Projeto Diversidade Cultural Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Mãe Neia (Edineia Cabral da Silva)
Entrevistada por Sofia Tapajós e Aline Mendes
Serra, 28 de fevereiro de 2026
Código: DCC_HV007
Transcrito por Aline Dias
P/1 - Queria começar perguntando o seu nome completo, local e data de nascimento.
R - Edineia Cabral da Silva, data de nascimento 16 do trê 45.
P/1 - E o local?
R - Macambira, estado de Sergipe. A cidade de Macambira no estado de Sergipe.
P/1 - Qual que é o nome de seus pais?
R - José Augusto Cabral, Maria Emília de Jesus.
P/1 - Que lembrança você tem deles?
R – Muita. De tudo: ensinamento, família... Muita saudade! E tudo que eles me ensinaram de bom, que até hoje eu respeito muito ainda a tradição dos meus pais. É, a única coisa que teve o contrário porque... de família católica, super católica, e eu fui para o Candomblé. É única assim, que eu me lembro assim, que eu contrariei foi na questão de eu ir para o Candomblé. Mas eu fui por questão de saúde, não porque eu escolhi esse caminho. Que eu era uma menina muito doente desde que nasci, mas não era doença, era doença espiritual. E não tinha médico de procurar nada. E eu tive que ir para o estado de São Paulo, pra cidade de Santos, onde eu vivi toda minha adolescência, mas onde eu iniciei também no Candomblé. Foi a única coisa que eu lembro que contrariei um pouco meus pais foi no sentido religioso, né? Embora fiz tudo dentro do catolicismo. Continuei, também, ainda de certa forma no catolicismo, porque eu me casei no catolicismo por causa dos meus pais. Meus filhos são batizados no catolicismo também. Não deixei o... Porque o Deus é único, não importa, né? São segmentos diferenciados. Mas eu me dei muito bem dentro do candomblé, dez vidas eu tivesse, voltaria novamente pro Candomblé. Que eu sigo a sinceridade, acredito muito em na força divina. E o Deus é o único, não importa, caminhos...
Continuar leituraProjeto Diversidade Cultural Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Mãe Neia (Edineia Cabral da Silva)
Entrevistada por Sofia Tapajós e Aline Mendes
Serra, 28 de fevereiro de 2026
Código: DCC_HV007
Transcrito por Aline Dias
P/1 - Queria começar perguntando o seu nome completo, local e data de nascimento.
R - Edineia Cabral da Silva, data de nascimento 16 do trê 45.
P/1 - E o local?
R - Macambira, estado de Sergipe. A cidade de Macambira no estado de Sergipe.
P/1 - Qual que é o nome de seus pais?
R - José Augusto Cabral, Maria Emília de Jesus.
P/1 - Que lembrança você tem deles?
R – Muita. De tudo: ensinamento, família... Muita saudade! E tudo que eles me ensinaram de bom, que até hoje eu respeito muito ainda a tradição dos meus pais. É, a única coisa que teve o contrário porque... de família católica, super católica, e eu fui para o Candomblé. É única assim, que eu me lembro assim, que eu contrariei foi na questão de eu ir para o Candomblé. Mas eu fui por questão de saúde, não porque eu escolhi esse caminho. Que eu era uma menina muito doente desde que nasci, mas não era doença, era doença espiritual. E não tinha médico de procurar nada. E eu tive que ir para o estado de São Paulo, pra cidade de Santos, onde eu vivi toda minha adolescência, mas onde eu iniciei também no Candomblé. Foi a única coisa que eu lembro que contrariei um pouco meus pais foi no sentido religioso, né? Embora fiz tudo dentro do catolicismo. Continuei, também, ainda de certa forma no catolicismo, porque eu me casei no catolicismo por causa dos meus pais. Meus filhos são batizados no catolicismo também. Não deixei o... Porque o Deus é único, não importa, né? São segmentos diferenciados. Mas eu me dei muito bem dentro do candomblé, dez vidas eu tivesse, voltaria novamente pro Candomblé. Que eu sigo a sinceridade, acredito muito em na força divina. E o Deus é o único, não importa, caminhos diferenciados, o Deus é único.
P/1 - E que que você lembra de Macambira?
R - A minha infância, né? Foi muito boa. Eu estive até meus 12 anos. E é uma cidadezinha. Na época não era... Era um município, né, da cidade de Campo do Brito. E hoje é uma cidade até maravilhosa. Mas na época era um município de 25.000 habitantes, só. Mas de tudo de bom, porque eu vivi muito! E voltei várias vezes lá, né? Então, se eu tivesse que escolher um local, voltaria para lá. Mas minha vida espiritual tá tudo aqui. Foi aqui que eu me realizei na vida em questão de espiritualidade. Me iniciei em Santos, mas não abri casa lá. E quando eu me mudei para o Espírito Santo, até porque meu marido ia trabalhar na antiga CST, e eu tive que... achou que eu ia parar tudo e não consegui parar. E aqui desde 82 que eu estou aqui no estado. E estou bem.
P/1 – E aí me conta um pouco do que você brincava quando era criança.
R - Eu era assim... eu era muito travessa junto com meus com os meus amigos da época, né? A gente pulava corda, esconde-esconde... Fazia muitas às vezes algumas presepadas, assim. Por exemplo, antigamente tinha aqueles negócio de novena, das festas, aquela festa de são francisco no mês de outubro. E na rua onde eu morava eu tinha um cemitério. E nós fazíamos o quê? Pegava o mamão, descascava, furava os olhos, fazia depois do rosto, botava uma vela dentro do mamão e pendurava na porta do cemitério. E amarrava com um arame de um lado para o outro. O pessoal vinha de fora, no escuro, um pouco escuro, que não tinha luz na época, à luz de motor. O pessoal caía, e assustava, olhava, viu, aquela cabeça não era simplesmente uma caricatura de um ser humano, mas era a gente fazia essas presepada toda. E brincava muito de tudo na época, né? Nós não tínhamos televisão, não tinha rádio, não tinha nada, né? Simplesmente a gente inventava brinquedos, essas coisas assim. Eu gostava muito de... Eu queria ser artista, na verdade. Quando tinha circo na cidade, a gente ia cantar palhaço para ganhar o ingresso. E eu fantasiava na escola, tudo, que na época não falava teatro, falava drama, né, na escola... Eu queria ser artista, na verdade. Que deu foi tudo ao contrário. Hoje sou artista diferenciada. Mas eu também já fiz alguns... peças de teatro de verdade. Aqui no Espírito Santo, com o César Huapaya. Não sei se vocês conhecem, professor da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo). E cheguei a realizar meus sonhos também. É... fizemos uma peça chamada Flor de Nanã, que foi muito bem aceita. E outros também... outros parte assim de teatro também. Mas eu também faço teatro na verdade, porque quando se mostra o Candomblé para sociedade, é uma apresentação para sociedade, é uma coisa bem diferenciada. É um mais um sagrado, não é um profano, né? Mas de qualquer forma a gente bota uma cultura, assim, ligada às fantasias da vida, enfim, que tudo tem que ter uma alegria, um porquê, né? É isso.
P/1 - E como você se sentiu quando você foi para o teatro?
R - Feliz, muito. Realizei um sonho, que eu vi aquela plateia toda, no Carlos Gomes, fizemos nove municípios aqui do estado. Foi uma coisa assim muito boa, muito construtiva, muito muito mesmo. E eu fui muito agradecida a César Huapaya, até hoje, volta e meia ele faz as peça dele, ele me chama, mas hoje eu vou como mãe de santo. Meus 60 anos, ele fez uma peça, assim, direcionada à minha pessoa. Fiquei muito feliz, muito mesmo. Agradecida mesmo, só gratidão. Até nós íamos agora, o ano passado para França e para Tokyo... é Tongo? mas como tava aqueles problemas de guerra, aqueles negócio todo, nós desistimos, né? Estamos esperando na próxima oportunidade para ir para lá. É assim, sou feliz.
P/1 - Você falou da escola, também, quando você era criança...
R - Sim. Eu, a professora do grupo, que é o grupo era em frente da minha casa, ela era prima do meu pai. Então, estudei com ela até o quarto ano ginasial, que a gente falava primário, depois tinha admissão e ginásio. E depois não deu para me dar continuidade, até porque eu tinha que trabalhar, né? Eu os meus pais, assim, não era miserável, pobre miserável assim, não. Tinha um... Gostaria... Mas a gente precisava na época, tinha que trabalhar. Depois que eu fui para Santos também continuei trabalhando. E aí o estudo ficou de lado. Mas ainda fiz algumas coisas também, como um negócio de máquina essas coisas. Alguns cursos que eu precisei fazer, né, para poder atualizar algumas coisas. E eu sempre acompanho, acompanhava quando tinha na Globo... era... de manhã cedo tinha um programa que era... me lembro agora, meu Deus... esqueci o nome como que era, que... passava, assim, para o lado de estudo, né? Eu acompanhava a tela da Globo de manhãzinha. E eu acho que eu tenho uma faculdade que eu não fiz. Porque, assim, eu entendo muito, eu gosto muito assim de acompanhar jornalismo, essas coisas assim, eu me dou muito bem... da cultura, né? Eu procuro não ficar parada, eu procuro entender, ler muito, ler, gosto de ler bastante. E livros eu tenho muito, mas amo ler, tá? Eu só não fiz uma faculdade, mas eu tenho a faculdade que Deus me deu diferenciada, né? Essas aí, às vezes eu faço até palestra assim na Ufes de verdade, outros colégios, tudo. E isso aí me faz com que... Porque eu tive a frustração de não fazer uma faculdade. Mas eu tive, eu também hoje eu me sinto, assim, feliz porque também eu dei aula, assim, não deixa de ser uma aula, para a faculdade, para doutores, para pessoas assim. Por exemplo, tem muita gente que vem fazer o TCC, né, aqui na minha casa, eu vou lá, vejo junto os professores, então me sinto realizada, sabe? Então eu tenho uma cultura assim, não posso me queixar não, eu não sou pessoa assim neutra não, eu sou bem ativa nas coisas assim, eu me sinto bem. Então, eu ainda até pensei outro dia fazer é... um curso porque tem curso de religiões, né? Que é a... passou agora meu Deus. Teologia, né? Porque é importante. Às vezes pastores fazem, as mães de santo também precisava entender, mas a gente estuda muito porque aqui também é uma escola. Porque nós estudamos línguas. Eu tenho três, quatro línguas que eu falo, que é banto, quimbundo, quicongo e iorubá. Então, a gente também sabe entender as coisas, também, sabe falar algumas coisas. Mas não tem aquela formação como tinha que ter, né? É no.. como diz... no caderno, no canudo mesmo. Mas foi o que eu pude fazer na época, né? Que eu saí da minha casa, por necessidade. Eu tive que enfrentar o mundo como natural, eu mesma, e tive a ajuda de algumas pessoas, por causa de minha família também e de outros amigo que eu encontrei que foi uma família oriental, que é japonesa. Me dei muito bem com essa família, foi a que me levou para o Candomblé mesmo, cuidar da minha saúde, que eles são muito religiosos, eles têm muita fé. E eu pratiquei algumas, por exemplo, a sexta-feira, Seicho-No-Ie, a messiânica, junto com eles assim, porque é idêntico ao Candomblé. Porque eles acreditam muito na natureza e o Candomblé é todo natureza. Deus é natureza. Nós somos natureza. Então, tudo isso me engrandeceu, e me engrandece todo o santo dia. Então, é como uma enciclopédia, cada dia tem um fascículo que a gente vai acompanhando com a própria natureza. Então, a gente colhe todo santo dia. Uma energia diferenciada, um vento que vem diferente, na água, em tudo. A gente encontra Deus em tudo. Então, o Candomblé não é aquela coisa feia que dizem... malfeitores, pelo contrário, você não viu nenhum pai de santo ou mãe de santo rica. Nós temos equilíbrio. Não precisamos de riqueza, a gente veio sem nada, volta sem nada. Então a gente não tira nada de ninguém, como diz, quem nos chama de charlatões, que isso que aquilo, tudo mentira pura! Para difamar, para botar gente lá que nunca conseguiram. Então, eu sendo do Candomblé, eu tenho orgulho. Porque nunca tirei nada de ninguém, durmo tranquila no meu travesseiro. E tudo que Deus acha que eu mereço, tenho. Tenho dois filhos maravilhosos, são trabalhadores, nunca roubaram, nunca mataram, não tem droga, não usa droga, nada. E já tirei muita gente também das drogas, do caminho que foi filho de santo que eu iniciei, que hoje são os homens, mulheres, também, de certas situações. Então, eu me sinto realizada, se eu morrer amanhã, eu morro feliz, porque tudo que eu pude fazer para o ser humano, eu fiz. Eu continuo esperando em... tanto que eu ainda tenho com ogãs recolhido aí. E era para ter recolhido alguns outros mais, mas não deu porque já tô com a idade assim muito avançada e eu não posso abraçar todo mundo, né? Eu vou de acordo com minhas possibilidades. E eu também dependo de outras pessoas. E aqui eu tenho 70 e poucos filhos iniciados. Já com casas abertas, tá? Funcionando. Agora vou mesmo pro Rio para inaugurar uma casa de uma filha de Santo Rio. Tá bem localizada em Itaguaí. Tem outros filhos aqui em Vitória também. Então, no dia que eu morrer, eu deixo um legado aqui no Espírito Santo, que, modéstia à parte, quando falam de mãe Néia, aqui no Espírito Santo, às vezes até enfrento alguns obstáculos. Porque eu sou respeitada de verdade. As pessoas me respeitam muito, até porque eu me dei também o respeito, né? Eu não fiz nada para enfrentar ninguém. Me dou com Deus e o mundo, não me sinto mais do que ninguém, maior é Deus. E então, mas às vezes eu sinto uns enfrentos, né, que é natural do ser humano. Não sei se é falar em inveja, que eu acho que inveja é uma coisa muito pequena. Então, quiser pode ser melhor do que eu, faça melhor, faça o que eu fiz ou faça melhor, né? Não tem nada que tá disputando nada com ninguém. Então, eu faço o que eu posso, o que eu sei, que me ensinaram, que eu estou todo dia aprendendo também, que eu não sei de nada, todo dia a gente aprende uma coisa diferenciada e assim. E minha trajetória é esse tipo assim. Recebo todo mundo. Sempre tem uma palavra que não vem de mim, né? Que eu sou só um instrumento. As coisas que vêm não vem de mim. Eu posso passar alguma coisa, eu pessoa materialmente, mas eu sei que vem uma força que fala comigo. Então não sou eu que curo, nem sou eu que encaminho, eu só sou instrumento. Então Deus fala comigo, com você, com qualquer pessoa. Quando você sente ele, quando você sente a natureza em você, você tem resposta, você tem quem fala, você não vive sozinho, que ninguém vive na verdade, né? Mas tem umas pessoas que nem acreditam no poder divino. Então, não é culpa da natureza, é culpa deles de cada um, né? Cada um tem livre arbítrio para poder seguir o que quiser. Mas eu não aceito também é, assim, a crucificação que vem de algumas religiões sobre a gente. É muito triste ainda no ano 2026, ainda passar por essas situações. Que às vezes falam coisas que nem sabe, a gente até fica assim tranquilo porque não sabem nem o que estão falando. E como a gente fosse demônio, eu não conheço nenhum demônio, não conheço Satanás, eu conheço só de nome, nomes de nomes. Agora, demônio; o bem e o mal tá dentro da gente, você é o bem ou o mal que você quer ser, que é o positivo ou negativo. Então, eu uso positivo ou negativo também para poder dar o equilíbrio. Porque não pode ser só positivo ou negativo, não. Agora tem pessoas que escolhem o caminho errado, que é o negativo, aí também se mata, né? Mas vai de cada um, né? A gente tenta orientar, fazer o melhor, mas que permanecer no erro é burrice, né? Então, penso isso. E assim, são essas histórias que a gente conta. E minha vida é uma história... é imensa, que mesmo às vezes eu paro. Eu disse: “não acredito que passou tudo isso". E dentro dessa casa, não é história, é... posso... a gente não tem ética, não fala nome nem nada, sabe? Porque a gente tem um juramento igual o soldado jura a bandeira. Quando a gente se inicia, a gente jura para Deus para fazer as coisas corretas e certas. Então, o que se passa de bom de ruim, a gente não pode estar esbanjando por aí dizendo que é assim que é assado, não. Mas eu posso falar de cabeça erguida dentro do estado do Espírito Santo. Eu já cuidei de professores, de pessoas, doutores que nunca pensei que entrasse dentro da minha casa. Casa de Santo, da macumba, como falam, né? Mas eu cuidei deles e, graças a Deus, são meus amigos. Respeito a individualidade de cada um, não entro onde não sou chamada. Mas quando fala mãe Néia tem um abraço que a gente sente o carinho, sabe? Isso me deixa muito feliz. Já recebi algumas homenagens, porque a gente faz, né? Recebi uma época que ... é de... entre as dez mulheres que fazem. Recebi da igreja católica, da messiânica também, que são os cristais do Tibete.
P/1 - Você quer continuar? Você estava falando das suas homenagens.
R – Sim. E da igreja católica, também, que é um... O Arcebispo de Vitória e todo ano tem uma homenagem das pessoas assim, que faz parte da religiosidade, né? E o último agora foi que eu recebi também foi do um troféu do... esse Arcebispo de Vitória, é o 19º troféu. E eu fui receber também espiritualmente, lado espiritual, né? Essas coisas assim, é mais que um dinheiro, mais que tudo, porque uma coisa assim merecidamente, né, tipo assim. E eu falei: "Meu Deus, só gratidão mesmo”. Eu gosto dessas coisas assim, me satisfaz meu ego. Fico feliz porque eu não fiz nada em vão, nem tô fazendo. Entendeu? Isso me engrandece muito. E todas outras coisas que é muita história, muita coisa, muito, muito mesmo. E tudo que me pergunta eu respondo, foi isso. Pode dar continuidade às suas buscas.
P/1 - Então queria te perguntar, né, voltando um pouco no tempo, como foi para você mudar para Santos?
