Homenagem ao meu pai , que neste dia 20/10/2023, completaria , se vivo fosse, 113 anos.
SIMÃO DE CASTRO
História de vida
Meu pai se chamava Simão de Castro. Nasceu na cidade de Lindóia, no sítio localizado no Morro do Mosquito, em 20 de outubro de 1909.
Filho de Olegário de Castro e Francisca Maria de Jesus.
Vovô Olegário era filho de escravos. Seu pai ( meu bisavô) recebeu de seu proprietário o nome de Severiano Matheus de Castro.
Nasceu na cidade de Amparo , na Fazenda Brumadinho, de propriedade de um fazendeiro, cujo sobrenome era Matheus de Castro…Acreditamos que com seu trabalho e ajuda das entidades protetoras e auxiliadoras dos negros, meu avô conseguiu comprar este sítio, em que papai nasceu.
Minha avó, Francisca Maria de Jesus, tinha descendência portuguesa.
Meus avós eram agricultores . Tiveram 4 filhos . Papai, Simão de Castro, era o mais velho. Em seguida nasceram Benedito de Castro, depois Aparecida de Castro, dez anos mais nova que papai e por fim Sebastiana de Castro, que faleceu precocemente, deixando 4 filhos pequenos.
Quando papai tinha 11 anos minha avó faleceu do parto de sua filha Sebastiana ( Tana). Vovô ficou viúvo com seus quatros filhos pequenos. Tempos depois , casou-se novamente com a Sra. Izaura, também viúva, proprietária do sítio vizinho.
Sua esposa , Izaura a quem nos acostumamos chamar de \\\"Madrinha Izaura\\\", pois era parteira e ajudou a vir ao mundo grande parte dos filhos de Lindóia, Serra Negra, Águas de Lindóia e Região, ( e em agradecimento, seus pais lhe ofereciam os filhos para batizá-los), então, com o casamento com o meu avô, trouxe consigo seus filhos, Benedita, ( Tia Ditinha) Tio Dirceu ( Feu) Tio Armindo e o filho mais novo, Francisco, que segundo papai, faleceu, precocemente em um acidente no sítio, ao manejar o maquinário de moer cana, quando era ainda adolescente..
Do...
Continuar leituraHomenagem ao meu pai , que neste dia 20/10/2023, completaria , se vivo fosse, 113 anos.
SIMÃO DE CASTRO
História de vida
Meu pai se chamava Simão de Castro. Nasceu na cidade de Lindóia, no sítio localizado no Morro do Mosquito, em 20 de outubro de 1909.
Filho de Olegário de Castro e Francisca Maria de Jesus.
Vovô Olegário era filho de escravos. Seu pai ( meu bisavô) recebeu de seu proprietário o nome de Severiano Matheus de Castro.
Nasceu na cidade de Amparo , na Fazenda Brumadinho, de propriedade de um fazendeiro, cujo sobrenome era Matheus de Castro…Acreditamos que com seu trabalho e ajuda das entidades protetoras e auxiliadoras dos negros, meu avô conseguiu comprar este sítio, em que papai nasceu.
Minha avó, Francisca Maria de Jesus, tinha descendência portuguesa.
Meus avós eram agricultores . Tiveram 4 filhos . Papai, Simão de Castro, era o mais velho. Em seguida nasceram Benedito de Castro, depois Aparecida de Castro, dez anos mais nova que papai e por fim Sebastiana de Castro, que faleceu precocemente, deixando 4 filhos pequenos.
Quando papai tinha 11 anos minha avó faleceu do parto de sua filha Sebastiana ( Tana). Vovô ficou viúvo com seus quatros filhos pequenos. Tempos depois , casou-se novamente com a Sra. Izaura, também viúva, proprietária do sítio vizinho.
Sua esposa , Izaura a quem nos acostumamos chamar de \\\"Madrinha Izaura\\\", pois era parteira e ajudou a vir ao mundo grande parte dos filhos de Lindóia, Serra Negra, Águas de Lindóia e Região, ( e em agradecimento, seus pais lhe ofereciam os filhos para batizá-los), então, com o casamento com o meu avô, trouxe consigo seus filhos, Benedita, ( Tia Ditinha) Tio Dirceu ( Feu) Tio Armindo e o filho mais novo, Francisco, que segundo papai, faleceu, precocemente em um acidente no sítio, ao manejar o maquinário de moer cana, quando era ainda adolescente..
