mês atrás, e isso me fez lembrar das situações que eu passei nessa escola, né? Então não são boas lembranças, tem boas lembranças também, mas o que me vem agora, talvez até por conta dessa campanha, é essa situação de ter passado isso na terceira série, então acredito… Você tá com oito, nove anos, né? Então assim, minha mãe penteava o meu cabelo, comprou um creme para pentear o meu cabelo e o creme era muito… Tinha aquele cheiro mais enjoativo, eu lembro até que era um creme da Avon. Não sei se é legal falar marca aqui. Mas ela passava muito esse creme para deixar o cabelo ajeitado e eu lembro que todas as vezes que eu tinha que tirar dúvida com a professora, ou levar lição pronta, alguma coisa, ela gritava comigo falando: “Eu já te falei para você não passar perfume para vir para a escola”, mas ela gritava muito alto na sala, todo mundo ficava me olhando, né? E isso me marcou muito porque sem nenhum tato para falar, sabe? Primeiro que… Eu não conseguia responder para ela, assim, do tipo: “Eu não passo perfume, é que eu uso um creme para pentear o cabelo”, poderia ter falado isso, mas depois de muitos anos eu fiquei pensando: “Por que será que eu não falava, que eu não explicava?”, né? Eu acho que é porque… Eu achava já um absurdo ela gritar comigo daquele jeito e eu também não contava em casa, porque eu poderia chegar e falar: “Mãe, não dá para passar esse creme, não passa porque…”, era uma situação muito constrangedora porque a classe toda ria: “Eu já te falei, não passa esse perfume”, não sei o quê… E eu não chegava pra minha mãe também: “Para de pentear o meu cabelo com isso!” Eu já pequena achava que era um absurdo, então eu não parei porque eu achava que a minha mãe, era um creme que ela podia comprar e eu achava que ela não peitava a professora, claro que você não tem ainda força pra enfrentar uma professora desse jeito, mas eu simplesmente não parei de usar. Ela continuou a gritar e eu continuei a usar e continuei a estudar. E eu não parei de estudar, isso que é o mais importante, porque essas situações levam muitas meninas, a gente sabe, muitas meninas. Hoje, essa coisa do cabelo é muito sério, é uma questão muito séria do racismo institucionalizado.
P/1 – Vanusia, você consegue lembrar quando que você foi deixando de passar creme?
R – Isso é muito recente…
P/1 – É?
R – É. Eu demorei bastante. Mesmo já com uma certa consciência da minha… Foi muito recente que eu comecei a parar, por exemplo, de alisar o cabelo. Eu tenho 46 anos, então, eu acho que foi por volta dos 30 e poucos.
P/1 – E você consegue identificar, assim, o que foi fazendo você parar de alisar?
R – Ah sim! Tomar conhecimento dessa história, da minha história ancestral, o conhecimento do racismo, do que significa isso, de como isso faz com que a gente se anule, a gente vai se anulando e vai querendo chegar nesse padrão imposto pela sociedade, que é um padrão branco, magro, e olha que eu nem sou uma preta escura, né, isso inclusive leva muitas meninas a quererem ir mais para o lado branco, eu também passei por isso, porque aí também já era mais fácil, se eu alisasse o cabelo, eu tenho uma cor mais clara, sou preta clara, né, e então era mais fácil eu ir para esse lado, claro, porque ninguém quer viver sofrendo isso. Já com sete anos, ou oito eu já tinha passado por isso, passei por isso muitas outras vezes. Então, você não quer nenhuma ligação com essa história negra, né? Você precisa conhecer muito o que é o racismo pra poder enfrentar, estudar muito e eu acho que também, conhecer muito a sua história. Eu sempre tive isso, apesar de, claro, tentar um embranquecimento natural, na verdade, no fundo, eu sempre… O que me movia era justamente o contrário. Então, era muito engraçado isso, essa contradição, muito engraçado não, acho que era muito tensa essa contradição, porque eu tentava esse embranquecimento, mas o que me movia sempre foram os batuques, sempre foi o tambor.
P/1 – Quando que você conheceu os tambores?
R – Bom, desde sempre nessas coisas dos bailes de família…
P/1 – Já tinha o batuque, porque já tinha o forró…
R – É…
P/1 – Mas já tinha a percussão?
R – Já tinha a percussão. Tinha o samba, que aí a gente ouvia muito samba, lembro de ouvir muito Martinho da Vila nesses anos de 75, 76, por aí. Esses outros baianos que moravam também eram assim, festeiros, então já tinha essa relação com essa cultura popular afro-brasileira, né? Então assim, lembro de Genival Lacerda, de Luiz Gonzaga, de Martinho da Vila. Aí quando eu reencontrei, que aí já dá para falar do Cachuera! Porque, na verdade, eu participei de alguns grupos que trabalhavam com essa cultura popular afro-brasileira. Na verdade, eu passei por um grupo, pelo Abaçaí e fui muito próxima do Cupuaçu.
P/1 – Então fala disso primeiro, pra depois a gente chegar lá no Cachuera. (pausa) A gente tava falando da escola, né, Vanusia, e teve coisas assim, alguma lembrança que também foi positiva? Mesmo mais velha, quando você já estava em outra escola? Algum professor, que…
R – Sim, tinha o professor Carlos que era muito... Era o contrário dessa outra professora.
P/1 – Por quê?
R – Que incentivava, que era brincalhão. Mas eu não lembro assim, sei lá, de positivo… Eu acho que essa própria história que eu contei, ela tem um lado positivo pelo fato de eu não ter parado de estudar, não ter me desanimado, porque não foi apenas essa situação que aconteceu, né, foram muitas outras e eu acho que eu ter ido estudar, ter feito duas faculdades, na minha família, pelo menos, isso não é comum, né? Acho que minha mãe ter incentivado a permanência na escola…
P/1 – Suas irmãs também sentiam isso que você…
R – Eu nunca… Assim, não me lembro delas terem relatado isso, porque quando você vai trabalhar com a cultura afro-brasileira, tal, você começa a investigar isso na sua história. Lá na minha casa, eu trabalho com a cultura negra através da dança, através de registro, no Cachuera!. Então, eu acho que eu fui pegando esse outro lado e, como eu disse, no fundo, no fundo, era o que me movia já desde pequena. Tem um caso muito específico que eu acho que pensando nessa entrevista que eu ia dar para vocês, eu lembrei disso e achei que tinha muito a ver com essa minha trajetória. É assim, eu passei então por esses grupos, fiquei pouco tempo e depois eu tive que sair, parei de dançar e aí, uma vez, eu fui tomar um passe, eu tava tomando um passe com um preto velho na Umbanda, onde eu frequento, tal e já fazia dois anos, por exemplo, que eu estava sem dançar, sem estar nessa… E aí o preto velho me perguntou: “Você tá dançando?”, e ele não sabia que eu dançava, mas porque eu já tava dois anos sem estar praticando isso. E eu falei: “Não”, ele falou assim: “É muito importante que você volte”, quando ele foi me dar o passe, ele falou que minha aura saiu e rodopiou emitindo cores lindas, então ele falou assim: “Você precisa voltar a dançar”. E eu sinto isso muito forte, assim, eu tô também num momento agora um pouco afastada, porque eu sempre fui do movimento, né, na criança era isso mesmo, nas brincadeiras que tinham o movimento com o corpo: pular corda, agora que eu lembrei, adorava pular corda, bambolê, amava, tudo que tinha movimento, subir em árvores. Então, essa coisa do movimento é muito importante para mim e aí estava esse tempo já sem dançar, aí eu falei: “Poxa, então preciso voltar a dançar!” Aí, eu queria entrar num grupo, já tinha passado pelo Abaçaí, já fui muito próxima do Cupuaçu, mas aí então, eu me acheguei ao Cachuera!, isso faz 17 anos atrás, isso foi em 2000, nós estamos em 2017. Então, já há um certo tempo. E passei a frequentar os ensaios do grupo e aí, a relação que eu faço é assim, o Cachuera!, um objeto muito forte na pesquisa do Cachuera! é o tambor, essa é uma referência muito forte, a gente fala de como a gente se refere a algumas comunidades, como comunidades do tambor, esse é um objeto muito especial na pesquisa do Paulo e das pessoas que se juntaram a ele e na verdade, eu acho… Não, eu acho que eu confundi, gente. Eu tô falando do tambor… Bom, porque eu precisava voltar, né, para a dança…
P/1 – É que a gente também falou porque eu também quero voltar um pouco. A gente falou que você sempre foi muito motivada pela música nas festas, né? E aí, também eu perguntei… Porque você comentou uma coisa que o tambor sempre te chamava a atenção…
R – Isso. Aí, eu fui para o centro Umbanda, na verdade, é uma outra coisa.
P/1 – Então, mas você disse que tinha o forró, mas tinha o samba também. E aí, eu ia te perguntar quando você já entra na adolescência, pra você contar um pouco como foi a sua adolescência ou a sua juventude, continua sendo jovem, mas há um tempo atrás e quando que você, de fato, resolve dançar mesmo?
R – Então, essa questão do tambor, duas coisas também que são muito importantes. Eu sou muito religiosa, né, isso é uma questão assim, muito minha, nem tanto da minha família, apesar de serem também, mas dentro da minha casa, por exemplo, dos irmãos, eu sou a que mais tive vontade de procurar isso. Isso foi com 15 anos, por exemplo, a gente sempre foi da Umbanda, a minha mãe sempre foi católica e frequentava os terreiros de Umbanda, ela não era assim, a gente não pode dizer que ela era umbandista, né, mas ela sempre fez as duas coisas e era sempre religiosa.
P/1 – E mesmo aqui em São Paulo, ela continuou frequentando a igreja?
R – Continuou frequentando. Mas quando eu tinha 15 anos, já fazia alguns anos que eles não iam mais e eu fiquei com muita vontade de ir para algum lugar onde eu pudesse pôr em prática essa minha… Esse lado, assim, espiritual. E eu, sozinha, fui numa igreja que era uma igreja já um pouco diferente, perguntando para a mãe de uma amiga minha, conversando com ela da minha vontade de ter essa prática mais religiosa e tal, ela me falou dessa igreja, era uma igreja pequena, não era uma igreja convencional, já era uma igreja de um padre que era casado, ele já tinha rompido com essa igreja mais ortodoxa, ele era casado. Nessa igreja tinha, por exemplo, imagens de São Cosme e Damião e Doum, assim, aparente, tinha um caboclo…
P/1 – E era no seu bairro?
R – Era no Belém. Ali também na zona leste, mas Bresser, sabe? E aí eu comecei a frequentar, meus pais não estavam mais fazendo nada, assim, religioso.
P/1 – E você não sabia exatamente qual religião?
R – Não sabia. Mas quando a gente sempre frequentou a Umbanda, eu sempre frequentei, sempre tomei passe, fizemos trabalhos mesmo em casa, trabalhos de umbanda mesmo, de limpeza da casa, né, minha mãe fazia, então acho que ela tava cansada, já assim, já fazia alguns anos que ela tava cansada, desmotivada e aí, eu então, puxei isso, falei… E fui para essa igreja e frequentei essa igreja por um tempo, levei, inclusive, o meu pai e, nessa igreja, teve um dia que eu conversando com esse padre, que ele até já tinha sido… Não me lembro se ele já tinha sido umbandista ou espírita, mas ele tinha essa questão, eu lembro que eu falei para ele: “Eu gosto muito daqui, mas eu sinto falta do tambor”, e recordando isso para essa entrevista, para mim, foi bem forte. Essa frase, pra mim, é muito (emoção) forte mesmo, porque é justamente esse tambor que vai me conectar novamente com tudo isso que eu já falei, né, com essa coisa que me move. E eu gostava mesmo de lá, frequentei, mas: “Não dá Dom Jaime, tem alguma coisa que eu sinto falta…”, foi essa frase que eu achei interessante agora, recordando para essa entrevista, foi exatamente a frase. Eu não falei: “Eu sinto falta de canto, ou eu sinto falta de música”, eu falei: “Eu sinto falta do tambor”.
P/1 – E o quê que essa inspiração te levou, depois dessa igreja, você fez algum caminho atrás dessa tua…?