R - Então, eu me iniciei lá em Santos em 3 de agosto de 64, em plena revolução, né? Você imagina que situação foi. Não podia nada, paravam tudo, né? E quando eu vim para Vitória, foi porque meu marido tinha casado, já tinha 10 anos de santo. Eu casei, aí meu marido foi chamado para a antiga CST, que hoje é Arcelor Mittal, e tivemos que mudar. Foi muito difícil para mim, sabe? Porque tudo era lá em São Paulo, que meu pai tinha casa em uma cidade chamada Arajá e meus santos, minhas coisas estavam tudo lá. E como eu tinha que vir para Vitória, eu já tinha um tempo de santo, já estava indo para os 30 anos de santo e eu tive que trazer tudo. Só que aqui meu marido nunca gostou muito do Candomblé, né? Era católico, mas ele me conheceu, eu falei tudo que eu era, nunca menti, nada. E ele achou assim que quando nós mudamos para Vitória por causa do serviço isso dele, que foi chamado para, como disse, para a antiga CST. E eu tive que trazer tudo e ele achou chegando aqui ia tudo, acabar tudo, né? Não ia praticar mais nada. E fiquei um tempo sim sem movimentar nada, porque lugar estranho, cidade de Serra na época não era tão desenvolvida como tá agora. E eu guardei minhas coisas assim, arrumei, cultuava sempre o meu cantinho, mas ninguém sabia que eu era do Candomblé. Até que um dia descobriram aqui em Vitória. Aqui na Serra, porque foi socorrer uma menina que tava numa situação difícil com a família. Eu simplesmente fiz um banho de folha de colônia e que aquilo harmonizou a família, entendeu. Tavam expulando a menina porque tinha engravidado. E fiz esse ato, né? Porque foi as mão de divina que botou para harmonizar a família. Eu fiz só o banho, dei o banho na menina e tudo. Daqui a pouco, a família estava tudo conversando, tudo vendo o que é a melhor para a menina. E daí começou meu trajetório. Aí meu marido não queria que eu desse continuidade de jeito nenhum. A ponto que ele chegou a dizer que eu tinha que escolher ele ou o Candomblé. Eu disse: "Eu vou escolher o Candomblé porque quando você me conheceu, eu já era do Candomblé. E te contei tudo, não escondi nada de você, e entre o meu santo e você, até mesmo meus filhos, eu vou continuar com o Candomblé porque é meu santo, é minha vida e sem ele eu não vivo. Porque é eles que me sustenta, é eles que me dá força. Então você pode procurar a sua vida, a gente separa. Meus filhos, se quiser ficar comigo fica, senão fica com você. Embora criança acho que eu tenho o direito de ficar com eles, que eu sempre fui mãezona. E não vou parar de cultuar o Candomblé”. Aí ele foi quando ele disse: "Então dentro da minha casa não". Falei: "Tudo bem". Meu santo quer que eu cultue o candomblé, ele vai me dar um espaço. E como me deu. Achei esse terreno aqui, comprei na época. Eu sempre fui uma pessoa que trabalhei, eu sempre mexi com comércio também, que eu tinha meu comércio também. Eu tenho meu dinheiro. Então, quando eu comprei, isso aqui não dependia dele. Então, onde que eu falei que meu santo me deu, me dá. Comprei o terreno, mas aí não tinha muito dinheiro para construir. Eu levei... a construção foi pra 92. E 92 inaugurei também. Consegui. Aí surgiu um monte de pessoas doando, sabe? Que eu não sei. Já tinha um conhecimento da minha pessoa. Mas muito pouco. Mas eu tinha uma amiga que foi um amigo, uma irmã, tudo. Tinha um conhecimento muito grande aqui de Vitória e que era conheceu pessoas que doaram muita coisa para minha casa. Até a laje foi doada. Para fazer o básico aqui, tinha o senhor que é dono de uma pedreira aqui de Vitória. Até de outra religião diferenciada mandou três caminhões de brita. Eu tive muita ajuda aqui dentro. O santo ajudou, o santo quis. Foi quando eu montei a casa. Eu não sei se eu saí fora do foco, que eu acho que saí, né? Não sei. Isso começou meu trajetório aqui dentro, e amigos e... a gente trabalhou muito, eu fiz muitas festas aqui no Bairro de Fátima. Isso tem registro de tudo: festa junina, feijoada, fazia muito brinquedo para as crianças, sabe? Eu... deveria ganhar até um título de mulher... de Mãe de Santo festeira, que eu abri o espaço. E eu dava muito bem nas festas que eu fazia, vinha gente tudo que é lado, bem harmonizado, nunca teve encrenca nenhuma. O pessoal da Serra me deu muito apoio, prefeito, mulher do prefeito, tudo. Porque aí comecei a ter meu nome sair no meio da macumba toda. Foi interessante. E o pessoal se levantou as mão comigo e comprei espaço, tá aqui, esse não terminei ainda porque tem muita coisa para fazer. É com muita luta. Nunca tive ajuda assim de... do estado, nem de... porque direito a gente tem. Mas é uma burocracia terrível, eu não gosto de estar pedindo nada para ninguém, só para Deus. Mas até uma parte também que eu deveria ter agido também. Procurado mais para ter como a gente manter isso aqui. Eu tenho CNPJ da casa, tudo direitinho, tudo arrumadinho. Mas eu não corri atrás na época. E tem esses direito. E que agora eu tô pensando em... porque chega uma época que se eu mexer na casa, eu não tenho dinheiro para mexer na casa. Sabe porque... casa é como a gente, tem que cuidar, se não cuidar aí dá muitos problemas. Eu construí aqui com a força divina e... mas pra a reforma agora tá difícil, que eu tô precisando muito da reforma na casa. Aí eu vou correr onde que eu preciso ir para ver se vem alguma verba para poder ajudar isso aqui. Que aqui é eu tenho como do povo, a casa do santo, não é minha casa. Minha casa eu moro aqui duas quadra depois. É casa do santo e de todos que vem. E a minha luta está sendo assim: ajudo um, ajuda o outro. Tem pessoas que vem e pode fazer... outros não pode, e a gente junta todo mundo e se faz o que tem que ser feito. E como diz a união faz a força, né? E assim que eu continuo na luta. E tive problema de saúde também uns tempos atrás aí, mas Deus “Ai, Néia, ainda não é hora, então vamos, vamos embora, né?” Mas eu tô bem, hoje eu tô cuidando de mim um pouco, cuidar mais ainda. Para dar continuidade ainda, eu sei que ainda tenho tempo para isso. Pelo menos a divindade mostra. Então, vou ter que me levantar melhor.
P/1 - Você falou das festas? Você lembra da primeira festa que você fez?
R - Sim, foi na minha casa até onde eu moro. De frente à minha casa, que foi uma festa junina, que foi... deu... foi um sucesso. A... A Tribuna deve ter... que ela filmou tudo, soube tudo, e foi muito bonita. Que na época eu plantei bananeira no asfalto, você imagina! Com cacho e tudo! Aquele deu um destaque fora do comum. Eu fiz muitas coisas assim, porque eu lembrava das coisas do norte... Que o Nordeste é todo festeiro, é todo cheio de... E eu fui trazendo aquela cultura, aquele jeito de fazer as coisas e me dei muito bem. Várias festas já, minha, eu fiz, várias feijoada. Eu montei um grupo de dança que chamava... Kizomba das Moadas, quer dizer, festa das mulheres, né. E foi muito bom. Nós ganhamos até prêmio, na Costa Pereira, festa que teve de cultura lá. E fora disso... é porque desmontou porque alguns foi casando, foi saindo, tomando seu rumo de vida, né? Mas eu fiz muita, assim, pro o bairro todo aqui. Eu tenho um respeito muito grande aqui nesse Bairro de Fátima. Tem algumas pessoas que já se foram, né? Mas assim, tudo que eu fiz foi muito abraçado por todos. Ainda sou até hoje. Então, não incomoda ninguém, ninguém me incomoda. E através dessa comunicação com os... com todos, né? Porque eu não... eu me dou bem com evangélico, católico, para mim não tem. Desde quando me respeite. Agora se me desrespeitar, eu falo na altura também. Pode ser quem for Deus, o Deus como diz os pastores, padre... Eu tenho conversas de mãe de santo pra pai de santo, pastor, não tenho barreira com ninguém. Para se ter ideia, Silas Malafaia, todo mundo mete o pau nele, né? Que é meio complicado. Mas eu me dou com ele. Nós tomamos benção, acredita nisso? Mas eu que fui a ele. Porque nós fomos no seminário em Fortaleza. Ele tava lá metendo os pau nas pessoas que são gay, né? Eu odeio, odeio que ele fale assim: "Pastor desculpa. Mas por que tudo isso? O ser humano como outro qualquer. Opinião, Opinião sexual, cada um tem a sua. É pecado desde quando? Desde o início do mundo que tudo foi assim. Não foi eles que inventaram essa história toda de mudar de sexo, coisa parecida. “Não aceito, pá, pá, pá, tá, tá, tá”. Aí eu falei uma palavra para ele, que ele ficou vermelho, subiu nas paredes, desceu. Falei: "Pois é, o senhor é assim. E é por isso que o senhor não gosta de ninguém, desse lado”. E passou. E depois nós ficamos amigo, quando me vê, ele me respeita, me cumprimenta, também. Ele é assim, como outros qualquer por aí. Não tenho barreira com ninguém. Me olha, olho também. Vira o rosto, posso fazer nada. Sigo a minha vida. E sou assim.
P/1 - Você falou aqui do bairro, como que o bairro mudou?
R - Muito. Hoje tem duas igrejas católica, tem muitas igrejas evangélica. Não é mais aquele bairro que eu conheci, que eu vim, que eu estava. As pessoas também são pessoas novas, tudo. É normal, né? Mas mudou para melhor, tá? Acho que é para melhor. Que hoje aqui é muito desenvolvido. Mas tem coisas que incomoda ainda. Mas tempo fala, né? O Bairro de Fátima é tido como um dos melhores do... da Serra, né? Mas aí eu acho que todos os bairros por aí também é bom. Mas o Bairro de Fátima era para ser de Vitória. Aquela disputa ainda ficou aqui. Um bairro de classe média alta, né? E os mais velhos também aqui era tudo gente com uma família Rato, que era um dono do bairro praticamente. Mas o bairro mudou muita coisa boa. Isso aqui era um valão, minha filha, onde tem esse meio o posto de saúde. Aí era um riacho. Começava a dar na avenida e botava muito lixo, muita coisa. Que depois teve um prefeito que canalizou, fez o posto e hoje tem esse meio aí que é importante. Mas é tudo assim, foi canalizado, foi aterrado e tá aí. Então, foi muitas mudanças que teve aqui. Na praça também. Teve melhoria bastante. Espero que tenha mais, né?
P/1 - Vou voltar mais um pouco de novo. É, como você conheceu o seu marido?
R - Trabalhando. Ele tinha 14 anos, eu tinha 17, que eu sou mais velha que meu marido. Porque na época não era proibido menor trabalhar. Fazendo vendas de... logo que saíam uns negócios de toalhinhas de plástico, essas coisas assim. E a gente vendia de porta em porta. Eu conheci ele assim, vendendo toalhinha de plástico, como eu também. Depois eu saí, que não me adaptei muito. Fui trabalhar no comércio de fruta santista, que era... exportava um suco de laranja, uma laranja para o exterior, né, pra fora. E nós conhecemos, só que pelo fato dele ser bem jovem, que é dos 14 anos, eu tinha 17, eu queria uma pessoa mais com uma idade melhor, né? Deixei para lá, mas depois voltamos a se encontrar. Nessa altura eu já tinha 29 anos e ele tinha 26, que era 3 anos de diferença. E 11 meses noivei, noivei, namorei, noivei, casei. Mas eu fui o casamento assim, mais para o amigo. Não sei, não tinha paixão por ele. Eu não gostava dele assim, não sei se é que tem essas paixões agora, eu não conheço. E até hoje, tipo assim, nós estamos com 52 anos de casado. Ele tá com 78, eu já vou para o 81. Só que nós vimos uma vida assim... teve uma época que quase eu separei várias vezes, foi umas três vezes, que ele andou pulando a cerca, depois eles tiram isso daí, tá bom? E foi difícil, muito difícil para mim levar, porque eu também não queria criar meus filhos sem pai. Eu comi o pão de diabo amassou. E pelo fato também de eu já ter uma casa de religião, eu não queria ser uma mulher separada. Que quando tem uma, assim, uma mulher separada dentro do Candomblé, eu sei em outras religiões também. Cada um quer chegar perto e achar que a gente é qualquer coisa. E eu mantive muito, muito pelo meus filhos, pela minha religião, pelo meu princípio de vida, né? Minha formação, eu aguentei tudo até hoje. Hoje eu digo que eu carrego um cruzeiro, não uma cruz, é um cruzeiro nas costas, porque ele tá uma pessoa muito parou na vida. Ele trabalhou muitos anos na CST e quando saiu, se entregou, não quis fazer mais nada. Hoje é do sofá para cama, cama pro sofá e essa vida. Agora eu não. Continuo minha vida ativa. E não paro. Eu tomo conta disso aqui, eu tomo conta da minha casa. Trabalho muito, vou para outros lugares, viajo. Fui agora para o Bate-Folha de Salvador. Obrigação de meu zelador atual. Que eu fiquei 30 anos com um zelador, depois eu fiquei mais 22 com o outro. Também veio a falecer. E eu fui lá para minha raiz, que é Salvador, lá do Bate-Folha. É uma casa tradicional de 116 anos. Então, eu tive que ir para essa festa dele, chama Festa do Oxalá, né? E mês de janeiro eu fiquei em Salvador. Viajo quando precisar sair para outros locais, Minas também, por aí, que eu tenho filhos de Santo. Às vezes sai para dar obrigação no Rio. E aqui. E eu não paro aqui dentro. É uma coisa atrás da outra, quando é... É muita coisa. Que tem vezes às vezes eu falo assim: "Meu Deus, sou eu mesmo”, que eu fico perguntando para mim mesmo. Que tem uma hora que a gente para e diz: “Eu tô cansada". Aí eu falei: "Ah, eu vou chutar o pau da barraca, não vou...". Aí que vem as coisas em cima de mim. Aí eu falo assim: "Então é porque Deus tá me dando força para dar continuidade e eu vou dar". Meu filho: "Mãe, para, não sei o que”, “não". Cê vem porque Deus mandou. Ninguém chega perto de outro por acaso, diz o isso por quê? Então, eu... manda quem pode, obedece que tem juízo, eu faço isso. Tá vindo, vamos lá. Faço um banho, faço uma coisa, faço outra. Não faço milagre, porque eu não sou Deus. Nem sou bruxa também. Mas a gente encaminha, dá uma palavra, às vezes ajuda muito. Escuto também e me serve de exemplo também muitas coisas, que eu falo assim: "Meu Deus, eu sou feliz”. Por muitas coisas que existem por aí. Pela minha família, por tudo. E até meus filhos de santo que tem uns que não ficaram aqui. Que a gente orienta, mas a gente não obriga ninguém. Do jeito que entra, pode sair também. Que todo mundo tem santo, mas não é todo mundo que é pro santo. Então, não quer dizer que você não tem, você tem. Nós chamamos aqui de nkisi, kisi quer dizer divindade na língua kikongo. Quer dizer, divindade com você, Deus com você. E todos nós temos, independente de... viemos com essa energia, quando saímos do útero da nossa mãe, tem a divindade que te acolhe, o caminho, e tem o dono da sua cabeça. E o junto que é a trindade, Pai, Filho e Espírito Santo. Vem a esquerda que é esse que nós chamamos de... o pessoal chama... nós chamamos aqui de njila, pambunjila. Pambu é o pó, njila, é a terra, porque foi da onde a gente voltou... vem e volta, né? Então, pambunjila não é nada de capetagem, nada aqui... de nossa esquerda. Que é o chamado pecado, né? Então, nós temos trindade, tridente para poder a gente juntar e dar força. Então, divindade é uma força superior, o nkisi que nós chamamos, nkisi. O Orixá foi como os santos católicos, teve vida como Cristo, como nós tivemos... temos, né? Que não viramos espírito ainda. Hoje Deus, Jesus e Espírito Santo. A força de Deus, como nós somos também. Só que nós somos em matéria, em corpo físico, né? E o espírito nunca morreu, nunca vai morrer. E Deus é espírito puro e natureza. E nós somos natureza também. Nós temos esse santo independente de crença. Você tem a sua alma, seu espírito, cada um dá um nome, né? Simplesmente a divindade com gente, Deus com a gente. E tá ligado o quê? Os quatro elementos. Porque o aquecimento do seu corpo é o fogo, o ar que você respira, o sangue que é a água e o pó da gente viemos e retornamos, né? Então, que que tem de errado nisso? Nós somos natureza, somos filhos de Deus perfeitos. Como dizem os mórmons, os mórmons falam que somos filhos de Deus perfeitos, os santos dos últimos dias, né? E é isso. Nós somos, que somos. É como disse... o filho de Deus, somos irmãos de Cristo na verdade, né? Cristo é Espírito Santo e nós ainda estamos em matéria, pecado ainda. Mas daqui uns dias a gente vira espírito. O espírito morre? Não. O corpo desce, vira pó, vira tudo e foi de lá que viemos. Por isso que a gente chama mãe terra. A gente respeita a terra muito, a gente dá oferenda a terra que nós chamamos de entoto. Força da terra que tudo nos dá, mas também destrói, né? Então, nós temos como mãe mesmo, a gente faz oferenda à terra, oferenda às águas, o ar e o fogo. Como por exemplo, o candomblé tem quatro animais, que as pessoas caem, _____ matam animais. Você não come animal vivo. A vida é uma troca. Então, quando se por exemplo, nós temos o galo, pato, o pombo e a galinha de Angola, que são quatro animais sagrados pra gente. O galo é a terra. O pato é a água. O pombo é o ar, que é o mais forte. E a galinha de Angola é o fogo. Isso é tudo uma energia só. E onde tá Deus, o Espírito Santo, tá onde? No ar, que é o pombo, simboliza o pombo. Mas tá nesses quatro elementos. Então, nós temos toda essa energia. Que somos nós sem o ar, né? Nada. O aquecimento do corpo, sangue, que é a água. Então, nós somos natureza pura. E todos nós temos essa divindade. Então, é o ser humano que complicou tudo e fez aquela mistureba, cada um entende de uma forma. Mas é assim que o mundo é. Natural. A gente nasce aprendendo e morre aprendendo. Outro dia eu fui numa reunião da Sejus, que eles... que é cinco anos que eles me chamam sempre para tem essas reunião daqui é da... Presídio, da polícia né? E eu sempre falo sobre tudo isso. E só tem maioria pastores lá. Só tinha um padre da igreja brasileira e eu de mãe de santo. Você imagina, meio de tudo pastores, e eu falei: "Ih, meu Deus, sair daqui esmagada". Aí eu visitei uma ala que é tudo só de pessoas que são gay, né? Eles não dão muita trela para eles de jeito nenhum. Eu andei a ala todinha. Tem aqueles de pequenos furtos, pequenas coisas, né? Mas são meio desprezado lá e eu fui conversando de cela em cela. Eu confesso que eu saí anestesiada, eu não sentia o meu corpo. De tanta energia que é pesado, minha filha. Dói na alma que você ver uma pessoa que enclausurada ali sem liberar, sem nada. E aquilo vai mexendo como a gente, é mãe e a gente absorve aquela energia negativa, porque vem para gente. A gente é um pára-raios. E eu saí de lá, eu não tive vontade de voltar. Mas é preciso ir lá às vezes, uma palavra da gente. Eles todos, todo, todo ano... já é cinco anos que eles me chamam e agora teve a reunião semana passada. Que eu vou voltar outra vez. Porque eles ficam bem, e a gente também faz uma contribuiçãozinha, né? E lá quando cheguei só tinha delegado, o secretário de justiça, aquele negócio todo. As pessoas que atendem, a polícia presidiária, que trabalha lá dentro do presídio. Então, só ali, de estar ali no meio, a gente sente um negócio, assim, diferente. Só parece que são pessoas diferentes. Cuida do... do criminoso. Ninguém tá ali porque foram bonzinhos, não, mas eu também entendo que ninguém cava cova para se enterrar. Então são umas vítimas do mundo. São pessoas que vêm com aquela índole ruim e vai para um caminho ruim. Mas que sou eu para condenar ninguém? Não sou ninguém, não. Graças a Deus que eu não tenho, nunca tive, nunca vou ter, peço a Deus, familiar ali dentro. Porque se existe, porque eu entendo assim, se existe um inferno: ali. Nós estamos em cima de um paraíso. Eu não entendo que tem esse outro paraíso que pregam por aí. Eu acho que nós estamos vivendo num paraíso. Que toda riqueza, tudo nós temos aqui. E tudo vem de baixo, não vem de cima. Onde está esse céu? É lá em cima? Toda riqueza vem de baixo, a chuva sobe para poder descer. É energia da água, não só é isso. O fogo vem de baixo, não vem de cima, gente. Então nós estamos num paraíso, em cima de um paraíso, nós estamos num lugar, não tem outro paraíso a não ser esse. E Deus está presente nele, como nós. Agora, tem locais ainda que nós não temos acesso, não ainda tem essa visibilidade. Mas nós vivemos no paraíso. Tudo de bom, tudo de bom. Também tem coisas ruins, como eu falo aqui. Ali no hospital. Meu Deus. É o purgatório, que eu antes falava purgatório, hoje já tem outro nome. É o umbral. Que ali pessoa tá no últimos... Decadência da vida, né? Então, entendo que tudo, o mundo é esse, não tem outro. Vou buscar esse céu loteado para as pessoas se diz filhos... São diferenciados da gente, vai. Segmento cada um tem o seu. É como futebol, cada um tem o seu time. Eu sou corintiana. Mas eu gosto de todos eles. E dentro do santo não é diferente. Você tem o seu santo, ela tem o dela. Você também, que você é filho de Xangô. com o Iemanjá, acredito eu, ou Oxum. Acho que é Oxum, se não me engano. Oxum, né?
P/2 – Ewá.... Que na verdade...
R - É caminho, né? Para você.
P/2 – Oxóssi.
