Minha mãe, embora fosse filha de uma negra, herdou os seus traços do seu pai que era de origem portuguesa; era morena clara, olhos entre o azul e o esverdeado que mudavam de cor de acordo com as circunstâncias; só o seu cabelo marcava a descendência negra, pois eram bem crespos. Ela nasceu no dia 06 de Junho de l.903 no Solar dos Pinheiros e ali foi criada, mais por Marinhinha do que pela própria mãe. Quando era pequena, minha mãe se recusou a casar, porque já havia enrabichado por outra pessoa, o pai pretendia levar minha mãe para viver com ele. Marinhinha se opôs firmemente e comprometeu-se a cuidar dela, o que fez por toda a sua vida.
Minha mãe, embora não pertencesse à família, foi criada como se o fosse, recebendo uma educação primorosa de acordo com os recursos da época e do lugar, aprendeu prendas domésticas, música e tocava piano muito bem.
Quando era mocinha conheceu um sobrinho do Dr. Oscar e por ele apaixonou, sendo esse talvez, o amor de sua vida. Ele desejava casar-se com ela porque também a amava, mas encontraram uma firme oposição da mãe do rapaz que acabou por prevalecer pondo fim ao romance. Muitos anos depois, inclusive meu pai já havia falecido, por ocasião em que realizava-se uma quermesse em Santo Amaro, esse personagem (Renato), já envelhecido, apareceu lá e minha tia Laura nos apresentou a ele dizendo-lhe que éramos filhos de Quita, que era o apelido de minha mãe. Ele contemplou-nos com um olhar triste, que talvez indicasse o seu arrependimento por não ter lutado por aquele amor
Ele também viria a falecer, e tempos depois soubemos que um de seus filhos fazia muito sucesso como ator de novelas de televisão, estando em atividade até o momento.
Algum tempo depois viria a conhecer meu pai, que mesmo sendo um rapaz de boa família estava bem aquém daquele primeiro amor. Casaram-se e a partir de sua lua de mel já não encontraram uma afinidade, visto que o noivo não teve a delicadeza que sempre é...
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Minha mãe, embora fosse filha de uma negra, herdou os seus traços do seu pai que era de origem portuguesa; era morena clara, olhos entre o azul e o esverdeado que mudavam de cor de acordo com as circunstâncias; só o seu cabelo marcava a descendência negra, pois eram bem crespos. Ela nasceu no dia 06 de Junho de l.903 no Solar dos Pinheiros e ali foi criada, mais por Marinhinha do que pela própria mãe. Quando era pequena, minha mãe se recusou a casar, porque já havia enrabichado por outra pessoa, o pai pretendia levar minha mãe para viver com ele. Marinhinha se opôs firmemente e comprometeu-se a cuidar dela, o que fez por toda a sua vida.
Minha mãe, embora não pertencesse à família, foi criada como se o fosse, recebendo uma educação primorosa de acordo com os recursos da época e do lugar, aprendeu prendas domésticas, música e tocava piano muito bem.
Quando era mocinha conheceu um sobrinho do Dr. Oscar e por ele apaixonou, sendo esse talvez, o amor de sua vida. Ele desejava casar-se com ela porque também a amava, mas encontraram uma firme oposição da mãe do rapaz que acabou por prevalecer pondo fim ao romance. Muitos anos depois, inclusive meu pai já havia falecido, por ocasião em que realizava-se uma quermesse em Santo Amaro, esse personagem (Renato), já envelhecido, apareceu lá e minha tia Laura nos apresentou a ele dizendo-lhe que éramos filhos de Quita, que era o apelido de minha mãe. Ele contemplou-nos com um olhar triste, que talvez indicasse o seu arrependimento por não ter lutado por aquele amor
Ele também viria a falecer, e tempos depois soubemos que um de seus filhos fazia muito sucesso como ator de novelas de televisão, estando em atividade até o momento.
