Meu nome é Márcia Silveira Gama, eu nasci no dia 4 de outubro de 1963, na cidade do Rio de Janeiro. Eu me formei em Artes Plásticas, mas logo em seguida que saí da faculdade, fui embora para a Amazônia e lá eu fundei uma ONG e comecei a trabalhar com comunidades, com desenvolvimento comunitário, com atividades culturais, com jovens e já enveredei para o caminho da intervenção social. Atualmente eu trabalho com o desenvolvimento sustentável, com o processo de implantação de Agenda 21, em determinados espaços, municípios, escolas. Na Amazônia eu fui trabalhar em Santarém, no Pará, no Rio Tapajós, no Projeto Saúde e Alegria. Como eu fui parar lá? Bom, eu saí da faculdade e conheci uma pessoa, um médico que estava voltando da Amazônia, apaixonado, querendo retornar, e eu, pelo meu lado também, sangue da Amazônia, minha avó era de Santarém, exatamente desse lugar, sempre tive muita curiosidade de ir lá conhecer, fazia parte do meu imaginário de infância. Eu sempre ouvi as histórias da minha avó. A gente se encontrou no Rio e fomos para a Amazônia, pela UFF, Universidade Federal Fluminense, pelo Campus Avançado da UFF, fomos para Oriximiná, e de lá, por coincidência, que nada é por coincidência, mas coincidiu do prefeito de Santarém estar precisando de um médico para trabalhar na área ribeirinha. Depois de dois anos trabalhando com a prefeitura local nós fundamos a ONG que está até hoje atuando com pleno vapor. Temos hoje uma sede própria, um barco-hospital, 25 anos de tecnologia social participativa. Já temos a segunda geração de multiplicadores trabalhando, atuando em lideranças locais, atuantes. É um trabalho muito bonito. A ONG presta serviços médicos e trabalha com desenvolvimento sustentável. Ela trabalha em todas as áreas com uma abordagem mais ampla. Tem meio-ambiente, comunicação social, organização comunitária, é bem amplo o trabalho. Conseguimos grandes conquistas. Temos lá energia solar, a...
Continuar leituraMeu nome é Márcia Silveira Gama, eu nasci no dia 4 de outubro de 1963, na cidade do Rio de Janeiro. Eu me formei em Artes Plásticas, mas logo em seguida que saí da faculdade, fui embora para a Amazônia e lá eu fundei uma ONG e comecei a trabalhar com comunidades, com desenvolvimento comunitário, com atividades culturais, com jovens e já enveredei para o caminho da intervenção social. Atualmente eu trabalho com o desenvolvimento sustentável, com o processo de implantação de Agenda 21, em determinados espaços, municípios, escolas. Na Amazônia eu fui trabalhar em Santarém, no Pará, no Rio Tapajós, no Projeto Saúde e Alegria. Como eu fui parar lá? Bom, eu saí da faculdade e conheci uma pessoa, um médico que estava voltando da Amazônia, apaixonado, querendo retornar, e eu, pelo meu lado também, sangue da Amazônia, minha avó era de Santarém, exatamente desse lugar, sempre tive muita curiosidade de ir lá conhecer, fazia parte do meu imaginário de infância. Eu sempre ouvi as histórias da minha avó. A gente se encontrou no Rio e fomos para a Amazônia, pela UFF, Universidade Federal Fluminense, pelo Campus Avançado da UFF, fomos para Oriximiná, e de lá, por coincidência, que nada é por coincidência, mas coincidiu do prefeito de Santarém estar precisando de um médico para trabalhar na área ribeirinha. Depois de dois anos trabalhando com a prefeitura local nós fundamos a ONG que está até hoje atuando com pleno vapor. Temos hoje uma sede própria, um barco-hospital, 25 anos de tecnologia social participativa. Já temos a segunda geração de multiplicadores trabalhando, atuando em lideranças locais, atuantes. É um trabalho muito bonito. A ONG presta serviços médicos e trabalha com desenvolvimento sustentável. Ela trabalha em todas as áreas com uma abordagem mais ampla. Tem meio-ambiente, comunicação social, organização comunitária, é bem amplo o trabalho. Conseguimos grandes conquistas. Temos lá energia solar, a maioria das comunidades hoje em dia tem internet. Temos um desenvolvimento de trabalho de 25 anos de atuação constante. Já podemos ver os resultados diretamente. MILITÂNCIA Eu sempre gostei muito de gente e de natureza, mas lá, como a natureza é muito radical, e muito convidativa, era um verdadeiro paraíso. Eu acho