R - Oxóssi? É, isso a gente chama de enredo da família, porque vem pro lado do pai e mãe. Ewá deve ser vindo pro seu pai e Oxóssi pro lado da sua mãe. É o contrário. Então, tá marcado. Todos os anos temos um santo. Esse aqui passa de encosto que a gente chama de Ogum, né? Mas quem sou eu para dizer traçado? Aquele menino tem os olhos de peixe. Tem uma santa mulher, independente do seu sexo, não importa. Você também tem uma energia muito boa, fala com os olhos. Energia é a nascente. Seus olhos simbolizam a nascente. Fala. Então, onde que nós somos natureza? Porque nossos olhos simboliza a nascente. A boca, a lagoa, o respirar que é o ar. Então, nós somos natureza. Você já tem uma força maior, um santo maior de guerra também. Acredito que seja, não vi nada, mas acredito que seja... Carrega Iansã também. E um santo homem também. Mas pro lado do Oxóssi também penso que... mas em minha santa muito visível em você, que nós chamamos de Matamba, aroma, perfume, simboliza a borboleta. É a natureza, né? Mas cada um tem um santo uma... como dizer... Um animal que é o totem do santo, né? De Xangô é leão, né? E cada divindade, cada... De Oxum é o peixe, como é Iemanjá. Oxóssi é o deus da caça, deus da fartura, de quem bota tudo na mão da gente. Ogum é deus de mineral, o caminho, qual às vezes a maioria vem com esquerda que é o Exu. É o caminho, se faz todo mundo tem que andar no caminho, e é deus da Apocalipse também. Ele tem um semblante forte. Fala com os olhos, também, mas ele tem... o olhar dele é como fosse de Cristo, que de... acredito que seja de Oxaguiã. Traz o mundo na mão, simbolizando o mundo, que é a bola do sincretismo católico, é o mundo Jesus de Praga, né? Simbolizando o quê? O mundo, que é o número 8. Universo e a Terra, vamos botar assim, né? Então, eu falo que tudo isso aqui nós somos dentro de um paraíso, uma energia muito forte. Temos que cuidar, valorizar a natureza todo o santo dia e estamos aí bagunçando, né? Querendo arrancar da natureza para explodir o mundo. Que é o manganês, coisas como no meu estado tem muito manganês, muito ouro, muito tudo. Tirando aquilo pra quê? Desmontar o mundo, deixar buracos, deixar erosão. Que aquilo que você não usa deixa erosão. Mas a natureza cobra. Como tá cobrando aí. Esse ano é de Oxalá, Deus. 2026 dá 10, 10 é como fosse princípio e fim. Olha que nós estamos nas águas de Oxalá aí. Janeiro, fevereiro, essa água de Oxalá. Águas barrenta que você tá vendo aí as inundações, as “urração” de energia, mas tem mais. Acho que o nosso estado... nosso país tá todo dentro da água. Algumas cidade para ela, estado que ainda tem ainda... Bahia, São Paulo, onde são. Eu recebi uma notícia hoje lá de São Vicente, estado de lá de São Paulo. Eu tenho minha sobrinha que mora lá, um prédio desabou inteiro. Porque foi aterro ali de mangue, essas coisas, né? E aquele a água quando vem, não tem cabelo não, puxa mesmo. Ainda morreu família, tudo. Tá feia a coisa. Porque nós mesmo destruímos. Aterra tudo, vai fazer casa em cima de manguezal. Aquilo ali é da natureza, então, tem essas cobranças. As pedras descendo de ladeira abaixo. Então, o homem destrói mesmo a própria vida, né? Agora tem muito... Fico com dó porque tem muitas crianças inocentes que vão junto, né? Soterrado, é, meu Deus do céu. Ver uma criança soterrada é uma dor de que não dá para pensar. Eu, às vezes, desligo a televisão que eu não suporto. Então, nós temos que olhar mais o nosso mundo, né? Amar mais um pouco o próximo, também. Tira de um... Pra que tirar se você não vai levar nada? Quantas vezes vê tanta coisa vergonhosa na televisão de roubo e de tirar o que não é seu, achar que vai levar aqueles bens. Vive, aparentemente vive bem dentro da... Será que não pesa na dentro do ser deles mesmo? Roubar, tirar do pobre, tirar do... nossa senhora, absurdo. Eu penso assim. Eu nunca passei fome na minha vida, mas teve uma época que aqui dentro mesmo... Eu confesso que eu recolhi uma menina, não tinha possibilidade nenhuma, não tinha dinheiro para comprar as coisas. Eu tinha uma época que tinha um coronel, era coronel e radialista, Dr. Vanzerlé (Vassoler?). Mandou algumas cestas básicas para cá, mas não deu o suficiente. No outro dia eu cheguei e falei: "Meu Deus, o que é que eu faço?" Tinha só um ovo na geladeira. Eu fiz uma farofa daquele ovo, três pessoas comeram para não dormir à noite sem nada, fiz um café e dei. No dia seguinte tava vivo, eu consegui arrumar dinheiro tudo para poder dar continuidade. Mas eu mesmo, graças a Deus, nunca passei fome. Eu sempre tive o que comer e o que beber. E dei muita gente, ajudei muita gente. E ajudo até hoje. Porque aqui a gente usa o animal. Você corta um animal, a gente faz a... reza o sagrado, né? Só tira o quê? O sangue, porque o sangue é vida. A gente quando vem do útero da nossa mãe vem banhada de sangue, ela tá dando o quê para você? Vida, né? E quando a gente corta um animal não é para fazer feitiço pra maltratar ninguém, não. Pelo contrário, é para nos... vida para gente. Vida para aquela pessoa que está precisando. E tem aquele sagrado, a carne fica inteira, intacta. A gente só tira os axés, que chama de axés, que é os miúdos. Que quando a gente se inicia, não pode mais comer miúdo. Se tira aquela carne limpa, tudo arrumadinho, a gente doa, porque nem tudo a gente usa aqui. Não tem como usar tudo. E a gente manda para lugares que a gente sabe que tá precisando. Mas a carne é toda limpinha. Outro dia eu mandei, sem exagero nenhum, dois cestos dentro do saco plástico, um atrás do outro, assim dentro do outro, para Minas. Uma favela que tem lá. Foi dois sacos de galinha, de cabrito. Porque eu pertenço ao Cenarab (Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro Brasileiro), eu sou a coordenadora do Cenarab aqui. Você repara que eu tô fazendo tratamento dentário, eu tô até com vergonha de falar. É, daí eu sou coordenadora Cenarab. E eu mandei lá, porque lá tem um pessoal que elas cuidam, também, das pessoas, das favelas, né? E foi dois saco de galinha, cabrito, tudo cortadinho, arrumadinho, dentro do saco, dentro do ônibus. Tava congelado até de manhã normal, então vai ajudar muita gente lá. Aqui eu mando para... Tem uma um bairro aí na Serra, também é muito carente, a gente manda para lá. A gente doa as coisas que tem aqui. Quando não, a gente faz festa, também dá para as pessoas. Mas pelo fato, por exemplo, de a gente lidar, corta, vê tudo ali. Eu nunca gostei muito de galinha, nunca, toda minha vida, eu gosto de carne, sou muito carnívora e peixe. Galinha eu como, mas é muito pouco. Mas não é que não posso porque tenho nojo, porque é tudo limpo, é tudo é sagrado, é rezado, é tudo muito sério. A gente se purifica para cortar um animal. Até a pena da galinha a gente tem cuidado de levar na natureza, porque serve de adubo. Por exemplo, as vísceras dos que a gente tem, cabrito, se tira também se bota na água, o peixe come, alimenta, então nada vai fora. E o pessoal acha que a gente corta o animal que vai fazer mal para os outros. Quando se bota, por exemplo, que tem mesmo também, esses chamados despachos, né? Numa encruzilhada. Aquilo ali é para tirar o lado negativo da pessoa que aquilo vai “destelorando” no pó, então aquele vai espalhando aquele negativo que tá com a pessoa. Não é para fazer mal a ninguém. Hoje eu sou contra mesmo, por exemplo, deixar uma garrafa no meio de uma encruzilhada porque é vidro. Corta um pneu, corta até o pé do ser humano. A água... A cachaça, é que é falta de conhecimento também. Se derrama na no pó, no chão. E tira-se a garrafa. Como outro dia nós pegamos uma Kombi, nós tiramos quase uma Kombi de pessoas que vai para a igreja, despacha, bota tudo na cachoeira, que até se tem o nome de cachoeira da macumba. Lá em Viana. E tanta coisa que eles botam ali... Nós tiramos ___ alguidar. Alguidar até que pode ficar na natureza porque é barro, né? Mas garrafa, aqueles assentamentos. É vergonhoso, sabe? Nós tiramos, o meu marido, meu filho, tem uma Kombi. Limpamos tudo, deixamos tudo limpo. Porque as pessoas não sabem jogar fora as coisas no lugar certo. Porque quando a pessoa não quer mais cultuar tem que quebrar aquelas coisas. Os ferros, se tira tudo, não se pode botar de qualquer jeito. Eles botam para lá e deixam. Já para agredir. Então, eu sou contra fazer essas coisas erradas. Mãe, te abençoe. Pode entrar aí, senta aí. Essa é filha da casa. Então, eu sou contra todas essas coisas que fazem de errado, porque tem muita coisa errada. Tem muita gente que diz: "Eu sou um pai de santo, sou zelador de santo”, mas não é. Uma prática que eles têm, não tem a teoria assim, entendeu? Não sabe fazer a coisa certa e faz essas besteiras por aí. E deixa muita coisa aí jogada no meio da rua que não é nada saudável. E uma coisa que eu tenho reclamado muito, que nós também estamos sem espaço nenhum de ir numa cachoeira, porque nós temos nosso ritual das águas. Não se acha lugar para se fazer nada, tudo fechado para área de lazer. Os rios quase tudo poluído, é difícil. O único lugar que a gente tem limpo bom mesmo, que se pode entregar que a gente faz as oferendas no mar, é o mar mesmo... Porque o resto tá tudo em situação difícil. E quando tem um lugarzinho melhor está fechado, que é pra lazer, né? E nós estamos, assim, muito difícil de cultuar o candomblé em si. Nós estamos... Não temos onde tirar uma... A gente chama macai que é a folha, né? Que a gente não faz nada sem folha, que é o vegetal, né? Então, pra gente é muito, é o essencial, é a vida. Que é o sumo da folha que cura, que faz tudo, que é um sangue melhor do que o nosso. Então, pra gente fazer isso, para tirar hoje uma macai é difícil. Que tá tudo cercado, e se entra, não pode... Você pode ser até preso. Mas como a gente é, assim, meio teimosa, nós vai pelas estrada afora. E eu costumo ir muito ali pro lado de Domingos Martins, que ainda tem uma área boa... mas tem muito... Tá plantando muito eucalipto por ali, já tão destruindo muito. E a gente tá perdendo espaço, não tem muito onde colher. Outro dia eu trouxe de Salvador... Oi? Abre porta. Aqui é assim, é todo dia assim. É diferente não. E é dessa forma. Lá onde é o terreno de Salvador, são 14 hectares e meio de Mata Atlântica, que lá é o maior terreiro do Brasil. E lá tem folha para dar com pau, coisa centenária. Ou seja, árvores centenárias. É ao contrário daqui que a gente não tem espaço para nada. Então, para a gente tirar uma folha é muito difícil. A casa tá assim, minha filha. Louvado seja deus. E assim, então, o Candomblé tá difícil para se cultuar. Porque hoje tá virando um pouco folclore também. Eu sou a favor de abrir, porque, tipo assim, mas nós estamos resistindo... ou seja, faltou a palavra agora. Ainda estamos vivendo hoje na resistência de não estar... mas quando se abre muito, se perde. Porque hoje está muito escancarado demais. E essa resistência nossa foi o fato de a gente ter aquele esconderijo, aquele segredo, aquela essência, mas hoje está assim de ladeira abaixo. Porque a vaidade sobe muito no ser humano, né? E hoje ninguém quer fazer mais as coisas como era certo, de seguir mesmo os processos, procedimentos, não. Ah, hoje tem internet ali, você acha tudo, mas acha muita coisa errada. Então, a gente sabe de... tem maioria não sabe diferenciar uma coisa da outra. De quem é quem, quem tá falando a verdade, quem não tá, quem tá ensinando certo, nem tudo que tá ali é certo. Eu vou... Como que você vai fazer uma obrigação que se você não foi preparada? Por que tem uma receita? Não é receita de bolo! Candomblé não é uma receita de bolo. É essência do ser humano. É onde que eu falo, nem todo mundo é pai de santo, nem todo mundo é mãe de Santo. Tem santo! Todo mundo tem, mas não tem a essência. Porque eu posso chegar, com um copo de água eu posso curar você. Porque eu tenho a essência, a preparação, eu tenho a essência que Deus me deu naturalmente e vai muito do seu coração. Do que você está imaginando de bom para o ser humano. Não é que eu estou dizendo que eu sou boa, que eu sou a... Não, não é isso. Mas é como você cultua aquela força, a energia. Porque como diz, não é a gente, é Deus. Nós somos só instrumento. É uma divindade que é filho de Deus, como eu falei. Todos os nkisis são divindades. Como os orixás, também, são pessoas boas, que já viveu, já virou santo. Pessoas, coisas boas, foram rei e rainha. Até um varredor de rua pode ser uma divindade, por que não? Não desmerecendo, porque não é pelo que ele... é pela essência que ele fez, que ele faz. Então, a mesma coisa que eu fazer uma comida. Uma coisa às vezes simples, mas você botou aquela criatividade, aquela essência, sai uma comida maravilhosa. E às vezes bota um monte de troço e sai ruim. É como diz a gíria, sai aquela gororoba, que você não dá para comer. Então, tudo é essência que você coloca. É o amor que é acima de tudo. Eu, se eu tiver nervosa, eu não faço nada, não. Se eu tiver assim ruim, como todo mundo tem seus dias que não tá legal, o que que eu vou fazer ali, se eu não estou, não posso nem comigo? Que eu vou dar para o quê? Para os outros? Nada. Então eu não mexo quando eu estou com minha... meia zoada da vida, porque todo mundo tem seus momentos, né? Eu não vou botar a mão na pessoa, se eu não estou bem. Não vou fazer nada, só vou piorar de ambas as partes, porque eu também pego a energia. Tem dias que eu saio aqui meio atordoada, mas eu tomo meu banho, e aquilo vai embora. Mas se eu não tivesse preparada para isso? Ia ficar com a energia. Que a gente tá tirando a energia daquele que tá com a negatividade. Como ontem chegou a menina, tava muito ruim. Só via na expressão dela o sofrimento. E eu comecei assim, jogando o búzio, mas eu abrindo a boca, mal. Eu tinha náuseas, sabe? Saí, fui lá dentro, voltei, tomei minha água, voltei... E ela foi... aquela fisionomia desfazendo, ficando limpa. E quando ela saiu, ela disse assim: "Eu posso te dar um abraço"? Eu falei: "Pode". “Mãe, eu tô saindo tão bem. Suas palavras foi muito boa para mim”. Aí, onde a gente diz assim: "É gratificante escutar isso". Porque ela foi, e eu ensinei algumas coisas. Eu tô fazendo o bem. Não é um dinheiro que ela deixa ali uma salva de anjos de guarda, porque eu quando eu iniciei, tive duas... assim. Porque como diz, a aranha come do que tece, né? E todos nós precisamos do dinheiro para viver. Eu tinha... sempre tive comércio, nunca dependi assim do santo, santo, santo. Mas quando eu me aposentei, eu tinha duas opções, vender acarajé ou jogar búzios. Eu falei nem uma coisa, nem outra, porque eu faço comida, faço acarajé, mas eu não gosto de acarajé, por causa do dendê; me dá uma dor de barriga terrível. E meu santo pega dendê, mas eu não posso comer dendê. Aí eu optei por búzio, mas eu falei: "Como que eu vou jogar o búzio se eu não tô vendo nada”. Meu pai: “Santo fala”. "Fala como, pai? Eu não tô ouvindo nada". Ele: "Minha filha, joga”. Aí tive que jogar para ele. “Como que eu jogo?” “Pergunta o santo". Aí quando abriu, que é o alafe, né? Ele: "Tá certo, seu santo, respondeu assim, assim. Converse com o seu santo como eu tô conversando com você”. E é fato. E na dúvida você não fala. Se desvia, conversa. Se tiver em segurança, fechou, então, não teme. São três jogadas porque tá ligado à trindade. São três jogadas. Ou da esquerda ou da direita, não importa. Você joga três vezes. Vai sair. Então, você tem que orientar a pessoa através do búzio. Como também de outras coisas, também, que a gente já usa, chama de obi, aqui nós chamamos de queso (queso? Keso?). Outra também da O'lobasa que é a cebola, também tem resposta. E como qualquer coisa que a gente pedir, vai e dá resposta. Entendo assim e faço isso. E quando eu tenho dúvida, eu não faço. Eu dou um jeito, que as pessoas... vem cada pedido aqui dentro que a gente se assusta, sabe? Aí eu falei: "Gente, eu não vou me comparar e me igualar, tornar-se pior, né?" E eu faço o quê? Escuto, deixo, tá... Mas eu não faço. Porque eu me vou me tornar pior do que aquela pessoa. E eu não faço de jeito nenhum. Eu dou um jeito e enrolo para lá, e enrolo para cá. “Pode ir, eu vou fazer, vai acontecer?”, “não, não vai acontecer. Porque você tá pedindo um absurdo”. Todo mundo tem uma defesa, todo mundo tem um direito, todo mundo tem um espírito, um santo ou um guia de guarda. Então não vou me meter a besta, fazer uma coisa que eu sei que vai sobrar para mim. Jamais. Não faço. Então tem hora... “Ah! Você não é mãe de santo?”, sim. “Você quer matar? Pega uma arma, vai lá e mata”. Eu não sou... eu... matar ninguém, nunca matei, quem sou eu? E nem que eu tivesse o dom de matar, não eu mataria. Deus me livre. Mas tem pessoas que podem dizer: "Ai, eu quero ver fulano de água abaixo... Quem vai é a pessoa. Que tem a lei do retorno, né? Você colhe o que você planta. Falei demais agora, pergunte.
P/1 – Você falou do seu pai de santo, você pode falar um pouco mais sobre ele?
