Entrevista de Marina Shimidzu Matsumoto
Entrevistada por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 07 de fevereiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV007
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
00:00:05
P1 - Marina, para começar, eu queria que você dissesse seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.
R - Meu nome é Marina Shimidzu Matsumoto, eu nasci em São Paulo, no bairro do Ipiranga, no Hospital Leão XIII, que agora virou Hospital Ipiranga, na época era um hospital do SUS. Nasci no dia 16 de abril de 1959. Eu tenho 66 anos.
00:00:50
P1 - Eu queria que você me contasse qual é o nome dos seus pais.
R - Meu pai, Kiyoshi Shimizu, ele é falecido há quase 30 anos, minha mãe, Tihio Shimidzu, viva, tem 93 anos.
00:01:03
P1 - E como você descreveria eles?
R - Bom, a gente é de uma classe média baixa, vamos dizer assim, no começo, eles eram filhos de imigrantes, trabalharam muitos anos na lavoura; e cada um nasceu numa cidade, meu pai era de Birigui e minha mãe de São José do Rio Preto. Depois, numa fase da vida, eles vieram para São Paulo, cada um na sua fase, porque os irmãos mais novos tinham que estudar, fazer faculdade. O meu pai estudou até a 5ª série, não teve oportunidade, ele tinha 8 irmãos, e a maioria já faleceu, e ele estudou até a 5ª série, que seria atualmente. Minha mãe estudou até a 3ª série primária e os 2 irmãos mais novos dela, 3 irmãos mais novos, fizeram a faculdade do meu irmão, do meu pai, os 2 mais novos também fizeram, inclusive ele tem um irmão que já é falecido, mas estudou no ITA, que era muito difícil de entrar naquela época, e ainda é. Bom, daí o que aconteceu? A minha mãe foi trabalhar no empório do meu avô e meu pai foi trabalhar na feira, isso foi antes de se casarem, e quando eles se casaram, minha mãe foi trabalhar na feira com meu pai, que tinha uma barraca de cereais. Bom, aí depois...
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Entrevistada por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 07 de fevereiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV007
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
00:00:05
P1 - Marina, para começar, eu queria que você dissesse seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.
R - Meu nome é Marina Shimidzu Matsumoto, eu nasci em São Paulo, no bairro do Ipiranga, no Hospital Leão XIII, que agora virou Hospital Ipiranga, na época era um hospital do SUS. Nasci no dia 16 de abril de 1959. Eu tenho 66 anos.
00:00:50
P1 - Eu queria que você me contasse qual é o nome dos seus pais.
R - Meu pai, Kiyoshi Shimizu, ele é falecido há quase 30 anos, minha mãe, Tihio Shimidzu, viva, tem 93 anos.
00:01:03
P1 - E como você descreveria eles?
R - Bom, a gente é de uma classe média baixa, vamos dizer assim, no começo, eles eram filhos de imigrantes, trabalharam muitos anos na lavoura; e cada um nasceu numa cidade, meu pai era de Birigui e minha mãe de São José do Rio Preto. Depois, numa fase da vida, eles vieram para São Paulo, cada um na sua fase, porque os irmãos mais novos tinham que estudar, fazer faculdade. O meu pai estudou até a 5ª série, não teve oportunidade, ele tinha 8 irmãos, e a maioria já faleceu, e ele estudou até a 5ª série, que seria atualmente. Minha mãe estudou até a 3ª série primária e os 2 irmãos mais novos dela, 3 irmãos mais novos, fizeram a faculdade do meu irmão, do meu pai, os 2 mais novos também fizeram, inclusive ele tem um irmão que já é falecido, mas estudou no ITA, que era muito difícil de entrar naquela época, e ainda é. Bom, daí o que aconteceu? A minha mãe foi trabalhar no empório do meu avô e meu pai foi trabalhar na feira, isso foi antes de se casarem, e quando eles se casaram, minha mãe foi trabalhar na feira com meu pai, que tinha uma barraca de cereais. Bom, aí depois os irmãos foram se casando e tal e a barraca acabou, é o que eu sei, né? E minha mãe foi ser costureira, porque ela tinha feito um curso, e meu pai foi ser motorista de táxi. E a gente é em 5 irmãos, eu sou a segunda mais velha, e a minha quarta irmã já faleceu, né? Faleceu de criança, na época da epidemia da meningite. Aí, conforme foi passando o tempo, o meu pai entrou em sociedade com uma pessoa que ele conheceu, que eu não lembro exatamente como ele conheceu, que tinha uma loja pequena de material de construção. Aí a minha mãe parou de costurar, ela fazia calças para um alfaiate e meu pai colocou todo mundo para trabalhar na loja. Assim, eu e meus irmãos mais velhos, só o caçula que foi trabalhar depois, ele é 12 anos mais novo, então todo mundo foi trabalhar, a gente tinha 10, 11 anos e meu pai, pôs todo mundo na loja para trabalhar, e ele falava que para a gente conseguir subir na vida, tinha que ajudar, porque ele não tinha dinheiro para pagar empregado e tal, e que todo mundo tinha que entrar na faculdade e tinha que ser pública porque não tinha dinheiro para pagar na época. Aí a coisa foi melhorando, foi indo bem o negócio, até que ele comprou uma casa própria para a gente, e eu e meus irmãos sempre estudamos em escola pública, e fizemos faculdade pública, senão não poderia (se formar). Na primeira vez que eu prestei vestibular, quando eu falei que eu queria ser médica, eu entrei numa faculdade paga em duas. Aí ele falou: “Não, não vou pagar a faculdade para você”. Porque meu irmão era mais velho, e ele estudava numa escola técnica no colegial, que hoje fala ensino médio, era um ano a mais, 4 anos e o normal eram 3. Então nós ficamos juntos, e aí eu tinha entrado na faculdade de medicina, paga duas e não tinha entrado na pública e meu irmão tinha entrado também em duas pagas, ele fez engenharia. E meu pai falou que não ia pagar nem para um, nem para outro, porque a gente ia fazer cursinho e entrar numa de graça. Aí eu fiz cursinho, ganhei uma bolsa praticamente integral, meu irmão também ganhou. Aí ele entrou na Politécnica e eu entrei na Escola Paulista de Medicina, e eu fiquei estudando.
00:04:40
P1 - Eu queria te perguntar uma coisa, vamos voltar um pouquinho, eu queria saber como você descreveria a personalidade dos dois, do seu pai e sua mãe?
R - Meu pai era muito rígido, japonês bravo, minha mãe, mais ou menos, mas meu pai era muito bravo, tinha que ir bem na escola, tirar notas boas, né? A minha mãe era, não vou falar que ela era submissa, ela tem uma personalidade forte, até hoje, ela é lúcida e tudo. Ela era super esforçada, o pouco que aprendeu ela estudou, ela sabia ler em japonês, e ela tentou passar isso pra gente. Tanto é que numa fase a gente entrou numa escolinha também japonesa de bairro, aprendemos algumas coisas, mas depois a senhora que dava aula começou a cobrar, e aí minha mãe não tinha dinheiro para pagar para todos e então a gente saiu. Mas eu me lembro que a gente estudou, acho que quase 1 ano nessa escola em japonês. Por um período, eu, o meu irmão mais velho e a minha irmã, abaixo de mim. E meu pai, sempre trabalhando, não tinha quase horário, e o que ele queria? Que todo mundo estudasse, todo mundo estudasse e fosse bem na escola.
00:06:00
P1 - E me conta como é que era a relação entre você e seus irmãos durante a infância?
R - Ah, a gente brincava na rua, eu morava na Vila Mariana, ali onde agora virou um bairro de rico, que é o Klabin (Chácara Klabin, na zona sul de SP), eu morava perto do cemitério da Vila Mariana e tinha um morro lá, a rua não era asfaltada, tinha o bonde ali, que passava, que atualmente, agora é o metrô Ana Rosa. E o que era legal, por exemplo, é que era tudo brincadeira de coisas adaptadas. Então minha mãe pegava a caixa de papelão do supermercado, a gente entrava na caixa e descia que nem tobogã, e era a maior festa, porque era o dia em que podia brincar. A gente brincava com os vizinhos lá, era guerra de estilingue com mamona, umas coisas bem malucas que acho que vocês não vivenciaram. E aí o meu irmão aprendeu a fazer um carrinho de rolimã, com os meninos lá da rua, e aquela rua que que desce ali do... Seria Ana Rosa, era uma ladeira, então colocava o carrinho de rolimã descendo e a gente ia atrás de garupa. Foi muito boa a infância nesse sentido, porque a gente brincou com muita coisa que não tem mais hoje. E era tudo assim, não tinha tantos brinquedos, eu me lembro que o japonês prioriza muito o filho mais velho, ainda mais se é homem, então, se ganhava algum brinquedo, quando eles podiam comprar, era ele que ganhava sempre. Aí ele tinha que emprestar para os outros, né? Eu me lembro que ele, quando tinha acho que 9 ou 10 anos, ganhou a bicicleta, só ele ganhou, e depois tinha que emprestar para os outros, quando ele tinha uns 11 ou 12 anos, ele ganhou uma pista de autorama que meu pai comprou e tal. E aí, só tinha 2 controles de autorama, que, tinha que revezar, mas ele sempre estava lá com o controle ou eu, a minha irmã tal brincando com os outros com o outro controle, o reserva, então era sempre ele quem ganhava, mas não por isso a gente ficou com raiva dele, não é isso, mas a gente via que a educação era assim. Não sei se ainda é hoje assim, mas naquela época o mais velho tinha algumas regalias. E a gente, por ser mulher, aprendeu a cozinhar bem cedo, na época, tinha o meu irmão mais novo, que é bem mais novo que a gente, e a minha mãe ainda costurava pra fora, e tinha essa minha irmã que depois faleceu, então eles tinham mais ou menos um intervalo pequeno de idade, e minha mãe me orientava, colocava a comida numa bacia e eu dava para os outros. Eu dava, porque eu era mais velha, quer dizer, das mulheres, a mais velha, e sentava os 2, e já colocava na boca deles. E quando ela voltava, perguntava: “Eles comeram? “. E eu: “Comeram”. E ela: “Tomaram mamadeira?”, eu: “Tomaram”. Então a gente cuidava da casa para ela, depois desse período mesmo, meu pai, a gente tinha essa casa, ela tinha um espaço maior atrás, e ele construiu mais umas duas casinhas, em que morava uma irmã da minha mãe, que também era costureira, que ela estava assim, com dificuldades financeiras. E meu pai, alugou uma para uma pessoa, que eu lembro que era brasileira, que acho que ele cobrava aluguel. Aí dessa minha tia não, ele a ajudava porque ela estava com dificuldade. Ela tinha duas filhas já, depois ela teve mais uma, e eu cuidava, por um período, também dessa minha prima que era mais nova, para minha tia, poder entregar as encomendas dela de costura e tal. Então a gente ficava em casa, nesses horários não podia sair, só depois que minha mãe voltasse. Meu pai, nessa época ele tinha táxi e voltava tarde.
00:09:43
P1 - E você, chegou a conhecer os seus avós?
R - Sim, bastante, os do meu pai, moravam nesse período, na mesma rua que a gente, só que a rua era bem longa, mas era na mesma rua, mas não íamos todos os dias na casa deles, não dava. Mas a gente ia bastante lá. O meu avô era bem bravo, pai do meu pai também, a gente tinha medo dele, sabe? Ele olhava, se sentava numa cadeira e ficava olhando assim, não queria que fizesse bagunça, nada. Os avós da minha mãe, eles eram mais, vamos dizer assim legais para nós, ele (meu avô) tinha uma vendinha, tipo um barzinho, que vendia sacaria, e a gente gostava de ir lá porque ele deixava cada um pegar um doce, podia escolher um docinho do balcão dele, era bem legal. E aí depois chegou uma fase em que eles ficaram mais velhos, e chegou a morar com meu tio mais velho. Porque japonês geralmente mora com o mais velho, mas aí depois ele teve um monte de filhos, esse meu tio teve 5 filhos e não cabia mais na casa, não tinham como ampliar a casa, e ele com cinco filhos, aí meu pai, ele fez como se fosse uma edícula, numa outra casa que a gente já tinha mudado, no outro bairro, e aí os meus avós foram morar no fundo da minha mãe. Então eles moraram bastante tempo na casa dos meus pais, nessa época eu já tinha acabado a faculdade, tinha me casado já. Mas assim, eu ia muito lá porque a minha mãe ajudou a cuidar do meu filho mais velho, um período, foi muito bom.
00:11:21
P1 - Eu queria que você contasse como eram esses avós, eles vieram de que região? Eles vieram do Japão? Eles falavam japonês com você?
R - Não, não muito. A minha avó, meus avós do lado da minha mãe, vieram de Hokkaido, e do meu pai, eu não sei de que região vieram porque o meu avô morreu muito cedo. Assim, conheci ele de criança ainda, e a gente não falava muito com eles, sabe? Eu lembro que o meu avô era muito sério e tal. A minha avó mais ou menos, mas assim era mais na hora da refeição e tal. Agora, os meus avós do lado da minha mãe, eles chegaram a ir para o Japão, quando os meus tios mais novos se formaram, eles fizeram uma vaquinha e compraram uma passagem para eles irem e eles foram no Japão visitar a cidade deles. E a gente tinha mais contato com eles, mas assim, a maioria dos meus tios, tanto do meu pai, se casaram bastante com ocidentais. E do lado da minha mãe, como eles tinham comércio, no barzinho, e a minha avó trabalhava junto, eles falavam muito português e ela não falava quase japonês, a minha mãe e o meu tio mais velho, era quem falava mais em japonês com eles, mas não falava de rotina. Falava assim, que eu ouvia no telefone eles conversando. E aí o meu avô sempre dizia que tinha que falar em português, porque a pessoa não está entendendo, e poderia achar que estava falando mal dela. E tem os tios que se casaram com ocidentais, e do lado do meu pai, bastante também, então a maioria não falava japonês. Mas, o meu neto fala melhor agora.
00:13:02
P1 - Eu queria saber se tem algum cheiro ou alguma data especial, alguma comida que lembre a sua infância?
R - Olha, cheiro assim nem tanto, né? Comida sim, porque a minha mãe cozinha super bem, agora não, que ela está doente e tal, mas ela sempre cozinhou muito bem, comida japonesa, tanto é que fazia sushi mesmo, sabe? Não de peixe cru, aqueles outros, não sei se vocês conhecem aquele que parece um rocambole e se chama Futomaki, o arroz de saquinho, que se chama Inarizushi. Ela faz um arroz japonês chamado Sekihan, que você faz com arroz, com feijãozinho vermelho e tal. Então, ela sempre cozinhou muito bem, fazia conserva japonesa, minha avó também fazia, então, geralmente a gente tinha essa tradição, e têm a tradição japonesa de que quando você vai comemorar alguma coisa, todo mundo leva um prato, chama Motiyori, existe esse termo, e então cada um levava um prato, o que se sabia fazer, geralmente nas datas que vocês também comemoram, todo mundo comemora, no dia da Mães, dia dos Pais, no Ano novo é que comemora mais o japonês, natal nem tanto, se comemorava, mas cada um na sua família, mas juntava toda a família, era nessas datas, e minha mãe, por ser a mais velha de mulheres, geralmente chamava, nem todos porque também não cabia na nossa casa no começo, os mais próximos dela, para vir comer em casa, mas depois, é lógico, chamava todo mundo, porque a casa ficou maior, mas comida geralmente japonesa de preferência, que a gente comia sempre, né?
00:14:47
P1 - E tinha um prato que você gostava mais?
R - A minha mãe cozinhava super, bem de todos, para falar a verdade, mais esses arrozes japoneses, né? Ela fazia tortas também, brasileiras, de palmito, de camarão, ela cozinhava super bem, eu gostava de tudo que ela fazia, tudo. Conserva, principalmente que é mais difícil, né? Ela fazia e todo mundo levava um vidrinho para casa, para comer em casa. Muito bom.
00:15:14
P1 - E você sabe por que você chama Marina?
R - Olha, eu não sei se é por causa daquela música que tem: “Ô, Marina… Marina Morena” (Marina de Dorival Caymmi). Eu não sei se a música é anterior a mim, mas eu chamo Marina e a minha irmã chama Suzana, tanto é que eu acho que por causa da música, porque eu acho que meu pai vivia cantando aquela música, apesar de ele ser japonês.