que as pessoas também fazem parte desse paraíso. Eu realmente aprendi na Amazônia a desenvolver esse trabalho com as pessoas, ouvindo as pessoas, trazendo informação, transformando a metodologia, a forma, adaptando. Foi lá, na verdade, que adquiri todo o aprendizado que eu construí para chegar a fazer o que eu estou fazendo agora, que é, na verdade, uma ação mais incisiva, que tem um tempo limitado, mas é uma ação mais direta, com o tempo mais restrito, mais condensado. Eu acho que toda essa experiência me preparou para eu estar atuando agora, da forma com eu estou atuando, com a construção de Agendas 21. No início da minha carreira quando eu estava na Amazônia tinha muito pouca bibliografia para trabalhar. A gente buscava sempre se basear em experiências envolvidas por comunidades básicas, por igrejas, conhecer alguns trabalhos na África em trabalhos participativos. Nós começamos isso aí em 1984, quando ninguém falava no Brasil em processo participativo nós já atuávamos dessa maneira. Eu estava muito voltada para o trabalho dentro das comunidades. O meu foco era o estudo e aplicação. Aprender com a experiência e amadurecer a experiência. Depois, óbvio, fiz outros cursos, me especializei, fui para fora do Brasil, entrei em redes internacionais, o que sempre te traz muita informação de outras experiências, me envolvi em outras experiências no mundo. A construção do trabalho foi muito feita a partir da experiência. AGENDA 21 Eu trabalhei na Eco 92 quando eu ainda estava na Saúde e Alegria, nós tínhamos um stand e uma participação numa das tendas. Eu vim da Amazônia, passei alguns meses aqui na organização da conferência e durante e depois do evento também. Já nessa época eu estava trabalhando com a questão da Agenda, mas a nível global. Na verdade a gente já fazia um pouco da metodologia da Agenda 21 Local, lá na Amazônia. Não tinha esse nome, mas era o arcabouço da Agenda 21 Local. Ao longo dos anos fomos pegando algumas experiências, alguns passos da Agenda 21 Local e implantando aos poucos lá. Quando eu vim para o Rio de Janeiro, há dez anos, eu comecei a trabalhar com a Agenda 21 Local em favelas, escolas, aplicando a metodologia da Agenda 21 em outros espaços. E há três anos, quase quatro, eu fui convidada a trabalhar no ISER [Instituto de Estudos da Religião], para assumir uma Agenda 21 Municipal, de Nova Friburgo, que era um processo do Fundo Nacional do Meio Ambiente, que já havia começado quando eu peguei. Fizemos um trabalho muito bonito em Nova Friburgo. Em seguida fiz outros trabalhos de pesquisa em outros lugares do Brasil e em seguida entramos na Agenda 21 Comperj que na verdade é um grande desafio, por serem 15 Agendas municipais concomitantes. O passo a passo da Agenda ele é universal. Ele pode ser aplicado num subúrbio, na Irlanda, num beco, em Nova York. Ele pode ser aplicado em qualquer lugar que tenha gente disposta a desenvolver e melhorar o seu espaço, a qualidade de vida etc. Eu acho que o princípio da Agenda é que individualmente a pessoa tenha disponibilidade para estar dialogando com outras pessoas e aberta à mudanças e aprendizado. Eu acho que estabelecer um diálogo com outras pessoas, em prol de um bem comum, de um determinado espaço, pode ser numa favela, numa escola, ou seja lá o que for, é um aprendizado importante porque você nessa tentativa de estabelecer um consenso, você cresce muito como pessoa. Quando você está à frente de um processo como esse, de estar levando, mediando, facilitando esse diálogo, e percebe esse amadurecimento das pessoas é um grande prazer, porque realmente você vê que ali está sendo construído uma coisa nova. Trabalhar em uma favela é instigante, a realidade é muito dura, são muitas carências, a cultura é algo afetivamente duro. As relações são algumas vezes violentas, por outras vezes muito amorosas, têm pessoas que estão ali que são maravilhosas e tem uma realidade dura, tem o tráfico e tal, mas essas realidades dialogam, tem algumas coisas que ficam difíceis de você propor, que precisam ser melhoradas, mas tem outras coisas que você pode realmente estar atuando para melhorar. Sempre tem possibilidades de uma ação para melhorar um determinado espaço, por mais