R – Isso, daí ele falou: “Vai em busca da sua verdade”, porque já era um padre mais aberto, eu não ia conseguir mesmo estar numa igreja convencional, até já fui, já frequentei, inclusive, igrejas de crente, evangélicos, muito, porque teve uma época em que o meu irmão teve muitos problemas com drogas e não importava… Eu falei: “A gente precisa resolver”, então eu cheguei a ir em indicações, levar ele e tudo mais. Mas voltando a essa questão do tambor, então é isso que dá um link mesmo com essa história que vem seguinte e muito com o Cachuera!, isso me emociona muito porque ele é um elemento central da pesquisa do Cachuera!.
P/1 – E, Vanusia, voltando recuperar esse fio, você falou que desde a escola você resistiu, né, percebendo várias coisas com tudo que você estava vivendo e outras situações. E aí, você foi resistindo e buscando essa identificação, tambor com a Umbanda. Vai contando como foi. Depois a gente vai falar do Cachuera!, mas como foi esse teu caminho? Porque você tinha só 15 anos, né? O que foi acontecendo? Namoros, o que você fazia para se divertir, conta um pouco dessa sua fase de…
R – Então, nessa fase, por exemplo, o que eu gostava era… Eu nunca curti muito sair, por exemplo, pra barzinho, sentar, conversar, tal. O que eu gostava mesmo de fazer era sair para dançar samba, então eu ia para os sambas, né? Então desde essa idade, assim. Então, deixa eu ver, essa fase dos 15…
P/1 – É, enfim, não precisa nem se fixar em idade, mas quando você era adolescente, jovem você disse que o que te motivava era dançar…
R – Era a dança.
P/1 – E quando você entrou nesses grupos…
R – Aí já era bem mais velha, né?
P/1 – Já era bem mais velha?
R – É.
P/1 – E a diversão, mesmo, era a dança?
R – Era a dança, era sair para dançar, mesmo. Deixa eu ver o que mais…
P/1 – E quando você foi no colegial, quando você entrou no colegial, essa situação mesmo do racismo, ela se mantém? Aconteciam coisas também que você identifica, assim…?
R – Sim.
P/1 – Porque aí você já era mais velha, né?
R – É, aí já tava… No colegial não foi tanto, já tem uma… Acho que, no colégio, a gente já tem professores mais com, uma outra cabeça, assim. Os professores primários são muito… Pelo menos na minha época, eram muito fechados, a gente sabe hoje que tem pesquisas que mostram que nessa fase da creche e na primeira educação, os casos de racismo são muito graves, né? São sutis, mas…
P/1 – No colegial, você não…?
R – No colegial, eu não me lembro de nenhum que marcou, né? Assim, por exemplo, nessa fase que eu contei para você, primário, ginásio, tem outras também. Mas no colegial, não. No colegial, eu lembro que eu já tava bem interessada em estudar. Eu fiz Jornalismo, né, então eu já tava interessada em passar em cursinho. Foi uma fase de dedicação, mesmo, aos estudos. Eu fui para uma escola, cai numa escola boa. Foi uma coisa meio assim que…
P/1 – Uma escola pública?
R – Uma escola pública boa.
P/1 – Qual que era?
R – Mario Marques, que ficava na… Aí, a gente tava morando na Avenida Sapopemba, no início da Sapopemba, porque a Sapopemba é imensa, né, ali na região de Vila Prudente, Santa Clara, e eu caí nessa escola porque a minha mãe não tinha uma referência, mas deu sorte, me matriculou nessa escola e ela me preparou muito bem para essa coisa do vestibular. Eu fui fazer cursinho depois, mas já bem preparada.
P/1 – E, Vanusia, e os colegas nessa fase? Os amigos?
R – Eu mantive algumas amizades ao longo da minha vida, que é a Alessandra… Nessa época, eu tinha uma amiga, uma nipo-brasileira, descendente de japoneses, a Lucia, e foi uma amigona também, mas depois ela foi embora acho que para Cotia, eu lembro, depois a gente acabou perdendo o contato. Mas, nessa fase, eu continuava amiga da Alessandra e aí, no prédio dela, ela mudou também, aí ela conheceu uma família de meninas que também gostavam de dançar que era a Adriana, Fabiana e a terceira irmã, então a gente continuava indo para o samba, sabe? Uma das coisas que a gente gostava de fazer era isso.
P/1 – Você lembra onde vocês iam?
R – Santana, Barra Funda…
P/1 – Eram espaços…
R – Espaços pra… A gente chamava de sambões, né?
P/1 – E religião, depois dessa igreja, o que mais você começou a participar?
R – Então, aí eu procurei saber também de centros de Umbanda, onde tinham tal e cheguei a ir em um… Acho que era São Caetano. Depois, frequentei esse um tempo, depois fiquei um tempo sem frequentar, coisa do estudo, vestibular, entrar na faculdade, aí novamente… De tempos em tempos, me vem essa vontade de ter essa prática espiritual.
P/1 – Você ia mais para tomar passe ou você começou a se desenvolver?
R – Então, nesse momento era para tomar passe, até esse momento, era para tomar passe. Depois, aos… Deixa eu ver agora, aos 20 e poucos anos, eu fui para essa casa, inclusive, que eu estou até hoje, tem isso também, eu mantenho um pouco as coisas, sabe? Longamente, né?
P/1 – Essa casa de moradia ou de prática religiosa?
R – De Umbanda, eu tô nela há bastante tempo…
P/1 – Você chegou lá e o que aconteceu?
R – Eu cheguei lá e eu fiquei muito tempo, assim, consultando, né, tomando passe, mas eu ia assim, muitas vezes, eu lembro que eles atendiam de segunda e sexta e eu, normalmente, ia assim, de segunda e sexta tomar passe. Acho que eu fiz isso uns dez anos e aí, até o momento que eles falaram que seria bom eu trabalhar, né, que eu já tava preparada para trabalhar como médium e tal. E fui trabalhar e tô lá até hoje, já faz bastante tempo, então sou médium de Umbanda e agora não tanto com essa frequência também, porque depois que eu tive a minha filha, tive outros afazeres, aí, compromissos, não deu para manter, mas eu nunca me afastei. É uma coisa que eu tenho isso, assim, de manter. Eu tô te falando isso porque, recentemente, eu conversando com uma pessoa também umbandista, ela falou: “Já passei por cinco casas”, e aí eu fiquei pensando sobre essa minha vivência, eu falei: ‘Nossa, que coisa, né, eu entrei e não sai nunca mais, fiquei lá”, que bom, porque realmente é uma casa muito boa, devo ter me sentido acolhida, então…
P/1 – Vanusia, você acha que essa prática religiosa para você, ela fortaleceu ou não essa sua identidade? Fala um pouco dessa relação, né?
R – Muito. Então, eu tenho essa coisa dessa necessidade de se manter essa prática espiritual, né, então tinha que ser essa com essa ligação mesmo de uma cultura afro-brasileira, que tivesse a ver com a minha história, ela fortaleceu, sim, porque ela traz todo um universo de conhecimento que nos remete a esse passado, a essa história da vinda dos negros para o Brasil, essa minha história, essa prática popular de raizeiro, de benzimento que tem a ver comigo, com essa coisa do sertão, a minha tia é benzedeira, faleceu também há uns dois anos atrás, mas foi uma benzedeira forte da região.
P/1 – Desde criança você tem essa familiaridade?
R – Tenho essa familiaridade, assim, a gente tinha a coisa de se benzer, minha mãe levava para se benzer também, tinha quebranto, que se falava, pra tudo, não só para isso, mas alguma dor no corpo, aí toma também um certo tipo de remédio. Apesar que, depois de um tempo, a minha mãe se afastou disso, quem voltou a trazer isso de novo para a família, num certo sentido, fui eu.
P/1 – Isso que eu tava querendo perceber, né, com você. Por isso que eu perguntei das suas irmãs. Tem seus irmãos, também.
R – Mas nenhum… Quem trouxe isso de volta muito forte fui eu. A ponto assim, minha mãe, ela… Assim, ela veio para a cidade, aí a cidade, o que as pessoas sabem que na cidade é o que tem de melhor, o remédio é o da farmácia, né? O médico é aquele formado e tal. E é isso que é interessante, porque se você não tiver esse conhecimento dessa história, da sua história e essa valorização, você cai muito facilmente nesse convite para o que é moderno, para o que é industrializado. E a minha mãe caiu muito facilmente nisso, ela foi… Foram alguns períodos, eu falei que ela manteve uma Bahia, depois aí, já com a minha irmã já maior, já foi… Ela foi um pouco renegando isso. Eu sou a caçula e eu sinto que eu fui a que trouxe de novo a ponto de falar: “Mãe, isso aqui você me dava quando eu era criança”, tanto é que ela questionou muito, com a minha filha, eu voltei a trazer isso e ela falava: “Vanusia, mas você tem que levar ela no médico para isso”, eu falei: “Não, pra isso eu não preciso. Pra isso, tem isso…”, porque é o que eu realmente acredito, não é uma questão, apenas de um conhecimento agora essa história, então, vamos viver assim, né? É o que eu realmente acredito e a Savana, minha filha, eu tento fazer isso, evitar ao máximo enquanto eu puder com conhecimento, resgatar o que me foi passado e também já com novos conhecimentos. Não só o que me foi passado, mas agora com as trocas com outras mães ou por leituras e tudo mais, eu tento sempre ir por esse caminho de buscar essa cura na natureza, na alimentação, nas ervas, na questão religiosa. Ela tá muito envolvida, a minha filha, com isso, porque não tem como, é uma coisa que meio que faz parte da minha vida, eu não tenho isso como algo que eu vou lá naquele espaço praticar, não, eu tenho isso, por exemplo, eu saí de casa para dar entrevista hoje, eu peço uma proteção, eu comi um cravo que a gente sabe, por exemplo, que é importante para quando você vai falar. Isso faz parte do todo dia, ela vivencia isso muito porque pra mim é muito natural. A religião, ela faz parte e eu vejo isso, porque… Antes, eu fazia isso naturalmente e não percebia, quando eu passei a olhar outras pessoas, eu realmente percebi que tinha uma diferença, não é assim uma coisa que todo mundo faz. Então tem uma formação em mim, que eu continuo a fazer, tem uma formação forte aí, que assim…
P/1 – Do seu cotidiano, né?
R – Do meu cotidiano. Isso é muito interessante, isso é muito… Faz muito parte dessa cultura popular afro-brasileira, depois você vai vendo, você vai reconhecendo isso, sabe? A religiosidade não como algo exterior. E aí, eu vejo em tudo, quando eu acordo, vou dormir, que mais que eu posso dizer, assim?
P/1 – Vanusia, são… Eu vou dar esse nome, tá, porque eu não tô achando outro, são rituais ou é outra coisa?
R – Também são rituais.
P/1 – Eu sei que lá, quando a gente vai para um espaço religioso tem vários, mas quando você diz que você carrega… Não é que carrega, já faz parte de você essas práticas…
R – Essas práticas rituais assim, não tô conseguindo me lembrar agora, mas assim, sei lá, a própria limpeza da casa, né, as defumações. Não consigo ficar muito tempo sem fazer isso.
P/1 – E são rituais, não aquele ritual que faz para repetir… Eu tô só falando algumas coisas pra te ajudar até para passar pra gente…
R – O que seria isso…
P/1 – Como é viver assim, entendeu? Mas já deu para entender.
R – Já deu?
P/1 – Já. Só se você quiser ilustrar mais, falar um pouco mais, mas já deu para perceber que é diferente de você ir lá um dia da semana e pronto.
R – Isso.
P/1 – Não, você já faz isso como parte da sua vida, né?
R – Isso. E foi muito importante pensar nisso também para trazer essa história toda, né? Talvez eu lembre aqui no decorrer da entrevista…
P/1 – Outras… Pra mostrar pra gente outras coisas que você faz que revelam isso.
R – Isso.
P/1 – Mas já deu bem para entender, sim.
R – Certo. Que bom, então.
P/1 – Deu sim, porque você fala da sua filha, né, que pra ela é normal, já faz parte.
R – Justamente, então assim, sei lá, dormir com patuá, são coisas que a gente faz.
P/1 – Que carregam assim uma energia, uma…
R – Isso. Até é um pouco exagerado, que ela fala: “Aí mãe! Chega, vai! Não é bem assim, também!” (risos)
P/1 – Quantos anos ela tem?