00:15:35
P1 - E me conta se você sabe o dia do seu nascimento, como é que foi?
R - Foi parto normal, todo mundo, todo mundo em casa, que eu sei, era aqueles que ficavam esperando nascer... Tanto é que ninguém acredita, né? Mas a minha irmã, ela é dois anos mais nova que eu, nasceu no mesmo dia, do mesmo mês, e não somos gêmeas, lógico porque ela é 2 anos mais nova que eu, né? E ela tinha uma raiva de mim, porque a gente nunca teve aniversário, porque minha mãe falava assim... Minto, teve uma vez, que eu vi uma foto lá, quando eu fiz 1 ano, eu fiz 3 anos e ela fez um, aí teve uma festinha na família e depois nunca mais; ela falava assim: “Imagina, vai chamar para trazer 2 presentes? Melhor não fazer nada, porque ninguém gosta de aniversário assim”, ela falava. A gente nunca teve festa, nada. É lógico que não gastava dinheiro, lógico, eu sei que era por causa disso também, mas a minha irmã falava: “Eu nunca tive um aniversário sozinha”, e eu falei assim: “Ah, acho que eu tive com 1 ano, depois você nasceu, não tive mais”. Foi mais ou menos acho que era isso que eu lembro.
00:16:41
P1 - E me conta qual é a primeira memória da lembrança da infância que você tem?
R - Ah, eu acho que é dessas brincadeiras de rua que acho que foi muito legal.
00:16:52
P1 - Como é que era ali a região da Chácara Klabin, onde você morava quando pequena?
00:16:59
R - Tudo de terra, tudo de terra. Então era os morros, que depois virou tudo apartamento de alto padrão, que eu sei, mas a gente saiu antes de virar isso. Tanto é que a nossa casa, nessa época eu morava na Rua Dionísio da Costa, todo mundo conhece. Para subir na casa tinha uma escada enorme, devia ter uns 30 degraus ou mais, e não tinha grade para segurar, não tinha nada de apoio e as laterais era jardim porque era um morro, né? Aí tinha o primeiro pavimento, que era a casa em que a gente morava, era uma casa pequena, eu lembro que tinha acho 2 quartos, sala, cozinha e banheiro. Aí depois era o terreno, se fosse hoje, acho que despencava lá se chovesse pelo que eu vejo das enchentes por aí. Aí, depois de uns talvez 5 anos, meu pai ampliou, ele, não sei como é que foi, não lembro, mas fez uma outra escada e um platô e fez uma outra casinha, onde depois minha tia morou vários anos. Aí depois de um tempo, fez um outro platô com outra casinha até acabar, era um negócio assim todas as casinhas da rua, que eu me lembro. Aí tinha a vizinha de baixo, que era Dona Ancilla que ela já morreu, seu Silvio, que era o marido dela, também faleceu, mas eles eram super amigos do meu pai, então se precisava de alguma coisa, a gente chamava a vizinha de cima, também era o mesmo estilo, todas as casas eram no mesmo estilo, morro com escadaria que subia. Aí do lado era uma enfermeira que trabalhava no Hospital Emílio Ribas na época. Tanto é que foi ela quem socorreu a minha irmã, quando faleceu. Foi na epidemia de meningite, ela que orientou minha mãe para levar no Emílio Ribas, onde ela trabalhava na época. E então, todo mundo na rua brincava que eu me lembre, com terra mesmo, carrinho de rolimã, de jogar estilingue. Porque como era tudo mato, tinha muito pé de mamona. Eu lembro que a guerra, era mamona mesmo, essas coisas, estilingue, a gente era tipo um moleque de rua, vamos dizer assim, independente de ser menino ou menina, né? E fazia também, não tinha neve, mas a gente fazia castelo de terra, porque tinha aquela terra toda, né?
00:19:19
P1 - E tem alguma profissão que você já tinha em mente de seguir durante a infância?
R - Eu queria ser médica.
P1 - Sempre, sempre foi um desejo?
R - Sim. Acho que desde que a minha irmã morreu. Talvez.
00:19:35
P1 - Você lembra desse momento?
R - Sim, ela era bebê. E eu lembro que minha mãe voltou e falou assim, ela chamava Rosana: “A Rosana comeu?”. Eu falei assim: “Ela não quis comer muito, não quis tomar leite”. Eu falava assim pra minha mãe: “Parece que a neném, - a gente chamava de neném - estava dura”, e ela já estava com sinal de meningite. Aí eu lembro que a minha mãe ficou desesperada, porque ela não levava a gente ao médico, levava na farmácia. Não sei se a gente tinha um farmacêutico, não sei quanto tempo de distância, mas ela levava sempre na farmácia. Eu lembro de poucas vezes a gente ter ido ao médico, né? E aí eu lembro que eu falei assim: “Aí, o nenê tá estranho, parece que o pescoço tá meio duro”. Ela pegou e tocou a campainha na vizinha, não, minto... Ela foi na farmácia, e parece que parece que o farmacêutico olhou e acho que ele já sabia o diagnóstico, porque estava tendo vários casos naquela época. Aí ele fala assim: “Leva na…” Não lembro o nome dessa enfermeira. “Leva na casa dela que ela trabalha no hospital, que ela pode falar mais com a senhora”. Aí eu lembro que minha mãe pegou a neném e nem trocou de roupa, não sei direito, e ela tinha vomitado, o neném. Isso eu lembro que minha mãe falava: “Tem que limpar aqui que a Rosana vomitou”. E ela tocou a campainha nessa enfermeira do lado, que era de noite já, e eu sei que ela voltou chorando. Minha mãe desesperada: “Aí não! Ela falou que a Rosana vai morrer, e que se ela ficar viva, vai ficar surda, vai ficar… - ela falou o termo ‘retardada’”. Ela usou o termo “retardada” porque ela falou que ela estava com meningite, né? Aí eu sei que ela catou a gente, e foi de... Acho que de táxi, eu não lembro se alguém levou a gente, mas eu fui com ela, né? E os outros ficaram lá, porque eram pequenos... Meu irmão e meu pai não tinham voltado, e na época nem tinha celular, telefone, essas coisas. Não existia, né? Aí a gente foi no Emílio Ribas (Hospital Emílio Ribas). Eu lembro nitidamente, que ele falou assim para minha mãe, o médico: - “A senhora pode se despedir da sua filha que ela vai morrer”, sabe? assim. Foi Muito... E ela morreu depois de 48 horas, eu acho, 2 dias. A minha mãe ficou muito mal, ficou internada numa clínica psiquiátrica, depois de um tempo, eu me lembro que ela não admitia, sabe? Acho que ela se culpava de não ter ficado com neném... Deixado na nossa mão... Não sei direito… Mas é lógico que depois a vida vai, né? Ela tinha outros filhos para cuidar e tal, mas eu lembro que foi muito triste. Eu me lembro de que o médico falou para ela, eu não sei se era médico ou enfermeiro, ele falou assim: “A senhora se despede da sua filha porque você não vai mais ver ela”. Aí depois que eu entrei na faculdade que eu vi que realmente ela estava já com os sinais da meningite grave. Quando a criança fica dura é porque ela já está com um sinal que chamamos opistótono (É um sinal neurológico grave, marcado por rigidez extrema e comprometimento severo do sistema nervoso central), e ela morreu.
00:22:33
P1 - E desde esta época você já tinha essa vontade.
R - Ah! Eu falava que ia ser médica.
00:22:41
P1 - Eu queria que você contasse se você se lembra do começo, na escola.
R - Do primário?
P1 - É.
R - Ah, foi bem bacana. Eu estudei em escola pública desde o começo, estudei no Brasilio Machado. (EE Brasilio Machado), lá na Vila Mariana, existe esse colégio ainda. Aí, depois de um período, estudei no Roldão Lopes de Barros (Escola Estadual Professor Roldão Lopes de Barros) que também era lá perto, a gente ia tudo a pé, né? Aí o pessoal hoje fala assim: “Nossa, vocês andavam lá embaixo, perto da Imigrantes? Subia até o Brasilio Machado?”, que era no metrô, entre Ana Rosa e Vila Mariana, não tinha como, íamos a pé, né? Todo mundo da criançada, a gente ia todo mundo a pé, era a maior festa. Porque você subia a ladeira lá e voltava e tal, a gente ia em grupo, eu não lembro se minha mãe foi com a gente na escola algum dia. Mas a gente andava sozinho, todo mundo ia em grupo, depois, quando a gente mudou para uma outra casa, quando meu pai comprou a loja, a tal sociedade da loja, depois que ele comprou, a gente morou no Jardim da Saúde, aí eu mudei de colégio. Eu estudei no Princesa Isabel (Escola Estadual Princesa Isabel) também é um colégio estadual, depois eu estudei no Conde José Vicente de Azevedo (Escola Estadual Conde José Vicente de Azevedo) também, que era do ginásio para cima. Eu sou da época de admissão para entrar na escola, sabe? Você prestava um vestibular para entrar, eu estudei lá, né? Todas as escolas em que eu estudei foram excelentes. Todos os meus amigos, independente do nível socioeconômico, na escola, todo mundo entrou na USP (Universidade de São Paulo), na Poli (Escola Politécnica - USP), na FAU (Faculdade de Arquitetura da USP), na Escola Paulista de Medicina - USP, eu lembro que todo mundo da escola pública entrava em escolas boas mesmo, nessa época, pelo menos. Eu lembro nitidamente que quando eu estava no Brasilio Machado, o Tony Ramos (ator de novelas) estudou lá, e ele era mais velho que a gente, um pouco. E aí eles falavam assim: “Olha, aqui, hoje, vai ter um futuro artista, porque vai vir”, acho que era da TV Tupi, acho que era, “resolveu pegar um adolescente aqui”, e era ele (A Rede Tupi selecionou o Tony Ramos na escola, para trabalhar na TV). Depois que eu fiquei sabendo, era o Tony Ramos, ficou famoso... Então assim, vinha um monte de gente na rua olhar, sabe? Acho que vinha o carro da televisão buscar ele, e foi bem assim. A minha mãe, na época da feira, conhecia o Francisco Cuoco (outro ator de novelas), que a barraca dele era na frente da (barraca) da minha mãe, ele tinha uma barraca que vendia produtos de limpeza e minha mãe, todo mundo... Faziam fila naquela barraca porque tinha um moço muito bonito trabalhando e depois, ela descobriu que era ele, e se você for ver a história dele, ele era feirante. Minha mãe o conheceu assim, na época, tipo feirante, né? Depois é lógico que ele mudou de nível, ficou famosíssimo.
00:25:23
P1 - E nessa época da feira, e depois da época da loja, como é que era a rotina de vocês?
R - Ah, era puxada, foi bem puxada. Na feira não, porque eu não peguei essa fase, eu não tinha nascido ainda. Foi um pouco depois, quando eu nasci, minha mãe já era costureira, ela era calceira (termo informal para designar a pessoa especializada na costura de calças), então ela trabalhava numa oficina de costura, né? E eram 2 irmãos homens, eles faziam paletó, e minha mãe, e uma, duas, três costureiras faziam as calças. Então ela era calceira, e o dono fazia o paletó, só faziam ternos, que eu fiquei sabendo depois, não fazia outras roupas. Aí nessa época eu cuidava dos meus irmãos, aí depois, na loja, a gente morava atrás da loja, que era uma loja e tinha uma casa, assim, um quarto, sala e cozinha, era bem pequena e como a gente tinha que trabalhar na loja do meu pai, ele colocou todo mundo lá atrás. Então, o que a gente estudava, tinha que ficar na loja no horário invertido. Então ele colocou assim, eu me lembro que eu era da turma da tarde e o meu irmão era da (turma) manhã, porque ele tinha que ficar na loja de manhã, e eu de tarde, para o meu pai poder almoçar. E na época não tinha nada de internet, então ele tinha que ir no banco pagar as coisas, e minha mãe ficava nas compras, ela ia muito, eu lembro de ter ido muito com minha mãe, no centro da cidade, porque vendia coisas de material elétrico, ferramentas. Então a gente, no começo, comprava na cidade de São Paulo mesmo, no centro, ia ali com sacola, pra fazer o estoque da loja. Depois de um tempo, que meu pai começou a comprar direto da fábrica, de distribuidor, porque tinha que ter uma quantidade mínima para comprar, eu acho, não sei exatamente como que era, mas a gente comprava poucas quantidades para vender. E aí, depois que eu entrei na faculdade, eu morava na loja atrás, e tanto é que meu pai falava assim: “Vamos rezar para você entrar na Escola Paulista, que é do lado, dá para ir a pé”. Porque era perto da loja dele, eu ia a pé à escola. E quando eu estudava, eu morava atrás da loja, ainda no colégio, eu tomava ônibus, estudava à noite, mas na faculdade, como era integral, eu só ficava na loja de sábado. Ainda fiquei durante um ano, depois eu ganhei uma bolsa, uma bolsa não, eles davam um auxílio para estudantes que quisessem trabalhar no laboratório do Hospital São Paulo, e eu me cadastrei e comecei a trabalhar à noite no laboratório. Vários colegas meus também da turma, aí eu trabalhei à noite. E eu não ficava mais na loja quase, porque não dava. Tinha que estudar também, o curso era o dia todo, o meu irmão também entrou na Poli (Politécnica), no mesmo ano e ele também não ficava, só ficava a minha irmã mais nova, um período. Depois, meu pai conseguiu pôr um funcionário para ajudar na loja, minha mãe continuava lá e depois de uns 5 anos, foi um pouco antes de eu me formar, a gente já estava um pouco melhor, ele conseguiu comprar uma casa que foi no Jardim da Saúde, e foi aí, eu já morei no Jardim da Saúde, mas ele vendeu a casa para poder comprar a loja, então é por isso que a gente morou atrás da loja. Aí depois ele comprou uma casa no Jardim da Saúde, que é a casa em que minha mãe mora até hoje, tá? Está a mais de 30 e tantos anos nessa casa, e a gente morou lá um tempo, morou lá, lógico que eu morei lá até me casar, o meu irmão, a minha irmã e tal. E aí a gente foi para esse lugar, e minha mãe continuou trabalhando na loja, ela levava a marmita para o meu pai e aí depois de um tempo, meu pai ficou doente, teve derrame e o meu irmão mais velho, ficou com a loja do meu pai, apesar de ele ser engenheiro, a minha mãe não queria se desfazer da loja... (ela disse:) “Porque a loja do Kyoshi, ele conhece todo mundo e não sei o quê…” (a mãe) Fez o meu irmão se demitir do emprego e ficar com a loja do meu pai. E nessa época o meu irmão caçula estava trabalhando no Japão de dekassegui (trabalhadores estrangeiros no Japão), ele foi porque ele trabalhava numa concessionária de carros, e ele não queria ficar muito na loja e as coisas começaram a ir mal no Brasil. Aí minha mãe achou melhor ele ir para lá, porque como já tinha um funcionário na loja, ela falou: “Então você vai no Japão e tentar fazer seu pé de meia lá”, e foi nessa época também que começou a ter muita loja grande, Leroy Merlin, Conibra, C&C (lojas de material de construção) e não dá para competir mais com eles. Aí meu pai morreu, acabou a loja.
00:30:14
P1 - Eu queria saber se vocês tinham animais de estimação durante a infância e adolescência?
R - Não, só tinha aquário, passarinho, essas coisas. Mas cachorro, não. Minha mãe falou que não, não podia ter, porque todo mundo trabalhava, muita correria e tal. E a gente morou em casa menor, né? Não tivemos cachorro não, nem gato, só aquarinho, pequeno, passarinho, aquelas coisas. Ah, tartaruga... Minha mãe tinha 2 tartarugas, jabutis, e que ela adorava, gostava, mas é uma história até engraçada. O meu irmão caçula, ele é asmático, e tinha uma superstição de que se você colocasse a tartaruga embaixo da cama ia curar a asma do coitado, ela comprou, comprou ou não sei se ela ganhou o jabuti, aí depois todo mundo lá dizendo: “Não, coitado, tem que arrumar um amiguinho para o Jabuti”. E não tinha sarado a asma dele, “quem sabe com mais um vai?”. Bom, tinha um casal do sítio, não sei se era casal, eram dois jabutis lá. E levou para a loja, levou em tudo que é lugar, e foi indo. Uma morreu, não sei com quantos anos, e o outro ela doou para uma veterinária, depois todo mundo cresceu e ela foi ficando velha e ela doou esse mais novo, aí foi para veterinária.
