O meu nome é José Geraldo Furtado Ramos. Eu nasci na cidade de Valença, no estado do Rio, em 28 de abril de 1943.
E a cidade de Valença, na minha infância, era como as cidades do interior do Brasil, inclusive próxima à fronteira de Minas. Uma cidade muito simples, muito pequena. Na época talvez com menos de 5 mil habitantes. E hoje em dia é uma cidade que se desenvolveu razoavelmente. Com algumas universidades, algumas faculdades.
Na minha família, não havia nada muito específico quanto à minha profissão. Eu me interessei pela Engenharia Química porque realmente eu gostava de ciências.
Gostava particularmente de Física e isso daí me direcionou naturalmente para a Engenharia Química, porque associava a Química com a Física.
A Petrobras foi meu primeiro emprego e toda a minha carreira. Eu entrei na Petrobras em 1966, através do concurso. A Petrobras na época era uma companhia que tinha, como ainda hoje tem, prestígio muito grande. E havia aquela idéia muito nacionalista na época, aquela questão toda. Aquela discussão em torno do petróleo, que acabou gerando a Petrobras. Eu ainda fui bastante influenciado por aqueles papos políticos da época. Eu entrei para a companhia bastante orgulhoso. Não só vendo a questão profissional, mas sentindo um orgulho muito grande. Sinto até hoje.
Eu fiz o curso de Engenharia de Processamento de Petróleo, especialização nessa área, e fui trabalhar como Engenheiro de Processamento na Refinaria Duque de Caxias, aqui no Rio de Janeiro. Fiquei lá durante dez anos e depois passei ao Cenpe - o Centro de Pesquisas da companhia, onde me encontro até hoje.
Na Refinaria Duque de Caxias, eu trabalhava em uma área de acompanhamento de processo - hoje em dia tem o nome de otimização do processo. Depois, quando eu passei ao Cenpe, eu fazia muitos projetos na refinaria. Era uma fase de muito crescimento, muitas ampliações. Então, eu trabalhava fundamentalmente em projetos de novas...
Continuar leitura
O meu nome é José Geraldo Furtado Ramos. Eu nasci na cidade de Valença, no estado do Rio, em 28 de abril de 1943.
E a cidade de Valença, na minha infância, era como as cidades do interior do Brasil, inclusive próxima à fronteira de Minas. Uma cidade muito simples, muito pequena. Na época talvez com menos de 5 mil habitantes. E hoje em dia é uma cidade que se desenvolveu razoavelmente. Com algumas universidades, algumas faculdades.
Na minha família, não havia nada muito específico quanto à minha profissão. Eu me interessei pela Engenharia Química porque realmente eu gostava de ciências.
Gostava particularmente de Física e isso daí me direcionou naturalmente para a Engenharia Química, porque associava a Química com a Física.
A Petrobras foi meu primeiro emprego e toda a minha carreira. Eu entrei na Petrobras em 1966, através do concurso. A Petrobras na época era uma companhia que tinha, como ainda hoje tem, prestígio muito grande. E havia aquela idéia muito nacionalista na época, aquela questão toda. Aquela discussão em torno do petróleo, que acabou gerando a Petrobras. Eu ainda fui bastante influenciado por aqueles papos políticos da época. Eu entrei para a companhia bastante orgulhoso. Não só vendo a questão profissional, mas sentindo um orgulho muito grande. Sinto até hoje.
Eu fiz o curso de Engenharia de Processamento de Petróleo, especialização nessa área, e fui trabalhar como Engenheiro de Processamento na Refinaria Duque de Caxias, aqui no Rio de Janeiro. Fiquei lá durante dez anos e depois passei ao Cenpe - o Centro de Pesquisas da companhia, onde me encontro até hoje.
Na Refinaria Duque de Caxias, eu trabalhava em uma área de acompanhamento de processo - hoje em dia tem o nome de otimização do processo. Depois, quando eu passei ao Cenpe, eu fazia muitos projetos na refinaria. Era uma fase de muito crescimento, muitas ampliações. Então, eu trabalhava fundamentalmente em projetos de novas unidades. E quando foi criada na companhia a Engenharia Básica, isso aconteceu em 1976, eu fui convidado a trabalhar nela, até em face daquela experiência que tinha na área de projetos. Desde então, eu me encontro na Engenharia Básica.
Eu participei na refinaria de vários projetos. Eu trabalhei muito, trabalhei algum tempo na área de craqueamento catalítico, trabalhei na área de reforma.
O craqueamento catalítico é um dos processos considerados mais complexos da indústria do refino. É um processo fundamental para a economicidade do refino. Ele trabalha transformando um derivado pesado do petróleo, denominado gasóleo ou um outro, chamado resíduo atmosférico, transformando essa corrente, considerada de pouco valor comercial. Porque ela seria agregada ao óleo combustível. Esse processo, quebra as moléculas dessa substância, esse conjunto de hidrocarbonetos, transformando em derivados nobres do petróleo. Através de um processo denominado craqueamento catalítico fluido. E bastante complexo, porque envolve fase sólida, líquida e gasosa. Por isso, ele tem um potencial de desenvolvimento, assim, muito grande.
O petróleo - tantos anos que eu não penso em definir o que é o petróleo! É um conjunto de hidrocarbonetos. Tem miríades de moléculas que você pode utilizar e eu tenho, por incrível que pareça, eu fico até com dificuldade, é algo tão amplo.