R – Ela tem 11. E ela já chegou às vezes a falar pra mim: “Mãe, vai, para, não precisa fazer isso”. Por exemplo, tem uma coisa muito que eu faço que é, assim, pra todo lugar que eu vou que tenha cachoeira ou mar, eu trago água desses lugares. E eu lembro que, uma vez, a gente foi viajar com ela e ela era ainda pequenininha e a gente tava na cachoeira e ela tomou água mineral, acabou a garrafinha, tal e ela falou: “Mãe, toma, pega a água”, e uma pessoa estava muito próxima, eu fiquei meio assim, né, ela falou: “Pega água pra gente levar”, a pessoa falou: “Você leva?”, eu falei: “Eu gosto de levar” “Mas pra quê?”, e aí, você fica… “Se você não tiver se sentindo muito bem, passa nas têmporas, pode jogar na sua casa ou na cabeça”, mas foi muito engraçado, na verdade, eu não lembro exatamente como ela falou, mas ela entregou, sabe? A pessoa que tava lá, eu fiquei assim, era um grupo de pessoas, tal e uma pessoa só me perguntou, mas todo mundo ficou olhando tipo assim: a macumbeira, né? Porque você vai na cachoeira e todo mundo tava se banhando e tudo mais, eu tava me banhando também, mas… Isso é assim, de lugares longe. Vou pra Bahia, não sei o que, tal, aí tem na mala… O Paulo não acredita, ele fala: “Pelo amor de Deus, isso vai estourar aqui dentro, vai molhar todo esse negócio”, e a gente traz e ela já sabe que a gente traz, que eu uso isso, que eu passo nela quando ela tá mais agitada, a gente passa na cabeça… Enfim… Entre outras coisas, né?
P/1 – Vanusia, esses são aprendizados que vêm da sua família, mas também da prática da Umbanda?
R – Isso. E de uma coisa como eu, Vanusia que agrupo tudo isso, né? Porque, por exemplo, as coisas da água não lembro da minha mãe fazer, mas eu tenho isso. Eu acho que isso foi uma coisa minha.
P/1 – E aí, assim, você disse que teve contato com dois grupos de dança, porque eu entendi que você ia sempre dançar, desde criança, depois no samba, mas em algum momento, você começou a dançar… não digo profissionalmente… Mas para se apresentar?
R – É, aí foi já mais velha, com o Abaçaí mesmo.
P/1 – Foi o primeiro grupo que você começou?
R – Primeiro grupo. Na verdade, eu sempre tive vontade de nácar, né, e eu teria feito… Eu fiz Jornalismo e depois dança e eu, certamente, teria feito o contrário, mas precisava de uma profissão que… Não via possibilidade de me manter como uma artista, né? Não tinha isso em casa, não tinha nem essa informação, não tinha… Imagina, não chegava. E aí, então, aí já bem mais velha, madura, mesmo, uma amiga minha me convidou pra ir no Abaçaí e a gente foi e aí foi o primeiro encontro, então. Porque aí já foi de cara, eu já trabalhava com essa questão das danças populares, aí eu me revi e trouxe toda a história assim.
P/1 – E você trabalhava como com as danças? Antes de encontrar o grupo, você já trabalhava?
R – Não.
P/1 – Ou lia?
R – Eu acho que eu falei trabalhava mesmo, mas trouxe toda aquela história, que eu vivi desde pequena. Então foi isso, eu tava trabalhando nessa época… Eu fiz muita coisa, eu já fui de balconista de farmácia, trabalhei já em escritório de Contabilidade, já fui secretária, já fui recepcionista de uma editora, fui bancária aos 17 anos, já vendi muitas coisas para me manter, já fui essas pessoas que fazem pesquisa na rua…
P/1 – E o Jornalismo, eu até perguntei porque eu achei que no Jornalismo talvez você tivesse já…
R – No Jornalismo, não, mas foi uma… Deixa eu ver no Jornalismo… Não, no Jornalismo não…
P/1 – Não teve relação?
R – Não teve relação com a dança. Foi já nessa fase do Jornalismo que eu voltei a assistir espetáculos mais de dança e tal. Mas não era com esse tipo de dança que depois eu vim mesmo praticar.
P/1 – E a, você encontrou o grupo…
R – Aí, eu encontrei o grupo e fiquei já. Foi uma coisa assim, também, imediata, já entrei, já participei de alguns ensaios e aí, na época, o Toninho Macedo já me chamou para fazer parte do corpo de bailes, aí já fiz algumas aulas também, paralelas e aí foi isso, essa entrada. Só que eu fiquei pouco tempo no Abaçaí, pouquíssimo tempo, nem dois anos.
P/1 – Não se apresentou nenhuma vez?
R – Me apresentei logo com eles, porque eu já tinha mesmo essa facilidade de pegar coreografias, coisas relacionadas ao corpo assim.
P/1 – E o ritmo também, né?
R – É, já tinha. Então, eu saía muito antes para dançar quando tinha a época da lambada, eu falei só do samba, mas tem umas baixarias, tem a lambada, tem o axé (risos), então, na verdade, por exemplo, a gente fica falando do axé, né, mas eu também cheguei a sair para dançar bastante assim.
P/1 – Tudo que era dançante, né?
R – Tudo que era, no fundo, no fundo, tem um tambor ali. O axé no fundo tem uma batida, lá atrás, mas tem uma batida de samba de roda, né?
P/1 – Vanusia, eu tô sempre voltando, né, e fazendo essas pontes, né? Até então, era o samba, essas músicas mais populares no sentido de mais ouvidas, mais dançadas, né? Mas o samba de roda ainda não tinha esse nome pra você, né? Você não reconhecia…
R – Não, não tinha. Tinha já aquilo que eu falei lá na Bahia que era uma dança de roda, mas que não era o samba, que era uma coisa de jurar versos um para o outro e aí, trocava de lugar, com palmas, mas não era o samba de roda, não.
P/1 – Por enquanto, ainda eram as músicas que você tinha na sua convivência?
R – Que era através da mídia. E o forró que era através das festas de família, mas também veio através da mídia, né, o Luiz Gonzaga, Genival Lacerda, então era isso.
P/1 – E quando você fez parte desse grupo, aí você ficou um tempo e depois saiu?
R – Depois eu saí.
P/1 – E era um grupo que dançava mais o quê?
R – Então, era o ballet folclórico que eles chamavam, o Abaçaí, era uma variedade assim, de danças populares, que eu lembro que tinha o maracatu, tinha o boi também deles, era uma coisa já meio… Digamos, já com uma certa interferência, né, assim, não é o tradicional, uma coisa mais para o palco que o Toninho tinha, essa pegada mais de fazer uma coreografia já pensando no palco, a relação com o público, então tinha o maracatu, boi, tinha Moçambique, samba de roda, catira, era uma variedade, né? Por isso que eles chamam de ballet folclórico. E aí, eu fiquei um tempo, tinha a chula de palhaço, que eu adorava, a chula tinha essa coisa de acrobática e eu sempre tive essa coisa de pulo, giros, eu adorava. Aí, eu fiquei pouco tempo, não fiquei nem dois anos, e fiquei um tempinho sem dançar. Foi aí que aconteceu quando eu fui no terreiro. Aí, eu fui tomar um passe, conto de novo?
P/1 – Não. Aí foi quando ele te falou pra você continuar a dança?
R – Isso. Aí ele me falou isso, eu fiquei um tempão, então, eu falei: “Ok”, aí pensei em ir para um grupo, qual dos grupos, então, eu fui pro Cachuera!.
P/1 – E como que você descobriu o Cachuera!?
R – Na verdade, a gente já conhecia, porque quando eu era do Abaçaí, o Cachuera! tinha uma relação, então eles iam nos visitar lá no parque da Água Branca, sempre acontecia alguma coisa de festa que eles estavam juntos, iam tocar, dançar e aí, a gente já tinha isso, né, esse contato, então eu já tinha visto a atuação do Cachuera!, já tinha também visto outros grupos, mas eu sinto que eu tinha que ir para o Cachuera! mesmo e foi…
P/1 – Aí chegou lá…
R – Foi super legal, porque eu cheguei lá e… Eu cheguei em 2000, eu e o Paulo, a gente começou a namorar e eu estou lá há 17 anos, em 2005, a gente teve a nossa filha, então eu cheguei em 2000, dois anos depois a gente começou a namorar, três anos depois a gente teve a Savana e a Savana é um elemento agregador, assim, fortalecedor da nossa vivência no Cachuera!, porque é muito importante que ela tenha gostado sem a gente fazer nenhum… Eu nunca precisei obrigar a Savana ir durante um bom período, ela que incentivava muito…
P/1 – Desde pequenininha ela participava?
R – Desde pequena, porque foi bem no auge de tudo, né, então eu lembro até que eu tive a Savana e quatro meses depois, então eu só tive aquela licença, digamos assim, dos quatro meses e eu montei um espetáculo no Cachuera!. Porque aí, eu fui fazer dança depois…
P/1 – Agora, vamos voltar (risos), a gente vai e volta. Você entrou no Cachuera! e aí, conta tudo.
R – Eu entrei no Cachuera!, será que eu já tava fazendo dança? Não…
P/1 – Mas o quê que você encontrou lá? Além dessa relação, né, com o Paulo, depois nasceu a sua menina, mas o que você encontrou dos tambores, da música, da dança?
R – No Cachuera!, essa relação com essa cultura, eu acho que foi ficando mais forte porque lá tem uma… Esse lado da pesquisa deles, né, muito forte, nossa…
P/1 – Mas na época era deles?
R – Na época era deles, mas assim, isso vai te levando a mais descobertas, né? Então, eu acho que essa foi uma coisa que me pegou, me fez assim, descobrir mais coisas sobre eu mesma.
P/1 – Vocês também lá no Cachuera, você começou a dançar lá? Conta como acontece tudo.
R – Na verdade, a gente chega, fala que tem interesse em acompanhar os ensaios, tem interesse em ser do grupo, mas aí você chega, tem todo um processo, você vai acompanhando os ensaios, tal…
P/1 – E esses grupos, do que eles são? O quê que eles fazem?
R – São grupos de cultura popular afro-brasileira, né, grupos que pesquisam essa cultura, que…
P/1 – Todos têm uma expressão artística, ou dança, ou…?
R – Sim. A cultura popular afro-brasileira é múltipla, então é dança, é canto, toque dos instrumentos. Fora isso, a própria feitura dos instrumentos, abrindo um pouco mais para uma culinária, tinha pessoas, por exemplo, tanto no Abaçaí, quanto no Cachuera!, quanto no Cupuaçu e em outros grupos de cultura popular… Tô falando dos que eu cheguei, né, pessoas que cozinhavam, e que trazem mais essa questão dessa culinária ligada a essa práticas também culturais e artísticas, né? Então, esses grupos se mantiveram assim. Tanto no Abaçaí, quanto no Cachuera!, eu cheguei me aproximando, me interessando por essa pesquisa, por essa prática, acho que num primeiro momento, pela prática, mesmo, que era a vontade de dançar, de cantar, né? E, depois, o processo é esse, você chega, fica um tempo e se você tiver mesmo interesse em ficar, você vai sendo incluída, né?
P/1 – Os grupos, Vanusia, por exemplo, quando você chegou, quais grupos existiam já?
R – Que eu conhecia, assim, tinha o Baquebolado também, eu cheguei até a não fazer parte do Baquebolado, mas eu também ia nas festas que eles faziam, então, por exemplo, tinha os cortejos que eles faziam, então eu participei.
P/1 – Tinha algum grupo que… Porque tem os momentos, né, a preparação e depois o momento que acontece, por exemplo, Divino, tem toda uma preparação e a data, o período que acontece toda a festa. Tem algum grupo, não sei se na época que se mantem o ano todo pra dança, pra…
R – Todos eles, na verdade, se mantem o ano todo, porque os ensaios são regulares. No caso, por exemplo, você falou do Divino, então só a questão da Festa do Divino, a gente não mantém uma prática, até temos vontade de tocar caixa durante o ano, a gente sempre fala que a gente precisa se reunir mais durante o ano, mas ainda não conseguimos, mas em termos de ensaios, todos esses grupos têm ensaios o ano inteiro, toda semana, muitas vezes, o Cachuera!, teve uma época que ele teve duas vezes por semana, eu não fiz parte dessa época, mas o Paulo fala que teve uma época em que faziam duas vezes por semana.
P/1 – E aí cada grupo tem a sua característica, seu ensaio específico?
R – Seu ensaio. Então a gente sabe que o Cupuaçu ensaia todas as quintas, o Cachuera! todas as segundas…
P/1 – E lá, o Cachuera!, quando eu falei dos grupos no Cachuera!, isso que eu tava, por exemplo, vocês fazem parte de grupos diferentes…
R – No Cachuera!?