P1 - Tinha nome?
R - Não que eu lembro, mas eu lembro que ela colocava na caixa de sapato e toda vez que minha mãe ia dormir (punha embaixo da cama), mas não sarou a asma.
00:31:59
P1 - E me conta como, depois desse primeiro momento na escola do primário, que você estava contando, tinha alguma matéria que você gostava mais ou algum professor que você lembre com carinho?
R - Ah, eu gostava de todas as matérias, não gostava muito de filosofia porque na minha época tinha essa matéria, mas eu gostava de todas as matérias, não para me gabar, mas eu ia muito bem na escola. Eu e meu irmão, a gente era muito bom. Matemática, Física, Química, Biologia, e muito bem em Português, a gente ia bem, mas não digo que a gente era os melhores, mas a gente ia bem também. E eu tinha professores famosos na época, nessa época eu tive aula com Heródoto Barbeiro, depois que ele foi para televisão, mas na época ele era professor de História. E todo aquele pessoal que fez livros de cursinho, eu tive aula com eles. O Couve (José Carlos Couve - livros de química para cursinho) acho que era biologia. A Magda, ela era professora da USP, ela dava aula lá no meu colégio. Eu tive aula com o Maeda, que era um artista plástico, a gente tinha aula de artes, todo mundo (que era importante) dava (aula) e eu tive aula com um que era jogador de basquete da seleção na época, ele se chamava Emil Rached (conhecido como “O Gigante”), acho que vocês não lembram. Lógico. Mas se vocês pesquisarem, ele dava aula de Matemática, então, eram professores excelentes. A Setsuko de Matemática também, ela tinha um livro que acho que não sei se ainda existe, mas tinha. Eram os livros que naquela época se usavam em escolas particulares, professores de cursinho, eles eram excelentes professores. Todos. Não tenho queixas de ninguém. A Iara de Geografia, o Amarildo de Artes Cênicas e tal. A gente tinha aula assim no ginásio, num buraco... era lá, né? Mas assim, depois que a gente foi ver que todo mundo era muito importante dos professores nossos, que eles eram... Por isso que eu não vou falar que as escolas atualmente, não são tão boas, mas naquela época os professores eram muito bons, muito bons, muito.
00:34:00
P1 - E você estava contando que a sua rotina tinha os estudos, tinha o trabalho na loja, sobrava tempo para se divertir, na adolescência?
R - Não muito assim, eu ia ao cinema, meu pai... Ah, tinha os bailinhos de garagem. Era muito famoso na época, mas era só em casa de família, então meu pai levava, ou a mãe, tudo a pé, tudo lá perto. Era bailinho de garagem, e era muito bacana, então, tinha horário, começava às sete da noite, acabava umas nove, dez horas e tal, né? Bailinho de garagem teve muito, até quando entrei na faculdade, aí já começou a discoteca, que já era a época do John Travolta, aí já mudou o nível. Mas eram bailes de garagem, era muito bom, né? E eu lembro que foi assim quando eu acabei o ginásio, que é o antigo ginásio, que era a 8ª série, eles premiaram os melhores alunos com uma viagem para Minas Gerais para conhecer as cidades históricas de ônibus e eu fui uma das escolhidas.Eu nunca tinha viajado. O máximo que a gente ia era para a praia, meu pai tinha uma Kombi e que juntava todos os primos e levava em uma Kombi. E depois o irmão da minha mãe, mais novo que ela, lógico, também comprou uma Kombi, e meu pai já estava trabalhando em outras coisas, tinha táxi, e no táxi não cabia tanta gente, era um DKW, na época, cabiam só 4 pessoas, acho que 4, nem sei quantos, 4 ou 5, no máximo. Aí o meu outro tio comprou uma Kombi e, o irmão da minha mãe, e juntava toda a sobrinhada e levava para a praia, era um bate e volta, um piquenique, né? Fazia uma farofada lá, levávamos bolinho de arroz, frango assado e tal. E eu lembro que no verão, ele era muito engraçado, ele adaptou um ventilador na Kombi, não tem ar-condicionado, ligava o ventilador e a gente achava o máximo, porque nosso carro tinha ventilador dentro, ficava um ventilador rodando na Kombi. Eu lembro desses passeios ao zoológico, que ele levava de vez em quando, no Parque da Aclimação que a gente morava perto e a gente ia a pé, ao cinema, é o que eu lembro. Mas é isso, e na feira comer pastel, mas na praia a gente ia, acho que umas duas vezes por ano meu pai levava.
P1 - Em que praia vocês iam?
R - Agora virou Praia Grande. Acho que Gonzaga, Gonzaguinha. Acho que não sei. Acho que tem.
P1 - Santos, né?
R - E o meu tio, esse da minha, o irmão da minha mãe, ele já levava a gente no Perequê, que acho que ainda existe, né? Eram essas praias que a gente ia, uma vez acho que a gente foi para Peruíbe, que eu lembro que era mais longe, mas uma vez só. Mas era tudo assim, onde dava para ir e voltar no mesmo dia.
00:36:55
P1 - E me conta como é que foi esse processo do vestibular? Você contou um pouco o que você passou primeiro na universidade privada e depois você foi para a Escola Paulista, mas eu queria entender como que foi esse momento de passar pelos vestibulares.
R - Ah, então foi assim, eu estudava à noite, e aí eu falei: “Vou prestar”, porque como eu estava indo bem, aí eu falei: “Ah, estão dando bolsa de cursinho e tal”, e eu fui prestar, eu ganhei uma bolsa! Eu estudava à noite, fazia cursinho de manhã, foi de seis meses que eu ganhei a bolsa, eles davam inscrição para você de faculdade grátis para quem era melhor, eu ganhei, porque eles usavam o seu nome depois no cursinho (para propaganda), a primeira vez que eu fiz o cursinho, que foi à noite, foi no Cursinho Pré Médico, aí eu ganhei inscrição e eu entrei na PUC de Sorocaba, e entrei na OSEC Santo Amaro, e meu pai: “Imagina quem que vai estudar lá? Quem vai pagar? A gente não tem dinheiro pra nós, não vai estudar”. Aí meu irmão tinha entrado na FEI e na Mauá, porque a gente estava junto, porque ele estudou na escola técnica, então o colegial dele era 4 anos e o meu era 3, que era o colegial normal. Então a gente prestou junto o vestibular, então nós dois entramos no pago... Imagina, né? Aí todo mundo falou: “Então deixa o Luiz, que é mais velho, não sei o quê…” Meu pai: “Não, ninguém vai estudar porque a gente não tem dinheiro para ninguém, vai fazer cursinho”. Depois ele fez cursinho no Anglo e eu fiz no Universitário na época, depois eu entrei na Escola Paulista, entrei em várias faculdades, entrei na Unicamp, entrei na Santa Casa, entrei em várias faculdades, e lógico que escolhi a Escola Paulista porque era do lado de casa, também não tinha dinheiro para pagar carro, nada. Mas era excelente, lógico, não vou falar disso, depois ficou Federal, né? E o meu irmão entrou na POLI e entrou na Unicamp, e ele fez a Politécnica, então a gente ficou junto. Só que ele se formou antes, porque em Engenharia são 5 anos e em Medicina 6 anos. Mas assim, foi a maior festa... Aí quando a gente entrou, nós dois, meu pai fez uma festa em casa, chamou os parentes, deu almoço. Imagina! Dois filhos na faculdade, para ele foi o máximo.
00:39:13
P1 - E como foi esse momento de entrar na Unifesp?
R - Ah, foi maravilhoso. Assim a gente foi fazer pedágio de calouro que pegava dinheiro e tal. Mas a época não tinha bandejão, depois que começou a ter bandejão, e tinha a cantina da faculdade, que eu acho que quem tinha dinheiro comia lá, eu levava marmita, porque eu não tinha dinheiro e de vez em quando minha mãe deixava eu comprar um lanche e tal, porque era o dia todo, mas não era só eu, vários amigos meu, levavam a marmita. Aí, do segundo para o terceiro ano, toda vez que tinha um calouro novo, que entrava, a gente levava esses calouros fazer pedágio e o dinheiro que a gente pegava dos calouros era com o que a gente conseguia ir passear. Então acampava, mas ninguém ficava em hotel, a gente acampava. E como a gente fazia esporte, tinha os jogos universitários, então eu viajava com a faculdade, eu jogava vôlei, fiz um pouco de atletismo, tinha as “Intermed”, que eram competições de faculdade contra faculdade de Medicina, a “EngeMed” que era a Medicina contra as de Engenharia, tinha vários jogos. Então cidade do interior, e a gente ia, eu conheci viajando com a faculdade, foi muito legal, aí tinha o pessoal que ficava em hotel e a gente ficava no alojamento da escola pública que eles ofereciam, levava o saco de dormir e tal, e nessa época, a gente comprou uma barraquinha de acampar, eu e o meu irmão, e a gente acampava com o pessoal da faculdade. Cada um levava sua barraca, então a gente foi para Ubatuba, foi para Serra Negra, essas cidades ao redor de São Paulo, acampando. E depois o meu irmão ganhou um carro do meu pai, e como tinha o carro, a gente também, quando viajava, também podia viajar com o carro dele e com quem tinha carro, carona com quem tinha carro. Eu fui assim, aí quando eu me formei é que meu pai falou se eu queria um carro, que ele me dava de presente, mas aí eu já estava namorando e eu falei que não, que eu preferia que ele me desse em dinheiro, aí eu dei entrada no apartamento, eu e o meu marido; carro, veio só depois que meu filho nasceu, eu não tinha carta, não tinha nada, andava de ônibus, de metrô, que começou depois foi muito… Mas não me arrependo, foi bom.
00:41:46
P1 - Você conheceu o seu marido na faculdade?
R - Sim. Ele se chama Marcelo e comecei a namorar com ele no 4º ou 5º ano da faculdade, que são 6 anos, ele namorava outra pessoa, eu namorava outra pessoa, mas depois a gente começou a namorar, mas nesse período, até namorar com ele eu trabalhei na escola. Como eu falei para você, trabalhei no laboratório da faculdade a partir do 4º para o 5º ano, você já podia, não trabalhar como médico, mas você podia fazer trabalho voluntário e eu trabalhei atendendo paciente no Hospital da Liberdade. Não sei se você conhece a Igreja dos Enforcados que tem no sótão, eles faziam atendimento lá (intervenção) para os pacientes da favela do Glicério, e eu me candidatei e atendi as crianças de lá, eu e vários. A gente também fazia outros atendimentos na comunidade, quando precisava. Eu sempre gostei muito de ajudar as pessoas também, tanto é que, quando eu me formei, eu trabalhei no laboratório até o 6º ano. Depois, no começo do 6º, eu parei porque eu tinha que estudar para prestar para residência, porque se você não tem o título, você não pode trabalhar como especialista, o CRM (Conselho Regional de Medicina) não deixa. Aí eu parei no 6º ano, de dar plantão no laboratório. Eu dava alguns plantões de maternidade que podia já, aí trabalhei no Amparo Maternal, trabalhei na Maternidade São Paulo, eu trabalhei no (Hospital) Matarazzo, que agora virou aquele hotel famoso, o Rosenbaum, até fui lá até outro dia, eu fui lá ver, porque existe ainda o prédio, a parte de trás, o refeitório está igualzinho, fui lá até com a sogra da minha filha. Eu trabalhei lá também um tempo, e quando eu me formei, eu falei… Porque todo mundo tem seu sonho: ter consultório... E eu trabalhei um período de 6 meses num consultório alugado, alugado não, era de um professor, ele falou: “Vem aqui, pode atender um período”. E, lógico, para atender o convênio. Eu não estou discriminando o convênio, não estou falando isso. Daí eu falei: “Não, vou trabalhar no SUS, vou prestar concurso”, e então eu fui passando em vários locais. Eu trabalhei na Prefeitura de São Paulo, na Secretaria do Estado, trabalhei no município de Diadema, eu era a única médica da cidade, na especialidade que eu fiz depois. Não me arrependo, foi muito bom, gratificante e trabalhei em Posto de Saúde, e eu vejo meus pacientes por aí, tudo formado, trabalhando em shopping, farmácia, sabe? Fico muito feliz com isso, e é lógico que na faculdade você vê todos os níveis sociais, tem filho de donos de hospital, depois de um ano que eu entrei lá, estudava o filho de chefe de cardiologia, chefe de todo o pessoal. Tem muita gente, já que tem o seu caminho guiado, e a gente não conhece ninguém, e então você tem que batalhar. Mas foi muito bom, e eu fiz o que eu queria, fiz a Pós- Graduação no que eu queria, e trabalhei em vários locais. Por exemplo, eu fui a primeira médica a trabalhar na APAE de São Paulo (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), do ‘Exame do Pezinho’, que depois virou lei, e eu fiquei super feliz, eu e uma amiga minha, então a gente fazia endócrino, eu fiz pediatria, e depois que me formei, fiz a Pós-graduação em Endócrino infantil. Fiz um curso de Hebiatria, que é sobre adolescentes. Depois que eu me formei, ainda fiquei 18 anos na Escola Paulista, dando aulas, eu nunca, eu não fui professora, mesmo tendo feito mestrado e pós-graduação, porque, como eu já tinha passado em vários concursos, e você tem que optar, porque você não pode ter vários vínculos, jeu falei: “Não, eu vou ficar onde eu entrei, porque eu pretendo ter uma aposentadoria, alguma coisa”. E eu ganhei uma bolsa de pesquisa durante um tempo, mas depois foi cortada do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), porque eu já tinha emprego público, né? Mas eu fiquei lá vários anos como voluntária e foi muito bom, não me arrependo disso, congressos, pesquisa, tudo. Fiz tudo isso lá. Então, como eu falei, trabalhei na APAE durante 8 anos, também atendendo crianças do Screening do pézinho (Teste do Pézinho), que depois virou lei, hoje faz de graça em todos os postos de saúde, depois agora já tem a lei do Screening ampliado, porque eu fazia só 2 exames, agora já se fazem vários, foi muito bacana. E como eu decidi fazer essa parte de endocrinopediatria? Eu trabalhei muito tempo no Setor de Controle de Medicação de Alto Custo, atendendo, mas fazendo essa referência da secretaria. Então eu vi muita criança diabética, lógico que precisa dos insumos, que tem, agora, graças a Deus, mas na época, eu sou da época em que não tinha seringa descartável, a mãe esterilizava na panela de pressão, não tinha essas fitinhas de fazer teste, de ponta de dedo, elas tinham que fazer o reagente da criança, no xixi, com uma fita, então assim pode parecer o professor Pardal falando... Mas assim, é de uma época em que não tinha tudo isso que temos agora, modo de dizer, não que eu seja a favor das guloseimas, mas agora, tem todas as opções Diet e Normal. Mas na época em que eu fiz não tinha, era só adoçante, então não tinha uma bala, um chocolate, um sorvete, não tinha isso, então as mães tinham que aprender a fazer, ou a maioria, não conseguia porque era SUS (Sistema Único de Saúde), com a população muito carente, É. Mas assim, foi muito importante essa vivência de você ver tudo isso, sabe? E salvar vidas, que são doenças que infelizmente morrem muitos ainda hoje, né? E depois a gente atendeu muitas crianças quando começou a ter o hospital da GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer), que era bem em frente do nosso hospital e as crianças que faziam radioterapia, quimioterapia, elas ficavam com falência dos outros órgãos, então tinha que fazer reposição hormonal nelas. Eu vi muito, a gente tratou muito disso, crianças com problemas de definição de sexo, que nascer com malformação genética e tal, né? Então a gente vê, continua vendo tudo isso, e são várias Patologias e às vezes, uma outra pessoa não percebe que aconteceu tudo isso na vida daquela criança, que depois ficou adulta, mas que é muito grave, é uma doença, é uma especialidade que está crescendo muito atualmente, a minha chefe, na época ela foi a primeira endocrinopediatra do Brasil e por que ela era a médica de adulto? Porque antes eles achavam que a criança era um adulto em miniatura, mas não é verdade. Porque a doença mesmo sendo de criança, o adulto tem o tratamento diferente. Não é a mesma coisa, né? Então, por exemplo, um exemplo só... Um diabético adulto é muito difícil de ele começar a tomar insulina de cara, ele começa com comprimido e tal, né? A criança quando faz o diagnóstico de diabetes juvenil, independente de ela ser bebê, ter 1 ano, 2 anos, ela já vai tomar insulina, senão ela morre. Então não quer dizer que o endócrino de adulto, o clínico não sabe, mas é diferente, né? Porque é mais difícil tratar uma criança do que um adulto, dependendo da doença. Então, eu acho que ainda bem que separou tudo. Tem a parte pediátrica e a parte de adulto.