Do casamento com meu avô nasceram : Severiano de Castro, Amélia de Castro, José de Castro e Margarida de Castro.
Sendo assim, a família se ampliou e ficou composta pelo casal e seus 12 filhos.
A nova família de papai, quase que totalmente trabalhava na roça, com exceção de sua nova esposa, sua filha mais velha e a irmã de papai , Aparecida ( tia Cida), que a ajudavam nos cuidados com a arrumação da casa e com o preparo da alimentação de toda a família, inclusive na preparação das marmitas que eram levadas para aqueles que estavam na roça.
Papai conta que começou a trabalhar na roça aos 8 anos e também gostava muito de estudar. Então, mesmo trabalhando na roça, fazia questão de frequentar a escola. Gostava de música e mesmo morando no sítio, estudou clarinete por 11 anos. Papai nos relatou que além do trabalho na roça, cuidava de suas próprias roupas, desde a morte de sua mãe.
Já moço, aos 27 anos, descontente com a forma com que meu avô conduzia a distribuição do trabalho na casa e na lavoura, e com a divisão do dinheiro relativo à produção, pois considerava desproporcional, segundo ele, e também com as sucessivas trapaças feita pelos vizinhos do sítio, que eram imigrantes italianos, pois constantemente, mudavam a cerca que dividia as propriedades do lugar, diminuindo a propriedade de meu avô, chegando ao ponto de , certa vez, tentar mudar o traçado da cerca , excluindo de sua propriedade a nascente de água potável, que pertencia ao seu sítio...
Desta forma, com tantas coisas acontecendo que o desagradavam, resolveu sair de casa e ir tentar a sorte em São Paulo. Como músico, tinha como objetivo ingressar na Banda da Força Pública do Estado de São Paulo.
Antes de ir para São Paulo, aos 23 anos, voluntariou-se no movimento revolucionário de 32, para defender São Paulo, contra o governo centralizador do Presidente Getúlio Vargas, mas na época de sua atuação, contaram-lhes outra narrativa sobre o porquê da revolução…O fato é que, para defender São Paulo, as tropas paulistas se embrenharam no mato e por lá ficaram sofrendo toda sorte de dificuldades por alguns meses. Contava que, durante esse período, muitos fazendeiros e sitiantes, favoráveis à revolução, abriram suas casas, para lhes abrigar e para alimentá-los.
Ao final, o movimento foi derrotado, através da rendição das tropas paulistas.
Tempos depois, como dizia, aos 27 anos, dirigiu-se a São Paulo, para tentar a sorte e conseguir uma vaga na Banda da Força Pública do Estado de São Paulo.
Chegando à cidade grande, foi morar com amigos em pensões, aqui e ali, e enquanto não conseguia sua almejada vaga na Banda. Trabalhava onde encontrasse emprego, para garantir seu sustento. Sendo assim, trabalhou no DAE, Departamento de Águas e Esgotos da Prefeitura do Município de São Paulo como carpinteiro, por alguns anos, tendo participado da construção da primeira ponte de madeira sobre o rio Pinheiros ( Ponte Eusébio Matoso) e da construção do antigo Mercado Municipal de Santo Amaro (hoje casa de Cultura Santos Amaro), que tive a alegria de conhecer, quando Coordenava o trabalho das Casas de Cultura de São Paulo, e ver a sua cobertura, que teve a participação de papai na sua construção.
Anos mais tarde , ingressou nos Correios (Ministério das Comunicações) , em São Paulo, onde se aposentou após 36 anos de trabalho .
No Correios, inicialmente e por um longo período, seu trabalho exigia que se deslocasse para diversas cidades e estados, para levar as correspondências e encomendas pela via férrea. Nesse momento, seu sonho de ingressar na Banda da Polícia Militar é deixado de lado, pela necessidade de obter seu sustento , pois logo viria a constituir sua própria família, casando-se em 1946 com mamãe( Natália Carvalho de Castro) filha de retirantes nordestinos, que morava na mesma pensão que papai nesta época.
Quando papai se casou tinha 38 anos e mamãe 19 anos. Mamãe ainda não tinha sua maioridade e como era órfã de pai e mãe e não tinha nenhum responsável por ela, foi solicitado ao juiz a permissão para o casamento e este acrescentou 2 anos à idade de mamãe, para que assim ela pudesse ser responsável por seus atos , agora com sua maior idade ( 21 anos) ,que constava em seus documentos. Apesar disso, mamãe, durante sua vida toda, gostava de frisar que tinha 2 anos a menos ...