P/1 – É. O Cachuera!, eu entendi, mas só para você contar um pouco como que você foi se integrando, no que você mais participava no Cachuera!…
R – Dentro desse trabalho no Cachuera!?
P/1 – É.
R – Que é assim, tem o Grupo Cachuera! que é o grupo das práticas, né e tem a Associação Cultural Cachuera!, que já é mais ligado à pesquisa.
P/1 – Do grupo mesmo, ainda.
R – Então, aí no grupo que eu cheguei, a gente ensaiava toda segunda e tinha o jongo, tinha o batuque, tinha o congo… Mas aí não tinha uma coisa que participava mais, era assim, determinar o que a gente vai fazer hoje, a gente vai praticar o quê? A gente vai ensaiar o quê?
P/1 – Aí, podia variar?
R – Podia variar, isso.
P/1 – Até para quem for, depois, entender, querer entender como é que funciona ou funcionava, né, por isso que eu tô te perguntando.
R – Sim.
P/1 – Porque lógico, a gente pode buscar todo o material, mas só para você contar um pouco, né, da sua relação quando você chega…
R – Então, tinha isso também, essa coisa de uma prática variada num grupo também é muito assim, inspirador, nossa! Que era uma variedade muito grande, era jongo, batuque de umbigada, congo, candom que a gente chegou a fazer. O grupo tinha sempre uma… Eu acho que a principal característica do Grupo Cachuera! é um grupo de práticas sem a intensão de ser uma apresentação. Aconteceu, aconteceram muitas apresentações, mas, na verdade, o trabalho era sempre assim, a coisa de praticar, quase uma comunidade, uma comunidade não como uma comunidade de cultura afro-brasileira, mas uma comunidade daquelas pessoas que sentiram vontade de voltar a isso, de ter uma relação com essas práticas que levam a uma relação com a natureza, com a espiritualidade, com o canto, com a música, percussão, que são coisas que nos levam para uma verdade mais profunda, né, que não tá ligada à questão da espetacularização, mas só de praticar, tanto é que isso era uma questão no grupo, é ainda e foi muito mais grave porque uma parte: “A gente tem que fazer o espetáculo, a gente tem que apresentar” e uma outra parte: “Não, não é isso, a gente faz isso como quase um ritual”, isso também talvez tenha me pegado no Cachuera!, porque como eu tenho essa pegada das ritualizações, né, e era isso, a gente ia lá para cantar, para entrar em contato com essa essência aí, com essa…
P/1 – Acho que você explicou bem, com essa essência, mesmo, né?
R – É.
P/1 – E eram pessoas de origens bem diferentes?
R – Bem diferentes.
P/1 – Ou todas eram afrodescendentes ou tinham essa ligação?
R – Não. Era bem variado o grupo e também em termos de classe e formação também, não eram só artistas. Eu mesma, quando cheguei, não era… Eu tinha toda essa vivência que a gente conversou, mas não era artista, né? Nem me considero também uma artista. Depois sim, eu fui fazer dança na faculdade, trabalhei um tempo como artista da dança, nem me considero artista da dança, mas não só isso, acho que isso que a prática da cultura popular nos possibilita, que você não precisa ser só cantora ou só dançarina, as caixeiras do Divino, por exemplo, a gente tem muito isso como uma prática de espiritualidade, não artística. As pessoas que vão lá, eu sinto isso, eu sinto isso, eu tô falando por mim e por algumas pessoas, lá não é, realmente uma apresentação, um espetáculo, mas as pessoas se comprometem e voltam no outro ano pra tocar, pra cantar para o Divino, embora não seja um espaço religioso, o Cachuera! não é um espaço religioso, mas se instaura naquele momento um espaço de religiosidade para essas pessoas que, inclusive, já têm práticas religiosas fora dali, quase todas. E tem também as que vão em busca de aprender um toque de caixa das caixeiras, né, lá do Maranhão como mais um aprendizado para a sua formação artística, tem também. Essas pessoas são as que fazem as oficinas e que não fazem parte dessa comunidade da festa que se repete, que vai lá… Eu, por exemplo, sempre fui da dança, então canto pra mim é uma coisa que eu não tenho a menor desenvoltura, não tenho… Mas a prática de tocar pro Divino e cantar para o Divino me fez a aprender, ainda estou super aprendendo, mas já com possibilidade de cantar. Então, eu já entendo um pouco como colocar a voz, mas eu nunca fiz um curso de voz, de canto. Na verdade, as caixeiras do Divino é a minha experiência com o canto e com o toque também, porque se você me disser para dançar, eu danço, eu tenho uma facilidade mesmo com o corpo e é o que eu realmente gosto, mas quando é para tocar pro Divino, eu gosto muito de tocar e cantar porque isso traz toda… Mexe com um arsenal de coisas assim, cantos que têm a ver com aquele passado, mesmo.
P/1 – E, Vanusia, quando você começa a frequentar bastante o Cachuera!, como foi essa história do Cachuera! e você? Conta, você nem precisa esperar eu perguntar, vai contando como foram acontecendo as coisas? Você participava desses momentos, aí você teve o contato mais próximo com o Paulo e aí, você começou a trabalhar lá?
R – Eu demorei bastante para trabalhar no Cachuera!, a gente tá há 14 anos juntos e demorei bastante, acho que eu tô há sete, mas assim… Na verdade, eu sempre, durante todo esse tempo, desde 2002, porque 2000 eu entrei no Cachuera!, mas 2002, desde quando a gente começou a ficar mais próximos, a ter uma relação afetiva, mesmo, toda a história do Cachuera! sempre foi muito presente, porque é natural que a gente conversasse sobre isso, eu fui ficando cada vez mais presente. O Paulo é assim, é meu companheiro de vida, a gente sente hoje isso como um encontro muito especial e a troca foi acontecendo naturalmente. Mas eu fui fazer dança primeiro… Já namorando com ele eu tava no Jornalismo e eu fiquei por um tempo no Jornalismo e uma coisa interessante é que eu trabalhei quando era jornalista na Ática e eu fazia o jornal interno dos funcionários da Ática e eu não sabia que a Ática tinha essa relação com a família do Paulo, né? Depois que…
P/1 – Mas aí você já conheceu ele e estava na Ática?
R – Eu já tinha passado pela Ática, eu acho que já tinha passado, sim, porque foi uma vez, mexendo nas minhas coisas e tal, aí ele viu um jornalzinho da Ática e falou: “O quê que é isso?”, falei: “Eu fazia o jornal da Ática e tal, trabalhei, Fernando Paixão que era o editor na época” “Não acredito”, e ficou nisso, num outro momento, ele contou, ou foi aí que ele contou, eu não me lembro mais, eu não acreditei, muitos encontros, né?
P/1 – E você ficou no Jornalismo bastante tempo?
R – Fiquei dez anos.
P/1 – E nesse período como jornalista, qual era o seu trabalho ou o que você fez de mais significativo pra você?
R – Não, o Jornalismo não foi uma coisa que… Eu tinha, quando jovem, uma ideia de ser jornalista com a intenção de fazer jornalismo investigativo, né? Mas isso não aconteceu. Então, eu fui trabalhar… Eu trabalhei na TV Bandeirantes que foi uma coisa bacana com apuração de notícias, mais para esse lado investigativo e tal, mas depois logo eu já fui para o jornalismo para fazer jornais empresariais, então eu fiz da Ática, eu fiz da Goodyear, BankBoston e isso é muito chato (risos). Eu fiquei pouco tempo porque não dava, então, não tenho grandes assim… Acho que só foi… Depois, eu achei muito importante ter feito Jornalismo, porque eu uso bastante nessa questão, eu usei muito nessa questão da produção cultural. Como escrever um projeto, ser sucinta, me trouxe muitas ferramentas, então assim, eu achei… Não é uma coisa que eu renegue, mas na prática do Jornalismo não teve grandes feitos, não. Aí, quando eu fui fazer dança, me serviu bastante também.
P/1 – Você entrou na dança e como foi?
R – Aí fui fazer dança, né?
P/1 – A faculdade de dança.
R – Eu fui fazer já bem tarde, eu tinha 33 anos. E…
P/1 – Você não tinha a Vanusia ainda?
R – A Savana! Todo mundo faz essa confusão. Não tinha a Savana. Eu comecei a fazer dança antes, um ano antes, ou um ano e meio antes, depois que eu engravidei. Foi muito bom…
P/1 – Você entrou na faculdade, mesmo, de dança, foi uma opção?
R – É, fiz uma opção de entrar na faculdade, até lembro de umas conhecidas falando: “Por que você não faz já um mestrado? Você já tem uma faculdade”, não, eu fui fazer mesmo o curso de dança porque, na verdade, a dança pra mim tinha sido sempre nessa situação de família, depois dos grupos que eu participei, mas eu queria uma formação mais mesmo embasada e preferi fazer e fui aos 33 anos fazer uma nova faculdade e foi bom, foi importante, também.
P/1 – Você concluiu a faculdade de dança?
R – Conclui.
P/1 – Você acha que foi importante por que, Vanusia, nessa sua trajetória toda? Já que a dança foi sempre tão importante…
R – Sim.
P/1 – Ela trouxe o quê? Você acha que trouxe…
R – A faculdade, deixa eu ver… Porque não é a dança, né, é a faculdade de dança…
P/1 – Os conhecimentos que lá te passaram, né? Até porque… Por que que eu tô perguntando? Porque no Cachuera! você falou que tinha muita pesquisa, né?
R – Isso.
P/1 – E aí, na faculdade, você já conhecia o Cachuera!?
R – Já. Já tava no Cachuera!.
P/1 – E aí, você fez a faculdade de dança?
R – Sim.
P/1 – Então, o quê que ela te trouxe? Esses conhecimentos ali acadêmicos?
R – Acho que realmente foi uma coisa que… A pesquisa fica mais fundamentada, fica mais séria, fica… Eu sou esse tipo de pessoa que preciso desse investimento numa pesquisa, sabe, pra… Eu acho que é isso, não teve grandes também…
P/1 – Porque, às vezes, pode não ter trazido, também…
R – Eu acho que trouxe, sim. Trouxe com certeza.
P/1 – E Vanusia, lá no Cachuera!, você disse que eles também faziam muitas pesquisas, né? E aí, também vou fazer a mesma pergunta: acrescentou alguma coisa?
R – Muita.
P/1 – Você consegue dizer: “Isso aqui, realmente, fez diferença"? Sempre tem muita coisa, mas…
R – Muita coisa, deixa eu ver… É muito diferente você praticar dança só e você saber a história daquela dança, o significado, a relação porque você estabelece relação com a sua própria história, acho que te fortalece para enfrentar essa sociedade aqui, né, que é preconceituosa em relação a essas práticas, também. Acho que é isso, acho que é o ponto principal, esse fortalecimento pra que você esteja nessa sociedade de uma forma mais preparada e com esse conhecimento, dessa história. Acho que só esse conhecimento, como eu disse lá no início, é capaz de te fortalecer para esse embate, infelizmente, para esse embate, é diário esse…
P/1 – É diário ainda, Vanusia?
R – Não tanto, mas eu não tô só falando de mim, nesse caso…
P/1 – Eu também não, do que você observa.
R – Do que eu observo é diário, o tempo todo. Todos os dias tá acontecendo isso. Agora, num grau um pouquinho menor, mas são todos os dias, a gente toma conhecimento de casos que acontecem. Eu mesma quando vim morar nesse bairro, por exemplo, e eu tava com a minha filha, já aconteceu várias coisas também, mas nesse bairro com a minha filha, eu tava de costas, ela tava dentro do carrinho, então primeiro, que a pessoa, os caras não viram como era aquela criança e eu tava empurrando o carrinho, subindo e eu ouço assim: “Babá gostosa”, aí eu fiquei pensando: “Poxa vida, acho que para essas pessoas, eu nesse bairro só posso ser a babá”. E ele não tinha visto a criança, porque poderia ser uma criança preta, ou melhor, se ele tivesse visto que era uma outra criança, sei lá, mais claro, só pode ser a babá, né? Mas ele não tinha visto, porque ela tava dentro do carrinho, então de costas, era isso. Nos mercados mesmo, os próprios atendentes acharem que eu sou a empregada e não a dona da casa, já aconteceu.
P/1 – Vanusia, eu pergunto porque no começo da entrevista você tava falando, né, por isso que eu tô perguntando…
R – Eu acho que é importante toda essa pesquisa, esse conhecimento dessa história, essa… Porque te fortalece pra uma situação dessa, uma situação dessa que eu tiro de letra, hoje. Eu respondo, não respondo com… Quando eu falo do embate, não é a briga, mas desse… Do que a gente enfrenta, né? Essa sociedade é mesmo racista, misógina, né?