00:49:59
P1 - Eu queria saber de onde que veio, o que veio primeiro, o interesse pela endocrinologia ou por trabalhar com crianças?
R - Primeiro eu queria ser pediatra, primeiro pediatra.
P1 - E de onde veio?
R - Porque a gente tem que fazer... Não, eu sempre gostei de criança, sempre.
E para você fazer alguma especialidade pediátrica, você tem que fazer residência em pediatria, você tem que fazer pediatria, e depois você escolhe a especialização que você quer fazer, que seja endócrino, que seja alergia, que seja gastro, que seja nefrologia, neuro, todo mundo fez pediatria antes, aí depois é que você vai fazer a especialidade. Então na verdade, quando eu me formei, como eu trabalhei muitos anos em laboratório, vários professores meus tinham convidado para trabalhar em grandes laboratórios, nem vou citar nome porque não vem ao caso, porque é lógico que eu estaria muito melhor financeiramente, se eu tivesse aceito fazer patologia, eles tinham falado: “Vamos lá trabalhar”. Porque os professores da Escola Paulista do Hospital das Clínicas são os donos desses laboratórios famosos, vários, e eu falei que não, mas é que eu trabalhei no laboratório, e não é isso que eu quero fazer, não é patologia. Eu vou fazer pediatria, é assim. Atualmente, você vê, ninguém quer fazer pediatria, é a carreira que tem menos inscrições na residência. É lógico, eles dizem que é o que dá menos retorno financeiro, porque eles falam que a mãe vai, mas ela está sempre ligando, e sempre quer ir de novo porque a criança não melhorou. É diferente de um paciente que faz cirurgia plástica, você vai lá, operou, o cara ganhou, acabou, ficou bem, se o negócio dá errado, é outro problema, mas assim, na parte de pediatria eu vejo assim que, nossa, quase ninguém quer fazer mais.
00:52:03
P1 - E nessa trajetória como médico, eu imagino que devam ter tido desde essa época, desse trabalho voluntário, do trabalho no laboratório, devam ter tido muitas histórias?
00:52:15
R - Há muitas tristes principalmente no começo, quando a criança fazia um diagnóstico de diabetes, nossa, eu chorava junto com os pais, porque eles choram junto, quando você faz o diagnóstico, depois você fica, vamos dizer assim, um pouco mais fria, porque você tem que saber dar força para aquela família porque se você chora junto, eles falam: “Essa daí é uma incompetente”, então, eu já vi muitos pacientes que faleceram, muitos nesse período todo e não só do diabetes, mas também de pacientes oncológicos que vêm fazer a reposição, mas depois tem a recidiva, por exemplo, o paciente que tem Leucemia, que tem Linfoma, então a radioterapia deles é crânio caudal, da cabeça até os pés, e então ele vai tendo falência dos outros órgãos. E quando tem recidiva, às vezes tem Metástase, e eu já peguei vários pacientes, mesmo das crianças diabéticas, porque a gente tem lá na Escola Paulista, tem um setor de crianças e depois tem o setor de adulto, o paciente tem a transição, para passar para o adulto e depois você fica sabendo que aquele seu paciente, faleceu, ele ficou cego, foi fazer transplante, entrou na fila do transplante, faz diálise. Então, às vezes você não vivenciou que ele faleceu no tratamento, mas que você ficou sabendo depois, então, às vezes eu encontro mães no supermercado, e ela fala: “A sua paciente morreu, não sei o quê”, e outras que dizem: “Não, ela se casou, está bem”. Você vê de todos os lados. Na época do pronto socorro você vê muita coisa triste. Não estou só falando de endócrino, eu estou falando de pediatria geral. Tudo o que vocês veem na televisão, eu trabalhei só no emprego público mesmo, como eu estou falando e você vê criança que sofreu violência, sabe, maus tratos? Negligência de pais. Tem coisa que você nunca vai imaginar que vai acontecer. Eu já tive criança que teve diabetes e morreu por negligência dos pais, porque eles não aceitaram a doença, parou de dar insulina, levou num curandeiro, levou num benzedor e vem com a criança já quase morta. Então você vê de tudo, né? Sabe aquelas histórias de que a criança estava brincando e enfiou a cabeça no balde, ficou de ponta cabeça e morreu afogada? Tomou produtos de limpeza, tudo o que você pode imaginar eu já vi, tudo. Mas assim você vai ficando calejada com tudo isso. Não que você ache que é normal, não é normal, não é normal, mas acho que faz parte.
00:55:04
P1 - E nessa parte do exame do pezinho, em que você foi uma das precursoras, tem alguma história que você lembre que foi importante, o diagnóstico?
R - A Escola Paulista é do lado da APAE, né? Vocês sabem onde é a localização no mapa de São Paulo? Aí a gente… éramos eu e uma colega minha, Dra. Rosane, nós fomos as primeiras a entrar na especialização dessa área, porque não tinha, né? Então nós estávamos lá, começamos lá o estágio para depois fazer a pós. E tinha uma outra médica também, a doutora Cidinha, mas aí ela saiu logo do estágio, ela fez estágio e ficou um tempo e ela se casou e saiu, trabalha só como pediatra já se aposentou tudo. Aí continuamos eu e a Rosana, e o Dr. Benjamin Schmidt, ele já faleceu, era Chefe do Setor da Pediatria da Escola Paulista, e ele coordenava os Screening da APAE, que era do lado e tal, e ele falou assim: “Agora nós vamos montar um ambulatório do exame do pezinho, porque tá tendo muitos casos e nós vamos centralizar tudo na APAE”. E ele falou: “E aí, vocês querem ir trabalhar lá?” Porque a gente estava fazendo já especialização nessa área, e eu falei: “Ah, vamos, é do lado da gente, vamos sair a pé sair daqui do nosso ambulatório, vamos pra lá, vamos trabalhar”. Eu e ela, trabalhamos lá e no começo ficamos um tempo como voluntárias, depois eles registraram a gente lá e aí o que acontecia? Os exames do Brasil inteiro eram feitos lá, do pezinho, todo mundo; o exame da Fenilcetonúria, que é aquela doença em que a criança não pode comer proteína, e que era em um outro setor, que tinha dieta e recebia leite importado; e o exame da Tireóide, do Hipotireoidismo, que era o exame do pezinho, da tireoide. Porque era no mesmo papel filtro que se faziam os exames dessas doenças; tanto é que agora, no mesmo papel filtro, você consegue fazer 20, 30, 40 doenças, porque a quantidade de sangue necessária para fazer os exames foi melhorando, e os aparelhos, tudo. Mas na nossa época eram só esses dois exames: primeiro o Fenilcetonúria e depois que introduziu o da tiróide. E nós fomos trabalhar lá, e começava a vir gente do Brasil inteiro, e a gente viu no começo, é lógico, que a gente estava tratando crianças que não tinham a doença, porque o exame não era tão sensível, tinha que fazer de novo, não só o filtro, ou porque o material não foi bem colhido, precisava colher a amostra no braço e na mãozinha, colher para preparar a amostra no soro. E a APAE não tinha dinheiro para fazer esses exames, porque a APAE também é filantrópica, não sei se vocês conhecem a história da APAE? Da Senhora Jô Clemente, que ela tinha um filho com Síndrome de Down e foi ela quem montou a APAE de São Paulo. E o Dr. Benjamin, na época era dono do laboratório Lavoisier e do Elkis Furlanetto depois, e ele gentilmente cedeu os kits do exame da tireóide para a gente fazer nos pacientes gratuitamente, lá na APAE. E aí a gente começou falar que não adiantava fazer só o TSH, temos que fazer o T4, são os nomes de hormônios dos quais tem que fazer o exame. Não tem como fazer T4 livre no filtro, tem que fazer no soro, na coleta, e aí ele conseguiu implementar esses kits e depois a APAE, o governo, começaram a vir parcerias, e compraram os kits para fazer das outras crianças, porque a gente estava fazendo, talvez, um diagnóstico errôneo ou hiper diagnosticando ou talvez alguns que tinham a doença, não foram chamados, né? E virou uma lei, ele conseguiu fazer uma lei, a nível de Brasil inteiro, porque nós começamos a levantar estatisticamente, e apresentados em congressos, que não adiantava fazer só o filtro, que tinha que fazer mais exames para ter o diagnóstico com certeza, depois foi introduzido o ultrassom, o mapeamento da tireóide, mas não do bebezinho, quando ficou um pouco maior, porque tinha aqueles casos transitórios, que a mãe tinha a doença e o bebê nascia com a doença, mas por pouco tempo, depois ele não tinha mais a doença, então não precisava mais tratar. Então tudo isso foi para enriquecimento da ciência, de tudo. E a gente participou de tudo isso e foi muito bom, existe o ambulatório, e existem várias APAES no Brasil, mas a primeira, foi onde a gente começou.
00:59:56
P1 - Eu queria que você me contasse agora sobre esse encontro com o Marcelo.
R - A gente começou a namorar na faculdade, no 4º, no 5º ano e, vamos dizer, no começo tudo são flores, mas depois começa a dar plantão, porque muda a rotina. No começo você não trabalha tanto, mas quando a gente se casou, a gente já tinha um objetivo, de tentar comprar um imóvel pequeno que fosse nosso, nosso chão. No começo eu estava fazendo especialização e ele também, ele é ortopedista, e ele falou: “Não, então vamos esperar um pouco para ter filho e tal”, aquelas coisas, né? Eu tive o meu filho depois de 3 anos que eu me casei, e o meu marido estava fazendo mestrado, eu comecei depois, porque não tinha como nós dois fazermos pós-graduação juntos, porque você tem que diminuir a carga horária de trabalho, e nessa época eu já tinha passado em dois concursos, quando eu me formei, eu lembro que o 1º concurso em eu fui aprovada, no dia que eu me casei, foi quando o Tancredo morreu, nunca vou esquecer isso! O Brasil todo estava tão triste e tal, e eu estava feliz, porque eu tinha passado no 1º concurso, aí eu nunca vou esquecer disso. Eu já sabia que ia sair a lista dos aprovados, eu tinha feito uma procuração para minha mãe, falei: “Mãe, se sair na semana em que eu vou viajar” - eu ia uma semana para Maceió. Eu falei: “Se sair a lista, você vai lá escolher a vaga para mim”. Ela: “Tá bom, tá bom”. Minha mãe, coitada, trabalhava na loja e nem sabia nada de concurso, mas eu tinha feito a procuração no nome dela e daí ela chegou na prefeitura e disse: “Eu sou a mãe da Marina, ela não tem carro, ela é residente da Escola Paulista, ela só pode trabalhar de final de semana”. E ela foi enganada, disseram pra ela: “Tá bom, nós vamos colocar um lugar bom pra ela”. E depois eu fiquei sabendo, que eu fui a 2º classificada, e tinha um monte de lugar ótimo para trabalhar, no Hospital Menino Jesus, quem conhece São Paulo sabe do Hospital Menino Jesus Central, ali na Bela Vista, tinha no Hospital Jabaquara, que já existia metrô na época, dava para ir de metrô e tal. (disseram:) “Ah, ela vai trabalhar em São Miguel Paulista”. “Não. Tudo bem”. Eu não sabia nem onde era, bom, eu voltei para casa e minha mãe falou: “Ele colocou você aqui nesse lugar, que o papel… Porque tinha um mês para você fazer o exame médico e ir lá conhecer”. Não, gente, juro, eu cheguei lá, chorava, falei: “Mãe, não é possível, como é que eu vim parar neste lugar?”. E ela: “Não, mas ele falou que você tomava metrô e ônibus”. E eu falei: “Tá bom, né?”. Não, gente, fui. Fui para lá, como pediatra, que eu não tinha ainda feito a Pós, nada não. Mas cada dia em que eu ia dar plantão, eu chorava, chorava porque o metrô não tinha para lá, né? Ele parava, acho que em Santana, acho que é essa linha, sei lá. Eu lembro que eu tinha que descer no (metrô) São Bento, tomava um ônibus executivo, que eu não tinha nem dinheiro pra ir, mas tinha que ir com esse, porque que era o único que ia pra São Miguel, né? Não, gente, não. Eu queria morrer, juro. Aí o meu marido nessa época tinha passado num concurso, ele nem assumiu. Ele falou: “Eu não vou na periferia, não sei o quê, não vou, não vou, não vou”. Ele não foi, prestou concurso, mas ficou trabalhando em alguns hospitais de convênio e depois ele trabalhou em outros hospitais, em que ele montou residência médica, e montou um consultório. Então ele não quis assumir essa parte dos concursos. E eu fiquei lá, firme, porque como ele começou logo a fazer a pós, alguém tinha que ter um salário fixo pra bancar as despesas, porque nós não compramos apartamento à vista, nada, né? Compramos a prazo, aquele negócio. Falei: “Bom, então eu vou aguentar minha barra aqui no Tide de Setúbal (Hospital Municipal Tide Setúbal), lá na zona leste”. Nossa, eu fiquei lá pagando meus pecados, que eu já tenho um pezinho no céu. Tinha uma delegacia dentro do pronto socorro, de tão violento que era o negócio, sabe? Vocês nem imaginam. Existe ainda o hospital. Bom, nem vou falar de política, mas eu fiquei lá 12 anos para conseguir ser transferida para São Paulo, porque lá é São Paulo, mas para mim era um outro lugar, interior. Aí eu consegui ser transferida, porque demorou, acho que 8 ou 10 anos para ter outro concurso, e você só conseguia sair do lugar em que você estava, por permuta ou se abrisse concurso. Você era remanejada e o pessoal novo ia para lá. E o pessoal falava: “Se demite, sai”. Eu falei: “Não, não posso, estou na Escola Paulista, não ganho nada”, porque a gente não ganha nada depois que você se forma, você acaba a residência, você fica lá, e eu tinha passado no concurso... Bolsa na pós, é que eu não ia ganhar mesmo, porque já era concursada, e tinha despesas na faculdade porque você paga tudo, xerox, na época, você vai gastando dinheiro, você não ganha nada, você fica por amor à ciência. E eu lá, né? Tudo bem, já era concursada e depois de 10 anos, eu consegui ser transferida para a cidade de São Paulo e eu trabalhei mais no centro, nesse período eu tinha passado no concurso do estado, mas no estado também, como eu fui bem classificada, eu trabalhava mais perto de casa, não perto, mas mais perto, né? E aí eu fiquei fazendo a minha pós e nesse período tive filhos e tal. Ficavam na creche o dia inteiro, quase você não via ninguém. Aí minha mãe ajudava, porque era plantão que eu dava, então, no período do plantão, minha mãe ficava com eles. Quando meu marido estava de plantão, também dormiam na minha mãe, minha mãe deu uma super força, não vou falar que não, a minha sogra também ajudou um período, mas ela morreu super nova, ela morreu com 59 anos, então ela ficou pouco com as crianças. Não porque ela não queria, mas porque ela faleceu muito nova. E depois eu prestei outro concurso, e