que existam algumas barreiras políticas e culturais, sempre existe uma forma. O que é importante quando você trabalha numa abordagem de Agenda 21 é que as pessoas tenham a percepção de que se trata de um processo contínuo. É um processo de construção ao longo do século XXI. A idéia é que o seu desenvolvimento vá se desdobrando. É isso o que interessante. Tenho passagens maravilhosas em algumas favelas que eu passei. Eu trabalhei numa favela aqui em Santa Teresa, dos Prazeres, com um grupo de 20 jovens e quando eu estava exatamente fazendo uma oficina, começando a falar sobre a Eco 92, sobre a Agenda 21, eu quis levá-los no cenário de onde tudo tinha acontecido e a gente foi de ônibus da favela até ao Aterro do Flamengo, na praia. E para a minha surpresa, a maioria desses jovens, nunca tinha tomado um banho de mar. Houve uma catarse, correram, pularam, brincaram e mergulharam naquela água da Baía de Guanabara, que nem é lá essas coisas de qualidade (risos), mas era assim, uma energia, uma catarse tão grande, que me surpreendeu: pessoas que moram na Zona Sul do Rio de Janeiro, algumas não tinham experiência de ir à praia. Quando as pessoas viram aquele cenário os olhos brilhavam de estar ali naquele cenário tão bonito, da Baía de Guanabara. Teve outras passagens com esse mesmo grupo, da gente construir, junto com eles, desenhando, cortando, colando, um painel enorme de uma comunidade ideal, como é que a gente via aquela comunidade de uma maneira ideal. Isso a gente foi construindo ao longo de um tempo, eles foram pesquisando, vendo, trazendo elementos, e a gente construiu isso. Isso foi um trabalho pontual, mas eu acho que de qualquer maneira ele tem um efeito nessas pessoas, nesses jovens, porque eu acho que, de qualquer forma, desperta ali um sentido de que eu posso alterar, eu posso fazer algo para melhorar a minha comunidade, o meu espaço, eu não sou impotente, é possível que eu transforme. Nós vislumbrávamos uma comunidade ideal, pensando onde poderia se colocar um orelhão, uma praça etc. É um exercício de planejamento, de possibilidade de ação futura, é muito bacana, acho que de qualquer maneira desperta. Não precisa ser um processo completo da Agenda, mas somente uma oficina que você trabalhe de forma participativa, eu acho que de qualquer maneira muda o destino de um jovem, muda o destino de uma pessoa. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Eu fiz muitos trabalhos nesses dez anos, fiz muitas consultorias bem variadas, aliás, era um desafio para mim, porque eu tinha uma experiência muito voltada para o bioma amazônico, para a realidade da Amazônia. Era um desafio transformar essa experiência em uma experiência urbana. E por uma série de razões eu tinha que voltar ao Rio de Janeiro. Essa experiência de transição foi um pouco assustadora, porque eu tinha a sensação de que eu não ia conseguir adaptar o meu trabalho para uma realidade urbana, e essas pequenas experiências em favelas e escolas foram me mostrando que são pessoas que estão ali, que é um processo que tem muito mais a ver com gente do que com uma região ou outra. A forma de trabalhar, a abordagem muda um pouco – entre uma região e outra –, mas é possível transformar uma realidade urbana ou não. Fiz diversos trabalhos até chegar exatamente na Agenda 21, na implantação de processo da Agenda 21, do começo ao fim. O meu primeiro trabalho do começo ao fim de Agenda 21 foi em Nova Friburgo. Eu já tinha feito várias oficinas, já tinha feito várias consultorias para o Ministério da Educação e Cultura, em vários municípios do Rio, em escolas, com professores, falando sobre a Agenda. A Agenda sempre foi uma coisa presente, desde a Eco 92, mas para implantar de fato todos os passos, numa coordenação, uma facilitação foi em Nova Friburgo, há quase quatro anos. Foi muito bom, foi muito bom. Foi um processo muito rico para todos nós, eu tenho grandes amigos e isso é muito legal também, porque a gente cresce junto e Nova Friburgo, hoje, tem um grupo de pessoas que são protagonistas no processo da Agenda 21 Local, no Brasil, eles já tem ações sendo colocadas em prática. Em Nova Friburgo já havia um fórum local, nós já tínhamos um plano local de desenvolvimento