Projeto Turismo Comunitário
Entrevista de Vânia Lima Macedo Borges
Entrevistado por Lucas Torigoe, Gabriel Ribeiro e Janaina Moura
Paracatu, 07/06/2026
Entrevista n.º: TCP_HV001
Realizado por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revisada e editada por Ane Alves
P1 - Entrevista de Vânia Lima Macedo Borges, entrevistada por Lucas Torigoe, Gabriel Ribeiro e Janaina Moura.
R - Meu nome é Vânia Lima Macedo, nasci aqui em Paracatu (MG), na data do dia 27/04/1979.
P1 - Legal! E você Vânia, você nasceu em hospital, ou nasceu na sua casa?
R - Hospital. No Hospital Municipal.
P1 - E o seu pai, sua mãe, alguém falou como é que foi a sua gestação? Como é que foi o dia em que você nasceu?
R - Então, minha mãe… Esse relato, ela fala que por incrível que pareça, eu nasci a menorzinha, eu nasci com 2,5 KG (dois quilos e quinhentas gramas). Eu tive pneumonia de pequena, quando eu nasci, porque eu nasci muito pequenininha, ao contrário dos outros irmãos. Meus irmãos tudo era de 3,7 Kg (três quilos e setecentas gramas), o último quase 5 KG (cinco quilos). E eu fui a menorzinha. E hoje estou quase a maior dos irmãos. Mas enfim, fui a menorzinha, eu sou a quarta filha, eu sou de seis irmãos, dois homens e quatro mulheres. E nasci aqui em Paracatu mesmo e com o parto normal, de seis irmãos.
P1 - E me conta uma coisa, como é a família da sua mãe? Eles são daqui, não são? O que eles fazem?
R - Isso. A família da minha mãe é pequena, é daqui. A minha mãe é filha de mulher filha única e mais três irmãos, que é o Benedito, o tio... Ixi, será que eu vou lembrar o nome dele? Porque na verdade ele é um caso assim, bem, bem triste, porque ele desapareceu, sabe? A gente chamava ele de Crioulo. Ele tinha um problema de bebida alcoólica, e aí ele desapareceu. E a gente perdeu extremamente o contato dele, sabe? E tio Dito, que é os dois homens e minha mãe de filha mulher.
P1 - E essa família da sua mãe, os seus avós trabalham com o quê? O que eles faziam da vida?
R - Então, a minha avó… Na verdade, esse relato se a minha avó trabalhava, eu não vou saber te falar direito. Mas eu lembro, quando eu fui crescendo… Inclusive, eu até, como minha mãe é filha única, e minha avó teve derrame, ela teve dois derrames. Inclusive ela faleceu com um terceiro derrame. E aí minha mãe construiu uma casa no fundo da casa da minha avó para poder cuidar dela, ficar olhando, cuidando. E aí, a gente cresceu ali junto, minha avó, a casa da frente era da minha avó e no fundo era da minha mãe, é da minha mãe, até hoje. E aí, eu acabava dormindo com ela, sabe? Sempre revezava ali um para poder estar dormindo com ela, porque ela era sozinha, então eu gostava de sempre estar ali com ela, dormindo. Então eu olhava mais, eu tinha um cuidado de ir receber com ela, sabe? E estar ali no dia a dia. Até… Depois quando eu comecei a trabalhar que aí eu tive que sair. E não tinha… Mas eu sempre dormia. Mas durante o dia eu estava trabalhando e à noite eu estava dormindo com ela. A minha avó da parte da minha mãe, ela se chamava Vitalina, e ela teve três derrames. Eu acredito que na época ela era mais empregada doméstica, não tinha muita função de escolaridade, não. E aí teve minha mãe, mais os três irmãos.
P1 - E o seu avô por parte de mãe, você conheceu?
R - Não, não conheci. Não conheci, não.
P1 - Entendi. E vamos falar da família do seu pai, então, agora. Como é que é a família do seu pai?
R - Então, a família do meu pai, a minha avó chamava Lindaura, meu avô eu não conheci. Ela, eu tenho lembrança nítida dela, porque eu era pequenininha quando ela faleceu. Mas quando eu chegava na casa dela, o quintal… Ela morava ali no Paracatuzinho, mas a família dela ainda mora no Paracatuzinho, que é tia Filomena, que morava na frente, que é filha dela. E aí, ela plantava, o quintal grande, plantava verdura, fruta. E na época era plantação de milho, e eu tenho essa nítida lembrança, quando nós chegamos lá, eu e pai, aí ela fez uma sopa e engrossou essa sopa com milho, sabe? E aí eu lembro, como hoje, o jeito dela, ela usava lenço na cabeça, sabe? Lembro como hoje, ela era alta, negra, assim. Aí eu me lembro dela abrindo a porta sozinha, porque ela morava sozinha e a filha morava na frente. E aí eu lembro como hoje, ela abrindo, sorrindo para mim mais pra pai chegando. E aí ela fez essa sopa, sabe? Eu tenho essa lembrança dela assim, muito forte na minha cabeça. E logo assim, de pequena, ela faleceu. E aí a gente… Tenho contato com a família, mas a família do meu pai é uma família grande de irmãos. É assim, a gente tem mais contato sempre quando vai… Esporadicamente, na casa de um e outro, mas nada muito ali ligado, sabe?
P1 - E o seu pai e sua mãe, por acaso você sabe como é que eles se conheceram?
R - Então, meu pai mais minha mãe… Minha mãe trabalhava em Brasília na época e meu pai, eu não sei se ele, se ele estava lá a trabalho, ou se ele se ele morava lá, na época. Mas eu acho que ele não morava em Brasília. Eles se conheceram em Brasília, sabe? E aí eles começaram a namorar lá.
P1 - E qual é o nome da sua mãe?
R - Eva. Eva Lima Macedo.
P1 - E do seu pai.
R - Alfredo José Macedo.
P1 - Legal. E me fala uma coisa, quando você era pequena, assim, quais são as primeiras memórias que você tem, que você consegue puxar para a gente? Você falou da sua avó, por exemplo. Você devia ser bem pequena.
R - Então, a minha casa é uma casa de muitos irmãos, então era assim, muita farra. Meu pai trabalhava de caminhoneiro, tanto que ele se aposentou como caminhoneiro. Então, assim, ficava minha mãe durante a semana em casa, e a gente ficava naquela expectativa sempre, quando meu pai voltava de viagem, aquela ilusão, quando parava o caminhão na porta, e ele chegando. Então, assim, eu tenho essa memória boa. E sempre quando ele chegava era aquela festa, eu falo que o meu pai é muito animado. Eu falo que um quilo de carne na churrasqueira é festa para ele, sabe? Então, assim, ele trazia assim, por ele ficar dias fora de casa, então quando ele chegava era aquela festa, era aquela alegria. E é até hoje. Mas eu tenho essa memória de quando ele chegava de viagem, sabe? Ele trabalhava com caminhão verde, um verde abacate, então era bem assim, chamativo. Então, quando ele parava na porta assim, a gente via assim, alcançava essa alegria, sabe?
P1 - E ele viajava para onde? Levava o que?
R - Na época, era carvão, então ele ficava, né, para todo Mato Grosso, Belo Horizonte, São Paulo. Então ele viajava bastante.
P1 - E ele contava histórias das viagens dele para vocês? Vocês perguntavam? Como é que era?
R - Não. Até que assim, sobre o contar das viagens, não. Mas assim tinha os relatos, as conversas dentro de casa, quando a viagem era mais difícil, ou quando a viagem era mais fácil, sabe? Tinha assim, esse momento de fala, mas eu era muito pequena na época, então a gente era muito dispersa, muitas vezes nem parava para sentar, para poder estar, assim, tendo essa conversa.
P1 - E a sua mãe? Ela era do lar ou ela trabalhava fora também?
R - Então, minha mãe, ela era empregada doméstica. Hoje ela é aposentada. Ela teve que sair cedo, então, assim, os irmãos, os mais velhos, cuidavam dos mais novos. Tanto que quando minha mãe saiu para trabalhar, a minha última irmã, a Daniela, ela tinha um ano de idade. Então, assim, quando ela saiu do trabalho, que ela aposentou, minha irmã tinha 15 anos de idade. Então, assim, a gente que praticamente cuidava. Eu lembro como hoje, que a minha irmã, eu tenho uma afinidade muito grande com ela, porque ela sempre tinha muito medo, medrosa, sabe? Medrosa de tudo, quando falava assim: “Ah, faleceu fulano de tal no bairro.” Aí ela não dormia, sabe? Aí ela chegava em mim, falava: “Vânia, Vânia, deixa eu dormir com você.” E eu sempre fui grande, eu falava: “Daniela, mas vai ficar apertado.” Ela: “Não tem problema não.” Ela quase se enfiava debaixo de mim, para ela poder conseguir dormir. Então, assim, toda vez quando falava assim: “Ah, fulano faleceu.” Ela tinha essa dificuldade para dormir. E aí, ela sempre dormia comigo, sabe? Então ela fala que eu sou a irmã mãe, sabe? Porque, assim, foi um decorrer, mãe sempre trabalhando, porque era necessário, ela teve que sair para trabalhar. E eu cuidava muito. Então eu cuidava de pentear o cabelo. “Daniela tá na hora de tomar banho.” Então, assim, cuidava mesmo. As funções de irmã mais velha, né?
P1 - E como é que era esse dia a dia de vocês? Por que eram seis irmãos, é isso?
R - Seis irmãos, quatro mulheres e dois homens.