Papai conheceu a mamãe na pensão onde moravam, quando minha avó, mãe de mamãe, ainda era viva. Aliás, papai ajudou mamãe desde essa época, pois minha avó faleceu precocemente aos 33 anos. Mamãe ficou órfã muito jovem, aos 15 anos e ainda tinha seu irmão mais novo , sob seus cuidados.
Um ano após o casamento, nasceu meu irmão , Carlos Alberto. Depois de dois anos, nasci, Vera Lúcia, e minha irmã caçula, Márcia Regina, nasceu em 1958, então, era 8 anos mais nova do que eu.
Já conheci papai de cabelos grisalhos e com o passar do tempo foram ficando cada vez mais brancos….Lembro-me de que na escola, ou em casa, as minhas amiguinhas perguntavam sempre se ele era o meu pai ou meu avô… acostumei-me com isso…. Talvez, por isso também , tinha a sensação que papai seria eterno …
Papai era muito dócil, paciente ao máximo conosco e com mamãe.
Quando estava em casa, mostrava meus cadernos para ele e ele pacientemente os via. Quando tive aulas de música na escola , ele me ajudava também com as notas musicais, pois tinha grande conhecimento de música. Aliás, papai , estando sentado , ficava sempre dedilhando, pois este é o vício de quem toca algum instrumento. Nunca se esqueceu desse seu aprendizado, que por injustiça do destino e necessidade de sobrevivência, não pode seguir carreira ….
As lembranças que tenho de meu pai são carregadas de boas energias, de amorosidade, de afeto, alegria, riso fácil...Adorava conversar, falava com todo mundo, muito simples, muito humilde, trabalhador, cumpridor de seus deveres. Muitas vezes sentiu-se prejudicado no trabalho por sua bondade. Aceitava as coisas com elas eram. O oposto de mamãe, que dava um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair…quando o sangue Pernambucano lhe subia nas veias….. Não “deixava nada barato” e sempre enfrentava as situações de conflito com muita argumentação e astúcia. Todos a respeitavam, por sua clareza de idéias e determinação.
Com mamãe, sua paciência era infinita e se havia algum desentendimento, deixava de lado e continuava como se nada tivesse acontecido. Apesar de ter nascido no início do século XX e ter tido uma educação que fazia diferença entre meninos e meninas, desde muito pequeno foi obrigado a cuidar de suas coisas e não se apertava com o trabalho de casa. Ajudava sempre na cozinha, quando estava em casa, fazia comida, lavava louça , ajudava sempre mamãe nos afazeres domésticos. Muito prestativo, vivia consertando coisas que não funcionavam bem, gostava de plantar e cuidar da nossa horta, o que fazia sempre junto com mamãe.
Desde muito pequena me acostumei com a rotina de viagens do papai. Normalmente ficava de 4 a 5 dias fora de casa, pois trabalhava na entrega de malotes dos correios nas diversas cidades de diversos Estados do País. Lembro-me de minha alegria quando ele chegava e minha curiosidade para saber o que havia trazido em sua mala. Papai tinha uma Pasta ( mala de couro), onde levava sua primeira marmita ( depois comia nas pensões da vida, onde estivesse), e na volta, sempre trazia produtos típicos da região. Eu adorava o cheiro da mala de papai, pois trazia sempre pães diferentes, geléia de mocotó, linguiça da região, salame, queijos, compotas e doces caseiros…era uma festa….
Sempre almejei ter uma mala como a dele e em dada época, papai encomendou ao sapateiro, Sr. José, uma mala para mim. Lembro-me que várias vezes por semana ia à sapataria perguntar se minha mala estava pronta, até o dia em que o sapateiro me entregou. Fiquei felicíssima e tinha o maior orgulho de ir à escola com minha mala de couro.
Eu brincava, em casa, muitas vezes sozinha. Gostava muito de plantas e pedia mudinhas ( plantinhas novas) para a mamãe e as plantava em latinhas de óleo, que papai abria e dobrava a parte aberta para fixar no nosso muro ao lado do tanque. Diariamente regava minhas plantinhas e meu conjunto de plantinhas ia sempre aumentando com a colaboração de papai.