sustentável, já havia uma planilha de indicadores de monitoramento desse plano. O Comperj instalou uma nova etapa, um novo processo de Agenda, em cima de um que já existia. O que foi muito legal, porque na verdade todo o processo tem um momento, tem as suas carências e vantagens. No processo da Agenda 21 inicial nós sentimos muita falta do empresariado, a atuação do empresariado era fraca. Quando entrou o Comperj, houve um chamamento ao empresariado, que foi interessante, porque como era uma empresa propondo, os empresários ficaram curiosos, acho que foi uma forma de trazer o empresariado também para dentro do processo. Foi interessante, foi mais uma etapa de amadurecimento. Não só em Friburgo mas outros municípios dos 15 já tinham alguns processos de Agenda 21 instalados. Eu falo de Friburgo porque foi o que eu estive mais presente. Eu acho que essa experiência faz uma diferença sim, influencia no nível de maturidade e no nível de profundidade do questionamento da realidade do lugar. Acho que a maturidade de Nova Friburgo e desses outros municípios que também já tinham algum processo nós notamos que é um processo mais maduro, onde as pessoas já estão mais abertas, mais desarmadas para o diálogo, tem mais experiência de implantar determinadas ações. O que é importante da Agenda, é que quando você a publica, ela só finaliza uma etapa de planejamento grande, dali para frente tem toda uma etapa de botar a mão na massa, para que tudo aquilo que está descrito como ação realmente aconteça. Eu acho que o grande desafio que nós temos na mão agora é publicar. Todos os 15 municípios estão com fome de avançar. Eu tenho recebido emails, telefonemas e as pessoas me perguntam: “E aí, como vai ser, como continua, e tal...” No caso do ISER, nós pegamos o empresariado dos 15 municípios na primeira etapa mobilizando e começando um diagnóstico do local. Essas foram as duas primeiras etapas: mobilização e diagnóstico do local. Em seguida começamos a elaborar o plano de ação, que é o PLDS, que nós chamamos de Plano Local de Desenvolvimento Sustentável, que é um processo longo, no caso do Comperj, eram 15 Agendas concomitantes. Nós tínhamos muita dedicação com a metodologia a ser aplicada, porque eram 15 municípios. Foi muito bem trabalhado e adaptado para aquela região e realidade, para aquela forma de trabalhar com as 15 conjuntamente. Depois dessa etapa de planejamento temos a fase da publicação que provavelmente vamos fazer agora, para depois entrar na fase de execução. Depois da fase de execução, ainda tem a fase de monitoramento, onde você cria os indicadores em cima desse plano local, para que ao longo dos anos as pessoas tenham ferramentas e instrumentos para avaliar o desenvolvimento do trabalho. Ainda tem uma etapa de levantamento de indicadores, em cima do Plano Local de Desenvolvimento Sustentável, para que você, ao longo do século XXI, possa estar monitorando os avanços dessa Agenda, que é um passo muito importante, ou seja, nós aqui, no Comperj, ainda estamos na fase final de planejamento, ainda nem publicamos o Plano Local. As ações têm que sair do papel, as ações têm que vir para a realidade, tomar o sabor da realidade, para a gente realmente sentir que de fato esse processo valeu a pena, porque ele chegou até a cumprir o papel dele, que é o papel de interferir positivamente numa realidade de um determinado lugar. Os indicadores são importantíssimos também. O grande desafio da Agenda 21 Comperj agora é chegar à sustentabilidade do próprio processo, porque a gente fala em sustentabilidade do lugar, mas tem essa sustentabilidade do processo, o processo tem começo, meio e fim. Precisamos desaguar num outro lado, para chegar e falar: “Bom, missão cumprida, a Agenda 21 Comperj tem lá todos os instrumentos e as ferramentas possíveis para que essas pessoas continuem sem a gente.” Mas nós precisamos sair de cena no momento certo, porque se a gente sai de cena no momento que não existe uma maturidade ainda, corre-se o perigo de ver tudo isso sumir e perder a força. AGENDA 21 COMPERJ / NOVA FRIBURGO / MOBILIZAÇÃO Para mobilizar e sensibilizar as pessoas foi um desafio, porque a gente não tinha a ferramenta de comunicação. Foi