P1 - E como é que era esse dia a dia de cuidar de um... Alguém cuidava de você também? Como é que foi isso?
R - Então, eu tenho a irmã mais velha, a Kênia, e meu irmão mais velho, Emerson. Eu lembro que era esse cuidado mesmo de um com o outro. Minha mãe saía… Eu falo que a mãe da gente conhece a gente melhor do que nunca. Minha mãe saia, antes de trabalhar ela delegava as funções durante o dia, o que tinha que fazer: “Vânia, você vai cozinhar.” “Kênia, você vai lavar roupa, vai organizar a casa.” Mas não era aquela obrigação, porque a gente era tudo pequeno, mas a gente tentava organizar as coisas para quando ela chegasse, estava ali, mais ou menos, não ficasse tão sobrecarregado para ela. Porque trabalhar fora não é fácil, e de doméstica também não é fácil. Minha mãe já é uma senhora de idade. Então, a gente tentava chegar em casa, e organizar a casa, para que ela chegasse, estava mais tranquilo para ela, a casa estar mais em ordem. Então, era aquilo mesmo, era um irmão cuidando do outro, um irmão fazia... “Hoje vamos fazer uma merenda.” O outro: “Ah, vou fazer um café.” E aí vai, ali… Eu falo que na maioria das famílias, com condição financeira que as mães precisam sair, os pais precisam sair, eu acho que é isso mesmo que acontece no dia a dia.
P1 - E me conta uma coisa, você falou da casa, essa casa, onde que ela é? Em que bairro é? Ela existe até hoje?
R - Então, a minha mãe… Nós moramos de aluguel a vida toda, então a gente ficava ali de tempo em tempo, em cada bairro. O último bairro, a gente morou lá no Nossa Senhora de Fátima, e minha avó mora no Nossa Senhora de Fátima, ela tinha a casa dela no Nossa Senhora de Fátima. E aí, a minha mãe falou um dia: “Não, chega de morar de aluguel, vamos fazer aí, construir o que tiver. A gente vai construir para poder eu sair fora do aluguel.” Aí, eu lembro que um amigo da minha mãe, até deu umas tábuas para ela, e aí ela fez um barraco de madeira mesmo, sabe? De madeira, era só uma entrada, eu lembro como hoje, era uma entrada e duas janelinhas. E fez um quadrado, e esse quadrado, a gente dividiu, o quarto da minha mãe, com lençol, o nosso quarto com outro lençol, e a cozinha com as costas do armário. Aí, a cozinha ficava dividindo o nosso quarto, que já era a cozinha e a sala. Então, era tudo nesse quadradinho. A gente morou bem um tempo. Eu falo, nossa, que tempo gostoso, viu? Hoje eu olho… Meu irmão tem isso, eu vou ver se eu consigo a foto desse… Eu falo que é um barraquinho de tábua. Nessa época a gente era tudo muito pequeno, era uma fase bem complicada, bem difícil. Mas eu falo que meu pai mais a minha mãe, eles honraram, sabe? Eles nunca deixaram a gente passar fome. A gente já teve vontades, mas passar fome, não. Eu até me emociono porque não é fácil, né? Mas eles honraram muito, porque a vida era muito difícil, era muito complicada financeiramente. Vou tentar não chorar, tá gente?
P1 - Fica à vontade, se você quiser que pare também....
R - Não, tranquilo. E assim, aí minha mãe foi, e no decorrer do tempo, minha mãe mais o meu pai foram construindo na frente. Eles construíram o barraco lá no fundinho, para que no meio eles viessem a construir a casa mesmo. E aí, foi isso, eles foram construindo no decorrer do tempo. Hoje minha mãe já mora na casa dela, mas o meu pai, né? Uma casa que foi com muita luta, com muito suor deles dois, porque na época não tinha dinheiro nosso, porque a gente era pequeno. Então, assim, foi realmente suor dos dois mesmo, sabe? E aí, eles construíram a casa e até hoje eles moram lá nessa casa.
P1 - E essa casa em que bairro fica?
R - No Nossa Senhora de Fátima, na José Joaquim de Moraes. No número 318, vó, e no 324, mãe, que é no mesmo lote.
P1 - É nessa rua que a gente tá, então? É isso?
R - Não, aqui nós estamos no Alto do Córrego, na José Joaquim de Moraes. Lá é Rua Professor José Botelho Filho, no Nossa Senhora de Fátima.
P1 - Você quer…?
R - Ah, obrigada.
P1 - E quanto tempo durou até vocês criarem uma casa de tijolo?
R - Então, eu acredito que... Você me fez uma pergunta difícil, porque eu acredito que foi dentro de uns três anos, quatro anos, sabe? Foi construindo devagar mesmo, porque minha mãe, empregada doméstica... O que sobrava, né? Porque era o que sobrava. Eu falo que minha mãe, ela é uma mulher assim, que ela transforma cem em mil, sabe? Aquela mulher sábia, mulher cuidadosa, aquela mulher que pensa, sabe? Ela pensa muito antes de fazer. Então, eu falo que eu queria, quando eu crescer, quero ser igual a ela, porque ela é muito… Ela administra muito bem, ela pensa muito antes de fazer as coisas. Não que meu pai não faça isso. Meu pai, na época, ele ganhava melhor, porque era caminhoneiro, depois ele passou para motorista de ônibus em Brasília, e aí já era um serviço mais fichado, uma coisa mais segura. E aí, foi juntando o dinheiro dos dois para poder estar construindo lá. Então, foi assim, foi uma junção mesmo de longo tempo, mas… É tanto, que minha mãe veio terminar de pintar há pouco tempo atrás, sabe? Então, assim, vai fazendo aos poucos, mesmo, conforme a necessidade maior vai organizando aquilo, sabe? E é isso.
P1 - E você tinha que idade mais ou menos quando vocês foram morar nessa casa de madeira?
R - Eu acredito que uns dez, onze anos. Uns dez, onze anos que eu tinha.
P1 - E me conta uma coisa, vocês tinham essa divisão de tarefa, mas vocês brincavam do quê nessa época?
R - Ah, brincava. Eu era rueira, né? Nossa, minha mãe brigava comigo todo dia. “Vânia, para de ir para casa dos vizinhos.” “Vânia para de ir para a rua.” Porque eu era muito rueira. Minha mãe, ela é extremamente reservada, ela passa o que tiver dentro de casa, vizinho nenhum sabe. Se falta o açúcar, se falta o ovo, falta o que tiver, mas ela está ali, dentro da casa, ninguém sabe de nada o que está passando. E eu não, eu: “Mãe, eu vou lá no vizinho pegar o ovo, mãe.” Sabe, aquela comunicação. Eu lembro como hoje, é tanto que eu conheço a mentira, porque a minha vizinha, dona Julinha, eu não esqueço dela. E todo dia, três horas da tarde, ela fazia uma mentira. Mentira, é um biscoito frito, nossa, é um cheiro... Eu sinto o cheiro do biscoito! E aí, eu sabia que às três horas da tarde, ela coava, para os filhos e para os netos, o biscoito. E eu chegava todo dia três horas da tarde, maior cara lerda. E eu chegava e ela olhava para mim, tipo assim: “Gente, mas não tem paz para Vânia.” Eu sentava e começava a conversar, porque as filhas eram minhas amigas, e ali eu tomava o café, comia a mentira e tomava o café, sabe? Amava, sinto assim… Minha boca enche de água ainda, de lembrar. Então, assim, minha mãe, voltando na minha mãe, minha mãe é muito reservada. Quando ela estava em casa, era muito dentro de casa, organizando as coisas. E eu, igual estou te falando, eu era muito rueira, sabe? Minha mãe brigava, minha mãe: “Vânia, para de ficar na casa dos outros, Vânia.” Agora, minhas outras irmãs, não, minha irmã mais velha e extremamente reservada, sabe? Quietinha não é de sair. Minha irmã mais nova também. A Alessandra já é mais esparolada, assim, de conversar, de rir, comunicativa. Tudo para ela, se a gente está no meio assim, a gente está rindo junto com ela, porque ela passa, ela contagia, então, assim, Alessandra é bem comunicativa mesmo. Mas é tudo entre nós mesmo, e ali o quintal era grande, então a gente ficava ali, entre o quintal. Não tinha nem muita boneca para poder estar brincando, porque não tinha muita condição de estar comprando boneca. Eu lembro também, de falar em boneca, que meu pai viajou, e aí ele, na viagem lá, ele teve condição de comprar uma boneca para cada uma de nós. E essas bonecas bebês, essas boneconas da Estrela, bebê. E meu pai, o sonho dele era comprar uma boneca dessa para cada uma de nós. E aí, ele foi e comprou, ele comprou uma branquinha para minha irmã mais velha, maior, porque ela era a grandona. E comprou para mim, Daniela e Alessandra… Para Alessandra e Daniela, comprou também as três branquinhas, e para mim, ele falou que viu essa boneca lá, bebê, e ele apaixonou, que viu e olhou. Disse que viu aquela boneca bebê preta, aquela boneca bebê bem pretinha. E quando eu peguei essa boneca, eu olhava para minhas irmãs e olhava a boneca das minhas irmãs, todas branquinhas, rosa, com a bochecha rosa. E eu falava: “Pai, mas por que o senhor não me deu a boneca igual a das minhas irmãs?” Aí o pai falou assim: “Vânia, porque quando eu vi essa boneca, eu te vi, sabe?” Assim, aquela bonecona preta, grande, sabe? E aí, eu fiquei, eu tive receio na hora, de pegar a boneca, de brincar com a boneca. Mas a minha boneca era a que mais chamava a atenção de todas as três bonecas, porque realmente era a mais bonita, sabe? Ela era mais bonita. Na hora que a gente saía, às três irmãs com as bonecas no braço, todo mundo olhava para as outras, mas falava: “Gente, olha que boneca linda!” Que era a minha, sabe? E aí, foi. Eu falo que marcou muito quando ele chegou com essas caixas de boneca lá em casa. Ficou marcado mesmo.