fui trabalhar na Secretaria de Saúde de Diadema porque lá não tinha endócrino infantil também e eles iam montar um ambulatório de especialidades. Aí tinha um pediatra da Escola Paulista, mas bem mais velho que eu, era secretário da Saúde lá, e o filho dele fazia natação com o meu filho, e ele falou: “Ah, você não quer prestar concurso? Nós vamos abrir especialistas, vamos avisar lá o pessoal da Paulista que quer prestar, que nós vamos abrir o ambulatório de especialidades lá”. E nessa época, eu não vou falar o Partido (político), mas fez uma coisa boa para a cidade, conseguiu montar o ambulatório novo lá, de especialidades e eu passei na prova, e a gente foi lá escolher, no dia das vagas, e só tinha uma vaga para cada especialista. Foi um pessoal todo da Escola Paulista também e montamos o ambulatório, eu trabalhei lá durante 27 anos, me aposentei lá, mas eu continuei em São Paulo, e em São Paulo teve várias mudanças de secretaria, de governo e tal... Não sei se vocês ouviram falar num tal de PAS (Plano de Atendimento à Saúde). Então eu montei um ambulatório de endócrino infantil do PAS, porque eu trabalhei na prefeitura como pediatra, o tempo todo, mesmo tendo pós, porque não tinha endócrino infantil na prefeitura, quem atendiam eram os médicos de adulto. E no PAS é que eles falaram: “Vamos botar um ambulatório de especialidade”, que estava lá no Museu do Ipiranga, atrás do que era o antigo Hospital Municipal Dr. Ignácio Proença de Gouvêa, montou ambulatório, eu que montei o ambulatório do Endócrino infantil lá, e fiquei lá durante o PAS inteiro, o pessoal era contra, mas é lógico, nessa época eu fui, porque era interesse meu, eu ia trabalhar numa área em que eu estudava. Então várias pessoas foram lá, especialista, só que, governo vai, governo vem, que não vem ao caso e eles falaram: “Não, só vai trabalhar de especialista quem é concursado e especialista”. E eu não era, porque eu concursada como pediatra, na minha época não tinha isso. Nossa, eu fui, depois, eu e vários médicos especialistas que fizeram a pós, de Alergia, de Gastro, fomos juntos lá na secretaria falando: “Não é justo vocês abrirem um concurso para especialista, se nós é que somos especialistas, temos mestrado, temos gente fazendo doutorado, nós temos que ficar aqui por direito”, e eles responderam: “Não, vocês prestam a prova de novo”. E eu perguntei: “Mas como é que vai ser?”. E disseram: “Ah, vocês têm que se demitir, porque vocês aderiram ao PAS”. Era tipo um “castigo”, na época. Eu disse: “Não, eu não posso me demitir!” Eu já tinha tantos anos de prefeitura, eu falei: “Não é justo”. Meu marido falou: “Quer saber uma coisa? Sai do PAS, volta para o posto de saúde”, e eu peguei e saí, e voltei para o posto de saúde. E aí eles fizeram outro concurso, mas eu falei: “Eu não posso abrir mão de 10/15 anos de concurso, para um negócio em que eles…” Não sei, eu ia trocar o certo pelo incerto. Aí eu fui lá, e olha o que eles me ofereceram, eu vou contar mesmo, é uma coisa com a qual eu fiquei muito brava na época, eles falaram: “Não, como você já montou também um ambulatório aqui no Menino Jesus, o que nós podemos te oferecer é você dar plantão aqui de sábado para domingo”. Gente, eu tinha dois filhos, eu falei: “Gente, mas isso é um castigo! Para eu ficar no centro…”. Eu perguntei: “Mas eu não posso trabalhar como endócrino?”, e eles: “Não, não, não, porque nós vamos acabar com isso, vai ficar só aquele de especialidade, aqui não vai ter mais. Ah, se você quer trabalhar na zona central, você fica aqui, né? Mas você só pode dar plantão de sábado”. Eu falei: “Não, obrigado, não quero mesmo”. Eu falei: “Não quero, não é justo, não é que eu não quero, é que não é justo eu ficar de novo dando plantão, né?”. Aí abriram vaga nos postos (de saúde) e eu voltei para posto, eu falei: “Não me importo, vou trabalhar de pediatra normal, não tem problema”. Até que num dos meus vínculos, depois ampliou, lá no posto, e eu consegui ficar com o vínculo de endócrino lá, a secretaria me chamou, e eu atendia meio período como endocrinopediatra e meio período como Pediatra. E me aposentei por São Paulo, neste vínculo assim, foi bom, porque os meus pacientes do Hospital São Paulo e que moravam perto, quando eu fui para lá, e que moravam no bairro lá perto do Ipiranga, foram pra lá. Foi bom nessa fase toda. E aí em Diadema eu estava sozinha na cidade inteira, não sei se vocês conhecem, é uma cidade perto daqui, dá uns 15, 20 Km, mas você tem uma noção de que é outro país, porque não tinha nada lá. Nada, nada, nada. Para montar o ambulatório, eu fiquei lá bastante tempo, feliz por tudo que eu fiz. Tanto é que, quando eu saí, não tinha outros especialistas, porque eles não abriram mais concurso e eles começaram a transferir as crianças. Aí fiquei morrendo de dó, sabe? Agora, é que parece que há uns 2 anos agora teve outro concurso, e começou alguém na área, mas eu encontrei vários pacientes meus perdidos aqui, na divisa do Jabaquara, falando: “Ai, doutora, volta pra lá”. E eu falei: “Não, eu não posso voltar, porque eles me ofereceram para voltar e ser CLT lá, mas eu não posso, porque eu já tenho vínculo público e não posso ser registrada”. Então não, o médico não pode trabalhar sem registro de nada, né? Assim, do nada. Eu falei: “Não posso sair de uma coisa certa, e ser registrada em carteira, porque não é isso que eu quero para minha vida. Eu vou ficar na parte em que eu sou estatutário”. E eu me aposentei de lá, e fui aos poucos, me desligando dos outros, porque eu já tenho idade, você não ganha mais por ficar direto no emprego público, e eles tiraram uma outra lei, que na época em que eu me aposentei do estado, quando você se aposentava, você não pagava mais a previdência do estado, só que depois, voltou, se você se aposenta e continua trabalhando, eles continuam descontando. Então, você não tem nenhum benefício, além de tudo, você tem prejuízo, porque se você ganha menos do que ganhava, aí eu falei: “Não, quer saber de uma coisa?”, eu falei assim: “eu vou”. Vai dando o tempo, tanto é que, na prefeitura, eu não tinha idade para aposentar, eu fiquei mais 5 anos, e depois eu fui saindo aos poucos, eu falei: “Eu vou, eu faço trabalho voluntário de outras coisas”. Nesse período eu já estava na ONG, que eu trabalho com Toddy e tal, “eu ajudo outras instituições”. Mas eu falei: “Eu vou sair, porque eu vou ajudar também a cuidar dos meus netos, porque a minha nora não tem nenhum parente aqui, eles também precisam de um suporte, e eu vou fazer coisas que eu não fiz na época em que eu estava trabalhando”. Eu faço cursos que não tem nada a ver, (de) artesanato, eu faço curso de bordado, eu produzo as coisas e dou na ONG também, eu ajudo de outras formas. E eu tô aposentada faz dois anos. O (filho) mais velho é Felipe, ele tem atualmente 38 anos e a (filha) mais nova, Thaís, tem 34 para 35. Eles são casados, o meu filho mais velho, casado com uma mineira que é de uma cidade bem pequenininha chamada Iguatu, eles têm dois filhos, que é o Daniel, que tem 8 para 9 anos e a Eliza, que tem 6 anos, e a Thaís, que é a mais nova, ela é casada com um carioca, fluminense, e tem uma bebê de um ano que é a Isadora.
01:13:51
P1 - E como foi se tornar mãe?
R - Ah! Foi bem corrido, talvez porque eles ficavam na escola o dia inteiro, e um período com a minha mãe, quando eu dava plantão, revezando com meu marido, foi numa época em que eu estava fazendo a pós, e depois de um tempo em que eu dava mais plantão, ainda mais plantão, eu chamei um tio meu, aposentado, que levava as crianças para fazer as atividades paralelas, então sou muito agradecida a ele. Ele chamava Ricardo, ele é falecido e ele os levava na natação, levava minha filha no balé, levava meu filho no judô, no inglês e tal, então ele fazia tipo um chofer de luxo para mim, porque não tinha como fazer tudo. Então geralmente ele levava e eu ia buscar. Eles faziam atividades à noite, e esse meu filho, não sei se eu posso falar também, ele lutava judô, ele foi muito bom, ele foi quase da seleção brasileira, foi por um tempo, da seleção. Mas isso até a época de entrar na faculdade, depois, meu marido achou melhor ele estudar, fazer carreira, trabalhar, porque ele falava que no país, infelizmente, só um (atleta) vai bem, foi assim, ele ficou muito frustrado, entre aspas, por um tempo. Meu filho mais velho, que era muito competitivo, ele é muito inteligente, mas depois ele entendeu, ele continuou lutando, nos Jogos Abertos, mas não quis seguir carreira profissional, porque na época meu marido falava: “Ah, eu vejo tudo, muitos judocas, eu não estou menosprezando, mas não conseguiram ter uma vida tão boa, ficavam assim porta de ginásio, vendendo quimono, não é?” Não era reconhecido porque nessa época não tinha tanto incentivo para atleta, agora você vê que mudou muito. Mas a vida segue, né não? Não vamos ficar tristes por isso, ele continua fazendo as atividades dele, ele é economista, meu filho mais velho, a minha nora, esposa dele, é bióloga, e a minha filha fez faculdade de Direito e Serviço Social, e o meu genro também é advogado.
01:16:11
P1 - E me conta como que o Toddy entra na sua vida?
R - Acho que foi assim, a gente nunca teve animal de estimação, teve passarinho, aquário, aquelas coisas, porque a gente dava muito plantão, não tínhamos muito tempo de ficar com eles, morávamos em apartamento e tal, e a minha sogra já tinha cachorro na época, mas eles também não conviviam muito com os cachorros dela, porque eram todos cachorros muito grandes. Ela morava numa casa, e era “Cachorro Policial” (modo informal de chamar as raças de cães que a polícia costuma treinar para algumas ações como pastor alemão, malinois belga, rotweiller), Fila, então, nem chegava perto, eram todos muito bravos, minha mãe nunca teve animal de estimação, exceto as tartarugas que eu já contei, e ela também trabalhava. Minha mãe trabalhou até há pouco tempo, então ela também não ficava quase em casa. E os meus filhos também, vou falar, durante um período eles ficavam muito tempo sozinhos também, porque eu trabalhava, ficava na Escola Paulista, dava plantão em um período. Depois que eles ficaram um pouquinho maiores, eles ficavam sozinhos mesmo. Então não tinha animal, e a gente viajava muito para congressos, agora não, que a gente está mais velho, mas viajava muito para congressos, então eles ficavam na casa da minha mãe, geralmente, e não tinha como ter animal. A minha filha sempre gostou mais de animais, e ela sempre falava que queria ter um cachorro e o meu marido sempre brincava com ela: “O dia em que você for morar sozinha a gente te dá um cachorro de presente”. Ela falou: “Mas eu posso escolher?”. Ele: “Pode”. Bom, daí ela estudou e tal, né? E se formou, um pouco antes de formar falou: “Ah, já sei qual é o cachorro que eu quero”; e mostrou a fotografia de um Corgi (Pembroke Welsh Corgi), que é a raça do Toddy, e a gente não entendia nada de cachorro, eu conhecia poucas raças, para falar a verdade. É lógico que a minha sogra tinha, eu já tinha visto, conhecia poodle, conhecia sem raça definida, que é o vira lata, conhecia Lulu (Lulu Da Pomerânia), não conheci depois, para falar a verdade... Ah, conhecia Border Collie, Golden (Retriever), né? Falamos: “Não, tem que ter um cachorro pequeno e tal”. Ela falou: “Quando eu me formar, eu vou morar sozinha, vou querer ter um cachorro”. Tudo bem, aí ela o escolheu, e na época, porque o Toddy já tem 12 anos, não tinha tantos criadores no Brasil, em São Paulo, tinha dois, que eu me lembre. Meu marido foi com ela conhecer um, era até em Botucatu e o outro era em Vargem Grande Paulista, ela tinha visto as fotos lá do cachorro, da realeza e ela queria um caramelo, sem rabo. Foram pesquisar e encontraram essa criadora, e não podia escolher na ninhada, minha filha tinha se formado. Meu marido falou: “Tá bom, então vamos comprar um cachorro para você”. Ela chegou lá com meu marido e tinha 5 cães, bebezinhos, e a dona já tinha falado, que a cada ninhada nasce um cachorro que seria da genética recessiva que ele tem três cores, ele nasce mesclado branco, preto e caramelo, mas a minha filha não queria mesclado, ela só queria branco e caramelo, e aí tinha mais quatro, eu acho que eu não fui nesse dia, foi meu marido que foi. E a dona do lugar, falou assim: “Ah, é, aqueles lá já estão separados, esse daqui que é o seu”. E ele já era maior que todos, grande, não gigante, minha filha viu a mãe e a mãe era grande também, e tinha mais um macho, tanto é que eu o conheci depois no Parque do Ibirapuera, e ela falou assim: “Ah, ele vai ser um pouco maior, porque a mãe dele é grande, mas tudo bem”. Aí trouxe para casa, aquela bagunça, ela morava sozinha já, nessa época em que ela tinha se formado e levou para o apartamento dela, e trazia ele de final de semana em casa. E ele era, quer dizer, ele não... Essa raça de cachorro, eles são super (bagunceiros) quando bebês, roem tudo, roem pé de mesa, rodapé, come chinelo. E eles falavam assim: “Depois que adestrar, depois que castrar eles ficam mais calmos”. Eu falei: “Ah, tudo bem”. Foi passando o tempo e o meu marido ficou com dó dele ficar sozinho na casa dela, porque ela estava fazendo estágio e morava num apartamento pequeno. E ele falou assim: “Ah, eu vou contratar um passeador de cachorro para passear com o Toddy”, porque ela vinha na hora do almoço, na época ele comia ração, e depois ela o levava para dar uma voltinha no quarteirão, e meu marido falava: “Vou contratar um passeador para dar umas voltinhas com o Toddy”. Bom, tudo bem, não vou falar o nome da empresa do passeador, e meu marido um dia, passando para ir para o consultório, viu o passeador com a camiseta dessa empresa, não sei. Ele falou: “Não, mas eu estou pagando para o pessoal dessa empresa e eles não estão passeando com o cachorro, eles amarravam os cachorros na grade do Ibirapuera e ficavam no celular”, meu marido ficou super bravo e falou: “Não vou mais ajudar a pagar”, porque na época minha filha fazia estágio e não tinha dinheiro. (continuou:) “O Toddy vai ficar numa creche, não vai ficar mais passeando com esse pessoal que não passeia”. A minha filha ficou brava, não queria muito, ela falou: “Ai não, ele é novo, vai ficar numa creche?”.