Como tínhamos um grande quintal, inventava brincadeiras ,montava uma casinha num espaço que posteriormente passou a ser um galinheiro. Neste espaço montei uma pequena cozinha. Papai fez panelinhas para mim, com latinhas e colocava cabinhos feitos com partes de cabo de vassoura.. Ele martelava cuidadosamente as bordas das latinhas para que eu não me machucasse. Eu ficava entretida muito tempo, fazendo “ comidinhas” com pequenos chuchus que apanhava no pé, ou abobrinha, ou cenoura. Lavava -os , cortava-os e os cozinhava com fogo de lenha ( pequenos gravetos). O único tempero que usava era o sal e depois de pronto, chamava papai para vir almoçar.. Papai sempre atendia o meu chamado e comia o que eu tinha feito, dizendo sempre que estava muito bom, apesar do cheiro de fumaça da lenha queimada… Pacientemente, ele se sentava e comia minha comidinha...
Quando entrei na escola, papai gostava sempre de ver se eu já estava escrevendo e me ensinava várias coisas. Lembro-me que uma vez , chorei muito, porque lhe fiz uma uma pergunta e não conseguia entender sua resposta, ou melhor, eu não conseguia me fazer entender…
Anos mais tarde, percebi o porquê. A pergunta era a seguinte:
Papai, Estados Unidos se escreve com Z?
Papai respondia: -Não!
E eu não entendia, Perguntava novamente; então é com S? Papai dizia;- Não!
E aí eu já começava a chorar…. Anos depois entendi porque eu fazia esta pergunta… Perguntava , porque, na fala , dizemos, Estados + Unidos, em que o \\\"S\\\" soa com o som de Z, mas são duas palavras que se grafam separadamente. Daí também o meu esforço e minha preocupação, já adulta, no exercício de minha profissão de professora, para compreender muitas das perguntas que meus alunos me faziam, que para mim, muitas vezes não tinham sentido, mas que para eles eram muito coerentes. Com isso aprendi a me colocar no lugar do outro, para entender seus questionamentos.
Este fato também me fez lembrar de um episódio, contado por uma querida amiga, Professora alfabetizadora, Midori, que certa vez me relatou o seguinte: Ao propor a prova mensal aos alunos, havia colocado questões de matemática, formulações e pedia:
Arme e efetue.
Disse-me que um dos alunos começou a chorar muito e ela , muito dedicada e carinhosa, aproximou-se dele e lhe perguntou porque chorava. O menino lhe respondeu: - Estou chorando porque eu só sei o Arme e não sei o Efetue….
A partir daí , esta professora começou também a fazer este exercício de tentar pensar como o aluno pensa, e muitos pensam diferente, para inclusive poder explicar, pois enquanto o professor disser uma coisa e o aluno entender outra ou não entender o que se pede, não há processo de aprendizagem,, muito pelo contrário….. Muitas vezes o aluno não aprende porque falamos uma outra língua, o processo fica truncado e pode vir daí o desinteresse que ocorre pela escola...
Mas, voltemos à história de Papai!
Ele gostava de contar histórias e não só as contava, mas interpretava a voz dos personagens e eu ria, ria muito….Às vezes, se a história era de fazer medo, ficava com muito medo, principalmente na hora de dormir. Sabia várias histórias de cor e ficava muito feliz quando ele me contava de novo, aliás, pedia a ele que contasse tal e tal história e eram momentos muuito felizes...
Com papai aprendi muitas cantigas populares, histórias que se contava no sítio, papai cantava e me fazia rir muito. Nunca vi meu pai zangado comigo. Às vezes , na adolescência, falava sério, mas logo voltava” às boas” e o que queria mesmo, era só me aconselhar.
Eu, apesar de criança, ficava observando muito o comportamento de papai, pois enquanto ele estava sempre calmo, resignado, mamãe era um vulcão em efervescência… Conflitos, como já disse, não havia, porque papai fazia tudo para que reinasse a harmonia em casa.
Crescemos!
Depois de 8 anos nasceu, Márcia, minha irmã mais nova. Eu nunca desconfiei e ninguém nunca me falou nada sobre a chegada de um bebê em nossa casa. Eu via a mamãe com roupas largas e sempre costurando, bordando, mas não sabia qual a finalidade. Um dia , papai estava em casa, e saiu logo pela manhã. Mamãe ficou deitada na cama. Quando papai chegou, trouxe consigo uma senhora, coque nos cabelos, saia preta justa , sapato preto de salto grosso e com uma maleta nas mãos. Papai entrou em casa com a senhora e me pôs pra fora.