P1 - Que mais que ele trazia, ele trazia muitas coisas diferentes de viagem? Vocês pediam coisas para ele?
R - Então, pai, eu falo que pai ele é... Eu sou pai. Né? Eu vou no mercado e para comprar um pimentão, eu compro uma caixa de pimentão. Eu sou pai, eu falo que eu puxei isso do meu pai. Eu lembro que… Eu tenho essa lembrança, quando tem aquele iogurte de garrafinha, tem o nome dele, um iogurte... Eu vou lembrar o nome dele. E assim, a gente quase não comprava aqui porque era muito caro no supermercado, né? E aí, quando ele chegou, ele chegou com essa caixa de iogurte, essas garrafinhas pequenininhas. Gente, aquilo para nós era festa, era farra, era riqueza, sabe? Então, assim, tem essas memórias, sabe? E ele gostava muito de comprar essas coisas diferentes para poder nos proporcionar assim, aqueles momentos, né? Então, era muito gostoso. E meu pai assim, ele gosta muito de fartura, sabe? Eram dois tipos de carne na mesa, era comida bem feita, sabe? Então, ele é muito, sabe, de comer com a família, de estar ali dando o que pode ali para a família, sabe? Então ele tem esse cuidado muito grande mesmo. Então eu tenho isso nítido dele, quando ele vai no mercado, ele gosta de comprar melancia inteira, aquela melancia grandona que nem cabe nos braços. Então ele tem esse cuidado mesmo, saco de laranja, sabe? Então, ele é bem farturento mesmo. E eu falo que eu puxei ele, porque eu falo que aqui é só eu mais meu esposo, então não tem necessidade de estar enchendo um freezer de carne, mas eu gosto de ver, eu gosto de estar vendo isso. Eu não sei, talvez, acho que tem coisas de lá atrás, que puxa, então a gente fica com esse bloqueio e acha que tem que ter sempre muito. Então, hoje, eu já dou conta de comprar, já até divido em dez vezes, mas antes era bem complicado o financeiro.
P1 - E você falou que desde pequena aprendeu a fazer um monte de coisas, até por conta da casa. Me fala da questão de cozinhar, você aprendeu com quem? Com a sua mãe? Com suas irmãs?
R - É igual eu te falei, minha mãe teve que sair cedo, para trabalhar, e a gente ficava em casa, então ela delegava. Assim, ela distribuía funções para não ficar sempre em cima de um. Então, sempre uma para cozinha, outra organizar a casa, outra organizar a roupa. E como ela sabia que eu gostava, ela já via que eu tinha esse olhar pra cozinha, então ela sempre estava ali. “Vânia, você vai ficar na cozinha.” E só porque não tinha muita coisa para ser feito. Eu lembro que a minha mãe plantou um pé de chuchu lá no fundo lá de casa, e eu vou te falar para você que eu nunca vi um pé de chuchu próspero desse jeito. A gente pegava o chuchu cedo, de tarde, de noite, e tinha chuchu. Meu irmão brinca, fala que comia sobremesa de chuchu, tomava café de chuchu, e o pé estava cheio de chuchu. Então, assim, a gente inventava coisas, fazia salada de chuchu, sabe? Inventava da melhor forma. E pôr na mesa da melhor forma, bem-feito, o que tinha, sabe? Então, minha irmã, ela fala que ela lembra como hoje, que quando ela foi para casar, que eu fiz uma sopa, que ela nunca esquece dessa sopa, do gosto dessa sopa, sabe? Uma sopa tão simples, gente, das verduras que tinha na geladeira, queimado ali o açafrão. Então, assim, ela fala que ela tenta fazer igual, mas que ela não consegue, sabe? Que ela fica puxando na memória essa sopa. Então, eu ficava muito na cozinha, eu gostava muito de cozinhar. E eu tive que sair cedo para trabalhar. Então, o meu primeiro serviço foi lá, com os meus dez anos de idade. Eu trabalhei de babá, no fundo da minha casa. E aí, depois desse primeiro, já fui para outros lugares, para as casas domésticas também, trabalhando, né? E nas casas a gente aprendia muito, estava limpando, estava na cozinha fazendo alguma coisa. Então, eu aprendi muito, nesse decorrer de estar trabalhando nas casas domésticas.
Depois eu fui para as padarias. E nas padarias eu comecei como faxineira. Eu sempre fui muito comunicativa, sabe? Sempre gostava de conversar. E da faxina, eles me colocavam no balcão, porque eu sempre gostava muito de conversar, de atender. E eu fui muito assim… Meu irmão fala que eu sou proativa, eu faço muita coisa na mesma hora, sabe? E eu ainda brincava com as meninas do balcão. E hoje, eu presto atenção nisso, porque o atendimento hoje está muito lento nos lugares, né? A pessoa atende uma pessoa ali, sendo que tem três pessoas no balcão, um espaço tão curto, ao invés de falar: “O que você quer?” Se eu for abrir ali, eu já pego três sacos, já põe os pedidos ali. Hoje não, hoje o mercado tem pão, mas antigamente se ia comprar um pão, você tinha que ir direto na padaria, né? Então, eu trabalhei nas padarias, trabalhei na Super Pão, na Pão Nosso, em padarias conhecidas aqui de Paracatu. E assim, fazia fila para poder pegar pão de manhã cedo. E aí, eu falava: “Quantos pão você quer?” Saía de lá com cinco sacos de pão e já despachava cinco pessoas de uma vez, sabe? Então, assim, eu sempre gostei, eu sempre gostei de lidar com gente, de conversar com gente, eu sempre tive essa facilidade.
P1 - E na época, ainda só com a sua família, além de criar pratos como você falou. A sua avó, sua mãe, te ensinou alguma coisa em específico, para você começar a ter base?
R - Não. Lá em casa era muito... E igual eu estou te falando, a minha mãe quase não ficava em casa. E quando ficava, nos finais de semana, era aquela comida mesmo rotineira, que era o franguinho refogado, uma verdurinha. Então o que eu aprendi muito mesmo, foi fora mesmo, nas casas. “Vânia, amassa um biscoito aqui.” Aí a pessoa me falava o que ia, naquele biscoito, e ali eu amassava e punha para assar. “Vânia, faz um bolo.” Aí eu perguntava, como que faz o bolo, sabe? Aí a pessoa me falava. Me falava uma vez só, não precisava falar mais. Eu acho que quando a gente gosta daquilo, você aprende muito rápido. Então, a pessoa me falava uma vez só e aí eu já fazia, sabe? Eu nunca fui muito boa de limpar casa, de dar faxina em casa, mas de cozinha, eu tenho uma segurança muito grande, sabe? E eu até falo que o prato, cozinhar esse prato nosso, essa comida nossa, mineira, que é o tropeiro, que é o frango caipira, que é o frango com quiabo. Porque a gente lida com isso todos os dias, a gente faz isso todos os dias. Então, a gente aprende desde muito cedo, né? Então, é isso, eu fui aprendendo no decorrer do tempo mesmo, a necessidade fez eu aprender. Tanto na minha casa com o que tinha, né? E nas casas quando eu trabalhei. Eu falo que eu vim a aprender também, depois a gente vai chegar... Eu aprendi muito na minha sogra, minha sogra foi uma aula para mim.
P1 - Me fala, tem algum patrão, alguma patroa sua, em específico, que te ensinou mais, que você lembra mais?
R - Então, eu aprendi muito nas padarias, né? Nas padarias, ali, porque fazia muita quitanda, né? Muito pão, muito bolo, muito biscoito de queijo. Então, assim, eu aprendi muito. Aprendi na Superpão, Seu Geraldo, ali eu tinha uma amizade, eu pegava uma amizade com os donos, com muito respeito. Mas assim, eu ainda falava: “Quando o Senhor for fazer o biscoito me chama!” Pra mim poder... Com os padeiros. “Quando o Senhor for fazer o biscoito me chama para eu poder aprender.” Então, assim, foi despertando mais ainda o meu gostar, sabe, nessa área. E tudo muito assim, aprendo um pouquinho ali, aprendo um pouquinho ali, vai somando, sabe? Mas nada assim: Ah, com fulano foi essa receita. Sabe? Foi tudo muito, cada lugar, cada época em um lugar.
P1 - E o que você sente quando você está cozinhando? Você transforma uma coisa em outra, né? Como é que é isso?
R - Aí, eu vou falar para você que quando eu tô na cozinha, eu consigo, ali, esquecer tudo, sabe? Eu falo que eu fico o dia todo, todos os problemas que passa, que passou, que eu estou passando, quando eu estou ali, eu dou o meu melhor ali, sabe? Mesmo que amanhã eu dê o meu melhor do que eu dei ontem. Mas assim, é algo assim, que eu não sei explicar, sabe? Não tenho... Quando termina, eu sinto cansaço. É lógico que cansa, né? Não vou falar para você, não vou romantizar aqui, que estar numa cozinha não cansa. Cansa. Mas eu falo que eu não sinto esse cansaço ruim. É tão prazeroso que eu falo… Ontem mesmo, na hora que eu terminei, eu terminei já era umas dez e pouco, eu falei: “Tarcísio, aí, bateu um cansaço.” Aí ele falou assim: “Mas pudera, né?” Mas eu não reclamo, porque tem gente que começa reclamando e termina reclamando. Tarcísio tem que falar: “Vânia, sai um pouco da cozinha!” Sabe? Porque o tempo inteiro ali, é um gostar assim, fora do peito mesmo. É muito bom. Eu gosto demais.