O meu marido falou: “Eu pago a creche dele para não ficar deprimido”. Aí ele foi castrado, porque não podia entrar na creche sem ser castrado e ele era bebê ainda tinha 8 meses, meu marido falou: “Ele vai ficar numa creche, porque não dá para ficar com esse passeador em quem ele não confia”. Tanto é que na época ele ficava na creche perto do Hospital São Paulo, porque como ela fazia estágio num período, ele ficava comigo, eu levava, ela buscava e tal, ficava lá. Bom, aí depois ela foi prestando também concurso, foi mudando de cidade, aquelas coisas lá, né? Foi para Jundiaí e nesse período ele já estava com 2 anos e pouco e ele morava meio cá, meio lá. Eu estava passeando com ele no Ibirapuera, e uma corredora, que era presidente de uma ONG de cães terapeutas na época, me chamou e falou: “Você não quer levar ele para fazer uma avaliação? Ele é muito simpático, ele vem atrás de todo mundo, cumprimenta as pessoas e tal”. Falei: “Ah, posso levar”. Não conhecia exatamente esse serviço porque eu trabalhava só em emprego público e não tinha muito isso. Aí eu fui lá com meu marido, eu não vou falar o nome da ONG, e ele foi fazer avaliação, e não deu dez minutos e falaram: “Ah, foi reprovado”. Eu falei: “Bom, foi reprovado, né?”, e o meu marido disse: “Como reprovado? O que ele fez lá? Mordeu a pessoa?”. Falei: “Ah, não! Ela fez umas atividades lá, ele não respondeu como ela queria, ela falou que precisava ser adestrado tal, que não servia para essa atividade”. E como eu, tinha gostado muito do pessoal, eu fiquei lá nessa ONG durante 2 anos, trabalhando como voluntária sem cachorro. Eu ia lá, conheci outros cães, aprendi muito com eles. Não vou falar que não. Ficava com os outros cães, porque nas ONGs é importante ter voluntários sem cachorro também, as pessoas não entendem isso, às vezes a gente acha que você se candidata para ser voluntária numa ONG de cães, como estou falando, precisa ter o animal? Não, porque, por exemplo, você vai num asilo, tem o assistido lá na cadeira de rodas, e ele quer passear com o cachorro, mas ele pode não ter força suficiente para segurar a guia do cachorro, porque por mais que ele seja treinado, de repente ele pode ver alguma coisa, sair correndo e derrubar o assistido da cadeira de rodas, ou ele está no hospital passeando com uma criancinha, e ele pode sair correndo; então, o voluntário fica com uma guia paralela do lado, longe. Porque se de repente o cachorro dá um pique, você breca, ou então você está num asilo, ou uma criança especial está na cadeira de rodas e nem todo hospital tem um funcionário para empurrar a cadeira de rodas. Então, às vezes um voluntário sem cão para empurrar a cadeira de rodas ou ficar do lado do assistido que está de muleta para ele não cair, e o outro vai cuidar do cachorro, no caso, o proprietário do cachorro. Então é muito importante ter um voluntário sem cão também, e na ONG em que o Toddy está agora, tem voluntários, vários, o que é muito importante. Eu fiquei um tempo nessa outra ONG como “Sem Cão”, e vira e mexe me encontrava com várias pessoas, inclusive essa mesma com que eu fiquei lá, falou: “Vamos remarcar a avaliação do Toddy?”. Eu falei assim: “Ah, o Toddy não gostou do avaliador”, e ela disse: “Não, imagina. Vamos lá”. Eu falei: “Não quero. Eu vou ficar aqui mais um tempo”. Aí uma outra pessoa o chamou, e eu já sabia mais ou menos como era a avaliação e tal, mas foi totalmente diferente dessa outra que ele foi antes, e é onde ele está até hoje, ele trabalha há 9 anos lá. Ela fez as avaliações como se fosse o que é feito nas instituições, por exemplo simulava a pessoa andando com andador e então ele não poderia chegar lá e pular no andador, jogava uma seringa de injeção no chão para ver se o cachorro não ia lá pegar, simulava situações, por exemplo, não levava a cadeira de rodas, mas ela levava um carrinho de feira que fazia barulho, como se fosse uma cadeira de rodas. Então ele não podia sair pulando em cima do carrinho de feira, porque ele não poderia pular em cima da cadeira de rodas do assistido, né? Então a simulação foi diferente. A única coisa com a qual ele ficou meio incomodado, eu não vou falar que não foi durante a avaliação, foi que ele não gostava muito que passassem a mão no bumbum dele, e com relação isso, ele teve que se dessensibilizar. A avaliadora da ONG é a professora de zootecnia da USP, Dra. Priscila. Ela continua como voluntária da ONG até hoje, é ela que avalia todos os cães. Então ela falou: “Olha, vai ter que dessensibilizar ele nesse sentido, porque cada cachorro tem uma peculiaridade, e ele por ser gordinho, todo mundo gosta de abraçar, e você pode ter certeza, vai todo mundo querer por a mão no bumbum dele”. Ele ficava assim, desconfiado e o cachorro não pode ter esse tipo de reação. Não que ele fosse morder a pessoa, não é isso... Então, como ele já estava na creche, eu escrevi que era para todo mundo ficar passando a mão no popô dele, todo dia, para ele não ficar mais incomodado com a situação quando começasse a trabalhar. Então, entre aspas, ele ficou de “recuperação” por 2 ou 3 meses, para ser dessensibilizado, até ele começar trabalhar na ONG em que ele trabalha.
01:27:42
P1 - Como é o nome da ONG?
01:27:43
R - Em que ele trabalha? É “Terapia Cão Carinho”, já teve vários nomes, como Cão Terapeuta, mudou o nome depois para I.A.A - Interação Assistida por Animais, agora chama P.A.A - Programa de Assistência ao Assistido, então ele não é um cão terapeuta ou um cão de terapia, porque é diferente, tem aqueles cães de pessoas que são deficientes visuais, ele é treinado, e ele é um cão de assistência daquela pessoa. O que eles fazem, é ter interação nos ambientes para proporcionar, elevar a motivação de quem está doente em um asilo, dos pacientes que estão tristes, ou porque ele foi abandonado lá, dos pacientes que estão em tratamento de câncer. Fazemos visitas no Hospital do Câncer, vamos em orfanato para as crianças que estão lá para adoção, então, ele não é um cão de terapia, não é que ele vai cuidar da pessoa, ele vai lá interagir, porque já tem trabalhos científicos no mundo inteiro, provando que o contato das pessoas com o animal, não só o cão, que trabalha nisso, qualquer pessoa que tem, ele tem gato, não sei que animal você tem, mas que esse contato com o animal proporciona liberação das endorfinas, que são os hormônios que provocam a felicidade na pessoa e, em contrapartida, ele diminui os hormônios do estresse, eu estou falando como endócrino, então ele diminui o nível de cortisol, a pessoa ficar menos… Ele proporciona tudo de bom, por isso que não pode, como diz, judiar dos animais, porque eles fazem tudo isso sem cobrar nada da pessoa, pela própria índole dele, é lógico, tem gente que tem animal e treina para ser seu animal de guarda e atacar, né? Sei lá como é que é? Não sei, tem outras finalidades, mas eu acho que o animal sendo treinado, domesticado e tendo um amor que ele recebe das pessoas, ele vai retribuir isso, e eu acho que é muito gratificante tudo isso. Bom, daí nós começamos a trabalhar nessas avaliações da ONG, a própria pessoa… Vou falar só um pouquinho do trabalho voluntário, talvez... Você tem o direito de escolher, por exemplo, você pode dizer, tem voluntários na nossa ONG que preferem trabalhar com idosos e têm voluntário que não gosta de ver um paciente na UTI, não gosta de ver sangue, não gosta de ver paciente entubado; e se você vai ser voluntário, você tem essa opção de escolher, e tem o perfil do cachorro, por exemplo, no começo a própria avaliadora fala: “Olha, o seu cachorro é melhor que fique com adultos, ou seu cachorro gosta mais de crianças, porque ele é mais agitado”, mas você tem essa livre escolha, não é que você está lá e você é obrigado a fazer tal coisa. Não é assim. No caso dele, ele pode (ser um cão de assistência) tanto com adultos como com criança, eu acho que ele gosta mais de crianças agora, não porque ele está mais velho, mas como ele conviveu muito com meus netos, ele sempre gosta de brincar e as crianças gostam, adultos também gostam, ele gosta de passear, as crianças pegam na guia e tal, a gente corre. Ele não é de tão porte grande, porque na ONG é importante ter cachorros de todos os tamanhos, às vezes a criança não pode sair, ou criança ou adulto, não pode sair da cama, e você precisa pôr o cachorro no leito, se ele solicita um cachorro grande, nem todos (os cães) dá para pôr na cama. Às vezes ele só põe a pata e tal, então vamos dizer assim, o campo é tão grande para qualquer porte, independente da raça, independente da cor. Só tem o limite da idade para entrar no trabalho voluntário dos cães, por exemplo, lá na nossa ONG onde eu estou, eles aceitam cachorro com até 7 anos de idade para entrar, depois ele não tem idade para sair. Mas ela avalia, se o cachorro está muito cansado, se ele começa a ter alguma doença de base, o que pode acontecer, tem todo esse cuidado, e não é que nós vamos trabalhar na ONG, e só vai lá e entra, né? É uma instituição não governamental, mas que tem mais legislações que você tem que seguir, tem várias outras vacinas que os cachorros precisam tomar. Eles precisam ter exames periódicos para ver se ele não está doente, né? Ele tem que ser sociável, não só com humanos, mas com outros cães. Por exemplo, no Terapia Cão Carinho, 1 vez por mês, lógico, nem todos vão, às vezes o dono não consegue, porque está trabalhando, ou está doente, mas assim, um máximo de número de cães vai, e como a ONG não tem sede própria, e gente paga um estacionamento, faz vaquinha, paga todo mês, junta todo mundo lá no estacionamento coberto, porque a gente já tentou fazer em parque aberto, e se chove? Então a gente já foi no (Parque) Villa Lobos, já foi em vários parques para tentar fazer a socialização lá dos nossos cães, mas aí vêm os outros cães falar: “Mas você não pode tomar um espaço que é público, fechar e não deixar ninguém vir, né?”. Então a gente resolveu fazer uma vaquinha e alugar um estacionamento todo mês, que é no último domingo, em Pinheiros, e é um estacionamento coberto. Ficamos lá a manhã toda, e a zootecnista avalia, como é que eles estão. E eles não podem ficar brincando entre eles, e brigando porque se você for numa visita, não necessariamente a visita tem os cães fixos. Por exemplo, atualmente não tem 18, tem 16 cães, faleceram alguns, então tem 16 cães, vão 4 ou 6 sempre naquele lugar. Então, por exemplo, eu vou num hospital X, o outro vai no Y, mas às vezes está faltando gente no X, e o cão do hospital Y também pode se oferecer para ir lá para ajudar, porque você precisa ter um número mínimo de cães para trabalhar com um número X de pacientes. Vou dar um exemplo no Hospital Mandaqui, até o ano passado, é um hospital público bem grande, na zona norte de São Paulo, a gente fazia 2 alas lá, o quarto andar, que era adulto, e o terceiro que é pediátrico, mas, por exemplo, na ala adultos tem 90 pacientes, não tem como você levar 2 cachorros lá, porque se você não entra num quarto e entra no outro, o paciente vai perguntar: “Por que não veio no meu quarto e foi naquele?”. Então a gente tinha que ter pelo menos 5 ou 6 cães para ir nessa ala e na pediatria. A enfermaria pediátrica tem 30, quase 35 leitos, têm a UTI pediátrica que tem mais 8, na retaguarda do Pronto-Socorro cabem 18, então são quase 60 crianças, não adianta você ir com 2 cachorros lá, porque os cachorros morrem no meio da visita, de cansaço, porque criança cansa bem mais além de tudo, né? E as crianças que não estão no soro e podem andar, elas pedem para sair do leito, que é um bom exercício, porque a criança anda e o intestino funciona melhor e tal, né? Então eles querem brincar, faz um circo, faz os cachorros. Precisa também ter um número mínimo, que é de 5 cães, porque não dá conta de ver tudo, tanto é, que este ano nós não estamos indo no adulto, então estamos priorizando a parte pediátrica com 5 ou 6 cães, porque não tem como ir em tudo, porque a visita da ONG é semanal em várias instituições. Então nós vamos ao IBCC (Instituto Brasileiro de Controle do Câncer), no Hospital do Câncer, vamos no Hospital Nipo Brasileiro, vamos no asilo, em orfanato, ambulatório psiquiátrico de adultos, temos ambulatório psiquiátrico, de crianças autistas. Então tem visitas durante a semana também, a gente faz faculdade, na USP, e quando têm Setembro Amarelo (Campanha Brasileira de Conscientização sobre a prevenção do suicídio), a gente faz ambulatório, visitas do Outubro Rosa(campanha de conscientização sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama), e são as instituições que pedem para gente, a gente faz visita na FECAP (Fundação Escola de comércio Álvares Penteado) também. Ajudamos uma instituição que é de um asilo público bem grande, e fazemos coleta de mantimentos, produtos de cesta básica, e nós vamos nas universidades, eles recolhem para a gente, mas eles querem que os cães vão lá interagir com os alunos. Então, tem muito serviço, e poucos cães, vamos dizer assim. Tanto é que todo mês tem captação de novos voluntários, e os cachorros vão ficando doentes, os tutores mudam de cidade, não podem mais, é variável o número de cães, às vezes a gente nega muitas visitas porque não tem tantos cães para abraçar. A gente tem as fixas que a gente mantém, como o Hospital Mandaqui, a ONG existe há 15 anos, já está lá 14, todo primeiro domingo do mês, faça chuva, faça sol, lá os cachorros estão lá, ele já sabe, está fechado o andar lá para os cães. O Instituto do Câncer também é fixo, a visita é de sábado, no mês estipulado, o asilo também, tem as instituições fixas, e tem as outras que nós vamos encaixando conforme dá, porque toda semana tem pedido de visita, e é lógico que a gente gostaria de ir em várias, mas também não tem voluntário. Não é só “sem cão”, mas também “sem voluntário”. Por exemplo, eu estou aposentada há 2 anos, ele trabalha há nove, então durante 7 anos eu tinha que dar plantão, às vezes cai no domingo, cai no sábado, tem campanha de vacinação, tem isso. Então, não tem como. Por exemplo, o meu marido não pode levar, nem ele nem e nem a minha filha, porque ela não foi treinada para isso e se você não é cadastrado lá, não pode. Se eles quiserem se cadastrar, é assim, quando você entrar na ONG, você tem que ir conhecer as instituições sem o cachorro primeiro, para ver se você gosta. Não adianta você já querer começar com o seu cachorro, porque às vezes você tem a impressão de que é uma coisa, e quando você chega lá é outra, e você não gosta daquele ambiente. E tem muita gente que desiste, vai conhecer a ONG e diz: “Não gostei, não quero isso”. Então são várias coisas, e a pessoa vai ser voluntária em um outro setor, numa outra atividade. Na ala pediátrica você vê muitas coisas tristes, muitas coisas, criança que sofreu violência, criança que está sob guarda judicial porque os pais estão presos, então está lá internada, não porque o pai está preso, mas porque ela ficou doente também. Ela é uma criança, mas você vê que a pessoa que está do lado dela não é a mãe, não é ninguém. Você vê pelo crachá, (percebe) alguma coisa sobre cadeia, muita mãe de paciente lá algemada, por ser serviço público, polícia na porta, você vê várias situações, muita coisa. Crianças que sofreram maus tratos, queimada, aquilo que você vê na TV, lá você vê ao vivo, mas é bom, você sai de lá feliz.
01:39:30
P1 - Tem alguma história engraçada do Toddy em alguma dessas instituições que vocês frequentam?
R - Ah, tem bastante assim, porque a gente tenta fazer alguma coisa temática, então eles vão fantasiados na época, principalmente a parte pediátrica, né? Então eu já levei ele de Minion, já levei ele de Toy Story, eles gostam, as crianças interagem bastante, ele faz alguns truques, toca a campainha, ele rola, como vocês viram aqui e as crianças fazem com o petisco, fazem ele rodar, as crianças ficam felizes, e ele sabe andar de marcha ré, então a gente ia no asilo e tocava a música do Michael Jackson e ele andava de costas. São várias situações assim, mas o mais legal é ver ele sorrindo no fim. Criança que não quer andar, e quando o cachorro sai correndo, o pessoal fala: “Nossa, ele não andava até ontem! Começou, se animou, ficou querendo andar, passear com o cachorro”. É bem gostoso.
01:40:35
P1 - Eu queria saber se você vê a diferença que ele faz nessas visitas.
R - Para as pessoas, há muita diferença, não só ele, todos os cães da ONG, todos fazem muita diferença, muita. Tanto para funcionário, não só para os pacientes, porque todo ambiente tem algum clima de estresse, não só por que, por exemplo: estamos na faculdade, durante o Setembro Amarelo, por que geralmente teve algum caso de aluno que se suicidou? Então, nós vamos conversar com eles e tem os cães para interagir. Nós vamos no asilo, não estou falando que todos estão tristes, mas alguns estão mais tristes e tal. Eles ficam super felizes porque a gente também tenta fazer atividades, não só levar o cachorro. No asilo, então tem as coisas temáticas, se vai cair no mês de junho, festa junina e além dos cães, os tutores vão fantasiados. A gente leva chapéu para os assistidos, monta barraquinha de brincadeira junina, pescaria e o assistido, vai lá e tal. Então a gente faz isso no orfanato, principalmente, a gente leva, não é questão de bens materiais, a gente leva também brinquedo, algumas coisas, livros, mas a gente monta a interação do cachorro, vai lá, faz as barraquinhas da festa junina, põe o outro voluntário, também faz tatuagem nas crianças, então tem várias coisas que vão alegrar o ambiente. É lógico que eles querem brincar com os cachorros, quando o ambiente é solto, por exemplo, no orfanato que nós vamos lá, eles fecham o espaço, o portão e tudo, eles ficam sem guia, sem nada. Tem cachorro que gosta de jogar bolinha, e a gente leva a bolinha de tênis e eles brincam de jogar bolinha, (ou o animal) gosta de passear e gosta de fazer o truque da patinha, tocar a campainha, então a gente ensina a criança, e eles falam para o cachorro: “Olha, senta, dá a patinha”. E o animal dá, e a criança dá um biscoitinho para ele. É uma interação diferente no hospital, como eu disse. O paciente que pode sair do leito, anda com o cachorro ou na cadeira de roda, ou passeando no corredor do hospital. E tem aqueles que estão na cama, que não podem sair ou o bebê pequeno, mas as vezes o bebezinho não vai interagir, mas ele olha, ele não vai mexer no cachorro, porque ele é pequenininho, mas a mãe quer que ponha do lado, a mãe ou o pai, ou a avó, quem está no leito do lado, quer pegar o cachorro. Para o acompanhante também é uma resiliência, porque às vezes tem paciente que está lá a 3 meses internado, 2 meses, no (Hospital) Mandaqui, e quando a gente chega lá, eles ficam pela janela olhando, e já sabem o nome dos cães, claro, aqueles que estão há muito tempo internados, (e chamam): “Aí sobe aqui, sobe aqui”. É muito gratificante. Lógico que você não quer chegar lá daqui a 1 mês e ver o mesmo doente lá, então você fala: “Meu Deus, não foi embora ainda, coitado!”. Mas tem pacientes lá que você vai num mês, está lá, 2 meses, está lá, ainda não melhorou, e o acompanhante até já sabe, e fala: “Que bom que vocês vieram!”. Lógico, tem várias ONGs, não só de cachorros que vão às instituições, tem dos Doutores da Alegria, tem o Contador de História, tudo isso é para amenizar o ambiente. Quando a gente sai, eles falam: “Você vai embora? Você vai voltar amanhã?”. E a gente fala que vai voltar amanhã, mas é lógico que não vai voltar amanhã, mas eles ficam pedindo. É sempre muito feliz, e triste em alguma situação, mas mais de 90% são (momentos) felizes.