R - Então, meu pai de santo, meu primeiro pai de santo, que foi um pai de santo, um amigo, um professor... eu falo com muito... Ele tá no mundo da verdade, sabe o que eu tô falando na verdade, chamava-se José Diogo Bispo e tinha uma dijina, porque quando a gente faz isso tem uma dijina do santo que chamava Mambanzo (Mambanzo?), foi um ex-seminarista. Saiu do seminário, não queria seguir. Depois foi ser professor em Salvador de matemática, mas o caboclo pegava ele na sala de aula porque assustava as crianças e perdeu a cadeira por isso. E, também, foi deserdado da família porque ele saiu do seminário e voltou para a família e a família não aceitava como pai de santo. E era família negra, mas era tudo militar de Comandatuba, cidade de Comandatuba. E ele ficou assim viajando. Ele é muito inteligente, falava o latim corretamente, eu não sei falar latim, mas ele falava. Pegou e aprendeu tudo no seminário, né? Na Argentina estudou muito. E ele ficou assim viajando aí para um lado para o outro, ajudava um, ajudava o outro. Depois ele veio uma época da Argentina e ficou no Rio, na casa do pai de santo Joãozinho da Gomeia, o qual eu conheci. E Joãozinho falou assim: "Mambanzo (Mambanzo?), que se trata pelo nome do santo, abre uma casa". Ele "Ah, é ruim, não tem um lugar, espaço para a gente, lugar... abrir casa na casa dos outros, não tem cabimento". Mas ele cuidava, ele tinha uma sabedoria muito grande. E ele cuidou de uma japonesa, foi onde que eu disse que eu fui levado para uma japonesa, em São Paulo, estava internada lá em um campo de Jordão, no hospital de tuberculose. Estava com uma doença que não era tuberculose, era um espírito que tinha morrido de tuberculose, que a gente chama de egum, em cima dela e aí parecia a doença. E que meu pai falou: "Não, ela não tá com tuberculose". Veio uma semana para a família e a família por quê eu não sei, chamou ele levada por outra pessoa. “Essa menina tá com egum”. “E que que é egum?” “Espírito desencarnado da própria família”. “E que faz o quê?” Faz o ebó iku (ebó iku?), que é tipo assim, três e um. Faz para Exu, faz para egun, e para o ancestral. Limpa a pessoa e depois fortalece com os oferenda do santo. Que a gente somos como a árvore da vida, tem que botar um adubo para poder ficar forte, né? Então, ele fez todo esse processo que deu certo. Foi quando eu conheci ele, porque eu também caía na rua, desmaiava. E o pessoal dizia que era epilepsia, não era. E sim, já o santo já me encaminhando. E nesse “trajetório”, eu tenho muitos amigos no Rio e tem um amigo que estava muito bem, que era da Marinha e falou: "Ó, eu te ajudo a abrir a casa". E Deus move tudo. Alugamos uma casa lá em Santos, perto das docas, um espaço assim que não ia incomodar ninguém. E lá que eu fui iniciada e meu pai de santo foi assim... Eu fiquei 30 anos com ele. Só separei porque ele... Quando ele abriu a casa tinha 53 anos, morreu aos 83. Eu só separei porque Deus levou. E eu fiquei depois uns nove anos sozinha. Mas ainda assim, eu fui a primeira casa, a primeira pessoa a ser iniciada por ele. Fui a cobaia na época, mas ele me chamava de ovo de indez (indez?), quer dizer, primeiro. E ele me ensinou, me deu, não aprendi mais porque na época eu não tinha muito interesse de seguir. Eu que fazia as coisas certas, mas eu não queria ser mãe de santo, nunca passou isso na minha cabeça. E ele também nunca me disse que eu ia ser mãe de santo. Ele só dizia assim: "Saber não ocupa lugar. Aprende que um dia você vai precisar, aprende que você vai precisar". Então eu ouvia aquilo ali, e eu sou muito fácil de aprender as coisas, eu sou muito assim, fica na minha cabeça. E um belo dia ele falou que longe da obrigação eu tinha já 12 anos de feito, eu não tinha dado a obrigação de sete, eu fiz a obrigação de sete. Depois de seguida eu já fiz a de 14. Passei um tempo vim embora para o Espírito Santo e aqui eu fiquei doente outra vez. Ia de clínica em clínica a gente escolheu até médico, porque na época a CST era muito boa para essas coisas. Aí um médico ali no Bento Ferreira, uma clínica que tinha que era Cemic. “Você tem que procurar um pai de santo, porque a senhora não tem nada”. Eu tava com a obrigação já atrasada, 21. E foi a primeira obrigação a ser dada aqui em Vitória, registrada de verdade. Porque tinha muito Umbanda aqui, não tinha quase Candomblé. Vinham alguns, mas não ficavam e Candomblé mesmo só tinha uma família que já chamava Oyeakan (Oyeakan?). E o resto era tudo Umbanda, Umbanda, Umbanda. E eu procurei meu pai, outra vez “pai vem dar um jeito”. Ele, “minha filha, não tem jeito, o jeito é o santo. Tá te cobrando”. Eu falei “cobrando o quê?” “Você tem que seguir. Você tem o dono para levar como zeladora de santo”. Eu enquanto vocês vão existir, não quero saber desse negócio não. Mas a gente fez a obrigação na minha casa, aqui em Vitória. Vitória é Serra, eu sempre falo que Serra é Vitória, mas eu confundo. E foi aí na mesma casa, onde eu dei obrigação, foi... fiquei fevereiro, março foi 17 de fevereiro, março, abril, maio, dia 27 de maio eu saí para sociedade todo mundo ver aqui. E daí minha filha eu não tive saída. Mês de junho trouxeram um pessoal de João Monlevade, que é Minas, com uma menina que estava na Bahia, e ia se iniciar, não quiseram e veio parar na minha mão. E eu falei: "Eu não vou fazer não". Ele: "Não, você vai fazer, o santo botou para você fazer". E eu: "Não, não minha filha, eu estou aqui, estou junto com você, vamos fazer sim". E cuidei da menina hoje ela tem uns 36 anos de santo já, mora em Jacaraípe. Não seguiu Candomblé, até 10 anos ficou comigo, depois voltou. Ficou boa, parou, porque ela tinha que ela desmaiava com epilepsia, desde os 11 meses de idade. Hoje ela faz trabalho na comunidade e tá dentro do lado kardecista, que ela é filha de Nsumbu que para algumas pessoas é Omulu. Os pais morreram, ela tá aí ainda, tá viva. Foi minha primeira filha de santo aqui. E meu pai, Deus levou e eu fiquei nove anos sem zelador. Que eu tinha meu pai pequeno, mas meu pai pequeno, quando meu pai faleceu, ele queria tomar conta isso aqui, que eu já tinha quando eu fiz o obrigação, meu pai faleceu. Ele preparou a casa, que foi 92. Meu filho, que é o mais velho, três pessoas preparou e em julho ele faleceu. Aí eu me vi assim, beco sem saída. Como que eu ia levar isso aqui? Meu pai pequeno ficou, a zeladora, a mãe pequena também, só que eles queriam mandar em mim, na casa tudo como fosse deles. Aí eu falei: "Não, como meu pai disse que a casa do meu santo é do meu santo, isso aqui fui eu que comprei". Então não existe dois rei e nem duas rainha dentro de uma casa. “Rainha é minha mãe, eu sou zeladora. Então, vocês estão convidados a se retirar da minha casa”. Me deu uma força que não era minha também. Fui levada e foi verdade. Fiquei 9 meses num sofrimento. Meu marido torcia que não desse certo para eu não poder dar continuidade. E eu... Foi essa época que eu sofri muito. Depois eu dei uma energia forte que eu viajei para Minas, Uberlândia, que tinha um seminário, eu fui para esse seminário convidada por outra pessoa. Fui dois anos seguida, foi quando eu conheci o segundo zelador, que eu trouxe para minha casa, que é da lá do bate folha, fazia as obrigações do meu filho de santo que estava atrasada. E logo em seguida eu dei obrigação com ele aos meus 40 anos. Já dei aqui em Vitória, tem registro de cartão e tudo. Depois eu dei de 50, com esse atual pai de santo, segundo pai de santo. E ele veio falecer. Aos 79 anos, parece. Isso mesmo. Aí eu fiquei assim uns 3 anos assim meio descoberta, mas eu tinha raiz também onde socorrer, buscar, mas eu fiquei muito assim desnorteada. Porque também foi outra pessoa que me fez muito bem. Aprendi mais um pouco, porque como diz a gente, todo dia a gente aprende, né? E fui levando as minhas raízes, eu não troquei de nação, nem de... porque tem Ketu, tem outras nações, né? E eu não mudei para nada. Quando eu tentei mudar, não deu certo. Então, é no Angola que eu tinha que ficar, Angola Congo. Aí eu dei a obrigação atual ano passado, é atrasada... é o ano passado, eu dei a obrigação, eu fiz meus 60 anos com pai de santo lá de Salvador, que é o bate Folha. Como eu disse, é uma casa centenária e eu fui buscar atual zelador que eu tenho hoje. Minha mãe tem 91 anos de santo, de idade, e tem 75 de anos de santo. A que vem da obrigação e o zelador tem 68 com 48 de santo. Que lá tem um sacerdote e sacerdotisa, ou seja, o pai de santo e mãe de santo. E ela tem essa idade, não pode ser mãe de santo, porque o santo dela é homem, lá que reina é a santo mulher. Porque tem Bambu do Sema, que é uma qualidade de Iansã e Oxalá. Aí tem o sacerdote de Oxalá e a sacerdotisa de Iansã. Tem que ser santo mulher. E nessa coisa toda foi quando foi agora em janeiro eu fui para lá, e eles que estão cuidando agora de mim. Vice-versa, né? Porque a gente se cuida todo santo dia, a gente se alimenta todo santo dia, o santo não é diferente. Então, como eu tenho muito tempo de santo, eu vou de dez em diante, que é como fosse princípio divino 10, 1, 2, então, se alimenta tudo. Mas enquanto esse... na interferência desses 10 anos, é onde eu faço as oferendas à Iemanjá todo ano. Que eu levo assim... é uma simbologia, mas é oferenda de verdade, que aquilo ali é tudo comida de santo mesmo que eu levo. Os peixes comem, se alimentam. E eu acredito naquela força das águas que me alimenta muito bem. Que é a essência, né? Então, aquilo ali nos fortalece e estou aqui contando história. Então, sou muito grata a Deus e as divindade, as entidades também, porque tem divindade e entidade. Então, entidades são caboclos, são pretos velhos, que são nossos ancestrais, são outras entidades que tem boiadeiro, tem caboclo, boiadeiro, tem marujo. E tem as pombas giras e os exus, né? Que nós chamamos aqui de catiço, porque existe Exu, divindade. Existe Exu catiço. Que é chamado de Mulambo, Tranca-rua, Sete encruzilhada, cada nome tem um nome. Mas eles tem um nome verdadeiro, isso é uma forma de não sei porquê que bota esse nome, ninguém tranca a rua, ninguém é sete encruzilhada, não, ele é divindade, ele é como eu e você. Maria Caveira, Dona Sete (Dona Sete?), não sei o que lá. Enquanto no santo a gente não chama eles assim. Por exemplo, eu na Umbanda se dia eu tenho uma entidade que seria Rosa Vermelha, na Umbanda que eu chamo ____ Muzila , na nossa... no Candomblé. Inda Muzila (Inda Muzila?) quer dizer Senhora dos Caminhos. A diferença que fica do que Rosa Vermelha. É bonito o nome de Rosa também. Eu tenho Exu Tiriri na Umbanda, mas ele é do Candomblé também. É uma entidade forte, ele não é um catiço, ele é um guardião do santo. Que é de Ogum. Aqui nós chamamos de encosse (Encosse?). Mas isso eu tinha desde que eu frequentei a Umbanda, que foi quatro anos de Umbanda que eu frequentei e ele nunca me deixou. O meu pai assentou que ele não aceitava Exu descendo da cabeça da gente. Como eu não desço Exu na minha cabeça. Catiço que a gente fala, né? Eu tenho uma entidade que ela não é pombo-gira, ela só fala cigana, mas ela também é uma mentora. Que ela é muito esotérica, o lado mais esoterismo, aquele lado. Ela não trabalha com corte, com nada. Ela trabalha com essência, com fruta, com sementes, essas coisas assim. É bem esotérica, muito... não tem nada do corte. E aqui era catiço, era Rosa Vermelha, meu pai assentou ela, ficou Inda Muzila (Inda Muzila?), ela cuida do meu santo que é Iemanjá. Tanto que ela no assentamento existe o ferro, existe as coisas, ela tem uma rosa, porque foi a simbologia dela. Mas hoje eu não tenho ela como um catiço, eu tenho ela como uma guardiã. Que menina que é da minha mãe. Mas eu não desço Exu na minha cabeça. Tem essa mentora que é Zarhaks (Zarhaks?), de origem árabe com Escandinávia, uma origem assim, mística. Trabalha muito com essência, essas coisas. Mas eu também não sou contra quem tem seus catiços, suas coisas, que que também presta caridade, também, e não são demônios, não, como dizem. São pessoas que já viveu como eu e você. É tanto que eu tenho uma polêmica muito grande que as pessoas quando recebem o catiço ou Exu como é falado, se entorta, bota a mão engalfinhando. Exu é lindo, Exu não tem esses gafinhamento não, não tem essa coisa feia não. Por que faz você entortar todo? É onde eu falo “eu sou assim, fique na certa, na reta, certa, natural. Não precisa entortar, virar o pescoço”. Não, isso é coisa do ser humano. Porque a entidade vai pela índole do ser humano. Entendeu? Porque ele tá no corpo do ser humano, ele tá como espírito pra gente. É onde que a gente tem a aura aberta, então recebe, qualquer pessoa pode. Só quem não recebe espírito são os chamado de ogã, macota (macota?), que é ikede (ikede?), que já vem 7 anos na nossa frente, eles já vem pronto, eles vem tomar conta da gente, do santo da gente. Então esses não recebem entidade nenhuma. Mas qualquer um pode receber um espírito. Às vezes tá assim, você vê um vento assim passar, é um espírito que está com a gente. Não é diabo, nada disso, que diabo é... não existe. Nome de diabo é um nome qualquer. Satanás, diabo, é o bicho, é não sei o quê. Bicho é a gente, se a gente fazer o mal. Né? O bem e o mal está dentro da gente, você usa como você quiser. E o candomblé, é onde que eu falo é que ele lida muito é... Se eu fizer alguma coisa de mal para os outros, eu faço consciente, eu sei que tô fazendo mal. Não foi meu espírito, fui eu. Botar culpa no espírito não vem, não. O espírito não faz mal para ninguém. Ele vem nos orientar, nos fortalecer. Tem um egum que é chamado... O que que é o egum? O egum é o espírito quando morre antecipado antes do tempo. Que às vezes é... morre em acidente, morre através de um... a morte matada, que é um tiro que leva. Esses são os egum, porque eles não... O que que eles fazem? Eles não se conformam em ter ido antes do tempo. Então, eles ficam vagando até encontrar a data dele para desencarnar. Não sei se você assistiu aquele filme, “O outro lado da vida”, é “Ghost, do outro lado da vida”. É aquilo ali, não é mentira não. Porque o espírito se revoltou e pegava um e outro, pegava e outro e às vezes empurra em abismo. Porque ele tá revoltado. Até de se conscientizar que ele não é mais corpo físico. É onde que pode vir a doutrina que encaminha para passagem dele correta. Então isso às vezes empurra você no abismo. Isso às vezes usa você também. E quando você vê já até caiu, já se machucou, já bebeu demais, se embriagou porque eles fazem isso também. Até aí eu concordo. Porque é um espírito é uns falam zombeteiro, outros falam obsessor, porque ele não se encontrou ainda; a luz dele. Que todos nós temos luz. Tem às vezes pessoas assim que tá na rua, como eu vejo um senhor aqui, carrega um monte de ferramenta que eu não sei como ele consegue carregar tudo aquilo ali. Ele já foi um metalúrgico, alguma coisa, né? Porque ele mexe com pedaço de ferro, com essas coisa tudo. Se pega uma criatura daquela, faz um ebó, limpa ele pra fortalecer, ele, aí ele passa tudo aquilo ali e vai embora. Mas é preciso que a pessoa aceite que a gente não pode pegar ninguém na marra. É preciso que a gente tenha conhecimento do que é. Porque não é fácil. Quantos por aí ficam chamando Jesus de Genésius (Genésius?)? É loucura, não é. É fraqueza espiritual. Com as pessoas daquelas momento que entra em depressão e chama fraqueza espiritual. Então os médicos enchem o quê? De remédio para ficar até tá, tá, tá, tá, tá. E onde que a gente fisicamente vai fica fraca, fica doida. Se não é, fica. É como se só usa a droga. Vamos botar assim, né? A maconha. É uma folha forte. É de Exú. Sim. Mas tem para outras coisas também. Então, a maconha não mata ninguém. Às vezes, tudo que é excesso é ruim, mas ela cura também. É tudo tem a dosagem certa. Às vezes eu posso matar uma pessoa com folha. O certo é 30 g para cada litro. Mas se eu for dobrar aquilo ali, eu posso matar uma pessoa. E é um remédio natural, né? Mas eu posso. Então, tudo tem um limite. E vocês tem que ter conhecimento desses limites, de tudo na vida. Eu não posso fazer tudo que eu quero. E o Candomblé ensina isso. Eu falo que o Candomblé é um quartel, doutrina, tem hierarquia, tem respeito, tem tudo. Hoje em dia tá difícil, como eu tava falando. Porque o mundo mudou muito, a internet bagunçou com as pessoa. Mas tem que parar e ver que nem tudo que tá ali tá certo, correto, não. É muita informação pro ser humano. Tem pessoas que tá assim doida e ficando maluco. E tá ali 24 horas no... na tela. Ele não consegue ficar mais sem aquilo ali. Ele não tem o espaço para respirar no ar diferente, conversar com uma pessoa nem nada, nem dar atenção. É tudo se comunicando. Eu fui no... Eu fui numa churrascaria até com minha família mesmo. Quando eu vejo que tá todo mundo, eu falei: "Ei, nós viemos almoçar. Deixa o seu celular do lado, por favor. Porque vocês tão dando atenção no celular, não na comida que a gente vai comer, aquilo é um sagrado”. Ah, mãe, não vem com essas coisas não, mas eu tenho que ir. Eu não acho certo. É porque eu não sei lidar muito, porque eu ligo muito pouco também. Que minha idade eu não tenho muita, não sou neutra, mas eu também não sei muita coisa também, nem quero também. Mas hoje em dia precisa assim. Mas nem todo mundo lida também, você não tem um momento para você, não tem nada. As criança hoje não sabe brincar a não ser de... e tá tentando voltar agora um pouquinho puxar, tirar isso porque prejudica. Fazer uma conta, ai, pronto. E a sua mente vai para onde? Daqui a pouco você não sabe nada. É por isso que tem os mais... os maus profissionais por causa disso. É tudo ali. E a sabedoria tá onde? Se você tem dentro de si. É isso que acontece. Tá mudando muito as coisas, muito mundo totalmente. E que que vai acontecer? A natureza cobrar, cobrar você. Você consegue ouvir tudo isso? Que às vezes eu faço pergunta para mim: Nossa Senhora, fale.
P/1 – Como foi seu primeiro contato com a espiritualidade?