P1 - E me conta uma coisa, você e os seus irmãos, tiveram tempo também, possibilidade de estudar, ou não?
R - Sim, a minha irmã mais velha, ela formou em contabilidade, é tanto que ela trabalhou com um advogado por muito tempo, e depois casou. Meu irmão mais velho, o Emerson, ele formou no terceiro, mas ele hoje tem a profissão de eletricista, ele trabalha nessa parte de eletricista de casa, de montar obras grandes, ele é muito craque, o cara faz um trabalho muito bom, sabe? Ele faz essa parte final da obra mesmo, na parte elétrica. O meu irmão Edson, ele também está com meu irmão mais velho, trabalhando juntos. E ele também tem uma fábrica de bolos, a ME Sobremesas, é dele. Então eles decoram bolo de aniversário, sabe? É na casa dele ainda, mas tem uma clientela muito grande, ele e a esposa dele, então eles têm uma demanda muito grande. E a minha irmã mais nova, ela é professora, ela é professora de apoio, ela é muito boa na área dela também, de crianças que têm problemas de saúde, e então precisam ter a professora lá, de apoio, junto com ela. Então, ela é muito boa na área dela também. A Alessandra, ela formou no terceiro, mas ela também é artesã, ela faz bonecas de tecido, sabe? É trancista. Ela mora na fazenda, então lá ela faz todo esse trabalho, sabe? Então, assim, cada um foi trabalhando por um lado, sabe? Fazendo a sua vida profissional da melhor forma, sabe?
P1 - E me conta um pouco, como é que eram essas padarias em que você trabalhou? Existem até hoje? Eram muito diferentes na época? Onde é que elas ficam?
R - Hoje elas não têm mais, elas já fecharam. Mas na época, a Super Pão e a Pão Nosso, a Super Pão era ali na rua da antiga Telebrasília, eu não sei o nome daquela rua ali, mas a gente fala a antiga Telebrasília porque era um lugar bem marco aqui de Paracatu. E era uma padaria muito famosa em Paracatu, era uma padaria muito de qualidade. Quando falava Super Pão, era uma padaria muito... Tudo que soltava lá era de muita qualidade, sabe? A Panificadora Pão Nosso é na rua, era, porque fechou, era na rua do Supermercado Paracatu, ali naquela avenida. Então, era uma padaria também grande, sabe? Ficava bem pertinho de um ponto de ônibus, então todo mundo que parava ali, parava para comprar, pegar e ir embora. Então, assim, era uma padaria de muito movimento, muito mesmo. São padarias que abriam 04h00, 05h00 da manhã e ia até à noite, sabe? Movimentão mesmo.
P1 - E você estudava nessa época que você trabalhava nas casas ou você parou?
R - Então, eu estudei até meu 6º ano, e empurrando, né? Porque a gente chegava muito cansada. E na verdade eu não gostava muito de estudar, na época, assim, a cabeça estava mais em trabalhar, sabe? E aí, quando eu casei, meu marido era formado em contabilidade. É formado em contabilidade. E ele sempre falava: “Vânia, estudo, a gente nunca perde em ter. Então você vai voltar a estudar.” Então, assim que eu comecei a namorar com ele, ele: “Não, você tem que voltar a estudar, você tem que terminar pelo menos o segundo.” E aí, eu terminei o segundo completo, para fechar aí esse período.
P1 - Mas aí já mais velha, depois.
R - Mais velha. Depois que eu fiz esse percurso todo de trabalhar de doméstica, trabalhar pra fora, e depois mais velha, eu voltei, ali com os meus 17 anos, 16 anos, eu voltei para poder terminar aí o segundo ano completo.
P1 - E conta uma coisa, você tinha alguns clientes que te marcaram mais, que vinham sempre, ou não?
R - Tinha. Tinha aqueles clientes que chegavam e perguntavam, falavam: “Eu gosto de ser atendido por ela, ela sempre com um sorriso, com essa leveza, brincando.” Eu ainda brincava: “Você gosta do pão mais branquinho, mais pretinho?” Aí a pessoa: “Não, eu gosto mais moreninho.” E eu ia lá e pegava o pão do jeito que o cliente gostava, sabe? Então tinha ali algumas afinidades com alguns clientes mesmo.
P1 - E me conta como é que você conheceu o seu marido atual?
R - Tarcísio, eu falo que ele é a melhor parte da minha vida, sabe? Eu comecei nova, a namorar muito cedo, com meus 16 anos. Então, eu falo que o Tarcísio foi a melhor parte. Eu falo que tem encontros que são para ser encontrados mesmo. Eu lembro como hoje, em Paracatu tinha, na época, era Showmício, né? E em Bela Vista, tinha um cantor lá, e eu falei, eu vou lá, ver esse cantor, na época. E Tarcísio estava lá. E aí, lá a gente começou a namorar, sabe? Tarcísio, meu marido, ele é cadeirante, com um ano e oito meses ele ficou cadeirante, ele teve paralisia infantil. E Tarcísio tocou a vida dele, assim, a família criou ele como se aquela deficiência não criasse barreiras para ele. Para ele conseguir tocar a vida dele dentro das dificuldades, porque todo mundo tem, independente de ser cadeirante ou não, cada um tem suas dificuldades. Mas para ele não enxergar essa deficiência como um todo. E assim ele foi criado. Tarcísio, ele formou em contabilidade. Só que Tarcísio estava dando muita cólica de rins, e aí ele teve que sair da área, onde ele estava trabalhando, por causa da cólica dele, e ele começou como artesanato. Quando eu comecei a namorar com Tarcísio, ele já fazia artesanato. E aí, logo a gente começou a namorar, e um ano mais ou menos, aí ele me fez a proposta para poder estar junto com ele, trabalhando para aumentar a produção, e a gente renovar o que ele fazia. Eu falei: “Uai, então vamos!” Como eu não tinha nada fixo, eu trabalhava de doméstica, ou na padaria de balconista, mas nada ali. Eu falei: “Então vamos.” E eu comecei a trabalhar com Tarcísio. E eu comecei a fazer cursos. Eu comecei a fazer curso de biscuit, decoupage, de pintura. Porque como ele trabalhava com a parte de artesanato, ele fazia tudo em MDF. E aí, quarto de bebê, porta joias, abajur, bandejas para bebê. E aí eu vi ali uma área boa de ser explorada, porque ele fazia muita coisa. E ali eu comecei a fazer os cursos, eu lembro como hoje, eu fiz o curso de biscuit, de pintura, com Sônia Sagae, que é uma japonesa, é ali mais central, ela dava esses cursos, sabe? Eu fiz o curso com ela. E ali eu fui ampliando essa área. E comecei a jogar, um pouco de internet que a gente tinha, de boca a boca. E a gente fazia os porta-joias, cada porta joias lindo! A gente fazia os porta joias, fazia o jogo de bebê, e eu postando, né? E aí, graças a Deus, deu super bem, sabe? A gente fez, tudo o que a gente hoje tem foi em cima do artesanato. Na época, o Tarcísio construiu aqui, comprou lote, tudo, em cima do lucro nosso, de artesanato mesmo. Foi difícil, foi muito corrido, não foi fácil não, porque a gente ficava nas portas, né? É tanto, que ali, no passeio do Bradesco, tem uma farmácia na esquina, e o amigo dele deixava a gente sempre ficar ali, sabe, vendendo o que a gente produzia durante a semana. Então a gente pegava chuva e sol ali, sabe? Tinha hora que tinha que sair correndo, porque as coisas não podiam molhar, porque era de madeira, né? Mas a gente vendeu muito ali, o ponto ali foi muito bom, sabe? Ali, naquele passeio, na porta da farmácia. E depois a gente foi colocando em alguns pontos, na Casa da Cultura, tinha um espaço perto da rodovia, que era aquele galpão grande ali que a gente sempre colocava, era... Como é que chamava lá? O Galpão do Produtor. Então tinha todos os artesãos lá que colocavam. Então ali, por ser na BR, vendia, tinha uma aceitação boa de venda. Isso tudo no decorrer do namoro, porque eu namorei seis anos com o Tarcísio. E aí, a gente foi criando uma clientela grande, sabe? Tarcísio era muito conhecido já, por ser cadeirante, por ter um triciclo e ter essa movimentação dele, sabe? Todo mundo espelhava, achava bonito ver. Falava: “Nossa, esse cara tinha tudo para estar murmurando, chorando, e ele…” Você não vê em hora nenhuma ele: “Ah, sou deficiente. Ah, eu sou…” Não, ele não é, tanto que se você for comprar uma peça dele, e ele sentir que você tá com pena, ou está comprando aquela peça para poder ajudar ele assim, em termos de dó, ele fala: “Pode deixar a peça aí.” Ele fala na cara da pessoa: “Pode deixar a peça aí, porque eu não preciso.” Sabe? Então, Tarcísio, ele trouxe para mim uma experiência muito grande de vida, porque eu vim de lá, de uma família assim, muito corrida mesmo, financeiramente, e ele tinha um agravante muito grande. Eu falo assim, em termos de ser cadeirante, de estar ali, em precisar do outro, e ele deu uma volta por cima assim. E estudou, e fez da sua trajetória a melhor trajetória possível, né? Então, hoje ele já tem o Título Honorário de Paracatu, pelo destaque cultural, pelas coisas que ele faz, sabe? E ele vem construindo aí uma vida bem, bem, bem “espelhavel” mesmo, sabe?