Mas é uma mistura de hidrocarbonetos, infinidade de substâncias. E você trabalha essa matéria-prima nas refinarias produzindo uma quantidade muito grande de derivados, que vão alimentar toda a indústria de um país. Seja na área de combustíveis, seja na área petroquímica.
No Cenpe, dentre os projetos que eu tive oportunidade de participar, que foram muitos, eu acho que vale a pena citar um fato tecnológico ocorrido no início da década de 1980. Havia uma companhia em São Paulo chamada Ultrafértil que estava em vias de fechar as portas, porque a matéria-prima que ela consumia inviabilizava o processo, era muito cara. Uma matéria-prima denominada nafta, que é um derivado líquido do petróleo. Em condições ambientes ela é líquida. Alguma coisa parecida com a gasolina, e era um produto nobre muito caro. Então, a Ultrafértil em conjunto com o Cenpe buscou um sucedâneo para essa matéria-prima, e se verificou que havia a possibilidade de utilizar o gás de refinaria. Porque grande parte dele é queimada nas refinarias. Seja nos fornos ou quando há excedente, é queimado nas tochas das refinarias. Então, pensou-se em utilizar esse gás, e se constatou na época, através de várias consultas internacionais, que não havia nenhum caso de uso desse gás para essa finalidade, que seria produzir a amônia. Precisaríamos fazer um tratamento muito específico desse gás para que ele pudesse entrar na unidade que vai produzir a amônia, nos reformadores da unidade amônia. Essas consultas internacionais com fabricantes de catalisadores indicaram que não havia essa possibilidade comercial naquele momento. Então, os próprios fabricantes de catalisador recomendaram à Petrobras, que já que ela dispunha de um Centro de Pesquisas, que estudasse um processo que pudesse tratar esse gás de forma que ele ficasse em condições de ser utilizado como matéria-prima para a amônia. Então montou-se um trabalho em articulação entre o Cenpe e a Ultrafértil desde a unidade-piloto. Foi construída uma unidade-piloto para essa finalidade e, realmente, conseguiu-se chegar a um determinado catalisador e a um processo.
Nessa época, eu trabalhava na Engenharia Básica da Petrobras, que havia sido criada há poucos anos. E nós chegamos finalmente a um processo que viabilizou a operação. Aquela fábrica não fechou as portas. A Ultrafértil continuou operando por anos e anos. Esse trabalho, inclusive, foi reconhecido. A Petrobras obteve um prêmio por esse trabalho. Um prêmio importante, um prêmio do Conselho Nacional de Pesquisa, o CNPq. E obviamente isso também se transformou em uma patente da Petrobras.
Mas um outro caso bastante significativo, que envolveu muito a área de Engenharia Básica, sempre em articulação com outros órgãos da companhia, com a área de refino e com a área de pesquisa do Cenpe, foi o desenvolvimento no processo de craqueamento catalítico fluido. Isso daí tem uma história muito bonita. Foi no início da década de 80, quando ocorreu a chamada primeira crise do petróleo. Por volta de 1983, houve uma crise de combustíveis no país. E nós tínhamos uma situação em que os navios ficavam abarrotados de óleo combustível nos portos. Já não havia mais lugar para se estocar óleo combustível. Então, era preciso transformar esse óleo combustível em derivados nobres e dar um fim àquele produto que não havia nem como exportá-lo. A partir da própria Engenharia Básica, articulada com a área industrial da companhia, a área de refino, montou-se um trabalho muito amplo, que durou alguns anos, mas que teve resultados imediatos para aquela época e depois foi sendo aperfeiçoado. Conseguiu-se, através de unidades de craqueamento catalítico, transformar realmente, através de modificações técnicas nessas unidades, esse produto em derivados nobres. É uma coisa que estava se iniciando no mundo, e a Petrobras, a partir daquela época, decolou, deslanchou muito nesse processo, a ponto de hoje ter se tornado em uma das líderes internacionais nessa tecnologia.
Tem dezenas de patentes, dezenas de modificações nas nossas unidades, e eu acho que na minha vida profissional esse é um fato relevante, que eu gosto de citar, inclusive, porque trabalho até hoje nessa tecnologia. Foi realmente algo marcante e que engrandeceu muito a companhia. O nome que ela tem hoje na área de refino vem em boa parte do domínio que ela tem dessa tecnologia. E que rendeu à companhia milhões e milhões de dólares. Os cálculos que nós fazíamos na época para avaliar a rentabilidade daquelas modificações mostravam números da ordem de 80 milhões de dólares anuais. Que persistem até hoje.
Eu sou filiado ao sindicato, mas não participei. Quando era mais jovem, eu cheguei a participar de um movimento grevista na época,algum fato do sindicato, não tenho assim nada de relevante para falar. Houve um movimento que foi muito marcante, mas eu não me lembro exatamente em que ano foi. Talvez tenha sido um dos últimos movimentos fortes.
Depois daquilo, houve toda essa modificação no ambiente político do país. Sindicato perdendo a força, essa coisa toda. E a coisa terminou por ali.
Eu acho a iniciativa da Petrobras em conjunto com o sindicato dos petroleiros de fazer o Projeto Memória dos Trabalhadores meritória e absolutamente fundamental para resgatar os valores humanos da companhia. A importância dos valores humanos da companhia e aqueles princípios básicos que sempre nortearam os rumos da Petrobras. Uma companhia que tem peculiaridades absolutamente notáveis nesse nosso ambiente. Então, eu acho que é um trabalho que merece todo o nosso apoio.
Recolher