muito no boca a boca. Muito a partir da indicação das pessoas do fórum regional, nós não tínhamos nem uma rádio, nem uma TV convocando, nada disso. Tínhamos poucos instrumentos para mobilizar e com esses poucos instrumentos acho que a gente chegou a uma boa mobilização, algumas vezes quantitativas em alguns municípios, e outras vezes qualitativas, não tantas pessoas, mas pessoas interessantes. Eu acho que conseguimos trazer para o processo, isso é um ganho desse projeto, é um orgulho para as ONG’s, porque apesar da gente não ter muito instrumentos de comunicação e nem de mobilização, nós conseguimos um pequeno grupo, pequeno não, grande grupo de pessoas muito interessantes. Porque só fica num processo como esse a pessoa que tem dentro dela aquela semente da transformação. Aí ela fica. Digamos que 80% das pessoas que estão dentro querem realmente transformar, porque elas têm uma questão ideológica: “Elas foram picadas pelo mosquitinho da Agenda.” Isso transforma a vida de muitas pessoas. Eu vi isso acontecer em muitos lugares, quando o processo de uma Agenda 21 começa, uma pessoa que está desempregada, sem trabalhar, deprimida, começa a trabalhar num determinado lugar, numa associação, numa ONG, ela pega uma outra veia profissional. Uma pessoa que está numa ONG ela se desenvolve tanto, que de repente o poder público daquele lugar assimila. Tem um troca-troca de cadeiras e de posições de funções, muito por conta da maturidade que esse processo traz. Isso é muito interessante, muito legal, eu acho que na Agenda 21 Comperj nós estamos começando sentir esse movimento, não podemos parar, está começando realmente a ter uma mobilização social de qualidade. Toda vez que você implanta um processo de Agenda, a primeira coisa é trazer as pessoas para a discussão e fazer elas entenderem como é esse diálogo e para que serve, onde queremos chegar e explicar isso para as pessoas. De cara, dizer que só podemos discutir uma coisa se você tem conhecimento sobre aquilo. Quanto mais conhecimento você tem, mais você qualifica a sua discussão. Numa etapa de diagnóstico você levanta os dados do município, você levanta as impressões que as pessoas têm do município, sob diversos aspectos. E uma pessoa que vive num determinado lugar, muitas vezes ela não conhece a realidade a fundo desse determinado lugar. Conhecer e analisar os dados qualifica a discussão e a possibilidade dessa pessoa dizer: “Bom, esse tipo de problema eu nem percebia, mas ele é prioritário dentro desse meu ambiente.” Esta etapa do diagnóstico, é importante, é fundamental para as pessoas amadurecerem, no sentido do conhecimento do espaço onde elas vivem. A etapa seguinte é levantar essa propositiva: “Bom, diante dessa questão, desse problema que eu agora sei, eu me aprofundei, dentro da minha perspectiva, essa é a melhor forma de atuar.” O interessante é que são diversos segmentos sociais, diferentes, pensando sobre o mesmo aspecto, mas cada um com o seu interesse. Um empresário não tem a mesma perspectiva que uma pessoa que está dentro da máquina pública, e nem de uma pessoa que vive numa comunidade, e nem de uma pessoa que está dentro de uma ONG. São perspectivas diferentes, a partir, de um mesmo problema. Isso é rico, esse diálogo de interesses, esse consenso buscado é que é o interessante, porque quando você chega a uma conclusão de como abordar, de como resolver aquele problema, ele foi fruto de uma discussão e foi amadurecido. Não existe votação em Agenda. As pessoas não votam, as pessoas esgotam o assunto até chegar a um consenso. Para isso, muitas vezes, você tem que abrir mão da sua posição, pelo bem comum. Você precisa exercitar várias formas individuais de crescer com a sua dinâmica interna, com a sua dinâmica enquanto pessoa. Por isso que eu sou completamente apaixonada pelo que eu faço. Eu acho que é um dos canais de transformação no mundo para a nossa época. Esse novo diálogo, essa nova percepção, de que apesar de todas as diferenças, estão unidas em prol de um bem comum, e com uma metodologia clara e simples. A Agenda 21 ela tem uma metodologia muito simples e clara. Com certeza tivemos momentos difíceis. Eu acho que a gente trabalha o tempo todo com resolução