Não entendi nada. Às vezes, olhava pelo buraco da fechadura, mas não via nada.. Tempos depois, a porta se abriu e pude entrar. Fui direto para o quarto ver mamãe.
Mamãe continuava deitada e ao seu lado havia um bebê.
Mamãe me disse. Essa é sua irmãzinha…. Fiquei olhando, pedi pra carregar no colo e fiquei imaginando o dia em que ele pudesse se sentar ao meu lado, que feliz eu seria.
Para mim, por muito anos, achei que a senhora havia trazido minha irmã na maleta…
No dia seguinte, fui à escola e a professora me perguntou por que havia faltado.
Disse-lhe: Chegou um bebê lá em casa!
Ela falou:- Não sabia que sua mãe ia ter bebê…
Respondi: – Nem eu…
Os acontecimentos em casa ficavam sempre em segredo. Não se conversava perto de crianças e nós não ficávamos sabendo de nada. Quando, raramente, saímos para visitar algum parente ou amigos de papai e mamãe, só ficávamos sabendo onde íamos, quando chegávamos à casa da pessoa. Mamãe dizia que não nos falava antes, para que não contássemos aos vizinhos… Então, o fato de mamãe estar grávida e a futura chegada do irmãozinho ou irmãzinha também ficaram em segredo… Não sei como meu irmão, que era dois anos mais velho que eu, ficou sabendo e se sabia de algo... o fato é que nunca conversamos a esse respeito.
Com o nascimento de Márcia, nossa vida mudou. Mamãe dedicava-se 100 por cento do tempo a ela. Infelizmente, depois de dois anos, apareceram crises de bronquite e mamãe era só cuidados e tratamentos mil para ver se a doença desaparecia.
Não desapareceu e trouxe muito sofrimento e limitação à minha irmã e grande preocupação à mamãe.
Papai era muito esforçado. Quando era ainda bem pequena, morávamos de aluguel, mas logo que surgiu uma oportunidade, papai comprou um terreno na periferia e construiu nossa casa, em sistema de mutirão, com os amigos . Fez o básico e aos poucos foi melhorando a casa , já com nossa presença. Eu tinha muito medo de que acontecesse alguma coisa com ele. Achava que os cabelos brancos eram indicativos de vida curta, ao mesmo tempo que achava que seria eterno, pois sua fisionomia não mudava. Sempre com os cabelos cada vez mais brancos, pele lisinha, sem nenhuma ruga, como o conheci…Mas papai, apesar dos episódios de doenças que teve pela vida, sempre se mostrou forte. Muitas vezes foi trabalhar doente, tinha quadros de hemorragia estomacal e mesmo assim ia trabalhar, quando os médicos do Instituto de Previdência ( Ipase) lhe negavam licença, mesmo não tendo condição de voltar ao trabalho.
Algumas vezes precisou ser hospitalizado e chegou até a fazer uma cirurgia. Como a distância de tempo entre a agenda da cirurgia e a cirurgia propriamente dita era sempre grande, por causa dessa hemorragia estomacal, foi agendada uma cirurgia do estômago, mas quando abriram o abdômen o médico constatou que só a havia uma cicatriz de alguma úlcera que havia cicatrizado com o tratamento. De qualquer forma, papai ficou com um grande corte no abdômen e teve que se recuperar, para voltar a trabalhar. Os médicos disseram que sua úlcera era de cunho nervoso, por isso havia desaparecido. Então, quadros de sangramento papai sempre teve e ia controlando-os com medicamentos e assim foi o tempo todo.
Quando tinha 8 anos, papai fez um pequeno caixote, para que eu o colocasse em frente da pia e subisse nele para lavar a louça. Desde pequena fui acostumada a fazer o serviço doméstico. Ajudava a mamãe sempre que ela mandava. Quando mamãe foi trabalhar fora de casa e papai estava em períodos de convalescência, mas já trabalhando, porque os médicos do Instituto de previdência eram muito injustos e lhe negavam licença, mesmo ele não tendo condições de trabalhar, eu preparava a comida para ele levar, pois não podia comer nada fora de casa.
