Rapaz… isso já faz muito tempo.
Mas tem coisa que o tempo não apaga, não. Fica guardada aqui ó, no peito da gente.
José Gomes Pinto nasceu lá por 1940, em Uruburetama, sertão do Ceará. Terra quente, chão duro, mas povo direito. Desde menino, José não era de brincadeira não. Enquanto uns corriam atrás de bola, ele corria atrás de serviço. Trabalhador que só. Desses que não escolhe trabalho, escolhe é responsabilidade.
Foi carteiro, levando notícia boa e ruim pros outros. Depois virou padeiro, acordando antes do galo cantar pra botar pão na mesa do povo. Num desses dias, a máquina pegou um dedo dele. Isso foi lá por 1962. Mas não tirou foi a vontade de viver, não. No mesmo ano, casou com Milcak Pires, mulher firme, companheira até o fim da vida dele.
Os filhos foram chegando, um atrás do outro, como Deus manda. Jonatas, primeiro. Depois Rubens. Depois Gerson. José já era homem feito, pai de família, quando o Brasil tava num tempo ruim… tempo de medo. Era a época dos militares, e quem mandava mesmo era quem tinha farda e arma.
Mas o povo gostava de José. Gostava porque ele era igual a eles. Não falava difícil, não se achava mais que ninguém. E aí empurraram ele pra política. Ele não foi atrás, não. Foi o povo que levou. E acabou virando vereador. Um civil no meio dos militares. Aquilo não desceu pra muita gente grande.
A cidade começou a ficar perigosa pra ele. Já tinha três filhos correndo pela casa e mais um pra nascer. O Renato. As ameaças começaram a aparecer, cochichadas primeiro, depois ditas na cara. Até que um dia, em 1971, a coisa apertou de vez.
Uma tropa de militar cercou a casa dele dizendo que ia matar. Desespero grande. A mulher aflita. As crianças sem entender. Jonatas, ainda menino, brincando na praça, sem saber que o mundo dos adultos é cruel.
José não correu. Não se escondeu. Disse que se fosse pra morrer, morria ali mesmo. Mandou os homens subirem e fazerem o que tinham...
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Rapaz… isso já faz muito tempo.
Mas tem coisa que o tempo não apaga, não. Fica guardada aqui ó, no peito da gente.
José Gomes Pinto nasceu lá por 1940, em Uruburetama, sertão do Ceará. Terra quente, chão duro, mas povo direito. Desde menino, José não era de brincadeira não. Enquanto uns corriam atrás de bola, ele corria atrás de serviço. Trabalhador que só. Desses que não escolhe trabalho, escolhe é responsabilidade.
Foi carteiro, levando notícia boa e ruim pros outros. Depois virou padeiro, acordando antes do galo cantar pra botar pão na mesa do povo. Num desses dias, a máquina pegou um dedo dele. Isso foi lá por 1962. Mas não tirou foi a vontade de viver, não. No mesmo ano, casou com Milcak Pires, mulher firme, companheira até o fim da vida dele.
Os filhos foram chegando, um atrás do outro, como Deus manda. Jonatas, primeiro. Depois Rubens. Depois Gerson. José já era homem feito, pai de família, quando o Brasil tava num tempo ruim… tempo de medo. Era a época dos militares, e quem mandava mesmo era quem tinha farda e arma.
Mas o povo gostava de José. Gostava porque ele era igual a eles. Não falava difícil, não se achava mais que ninguém. E aí empurraram ele pra política. Ele não foi atrás, não. Foi o povo que levou. E acabou virando vereador. Um civil no meio dos militares. Aquilo não desceu pra muita gente grande.
A cidade começou a ficar perigosa pra ele. Já tinha três filhos correndo pela casa e mais um pra nascer. O Renato. As ameaças começaram a aparecer, cochichadas primeiro, depois ditas na cara. Até que um dia, em 1971, a coisa apertou de vez.