R - Foi surpreendente, sabe? Porque eu tinha umas... Eu tinha muito medo assim, minha mãe... Eu morava na cidade, mas assim, nós tinha um quintal, tinha uma horta, tudo, né? E às vezes minha mãe criava muita galinha, muito tudo. E chegava umas certas horas, elas tinha que já irem para o local de dormir, mas tinha umazinhas que às vezes ficava choca, que queria entrar em vez de ir para o local certo, e queria vir para dentro de casa. Minha mãe: “vai levar lá dentro”. Mas eu ia com medo. Que eu tinha medo da galinha e tinha medo porque já estava escurecendo. Aí um belo dia eu estava assim, eu vi uma pessoa do meu lado, eu falei: "Vó, minha filha de Deus, vó". E quando eu vi não era minha avó. Foi uma das primeiras coisas. E minha mãe fazia, tinha... trabalhava com doces no mercado e fazia muito, então eu volto e meia tinha aqueles monte de louça para lavar, aqueles negócio. E eu vi, minha mãe: “pega essa louça, leva”, porque a gente fazia tudo do lado de fora. Na época eu não tinha água encanada, meu pai tinha uma cisterna a qual a gente usava para para rezar as coisas dentro de casa. E a água da chuva acumulava. Eu peguei aquele monte de prato, era que horas? Cinco horas da tarde. Para levar lá para onde que tinha que ser lavado. E eu vi umas estrela descendo assim na minha frente, eu soltei os prato todinho. E minha mãe isso “você não tem cuidado, quebrando os prato todo”. Mas eu vi a estrela descendo e ela não acreditou. E eu como não tinha luz na cidade, era só motor 10 horas apagava tudo. E tinha lua, né? Que servia de luz para gente, a gente brincava de roda aquele negócio todo. Eu estava sentada na calçada com meu irmão pequeno. Eu vi uma coisa, assim, se mexer na minha frente de roxo, parecia roxo. Como fosse um menino. Aí eu me deixo, “mãe, tem um negócio aqui”. Ela: "Que negócio? Não tem nada aí, deixa de ser mentirosa". Eu: “Mãe, tem. Tá olhando para mim. Sai daí”. E aquele, aquela energia vinha junto comigo. E eu vi esses vulto, uma vez um cachorro, eu vinha da escola porque tava meia ruim. Como o grupo era na frente, a minha prima dava reforço pra gente. Eu vinha do grupo umas oito horas da noite, que dava escola pra... tinha mobral pra, tipo assim, para os mais... as pessoas de idade, né? E eu vim, quando eu cheguei na área a nossa casa tinha uma entrada, depois é que era a casa dentro. Eu vim, parecia que tinha um cachorro, como fosse metade de ouro, metade normal. Botou as patas assim em cima de mim, eu caí na área. E comecei a rolar e mamãe, minha mãe escutou aquele barulho, veio ver, eu tava no chão toda ralada. As pernas, joelho. O que que foi? Que que foi? Eu falei: "Foi um cachorro". “Que cachorro, menina?” “O cachorro assim, assim”, “Você tá ficando louca, não é possível”. Aí passou, chamou umas pessoa para benzer. Chamou o padre para benzer nossa casa. E eu vi essas coisas tudo e atrás da nossa casa tinha um centro que eles tocavam. Vinha da Bahia e tocava um atabaque nos fundo e aquilo até me incomodava. E minha mãe dizia “isso é macumba” que lá não falava macumba, ela chamava de Xangô, no nordeste. “Esse xangô desse homem aí tá perturbando a casa!” Mas não podia parar, cada um. Mas aquela coisa minha do atabaque ficava na minha cabeça. Dali como eu disse, eu saí fui embora para São Paulo e lá que eu me senti doente, me levaram para uma cabana chamada Cabana Vó Maria para benzer. E eu botei a mão no médium o médium entrou debaixo da mesa lá com uns negócio esquisito. Como foi eles chamam? De puxar, né? Puxada. E dali eu recebi o espírito também. Recebi o espírito de uma madre. Foi o primeiro espírito que eu recebi. Falava na linguagem dela lá toda... Aí o... O mentor da mesa disse que era um espírito de uma madre... De uma madre, de uma freira, né? Que era o sonho da minha mãe que eu fosse para o convento, que eu tive um ano no convento. O ________ em Santos. Mas não tinha nada a ver com o catolicismo. E foi esse primeiro espírito. Depois disso, eu tinha uns negócio que dava e eu rolava no chão. Aí o pessoal dizia que era santo, mas que santo rolava no chão, né? Ninguém acreditava nesse negócio. Que eu não fui assim logo imediato recebendo tudo que é espírito, não, não fui. Recebi esse espírito dessa madre e eu recebi um espírito que me jogava no chão. Rolava igual um... Daí, pronto, socorro para botar no natural, botar um éter no nariz, às vezes eu vinha com isso aqui tudo vermelho de coisa que botava para mim retornar meu consciente, até alho botava no meu nariz. Na época eles não entendia para sair o que tava perto de mim, né? Que não saiu nunca até hoje. E foi meu trajeto assim, aí eu quando eu conheci esse senhor, que ele falou que era santo que ele tinha que cuidar, que era o santo que tava pedindo feitura, tudo. Como fazer feitura de santo? Não entendia nada aquilo. Não, você tem seis meses para se iniciar ou você desencarna. Aí foi quando eu fui, entrei de mala e cuia, fiz o santo de primeiro, assim, mesmo, para receber o espírito mesmo. E antes disso, como eu disse para você, eu tive na umbanda que eu recebi um caboclo, chamava folha verde. Eu recebi uma preta velha, chamava vó Jacinta. Foram meus guias de início. Eu tinha 16 para 17 anos. A vó Jacinta cantava um ponto, dizia assim: “Maria Mucambeira lavadeira de sinhá/ lavava roupa de chita no riacho de Iemanjá. O re re re re re re re lavava a roupa de chita no riacho de Iemanjá”. Era a cantiga dela, a vó Jacinta. E fazia uma meladinha que dava para curar as mulheres com problema, com a idade que eu tinha. Aí eu me vi assim meio atordoada e chegou o pai de... o zelador do terreiro, pai de santo, mas a mãe falou que eu tenho que sair porque eu tinha eu tinha guia do Candomblé, não era da Umbanda. Porque eu subia e saía perante a mãe de Santo, que era a mãe na casa lá do Pai Tupi. E meu caboclo tinha ficha mais do que o Pai Tupi. Incomodou o pessoal lá da comunidade. Mas eu não tinha, porque tipo assim, o pessoal procurava ele, que ele falava umas coisas diferente. Eu saí dessa Umbanda. Foi quando eu conheci uma mãe de santo também que tinha feito três anos de iniciação e que eu cheguei onde eu cheguei no meu pai de santo. Através de uma festa que vieram o pessoal do Rio para essa festa. Aí ele me iniciou, não recebi mais guia nenhum. Me iniciou no santo mesmo, como tinha que ser. E daí eu passei a receber só a divindade e um erê que a gente chama de vuns (vuns?) de criança, filho de criança. Depois que eu me iniciei, fiquei um tempão sem receber entidade nenhuma. E quando eu vim para Vitória, foi que na minha obrigação de 21 anos, é que eu vim receber uma cabocla, chama cabocla Juçara, que até hoje eu recebo. Porque o caboclo se quizilou quando eu fui para o Candomblé, não aceitou a mudança, né? E eu fiquei sem caboclo, sem nada, tipo assim, foi minha obrigação de 21 que a cabocla Juçara me pegou, que é uma ancestral também da onde meu pai se iniciou. E tô com ela até hoje. Então, entidade, eu só recebo cabocla Juçara e Zahake (Zahake?), que é uma essa mentora, eu não recebo Exu, Pomba Gira, essas coisas, não. Tenho assentado, como trabalho todo com os... Mas eu não sou de receber entidade não, não trabalho com entidade, eu trabalho com búzios, carta, mas com esses dois mentor, que é a Zahake (Zahake?) que ela me deu carta, eu não sei, nunca fui cartomante, e eu tenho as carta que ela me deu. E ela me deu runas também. Mas eu jogo, mas não me identifico muito eu, pessoa. As carta ainda vai, o búzio que foi do meu santo. E, assim, eu não sou aquela pessoa de estar recebendo sei quanto guias, sei quanto caboclo, sei quanto não sei o que, não, não sou. Eu não recebo, eu jogo, búzio com a entidade e a divindade que é meu santo que é a parte que eu chamo a parte espiritual, a parte material, que é as carta vem para o lado material e o espiritual que é do meu santo. Então, não sou aquela mãe de santo que baixa a guia para poder atender uma pessoa, não sou assim. Eu atendo como estou aqui. Mas não atendo sozinha também. É, tipo assim, vou ver o seu conteúdo, tudo a energia do seu santo, vejo seu lado material também, mas com a entidade e com a divindade. E o único que eu trabalho assim, que dá passe, também dá consulta também é a Cabocla Juçara. Que ela vem. Eu tenho um marujo que uma vez por ano... quase não aparece, que é o Boto Rosa. Ele tem o nome dele, verdadeiro, mas o apelido dele é boto rosa. É bom. Mas ele não aparece muito não, uma vez ou outra. Não é aquele guia que vem sempre, ele tá sempre perto de mim, sinto, mas eu não... passagem com ele mesmo, trabalhar com ele mesmo não é muito não, é difícil. Como que eu sinto ele? Eu sinto cheiro do mar, me dá umas náuseas, também. Eu sinto vontade de beber, que eu não sou de beber, não sou de fumar, mas eu sinto aquela vontade. Aí eu boto uma bebida, você pode ver lá fora até bebida lá, boto cerveja para ele. Boto uma bebida, eu às vezes boto um cigarro. Como eu boto para o Zahake também. Bota a taça dela com a bebida, mas eu não sou de estar bebendo. Mas quando ela vem, ela fuma muito e bebe muito. É diferente. Tem a festa dela aí no mês de novembro, é boa. Pessoal gosta muito. E a cabocla Jussara é 2 de julho, a festa dela de caboclo. Tá passo (tá passo?), é bom, que eu faço uma festa bonita. Faço o caruru das crianças, que é 27 de setembro, faço a cucona do Obaluaiê, que é para saúde, que por aí chama-se Olubajé, que é lá da saúde. E assim meu “trajetório” é esse. Então, a gente não é aquele que “o que vem na rede é peixe”, não. Não tenho nada contra ninguém que recebe seus guias, suas coisas. Mas eu acho assim, como que uma cabeça recebe sobe um, desce outro, sobe um desce outro, aquele negócio. Eu também às vezes não entendo que é muita coisa com cabeça só. Tem gente que desce um trabalha com um, daqui a pouco sobe, sobe desce outro e aquele negócio todo, que uma hora dessa eu fui num local e eu me saí porque não aguentei de ver. Primeiro eles apagam a luz, fica aquelas... aquele lado meio escuro. Me incomoda, bota umas velas assim no meio e os guias vêm, desce tudo. Tudo que um monte de guia, um monte de coisa. E aquilo me dá um conflito. Eu não consigo ficar nessa energia toda. Me incomoda muito. Aí eu tenho que sair para fora, que eu fico sufocada. Não aguento. Mas eu não sou palmatória (palmatória?) do mundo, não posso consertar nada e nem sou a dona da verdade. Mas aquilo ali eu tenho um certo receio. Que vem, bebe, fala um monte de besteira também. E as pessoas às vezes gostam de escutar. Aquele que convém, quer escutar o que te convém, sabe? Então, as coisas não são assim. Eu jamais vou dizer uma coisa só para te beneficiar. Se eu tô vendo o contrário, eu não vou falar como quem diz só porque você quer escutar. Ainda hoje eu falei para o senhor que saiu um pouquinho antes de vocês. O que o senhor quer ouvir, eu sinto muito, porque leite derramado é difícil juntar outra vez. Então, o que o senhor tá querendo vai ser difícil. Então, o senhor pode dar um boi ou uma boiada que não vai acontecer, não. Eu não queria falar isso para você, mas é verdade. O senhor não veio aqui para enganar o senhor jamais. Mentira tem perna curta. Então, ó, se levante, dá a volta por cima, se perfuma, vai passear, você vai encontrar pessoas que vai somar com você. Mas o que você tá querendo não vai. E não vai mal cobrar não porque vocês são resgate de vidas passadas. Acabou o tempo. Então não adianta forçar que não vai dar nada. Porque às vezes tem forças que também puxa, mas quando é resgate de vidas passada acabou o tempo, é como uma missão. Acabou, um dia acabou, cada um vai para o seu lado, às vezes costuma ir até junto, mas é muito difícil. E quando são pessoas que através de resgate, pode seguir porque não vai dar nada. Você pode fazer o que for. E outra coisa, quando você se encontra com uma pessoa pelo lado espiritual, é duradouro, pode dar desencontro, mas você acaba voltando e fica ali. É como uma árvore que é forte, tem uma raiz forte. Cortou o broto vem, quebra, mas ela torna a brotar. Então, quando é pela espiritualidade é duradouro. Quando é só pelo corpo físico, matéria, aqueles momentos passou, acabou, gente. Segue em diante, é coisa que segue, como eu disse, é vida que segue. Por que maltratar, matar as pessoas, por que não tá aquela coisa isso. Tem que entender isso, é falta de quê? De instrução de educação, de formação, que ninguém é colado a ninguém. Ninguém vem... cada um vem individualmente. Por que que acha que tem que estar ali amarrado na marra? Não pode. Você é livre, tem que viver bem. Não dá. Parte para outro. Eu sempre falo às vezes para as pessoas que vem: "Eu quero fazer um trabalho, quero fulano nos meus pés". Como que alguém vai andar debaixo dos pés? Ele quer que vem e ____? arrasto, eu falo: "Meu Deus do céu". Escuto, escuto, escuto, depois eu vou tirar minhas conclusões, falo: "É assim, assim, assim, assado". “Então não dá, você tá dizendo que não dá?” Às vezes até eu brinco, eu falei: "Nem com a reza do Padre Inácio". Não dá. Se você quiser gastar dinheiro, você vai. Às vezes eu tento até ajudar às vezes, quando eu vejo que é uma, por exemplo, o casal tem seus filhos, quer criar, às vezes tenta amenizar algumas coisas que a gente faz, que é uma simpatia. É um feitiço, sim, tudo é um ritual, na vida tem ritual. A gente enche, bota alguma coisa assim. Tem momentos que costuma dar certo, tem outros que não. Agora sou eu a culpada? Não, jamais. A gente dá o remédio, se vai curar, ninguém sabe. É onde que eu falo, eu não faço milagre. Eu vou colocar oferenda, tudo, na intenção que dê certo, mas se não der, não tenho culpa nenhuma. Então, você já vai sabendo como que funciona. Que eu não quero que ninguém diga depois, ah, veio cobrar de mim, não. Ninguém não vem cobrar de mim, não. A natureza é isso. Às vezes, eu vejo no búzio dá certo, dá para continuar? Dá. Tem, que tem pessoas que entram na vida do outro, né? Para bagunçar mesmo. Aí é diferente. Aí a gente afasta aquela negatividade, aquele cabeça de bagre, como dizem, né? Coisa ruim do lado, isso pode. Passa assim umas folhas, faz o benzimento, faz uma purificação, se faz uma oferenda à esquerda, porque você tem, para ver se aquilo dá certo. Mas se não der, até eu brinco chuta que é macumba, né? Macumba é o ritual só, acabou. Então vai em frente, parte para outra. Não fica ali choramingando, mendigando amor de quem quer que seja. Amor, a gente tem que se gostar primeiro, para depois gostar de quem quer que seja. Eu nunca fui apegada assim a nada, nunca fui materialista. Tudo é... tá meu, se não tiver também vou entender que não é meu. Você entendeu? Eu sou assim. E até hoje eu só aprendi assim, vivo assim. Eu não acredito nesse amor que pintam, né? Tem os versos de amor... Eu acredito no amor sim. Mas o amor, quando existe amor você se doa, você não vê defeito no outro, você aceita como a pessoa é. Isso sim eu acho que é amor. Mas esse amor de conveniência, raiva, dinheiro. Ué, ninguém vive, como ninguém está à venda, ninguém tá comprando por causa de dinheiro. Vive bem, mas não vive... daqui a pouco dá em nada. Agora um amor que você se doa, soma junto, anda, tem os mesmos propósitos, tudo bem. Isso aí eu acho que é a convivência, um amor também, a gente se doa, a gente não pode estar pulando de galho em galho, né? Porque é ruim. Você quer formar uma família assim? Tem barreiras? Tem. Tem momento que dá choque? Tem. Mas você pode consertar, você pode amenizar as coisas. Aí você vai a vida inteira. Quantas vezes eu tive barreira, choque, coisas que eu pensei que não ia suportar, eu suportei. Porque eu queria uma família. Eu tenho uma família. Tem os tropeços, tem, desculpa a expressão, tem os arranca-rabo, como diz o outro. Depois você tira isso, tá minha filha? Vocês fazem o resumo, tira isso aí. É, mas é uma coisa que eu quis, eu tô querendo, pronto. Vou culpar ninguém. É eu que tô querendo viver essa vida, mas tem momentos que eu chego para lá, chegou, acabou. Eu me tenho muito como exemplo de tudo. Que às vezes eles falam assim, não, minha filha, assim, assim, assim. Eu sou mãe de santo, eu posso fazer tudo. Eu posso fazer milagre para mim também. Se eu soubesse fazer tudo, se eu tivesse... Quem tinha mais tinha era eu. Se eu tivesse o poder de enriquecer, quem mais tinha dinheiro era eu. De mudar as coisas, quem mais tinha era eu. Sei fazer tudo, faço tudo. Não, não é assim, eu sou só um instrumento. Eu só tento ajudar a amenizar, tirar o excesso da negatividade, isso aí eu sei fazer, sim. Eu não sou Deus, mas purifico a pessoa, limpo o caminho. Se vai seguir, eu não sei. Eu tô fazendo a minha parte. A outra vem sua e vem de Deus. Então, eu não sou bruxa, não faço milagre, senão eu fazia para mim. Eu tinha do melhor, nossa. Eu tinha o que eu queria na minha mão. Eu casei, como eu disse o _____ anterior, eu casei se... se não der, eu separe e pronto. Mas eu não separei até hoje. Porque é a minha missão. Eu tô cumprindo ela. Cristo sofreu tanto, né? Aguentou a cruz, morreu pela gente, por que que eu não posso também? Ah, mas eu não sou Cristo não, eu falei "tudo bem". Eu também não sou Cristo. Eu só dou uma face, a outra eu me defendo. Mas vamos lutar para dar certo, se não der, segue a vida, que a vida continua. Mas eu primeiro vou me gostar. Depois vou gostar de quem quer que seja. Eu amo meus dois filhos, faço qualquer coisa pelos meus dois filhos. Tem hora que eles são mal-criados, são. Muito. E agora que são homens, né? Tem 49, 46 e 43. Tem hora que dá vontade de... Eles não ficam saindo da roda da minha saia, sabe? Mora comigo aqui agora. Vai lá a mãe para lá, a mãe para cá, até eu falei: "Meu Deus, me deixa, gente". Já cortei o cordão umbilical faz tempo, pelo amor de Deus. Mãe assim, assim, me crucificam também, não pense que é só... Mas eu amo todos meus filhos, meus filhos vão trabalhar, eu rezo para que vá e volte com Deus, com todas as força. E peço perdão também a Deus pelos pensamentos que às vezes eu tenho. Mas... e eles tão trabalhando, trabalha no porto, trabalha, hoje tá trabalhando mais comigo com vendas, com algumas coisas assim. Mas eu não vejo, outro dia eu tinha que ir no Rio porque de compra e venda, né? Aí ele: "Mãe, tem que buscar isso assim assim no Rio. Tá na Gávea”. Falei: "Você vai sozinho?". Que na Gávea é entrada quase para Rocinha, né? Aí eu fico... me deu uma coisa na minha cabeça, eu falei: "Eu vou com você". Mãe, não precisa. Eu falei: "Vou sim". Saímos daqui era umas 6 horas da tarde, viajamos a noite todinha. Chegamos de manhã, já fomos direto. O rapaz já tava nos esperando, fui lá, um lugar maravilhoso. Nossa, tem até um... faculdade lá dentro, no meio do... É maravilhoso, eu disse nossa, fiquei lá, olhei, tem muita árvore, muito tudo, né? E ali a gente conversa com Deus também, porque eu sou muito apaixonado pelo verde, por tudo, plantas tudo. Eu onde eu vou eu trago uma plantinha, isso é. Aí pegou as coisas que tinha que pegar, tomamos um lanche e voltamos. Que ele bate e rapidinho, né? Almoçamos na estrada, mas eu fui bem porque eu tô ali com meu filho, eu tô vendo meu filho, eu tô vendo... sei lá. E se ele fosse sozinho já vai ficar pensando coisas, sabe, assim, que o Rio é muito bom, muito bom, mas é perigoso demais. Mas já andamos tudo que é muito lugar por lá. Conheço muito local, mas a gente tem os cuidados, né? E eu sou muito aquela mãe que protege muito e às vezes eu tenho raiva de mim mesma, também. Eu falei não, então me deixa andar vontade, mas eu não fico bem. Isso foi desde que eu... mas tem hora que também me encho, eu falo ah! Chega! Mas eu quero desgrudar, não posso. Que tão ali, um tá morando com uma menina, ele sai do serviço, passa lá em casa para ver se eu tô bem, senão liga. E às vezes não atendo todas às vezes tô ocupada. Mãe, por que você não atende o telefone? Eu falei, meu filho tava ocupada. Mãe, pelo amor de Deus, liga para ver se tá tudo bem. Então, tem eu quero mais o quê? Nada. Meus filhos gostam de mim, ao modo deles, como também que tem umas coisas que às vezes que ninguém é perfeito, né? Inclusive eu. E eu sou muito assim de o pingo no i. E eu nunca dei trabalho, juro por Deus, nunca dei trabalho para ninguém, não. Eu nunca deixei ninguém tá me chamando atenção. Não dou o que falar. Tenho meus erros também, às vezes engulo muita coisa à seco, como dizem, por dentro. Sou de... choro sozinha, que eu tenho meu dessabor também. Tem vezes que eu procuro alguém que me escute e não tenho. Chego na minha casa às vezes cansada com as coisas que se passa, às vezes também estou meio arreada. Eu tomo meu banho às vezes e vejo televisão que eu gosto de ver muito jornal da madrugada à dentro e eu gosto muito de jornal de ler, ver, escutar, ver o que está se passando no mundo. Então o último da Globo eu assisto. Eu posso estar com o maior sono, mas eu não durmo cedo, tá? Às vezes é de manhã, que às vezes no tempo não dá também. Eu não gosto de coisas assim muito de filme, dessas coisas, eu não ser que seja um filme muito bom. Mas eu gosto de ver documentário, gosto globo repórter, eu gosto de sentir, de ver, essas coisas assim. Coisa que me traz resultado, alguma coisa assim que eu gosto. E o resto converso com Deus converse comigo mesma. Que todo líder é solitário. Eu sou uma dessas também. Eu escuto todo mundo, mas tem vez que se eu contar, abrir um pouquinho, ninguém quer me ouvir. Então, eu não quero incomodar ninguém. É onde que eu falo: eu choro sozinha. Hoje eu durmo sozinha porque é um casamento de 52 anos e pouco. E eu não me envergonho de dizer não, que é realidade da vida, né? Tem uns 15 anos para cá que eu durmo, cada um dorme no seu canto e acabou, somos amigos, mas não somos unidos marido e mulher. Eu não tenho vergonha nenhuma. Porque são as consequências da vida que tem dentro de uma família. Me aprontou muito, mas eu nunca separei dele. Espero até o dia que ou eu ou ele for primeiro, a gente tá ali como amigo, faço tudo que tem que ser feito, mas nós somos separados de corpos. Não separei perante a sociedade, porque não precisa ninguém saber da minha vida. Mas maioria sim tem algumas coisas aqui que sabem. Porque eu não sou daquela pessoa de fingir o que não é. Eu tenho problemas com todo mundo. É onde que eu falo, mas de santo, não pode ter problema? Pode sim, tem, é que mais tem. Que a gente toma conta da vida da gente, da vida dos outros, coisas para a gente dá conta. Então, a gente é só um instrumento na vida. É só uma nada. Não tenho poder, não tenho nada. Mas tenho tudo que Deus me deu assim para aguentar tudo isso, para ser quem eu sou. Tenho momentos que eu queria ter uma vida diferente? Sim. Mas às vezes quando eu quero ter um dia de lazer ou alguma coisa assim, eu fujo calada, eu fujo assim. Mãe, onde a senhora foi? Quem estava? Mãe, não