P/1 – Você falou, Vanusia, uma coisa que me chamou atenção, então por isso que eu vou voltar, você falou… Claro, você conhece muito hoje com todas as pesquisas de toda a sua história, da sua ancestralidade, do vir dessas pessoas que vão vindo de outras origens, enfim, mas você falou de entender o racismo também, né?
R – Isso. Entender como ele funciona.
P/1 – Aquela pessoa, o que ela tá pensando, por que ela pensa assim, né? Você quer falar um pouquinho disso?
R – Eu acho que toda essa pesquisa, todo esse conhecimento nos fortalece mesmo para enfrentar isso que é estrutural na nossa sociedade. O racismo é estrutural e a gente só vai conseguir vencê-lo com ações, mas também com esse conhecimento, é preciso ter esse conhecimento de como ele foi… Como essa sociedade foi impregnada desse pensamento e aí a gente vai tentando desarmar essas bombas que estão aí explodindo o tempo todo, mas você só consegue desarmar com esse conhecimento, porque sentir só, várias pessoas sentem esse racismo, mas é preciso ir atrás de como isso foi elaborado, porque isso é um projeto de uma classe dominante, específica e é preciso entender como que esse projeto se dá, como é que ele foi criado, as bases pra gente atuar de forma a desarmar tudo isso. Não é fácil, mesmo com certo conhecimento, eu não tenho todo conhecimento, eu não posso falar, eu não sou uma pessoa que tenha esse estudo profundo nas relações raciais, mas assim, o pouco que eu tenho já me ajuda bastante a enfrentar isso.
P/1 – E no Cachuera! você encontrou material ou pessoas…
R – Material, pessoas…
P/1 – Sobre isso?
R – Conversas, sim! Encontrei, mas eu já tinha, também, uma certa bagagem e também agora, a partir também, desse encontro do que eu já tinha com o conhecimento que eu adquiri através das pesquisas aí que a gente mantém no Cachuera!, já no terceiro momento, com outras pessoas, também, isso tá se ampliando fora do Cachuera!.
P/1 – E depois da tua faculdade de dança, você… Como é que ficou o Jornalismo? Continuou, parou?
R – Parei. O Jornalismo acho que era mais uma… Dentre as profissões que eu precisava me manter (risos)… Lembrei de uma situação que uma vez, eu tava com um amiga que ela também ia prestar Jornalismo e ela, nossa, ela era muito apaixonada pelo Jornalismo, eu lembro que a gente tava dentro de um ônibus e ela falava com muita paixão e as duas estavam indo prestar e ela toda empolgada e aí, ela me viu assim, e não viu toda essa animação e ela me questionou, falou: “Espera aí, você tá indo prestar Jornalismo e tal, mas você gosta?”, aí naquela época já falava que não, não tanto, porque eu ficava assustada com tanta dedicação dela e eu me via, falei: “Pra mim, não é assim, não nesse nível”, e eu lembro que aí, ela me perguntou: “O quê que você gostaria?”, eu lembro que teve essa pergunta e na cara foi dança, também sem ter a mínima ideia de que um dia eu iria fazer, porque não tinha mesmo essa conversa de que vai ser em casa… Ou mesmo comigo… Em casa não, porque na minha família não precisava, eu decidia, né? Mas nem trazia essa possibilidade, mas lá no ônibus, eu lembro como hoje, sentada as duas, né, e aí, eu falei: “Acho que dança, eu gostaria de poder me ver na dança”.
P/1 – E daí, quando você concluiu a faculdade, Vanusia, você… Como é que ficou a dança, ou antes mesmo? Hoje, como é que tá?
R – Hoje, acho que se eu fosse de novo passar por aquele preto velho, ele ia me puxar a orelha (risos), ele ia falar: “Você tá precisando urgentemente voltar”.
P/1 – Você continuou…
R – Aliás, ontem eu passei com um caboclo, foi festa de Ogum no centro onde eu frequento e ele falou a mesma coisa. Esse já sabe, mesmo que eu já tinha comentado em outros passes, ele: “Mas você não gosta daquilo lá de dar cambalhota, não sei o quê? Seria bom que você voltasse, seu corpo tá precisando disso”, então a dança, hoje, eu sinto que eu quero muito fazer, não sei se ainda… Eu nunca tive, na verdade, uma intensão de ser uma artista que só trabalhasse com dança, porque eu tenho essa coisa, a cultura popular afro-brasileira me pega muito, não só na questão da relação com a minha história, nem em alguns pontos com a minha história, mas nessa multiplicidade que não é só… Eu não consigo ficar o tempo todo me dedicando num estúdio dançando, dançando pra fazer um espetáculo. Eu gosto de conhecer a poesia da música que tem nessas manifestações, eu gosto de ouvir o tambor, eu gosto também de batucar, eu batuco muito pouco, mas eu gosto de experimentar isso. E dançar, tocar, cantar, rezar, essa multiplicidade é muito… Acho que das coisas mais bonitas que a gente pode ver nessas manifestações culturais e artísticas que a gente tem com o que a gente trabalha.
P/1 – É, porque na verdade, pelo o que você tá dizendo, do mesmo jeito que você diz que a religiosidade já faz parte do seu cotidiano, eu tô entendendo que a dança e tudo isso que você acabou de falar seria isso também, né?
R – Exatamente.
P/1 – Não: agora eu vou dançar. Agora eu vou apresentar.
R – É. Perfeito, é bem isso assim, é como prática cotidiana.
P/1 – E aí, no Cachuera!, você continuou participando? Você entrou, fez parte disso que a gente acabou de falar e continuou direto participado?
R – Aí, fiquei um tempo no Grupo Cachuera!, aí fazia também pesquisas de campo, porque a gente já estava juntos, né…
P/1 – Você e o Paulo.
R – Eu e o Paulo, fazendo aquilo que eu te falei, os álbuns de família lá em casa é assim, você começa a pegar…Vocês pediram algumas fotos, aí você vai pegar algumas fotos, aí aparece assim, você tá numa viagem com as crianças, aí aparece um jongueiro, dali um pouco, aparece um tambor, assim, alguma... É muito misturado isso assim…
P/1 – E na sua casa?
R – Também. Então, eu já dançava, daqui a pouco, a gente já fazia trabalhos de campo, eu lembro da gente fazer uma viagem, a primeira viagem que a gente fez juntos, tal, tava na Bahia, e aí a gente viu uma Folia de Reis, a gente logo já foi atrás, acompanhou, né, já criou… Ficou próximo das pessoas, no outro dia, a gente levantou pra alvorada e a gente foi acompanhá-los, e fotografou…
P/1 – Que viagem era essa?
R – Essa foi uma primeira viagem que eu e o Paulo, a gente fez juntos, assim, pra Chapada Diamantina. Então já virou… Sabe, a mesma coisa, assim…
P/1 – Não eram só vocês dois na viagem…
R – Já não eram mais os dois, e isso é a cara dos nossos álbuns, as crianças se divertem. Vamos pegar foto lá da Iara, ou da Savana ou do Bento, 2000 e pouco, aí a gente vai pegar, faz uma pesquisa, entram várias apresentações, jongueiro, batuqueiro (risos), isso é muito a cara do Paulo também. E aí, eu tava dizendo que… A cara do Paulo, não, na verdade, a cara nossa, porque isso foi sempre muito tranquilo pra mim, então a gente tem essa mesma linguagem, isso foi sempre muito: “Vamos fazer juntos, né?” Você tinha me perguntado da dança, como tá, então ela tá nessa prática cotidiana. Eu gosto, por exemplo, há um tempo atrás, começou a me dar uma vontade de novo de montar um espetáculo, mas ele não pode ser uma coisa que eu trabalhe todo dia fazendo produção dos espetáculos, que bom que eu posso… Eu tive condições de ter isso, agora, de não precisar fazer isso, mas eu acho que a relação com essa prática aí da cultura popular afro-brasileira reforça isso em mim, esse meu perfil de poder vivenciar diferentes práticas.
P/1 – Você chegou a produzir?
R – Sim. Olha, quando a Savana nasceu, quatro meses depois, eu ainda tava de licença-maternidade, a gente… Eu escrevi um projeto com duas outras amigas, com a Luanda e com a Betinha e a gente escreveu pelo Cachuera!, elas faziam parte também do Grupo Cachuera!, mas já era uma produção de espetáculo mais contemporânea, todas faziam faculdade de dança contemporânea baseada nesse universo da cultura popular e o projeto foi contemplado pelo prêmio Klauss Vianna de dança da época, então quatro meses depois, eu já me vi… Eu escrevi, achando que… Vamos praticar isso, ver o que a gente tá penando, tal, mas ele realmente foi aprovado. Então, com a Savana já pequenininha, eu tive que ter uma prática de ensaio quase que diário, eu lembro que durante alguns meses foram todos os dias, então eu dava peito para ela no espaço e a gente fez esse espetáculo.
P/1 – E vocês que conduziram todo o processo?
R – Eu e essas duas companheiras da dança…
P/1 – Só vocês duas que dançavam ou tinha mais gente?
R – Aí, a gente convidou o Grupo Cachuera! também para fazer uma participação, quem orientou essa pesquisa foi a Mariana Monteiro e o Paulo e então a gente primeiro fez, se inscreveu, ganhou e aí chamou essas pessoas para orientar, o Paulo, a Mariana Monteiro, acho que eram os dois orientadores principais. A gente convidou também o Grupo Cachuera! pra fazer uma participação no espetáculo e então, teve essa criação…
P/1 – E a estreia como foi?
R – Foi muito… Esse foi um espetáculo muito importante, bem importante. O Paulo fala dele com muita… Assim, prazer mesmo, porque a gente conseguiu reunir aquela questão que a gente tava falando da pesquisa numa prática artística. E essas pessoas, inclusive, hoje, a Luanda que tá na Noruega, ela sempre me fala do quão importante foi aquela pesquisa pra ela, ela sentiu isso reverberando nos trabalhos que ela faz até hoje. Aí eu já comecei também… Fiz uma outra coisa, mas quis me voltar também, na verdade, fui meio que obrigada, porque aí tinha maternidade, aí também já tinha outras questões familiares me chamando mais…
P/1 – Mas você disse que queria, chegou a pensar em fazer outros espetáculos, né?
R – Outros, isso. Aí depois, eu fui fazer outros também e também tive uma experiência de dança contemporânea com uma outra parceira, tivemos outros… Com o Grupo Cachuera!…
P/1 – Chegando a montar, mesmo?
R – Sim.
P/1 – Diferente daquela prática que você já descreveu? Montar mesmo, alguma coisa?
R – Sim, aí foi um outro espetáculo, aí com uma outra pessoa da dança contemporânea, mesmo.
P/1 – Sem essa relação?
R – Sem essa relação com o Cachuera! ou com a cultura…
P/1 – E chegaram a apresentar?
R – Apresentamos. Ficamos em cartaz…
P/1 – Como chamou aquele que você falou antes?
R – O primeiro? Faz tempo, deixa eu ver…
P/1 – Que teve essa relação com a pesquisa, tudo.
R – Não…
P/1 – Mas também não tem…
R – Eu sei que é alguma coisa no Universo Afro-brasileiro… Não me lembro agora, mas posso ver…
P/1 – Não, só para deixar registrado, mas não…
R – Sim. E esse outro já tinha uma coisa mais contemporânea, mesmo.
P/1 – E agora, Vanusia, você não… Faz algum tempo que você não organiza assim?
R – Isso, aí eu fui assim… Faz, na verdade, acho eu uns sete anos ou um pouco menos, seis que eu fui para gestão. Trabalhar na… Assim, eu relutei, relutei, na verdade, a gente sempre trocava coisas, a gente sempre ouvia bastante, mas eu tenho essa experiência, também na minha vida profissional, eu já fiz de tudo e também já trabalhei na administração de algumas empresas, já trabalhei em Contabilidade, já fui bancária como eu falei e, muitas vezes, eu tinha soluções um pouco mais assim: então por que não faz assim, mais simples?, aí isso levou a… O Paulo falou assim: “Você não quer fazer isso?”, e aí eu fui entrando como parte dessa gestão. Primeiramente, a gente teve uma gestão mais compartilhada, eram várias pessoas e tudo mais…
P/1 – Fala disso, porque a gente gostaria de saber um pouco mais de detalhes sobre essa gestão. Pode só descrever.