Lembro-me de algumas vezes, papai dizer pra mamãe que havia passado mal na rua ou no trabalho e tinha sido obrigado a ficar deitado para melhorar… essas lembranças do sacrifício que papai fazia para “ganhar o pão de cada dia” me deixavam muito triste e preocupada com sua situação…
Hoje, já vivida e aposentada, agradeço a ele e a toda a minha ancestralidade pelas dificuldades que passaram na vida , para que hoje eu pudesse ter uma vida melhor…
Papai era o homem dos conselhos. Quando achava que as coisas não iam bem, fazia sermões , como seu pai também costumava fazer. Depois de muito tempo, deixou de viajar e ficou trabalhando no correio central de São Paulo, aposentando-se com 36 anos de trabalho. Por ironia do destino, ao final de minha carreira de pedagoga, na PMSP, trabalhava na sede da Secretaria Municipal da Cultura, a poucos passos de onde tinha sido o Correio Central, onde papai trabalhou até sua aposentadoria. Hoje é um espaço cultural.
Diversas vezes fiz planos para levar papai ao seu antigo local de trabalho, mas já estava com limitação para caminhar e o tempo foi passando….
Das lembranças que ficaram, tenho comigo a imagem de um homem bom, amoroso, gentil, trabalhador, honrado, justo, generoso, muito religioso, paciente e muito resiliente.
Um Grande Pai!
O pai que amamos porque o amamos, não porque o tememos!
Ainda na ativa, passou por momentos muito angustiantes, no período da ditadura, pois meu irmão era militante político e foi preso diversas vezes pelos órgãos de segurança da ditadura. Papai como era funcionário público, não podia se envolver , então, mamãe tomava a frente e eu a acompanhei diversas vezes e também fui sozinha em busca do paradeiro de meu irmão, levado pela polícia ao DEOPS, ou levado pela polícia do exército ao DOI-CODI, local de tortura e morte de muitos jovens .
Este período foi muito tenso para todos nós, mas papai temia pela vida do filho, pela nossa segurança e também pelo seu emprego, já que era funcionário federal, não podia ter seu nome ligado de forma alguma aos movimentos contestatórios, principalmente porque os Correios, naquele período funesto de nossa história recente, que foi a ditadura militar, iniciada em 1964, com a tomado do poder pelos militares. Nesse período o Departamento dos Correios e Telégrafos teve como diretor Coronel do exército.
Papai era um homem trabalhador, cumpridor de suas obrigações e tendo trabalhado desde os 8 anos de idade, não entendia como era possível o filho estar envolvido na luta política e não trabalhando acomodadamente em uma empresa qualquer, como o faziam os filhos de muitos seus amigos. Os vizinhos, que percebiam a movimentação em casa, depois comentavam à boca pequena:” Deveria estar trabalhando para ajudar o pai…”
Este triste período da nossa história nos trouxe muito sofrimento. Meu irmão foi preso e torturado muitas vezes e depois condenado a prisão em regime fechado no Presídio Tiradentes, onde íamos visitá-lo ( eu e mamãe). Papai não ia, pelos motivos expostos e minha irmã ainda era uma criança.
Depois desse período, anos depois, aposentou-se aos 36 anos de trabalho e ficou vivendo de suas memórias do trabalho e ajudando mamãe nos afazeres domésticos .
Com meu casamento e depois com o casamento de meu irmão, ele e mamãe ficaram morando somente com minha irmã e mesmo assim em períodos alternados. Moraram muito tempo só os dois em SP e no interior, pois como meu irmão havia se casado e mudado para o interior, quis ir também, satisfazendo a vontade de mamãe de ficar perto do filho mais velho, já que as coisas da cidade grande, principalmente o trabalho, já havia sido concluído e mamãe também já havia conquistado sua aposentadoria.
Em 1972 chegou sua primeira neta, Denise, minha primeira filha e trouxe alegria para a família. Mamãe, que era costureira, fazia-lhe muitas roupinhas e a presenteava sempre. Nesse período , mamãe e papai me ajudaram muito, pois eu fazia faculdade à noite, quando Dê nasceu. Morávamos em cidades próximas, mas diferentes e por um tempo levei minha filha para a casa de meus pais, para que eles cuidassem dela, para eu ir à faculdade.
Neste período, os dois trabalhavam. Papai chegava primeiro e era com ele que eu deixava minha filha, até que mamãe chegasse. Depois, pedi transferência para o período diurno e mamãe ia à nossa casa ficar com ela, por um período.