P1 - Vocês estão a quantos anos juntos já?
R - Então, eu namorei seis anos, né? E eu casei em 2001. Então, já tem aí, quase uns 26, 27 anos que a gente tá junto.
P1 - Você nasceu em que ano?
R- 1979.
P1 - E me conta uma coisa, como é que foi se mudar para morar com ele?
R - Então, namoramos… A gente queria fazer uma coisa bem pé no chão, sabe? É tanto que a gente namorou por seis anos. Por mais que… Eu falo que todo casamento tem suas dificuldades, independente da pessoa ser cadeirante ou não, tem ali suas limitações, né? Mas Tarcísio, ele tinha assim, muito receio de por ele ser cadeirante, eu vir amanhã, ou depois, me arrepender ou estranhar, ou “não era isso que eu queria.” Então, ele prolongou aí esse namoro seis anos para me mostrar a real a história. Real: Oh, você está entrando, você está sabendo certinho aí onde você está entrando, né?
Então, assim… Mas eu estava muito segura, porque eu nunca vi Tarcísio como um cadeirante, como assim, uma pessoa… Tarcísio, ele é totalmente independente. Tanto, que hoje eu viajo, hoje eu deixo alguém aqui, só para desencargo mesmo, mas ele não precisa de mim assim, em termos… Para nada, levantou, ele organiza tudo, ele faz seu café. Ele que leva café para mim. “Vânia, está pronto o café.” Então, assim, ele tem uma independência muito grande, sabe? Por isso que eu falo que foi a minha melhor decisão. Porque Tarcísio me faz crescer todo dia, todo dia é uma experiência ali, nítida ali, todo dia, de ver a forma com que ele lida, a forma que ele amanhece. Ele dá um bom dia sorrindo, sabe? Ele sente dor da hora que ele levanta até a hora que ele deita. Porque a gente, quando a gente é normal, a gente levanta, a gente senta, a gente tenta arranjar uma posição ali para poder ficar melhor. Ele não, coluna… Tarcísio tem hoje 67 anos, então a coluna já está bem tortinha de ficar sentado ali, na mesma posição o tempo todo. Mas nunca me deu uma má resposta, porque está sentindo dor. Então, você vê assim o cuidado que ele tem comigo. Sabe? Eu falo que eu tenho paz dentro da minha casa, eu tenho felicidade dentro da minha casa, porque a gente… Lá atrás a gente construiu uma base bem construída, sabe? Bem, bem sólida, para poder viver esse decorrer do tempo.
P1 - E como é que foi o dia do casamento de vocês?
R - Meu casamento foi loucura, loucura. Não sei se eu fazia de novo o que eu fiz. Meu pai, eu acho que ele empolgou demais. Eu acho que ele... Na época, há uns 20 anos atrás, a gente achava que tinha que convidar muita gente para o casamento. Eu casei na matriz. Nosso casamento tinha umas 600 pessoas. Então, assim, faria… Eu quero casar de novo, eu quero fazer votos, renovação de votos de novo, mas no máximo 100 pessoas. Eu não faço essa loucura nunca mais, porque fazer um casamento para 600 pessoas é muita coisa. Eu lembro como hoje, que na matriz encheu a parte de baixo e a parte de cima, porque estava lotado. O sindicato, porque só tinha um salão mais ou menos aqui, que a gente conseguia, porque ou era o jóquei, ou era o sindicato que fazia casamento. Teve que abrir os dois salões, porque tinha uma porta no meio para dividir, o outro salão. Teve que abrir os dois, porque não cabia. Então, assim, quando falou: Tarcísio vai casar. Eu pensei assim: Ah, vou mandar convite por mandar, a família… Porque a família quase toda dele é de fora, não vai vir. Gente, veio caravana, ônibus, van. Quando eu cheguei na rua da casa dele, tinha caravana, van, ônibus de tudo quanto é lugar. Eu falei: “Jesus Amado!” Então, assim, foi muita gente. Foi muito lindo o nosso casamento, sabe? Foi muito lindo, foi muito, muito desejado, sabe? Tarcísio tinha muito medo dos meus pais não aceitarem por ele ser cadeirante. Eu falo que meu pai mais minha mãe, tem uma afinidade louca com Tarcísio, eles são apaixonados por Tarcísio. Meu pai passa a mão na cabeça dele, e tem dia que ele chora, e fala: “Tarcísio, você me espelhe a cada dia.” Sabe? Então, Tarcísio fala que o pai dele já faleceu, mas que hoje ele tem um pai, que é o meu, sabe? Então, Tarcísio é o dodói lá de casa, sabe? Eu ainda até brigo, falo: “Epa, quem é filha aqui sou eu, não é ele não!” Meu pai sabe que Tarcísio gosta de mamão, molho de mamão picado. Aí meu pai pica, manda e fala: “Você faz para ele, viu Vânia!” Eu falo: “Pai, é eu que sou filha, não é ele não!” Então, assim, eles têm um cuidado muito grande com o Tarcísio. Ele tem um amor muito grande com Tarcísio.
P1 - E você falou que a gente ia chegar na sua sogra, né? Me fala um pouquinho, antes de falar dela em específico. Os lugares?
R - A família de Tarcísio é de Patrocínio, eles mudaram para cá já tem bem uns anos. Não sei te falar a data certinha de quando eles mudaram para cá. Eles moravam na fazenda, e aí o pai de Tarcísio faleceu, faleceu novo, e ficou a mãe. A mãe hoje, ela já está com 90 anos, já é cadeirante, já deu osteoporose ali, está passando por um processo de saúde assim... Está estável, mas que demanda um cuidado. E dona Eli, ela sim, ela me ensinou muita coisa, tá? Muita coisa. Porque como eles eram de família que fazia muita quitanda, que morava na roça, então a maioria deles… Até lembrei, ontem eu fiz um vídeo do biscoito de queijo, biscoito de queijo frito, e eu falo que essa receita é extremamente dela, porque lá eles têm essa cultura de três horas da tarde sempre tem o lanche, né? E aí, ela fazia muitos biscoitos de queijo frito, fazia bolinho de arroz, sempre aquele restinho de arroz que sobrava, ela fazia aquele bolinho de arroz. O pão de queijo dela, sabe? Canjica, eu lembro como hoje, hoje eu faço canjica, é dela, receita dela. Sabe aquela canjica grossa, cremosa, é dela. Lembro como hoje a forma que ela fazia. Hoje ela não faz mais, mas está aí, viva, graças a Deus. O pudim dela, de leite condensado, sabe aquele pudim sem um buraquinho, sabe? Então, assim, ela era uma quitandeira de mão cheia, de mão cheia mesmo. Ela sim, eu aprendi muita coisa com ela, no dia a dia, no cozinhar. Eu falo, essa sopa de frango, espirão, que a gente faz, né? É dela, ela todo final de semana ela fazia, sabe? O frango com quiabo, a macarronada com bastante queijo, sabe? Então, ela me lembra muita coisa boa, assim, de comida mesmo, sabe? Aprendi muito com ela.
P1 - E me fala um pouquinho então de como é que você passou a construir esse trabalho que você tem hoje? Você parou de trabalhar com artesanato? Como é que foi?
R - Então, eu trabalhei muitos anos de artesanato com Tarcísio, e nesse processo eu sempre cozinhei, só porque nunca coloquei pra fora, sempre cozinhava para família ou aqui dentro de casa, mas nada para fora. Ou para a igreja. “Ah, tem um evento na igreja. Vânia vai cozinhar.” Então, assim, eu sempre tive essa liberdade com as panelas, com a cozinha, mas nada profissionalmente. E aí, no decorrer desse tempo, eu mais Tarcísio, a gente fazia muito porta joia, como eu te falei, né? Jogo de bebê, kit de bebê. Só porque aqui em Paracatu abriu essas lojinhas de R$ 1,99, na época. E vendia praticamente todas essas peças. Comprava fora e tinha para vender e num preço bem mais em conta. Então, as coisas deram uma caída, muito, muito mesmo.