R – Num primeiro momento, acho que a gestão do… Era um grupo de pessoas que encaminhavam todo tipo de assunto, né, então desde…
P/1 – Você fazia parte dessa?
R – Sim.
P/1 – Conta como era.
R – Era assim, a gente fazia desde a compra de algum equipamento ou de alguma coisa que precisava pro Cachuera! até edital, como a gente vaio fazer o projeto… Então era múltiplo, era uma coisa assim… Aí a gente foi percebendo que era preciso tentar ter uma coisa compartilhada, mas com pessoas mais à frente de determinadas áreas, que tivesse uma agilidade maior para determinados assuntos, porque não dá para todo mundo (risos), por exemplo, o Paulo tem mais dificuldade de encaminhar alguns assuntos administrativos, então ele vai colocar sempre uma questão muito mais aberta pra determinada: “Mas e se isso? E se aquilo?”, isso leva muito tempo, então a gente teve nessa coisa dessa gestão com todo mundo, reuniões muito longas e muito cansativas, quatro, cinco horas, poucas resoluções…
P/1 – Tudo era discutido?
R – Tudo. Vamos comprar uma geladeira: “Qual geladeira você acha melhor?” e aí…
P/1 – Quem eram essas pessoas, Vanusia? Nem precisa dizer o nome, mas qual a participação delas no Cachuera! pra…?
R – É que era assim, a participação era meio múltipla mesmo, então era desde a faxineira que tava muitas vezes: “Não tô querendo falar sobre isso, porque eu tô querendo vir aqui fazer o que eu tenho que fazer, tenho coisas na minha casa…”, parece ser democrático, mas, muitas vezes, você tem que saber como você conduz, porque senão a coisa pode ficar pesado para o outro: “Vamos ouvir todo mundo”, isso mesmo, mas toda semana, a pessoa ficava meio, chegaram muitas vezes a falar, então a pessoa que trabalhava no financeiro, na limpeza, aí as outras tudo bem, que já trabalhava por exemplo, na comunicação ou na pesquisa, no acervo, mas, por exemplo, quando a gente chamou uma outra pessoa também que era mais do administrativo, ela se cansava também de dar opinião em algumas coisas (risos), não sei se eu devo falar isso…
P/1 – A gente tá perguntando porque toda a sua relação com o Cachuera! que como a gente já falou no início, faz parte da sua vida e também, como a própria organização foi se movimentando e a gestão faz parte.
R – Sim.
P/1 – E até porque é uma pesquisa, como a gente falou pra você antes, então desde como as pessoas participam da organização, como elas participam da gestão, tudo isso. E das quatro organizações. Como que acontece no cotidiano essa gestão…
R – Então, e aí, essa gestão, agora…
P/1 – Por exemplo, além de discutir a compra de equipamentos, o que mais esse grupo discutia?
R – Então, desde compra de equipamentos até como eu falei, propostas para editais, passando por… “A tal pessoa pediu para entrar mais tarde”, todo mundo falava. “Você acha que…”, uma outra questão, sei lá, então assim, horários das outras pessoas…
P/1 – Entendi. E editais, por exemplo, essas pessoas também opinavam?
R – Sim.
P/1 – Para os projetos?
R – Algumas, realmente, era necessário que participassem, né, da produção para um projeto para edital, mas assim, opinavam e se não opinavam, muitas vezes, ficavam ali, por isso que eu acho que elas ficavam ali, meio querendo ir embora. Então a minha visão foi a de achar que é preciso tomar muito cuidado quando você fala, uma ideia um pouco sonhadora de uma gestão democrática e também tem graus a gestão democrática, porque quando ela é… Ela não pode ser aprisionadora, porque para tal pessoa pode não ser interessante ficar falando sobre a compra do micro-ondas e para outra pode não ser interessante ficar falando qual é a relação da pesquisa xis com o texto tal. A gente chegou até a ler texto com essas pessoas, olha, não deixa de ser uma coisa bem inovadora, mas talvez o que acontecia, talvez estava mal conduzida, então por isso que ficou insustentável essa gestão.
P/1 – A gente tava falando da gestão, Vanusia, que era assim, tudo discutido, então que pode ter outra forma, então você falou que começou a participar…
R – Eu também participava dessa gestão compartilhada, né? Na verdade, lá no início, não me lembro se era tudo compartilhado, mas nesse primeiro momento que eu me acheguei para participar dessa gestão, a configuração era essa, a gente criou, inclusive, juntos, então vamos fazer um núcleo grande assim e todo mundo participava, então opinava de tudo, como eu falei, também passando por produção de shows e tudo mais. A gente chegou à conclusão de que uma coisa é você realmente, todo mundo dá para falar sobre tudo, mas uma coisa é opinar, outra coisa é você tomar uma decisão baseado num encaminhamento que você analise os prós e os contras e os ganhos, as perdas, isso requer um certo conhecimento, isso é uma coisa muito prática da administração. Então, é difícil um músico falar sobre tudo, um artista da dança opinar sobre… Enfim, as pessoas têm certos conhecimentos, têm seus domínios de conhecimentos, então a gente notou que realmente, esse tipo de gestão, a gente tava perdendo muita força, muito dinheiro também (risos), muito recurso financeiro, muita energia, porque as reuniões se estendiam demasiadamente…
P/1 – Quem fazia parte, Vanusia, mais diretamente dessas reuniões?
R – Da faxineira, num momento, até a faxineira participava, a pessoa da administração, do financeiro, aí a própria pessoa da comunicação, produção, acervo, a equipe, na verdade, era todo mundo que fazia parte da equipe.
P/1 – Eu perguntei para saber quem era a equipe, além dessas que você falou, quem mais fazia parte da equipe? O Paulo…
R – O Paulo, o Renato…
P/1 – Que ele era o quê?
R – O Renato trabalhava num acervo.
P/1 – Ah, então a equipe era essa que você acabou de falar?
R – É, a Renata que era da comunicação, a Isabel que era do financeiro, Shen que era do estúdio, tava mais gerenciando o estúdio que nós temos, o estúdio de gravação, que é um outro ramo aí da Cachuera! e eu, eram essas pessoas. Então, que mais?
P/1 – Aí, você falou que foi vendo, vocês foram percebendo que não tava sendo produtivo…
R – É, que… Então, a gente meio que mudou uma configuração, uma segunda configuração e não me lembro agora, exatamente, como foi, mas a terceira mudança foi justamente ter um núcleo gestor mais enxuto que encaminhasse algumas coisas para que as decisões fossem tomadas num certos núcleos, então esse núcleo gestor era composto por mim, pela Renata e pela Amanda, uma pessoa que veio com um perfil mais administrativo, mesmo, então a gente, na verdade, não encaminhava, a gente avaliava o que era chegado, o assunto que era trazido pra gente para a nossa avaliação e retornava numa reunião também com a equipe. Então por exemplo, do acervo, ou com a equipe da comunicação, a comunicação já estava nesse núcleo gestor…
P/1 – Que era a Renata?
R – Era a Renata, ou da produção de editais, né? Então isso deu um movimento um pouco maior. Algumas pessoas tiveram uma resistência maior em trabalhar dessa forma, mas foram, tentando trabalhar. Outras logo já pegaram, já… E então foi isso, a questão da gestão foi…
P/1 – O Paulo fazia parte desse núcleo mais…?
R – O Paulo fazia parte, mas semanalmente mesmo eram essas três pessoas. Ele fazia parte porque ele era comunicado de todos os encaminhamentos, mas ele tava muito focado na produção dos três kits que a gente fez recentemente, a equipe não dava conta de resolver tudo, mesmo porque era muito trabalho para essa produção desses kits que era livro, CD e DVD de cada comunidade…
P/1 – Quais comunidades?
R – Foi o Batuque de Umbigada, a Irmandade do Rosário de Jatobá e o João do Tamandaré. Então esse trabalho envolvia também essas pessoas da gestão, porque a gente tava ali falando sobre a gestão, depois eu estava assim, vendo: precisa entrar em contato com uma pessoa da comunidade e ver como a gente vai produzir tal coisa, tal oficina lá, então fazia as duas coisas. Porque ainda se mantinha essa coisa de fazer todo mundo, já claro que com uma certa… Com certos focos, né? Mas ainda se mantinha isso. Era basicamente isso.
P/1 – E vocês, quando aconteceu essa proposta de fazer os três kits, isso não era feito antes?
R – É, a gente já tinha feito livros, CDs e DVDs, né, já tínhamos feito os três. Um kit, já tínhamos também feito livro e CD e DVD também, e livro e DVD. A diferença dessa produção, agora, dessa última é que essa foi uma produção em que a gente trabalhou junto com a comunidade na produção do conhecimento. Então foi bem mais assim difícil, difícil não, precisou de mais tempo pra ser elaborado cada um desses produtos, porque a decisão era sempre numa coletividade, na verdade, a gente passou nessa questão da coletividade interna para a questão da coletividade na comunidade, a gente internamente não tava… A gente tava tentando um outro caminho, mas na relação com a comunidade, a gente instaurou essa decisão mais comunitária que é tudo, desde de a decisão da capa do livro, você imagina o que é, né, você decidir com uma comunidade de sei lá, 30, 40 pessoas uma capa de livro.
P/1 – E foi assim, cada coisa?
R – Foi assim. Foi bem puxado, foi uma experiência muito importante pra gente, a gente realmente inaugurou com esses três kits uma nova forma de fazer lá dentro. O Batuque de Umbigada foi o que menos esteve nesse formato, mas por uma questão de que não dava mais, a Petrobrás, nossa patrocinadora, já estava numa pressão muito grande: “Agora tem que terminar”, porque fazer isso aumentou o tempo de execução do projeto em quatro vezes mais, era para ter feito no tempo que a gente fez e a gente foi pedir aditamento, é claro que isso também resultou num custo maior que o patrocínio não foi capaz, também de cobrir, mas era o jeito que a gente tava querendo fazer.
P/1 – O patrocínio era da Petrobrás, como você falou?
R – É.
P/1 – E era de quanto tempo? O projeto inicial?
R – Agora eu não lembro.
P/1 – Mas vocês levaram quanto tempo?
R – Nós fizemos em nove.
P/1 – Nove o quê?
R – Anos.
P/1 – Nove anos pra… Desde o quê? Fala o que aconteceu mais ou menos só pra gente ter uma ideia.
R – São nove anos, mas são três livros, três CDs e três vídeos, documentários. Isso junto com toda atividade da casa, que não parou todo esse tempo, a gente fez Festa do Divino todos os anos, a gente fez vários shows, a gente fez outros projetos, porque a gente foi ganhando outros editais, a gente fez paralelo. Por isso, também, porque se a gente tivesse focado só nesse projeto, é claro que provavelmente teria feito num tempo menor, mesmo com essa condição de se fazer junto. Mas a gente não parou as atividades.
P/1 – Que período você acha, Vanusia, que teve mais atividades acontecendo?
R – Nesse período que eu estou lá dentro?
P/1 – É, não precisa dizer data, mas assim, você disse que há 17 anos que você tá lá…
R – Sim. Poxa, boa pergunta, mas eu acho que nos últimos dez anos, a coisa foi bem potente. Lá no inicio foi potente, depois deu uma…
P/1 – Lá no início quando você entrou?
R – Não, quando inaugurou a casa, que foi logo também quando eu entrei, né? Dois mil? É, mas um pouco antes tinha uma produção de um certo tipo de trabalho lá que era trabalho de campo, muito trabalho de campo, muita filmagem, muita entrevista e depois teve… Isso resultou em alguns produtos, né? Alguns CDs. Depois disso, vinha também paralelamente alguns grupos se apresentarem na nossa sede e tudo mais.
P/1 – Vocês traziam os grupos?
R – É, isso desde o início do trabalho juntamente com essa produção de CDs e de trabalho de campo muito forte tinha a vinda dos grupos, também pra São Paulo. Depois, teve um período assim de entressafra que ficou mais devagar. Eu entrei um pouco aí nesse período aí de entressafra, ficou…
P/1 – Você consegue dizer porquê que ficou nesse período de entressafra? Se foi uma causa externa ou de vocês mesmos?