de conflitos. Quem está facilitando um processo como esse tem que ter muito jogo de cintura, tem que ter muita verdade também no que faz. Porque muitas vezes você vai mediar conflitos legítimos, onde as duas partes, de certa maneira, tem razão. Elas precisam amadurecer esse diálogo, entrar num acordo, um cede de um lado, o outro cede do outro. Mediar isso é complicado, é complexo. Gente é complexa. Você lida com ego, você lida com interesses políticos, com jogadas políticas. Têm muitas dificuldades nesse sentido. Mas o que é importante é você ter como foco, que você quer uma coisa acima, suprapartidária, supra interesse pessoal, supra egos, supra tudo. É supra porque é, na verdade, assim, uma esperança da gente sobreviver de uma forma com mais qualidade, no futuro. Isso é maior do que tudo. Eu sou uma pessoa que tenho muita facilidade de lembrar de momentos maravilhosos que eu passei, e tenho muita dificuldade de pensar nos conflitos. Tivemos muitos bons momentos. Eu vou falar um pouco do Comperj, porque é o mais recente. Eu agora estou coordenando outro processo de Agenda 21, na Amazônia de novo, estou começando lá um grande desafio, mas o Comperj teve muitos momentos maravilhosos. Teve um momento coletivo dos 15 municípios onde a gente estava num hotel em Rio Bonito, que as pessoas ainda chegavam muito reativas, questionando muito o empreendimento, o que é natural e legítimo. Mas teve um clique assim, em algum momento, em que, numa outra rodada, as pessoas estavam muito abertas, elas entendiam que o fato delas estarem abertas e questionando e se desenvolvendo no processo da Agenda 21, era importante, mesmo sem abrir mão de todos os questionamentos sobre o empreendimento. Elas conseguiram discernir o que são os questionamentos em relação ao impacto do empreendimento, que de fato tem que ser questionados, de fato tem que haver um diálogo entre a empresa e essas pessoas do município. Mas elas entenderam que ali era uma grande oportunidade, porque não era só uma coisa de um município, eram 15 municípios vizinhos questionando a mesma coisa, questionando como vai ser o nosso futuro. Isso tem muitos desdobramentos, têm mil inter-relações, que podem se estabelecer no futuro entre esses vizinhos. Mil projetos conjuntos, mil propostas que podem ser feitas conjuntamente. Eu acho que teve um momento que eles vislumbraram isso, e o fato de vislumbrar isso, foi muito interessante porque deixam as pessoas muito desarmadas, muito abertas proporcionando momentos muito emocionantes. As pessoas se emocionam com o processo de Agenda. Essa não é a primeira vez que trabalho com um grande empreendimento, a minha origem profissional é dentro de uma ONG, normalmente somos financiados por organismos internacionais ou mesmo pelo governo brasileiro. Trabalhar pelo seu país dentro de uma ONG, é uma coisa, trabalhar como consultora de grandes empreendimentos é bem diferente, mas existe uma geração de profissionais muito experimentados em desenvolver esse tipo de processo. Eu acho que agora existe uma nova cultura nascendo dentro dessas grandes empresas, e sem nenhuma inocência, eu acho que começou essa cultura muito via marketing das empresas, marketing verde. Uma empresa que explora determinado lugar, um determinado espaço ambiental físico e habitacional, compensa essa exploração oferecendo um processo de desenvolvimento. Eu acho justo, eu acho que é o mínimo que essas empresas podem fazer mesmo. Trabalhar para uma grande empresa que impacta muito o ambiente, de certa maneira, foi muito incômodo, no início, para mim. Depois eu percebi que eu tinha todo o know how e a bagagem suficiente para desenvolver um bom trabalho. Eu acho que está crescendo a percepção das pessoas que trabalham dentro de uma empresa, de que de fato é importante, não é só um marketing do desenvolvimento sustentável, de fato é importante fazer isso acontecer porque é justo, porque o lucro é importante, mas as pessoas também são tão importantes quanto o lucro. Eu me sinto participando de uma mudança de paradigma empresarial. Por isso eu topo fazer. Porque se for uma coisa que eu vejo que é só pelo marketing, que é uma coisa na casca, aí me incomoda muito. Então eu só