Aí eu falei: “Tarcísio, vai ser um momento agora de ver o que a gente…” Né? Tarcísio ficou bem ansioso, porque Tarcisio sempre foi o provedor da casa. Então ele que entrava com toda finança da casa. E ele ficou muito preocupado. E ele tem uma responsabilidade dupla, uma responsabilidade de ser homem, e uma responsabilidade de dar conta de fazer, porque ele acha que ele tem que se cobrar dobrado, que por ser cadeirante, não pode me faltar nada. Ele acha que não pode. É normal faltar para outra pessoa, mas para mim não pode faltar, sabe? Ele tem essa cobrança interna, sabe? E aí, eu falei: “Não, tá na hora agora de começar a fazer outra coisa.” E aí, o financeiro aqui em casa deu uma caída, deu uma caída porque a gente sentiu, a gente vivia do artesanato. E caiu muito. Eu falo que são pessoas que eu não esqueço, a minha cunhada, Maíra... Na época, eu até fiquei meia depressiva, na época, e dando uma de forte porque eu não podia passar para Tarcísio. E aí, ela viu a situação, porque aqui em casa é muita fartura, muita fartura. Aqui em casa eu sempre gostei de fartura. Eu puxei do meu pai, eu sempre falei isso, que eu puxei isso do meu pai. E minha cunhada sempre aqui dentro de casa, ela via a forma de lidar, a fartura que tinha. E a gente passou por uma fase complicada financeiramente. E aí, eu meio que entrei ali numa depressão, fiquei meio... E aí, ela falou assim: “Vânia, vamos lá para casa, lá em casa tem um fogão a lenha, e aí a gente vai começar a fazer empadão. Eu tenho uma clientela já boa.” Porque ela já tinha a clientela dela, da parte que ela trabalhava, que era a ME Sobremesas, da firma dela. “E aí eu vou postar nos grupos, nos finais de semana, e você faz um empadão no fogão de lenha, não vai nem gastar gás, e o gás que vai gastar, que é para assar, a gente racha essa despesa. Mas, vamos para lá.” Aí eu falei: “Ah, Maíra, vai ser difícil, porque você já tem sua cozinha, já tem sua demanda lá na cozinha.” A cozinha dela não era uma cozinha grande, e ela trabalhava com doce, eu ia entrar com sal e... Ela falou: “Não, vamos!” Eu lembro como hoje, ela praticamente pegou na minha mão e a gente foi. E ela começou a postar nos grupos. Então foi muito bom as vendas. E Maíra, eu falo que tem gente que nasce para vender, e Maíra vende mesmo, sabe? Ela tem um cuidado com os clientes dela, um diálogo com os clientes dela. E ela vende muito. E aí, ela foi postando nos grupos no final de semana e foi muito bom. E ela sempre falava: “Não sou eu que tô fazendo. É Vânia, é minha cunhada.” E ficou, “Vânia Tempero de Minas.” E pegou ali. Quando foi um determinado tempo, ela falou: “Vânia, já está com uma clientela, o pessoal já está te conhecendo, agora você pode ir embora.” Eu fui e falei, assim: “Maíra, mas eu não vou dar conta sozinha.” Aí ela falou: Vai! Você vai dar conta. Eu vou ficar daqui te ajudando, postando para você, a mesma postagem que eu faço daqui, que eu faço aqui, eu vou continuar fazendo para você. E aí, foi assim. Eu vim embora, e aí eu já tinha condição de comprar material, porque pelo lucro que a gente já tinha vendido lá. E aí, já comecei a fazer os empadão. Nesse decorrer do tempo, começou, o pessoal. “Ah, você faz empadão, quero empadinha também. E aí, as coisas foram, foi aumentando aí esse leque. Eu lembro como hoje, o chef Eduardo Avelar, ele veio aqui em Paracatu fazer um projeto de “Quintais e Quitandas.” E aí, a Fernanda foi e me convidou para poder estar participando dessa reunião com ele. Fernanda hoje é a presidente da Associação AQUIP. E aí, ela foi, e eu conheci o Eduardo, ele veio aqui em casa, a gente foi conversando, e ele foi explorando ali tudo o que eu tinha para ser explorado. E aí, tinha um festival aqui, que ele queria que eu colocasse as quitandas junto. E aí, eu falei assim… Eu não sabia nem o que por, na época, sabe? Nem pensar. Eu pensei, falei: “Ah, vou fazer um macarrão na chapa. Vou fazer uma comida. Qualquer coisa assim.” Ele falou: “Não, comida por comida, macarrão por macarrão, tem em qualquer lugar. Eu quero algo diferente de você.” Aí que eu lembrei dessa receita da minha sogra, do bolinho de arroz, porque ela fazia muito esse bolinho de arroz. Só que eu não queria também fazer um bolinho de arroz simples, igual ela fazia, com restinho de arroz. E aí, eu fui e falei: “Não, então, deixa eu fazer uma receita, mudar essa receita dela, e aí eu apresento para o senhor para ver se é aprovado.” E aí, foi isso que eu fiz. Eu acrescentei, eu mudei essa receita, eu coloquei mandioca nessa receita, empanei esse bolinho, recheei esse bolinho, coloquei ele de carne seca, coloquei ele de frango. E aí, mostrei para o Eduardo. E ele falou: “É isso. Perfeito!” E aí, ele veio até a minha cozinha, a gente fez de novo. “Não, vamos dar uma melhorada nisso aqui.” Sabe? “Vamos colocar tal tempero para poder dar uma melhorada.” Eu lembro como hoje. E aí, nós fizemos esse festival. Eu sei que eu vendi mais de três mil bolinhos nesse festival. Foi assim… O que eu tinha produzido, e aí, tinha acabado, eu tinha que fazer de dia para vender de noite, porque eu tinha que manter o espaço lá. E eu fui só com o carro chefe, que foi o bolinho. Então, assim, vendeu tudo. E daí em diante foi o que despertou, né? Logo aí a Fernanda me fez o convite para participar da Associação AQUIP. E dentro da associação a gente vai crescendo, né? Aí eu fui aprendendo as outras receitas, que era o pão de queijo nosso, que é tudo da Massa Crua, as outras, a bolacha de Arrozina, o biscoito de queijo, desmamado, mané pelado. E aí, fui aprendendo cada vez mais ali, com aquela turma, que eu falo que a Associação AQUIP de Paracatu, que é a Associação de Quitandeiras, tem quitandeiras muito boas, sabe? Muito boas. E aí, foi. Eu fui aprimorando cada vez mais.
P1 - Por que começou o empadão especificamente? Tem alguma razão?
R - Então, o empadão, por quê? Porque como a Maíra trabalhava com doce, então, eu queria fazer algo que atendesse ali o domingo, o final de semana, com um prato que que agregasse, e que desse peso para as famílias, né? E o empadão, aqui em Paracatu, o pessoal gosta muito do empadão, né? No final de semana, para poder estar ali comendo com a família. Então, acho que foi isso. Não tem muita história o porquê do empadão. Mas o empadão foi isso mesmo, foi para poder atender mais a família que estivesse comprando ali, né? E é tanto, que até hoje eu atendo com empadão, no final de semana. Até hoje, eu tenho delivery, eu abro delivery com empadão, no sábado e domingo. E o pessoal compra. “Vânia, eu não quero fazer comida hoje não, manda um empadão para mim.” E assim vai. Eu tenho clientela desde quando eu comecei.
P1 - Para quem não sabe, o que é o empadão, e como é que faz empadão?
R - O empadão, ele é um molho, um molho de frango desfiado, com o frango desfiado, a batatinha, azeitonas, cheiro verde. Então, você faz aquele molho bem suculento ali, bem molhadinho, e faz uma capa bem fininha com a farinha de trigo, ovo. A massa mesmo da empadinha, só porque uma peça maior, um empadão maior. Aí você abre ali e já põe nas vasilhas descartáveis, porque tem aquelas vasilhas, né, que dá para quatro, para seis, para dez, para vinte pessoas. E forra tanto o fundo e a tampa e põe para assar. E na hora que você abre é aquela massa, o mesmo formato da empadinha, porém maior.
P1 - E tem diferença entre fazer empadinha e empadão?
R - Não. É o mesmo recheio, né? Eu falo que empadinha eu gosto dela mais molhadinha, mais cremosa, mas bem molhadinha mesmo o molho. Mas o recheio é o mesmo, não tem diferença, não. E tanto a massa também, não tem diferença. O ingrediente de um, é o ingrediente do outro. Só porque uma é pequenininha e o outro é maior.
P1 - E me conta de um dos patrimônios aqui de Paracatu, que é o pão de queijo. Você aprendeu a fazer então, nessa época, é isso?
R - Sim, na época… Na verdade eu já fazia na minha sogra, né? Só porque o pessoal lá da minha sogra, como eles são de Patrocínio, de Coromandel, é o pão de queijo escaldado, né? Então, eles têm o costume do pão de queijo escaldado.
P1 - Como é que é?
R - Pão de queijo escaldado porque tem um escaldo, que você ferve o leite, junto com o óleo e põe no polvilho, né? E aqui em Paracatu, não, aqui em Paracatu tudo é natural, tudo frio, né? Então você coloca o leite, coloca o óleo, o polvilho, o ovo, o queijo, tudo ali, frio. Então, você faz um pão de queijo, tudo frio. Então tem uma diferença, lá é o escaldado e aqui o nosso cru. Então, eu já fazia o pão de queijo na minha sogra, no decorrer, até nas padarias. Na correria, faltou um padeiro. “Vânia, vamos aqui fazer a produção.” Entendeu? Então, assim, eu já fazia. Só porque na minha sogra era escaldado, eles têm esse costume. E a na Associação, no patrimônio aqui de Paracatu, é cru, é tudo frio. Então, eu só mudei, em vez de ter o escaldo, a gente colocava frio, o leite frio. E aí foi. Eu já sabia fazer o pão de queijo, no decorrer do tempo, eu só troquei mesmo do escaldado, para o cru. Porque o patrimônio nosso aqui é tudo cru, tudo frio.
P1 - E dá diferença fazer assim.
R - Dá diferen
P1 - Qual diferença?
R - Da diferença porque o pão de queijo escaldado, ele é mais gordinho e mais murchinho, por ele ser escaldado, por ele ser cozido, uma pré-cozida. E o nosso não, o nosso tem uma casquinha por fora, uma casquinha crocante, e por dentro ele tem aquele puxinho, aquela puxa. Então, tem uma diferença. E vai menos, por exemplo, o escaldado vai mais ovo, né? E o nosso aqui, só vai dois, três ovos. Enquanto que o nosso dois, três ovos, o escaldado vai aí, quase uns dez ovos, sabe? Então, ele tem uma diferença de ingrediente grande.
P1 - E você pode falar para gente como é que faz o pão de queijo? Ingredientes, modo de preparo? Aqui de Paracatu.