R – Eu acho que já tinha se produzido muito trabalho de campo, aí era natural que dessa uma baixa, né? E aí a questão ainda das apresentações no espaço não estava muito bem definidas, era mais voltado para a cultura popular, tradicional. E aí teve um período que a gente já começou a incluir também outras linhas artísticas, né? Aí voltou a ter música clássica, voltou não, porque não tinha, começou uma… O Paulo, de novo, a buscar também essa referência dele, então o Cachuera! adquiriu um órgão de tubos, eu já estava nesse período e a volta para a música clássica foi acontecendo. Hoje essa série é… A gente tem uma série chamada Bach Tema & Contratema, que é uma série sólida lá dentro, com recitais, a gente tá, se eu não me engano, já foram 96, tá próximo de completar 100 recitais, todos os meses, a última quinta… Normalmente, a última quinta-feira, mas acontece também de ser num outro dia. Última quinta, mas uma quinta do mês.
P/1 – O Paulo contou como foi isso que você disse de trazer também essa outra linha. E pra você, como que você entendeu isso?
R – Eu sempre fui uma apoiadora de trazer essa outra vivência dele, que era anterior a essa produção do trabalho do campo, porque ele tinha essa vivência sempre paralelo também, ele sempre foi batuqueiro, sempre esteve em escola de samba e música clássica e tal. Quando começou o trabalho do Cachuera! mesmo, ele se voltou muito pra isso, como tudo assim, profundamente, deu um mergulho muito forte, então essa outra parte ficou um pouco esquecida, acho que claro, fazia uma coisa ou outra, tal. Tanto é que no começo, as pessoas reconheciam o Cachuera! como um lugar onde se trabalha com a cultura popular afro-brasileira e, para se ter uma ideia, depois quando a gente começou a trazer de novo esse outro universo, até algumas pessoas também estranharam: “Mas o Cachuera! não faz mais…? Vocês estão fazendo agora recital?”, as pessoas estranharam. Eu sempre fui uma apoiadora de trazer essas outras vertentes também, desde o início.
P/1 – Por quê?
R – Porque eu senti, também, que fazia parte dessa formação mais do Paulo, mas era algo muito forte pra ele, também. Tanto é que o órgão de tubos, eu fui com ele na casa do… A pessoa que vendeu para ele, a gente foi juntos ver…
P/1 – Tem conversa pra você entre tudo isso?
R – Não… Acho que… Não sei, essa é uma boa pergunta entre o universo clássico e o popular? Talvez tenha, sim, porque não é uma cultura… É também como a gente costuma dizer, uma cultura que também não tem muito espaço, é bem diferente, claro da cultura popular, ainda assim, tem um espaço muito maior, mas é um universo desconhecido. É diferente quando… Não é o que tá na mídia, não é um rock, sei lá, não é uma música clássica, assim, da forma como o Cachuera! trabalha é também… As pessoas não conhecem, né?
P/1 – Seria trazer também essa história?
R – É, acho que trabalha com o que não é… Formas não hegemônicas de cultura, acho que é um pouco isso, porque Bach também não é algo… Não é assim, como dizer? Não tá nos programas de auditório, não tá na rádio, na TV, assim como a cultura popular… Eu sinto que eu sempre falo, o Paulo também, que a cultura popular tem uma erudição muito fina, é diferente de um… Sei lá, do que tá mais no “populesco”. Não sei se é essa a palavra.
P/1 – Deu pra entender, sim.
R – Deu pra entender?
P/1 – Deu, total. Quando você fala que vocês trazem o que não é hegemônico, mas não é hegemônico por motivos como você falou antes, de uma organização social…
R – Isso.
P/1 – Então vocês trazem isso junto com a história, né? O Paulo já falou bastante, mas eu queria ouvir de você como que você vê, né, ou sente, enfim… Vanusia, e como vocês estão se organizando agora? Porque eu vou só tentar recuperar pra ver se eu perdi alguma coisa, teve todo esse trabalho de campo, que eu queria só perguntar depois especificamente disso, tem essa entrada que você acabou de contar dessa outra música e teve os kits que também abriu para a participação deles para a construção, elaboração e vocês concluíram os kits. E como é que tá o Cachuera! agora com essa gestão de uma forma mais organizada?
R – Essa primeira fase do Cachuera!, esse mergulho no universo cultural afro-brasileiro, popular, de uma intensa pesquisa, prática e tudo mais era, digamos assim, esse primeiro momento, então era muito, digamos, de certa forma, até festivo, no sentido que estava se descortinando, muita coisa nova…
P/1 – Você fez parte de alguns momentos desses?
R – Não, eu já estava na cultura popular, mas não no Grupo Cachuera!. O segundo momento é essa coisa já da transição, já incluindo, também, esse outro universo musical, clássico e também popular brasileiro, MPB e, paralelamente a isso, vem todas as questões de como organizar tudo isso, porque no início, eu sinto que era muito mais assim, aquela primeira fase é mais divertida, né, era muito novo, aí depois como organizar tudo isso trouxe um peso maior, eu sinto nas falas das pessoas e também avaliando mesmo esse histórico, sabe assim de como reorganizar isso, o que fazer com isso, como administrar uma instituição, uma administração financeira, de pessoas e uma gestão administrativa, né, que não tínhamos, não tivemos como escapar porque não tem, a coisa tá aí, foi criado um espaço imenso, como administrar aquilo, aquilo tem goteira, aquilo tem… Começam a vir as coisas práticas do dia a dia, então já é um momento mais duro, acho que menos festivo e mais também na própria relação com as comunidades mesmo, de esclarecimento, de quem realmente nós somos. Então, tudo isso é bem mais assim, acho que mais na coisa da praticidade, menos… Nesse início, o Paulo fala que é muito mais aventura, gostoso, leve, depois realmente não tem como escapar do que vem depois, né, precisa assim, a instituição… Então teve isso. Como tá agora? A gente precisou mesmo dar essa pausa porque foram anos de trabalho seguidos, produzindo muitas coisas paralelamente, então essa pausa foi num momento também de dificuldade do país, de congelamento de muitos recursos aí para a área da cultura e também dessa dificuldade, mesmo, política e econômica que a gente já vinha sentindo, né?
P/1 – Dentro da organização, aí?
R – Dentro da organização por conta dessa coisa mundial, dessa crise que é mundial, né, que foi afetando recursos que o Paulo tinha, que ele conseguia, ainda, tirar e direcionar para o Cachuera!. Fora isso, a própria questão, mesmo, da saúde da gente mesmo que precisou dar um tempo porque foram muitos anos mesmo de trabalho seguido, para você ter uma ideia, eu tô há 17 anos lá, esses 17 anos de muito trabalho volumosos, de muitas coisas, muitas produções. Antes de mim, antes desses 17 anos, já tinha ele lá fazendo também, muito tempo, já, sei lá, uns oito anos antes. Então, era necessário esse cuidado um pouco também consigo mesmo, a gente precisava cuidar da gente e então tudo isso culminou, né, cuidar da família, cuidar da gente, cuidar dos recursos, pensar em como seria agora, de onde viriam esses recursos e como manter de uma forma mais sustentável, né? Então essa pausa foi necessária para pensar tudo isso. Ela vem num momento muito importante também agora com o fechamento desse ciclo, aí dos kits, dessa nova ideia de trabalhar junto com a comunidade, então a gente escolheu esse momento também de que seria um momento certo para reduzir as atividades, porque a gente, na verdade, o Cachuera! não tá fechado, algumas coisas não dá para parar, não dá e a gente não quer. Por exemplo, Bach Tema & Contratema continua acontecendo, a Festa do Divino tem uma sequência, a gente não pretende parar, interromper a festa e algumas coisas que aparecem que, por exemplo, já na redução, por exemplo, a gente teve o pedido de um boi que veio do Maranhão, estava aqui em São Paulo, precisava de lugar pra dormir, aí a gente ofereceu, nos procuraram e a gente ofereceu a casa e aí aconteceu também uma oficina que eles quiseram retribuir. Então é uma redução das atividades, porque parar, realmente, não dá. Já aconteceram várias outras coisas desde que a gente deu essa pausa, mas essa pausa tá sendo muito importante pra repensar, pra ver como que a gente vai recomeçar…
P/1 – Vanusia, quando foi essa pausa, que começou a pausa?
R – Começou no final… Vai fazer um ano. Em junho do ano passado.
P/1 – Vocês terminaram os kits quando? Só pra gente, mais ou menos, entender…
R – Sim, eu acho que se eu não me engano em abril.
P/1 – Do ano passado?
R – Do ano passado.
P/1 – Entendi. E o Paulo falou de uma reorganização de espaço que vocês estavam naquela casa, que acontecia tudo isso…
R – Isso.
P/1 – E agora vocês têm uma outra… Um outro espaço…
R – É, há um ano, agora vai fazer mais, né, a gente já estava há um ano e pouco na nova casa quando a gente resolveu fazer então, a pausa.
P/1 – Ah, vocês já estavam?
R – A gente já tava, a gente já mudou para a casa da Bartira, então tem a sede lá na Rua Monte Alegre que ficou mais o estúdio e um espaço para essas apresentações. E lá embaixo, na outra casa…
P/1 – Na Bartira?
R – Na Bartira tem os escritórios e parte do acervo… O acervo, não, a biblioteca…
P/1 – Ficou na Bartira, né? O acervo que você diz?
R – O acervo de filmagem…
P/1 – Porque tem a parte de preservação, né?
R – Tem, tem.
P/1 – Ficou na?
R – Na Monte Alegre, porque já tem todo um recurso lá…
P/1 – Mas as pessoas que querem usar a biblioteca, ficou na Bartira. Mas isso, então, já tinha acontecido a mudança?
R – Aconteceu a mudança antes de fechar. Acho que a reorganização de espaço que ele tá falando, acho que agora, como usar essa nova casa?
P/1 – A Bartira?
R – É.
P/1 – Porque vocês… Então, qual é a resposta (risos)? Ela vai continuar existindo, não?
R – Pois é, não sabemos.
P/1 – Entendi.
R – Não sabemos, mas existe uma ideia de existir através de ser um espaço para cursos, isso sim, talvez seja um uso interessante do espaço.
P/1 – E quando a gente fala: “A gente quer ir no Cachuera!”, alguém vem aqui que não sabe desse processo e pergunta.
R – Então, ele tem hoje uma pessoa que tá lá para recepcionar as ligações, atender o público e dizer que realmente a gente tá num momento de pausa e que assim… As pessoas recebem, quando tem atividades, elas vão receber através do nosso mailing, através das redes sociais…
P/1 – Isso na Bartira?
R – Nos dois espaços. A Festa do Divino acontece nos dois espaços, por exemplo. Mas toda a tribuna, por exemplo, ela é montada lá na Monte Alegre, que é onde ficam as crianças, o Império, tal, do Divino. Os shows acontecem na Monte Alegre. Na Bartira só tem mesmo agora uma pessoa lá atendendo, recepcionando as ligações, tal. Não acontece, não tá tendo uma atividade lá, mais mesmo no primeiro espaço.
P/1 – A biblioteca está aberta ainda?
R – Não, a biblioteca está lá na Bartira, mas ela não está com consulta ao público, não está aberta.
P/1 – Antes tinha, né?
R – Sim.
P/1 – Era direto?
R – Não está aberta para consulta no momento, mas a gente vai voltar, né?
P/1 – Quais são as perspectivas, Vanusia, agora?
R – Isso é muito… Também, não saberia te dizer. A perspectiva eu acho que é a gente ter uma gestão que dependa menos de mim e do Paulo. Precisa encontrar essa gestão, né?
P/1 – Por quê?
R – Porque não dá, mesmo, para fazer tudo e mais a gestão, pensar curadoria, né, hoje… Lá eu tava na gestão administrativa e também curatorial da instituição.
P/1 – O que seria essa parte curatorial?
R – Pensar nos projetos que a gente vai colocar em leis de incentivo, nos parceiros que a gente vai ter, basicamente isso assim…
P/1 – Apresentações entra nisso?
R – Apresentações também, apresentações, o Paulo decide mais, né?
P/1 – Entendi. Então, gestão quando você diz que tem que acontecer e vocês não necessariamente participando, é a gestão mais administrativa, poderia dizer isso?
R – Isso. Mais administrativa, com certeza. Administrativa, financeira e de pessoas.
P/1 – Aquele núcleo de três que você era parte fazia tudo isso?
R – Fazia tudo isso.
P/1 – Entendi.
R – Aí, agora com o desligamento dessas pessoas, então, tá comigo e com o Paulo.
P/1 – Agora não tem mais aquela equipe que você falou de uma pessoa do acervo, não tem essa equipe?
R – Não. Essa equipe foi desligada ha um ano atrás.