sei o que. Que que você vai fazer? Mãe, a gente procurou você. Eu falei: ei, eu tenho minha vida. Eu pergunto onde vocês vão deixam de fazer ou coisa parecida? Ah, mas sabe tanto tempo que eu liguei para a senhora, a senhora não atendeu. Eu tava tinha algum motivo para não atender. Eu tenho um pessoal que é lá do... Hoje ele chama-se ponto de memória Angelim Sapê do Norte, que eu tô no meio daqueles pessoal ali, são meus amigos, são todos tem dois uma filha de santo agora que se iniciou em Sapé do Norte, Léia, sei se você conhece. Ela se iniciou comigo. A do ponto de memória também, se iniciou comigo. Então, aquele ali é uma família que eu adquiri na minha vida, parece que é coisa de vidas passadas, eu me sinto bem, já dormi várias vezes lá, já fiquei semanas ali, eu tenho um documentário na TVE que às vezes pode até procurar do trabalho que eu fiz em Angelim II, em Linharinho, buscando um tambor de 300 anos que a Polícia Federal prendeu por causa da Aracruz Celulose, tomaram que lá é proibido falar que lá se fala o mesa Santa Maria, não pode falar que é Candomblé. Tomaram o tambor deles, nós somos de atabaque. E eu fui com umo professor da Ufes fazer um resgate ali que conseguimos eles devolver esse tambor para o pessoal de lá. Isso já faz… tem um tempo. Eles vieram, 60 pessoas de lá. Aqui a casa bancou toda a comida deles, porque eles não tem... estavam numa situação muito difícil para ir, para voltar e conseguimos fazer esse trabalho lá. Depois fui pro Angelim também recuperar o pessoal que planta dendê, Aracruz também estava dando, matando os pés de dendezeiro. Dava injeção na planta e matava. E nós fomos fazer isso para recuperar esse que é a senhora do Dendê. E eu fiz um trabalho, outro pai de santo também estava junto, que é o Geraldinho. E graças a Deus pararam de fazer isso. E tem um documentário todo que a gente fez lá, tudo. Foi bom. Derrubaram, botaram fogo no ponto de memória. Fui lá para também para dar uma força com o pessoal, trouxe o pessoal do Cenarab. Que agora tá um... Você vai lá, nem diz que era o ponto que era. Muito bonito está, bem cuidado. Tão fazendo a celebração deles, do modo deles. Então, a gente sente útil nisso aí. E eu gosto da comunidade, sabe? Eu gosto de fazer essas coisas. De tá no meio do meu povo. Que eu chamo que é o meu povo. Aí, eu falei assim, engraçado isso é coisa de vidas passadas. Trago esse sangue de negro mesmo, porque se eu estou no candomblé é tudo do negro mesmo, tem mesmo os mesmos ancestrais, apesar que minha família é toda é de origem portuguesa. Os pais tudo da família. É o plantador de cacau aqui no sul da Bahia. Meu avô tinha muitas terras, muito tudo. E eu era pra ter nascido em Ilhéus, Bahia. Mas minha mãe foi para Sergipe para que eu nascesse na mão da minha avó. E foi a última viagem de um vapor que é um navio pequeno que viajava de Ilhéus para Aracaju, que hoje tá lá até no museu. Esse vapor que chamava Araripe, era um navio de porte pequeno, né? Aquele exportando cacau, essas coisas toda. E foi aí que eu fiquei na casa, minha mãe ficou na casa da minha avó, que eu nasci em Sergipe. A minha família toda é de Ilhéus, Itabuna, Canudos, Vieira, aqueles canto ali. E eu amo a Bahia. Eu tenho um negócio que eu vou lá. Tem um encanto, não sei o que é. Não é porque sou do Candomblé, é a energia que tem. Eu sou apaixonada por que eu não conheço totalmente assim. Passe... a Chapada Diamantina. Que riqueza que tem ali. Tudo. Tem uma cidadezinha que você nas ruas você vê as pedra de ametista. Assim como parece coisa comum na rua. E é a pedra do meu santo, ametista. Eu amo. Amo pedra, em todo lugar que eu vou trago uma pedra. Nem que seja assim de enfeite. Vou na cachoeira eu pego uma pedra, peço licença, pego. Eu adoro os cristais, gosto dessas coisas tudo. E tem lugar que eu nunca fui, mas eu vi, parece que eu vivi ali. Com a parte do Goiás de lá, lá para o que esses cantos lá. E eu não sei, parece que eu já tive uma vida por ali. E aonde que eu acho que é um paraíso, um encanto de Deus. O que que a gente quer mais gente? Brigar por terra! Só minhoca tem terra, a gente não vai levar a terra! Para que brigar? Dá espaço para todo mundo, o mundo é muito grande. Só brigar por nada não, que é da nós ninguém toma. Deus nos dá tudo. Aí eu fico com inveja porque você tem alguma coisa a mais, tem uma sabedoria a mais, para que isso? Não precisa disso. Então, às vezes, meu filho fala assim: mãe, a senhora é muito passiva. Eu falo: Não, eu não sou passiva. Mas não tem necessidade de também tá ninguém nem tá passando por lugar que não é não deve, evita as coisas. Outro dia eu fui tirar umas folhas lá... é um local em Biriricas que se chama Cachoeira da Montanha. Eles fazem muito aqueles esporte de canoa, descer de montanha abaixo nas cachoeiras. Aí nós fomos lá. Maravilhoso lugar. E eu botei a mão, tinha umas folhas largas que dá muito assim em beira da água. Quando eu botei a mão, tinha uma cobra dormideira toda enroladinha na folha, dormindo. Aí quando eu senti aquele negócio mole, eu só fui tirando a mão devagarinho, ela acordou, mas ela não avançou em mim. Do jeito que ela tava, ficou. E eu fui toda poxa vida, eu fui, ela tá dormindo, por que que eu fui botar a mão? Mas eu não tinha visto que tinha uma cobra ali. Que era da cor da folha. São uns traços diferenciados e eles chamam de dormideira, né? A da folha dormindo. Agora eu vou pegar um pau, vou matar uma coisa da natureza, eu faço isso nunca. E eu vim de costa, de costa, quando eu vi eu tava caída dentro de um buraco, debaixo de um bambuzal que tinha… tava coberto com as folha, e eu vim de costa, eu caí dentro do buraco, aí eu fui sentir medo. Porque eu tava dentro do buraco. Minha filha de santo ria pra se acabar, deu tanto nervoso nela, que em vez de ela me puxar, ela começou a rir e não fazia nada. Aí na época, na hora, eu falei um palavrão grande, foi que ela acordou para me pegar do buraco. Que eu caí com a perna e fiquei enfiada e a outra foi para o lado fora. Mas são coisas que passam na vida da gente. Fui fazer obrigação, sai uma coral. Coisa mais linda. Agora vou pegar um pedaço de pau, se ela tá no lugar dela, é eu que tô entrando. Deixa ir embora, não vai me fazer nada. E é assim que eu vivo com tudo. Na minha casa, eu tenho tudo que é planta. Adoro planta. Às vezes não tô dando nem conta mais porque tudo tem que ter cuidado, né? E agora eu tenho uma dificuldade de pegar peso, que eu tô com problema de coluna. E às vezes eu fico triste, falo: meu Deus, não dá tempo para mim cuidar das minhas plantas. Tem que estar pedindo para alguém pegar um vaso e mudar de lado. Que eu não gosto de deixar tudo no mesmo canto, mesma coisa não. Gosto de estar limpando, mudando. Converso com elas como estou conversando com vocês. Às vezes eles ficam Você está doida? Eu falo "Não". A natureza nos escuta, fala. Ela sabe quando eu estou cuidando dela. Eu boto um adubo, tiro uma folha que não está boa. E assim, então, isso é cuidar da natureza, isso é cuidar de você mesmo. E das divindade, porque a entidade tá ali. A divindade é a força superior, sim. É que nos segura. que é esse Deus. Não tem outro. Agora as pessoas quer dividir esse Deus em pedaços? Sim. Se eu falar Lembá estou falando de Deus, se eu falar Oxalá tô falando de Deus, se eu falar Jeová tô falando de Deus. É simplesmente Deus, divindade, orixá, nkisi. É isso. Os filhos de Xangô, né? Que é Moisés, pelo sincretismo católico, São Pedro, São sei lá tanto. A pedra, a pedra nós chamamos de hitari (hitari?). É que nós usamos a nossa simbologia do santo. Não chama altar, aqui nós chamamos hitari. E a simbologia que nós temos no Candomblé é a pedra, por quê? Deus desceu a Moisés na pedra e onde tem o fogo. O fogo é a luz divina, é a flor de luz maior do mundo. Que simboliza o sol, enfim, o fogo. E o hitari é Deus, a pedra de Deus. Então nós consagramos aquela pedra com a simbologia do candomblé. Nós não temos imagem, mas porque a gente tem um pacto do catolicismo, né? Mas o que simboliza do santo para a gente é a pedra, o hitari. O assentamento do santo é simplesmente o hitari. A gente bota alguns enfeites, tudo, é que é como a nossa casa, a gente bota coisas para ficar bonito. Mas a simbologia maior é o hitari, que é a pedra do santo. E todo santo tem a sua. E ali depois que consagra, pronto, minha filha. Santo come, bebe tudo ali. A gente alimenta como alimenta você, a gente mesmo. É a água, é os alimentos que se bota, as oferendas que se coloca. E é assim.
P/1 - Você falou aí também, né, sobre as festas que você faz aqui na casa. Queria te perguntar também sobre a festa de Iemanjá.
R - Então, para mim é uma festa mais sagrada para mim. Porque é da minha santa, como é de todos, né? Porque Iemanjá é mãe de todos. É como diz, Iemanjá é criação, né? Então ela é mãe de todos os filhos. E eu me preparo muito. É uma semana, praticamente. Me dou o que eu posso. E aquele prazer de fazer aquelas oferendas. Porque quando você vê os peixes pulando, comendo aquelas oferendas é muito muito bonito. E é uma festa que quando eu entro assim no pier, que eu vou daqui preparada tudo, mas quando eu boto o pé ali no pier, eu fico submersa. Eu estou vendo as pessoas, mas eu estou submersa, parece que eu estou flutuando. É um negócio muito, muito forte. E é a festa que eu mais gosto é de Iemanjá. Eu vejo todo mundo com aquela fé, porque tem muita gente de fé. Todo mundo vai botar sua rosa, seus pedido. Então a gente vê que não é coisa comum. É uma coisa de fé de energia positiva. Eu tenho certeza que todos tem uma resposta. Porque eu costumo fazer também uma reza lá no monumento. Que não é só para gente, é para todos. Que a gente chama reza da tarde, então eu tô pedindo para todo mundo. E são 16 divindades, 16 rezas direcionada ao povo. E a última que eu peço por todo mundo em geral. Então, pô, eu sei como é, como diz o.... Beija flor no mar, o mundo tá queimando e ela botou o pinguinho dela de água no fogo, é que não vai apagar o fogo. Mas ela fez a contribuição dela e a mesma coisa eu me sinto assim. Eu tô fazendo um uma contribuição pra humanidade. E como eu, tem muita gente. Então, a festa de Iemanjá não só para mim, mas por todo acho que os brasileiros que tem o pé, que teve o pé na senzala, é a maior festa que tem de Iemanjá. Inclusive no Rio Vermelho, né? Que é muito bonito. Só que se dois anos atrás eu tive uma... que eu fui a fundadora desses balaios de Iemanjá aqui de verdade, porque o pessoal fazia de 31 de dezembro. E 31 de dezembro é Réveillon, tem aquela bagunça toda de festa, de bebida. Não tem nada a ver com Iemanjá. Tudo bem você fazer o agradecimento do ano, também é bom, mas tem nada a ver com Iemanjá. E eu fui muito atrevida quando cheguei em Vitória. Botando o primeiro, não foi nem um balaio, foi um cestinho. Tava começando a fazer o primeiro pier, aquele de Camburí. E eu fui cinco horas dentro de um bugre, levar aquela cestinha com duas, três pessoas num bugre. Também de João Monlevade. Era um menino que queria entrar para Ufes e a mãe dele e eu e a cestinha. Fui lá, tava começando a botar as pedra tudo, eu fui lá e fiz minha reza. E nisso eu vi o carro da polícia parar e vim de encontro com a gente. Acho que pensava que era algum afogamento, alguma coisa, eles vieram de encontro. Aí eles viram que eu estava botando... Perguntaram, eu falei é uma oferenda assim, assim. E eles respeitosamente tirou coisa da cabeça e ficaram ali com a gente. Pediram com a gente, foi uma coisa maravilhosa. Aí eu tenho como eles, que eles são filhos de Oxóssi ou Ogum que eles são policial, né? E dali começou. Não parei mais. Então, são 43 balaios, esse ano foi de quatro... é 43 balaios. E eu fiz em 99, eu fiz o resgate na faculdade da FAFI. Hoje acho que tem até outro nome, não sei. Para que as pessoas viessem todo 2 de fevereiro. E fui divulgando, fui convidando um, convidando o outro, as casas de umbanda, casa de Candomblé, que eu não fiz nada só para mim. Fiz um presente das águas muito bonito. Enfeitei aquele píer de tudo que é jeito e não parei mais. Até que dois anos atrás, tem um vereador também é macumbeiro, Dr. André Moreira, ele é do PSOL, e foi então com esse projeto na Câmara que passou para que o dia de Iemanjá fosse um espaço sagrado e outro respeito maior, né? Vai para o municipal e foi para o estadual, que hoje é o patrimônio vivo cultural do estado. E eu fiquei muito feliz com isso. Então e festa de Iemanjá tem um sentido muito bom, não só por isso, mas porque eu consegui trazer muitas casas mesmo da Umbanda. Tem muitos candomblé por aí que, tipo assim, ah, é mãe Néia, deixa para lá. Mas já estão fazendo em outras parte. Que bom. Não precisa ser tudo aqui no píer em Camburi. Tem Jacaraípe, tem outras praias também que já tão indo. Mas por que eu trouxe essa cultura para 2 de fevereiro, isso é fato. E o ano passado, como eu tava falando, tinha um menino que o monumento tava todo apedrejado, pescador, pessoas que não gosta de imagem, né? Joga pedra quebra um dente fura não sei o quê, enfim. E eu, como tava em reforma ali o pier, eu pedi a secretaria de cultura para que desse um jeito. E esse rapaz, é de uma casa que diz que tem 70 anos, que é uma casa de umbanda, Santa Rita de Cássia, ele herdou a casa dos parentes dele, né? Mas é um rapaz novo. Trabalha também no Ministério do não sei de quê lá. E ele foi sentir o bam bam bam querendo fazer uma festa junto com a outra de Iemanjá, mais uma para o lado, tipo assim, como se fosse um afoxé, um... fazer tudo que é pagode, enfim, queria fazer aquele batuque e eu fui contra. A gente tem um é aberto embora para o público, mas tem um sagrado e não esse profano que você quer trazer. Você pode fazer essa festa toda ou antes ou um dia depois, porque no dia de Iemanjá não vai ser possível. Ele virou um bicho. Eu falei olha, não cutuca o diabo com vara curta não. Eu quero todo mundo junto, não quero brigar, não sou dona de nada e sou dona também de lá, mas a festa de Iemanjá você não vai bagunçar. Conversei com ele e virou a cara, não tinha mais, ele tinha apoio do prefeito, né? Tem por que assim. E aquele negócio todo eu falei olha, sinto muito, nasci primeiro, você me respeite, sou pessoa mais velha no santo que você, você é um menino, respeito sua casa, sua cultura mas você tem que respeitar mim. E nós vamos brigar, se quiser brigar, nós vamos brigar. Quem puder mais sai menos machucado. Mas é uma briga não é por mim, não é porque eu sou dona de nada. É porque é um sagrado que todo mundo gosta, todo mundo vai e respeita. E quando ele botou nessa vez que ele levou pagode, levou o pessoal da escola de samba, botou numa barraca lá, botou barraquinha lá fora, e aquela bebedeira toda, aquele negócio todo e que todo o pessoal que acompanhava a festa de Iemanjá não gostou. E eu fui o quê? Procurar a secretaria de cultura, disso, daquilo. Para que o ano que o outro ano não podia ser. E ele ficou com raiva de mim, né? Tô falando umas besteira. E eu falei assim: Você pode fazer outro dia a festa, mas aquele espaço ali você não vai fazer o que você quer, não. Ah, mas você tá além do que é. Eu falei: Não, eu não sou nada, eu sou uma zeladora de santo e a festa de Iemanjá fui eu que __, você não vai bagunçar. Ele virou a cara para mim e tudo. Paciência. Eu consegui que ele não fizesse. Aí ele com raiva foi fazer a tipo a lavagem na... do carnaval com as coisas que eu faço, mas lá para lavar o Sambódromo lá de entrada do carnaval lá. Que ele queria fazer tipo que fazem na Bahia, mas é diferente. Aí levaram o pessoal do santo quase tudo pra lá pra não dar na festa de Iemanjá. Mas ele se ferrou. Porque quem veio também porque acreditava na festa de Iemanjá vieram tudo. E o pessoal do santo também foram muito para lá fazer essa lavagem que estão fazendo. Com água, aqueles negócios tudo, é que eu nunca vi isso. Se você faz um padê para Exu, para o carnaval, sim. Porque é uma festa profana. Você pode dar para pombagira, pra Exu, mas para Iemanjá levar flor, levar água, tudo. Como quer fazer a lavagem do Senhor do Bonfim é na igreja, não é no espaço de samba. E ele saiu, o pessoal viu que não era por aí e todo mundo veio comigo. Então, ele não vai fazer mais isso. Quer fazer seu pagode? Faz depois, vá para onde quiser. Mas não no dia 2. E agora como entrou pra cultura mesmo, não vai ser possível fazer o que ele quer. Porque vira bagunça. Entra a bebida, entra tudo, aquele negócio todo e você não sabe quem é quem. E não foi isso que eu planejei na minha vida do santo, é uma coisa mais séria, coisa mais que todo mundo gosta de ter fé, né? E é isso que eu quero. Então a festa de Iemanjá para mim, é o encanto, é tudo. Me identifico muito. Esse ano teve uns amigos que vieram com os balaio também, já de vez em quando eles vinham, mas esse ano vieram com grupo bom, botaram três barcos. E a minha intenção é que agora vão fazer a marina, né? Que tem um espaço grande era uma escuna grande. Como o dono deixou afundar e bagunçou tudo, que ele passou pro sobrinho, o sobrinho não soube levar e acabou o barco afundando e um monte de coisa, mas agora tão recuperando, fazendo a marina que vai ficar um espaço muito bom. Acredito eu. Só que já tentaram tirar o monumento de Iemanjá. Eu fiz um abaixo-assinado, conheço a pessoa que fez o espaço, o monumento. Fui na Secretaria de Cultura também e que agora eles vão fazer essa marina porque tornou-se um ponto assim de cultura, né? Como é a Praça do Papa, né? Já tentaram querer tirar, não sei porquê. E tá assim nessa luta, né? E eu espero que no dia que eu me for, outra pessoa dê continuidade. Porque me acho muito bonito e as pessoas vão porque eu acha bonito, é bom. Não é uma coisa assim banal. É uma coisa séria. E para mim uma das festas que eu gosto mais é a festa de Iemanjá. Esse ano foi tão bom porque eu tinha o meu grupo da minha casa, teve uma saída para outro local que também já tinham marcado, já tinha que é um dia de segunda-feira e que eu não fiquei muito feliz porque eles foram para um... para o Rio. Casa de escola de samba, esse negócio todo. Mas também o direito deles, né? Mas eu não gostei, não fiquei muito feliz, não. Mas outros dias virão, né? Penso eu. Mesmo assim deu muita gente. Passei um dia de segunda-feira, deu muita gente. Eu saí, vim embora que eu boto meu balaio e vim para minha casa. Não fiz o que depois eu faço um toque aqui. Que é uma gira, né? Mas como tinha falecido um menino, eu não toquei nem lá, nem aqui. Porque eu perdi um filho de santo. Uns dias atrás, eu falei não, eu não vou deixar de botar o balaio, porque chegou o tempo dele, eu não vou trazer ele de volta. Então, simplesmente não fazer a gira aqui, o toque aqui por causa dele. E eu só vim abrir a casa um mês depois que do falecimento dele. Que foi uma morte repentina, assim, 40 dias, ele adoeceu e foi embora. Teve pneumonia aguda e não teve jeito. E eu já tinha avisado um pouco antes. Para, para porque tá assim, assim, assado. Vai cuidar do seu santo. Trabalhava em dois trabalho, dois emprego e não tinha tempo nem para dormir. E o corpo não aguenta, acabou pegando uma pneumonia muito grande e que desencarnou. Novo, menino com 35 anos. Eu lamentei muito porque eu tinha comprado já a passagem para ir para Salvador, para as águas do Oxalá e a obrigação do meu pai de santo, o meu zelador. Foi logo o dia 10 e ele tava muito ruim. Mas eu falei: "Espero em Deus que teve uma melhora, então eu falei: "Eu vou". E quando eu cheguei no aeroporto, eu recebi a notícia que ele tinha falecido. Eu fiquei desnorteada, sem saber se eu voltava, o que que eu fazia, mas passagem para voltar não é fácil, a passagem é muito cara também. Fui para o Bate folha. E fiz todo o processo que tinha feito, tinha que fazer, porque tem um ritual quando desencarna, pedi para uma pessoa fazer o que tinha que ser feito. E quando cheguei, fiz o restante. Que ele era novo no santo, então não tem aquele... a gente chama de Mukondo na nossa casa, mas Axexê ou Sirrum para outras pessoas. Que é um processo que a gente faz quando a pessoa vai embora. E eu fiz o que eu tinha que fazer e tá tudo ok, graças a Deus. Tô aqui iniciando mais um que é a vida é assim, não pode ir contra uma continuidade, né? Um vai, outro fica, e assim. E a gente não pode contra a força divina, né? E tirando a festa de Iemanjá, eu gosto muito muito das festas das crianças também. Que é uma alegria total, chamo de caruru de Cosme, que a gente chama aqui Vunge, os anjos, né? Os erês, o outro chama de erê. Simplesmente os anjos. E a gente ver alegria tudo das crianças também naturalmente e aquele coisa boa e o valor é a saúde. Também é importante você dividir a gente chama makuria, mas é comida em si com as pessoas para ter saúde, nunca faltar. Então tudo tem uma simbologia muito forte. Tudo dentro do Candomblé tem um respeito muito forte. Nada é por um acaso, tudo que se faz é um banho, uma comida, uma oferenda como a gente faz. Porque a divindade se alimenta da essência, e a divindade, o espírito nos alimenta, nos fortalece. Então, aquela essência evapora e alimenta o espírito. E o espírito nos fortalece, então a gente vai embora. E é isso, por isso que a gente faz tudo isso. E quando a gente faz essa oferta para Iemanjá, que, graças a Deus, nós tivemos o que comer, o que beber durante o ano. Então, a gente faz aquela oferenda levando, porque o peixe é criação, né? Prospera, a gente tira o peixe também para se alimentar. E é isso que nos traz alegria, bota flores, porque são dádivas de Deus. Eu não sou de levar esse negócio de que, às vezes, o pessoal bota champanhe, perfume, aqueles negócio tudo. A natureza já é perfumada, já é rica. Então não precisa botar nada daquilo, eu tiro. Que eu tenho um balaio assim que eu levo, que às vezes eu recolho algumas coisas que tem no monumento, coisas que não vão poluir o mar. Claro que o resto tiro o que for de louça, barro, pente, perfume, essas coisas assim, garrafa, essas coisas. A gente deixa de ir para lixo, né? Porque vou levar isso não tem cabimento. As flores até que eu levo, que isso não... Os balaio, porque são cesto que vai se tornar sedimento e fica na encosta ali. As ostras vão construir casas ali dentro. Às vezes o pescador pega porque são balaios feitos com carinho, não é qualquer coisa. E não poluir o mar. Que é cipó. Então não tem como poluir o mar. Teve uma época que Gilberto Gil proibiu quando foi secretário de cultura no Bahia. Disse pra não botar essas coisas no mar. Mas não sabe, não sei se foi por isso, porque que foi que nessa época o filho dele teve um acidente na ida para o Rio. Então, todo mundo de Salvador diz que foi por causa disso, mas pode ser que não tem nada a ver, foi coincidência, né? E assim, cada um com a sua crença, com a seu carisma, né?