R - O nosso, o modo de preparo é um quilo de polvilho, para oitocentas a um quilo de queijo. Depende muito do queijo, se o queijo estiver muito curado, você pode colocar até oitocentas gramas, né? Dois ou três ovos, depende do tamanho do ovo. Um copo de óleo, até no vinco, ou três colheres de manteiga e sal a gosto e um quilo de polvilho. Já falei do polvilho lá no início, né? Repetindo. E vai chegando leite, vai chegando leite até o ponto. Sabe? Tem um segredinho, enquanto o pão de queijo, se o queijo estiver muito curado, a massa tem que ficar mais molinha, mais mole, maleável de enrolar. Se o queijo estiver mais fresco, aí a massa tem que ficar um pouco mais durinha. Mas é isso, o nosso pão de queijo não tem segredo não. Segredo é a mão mesmo e o coração.
P1 - E quanto tempo no forno? Qual a temperatura?
R - Então, depende muito de forno para forno. Eu falo que essa medida aí, ela é muito complicada. Igual mesmo, tem forno aí industrial que nele vai menos tempo, mas 180 graus, ali, uns 30 minutinhos, até ele dar aquela corada em cima. Que isso vai muito de gosto. Eu gosto do pão de queijo mais clarinho, Tarcísio gosta do pão de queijo… Tarcísio, meu esposo, gosta do pão de queijo mais pretinho, mais moreninho. Então, vai muito de gosto, vai mesmo. É o tempo mesmo, olhar mesmo, você não pode esquecer ali, colocar uma quitanda no forno e esquecer dela. É o tempo mesmo, seu, com a quitanda ali, o tempo ali de observação, sabe? É lógico que tem logística de estar anotando as coisas, então você tem que estar ali, você tem que saber mais ou menos, ali, um tempo. Mas eu falo que o tempo mesmo é o tempo seu com a quitanda, você ficar ali olhando, você não pode dispersar, né? Mas o tempo do pão de queijo ali, é 20, 30 minutinhos, conforme o forno.
P1 - É o que você faz hoje, Vânia, que mais sai, assim?
R - O que mais sai? Olha, eu tenho uma demanda grande de quitandas, porque eu trabalho tanto com as Quitandas de Paracatu, quanto com os assados, para atender às necessidades dos pais, com mini pizza, esfiha de carne, esfiha de frango, enroladinho de presunto e queijo. Então, eu tenho essa demanda. Mas dentro das quitandas mesmo, de Paracatu, o que mais sai hoje é empada. Empada, ela tem uma demanda grande.
P1 - E com o que você mais é famosa por, provavelmente.
R - Então, famosa eu não sei. Famosa eu não sei. Mas eu tenho um conhecimento, hoje, o pessoal de Belo Horizonte pega muito, sabe? Agora mesmo, esse pessoal aqui, de fora, tá indo para Brasília, tá levando as empadas. Eles estavam levando 500 empadas. Então, assim, tem uma demanda boa de empada.
P1 - Você pode me descrever, para quem vai assistir também, como é os ingredientes e o modo de preparo da empada?
R - Os ingredientes da empada é muito próximo do empadão, que é o mesmo, que é o frango desfiado, a batatinha, azeitona, o cheiro verde, que é a salsa. Eu falo que cada um tem um modo de fazer, não pode sair dentro daquela receita, que é nossa, que é padrão de Paracatu. Mas cada um tem um jeito de fazer. Eu falo que eu não coloco extrato de tomate, eu coloco colorau. Quando você começa a fazer uma produção maior, você tem que ter um cuidado ali e observar muito aqueles produtos mais perecíveis, que não perde, né? Então, quando você faz uma quitanda para você, você pode estar colocando ali um extrato, um tomate picado, uma cebola de cabeça. Mas quando você vai fazer essa quitanda para fora, você tem que ter esse cuidado para não ter uma perca rápido. Igual mesmo, ontem foi para o Rio de Janeiro, as empadas. Então eu tenho que ter esse cuidado e essa observação do que oxida, o que perde mais rápido, né? Então eu não coloco cebola, eu não coloco extrato de tomate, eu coloco colorau. Eu acho que ela fica mais... Quando você coloca o colorau ali, eu acho que ela traz mais nossas raízes, nossa terra. Então, o molho da nossa empada é basicamente isso, eu coloco o colorau, o tempero completo, temperinho completo, eu coloco os talinhos, aqueles cabinhos da salsa, eu faço todo o tempero ali, com um pouquinho de alho. Eu trabalho ali com pimenta de cheiro, com pimenta calabresa, com pimenta do reino. Eu faço um tempero meu mesmo. Então eu coloco o tempero, coloco a batatinha, que eu falo que é um quilo e meio de batatinha pra um quilo de frango desfiado, esse colorau, afogo tudo isso, e agrego com um caldo ali, caldoso de farinha, para esse caldo ficar bem cremoso, sabe? E aí, a massa é a mesma do empadão, é a farinha de trigo, o ovo, a água e o óleo. Faço essa massa, abro no cilindro, para ficar bem fininha, porque a nossa empada tem esse segredo aqui de Paracatu, quanto mais fininha, mais saborosa. E aí, fecho nas forminhas e asso. Também o mesmo processo, de 20 a 30 minutos, depende o forno. Quando estiver bem coradinha em cima, eu pincelo ovo em cima, quando estiver bem coradinha, está na hora de tirar.
P1 - Eu estou ficando com fome já. E essa caminhada da quitanda, de fazer comida para fora, já leva quantos anos já?
R - Olha, já tem uns 15 anos já, profissionalmente, né? De 12 a 15 anos, que eu venho aí, já nessa lida.
P1 - E tem alguma encomenda que te marcou mais por qualquer motivo que seja?
R - Que me marcou? Olha, eu falo que todas as encomendas, para mim, eu falo que o cliente que me chama para encomendar dez unidades e o cliente que me chama para encomendar mil unidades, ele é tratado igual, sabe? Mas eu falo assim, que quando o cliente, ele me chama para poder fazer um café, que é uma quantidade maior, para poder fazer um aniversário. Então, requer ali uma confiança, e uma demanda maior, né? Então, assim, me traz uma satisfação muito grande da pessoa confiar a sua festa, com você. Então, você vê que a pessoa, ou ela gosta ou ela gosta, porque senão ela não te daria essa oportunidade. Então, cada café, cada demanda, cada feira. Igual mesmo, há 20 dias, há um mês atrás, a gente estava em São Paulo, levando as quitandas, que foi distribuído ali vinte e cinco mil quitandas, doze mil pães de queijo, dois dias, feitos no dia, sabe? Então, foi muita coisa. Então, é uma responsabilidade muito grande. Que não estava eu sozinha, estava eu e a Simone lá na cozinha. Mas assim, é uma responsabilidade muito grande, e a gente vê que é uma cultura que está dando certo, sabe? É uma cultura que você está enxergando ali uma possibilidade de crescimento, é um olhar que está dando certo. Então, isso aí me enche os olhos.
P1 - E o que você acha que é diferente da culinária aqui de Paracatu com outras que você já experimentou? Já viajou muito, né? O que você acha que é específico daqui?
R - O específico daqui, é a nossa empada e o nosso pão de queijo, que não tem igual, sabe? Ele é diferenciado mesmo. E eu vou te falar, não tô puxando sardinha não, mas eu vou te falar que as quitandas, e a comida de Paracatu, não tem igual não, tá? É muito boa, é muito boa. Olha que eu tenho passado aí... Essa profissão minha, eu falo que quando eu andei pela primeira vez de avião foi através das quitandas. E quando eu estava lá em cima, eu falo que tenho essa sensibilidade de ver o que as quitandas estão fazendo na minha vida, sabe? De eu sair de um lugar que eu nunca imaginei, e estou num lugar em que eu estou vivendo sonhos. E eu estou vivendo sonhos mesmo, profissionalmente, sabe? E é por isso que eu levo tão a sério, eu levo a sério mesmo.
E, assim, tanto um evento pequeno, quanto um evento grande, eu me doo com a mesma intensidade. Sabe por quê? A minha profissão está me levando em lugares que eu nunca imaginei estar, sabe? Eu falo que é resposta de Deus também, sobre minha vida, mas é um cuidado assim, imenso, e a responsabilidade de fazer o melhor. Eu falo que o que é seu é seu. Eu não tomo o que é seu. Se a encomenda é de Janaína, e se chegar até a mim, eu vou chegar até Janaína. “Janaína, essa encomenda é sua.” Fulana, essa encomenda é sua, não é minha. Mas se é minha, ela é minha, eu vou dar o meu melhor. Mesmo que amanhã eu faça o meu melhor do que o melhor, mas eu dou o meu melhor hoje, entendeu? Eu me entrego, sabe? Eu me entrego desde a hora que eu faço a minha doma. Porque eu acho que a minha doma é o meu escudo, sabe? Assim, eu me visto ali na hora, e eu me ponho em prontidão para aquele momento, sabe? E aí, eu esqueço de tudo, eu esqueço de tudo, eu vou viver aquilo ali, sabe? Então, eu tenho muita responsabilidade, sabe? Do que eu estou fazendo naquela hora e naquele momento.
P1 - E as quitandas daqui, as suas, de Paracatu, tem muita diferença com relação a outras de Minas Gerais, que você já conheceu?