P/1 – Entendi.
R – Agora só tem mesmo eu e o Paulo, que recebe alguns pedidos, o Shen que é a pessoa do estúdio, o estúdio continua ativo.
P/1 – Para gravações?
R – Pra gravações e é isso, o estúdio e uma recepcionista.
P/1 – Vanusia, e aquela prática que quando você chegou lá em 2000 que era tão emocionante, pelo o que você contou, passou isso, aquela prática daquele grupo que tinha um dia congo, um dia… A gente vai experenciar, né? Isso aí foi até quando? Ou sempre teve?
R – Sempre teve, na verdade, ainda acontece, porque o Grupo Cachuera! tá ativo.
P/1 – Ah! E quem é o Grupo Cachuera!?
R – Ah, são várias pessoas (risos), mas o Grupo Cachuera está ativo e assim, eu, por exemplo, não frequento mais regularmente, mas muitas vezes, a gente tá junto, eu vou para um ensaio ou vou e faço parte de uma apresentação, então essa pratica ainda acontece, com menos regularidades pra mim, mas o grupo sim, o grupo se mantem.
P/1 – E onde ele acontece?
R – Ela tá acontecendo, agora, mais na Casa Verde, porque um dos integrantes do grupo teve um acidente com essa pessoa e ele tá precisando, ele acabou ficando na cadeira de rodas, então ele precisa de uma certa estrutura pra estar nos ensaios, então a casa dele é uma casa super gostosa, grande, espaçosa, tem um quintal maravilhoso, então o grupo vai para os ensaios na casa do Valente.
P/1 – Entendi. O Grupo Cachuera que eu entendi na história do Paulo foi criado… Uma das pessoas que criou o grupo foi o próprio Paulo?
R – Isso.
P/1 – Mas ele hoje independe da instituição?
R – Isso. Independe. Ele ficou muito tempo no grupo, direto, formando muitas pessoas…
P/1 – Formou?
R – Muitas pessoas. E aí, ele passou o bastão já para outras pessoas também, mas já teve outras pessoas na condução do grupo, né, o próprio Marcelo Manzatti teve um período que ele conduziu, mas já faz um certo… Aí o Paulo voltou e aí, depois na nova… Quando ele se afastou de novo, ele passou a condução para o Cesar. E é o Cesar e assim, no administrativo do grupo, acho que é o Valente, na produção tem a Marcela e a Kelly, então é um coletivo, né? E é isso, então o grupo tá com os ensaios lá, toda segunda-feira. Ele manteve essa característica de reunião, de fogueira, vamos nos reunir ao redor da fogueira pra tocar, cantar, celebrar. Ele manteve isso, tem apresentações? Também tem, porque muitas vezes, acontece o Divino chamado, mas o foco do grupo não é esse, na verdade, acho que o foco do grupo, como eu falei, nunca foi, ele nunca foi um grupo para ter uma prática artística de palco. Já aconteceu, mas assim, o encontro era mais importante ao redor da fogueira para celebrar e isso se manteve. Teve muito mais encontros do que apresentações, nem se compara.
P/1 – E você vê relação ainda do grupo com a organização?
R – Ah sim, eles mantêm uma relação com a associação, existe um diálogo da gente passar coisas, eles também nos chamarem. Eles estão presentes na festa do Divino todo ano, a relação existe.
P/1 – E a pesquisa?
R – A pesquisa do grupo? Acontece também, acho que com menos intensidade, mas porque o grupo também é muito antigo, né? Se eu não me engano… Deixa eu ver, acho que é 94, 92, então essa pesquisa… Mas como sempre tá entrando gente nova é importante que a pesquisa se mantenha, né?
P/1 – Isso que eu ia perguntar.
R – A pesquisa tem que ser contínua, mesmo. E acontece, sim, eles continuam indo com menos intensidade, mas existe, sim, essa preocupação de pesquisar na fonte.
P/1 – Essa fonte seria onde?
R – As comunidades afro-brasileiras produtoras desse conhecimento de dança, música, poesia, confecção de instrumentos, culinária…
P/1 – A pesquisa, quando a gente fala, é uma pesquisa em campo, mesmo?
R – Em campo, é. Sempre foi, desde o início, a pesquisa sempre foi em campo.
P/1 – Então as pessoas novas poderão, também, participar dessa pesquisa?
R – Isso.
P/1 – Não é só passado para elas o que alguém já pesquisou?
R – Não. Aliás, é importante que ela pesquise, isso é muito importante que essas pessoas que estão chegando tenham também essa mesma atitude de ir a campo, né? Isso é uma coisa muito séria do trabalho do Cachuera!. Durante muitos anos isso foi com muita regularidade. A gente chegou a fazer o novo filme aí sobre o Batuque de Umbigada e nessa… Eeu escrevi um pouco pra chegar numa ideia do que seria esse novo filme, já que a gente já tinha produzido um, né, então, aliás, foi um filme que eu sugeri para a instituição porque a questão da… A constituição do batuque tava bem diferente daquele anterior, com muita gente nova, muitos jovens protagonistas nessas comunidades. E aí, quando a gente começou a escrever, a gente percebeu que o tempo de ida a campo, então assim, por mais de dez anos, o Cachuera foi assim, religiosamente numa festa que acontece em Tietê, por mais de dez anos. Agora, vai menos, mas nunca para completamente, a gente continua indo no Tamandaré, a gente continua indo em Piracicaba, no Tietê, essa troca é contínua, é muito interessante, ela é muito uma marca, mesmo. Assim como outras pessoas também, que também têm essa permanência nessa pesquisa a campo, né?
P/1 – Quando você fala… Só para encerrar essa parte, quando você falou “o Cachuera!” vai”, é o grupo ou a associação?
R – Os dois, nesse caso, continuam indo algumas pessoas do grupo e algumas pessoas da associação.
P/1 – Vocês têm ações conjuntas, assim?
R – Sim. Essa coisa das apresentações…
P/1 – Não, de ir a campo, por exemplo?
R – Sim.
P/1 – Ainda é uma ação conjunta?
R – Sim, normalmente, aluga-se uma van: “Quem vai?”, e aí vai gente tanto da associação quanto do grupo Cachuera!. É meio que uma coisa só, é que é assim, difícil falar que é uma coisa só, porque as pessoas não estão trabalhando internamente, nem todas as pessoas da associação frequentam os ensaios do grupo, então, não é uma coisa só, mas tem muita conversa, muito diálogo. Isso também já teve mais, passou a ter… Teve tempos em que ficou bem sem diálogo, voltou a ter, então assim, depende muito da época.
P/1 – Entendi. E Vanusia, pra gente encerrar, fala um pouquinho dos filhos, dos três, como é que eles se relacionam, se são os três seus… Pra gente encerrar.
R – Os filhos, o Paulo teve dois filhos primeiro com a Andreia, que é a Iara e o Bento e Andreia também foi durante um tempo ligada a associação, fotografou muito as comunidades de cultura popular. E o terceiro filho que é a filha terceira, é engraçado porque tem o Divino, tem um verso, aí deixa eu ver se eu vou lembrar, mas é “Meu Divino Espírito Santo…”, alguma coisa assim: “Salve o dono da casa e sua filha”, aí a gente fala: “Salve o dono da casa e a sua filha, a primeira ou a sua filha terceira?” (risos), mas acho que não é nem legal colocar isso, porque aí a gente não salvou o Bento que é o filho segundo (risos), então tira esse verso (risos). Mas a Savana, que é a nossa filha, então são esses três. A gente conviveu muito tempo, eles eram muito presentes na casa do pai, a gente mora relativamente perto, então a gente tem uma convivência próxima e, durante muito tempo, uma convivência semanal muito próxima, toda semana. As férias, por exemplo, também, a gente passava junto durante muitos anos, aí metade das férias era sempre… Aquela coisa de casal separado, metade das férias eram com o pai, metade eram com a mãe, então a gente conviveu muito junto sempre, a Savana tem essa coisa, uma relação com os irmãos muito próxima.
P/1 – Que idade eles têm hoje?
R – A Iara hoje tá com 23, se eu não me engano, 22 ou 23, e o Bento tem 16 e a Savana tem 11. Meio que de cinco em cinco… Seis primeiro, a diferença e depois a diferença do bento para a Savana é de cinco anos.
P/1 – E a convivência da Savana com toda essa prática de vocês? Você já falou um pouco, mas pra gente fechar.
R – A Savana, assim, eu sinto que ela veio fortalecer essa convivência artística minha, do Paulo e na relação com as pessoas, porque ela assim, a gente nunca precisou forçar a Savana a ir nos batuques, nos encontros, nas festas ou mesmo nas apresentações do Cachuera!, ela sempre teve uma vontade, mesmo, muito de estar presente. Então tem várias situações, aquela da foto que ela tá ali, o Reverendo, que foi uma pessoa muito importante na associação e no Grupo, uma pessoa que vestiu a camisa do Cachuera!, um parceiro forte mesmo… Mas voltando na Savana, ela tava ali na Festa do Divino, ela tava num período em que ela ficava com medo de fogos, mas ela também queria estar ali participando, chegue até a falar pra ela: “Fica aí dentro, na sala, tal, a gente vai, faz o cortejo e depois volta”, mas ela queria participar do cortejo, carregando a bandeira, dançando, e ela ia mesmo assim e aquela foto mostra bem, assim, o Reverendo viu que ela tava meio com medo e ele foi lá e acalmou, falou no ouvido dela e nisso, a Andreia tirou, a Andreia que é a madrinha do mastro, tirou a foto, foi uma foto bem bonita, assim, que vocês vão ver aí na relação. E outra coisa sempre assim, sempre quer estar junto, sempre quer ir nas festas, é dela, ela gosta, agora tá com 11 anos pra 12 já, tá numa fase de também curtir outras coisas, então assim, de querer estar já nos bailinhos com as amigas, já tá fazendo, mas ela, por exemplo, quis muito ser a Imperatriz do Divino, quis muito, ela desejava isso, ficou alimentando e até que chegou a hora dela, foi um sofrimento, tiveram acho que umas duas ou três escolhas que não foi ela a escolhida para ser a Imperatriz, então, ela… Na última vez, ela já tava decepcionada: “Não vou mais participar da festa”, ela ficou muito decepcionada da última vez. Aí eu falei: “Não…”, aí ela entendeu que foi muito importante para ela quando ela foi escolhida, né, ela fala: ‘Que bom, né, mãe que eu fui escolhida agora”, porque é o Império, as outras crianças que foram escolhidas foram crianças que tiveram, que ela desenvolveu uma amizade muito legal, tá desenvolvendo essa amizade muito bacana com essas outras crianças, então ela tá muito feliz de ter sido. Agora ela percebe que foi legal ter sido escolhida naquele momento. E ela tá junto, ela quer tocar… Ela gosta de cantar, então ela faz isso… Muito legal porque das vezes que a gente percebe, como também uma prática cotidiana e não se vê como uma… Não esta fazendo uma apresentação, então todas às vezes que a gente sente ela cantando: “Eu vou cantar o jongo, eu vou cantar aquela música tal”, faz isso de uma forma muito assim, como um aprendizado da vivência dela até aqui.
P/1 – Muito bom. Então, a gente já tá encerrando Vanusia. Tem alguma coisa que eu não te perguntei, mas que você quer muito deixar registrado?
R – Acho que não, acho que eu falei tudo.
P/1 – Sempre quando termina, lembra de coisas ainda…
R – Pode ser, lá em casa, né?
P/1 – Ah, eu vou perguntar uma curiosidade, o Reverendo, por que ele tem esse nome? Ele é uma pessoa que…?
R – Não, acho que… O pai dele era um pastor de igreja e aí eu não sei se tem uma ligação com isso, acho que tem, sim. Mas não, ele não, ele sempre foi do samba e o Reverendo tem uma história interessante, que depois, ele se descobriu, ele faz parte da família tradicional de batuqueiros, mas ele só descobriu isso depois que veio para o Cachuera!. Ele é da família Toledo, Anecide é Toledo, a grande dama do batuque, Dona Anecide Toledo e o Reverendo descobriu que tem uma ligação, eu não lembro agora exatamente qual é a família, mas ele é da família dos batuqueiros, então, Cachuera! reuniu várias pessoas que foram se descobrindo, não foi à toa, assim esse polo que chamou pra essa volta, né, as suas histórias.
P/1 – Muito bom. Então, obrigada, parabéns pela sua história.
R – Imagina. Obrigada.
P/1 – Foi muito bom.
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