01:44:07
P1 - O que você sente? pelo fato de fazer esse trabalho voluntário com o Toddy?
R - Ah! Na verdade, por exemplo, eu participo de outros grupos onde eu não levo, não posso levar ele, por exemplo, tem um grupo na biblioteca do meu bairro que tem as atividades de artesanato, têm várias, várias coisas, tem clube de leitura, têm aula de origami, várias coisas. Eu faço parte de um grupo lá de senhoras, mas tem gente nova. Então, tem grupo de crochê, tem grupo de tricô, a gente faz customização de ecobags. A gente faz trabalho de fuxico, de retalhos, são todas coisas que dá para se fazer no espaço. Você não pode levar uma máquina de costura lá porque vai atrapalhar o barulho para os leitores, a gente faz para a comunidade, é grátis. As pessoas que vão, cada um leva o que tem, se você tem um pano, você tem uma agulha, você tem uma tesoura, você tem uma tinta e tal, junta lá e vai fazendo. E no fim, você tem que doar alguma parte para alguma instituição. Por exemplo, esse mês a biblioteca lá do bairro, vai premiar 25 leitores assíduos do ano passado, e eles pediram para o nosso grupo, não só o meu, o nosso, o grupo, o que eu participo. No nosso grupo, eu faço o grupo da 3ª feira, a biblioteca comprou 25 ecobags e a gente customizou as 25 ecobags, até as fotos estão aí, porque eles colocaram na biblioteca lá do bairro. Aí tem o grupo que faz crochê, bordado, eles fizeram marcadores de livros pra presentear a comunidade. Elas não têm uma comunidade inteira, mas eles fazem uma lista dos mais frequentadores, sempre tem essas coisas, e a gente faz. Eu vou lá toda terça. Lógico que quando não dá, eu não vou, mas eu vou, tento ir ao máximo. Agora, por exemplo, tem uma outra ONG que chama alguma coisa Rondon (APAF - Associação Paulista de Apoio à Família), é de um grupo de advogados da Avenida Paulista, eles estão e têm parceria com o Senai, e dão vários cursos para pessoas que têm baixa renda ou que moram em situação de vulnerabilidade, aprenderem uma profissão. Então tem corte e costura, tem como construir uma bolsa, como construir uma ecobag e como a gente estava fazendo o negócio de customizar ecobags, eu postei no story dele. A pessoa de lá viu, e perguntou se eu não queria dar um (curso) lá voluntariamente, porque vai ter o curso de fazer ecobags para comunidade e nós poderíamos ajudar eles fazerem a customização dos moradores. Eles fazem assistência para a comunidade da Rua Maestro Cardim, não sei se vocês já ouviram falar, é como se fosse uma favela que tem ali na Vila Mariana, é bem grande. Então é para eles, vamos ver, né? Eu até acho que a moça mandou uma mensagem para mim, dizendo que eu tinha que falar com ela, e eu falei: “Não vou falar que todas as pessoas da biblioteca vão lá, né? Porque todo mundo também trabalha, tem outras atividades”. Falei: “Mas tem uma que eu tenho quase certeza de que ela vai, que se eu falar com ela”, porque ela até mora no meu prédio, e a gente pode arranjar um dia, um horário para ir ajudar as pessoas que já aprenderam a fazer as sacolas a customizar com várias coisas. Não precisa ser num dia, porque não vão aprender num dia, eu disse que nós vamos alguns dias aí, e ele falou assim:”Você não quer ser voluntária aqui também?”. Eu falei: “Vamos ver, porque eu tenho também uma vida paralela, eu sou voluntária dos meus netos, mas tudo bem, vou ver, acho que até dá, se for num horário não tão longo”. Eu também ajudo a ONG Entre Rodas. Não sei se você conhece, aquela da cadeira de rodas, eu junto os lacres, mas não sou eu que junto, todo mundo junta, o meu prédio inteiro junta e manda tudo na minha porta. A minha mãe conhece o catador de coleta seletiva da rua, ele junta pra mim, tampinha, os lacres; eu vou juntando e levo para eles, e eles revertem em cadeiras de rodas. Ah, também a gente, meu marido que fala: “Gente, eu não consigo entrar na porta nossa aqui de casa”, porque o pessoal vai pondo na minha porta, é tampinha de plástico, que é para castração de gatos e cachorros de rua, comprar ração, eu ajudo também aquela ONG, a Ajuda Animal, a gente também ajuda a fornecer ração. Então, assim, são várias coisas, e a ONG também ajuda as outras ONGs que precisam também, mas o que eu acho legal é que não é só pela causa animal, mas a gente ajuda os humanos também, porque precisa, né?
01:48:55
P1 - E o que você sente fazendo esses trabalhos?
R - Ah, eu acho que é gratidão, felicidade, né? Eu fico feliz.
01:49:08
P1 - E eu queria saber como é a rotina do Toddy quando ele não está atuando como um cão terapeuta?
R - Ah, então ele fica em casa um período, mas aí eu sempre o levo para dar uma voltinha em algum parque, não é todo dia no parque, ele vai na creche duas vezes semana, porque eu tenho as outras coisas para fazer, e meu marido ainda trabalha também, apesar de a gente ser velho, mas a gente trabalha; e o meu marido, cismou que o cachorro pode ficar depressivo, então ele vai 2 vezes por semana na creche. Mas ele vai numa boa, ele adora, só de chegar o carro (da creche) quando o carro tá parado lá perto, ele já fica latindo e quer descer, quer não sei o quê... Ele fica na creche. Agora a gente não está viajando tanto, mas quando viajo também, porque se ele não frequentar a creche, ele não pode ficar lá de hóspede, e nem sempre dá para deixá-lo na casa de alguém, porque a minha mãe 93 anos, não tem condição de ficar com ele, né? Meus irmãos trabalham, a “mãe” dele tem bebê e não dá para ficar, trabalha todo mundo, então é bom que ele esteja acostumado na creche, mas, por exemplo, se eu vou num casamento, demora, às vezes é no interior, e tem lugares em que não dá pra levar ele. Vou deixá-lo sozinho 2 dias em casa? Não tem nem como, né? Então, eu já estou acostumada, fico mais tranquila, e ele vai. Mas se é por um período curto, que eu vou sair, aí ele fica sozinho, tipo 06h00 tal, não tem problema ficar sozinho.
01:50:49
P1 - E qual é o temperamento do Toddy? Como é que ele é?
R - Ah, ele não tanto agora, ele está mais velho, mas ele é bem agitadinho ainda. Não de roer, nada disso, mas ele gosta muito, ele se dá muito bem com a minha neta do meio, que tem 6 anos. Então ele volta da creche, dá impressão, a gente fala: “Não, ele gastou toda a energia”, assim que ele chega, pega os brinquedinhos de pelúcia que fazem barulho. Ele busca na caminha, sai correndo e joga pra gente o que quer que a gente pegue e jogue de volta. Ele gosta mesmo é dessas brincadeiras, além de comer, lógico. Então, se eu estou na cozinha fazendo comida, ele está lá atrás olhando se sobra alguma coisa, se cai, né? Aí a minha neta também, a do meio, que se dá super bem com ele, ela vai e brinca com ele. Ele gosta disso, mas ele fica tranquilo, dorme bastante também agora, porque tá mais velho, gosta ainda de passear muito. Eu vou muito com ele no Museu do Ipiranga, no Parque da Aclimação, vira e mexe se dá, de fim de semana, a gente gosta de passear na (Avenida) Paulista. Mas eu vou bem cedo, tipo, eu ando na calçada e quando fecha a Paulista eu ando um pouco na rua mesmo. Mas depois eu volto, porque fica muito cheio, mas ele gosta de passear em shopping. Quando eu vou, eu levo sempre ele, né?
01:52:09
P1 - E ele continua sendo muito simpático com as pessoas?
R - Muito. Ele avisa quando você está no lugar, por exemplo, se entrar alguém aqui, ele vai começar a latir, porque ele avisa e depois ele vem perto de mim, e olha para minha cara, como dizendo: “Chegou, alguém”. Sabe assim? Ele vai latir se chegar alguém diferente ou que não conhece, ele vem avisar. Eu não sei como ele sabe, mas assim, aí passa o elevador, e ele tá lá na sala quietinho. Se tocar o interfone, lógico, ele vai latir para o interfone, mas se ele vê o cara entregar alguma coisa lá na porta do prédio, do Mercado Livre, por exemplo, antes do elevador parar no meu andar, ele já late, começa a latir, latir, latir, fica na porta, e é batata que o cara vai parar no meu andar e entregar alguma coisa. Gente do céu, né? Quando eu morava no outro apartamento, ele latia, sabia que o meu marido ia chegar, sabe? Assim de longe, não sei. Parecia que sabia o barulho. Não sei como é que é. E minha mãe, a gente tem um esquema de revezamento na casa da minha mãe, porque a minha mãe tá doente, e, de fim de semana a gente reveza, o meu irmão mais velho mora com ela e eu, minha irmã e meu outro irmão, mais três, a gente reveza o final de semana, então a gente dorme lá no fim de semana, de sábado para domingo. Quando eu tô chegando na esquina da rua dela, gente, ele já fica na janela do carro pulando, latindo. Gente! Na esquina da rua, nem entrou na frente da casa dela até descer do carro. Aí chega lá, late pra minha mãe e tal e fica lá, fica feliz, com a minha mãe. Vai lá e faz a festa, porque é casa, então ele vai lá no quintal, brinca e entra na sala. Mas estando para dormir, ele fica lá no pé da minha mãe o tempo, fica lá olhando ela. Se a cuidadora vai no sábado cedo para ajudar a dar banho, ele fica latindo para ela o tempo todo. Porque quando ela vai puxar da cadeira de rodas, acho que ele acha, que não sei o que se passa na cabeça dele, se está machucando, porque às vezes minha mãe grita: “Ai, ai, meu braço”, e ele fica latindo para cuidadora, era muito engraçado, falei: “Gente, tá cuidando da Batianzinha!” (Obaasan - avó em japonês). Ele fica latindo para a cuidadora, e ela fala assim: “Aí ele não gosta de mim”. E eu falei: “Não, ele não latiu para você nenhuma vez, mas você vê que quando você vai colocar ela no banho, tirar do vaso sanitário”, ela fala: “Ai, ai”. (eu falo:) “Ele acha que você está machucando ela, e ele fica latindo para você, mas ele não vai te morder, fica tranquila”.
P1 - E nos hospitais, nos trabalhos, tanto nos hospitais quanto nos orfanatos, e nos asilos? Você falou que ele gosta mais de crianças, né?
R - Sim, ele gosta de adulto também.
01:55:06
P1 - Mas tem alguma história engraçada de alguma criança que viu ele e gostou? Como é que é?
R - Ah! Todo mundo quer apertar ele, porque acham que é de pelúcia, mas é lógico, a gente explica, porque criança é muito rápida, gosta de puxar a orelha, assim, rápido, mas gente fala: “Faz carinho, pode abraçar”. A gente põe ele na posição deitada, ele fica assim, e a pessoa faz carinho, a gente leva escovinha de pentear o cabelo de criança, e elas penteiam ele, eles gostam disso e gostam mais quando ele vai tocar a campainha, que vocês viram, nossa, aí fica um círculo, batem palmas para ele, e ele deve se achar o máximo lá né? Eles brincam de achar o petisco, quando a gente põe o petisco na mão fechada pro Toddy para achar. Então eles gostam que faça isso. Criança e adulto também, mas é que depende do adulto, tem adulto que a gente sempre pergunta: “Gosta de cachorro?”. Porque tem alguns que são meio ranzinzas, não gostam, e você tem que respeitar, né? E às vezes você vai no hospital, o paciente está debilitado e não quer receber visita, então a gente sempre abre a porta do quarto, pergunta: “Quer que entre o cachorro?”. Tem gente que fala que não quer, então você não vai forçar também, tem que respeitar, cada um na sua. Mas criança, sempre, sempre, um ou outro às vezes tem medo, sabe? Acho muito legal, às vezes a criança tem medo e a gente fala assim: “Não, ele é bonzinho”, ou outro cachorro também, todos são bonzinhos. A gente pega, põe na grade do bercinho e você vê a criança se levantando e vindo, sabe? (falam:) “Vou tentar fazer um carinho”. É muito legal, você vê a mãe e ela fala: “Ai, ele tinha medo e perdeu o medo”. Não só com ele, com todos né? Então, acho que é muito legal isso.
01:56:50
P1 - E você estava contando um pouco sobre ele, o momento da alimentação dele, que é uma alimentação natural. Queria que você contasse um pouco dessa decisão.