P/1 - E daqui a muito tempo, quando a festa de Iemanjá continuar acontecendo, que que acha, que que você acha que não pode faltar?
R - Amor. Pelo que faz. Isso é tudo, quando você faz com amor, a coisa dá continuidade, sempre. Não fazer para mostrar para alguém, nem nada, é amor mesmo. É uma coisa de coração mesmo, isso que não pode faltar. Respeito. Isso não pode faltar em nada. E tudo que você faz com essa energia tem resultado.
P/1 – Mãe Néia, qual que é o seu legado para a cultura do Espírito Santo.
R - Eu espero que no dia que eu me for e deixe um legado melhor, que está faltando muito. Muito... O Espírito Santo não tinha muita cultura, não tinha muita... é como diz entidade, ou seja, era coisa assim muito voltada só para o lado do italiano, seja cultura italiana e da cultura negra nenhuma. Era um vazio total.
Parecia que só existia as imigração italiana, Pomerano, que eu enfrentei uma barra com eles, que eu tive um sítio num lugar chamado Biriricas, que só tem pomerano, italiano... Esse tipo de pessoas. E eu me senti no meio deles uma intrusa. Tinha um sítio que eu gosto muito também dele. E eu me senti assim um pouco… encurralada não, porque eu tô no meu país, como eu disse, eu tô no meu, eu sou brasileira, eu sou do meu país, então, é vocês que estão aqui de intruso. Falei um dia para um... O cara, até italiano começou a falar um monte de coisa, mas como eu vivi em São Paulo, inclusive meu padrinho de santo era italiano, casado com uma japonesa, você já viu, né? Eu entendi muitas falas italianas como entendo. Aí eu comecei a xingar ele me xingando, eu fui respondendo para ele também. Aí a menina olhou assim: Pai, para. Eu disse: Eu tô respondendo o que ele está falando comigo. Eu tô no meu país, eu disse. Aqui, vocês entraram aqui, tudo bem, respeito, mas eu não tô. O senhor não fez o rio, eu vou fazer minha macumba sim, vou dar minhas oferendas aqui dentro, vou cuidar dos meus filhos de santo. Isso aqui não é seu não. Seu cercado tudo bem, mas aqui não, o senhor não manda não. E se o senhor me aborrecer muito eu vou botar uma macumba para o senhor, hein? Eu não vou fazer isso jamais. Macumba é o ritual, não é não é feitiço. Mas como a macumba eles acham que é feitiço, então, olha eu vou fazer a macumba para o senhor, né? A menina não, pelo amor de Deus eu falei: Minha filha, macumba não é não é feitiço, não. Se eu dissesse que eu ia fazer o feitiço, e se eu disser que eu vou fazer o feitiço, eu faço, e não vou me arrepender. Mas não tem necessidade disso não, água limpa tudo. Falei para ela. Mas não vem me encurralar não. Porque a gente se sente... Ali, eu falei: O quê? Precisa se soltar. E lá o meu sítio eu vendi porque tudo que a gente plantava, o pessoal tirava, botava os bichos dentro. Tiravam tudo da gente. Tinha um pé de café, que eu ia lá e colhia, a gente pagou para a pessoa vir tomar conta, mas não adiantava. Eu botei uma criação de cabrito levaram tudo para o Ceasa, disseram que foi os bichos porque o meu Sítio é a fundo da reserva de duas bocas. E eu saí, eu falei quer saber de uma coisa? Eu vou sair desse meio. Só tinha família de poder lá que era família Lepaus, família... Lepaus e os... família Thomas, são muito ricos são. E eu disse: Ah, Meu sítio é pequeno, não vou brigar por terra, não. Não sou minhoca. Saí de lá, comprei até um aqui um em Serra Dourada II, também tô querendo até vender também. Não tenho mais força para estar cuidando nem nada disso. Mas é difícil a gente tá no nosso país e às vezes vem uns, como eu disse, a cultura eles botam acima de tudo a italiana, pomerana, essas coisas assim. Aí foi quando eu entro com o negro junto, sabe? Porque eu não sou de provocar ninguém, mas às vezes eu topo um desafio. Eu sou muito atrevida para esse tipo de coisa. Ah, espera um pouquinho, eu vou botar o meu babado no meio também. E se precisar bota o bico também, mas é nesse sentido assim, não é brigar nem... Mas por que só eles? Eles têm tudo e a gente não tem nada. Como às vezes quando tem um espaço eu falo mesmo rasgadamente. Não dizer que eu só falo aqui, eu falo com eles também. É que tão... bom, então mãe Néia hoje fala assim Mãe Néia porque eu botei minha cara tapa. Eu falei muitas coisas nos encontros, nos seminários, nas coisas que temos fora e foi quando eu... Não sei se você conheceu a Valquíria, que é da secretaria de turismo, que foi dada a secretaria, foi quando ela me botou no meio das mulheres que fazem entre as dez mulheres que fazem. Porque eu vou, eu fui lá, botei à cara tapa e muitas coisas ligadas ao Candomblé, outras culturas também. E defendo muito esse lado. Nós, quem construiu o país foi o negro. Não adianta. Os brancos veio para poder não tirar a negritude toda, eu acho que foi isso que quiseram tirar um pouco, né? Mas o país é negro, Jesus Cristo é preto, ele não é branco de olhos verde não, gente. Ele nasceu no Egito. Como que pode ser um de olhos verdes? Não, isso é... É o pessoal de cultura europeia que botou isso desse jeito. Eu não vejo assim não. Aí quando eu falo às vezes nessas encontro que a gente tem... seminário de fora, de cultura, assim, eu começo a falar muita coisa, eu falei: Ei. Mas o preto, eu faço igual a esses dias, o preto é muito mais... é, como é, o preto é mais... Ai, como eu esqueci o verso da Elis Regina. Mas o preto é mais que o branco para mãe d'água Iemanjá. Então, Iemanjá é Oxum, mãe d'água é Oxum, não desmerecendo cor, que isso não tá na cor, tá na personalidade de cada um. Minha família tem pessoas loira, tem pessoas... tem uma mistureba também, né? Que é o do português com preto também, que é com caboco, enfim. É aquela... Mas o pessoal quer massacrar sempre o preto, a cultura negra, quer sempre massacrar. E aí eles e eles usam toda a cultura negra, tudo. Que o preto come feijoada. Não come? Isso é coisa de senzala. Tudo nossa do Brasil todo é negro. Fala que é isso. Porque de tudo que a gente usa, a maioria tudo é de origem africana. Tudo. Até a nossa fala, muita linguagem, muita coisa que a gente usa é da cultura africana. E tem um elo muito grande. É mãe África, como diz. Não tem jeito. O Brasil deve muito para os negros. E a gente sempre que pode dá umas cutucada no branco, né? Porque eles entendem que também que a gente é assim, mas não fica ali torcendo igual o parafuso, né? Para que as coisas não aconteçam, mas vai acontecer. E é isso.
P/1 – Mãe Néia, o que você aprendeu no Candomblé?
R - Tudo. Viver, se defender. Ser forte. Que eu me sinto uma pessoa forte. Eu não temo. Respeito, mas não temo nada. Eu fui uma pessoa e sou uma pessoa assim. Nunca temi nada, nada de verdade. Respeito, entendo. Casei, marido não manda em mim, porque meu pai nunca me tocou o dedo e outro homem não ia me bater de jeito nenhum. Nunca aceitei ser conduzida, sabe? E que eu acho até um defeito também, porque muitas vezes eu queria também ser carregada. Porque a gente ser a gente mesmo, a gente sofre muito também. Então nunca dependi, desculpa, de homem para viver. Eu sempre fui uma pessoa que teve meu comércio, meu saber, minha cultura. Eu faço, eu sou muito polivalente, eu faço de tudo na minha vida, aprendi muita, muitas coisas, profissões. Eu sei fazer de tudo um pouco. Desde a costura ao bordado, a culinária. Então jamais passaria mal se o meu marido tivesse me deixado com meus filhos. Eu tinha força para cuidar deles e sei cuidar muito bem. E até hoje ainda continuo cuidando. Então tudo isso eu falo que não foi à toa que eu não cresci muito. Porque eu uso até uma brincadeira que os melhores _____ são os vidros pequenos, né? E eu acho que eu fui esse vidro pequeno que eu me tornei grande porque nunca dependi. Eu dependi de meus pais porque passei até dar 12 anos lá com eles, mas depois eu fui eu sozinha como um grão que vai e cresce e... e eu fiz tudo sozinha. Não vou dizer que eu não tive pessoas que ajudaram, que me encaminharam, que eu aprendi também, que eu devo muita cultura oriental porque são os japoneses que eu ensinei, aprendi muito com eles. Que são as pessoas forte, não tem medo nada, são as pessoas sábias demais da conta. E foi uma cultura que mais me deu foi o pessoal oriental que foi o japonês. Então eu tenho carinho muito por eles, porque eu aprendi muito com eles. E dentro do Candomblé também respeitar a natureza, a vida. Então dentro do Candomblé foi um livro, uma lição, tudo para mim. E eu amo o Candomblé. Amo mesmo, a cultura que eu amo mesmo de coração, de alma, de sangue e de tudo. Porque me trouxe essa fortaleza, essa sabedoria, que eu não me sinto a pessoa assim a, mas eu tenho uma sabedoria que não é minha. Às vezes eu pego uma coisa, vem, assim, eu vou, faço e dá certo. Então, vem essa força natural, é saber lidar com a natureza, ter a natureza com você. E eu aprendi muito isso, devo muito a Deus e essas energias que tá em volta, que o espírito não morre, nossos ancestrais não morrem. E meu pai e minha mãe também era muito assim, tinha uma cultura boa, tinha um... sabia tudo. Meu pai mexia em tudo que podia. Ele de carpinteiro, de agricultor, de tudo, ele fazia um pouco de tudo na vida. E minha mãe era na culinária era muito forte. Os doces dela que vendia. Minha mãe criou os filho, criando... E na época a gente, tinha café que a gente fazia, moía tudo. Tinha o... Meu pai plantava muita roça também. Tinha muito grão, tinha para gente, tinha para quem que precisasse, sabe? É... Tipo assim. Mas, é como eu também, eu sei fazer de tudo, um pouco de tudo. Se eu fizer uma plantação eu sei fazer. Eu tenho um terrenozinho ali que se for lá tem tudo, eu não estou podendo cuidar. Mas tem de tudo que eu plantei. O pessoal entra lá, colhe as coisas, leva embora. E tudo isso. Aqui quando eu vim aqui não tinha nada esse terreno. Hoje eu tenho até pé de jequitibá, que eu não sei como que eu vou fazer, que ele tá levantando já a minha casa. E jequitibá a planta que ó, cada vez maior, né? E eu falei Meu Deus, eu vou ter que... Não, não, eu acho que não vou cortar esse pé do jeito... Eu corto toda a raiz, mas não corto ele. E uma vez eu tirei um pé de dendezeiro, eu fiquei a semana toda chorando, porque ele subiu tanto, ele cresceu tanto que eu tinha medo de cair por cima do vizinho. E eu pedi para cortar, mas é como tivesse cortando um pouco de mim. E no mesmo lugar nasceu outro que já tá com três ou quatro caixas já, pequeno, mas já tá tudo cheio de dendê. Eu até mandei lá pro Ponto de Memória, frutos para fazer dendê. Eu já vou tirar quatro caixas que tem aí, já todo maduro já. Aí eu boto no congelador, depois quando eles vierem levam para fazer o dendê, e assim, então, Candomblé me trouxe força, me trouxe alegria. Tem momentos também que me... fico muito triste quando às vezes inicio um filho de santo que por ego, né? Porque achou que se iniciou é pai de santo e eu não deixo. Eu falei: não, você não vai botar meu nome na praça não. Se você for, eu digo para Deus e o mundo que eu não sou responsável pelo que você fizer. Se seguir, porque é uma escola, tem sete anos para você aprender um pouco. Antes de sete anos você não é nada. É muzenza, aquele que não conhece nada. Então a palavra muzenza quer dizer isso. No cando... no Keto é Iaô, na nossa chamamos muzenza. É como uma escola que você sabe. Fez um segundo grau, você não é um formado não, você não tem, tem que fazer uma faculdade, tem que fazer um doutorado, enfim. Então para você ser um zelador, você tem que passar por isso. Então quando quer fazer a casa bem antes, então você vai e você se responsabiliza pelo que você fez e não diga que foi eu que ensinei, porque não foi. Então eu digo para Deus e o mundo que ó, não sou responsável pelo que fizer. Eu ensinei certo, ensino certo, mas não quero seguir. Não posso fazer nada. Então isso às vezes me entristece porque eu esperei meus 21 anos para seguir, ser uma zeladora, eu já tinha mais de 20 anos quando eu assumi uma casa de santo. E eu fui e assumi porque meu pai disse: Agora é a gota d'água, não tem jeito, eu tô indo embora. Ele não mentiu. Então por isso que que eu abri uma casa de santo, porque mexer com as pessoas não é brinquedo e a saúde de outro. Então, você tem... Eu escuto às vezes eu falo uma palavra até meio forte. Eu falo que a cabeça dos outros não é penico que você pode.... E também não é oratório que todo mundo reza. Que eu também não concordo com os filhos de santo que fica raspa para cá, depois não gosta do pai de santo, vai para outra, chega na área de não é aquele de santo, chega... Que cabeça é essa, meu filho? A gente nasce morre uma vez só. Então, que você se incie, então, o santo é mentiroso, o pai de santo é mentiroso? Às vezes, tem pessoas que não conhece e faz besteira mesmo com a pessoa. Raspa o santo que não é. Aí, a divindade evapora. É livre, o vento é livre. Então, não vai fazer numa energia se você já tem... Você já traz de berço a sua divindade. Dono da sua cabeça, o caminho, juntou, tem que ser trindade. Então, você já vem pronto. A gente faz a lapidação. Então, quando você quer mudar as coisas, então, dá aquele rebuliço e às vezes a pessoa fica até usando aquele... coisa, falando besteira. Mas tem muita gente que adora seu deslumbre, né? E não é isso. Bota um torso maior do que o corpo. Eu acho que aquele que é o candomblé não é. Então o candomblé a energia tá muito aqui dentro. E você tem, todo mundo tem. Agora, como usar é que é? Então sai daqui, vai para outro terreiro, chega no terreiro e eu às vezes eu falo para você vai para outra casa, você passa ser um enxerto. Você nunca vai ser daquela casa. O nkisi nunca vai virar o orixá. Porque o nkisi é uma natureza. E o orixá já viveu como eu e você, um santo. Então, não tem essa. O orixá não vai dançar o que o nkisi faz, não tem como. Então, vai para o Angola, vai para o Ketu. Do Ketu vai para o Jeje, depois agora vem o Ifá. Que tá um deslumbre, né? Sempre existiu. É caminhos, Odu. Odu não é orixá. Odu não é um nkisi. E é onde que as pessoas fazem aquela mistureba toda e fica banalizando muito a religião. E é uma pena porque, nossa senhora, eu não sei onde é que vai dar isso não. E hoje as escolas de samba tá aí. Que a palavra samba é reza, quer dizer, reza na nossa na nossa língua. O samba reza para minha casa é e só o samba e acucuê (acucuê?), o samba é reza, reza. Samba é reza. Mas é preciso que tenha aqueles limites, tem coisas que não pode expor. Quebra a essência. Você vê que depois saiu uma escola de samba que trouxe Exú, porque foi o homem se incorporou mesmo, que não tava sozinho ali. De jeito nenhum. Agora todo mundo é filho de Exú. Todo mundo quer raspar Exú. Todo mundo quer raspar pombojira. E é isso. E não há coisa que procede, não é assim. Aí Exu, caminho, é bonito, sim, é alegria, é o profano, ele gosta muito desse lado. É a vida, a fertilidade, é tudo, ele é isso. A ferramenta de Exú, o que que a gente vem? Primeira coisa que aparece em Exú da ferramenta dele é o pênis, porque simboliza a fertilidade. Então Exú é o caminho, é o primeiro homem que Deus fez foi Exú. Pó, soprou e deu vida. Então, isso quer dizer o primeiro. Pombojira, quando as pessoas ah, aquela menina tá com pombagira. Pombo é pó, jira é o barro. A gente tá pesado quando as vezes fala pombojira, tá sem energia. Tá do lado esquerdo, sim. A gente pinta e borda muitas vezes, né? Mas tudo da energia da terra, tudo, é... Tudo é muito sério. Então, é isso que eles às vezes não entendem e confundam uma coisa com a outra. Tá, antes que eu pegue que a mulher estuda que a mulher disse aqui, não nada. Não é isso. Pambo nós chamamos de pambo gila, pambo é o pó, gila é o barro. É o primeiro, é Exu, que nos dá caminho, que nós assentamos, fazemos o assentamento, botamos a ferramenta dele. Ele responde ali para a gente. A gente faz as oferenda. Dificilmente eu vou fazer uma oferenda, botar na encruzilhada, muito difícil. Mas tem coisa que eu sou obrigada a colocar. Mas eu gosto de botar encruzilhada de terra. E sempre Exu quando se inicia, primeiro quem come é Exu. Na minha casa, tem casa que aí não faz isso não. Bota o santo e Exu fica para depois. Mas a primeira ser plantado, ser cultuado é Exu. Eu faço toda limpeza, faço todo o processo, toda purificação, assento o Exu para depois assentar o santo. Para dar caminho para a pessoa. Eu nunca tive filho de santo jogado em lugar nenhum, na sarjeta, nem preso, nem vagabundo, nem nada disso. Já tirei muito até pessoa da droga. Isso é fato. Hoje tá abrindo casa. E foi uma pessoa que passava 2, 3 dias na rua com droga. Hoje é um padre, uma pessoa que trabalha, tem uma estrutura boa, tá abrindo sua casa e eu me sinto feliz porque é caminho. Então, essas mão sempre fez o bem, nunca fiz o mal para ninguém. Deito e durmo, minha mão é limpa. Às vezes, só tem uma vez que eu tive que fazer assim um pouquinho, assim, empurrei um pouquinho. Sai da minha frente. Porque entre você e eu, você vai na frente. Porque falar da moral dos outros é muito feio. E deu uma... um negócio assim, eu falei assim: "Eu não sou da sua laia, não nasci, não sou das suas águas. Não sou quem você tá pensando não. E você vai quebrar seus dentes porque você tá falando assim, assim, assim, assado”. Calei minha boca. Aí saiu contando coisas, eu falei: "Se falar mais vai ter processo". Calúnia, difamação, injúria. Papapá. Mas nem precisei fazer nada disso. Passou os dias, tinha uma obrigação de uma menina de até a qual ele é padrinho dessa menina, de santo. Ele me aparece com a boca toda pocada, o rosto todo pocado. Pano assim na boca, só aparecia os olhos. E ele falou assim... eu falei assim, o que é que foi o que que aconteceu? Eu tinha mandado um convite para ele vir na obrigação da menina. Mas eu já sabia o que tinha acontecido, eu só fiz isso assim porque tem meu outro lado também, né? Aí eu falei: O que que aconteceu com você? Ele: É, eu fui atravessar ali em Jardim América, a linha do trem, passa o trem, o