Uma tropa de militar cercou a casa dele dizendo que ia matar. Desespero grande. A mulher aflita. As crianças sem entender. Jonatas, ainda menino, brincando na praça, sem saber que o mundo dos adultos é cruel.
José não correu. Não se escondeu. Disse que se fosse pra morrer, morria ali mesmo. Mandou os homens subirem e fazerem o que tinham ido fazer. Aquilo chamou atenção do povo. A vizinhança se ajuntou. Ninguém queria ver José morto. A situação ficou feia, tensa, daquelas que qualquer faísca vira tragédia.
Pra continuar vivo, José teve que se virar como deu. Chamou dois cabras perigosos da cidade, inimigos de morte um do outro. Reuniu os dois e falou sério:
“Vocês vão parar com essa briga. Quero vocês cuidando de mim.”
E por um tempo foi assim.
Mas ali já não dava mais pra ficar. Um delegado, homem ainda de consciência, foi lá e falou a verdade: se José ficasse, morria. Ajudou ele a sair com a família pra Fortaleza e mandou seguir adiante, pra bem longe.
José veio parar no Rio de Janeiro, com quatro filhos e um sonho velho: ser doutor, ser advogado. A vida na cidade grande não foi mole, não. O dinheiro dava justo. Mas ele nunca deixou faltar nada em casa. Trabalhou, estudou, se formou em Direito, virou doutor, o sonho da vida de José era ser advogado.
Nunca esqueceu o sertão. Nunca esqueceu a terra. Falava de Uruburetama como quem fala da mãe. Guardava tudo na memória. Escreveu uns livrinhos de cordel, falando do mundo, da Bíblia, da política, das histórias do Nordeste. Tudo do jeito dele, simples e verdadeiro.
José nunca deixou o sertão pra trás, não. O corpo dele morava na cidade grande, mas o pensamento vivia era lá, no chão quente de Uruburetama. Falava da terra como quem fala de um parente velho, que pode até estar longe, mas nunca sai do coração.
Sentia falta do cheiro da terra molhada quando a chuva vinha rara, do barulho do vento batendo no mato seco, do silêncio da noite quebrado só pelo canto dos insetos. Dizia que o sertão ensina cedo a ser forte, porque quem nasce ali aprende a aguentar fome, medo e injustiça sem perder a dignidade.
Mesmo longe, José carregava o sertão no jeito de falar, no jeito de tratar as pessoas, na palavra dada que valia mais que papel assinado. Nunca esqueceu quem era, nem de onde saiu. O que aprendeu no chão rachado do Ceará foi o que sustentou ele no asfalto do Rio.
Quando escrevia seus cordéis, era o sertão que falava por ele. Falava do mundo grande, da política, da Bíblia, mas sempre com o olhar de quem já viu seca, já viu perseguição, já viu homem bom ser caçado como bicho. Cada verso era um pedaço da terra que ele não pôde mais pisar.
Diziam que ele tinha sido quase apagado da própria cidade. Mas sertanejo não se apaga fácil, não. Pode tirar da terra, mas não tira a terra do homem. José virou memória, virou história contada de boca em boca, dessas que não precisam de livro pra sobreviver.
Quando José se foi, parecia que um pedaço do sertão tinha ido junto. Mas quem conhece o sertão sabe: ele não morre, não. Ele só se espalha. Fica nos filhos, nos netos, na palavra, no exemplo. Fica no homem que enfrenta o medo sem baixar a cabeça.
Hoje, quando alguém fala o nome José Gomes Pinto, não fala só de um homem. Fala de uma terra inteira. Porque homem feito ele não nasce todo dia. Sertão desses… é raro.
José se foi em 2020. Partiu quieto, como viveu. Homem que nunca deveu nada a ninguém, nunca virou as costas pra família, nunca deixou faltar dignidade dentro de casa.
Hoje, se você perguntar por ele, não vai achar em placa, nem em retrato grande. Mas vai achar na lembrança de quem conheceu. E isso, meu filho… isso é o que fica.
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