R - Ah, então ele comia ração até ter mais ou menos 2 anos de idade, foi orientado. Mas aí depois ele teve um quadro de alergia, começou a se coçar muito, e trocamos a ração, depois ele, essa raça de cachorro, têm tendência à obesidade, se deixar eles comerem muito a vontade. Então a gente trocou para ração Light, quer dizer, trocamos a ração, antes de mudar para a alimentação natural. Aí, depois que ele começou a se coçar muito, e todo mundo acha que quando coça com a patinha, o cachorro tá ansioso, tá com isso, tá com aquilo. Falei: “Bom, pode ser, pode não ser, né?”. Aí eu falei com a veterinária dele e ela falou assim: “Olha, vamos tentar fazer comida para ele, você só tem um cachorro, não vai dar tanto trabalho”, (falei:) “tá bom!”. Aí eu fiz um curso numa nutricionista de PET, que atua ainda sobre isso, ela tem até um site famoso, não vou falar o nome, mas ela orienta e tal. (falei:) “Ah, vou fazer uma avaliação com ela”, e ela me orientou, e eu comecei a fazer. Aí eu vi que ele comia mais, falei: “Gente, ele vai ficar uma bola, né?”. Aí ela falou: “Não, mas aí você começa a trocar os ingredientes, se ele comer muito, você começa a dar mais legumes, menos calóricos, dá mais chuchu, abobrinha, e ele não vai engordar”. Então aí você vai aprendendo as coisas que não pode comer, por exemplo, na primeira vez eu falei: “Ele vai comer alface porque alface não vai engordar”, e não pode, né? Depois que eu descobri, eu falei para ela: “Ele gosta de alface”, (ela disse:) “não pode dar alface, pode dar um problema no fígado, pode dar um pedacinho, não pode (muito). Você pode dar pepino”, e você começa a ver que é que nem gente, por exemplo, você come só chuchu, pepino, ele vai ficar até com diarreia, porque solta. Frutas também, eu já observei, então, por exemplo, fruta pode comer todas, lógico, se você der muita banana, engorda, se você dá muita manga, também engorda. Então você tem que tatear de tudo, então você dá mais pera, e maçã, uva não pode comer... aquelas coisas. Você começa a aprender um monte de coisas diferentes também, né? Aí ela falava assim: “Não, alface não pode, só um pedacinho, tomate também não pode, só se for tomate cereja e sem as sementes”. Falei: “Tá bom, né?”. Então você começa a descobrir outras coisas. E com isso também faz uma alimentação mais saudável, não que você vai comer a comida do cachorro, mas você vai comprar aqueles legumes, você vai comer aquilo também, o que é legal, né? E aí ele começou a gostar bastante, e coisas que eu não sabia na época, na época em que ele começou. Ela falava: “Olha, a melhor carne para você dar é carne suína”, lógico que você não vai ficar dando toucinho, bacon, mas ela falou: “Filé mignon suíno é muito barato, é mais barato que peito de frango” e tal, né? Ela falou: “Você varia, você compra uma carne mesmo, que você acha que é de segunda, mas é de primeira, se você comprar acém e mandar moer” - Eu corto em cubinhos o músculo, que não é gordura, é músculo, as fibras, aí você pode mandar moer também no açougue, o mercado geralmente não faz isso, mas o açougueiro faz, aí já tem um amigo meu, açougueiro e ele, sempre que eu peço, ele dá uma moidinha quando precisa e tal, aí você vai variando e, assim, ele come mais alimentos de pouca gordura, que não faz bem, mas também, e por causa do problema de peso, que pode levar a ter. E tem vários cuidados, por exemplo, eu não o deixo pular a escada, subir, porque cachorro adora, ele está numa creche que tem uma escada, não tão alta, mas ele só vai no colo, né? Porque se ele se machuca, ele não pode mais trabalhar na ONG, e pelo porte, não só ele, tem várias raças que são mais compridas, tipo Daschund, aquela salsicha, o meu irmão tem um Daschund, não pode ficar pulando, subindo. Então, por exemplo, sofá, ele não pode, ele tentou quando era pequeno, eu carrego no colo, se ele quer subir no sofá, ele não sobe muito, que ele fica mais no chão; na minha cama nem pensar, nunca, eu não ponho cachorro para dormir em cama, tem gente que põe, mas a minha cama é muito alta, então, são vários cuidados que você tem que ter, né? Porque eu vejo que no Oriente, no Japão, Coreia e tal, eles adoram cachorro dessa raça, mas eu vejo vários cachorros novos na cadeirinha, já cadeirantes, porque eles, eu vejo em vários países, eles fazem competição de Agility nessa raça, aquela de pular arco, pular... Eu falei: “Gente! Vai machucar o cachorro”. E você vê que nesses países tem muito cachorro cadeirante, muito, sabe? Eu acho que tudo bem, cada um faz o que quer com seu cachorro, não estou falando, mas eu tento preservar ao máximo a saúde dele, porque ele não pode, pela qualidade de vida, não, porque ele trabalha na ONG, e não estou falando de cachorro cadeirante não é feliz, mas se você pode evitar de ele ficar com alguma patologia de coluna, de articulação, eu acho que tudo é válido para a qualidade de vida dele. Mas assim, agora nem tanto, mas ele é tratado como da família. Ele já viajou muito, não estou falando que ele viajou para o exterior, mas assim ele já foi em vários hotéis, já foi pra praia, ele fazia aula de natação, esteira, ele faz que nem a gente, entra numa academia de cachorro, né Toddy? Restaurante, que aceita, a gente leva, Hotel Fazenda, a gente faz várias coisas.
02:02:32
P1 - E qual é a importância que ele tem na sua vida?
R - Ah, ele é nosso amigão, acho que é um amigão mesmo.
P1 - Eu queria. Eu queria ...
R - Companheiro, companheiro.
02:02:54
P1 - Eu queria saber o que é importante para você hoje na sua vida?
R - Bom. Eu acho que já dediquei bastante para a medicina, apesar de que eu poderia estar trabalhando, eu acho, sou velha, mas nem tanto. Meu marido trabalha, mas assim, eu de 2 anos pra cá, eu oriento, sabe? Se alguém me ligar, eu não vou negar, vou fazer. Eu faço uma receita se precisar, mas assim eu não quero mais trabalhar, ter uma obrigação, sabe?
Uma vez que eu decidi que eu não quero ter consultório, e em todo emprego público você tem que “passar (o crachá no) relógio de ponto, ou assinar, e você é obrigado a fazer aquilo? Lógico, se você é um funcionário decente, vamos dizer assim, você tem que fazer tudo aquilo, e eu não quero mais ter essa obrigação, eu falei assim:”Eu já fiz muita coisa. Já trabalhei bastante, então eu quero fazer coisas diferentes, coisas que eu não fiz antes”. Esse ano eu não estou fazendo, mas eu fazia dança, que é uma coisa que eu sempre quis fazer. Vou voltar. Parece que a professora vai voltar agora, do condomínio. Então eu fazia danças, se chamava “Danças Aleatórias”, meu marido não gosta de dançar, a gente fez até um curso de dança de salão quando nos casamos e tal, mas ele não gosta. Então cada um tem que respeitar o que o outro gosta, e ele gostava mais de esporte. Eu fazia, e eu corro, eu corri, agora só faço caminhadas, mas eu já corri, não Maratonas, corridas curtas de 7 km, 10 Km e tal. E aí eu caminho muito ainda, mas eu não sou de ficar fazendo academia, sabe? Crossfit, esse negócio, não. Lógico que eu joguei esporte na faculdade, eu sempre gostei de fazer outras coisas, então eu faço. Eu já aprendi a costurar, não que eu vou ser costureira, não é isso, mas eu aprendi, eu faço curso de culinária, eu gosto. Eu faço curso de artesanato, eu já fiz curso de artesanato, mas agora eu pratico para fazer as outras coisas. Então eu faço naninhas para dar para as crianças do orfanato, dos hospitais com maior prazer, sabe? Eu tenho, eu faço porque eu quero dar. Eu faço necessaires, faço várias coisas de costura criativa e se alguém quer aprender, não que eu seja professora, mas o que eu sei, eu compartilho com as pessoas porque eu acho que para mim faz um bem, que eu gosto disso. É lógico que eu gosto de passear, vou no teatro, vou no cinema com as minhas amigas, a gente tem um grupo que é da faculdade. Você está numa faculdade, por exemplo, na medicina entram 100 alunos, 100, 120, depende da faculdade. Na USP entra mais, acho que 170, é lógico que não são cursos como o de engenharia que entra 500, 600. É um curso menor, nas pagas acho que 70, 60 pessoas. Mas assim a gente tem um grupo fixo, a gente se reúne a cada 5 anos com quem é da turma toda, é lógico. Tem alguns falecidos, infelizmente, mas a gente tem um grupo de 15, que são os que se davam melhor, porque sempre tem, em qualquer lugar em que você vai trabalhar, em que você estudou, principalmente, porque é dividido em ordem alfabética, o curso tem turma A, B, C, depende da turma, era A,B,C,D, então dividia em 25, e você vai rodar 6 anos com as pessoas, com esse grupo menor, é um subgrupo, vamos dizer assim, você sempre vai ter algum que você tem mais afinidade. E fui eu que organizei o grupo, foi engraçado, teve o Covid e eu continuava, uma parte ficou fechada, e aí a gente saía com o grupo. Não estou falando com esse grupo menor, o grupo grande, a cada 5 anos a gente se encontrava. E tem as próprias festas da faculdade, quando a faculdade faz aniversário, eles fecham o quarteirão, vai a banda tocar, aí você sempre encontra algum professor tal, todo mundo. Aí a gente estava na Covid, e logo que abriu o parque, eu estava caminhando, eu, meu marido e o cachorro, encontrei um colega nosso, ele é coreano, e falou: “Oi Marina, tudo bem?”.Respondi: “Oi, Marcelo”. E ele: “Vamos sair agora? Já tá começando a liberar não sei o quê, né?”. Eu falei: “Ah, vamos! Então vou marcar um pequeno encontro, não dá para convidar todo mundo, tem gente que não quer sair e ainda tá com medo”. (ele disse:) “Ah, então vamos”, falei: “Ah, vamos montar um subgrupo”, aí quem tinha o telefone de fulano, daqueles que a gente tinha mais afinidade? É lógico, né? E foi muito bom. Então a gente tem esse grupo que tem 15 ou 16 pessoas e temos um (grupo de) WhatsApp fechado desse grupo, só participam eles, mas é lógico que no encontro pode levar sua esposa, seu esposo, né? Não é assim, mas no grupo é só os que eram da faculdade. Por que tem as conversas de quando você saía com o grupo e fulano namorou ciclano? Então assim né? A gente conhece as “patroas”, os maridos, mas é um grupo que é para falar de quando a gente acampava, sabe? De recordação. É muito engraçado. E aí todo mês a gente sai com eles, não importa se vai todo mundo, se vão dez, vão dez, se vão 12, vão 12, se vai a esposa ou o marido, vai quem pode, e tem uma lista, que cada um escolhe o restaurante em que vamos, por exemplo, esse mês numa pizzaria, (alguém do grupo:) “ah, esse mês vamos no italiano”, e junta quem vai, têm alguns colegas que dão plantão e às vezes não pode ir, alguns tem outro compromisso no dia, não vai. Então é tipo assim, vai quem pode, mas sempre vão 10, 12, que é um grupo bom, alguns não levam as esposas, a gente tem até um colega que mora em São José dos Campos e ele vem em todos, acho que não faltou nenhum, e a esposa não vem, é longe, ela tem outra atividade, então, mas é muito bom. A gente tem esse encontro. Eu tenho ainda alguns amigos do colégio que às vezes a gente sai, que também não são todos juntos, vai quem pode, meu marido tem o grupo dele, com quem ele fez o colegial no Objetivo, ele estudou na escola pública até o ginásio e os três anos no colégio ele estudou no Colégio Objetivo, então ele tem alguns amigos do objetivo que eles vão jogar sinuca, né? Aí vai só eles. Então cada um respeita. Aí eu tenho um subgrupo de mulheres da faculdade, que é uma parte desse grupo dos 15, 16, mas que a gente se dava melhor e tal, a gente convida os outros que querem ir, mas não vão, aí nós vamos geralmente em teatro, em musical, que meu marido não vai em tanto, ele não gosta, ele vai de algum cantor famoso que ele gosta e tal, mas tem coisas que ele não curte muito, ele sai com os amigos, então a gente tem que respeitar. “Não gosto”, não é obrigado todo mundo a ir junto, apesar de ser casado, ter que ir junto, por exemplo, quando ele sai, eu conheço as esposas dos amigos dele, do Objetivo. Então, quando a filha de um deles se casou, a gente foi, quando minha filha se casou, eles vieram, mas eu não vou lá jogar sinuca, só os homens. Eles vão, né? Aí no fim do ano, se a gente junta, vão as esposas; esse meu amigo do colégio, marido nem conhece, ele nunca quis ir, ele fala: “Vai, você é da sua turma do colégio, eu nem existia, o que eu vou fazer lá?” A conversa não flui, a pessoa se sente deslocada, claro, nós vamos sair, vamos comer lá no Ráscal, vamos não sei onde, então eu vou. Tudo bem? Tudo bem. Sabe, já tem esses subgrupos, é essa liberdade de fazer. Então, por exemplo, tem alguns encontros da ONG, que a gente faz no final do ano, ele já foi em alguns, ele conhece alguns voluntários. Mas geralmente, quando a gente sai, por exemplo, esse ano foi na casa de uma voluntária e podia levar o cão. Tem vezes que nós vamos comer, mas ficaria numa pizzaria e não pode levar o cachorro, né? Mas só os voluntários, e meu marido às vezes não vai e ele fala: “Ah, não, você que tá na ONG. Você conhece todo mundo, né?” Se é num dia que ele pode ir, ele vai. Mas assim não é nada obrigado a ir.
02:11:33
P1 - Marina, e você tem sonhos?
R - Ah, agora acho que não. Acho que não muito. Quero ter uma vida saudável, poder passear, se der para viajar, viajar, né? Se não der também, acho que eu já fiz bastante coisa.
02:11:54
P1 - E tem alguma pergunta que eu não fiz que você queira contar alguma história?
R - Não. Ah, talvez ter ficado um pouco mais com meus filhos, talvez quando eles eram pequenos, se eu errei, foi nisso, eu acho, eu acho. Porque nós vamos emendando as coisas, todo mundo que estuda, que trabalha, vai fazendo as coisas assim no embalo, não sei como, é que é meio atrapalhado, sei lá. Eu estou fazendo coisas agora com os meus netos, que eu não fiz com meus filhos. Eu acho, e talvez, e com os meus netos, os pais deles talvez estejam fazendo o que eu fiz com eles. A minha nora, o meu filho, ficam pouco com eles, porque eles ficam o dia inteiro na escola, então, é lógico, eles tentam suprir, mas não é fácil, eu acho, nos dias de hoje, acho que uma maioria das pessoas trabalham, e estudam, que dão aulas, não sei, eu acho que peca um pouco nessa parte, mas eu também acho que não é que você vai ser dedicação exclusiva para os seus filhos, que os seus filhos vão ser melhores, eu acho, não sei. Talvez eu esteja errada, né? Eu não sei. Desculpa
P1 - Imagina, não tem problema.
R - Porque a gente vê muita gente com dedicação exclusiva para os filhos e às vezes o filho foi para um caminho errado. Acho que as companhias são muito importantes, você saber com quem seu filho tá andando, né? Então a gente sabe, por exemplo, o meu marido era contra ter babá em casa, e eu tive uma época que a gente estava melhor, dava para pagar. Ele falava: “Não, eu prefiro que ele fique o dia inteiro na escola, que tenha uma educação errada, com mais 30 do que tem uma educação de uma pessoa só em casa”. Então, eu não tiro a opinião dele e a minha nora também, ela trabalha agora, por exemplo, ela dá aula no Senai e tem semestres em que ela coordena um curso de pós-graduação, ela volta muito tarde, tipo às 22h00, e mais tarde eles ficam um período na minha casa até um dos dois chegar e meu filho pegar meus netos. E ela também não deixa com babá, eles ficam o dia inteiro na escola, sabe? Então a gente ocupa o tempo deles com coisas para ficar o dia inteiro fazendo coisas, então vai na natação, vai na música, fazendo tênis, porque ela não confia. Não sei se estou falando coisa errada, mas assim é. Os pais dela moram no interior, sentem falta dos netos também, porque eles vão pouco lá. Eu sinto por eles. A mãe dela sempre fala comigo no WhatsApp, me liga, ela fala que eu estou perdendo meus netos, que eles ficam mais com vocês, eu falei: “Mas porque vocês moram muito longe, dá uns 600 km daqui”, e por exemplo, não dá para fazer um bate e volta, meu filho fala: “É muito longe”, e então eles vão, mas em feriado prolongado, no Natal todo ano vai lá, isso é certeza, porque eles, eu falo que tem que ir lá, não tem como. E eles vêm pouco pra cá agora, porque o pai dela também está mais doente, pai da minha nora. Então assim, tem coisas que ficam meio defasadas. Então, lógico que eu tenho o privilégio de estar eles, eu os vejo todo dia, os meus netos, praticamente todo dia, e de fim de semana também, porque eles estão numa atividade da escola, então nós vamos lá prestigiar, porque eles têm que convidar alguém, e eles só têm a nós 2 aqui, então nós vamos lá, se eu não tô na ONG, é lógico, então vai meu marido, a gente fica muito com eles, então ela fala.... Eu sei que a vida é assim, que eles moram muito longe.
02:16:23
P1 - Marina, essa é a última pergunta, eu queria saber como foi contar um pouco dessa história hoje pra gente, um pouco do seu encontro com Toddy, do seu trabalho como voluntária, do seu trabalho como médica, como foi esse momento?
R - Ah, eu acho que foi. Mas foi assim reviver o passado, né? Mas com muitas coisas boas, sei lá, eu acho que você fez alguma coisa boa, né? Vamos dizer assim, que se eu partir, eu acho que fiz alguma coisa boa também pra alguém. Não só na parte de saúde, na outra parte também, eu penso assim, estou falando que todo mundo tem alguma coisa boa para passar.
Eu acho que independente do que você fizer, eu acho que é muito importante, não que eu por causa dele (Toddy), mas acho que ser voluntário de alguma coisa, não importa se você (for voluntário) de animal sabe de qualquer coisa, sabe? De uma escolinha, mesmo que você não tenha animal para ir lá ensinar alguma coisa, ou participar de um bazar que aquela ONG tem, participar como voluntária, de ajudar ou sei lá, uma campanha do McLanche Feliz, não importa o quê. Acho que isso é muito gratificante para todo mundo, eu acho.
P1 - Em nome do Museu da Pessoa, em meu nome do Natan, do Ali, do João, a gente agradece muito esse momento. Muito obrigada por contar essa história, que bonito!
R - Obrigada, gente! Não sei como agradecer.
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