R - Tem. Tem o pão de queijo, né? O pão de queijo é diferente, porque nos outros lugares é escaldado, a nossa é crua. Empada nos outros lugares é a massa podre, a nossa é a massa fina. Então, assim, tem muita diferença, você come assim, você vê o biscoito de queijo, aqui, você sente o gosto do queijo, você sente ali o peso do gosto do queijo. E nos outros lugares você se sente mais polvilho, você quase não sente o sabor do queijo. Então, a quitanda de Paracatu, ela é diferenciada.
P1 - Você falou outra coisa legal, que você falou da doma. A doma é a roupa que você usa?
R - A roupa.
P1 - Ela é específica?
R - Eu risquei uma doma para mim, né? Porque assim, por eu sempre ser acima de peso, eu não encontro doma pronta. Então, eu falei, eu quero uma doma diferente. Eu quero me por vestida ali para aquele momento. Então, eu risquei minhas domas. Eu tenho a costureira que faz minhas domas. Todo o evento que tem… Eu falo que as domas para mim, hoje, não é barata, mas sempre quando tem uma oportunidade e eu tenho condição de fazer, eu faço a doma para aquele evento. Eu falo que quando você vai num casamento, quando você vai numa festa de importância, você não se veste da melhor forma? Você vai comprar uma roupa para poder ir naquele casamento, você se maquia para poder estar bem. Eu faço isso para trabalhar. Eu gosto de estar bem. Eu preciso estar segura, com a minha sobrancelha feita. É lógico que tudo tem uma maquiagem, para cada setor. Eu não vou pôr uma maquiagem ali pesada para aquilo, que não tem nem necessidade. Mas eu me ponho para aquele lugar, eu ponho minha doma, eu passo o meu batom, eu passo o meu perfume, eu faço minha sobrancelha, para aquele evento. Então, assim, eu acho que isso tudo vai muito do gostar, quando você gosta do... Talvez quem não faça isso é porque não tem esse olhar, né? Também não vou também entrar nessa área. Mas eu, Vânia, eu gosto de estar ali arrumada para esse evento, sabe? Gosto demais. Me faz completar o que eu já gosto de fazer, sabe? Eu gosto de estar ali em prontidão mesmo.
P1 - E quais são as peças da doma, específicas? Você está de doma agora, é isso?
R - Não, hoje eu não estou de doma, hoje eu estou com um vestido normal, mas eu estou com um avental de doma, e este avental aqui tem uma doma dela, que é uma doma verde. E aí, eu tenho um turbante, que eu coloco no cabelo, porque eu tenho muito cabelo, então, a gente precisa prender esse cabelo, para poder estar ali mexendo. E eu tenho o turbante, eu tenho a doma, que é uma doma normal, normalmente as domas são mais blusas, né? A minha doma é um vestido, então eu faço dela um vestido e já coloco um avental, tudo combinado. Eu gosto de combinar cores, paleta de cores, eu penso até, “o evento tal, então eu vou pôr tal cor.” Vou colocar uma cor terrosa, vou colocar uma cor mais clara, uma cor mais escura. E tal horário, vou colocar uma cor mais clara. Ah, é à noite, vou colocar uma cor mais escura. Até isso eu penso. Tudo isso eu penso, sabe? Então, assim, eu fecho aquele pacote ali na minha doma. “Ah, o evento é em São Paulo, tal hora.” Sabe? Então, eu penso tudo ali, pra mim poder estar naquele lugar da minha melhor forma.
P1 - Legal. E qual foi a maior encomenda que você já fez? De quantidade.
R - Minha maior encomenda? Olha, como eu sou sozinha, eu ainda não tenho funcionário, eu tenho só uma menina que me ajuda a organizar a casa. Mas eu não tenho ainda mão de obra na minha cozinha. A minha maior demanda foi mil salgados no dia. Eu não pego mais do que isso, porque eu acho que não sai uma qualidade boa, sabe? Por que o que acontece? Se você me pedir um salgado aqui, agora, você não vai ter, porque eu não faço nada congelado. Eu faço tudo fresco para entregar para o cliente. Então, eu ainda tenho até que trabalhar na minha mente o congelado, formas de lidar, estudar, para poder estar congelando, porque tem hora que eu perco dinheiro. Porque ontem mesmo estava o pessoal de Belo Horizonte aqui, que queria ir para Belo Horizonte, e queria empada congelada. Eu não trabalho. O que que eu faço? Eu fabrico essa empada mais cedo, eu tenho um freezer, congelo ela, e entrego para o cliente congelado, mas tudo fresquinho, sabe? Porque assim, eu ainda tenho muito medo do congelado, de uma infecção intestinal, uma comida aí que venha dar problema depois para o cliente, sabe? Então, o meu diferencial é entregar mesmo fresco. Então, por entregar fresco, eu não consigo fazer uma demanda grande aí, porque a empada é manual, é uma por uma. Pão de queijo, não, o pão de queijo você ainda congela, esse dá para congelar, esse não altera. Pão de queijo dá para congelar, o biscoito de queijo dá para congelar. Mas as outras coisas eu faço tudo fresquinho para o cliente mesmo. Nada congelado. Empada não tem congelada. Empadão, não tem congelado. É tudo feito no dia.
P1 - Entendi. E tem alguma parte da cozinha que você gosta mais, assim, do preparo, uma coisa que você se diverte mais? Enfim.,,
R - Então, hoje, o meu shopping é o supermercado, né? Eu amo estar no supermercado, eu amo estar ali olhando, olhando preços, organizando os pedidos, o que vai comprar ali. E saber que o estoque está preparado para a semana, sabe? Não tem nada mais prazeroso do que você saber, assim, eu tenho material para trabalhar para a semana. Quem vive disso, sabe. Porque tem hora que a gente fala, nossa, meu estoque hoje está fraco, tem que comprar. Ou não tem dinheiro para comprar, né? Então, quem vive de quitanda sabe que não tem nada mais prazeroso do que ter um estoque ali, só esperando para produzir.
P1 - E Vânia, me conta uma coisa, tem alguma passagem da sua vida que a gente não tratou muito e você gostaria de falar? Tem alguma pergunta que eu não fiz? Antes da gente ir para as últimas perguntas. Fica à vontade, viu?
R - Não, não, acho que tá… Eu acho que está ok. Acho que está ok.
P1 - Se você quiser lembrar de alguma pessoa, ou algum acontecimento. Eu vou fazendo as últimas perguntas e você fica à vontade, tá? Para não deixar assim. Mas me fala, então, hoje em dia você tem algum sonho mais específico que você fica pensando? Um projeto? Qual seria esse sonho?
R - Tenho! Ah, eu tenho tantos sonhos, sabe? E quando você vê a coisa dando certo, eu acho que os sonhos vão apertando mais para que aquilo aconteça. Eu tenho sonhos grandes, inclusive, um deles vai ser aqui mesmo na área. Eu quero organizar, eu quero fazer aulas vivas aqui, sabe? Para pequenos turistas, para pessoas. Ah, dez, quinze turistas, pequeno. Fazer aula viva, com o empadão, com empada, com a quitanda feita quentinha na hora. Mas eu preciso me estruturar ainda, sabe? Nada muito grande, coisas pequenas mesmo, mas dentro dessa quantidade de público pequeno, eu preciso me organizar aqui. Eu tenho sonhos ainda. Eu tenho sonho de crescimento mesmo, sabe? Eu quero crescer, eu quero crescer financeiramente também. Eu quero me manter financeiramente, sem preocupar, sabe? “Esse mês fechou vermelho, esse mês eu não consegui ainda.” Sabe? Eu ainda quero ter essa base e essa segurança financeiramente. E as coisas estão andando, estão andando para isso, sabe? E tem muito sonho ainda, tem muito sonho. Quero ter o meu carro ainda, eu não tenho carro ainda. Eu quero comprar meu carro. Esse cuidado financeiro mesmo, esse respaldo financeiro mesmo, que as quitandas e o profissional vai dando no decorrer do tempo. Tem muita coisa ainda, eu tive que mexer em casa, organizar, eu mais Tarcísio, a gente é muito pé no chão, sabe? A gente não faz dívida em termos de falar assim: “Ah, vamos financiar algo.” A gente tem muito medo, porque as quitandas… Tudo que a gente faz hoje, é muito ainda incerto, então, nada é certo. Então, eu tenho medo de fazer dívida. Então, eu prefiro as coisas estarem mais organizadas para poder estar comprando, né? E tem muitos sonhos. Sonho ainda de organizar, por a cadeira de Tarcísio, um triciclo ainda bem moderno, bem arrumado. A cadeira dele é uma cadeira antiga, sabe? E demanda muito conserto. Toda hora um conserto aqui, outro ali, então, tenho sonho de comprar uma triciclo muito boa para ele, para ele ter esse ir e vir tranquilo, sabe? Tem coisas ainda que estão para amadurecer.
P1 - E para você, como é que foi contar um pouquinho da sua história para a gente hoje?
R - Então, eu espero que eu tenha somado alguma coisa para vocês nessa história. Mas é a minha história, e para eu chegar até hoje, aqui, ela é uma história de muita alegria e de muito choro, sabe? E só porque a gente vem construindo, e hoje tem mais sorrisos do que choro. Eu falo que graças a Deus por isso, né? E dá para enxergar um lado muito positivo hoje, que antes eu não enxergava. E é isso. É uma história, como eu falo, que não é diferente das outras, né? Mas é uma história de muita verdade. Tudo que eu estou contando aqui é uma história vivida de muita verdade, de muitas noites de sono e de estar acordada. Mas é uma história de verdade.
P1 - Obrigado então, Vânia. Foi linda a sua história.
R - Ah, obrigada. Eu que agradeço, viu gente? Obrigada.
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