trem foi arrastou o carro dele e virou plata e jogou ele lá que ele poucou toda essa boca toda estourada. O cara foi direto pro... Passou tudo. Eu não sei como ele sobreviveu. Aí ele falou assim: Foi macumba que você fez! Eu falei: Você está pensando que eu vou acender vela para defunto ruim, menino? Falei assim mesmo. Mas eu tinha falado que ele ia se arrepender das palavras. Eu só falei isso. Eu não movi uma vela contra a pessoa. Eu só falei isso. E aconteceu. Então, você falar, pensar é pior do que você fazer. Então, meu pensamento foi muito fundo. E foi a única vez que eu me defendi, mas eu falei aquilo com uma força. Meu pai é Ogum, eu sou filha de Iemanjá Ogunté. Eu sou do ferro também. E foi numa travessia do trem. Ele já faleceu, mas a família dele tá aí. Eu disse: Nunca mais você vai falar da moral de ninguém. Você quebrou os dente, né? Aí teve que fazer toda a boca, toda estourada. Eu falei: É. E é isso. Que ele veio na minha casa, ele queria fazer daqui... que era na época era presidente da federação, ele pensava que era... podia mandar na minha casa, ele é ogã, podia chegar nos atabaques e dizer que faz assim, não. Falei, aqui não. Primeiro que você não sobe aqui com o corpo sujo. Para você subir no meu atabaque, você tem que se purificar. Que os atabaques são sagrados. Ah, mas eu posso parar, subir isso não é coisa, não. Você tá muito cheia de história. Eu posso subir, parar o Candomblé, eu falei: Não aqui. Você pode parar onde você quiser, menos na minha casa. Eu chamo quilombo de nhã Zambi (Quilombo de nhã Zambi?). E aqui nem meu marido dá palpite, muito menos você. E você não é ogã nenhum para parar meu candomblé. E tal de ver, e saiu cantando pneu e eu nunca deixei. E quando tá de corpo sujo, o que é que acontece? A mão poca todinha, fica cheia de bolha no atabaque. E teve gente que subiu, que a gente às vezes também nem sabe tudo, né? Que subiu no atabaque e não aguentar que dava calo da mão poca. Porque tá de corpo sujo. Ou bebeu muito ou fez outras coisas também. Poca, se tiver o sagrado, porque candomblé, o atabaque é sagrado. Ele passa pelo ritual igual a gente também. Por isso que esse som que atrai a energia que é o espírito. Ô, Fábio, Luango. E é isso. Então, o Candomblé mesmo verdadeiro tem isso. Você não pode, é como um esporte que você sabe o golpe para matar, mas não pode usar. E eu nunca usei. A única coisa que eu tô falando para vocês de que eu usei, não é isso aí eu falo mesmo, foi me defender. Porque não se fala das pessoas. E eu dei só empurrãozinho. Mas o resto não fiz mal a ninguém, nunca fiz. Te juro por Deus, eu devo a... Esse pecado eu não devo a Deus, nem muito menos meu santo. As vezes as pessoas: Mãe, senhora passa a mão na cabeça dos outros, mãe. Não, não passo. Porque você faz, faz para você. Você não tá fazendo para mim. O filho de santo quer mijar, desculpa a expressão, mijar fora do caco. Mija, diabo, quem vai se perder é você, não sou eu. Já tô pronta, você precisa caminhar. Vai com Deus. Faz igual a Roberta Miranda, vai com Deus, eu tô aqui. E volta. Volta. Sabe por quê? Porque eu não fiz mal para ninguém. Então, deito e durmo a consciência limpa. Nunca sujei minha mão com filho de santo, com isso com aquilo. Porque eu sou mãe de santo, eu posso bater? Posso nada. Eu nunca gostei de apanhar, então não faço isso com ninguém. No Candomblé, não é porque sou Edinéia Cabral da Silva, que eu tenho o nome de santo que é Mam' Kilunji. Kilunji Dia Nzambi, quer dizer filha de Deus, como todos nós somos. Que a gente recebe outra dijina, né? Que é o nome. Eu, como disse, igual a palavra, é eu fui fiel a Deus, comigo, com meus santos. E sou. Tenho meus momentos de ira, de angústia, de tudo. Mas eu tenho o meu domínio suficiente para não... para passar. Então, é que eu falo assim: Mas você tá muito desaforado, mas eu não posso punir ninguém. Que depois eu sou, vou ser punida também. Eu falo para ele que eu não quero ir pro céu não, nem também pro inferno. Eu fico assim, passeando, eu quero passear. Eu falei que eu quero passear. Mas céu e inferno é aqui mesmo, a gente fica aqui, não vai para outro lugar nenhum não. Então eu quero ser um espírito bom, porque ruim, eu já sou assim, não vou dizer que eu sou perfeita não, não sou. Tenho minhas vontades, tenho minhas buscas, tenho momentos que eu quero, queria viver diferente. Queria ser carregada, mas é o contrário, eu carrego todo mundo. E às vezes bate aquela angústia também, porque a gente é feito de carne ou sangue, né? Sangue ainda corre nas veias. Mas eu não me arrependo momento nenhum de ter entrado no Candomblé, eu entraria dez vezes. Se eu voltar em matéria ainda, eu vou para o Candomblé outra vez, mas acho que eu não volto não. Que eu sou signo de peixes e diz que signo de peixes é o signo de Cristo. E Cristo jamais voltará em corpo. Sim, espíritos, ele nunca mais voltará em corpo físico. Então, só o espírito, então, eu vou ficar pertinho de Deus e Cristo peça por ali, nem que ele não ande por... mas eu fico ali perto. Eu espero um momento. E agradeço quando deito, levanto, converso com o sol, primeira coisa que eu acordo olho para o sol, mesmo que não esteja o sol, esteja bom. Mas eu falo com o sol todo dia. Com o ar que me dê vida. Me dê força que eu posso fazer as minhas coisas. Tem hora que eu levanto assim toda quebrada. Tô fazendo fisioterapia, que eu tô com duas vértebras inflamadas. Pesa a idade e tudo, né? Tudo isso pesa na gente, é igual carro velho, conserta um lado e tá o outro. Mas eu falei: Não, eu tô forte, eu levanto, eu trabalho, eu faço tudo. Então, essa força não vem só do meu corpo, vem de força divina. Então, agradeço muito. Tem hora que eu chamo pela cabocla Juçara. Meu pai, me dê luz, me dê o entendimento. Meu e meus ancestrais, são meu pai de santo, meu pai material também, amava muito meu pai. E amo até hoje, porque para mim não morreu, a passagem só. Tá muito presente em mim, meu pai José Augusto, todo mundo gostava muito do meu pai, da minha mãe. Na nossa casa todo mundo comia, todo mundo bebia. É dessa forma. Embora eles não era da mesma energia que eu sou desse... da espiritualidade, mas eles abraçavam Deus e o mundo. Minha mãe conhecia, com cozinhar para os padres. Que é a cidade pequena, tem aquelas missões, né? Tem as festas de São Francisco de Assis, que é o padroeiro da minha cidade. Minha mãe tinha aquele prazer, o pessoal que morava no sítio trazia fruta para a gente e... a vida é uma troca, ali todo mundo fazia um pouco de tudo. E eu também faço um pouco de tudo aqui dentro. Tem coisas que eu faço, que eu falo assim: Meu Deus, só o senhor mesmo, porque é onde que eu vou buscar tanta força e eu tenho força. Até hoje, não sei daqui para amanhã, né? Mas eu tô assim, diz que enquanto a figueira tá dando fruta é porque o mundo não vai se acabar, né? Dizem que é assim, é bíblico, né? A palavra não é bem assim, mas eu é que tô falando. Até enquanto tô botando filho de santo aí, eu não vou embora. Quando eu for embora, uns 7 anos, não faço nada. Mas eu falei que eu sou teimosa, né? Eu gosto da vida. Ainda não conheço o outro lado, mas assim, não tem outro lado, o outro lado é aqui mesmo. Só faço uma passagenzinha, mas não quero ir agora não. Deixa, eu subo o bairro de Fátima, que desde que eu vim de Santos que eu moro aqui no bairro de Fátima, nunca mudei. Só mudei na... Eu moro na mesma rua, só mudei de um apartamento para minha casa. Que num ano eu fiz minha casa. Graças a Deus foi pela Caixa tudo, mas é minha casa, hoje tem minha casa, tem dois andares, tudo. Mas dali nunca... dessa rua nunca sai mais da batalha. Todo mundo conheceu desde que eu fundei isso aqui, todo mundo sabe. Eu me dou com Deus e o mundo aqui não tem inimigo, nunca tive. Então, se eu tenho alguns inimigo a gente chama que é... aquele que não se de... Não se... A gente chama incubado que é uma gíria do Candomblé. Aquele que não aparece, né? Que às vezes eu também chego em alguns lugares que eu vejo assim me medir da cabeça aos pés e eu boto a mão, tudo bem, eu finjo que aquilo não é comigo. Não deixo me atingir. Esse menino que queria barrar minha festa de Iemanjá também, outro dia teve um prêmio na câmara. Tava todo mundo aí. Como eu tinha chamado para se fazer uma entrevista lá na rádio universitária, eu fui fazer a entrevista lá. E demorou um pouquinho, então eu ia ser, ia para a mesa que eu ia fazer uma fala também. Eu cheguei um pouquinho atrasada, aí teve uma mãe de santo lá que disse assim: ah, não precisa subir para a mesa não, você pode ficar aí por aí mesmo. Aí o presidente lá que é o menino Jocelino, que foi que fez o... Você conhece, né? Que é vereador. Jocelino: “Mãe Néia, vem para cá”. Eu falei: “Meu filho, eu tô atrasada”. “Não, vem para cá”. E outro, “claro que não, pode ficar aí, minha velha”. Eu odeio que me chamam, eu sou velha, mas eu odeio essa palavra minha velha, parece que é uma coisa jogada fora. Eu disse: “Tá bom, eu tô com _____, eu vou subir sim”. Jocelino veio, pegou. Vem para cá, senti. Aí eu fiz uma fala lá, tudo. E eu senti, ele estava sentado do lado, ele estava com o chapéu de boiadeiro, aqueles negócio assim. Aí eu senti, ele me olhou assim de cima abaixo, aí eu fiz a minha fala quando eu voltei, bati nas costas dele, falei: “Tudo bem? Que bom te rever”. Eu trato assim, faço de conta que não tem nada comigo. E vou levando a vida assim. Então, eu não dou chance para as pessoas enfim, pode me apedrejar em palavras, em tudo, que a gente sabe o coração dos outros é terra que ninguém anda, mas eu encaro a vida natural. É como eu disse, eu não tenho medo, respeito, mas não tenho medo. Pode ser quem for. Eu entro em qualquer lugar por aí. Ah, porque é fulano de tal, é isso, tem um poder maior que... Uai. Do jeito que ele veio, veio. Eu também vim, vou embora do mesmo jeito. Por dinheiro, você não leva para lugar nenhum. Porque tem um poder, porque é doutor assim assado. Uai. Também sou doutora dentro da minha cultura. Também tenho minha sabedoria. E respeito, não vou fazer baderna jamais, aí entro e saio de qualquer lugar. Agora veio uma menina que agora é patrona também da universidade, que é da Ufes, que é uma escritora negra. Conceição Evaristo. Uma mulher, a história dela é muito bonita, linda demais, foi chamada lá com o pessoal do reitor, com o pessoal tudo, depois nós fomos pro auditório, foi muito bonito. Quem tava lá? A mãe Néia. Então, a mãe Néia tá em tudo que é buraquinho, sabe? Não é porque é exibição, não. É porque eles tem um respeito com a minha pessoa. Você entendeu? Respeitam muito. Eles tem uma palavra que eu estou sempre falando. Na posse desse novo reitor, fui convidada. O que que eu vou fazer numa posse do reitor? Pensando: bem, mas eu fui convidada, eu tava presente. Eu ouvi nos 100 anos... Semana da África, que foi o mês todo dentro da Ufes, eu fui fazer as palestras lá com aquele pessoal que fica. Eu, tem coisas que eu vi na que é bonecas, que eu adoro bonecas africanas, que é magrinha, o pescoço longo, né? Eu pensei que era só boneca. Mas na vida real é verdade. Eu tive com essas meninas africanas do pescoço bem largo, magrinha, são lindas. Eu tive com um monte de gente de países africanos, que ainda outros países ainda são submissos a outros países, né? Que absurdo. Eu não consigo entender isso. África é rica, tem dinheiro, tem tudo com como é que pode ser submisso a outro país? E eu tive questionando essas coisas também. E eu não sou formada não, minha filha. Passou o filme de cada país que dos que tão presente, que tem muito africano estudando aqui. E muito africano muito muito culto. Aí eu falei: Por que só por causa da cor? A noite existe, meu Deus. O dia é dia, noite é noite e nem por isso. A gente vive à noite também. Por que essa discriminação doente? Não sei o que falta para poder o povo se entender. E é assim que a gente vive, então todos esses locais e para mim isso é uma história, é uma grandeza. Eu respeito. E eu amo estar no meio desse... Às vezes eu brinco nessa muvuca toda, né? Às vezes às vezes, pessoas assim: Mãe, estão te usando. Eu falei: "Não, me usando não". Eu faço uma coisa que eu gosto de fazer. É coisa de mim. Eu gosto de ouvir outras pessoas falar, eu gosto de cultura, eu gosto de tudo desse lado. A gente aprende muito. Tanta coisa que eu nunca pensei que... As pessoas vão esclarecendo, a gente vai aprendendo e aquilo fica dentro de mim a vida inteira. Pode passar os anos que for tá dentro de mim. Eu guardo, lembro de tudo. Desde mesmo a minha infância eu lembro de tudo. Não esqueci nada. Então eu tenho, assim, a minha mente tá sadia graças a Deus. As vezes em casa, às vezes “mãe!” isso assim assim, eu falei: olha menina não chamei Jesus de Genésio ainda. Deixa quieto que eu estou falando já a palavra de Jesus porque eu estou bem. Eu não esqueci nada. Tudo que eu faço, eu faço consciente. Mas tem momentos que eu quero deixar de lado tudo. E estou batendo, ah não sei. Não vale a pena estar discutindo mais. Hoje eu não discuto muito, eu mais escuto mais do que discuto também. Mas não deixo dar resposta, não. Pode ter certeza. Que tem um tempo a gente vai ficando mais maleável, né? Mas eu sempre tive assim, você me falava, eu tinha resposta para você. Podia ser o que fosse. E a crítica para mim, para mim sempre foi um incentivo. Nunca eu tive como crítica, como incentivo. Eu ia ver o que estava de errado, se eu errei. Mas se eu também me sentisse que eu não estava errada, ah, minha filha, eu ia até o final. Não desisti, como não desisti disso aqui. Tá tudo não, “nananana”. Falei não, eu vou. Eu sou daquela que eu não fico no meio do caminho. Mesmo chegando de arrasto, eu vou, vou, vou, sou teimosa. Aonde que eu falo assim, tem uma tem uma fruta no sertão que mesmo na seca, ela tá verdinha, que chama jericó. Quando os bichos não tem mais o que comer, eles comem a folha do jericó porque tá verde. E é uma coisa verdadeira. Não sei, aí na... em todo o Nordeste tem essa... E eu acho que eu também sou assim, porque eu não desisti daquilo que eu quis, nunca. Eu só tenho um trauma na minha vida, de não ter feito uma faculdade. Só a única coisa que eu... E como eu disse há uns tempos atrás, eu queria fazer teologia. Falei: não, não tenho tempo mais não. Tem que se doar muito, né? Deixa quieto. Mas a única coisa assim, frustração na minha vida é só essa aí. Hoje eu também tenho uma polêmica que às vezes eu tenho um conflito de umas pessoa que me deixa triste, mas isso foi porque às vezes você tá num ambiente que tem pessoas que trazem só aquele negativo para cima de você e acaba absorvendo mesmo. Que a gente é um para-raios também, absorve as coisas ruins também. É um vento ruim que vem, e vento ruim é difícil para se afastar, tá? E esse eu sinto aí, mas eu falei: Uma hora qualquer eu vou quebrar a cabeça desse mal, porque é uma coisa, uma crosta mesmo. E eu tô buscando a hora certa para dar essa porrada. Porque eu tenho um filho de santo que o nome dele é Henrique e o santo dele é de Matamba. Matamba é Iansã, simboliza que, os ventos e os raios, né? Palavra Iansã Matamba é isso. Simplesmente os raios e os ventos. E é quem que conduz os mortos também. É a dona das almas. E esse menino é de Matamba. Menino bom, eu gosto dele. Mas um dia ele fez uma pergunta para mim. e o apelido dele é Kibanzelu (Kibanzelu?), nome de santo. Ele foi ver num determinado dicionário, porque tem um dicionário quibundo, banto e quicongo. Já tem um diferenciando muitas vezes as pessoas não entendem. Tava escrito Kibanzelu... Agora tem uma turma já tudo... Ah, então, vi as duas pessoas. Eu vi... Aí eu falei assim: gasta vela, diabo. Acender vela para o defunto ruim. Acender vela para mim é gastar dinheiro, meu filho. De macumba eu não morro não. Nossa senhora, vai gastar, vai perder dinheiro, vai, vai tomar o lanche, vai beber uma... Como diz uma... cervejinha geladinha boa, né? Adoro.
P/1 – Mãe Néia, a gente já tá encaminhando pro final. Eu queria saber o que que você achou de contar a sua história hoje?
R - Minha filha, eu imaginava outra coisa, assim, uma entrevista assim bem, como sempre vem aqui, sempre vai. Mas isso aqui pra mim... Como dizer, foi a maior alegria que eu tive, tô tendo até agora. Foi um prazer receber vocês. Não sei bem o que vocês vão, tão buscando tudo, mas como você disse é... esqueci a palavra que você falou. Saber conteúdo das pessoas, o que estão fazendo, deixa... Só de falar do Bigode, que eu sei que é dono de restaurante, é uma pessoa muito bem quista, também do Congo. Então, é diversidade, né? É importante. E tudo que vocês pra tão fazendo é muito importante. Eu acho. É cultura, é saber, é divulgar. Para as pessoas não ficar neutra nas coisas, isso aqui aí assado, que é cozido. Não, isso é importante para vocês, para mim. Mas para mim também, porque vocês tem muito tempo pela frente para enfrentar tudo, saber mais. E para mim é marcante, foi marcante. Amei vocês, amo sempre. Vou guardar para o meu coração até o dia que Deus me levar. E espero que tenha um sucesso nessa caminhada de vocês, porque... Existe o porquê, não é à toa. E são profissional, né? São pessoa de cultura, de amor, de carinho e que trabalho maravilhoso, tá? Parabéns. Espero que vocês continuem fazendo tudo isso e mais um pouco. Não param por aí, não, porque vocês tem caminho muito, muito pode chegar muito além. E espero que Iemanjá... Encoste (encoste?), como a gente chama de que é Ogum, Obaluaê, que é meu pai também, tem caminho para vocês, mais sabedoria ainda. Seja o que vocês são, maravilhosos. E um gila (ungila?) Exú, né, abre os caminho mais, cada vez mais, muitos ____ na mão, muita saúde, é isso que eu desejo para vocês. Tá? Foi um prazer enorme, de verdade. Foi muita alegria que eu tô recebendo vocês de verdade. Vocês são os amores da vida, né? E é isso, minha filha.
P/1 - Muito obrigada.
R - Por nada.
Recolher