Ao longo de minha carreira de professora, muito mamãe me ajudou, sempre que tive problemas com as crianças, mamãe me salvava.
Quando as crianças já eram mais crescidas, meus pais estavam morando agora perto de nossa casa, então, houve um período em que papai, já velhinho, ia esperar minha filha mais nova no ponto de ônibus escolar, pois eu chegava do trabalho na escola mais tarde.
Minhas filhas, Denise e Janaína tiveram uma boa convivência com papai e mamãe. Papai contou-lhes histórias, que também contava pra mim quando criança e alguns jogos de palavras, até hoje repetidos pelas duas. Era um avô muito alegre e gentil e lhes deixou boas recordações. Depois desse período, mamãe resolveu morar no interior e papai já estava com mais de 80 anos quando voltou a morar em sua cidade natal, Lindóia, onde ainda se encontrava parte de sua família original.
Em São Paulo ficamos eu minha família e minha irmã que morava e trabalhava por aqui até sua aposentadoria,
Infelizmente , nessa volta ao interior, que nos parecia ser um reencontro feliz com suas origens, com uma vida calma, reencontrando velhos amigos e próximo de seus familiares, que mamãe tinha adotado como sua família também, um dia, aconteceu uma tragédia com meu irmão, pois sofreu um acidente gravíssimo e perdeu a vida, na estrada que liga Itapira a Amparo, quando ia dar aulas naquela cidade.
Este fato trouxe uma imensa desestruturação familiar em todos os sentidos ...
Era inimaginável para qualquer um de nós, em especial para mamãe e para papai também, ver seu filho vítima desta tragédia. Papai ficou muito abalado, mas parecia forte, para dar suporte à mamãe, que ficou irremediavelmente destruída.
De lá para cá, meu esforço foi sempre o de tentar “ catar os cacos”, como se costuma dizer. Junto com meu irmão, foi embora a alegria da família. Parte da vida de papai e de mamãe se foi com a ida de meu irmão. Mamãe perdeu a vontade de viver e papai ficou absolutamente triste, mas parecia resignado com o destino do filho, para poder dar suporte à mamãe, mas ficou triste, muito triste… Seu sofrimento era infinito ao ver mamãe definhando a cada dia ...
Em situações como essa, balançava a cabeça, olhos marejados e dizia : Que coisa!!!
Papai era muito católico. Rezava todos os dias e ia à igreja sempre que podia. Tinha seu momento de orações profundas e achava que tudo o que acontecia eram os desígnios de Deus..Sofria em ver o sofrimento de mamãe…
Papai teve 6 netos e 3 bisnetos. Dentre os bisnetos, 2 gêmeos, ( Lucas e Nicolas) e Isabela, filhos de minha filha mais nova, Janaína.
Viveu para ter a alegria de carregá-los no colo e ver o início de sua infância.
Também pode conhecer a filha mais nova de meu irmão, já falecido, ( Luita), acolhida em nossa família como a memória personificada de seu filho.
No final de sua vida, contava vários “ causos “ ocorridos em seu tempo de trabalho nos Correios ou então, acontecimentos familiares, da época do sítio em Lindóia.
Tivemos a alegria de comemorar os seus 100 anos e ele estava forte e feliz!
A memória, às vezes, falhava ,mas em grande parte do tempo era lúcido, animado, alegre.
Faleceu perto de completar 101 anos, de um acidente bobo em seu quarto.
Deus quis que não se submetesse à cirurgia, como estava sendo preparado e ele nos deixou no segundo dia após seu acidente.
Ficar sem o nosso pai é como se faltasse uma parte de nós...
Por sua bondade, dignidade, tolerância, e carinho que tinha conosco, permanece vivo em nossos corações.
Dias antes do acidente, me chamou e me avisou:
Vera, estou indo!
Disse -lhe : Para onde, papai?
Deixa disso!
O Senhor está forte e firme e rimos muito…..acho que foi nossa última risada juntos…
Mas, papai Vive!
Está comigo, está com minha irmã em todos os momentos, olhando por nós e sentindo-se feliz quando estamos felizes. Seus ensinamentos, seus exemplos, sua dignidade, honradez, lealdade , alegria e bondade, são inesquecíveis.
De papai herdei, o compromisso e o gosto pelo trabalho, a honradez, o bom humor, a alegria, a fala fácil, a arte da comunicação.