entro porque eu acho que é um mercado de trabalho importante, nós temos que ocupá-lo, porque estamos participando dessa mudança de cultura empresarial. Eu acho que é a única saída viável para o planeta. Para o capitalismo eu acho que não tem saída, é imbatível, o sistema tem vantagens, trouxe coisas maravilhosas para a humanidade, mas ele precisa ser ajustado a essa humanidade, ele precisa ter um ponto de equilíbrio. O lucro não é mais importante que as pessoas, que a sobrevivência do planeta, essas duas forças tem que estar harmonizadas. Hoje eu trabalho com convicção de que eu estou fazendo um bom trabalho de qualidade, estou ajudando as pessoas a se desenvolverem em determinados espaços muitas vezes bancada por uma empresa que precisa desse tipo de trabalho, seja pelo marketing, ou porque realmente acredita, mas eu me sinto participando dessa construção, dessa cultura. Por isso eu me apazigüei e consigo trabalhar hoje em dia me relacionando bem com essas empresas. Eu acho que a Petrobras, é, de certa maneira, uma pioneira aqui no Brasil nesse tipo de ação de compensação, é pioneira nesse processo de Agenda 21, eu tenho certa pena, porque foi muito pouco divulgado. Eu acho que a própria Petrobras utiliza pouco o próprio marketing do que ela fez. Mas eu acho que ela está no início desse processo. O processo não terminou. Então como é um processo que está iniciando e que ainda tem muitos desafios pela frente, eu acho que a Petrobras está de parabéns, de fato, porque ela começou uma coisa nova no Brasil. Eu acho que ela pode servir de exemplo para outras empresas, desenvolver o mesmo tipo de metodologia, ela precisa divulgar o que fez, o que ela está fazendo, o que ela vai continuar a fazer em relação ao Comperj. Eu espero que de fato isso aconteça, espero que o Brasil saiba que a Petrobras está fazendo um projeto maravilhoso nos 15 municípios, e que essas plataformas vão sair do papel, e esses projetos grandes vão ter financiamentos governamentais ou internacionais, ou da própria Petrobras, ou de outras empresas, ou a nível local, mas que isso vai sair do papel, que isso vai realmente acontecer, e que eu acho que é até interessante para outras empresas seguirem esse mesmo caminho, essa mesma lógica. Mas a Petrobras precisa dar um salto no sentido de não só divulgar, como empreender uma continuidade para esse processo, para chegar até o fim do processo e realmente ser um projeto modelo. Eu acho que não só ao nível do Brasil, eu acho que a nível mundial. É um exemplo de iniciativa empresarial, mas temos que fazer o processo terminar, ir até o fim. MEMÓRIA PETROBRAS Acho legal, acho interessante. A gente, na verdade, durante o processo inteiro fizemos o registro, o processo tem muitas horas de fita gravadas. Eu acho importante e fundamental o registro. Eu acho que sem o registro fica na memória e a memória se perde. Tem aí muito material para vocês trabalharem e também no sentido de aprontar o passo a passo que foi feito até agora. Acho que é interessante, tem que ter. Eu acho que todas essas coisas que a gente falou, que a gente conversou, é uma perspectiva minha, mas acho também que é a opinião da maioria dos profissionais que trabalharam facilitando esse processo. Eu acho que esse conteúdo de fala de quem trabalha em Agenda, precisa ser divulgado. Tudo isso que a gente fala, que a gente divulga, toda esperança que a gente vê nesse processo, eu acho que precisa ser divulgado, ser falado, ser mostrado mesmo. Eu não sei até que ponto vocês vão utilizar a nossa fala e em que espaços vocês vão divulgá-la, mas quanto mais for divulgada, quanto mais salas e em exposições essa fala for divulgada, mais pessoas a gente tem para estar empreendendo Agendas, ou participando de Agendas, melhor para o mundo. O Museu da Pessoa também é importante, nós somos pessoas que estão na vanguarda de uma transformação muito rápida, muito grande. Eu acho que é importante outras pessoas serem fisgadas por essa filosofia, por essa perspectiva. Quanto mais as pessoas ouvirem esse depoimento, quanto mais pessoas ouvirem as pessoas que estão à frente de um processo como esse, melhor para o mundo.
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