Algum tempo depois viria a conhecer meu pai, que mesmo sendo um rapaz de boa família estava bem aquém daquele primeiro amor. Casaram-se e a partir de sua lua de mel já não encontraram uma afinidade, visto que o noivo não teve a delicadeza que sempre é esperada pelas noivas (isso ela me confidenciaria, em um desabafo) provocando-lhe uma hemorragia quando da primeira relação sexual, perdurando por um largo período o que a desconfortava, porque em conversas reservadas com as colegas chegava à conclusão que aquilo era uma anormalidade. Esse primeiro encontro deve ter marcado profundamente o relacionamento que nunca foi harmonioso; por várias vezes meu irmão e eu presenciamos desavenças, embora houvessem ilhas de harmonia quando tudo parecia que transformava-se para viverem um amor verdadeiro.
Em uma época, há pouco tempo do falecimento de meu pai, foram residir vizinhos a nós, uma família a qual fizemos muita amizade. Eram pessoas de educação refinada, o marido que deveria ter aproximadamente a idade de meus pais, tocava piano e freqüentemente o fazia em minha casa, porque eles não tinham o instrumento. Em minha cabeça imaginava que minha mãe era muito influenciada pela delicadeza de tratamento e talvez houvesse, até, se apaixonado pelo vizinho.
Quando meu pai faleceu eles já não residiam mais ali mas o Sr. Euclides foi expressar as suas condolências à minha mãe. Ela estava regando as plantas do jardim e continuou, constrangida, e quando ele perguntou quando seria a missa ela disse que não haveria missa, (meu pai nem acreditava nisso por ser adventista); ele despediu-se e percebi, naquele momento, que minha mãe deveria estar travando uma luta dentro dela, entre o desejo, talvez, de estreitar aquele relacionamento e a culpa por sentir esse sentimento. Isso se confirmou, de certa maneira, porque depois de um tempo ela me levou junto quando foi até a casa dele (ele residia na Vila Helena, em um conjunto de sobradinhos, todos iguais) e introduziu um bilhete por baixo da porta. Ele nunca mais deu notícias e eu fiquei pensando se ele teria encontrado o bilhete, ou se dentre tantos sobrados iguais minha mãe não teria colocado no local errado. Muitos anos depois meu irmão e eu íamos passando em frente ao Mappin e o encontramos, quando ele nos contou que enviuvara, casara-se novamente e transferira-se para o interior do estado onde se impusera pela sua profissão (ele era dentista).
Minha mãe ficou viúva aos trinta e cinco anos e depois das decepções que deve ter tido nesses relacionamentos, fechou o seu coração e dedicou-se unicamente ao trabalho que tomava conta de todos os seus momentos, pois inclusive residia no colégio adotando aquelas crianças excepcionais como sua família. Quando atingiu sessenta e sete anos aposentou-se mas continuou trabalhando ali até quando o colégio foi desativado por interesse de seu proprietário.
Aposentada, mudou-se para um apartamento em Santo Amaro, que o dividia com jovens professoras, até mudar-se para apartamento menor e viver sozinha.
Certa vez ela e minha tia Negra resolveram que deveriam ir para um asilo, insistiram até que as levassem em uma instituição evangélica na Estrada de Itapecerica. Estiveram quase a decidir-se a transferirem-se para lá. Depois que lhes fiz a vontade tive uma conversa com elas, se seria realmente aquilo que elas desejavam, ou se a liberdade que elas tinha, residindo em seus "cantinhos" não era-lhes mais grato. Chegaram à conclusão que deveriam ficar como estavam, e assim ficaram até os últimos dias de suas vidas. Minha mãe residindo sozinha e minha tia com um filho adotivo, Flávio, que é meu afilhado. Ela faleceu no dia 22 de Dezembro de l.989, com mais de oitenta e seis anos de idade.
(José Wladimir Klein enviou seu depoimento para o Museu da Pessoa em 06 de julho de 1998 pela página na internet, atualizada em 29 de janeiro de 1999.)
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