Faço aqui minha homenagem , neste dia 20 de outubro, quando completaria 113 anos.
Papai vive em mim!
Papai vive em Nós!
Gratidão eterna por ter sido um bom pai dentro de suas possibilidades.
Sua imagem está eternizada em nossa memória, e agora neste registro .
Em minha memória guardo as melhores lembranças do papai e de tudo que se referia a ele. Meu único avô que conheci foi o pai de papai. Não conheci minhas avós. Papai ficou órfão muito cedo, ainda criança, como disse acima e mamãe ficou órfã com 15 anos. Como referência de avó tinha a segunda esposa de meu avô a quem chamei de madrinha a vida toda. Quando criança, íamos algumas vezes por ano ao sítio em Lindóia. Ficávamos alguns dias e lá brincávamos com nossos primos que lá moravam.
Era um mundo desconhecido para nós. Andávamos o dia todo, palmilhávamos o sítio, passávamos de um sítio a outro por baixo das cercas, colhíamos frutas maduras e comíamos sentados embaixo das árvores . Visitávamos outros tios que moravam em outros sítios, fugíamos de bichos que encontrávamos, corríamos de bois bravos, tomávamos banho na cachoeira , tomávamos chuva e voltávamos para casa ao final do dia. Madrinha Izaura ficava de cabelos em pé”. Tinha medo de que alguma coisa nos acontecesse, pois não estávamos acostumados com a realidade da roça.´”
Por desconhecimento daquele novo mundo, ficávamos cheios de carrapatos, que meus tios tiravam, com álcool, cuidadosamente de nossas pernas e também sofri algumas vezes com queimaduras de aroeira, que não conhecia e na correria passava por perto e resvalava as pernas em suas folhas.. Tudo isso era “ curado” pela madrinha, que era benzedeira e fazia os benzimentos nos locais afetados e dia seguinte já estava pronta para mais aventuras.
A cada ano vovô vinha nos visitar em São Paulo. Era paciente como papai e o que mais gostava de fazer era pentear seus cabelos (era a única neta a quem ele permitia essa proximidade..)
Quando vovô se foi tinha 18 anos e pude acompanhar sua velhice, seu esquecimento paulatino de nós… Quando o visitava , conversávamos bastante, mas de uma hora para outra ele me perguntava:
-Você é filha de quem mesmo? Assim percebia seu distanciamento dia a dia… Faleceu aos 89 anos .
A família de vovô foi a que conhecemos por família, com origem, com história, muita gente, muitos primos, casa cheia, muita conversa, cantoria de violeiras à noite, e muita solidariedade.
Depois do casamento, mamãe a adotou também como sua família e considerava os irmãos de papai como seus irmãos.A família de papai acolheu e sempre respeitou mamãe como parte integrante, desde sempre.
Vovô Olegário era o festeiro da cidade e sempre era encarregado pela organização das festas religiosas e da tradicional “ Congada” da qual fazia parte e era o seu grande prazer . Dançava e preservava a cultura de nossos ancestrais. Madrinha Izaura era parteira, e fazia o seu trabalho a qualquer hora em qualquer lugar para onde fosse chamada. Atualmente, meu avô tem seu nome inscrito na História de Lindóia, pois dá nome a uma de suas ruas, “ Rua Olegário de Castro” e Madrinha Izaura dá o seu nome ao Posto de Saúde da cidade. Posto de Saúde Madrinha Izaura.
De sua ancestralidade, só tenho a informação de que meu bisavô, Severiano Matheus de Castro, mesmo sendo livre, quando foram morar no Sítio do Mosquito, não se acostumou com a vida em liberdade e voltou à fazenda de origem. Como não podia aparecer, se mostrar, pois a fazenda não podia mais ter escravos, por força da lei, viveu o resto de seus dias, embrenhado no mato, alimentado pela natureza e por alguns ex-escravos que ainda trabalhavam na propriedade, agora sob outra relação de trabalhista ( pelo menos essa é a história que chegou até nós).
Concluindo ;
Aqui está a história de papai ; SIMÃO DE CASTRO, um homem digno, trabalhador, que amou, lutou, sofreu, trabalhou a vida toda e cuidou de sua família com muito carinho, esforço e honradez!
Saudades e Gratidão eternas!!!
Vera Lúcia Aparecida de Castro Dobbeck ( nascida Castro)
Recolher