Projeto Memórias de Vila Nova Esperança
Entrevista de Patrícia Reis da Silva (Narizinho)
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 24 de outubro de 2025
Entrevista código MVE_HV006
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
P/1 - Patrícia, eu vou te pedir pra começar falando seu nome inteiro, sua data de nascimento e a cidade onde você nasceu.
R - Sou a Patrícia Reis da Silva, nasci dia 28 de março de 1982, na cidade de Cubatão.
P/1 - E o teu apelido?
R - Meu apelido é Narizinho.
P/1 - Por que?
R - Narizinho foi um contramestre, aliás, na época ele era professor quando eu comecei a treinar capoeira em 2002. Comecei a treinar capoeira e aí por conta do meu nariz. Ele achou que eu ia ficar com raiva na época e aí ele colocou Narizinho por conta do meu nariz e ficou. Eu adotei o apelido e hoje as pessoas me conhecem bastante por Narizinho.
P/1 - Olha só, e você falou que nasceu em Cubatão, onde?
R - Nasci na antiga Vila Parisi, extinta Vila Parisi.
P/1 - O que que era lá?
R - A Vila Parisi foi uma comunidade que foi construída a beira da rodovia, próximo à Cosipa, e muitas pessoas viam de fora para trabalhar na Cosipa, não tinham como pagar aluguel, invadiram aquele espaço de terra e foram criando famílias, criando famílias, e aí criou uma comunidade enorme. Tinha muitos problemas de poluição, com criminalidade, enfim. E aí, em 1900…
Se não me engano, em 1990, ela foi extinta, é que eu tinha oito anos… verdade, 1990, 1991, ela foi extinta. Aí ela foi retirada, os moradores foram retirados da Vila Parisi e foram transferidos para o Bolsão VIII, Ilha Caraguatá, Costa Muniz. Aí ela foi extinta nessa época.
P/1 - Tá, antes disso acontecer, como é que seus pais, quem são eles, o nome deles e como é que eles chegaram lá?
R - Meu pai André Carlos da Silva, minha mãe Shirley de Oliveira Reis. Eu não sei bem como eles chegaram na Vila Parisi. Meu pai trabalhava como...
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Entrevista de Patrícia Reis da Silva (Narizinho)
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 24 de outubro de 2025
Entrevista código MVE_HV006
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
P/1 - Patrícia, eu vou te pedir pra começar falando seu nome inteiro, sua data de nascimento e a cidade onde você nasceu.
R - Sou a Patrícia Reis da Silva, nasci dia 28 de março de 1982, na cidade de Cubatão.
P/1 - E o teu apelido?
R - Meu apelido é Narizinho.
P/1 - Por que?
R - Narizinho foi um contramestre, aliás, na época ele era professor quando eu comecei a treinar capoeira em 2002. Comecei a treinar capoeira e aí por conta do meu nariz. Ele achou que eu ia ficar com raiva na época e aí ele colocou Narizinho por conta do meu nariz e ficou. Eu adotei o apelido e hoje as pessoas me conhecem bastante por Narizinho.
P/1 - Olha só, e você falou que nasceu em Cubatão, onde?
R - Nasci na antiga Vila Parisi, extinta Vila Parisi.
P/1 - O que que era lá?
R - A Vila Parisi foi uma comunidade que foi construída a beira da rodovia, próximo à Cosipa, e muitas pessoas viam de fora para trabalhar na Cosipa, não tinham como pagar aluguel, invadiram aquele espaço de terra e foram criando famílias, criando famílias, e aí criou uma comunidade enorme. Tinha muitos problemas de poluição, com criminalidade, enfim. E aí, em 1900…
Se não me engano, em 1990, ela foi extinta, é que eu tinha oito anos… verdade, 1990, 1991, ela foi extinta. Aí ela foi retirada, os moradores foram retirados da Vila Parisi e foram transferidos para o Bolsão VIII, Ilha Caraguatá, Costa Muniz. Aí ela foi extinta nessa época.
P/1 - Tá, antes disso acontecer, como é que seus pais, quem são eles, o nome deles e como é que eles chegaram lá?
R - Meu pai André Carlos da Silva, minha mãe Shirley de Oliveira Reis. Eu não sei bem como eles chegaram na Vila Parisi. Meu pai trabalhava como ensacador de café em Santos, Cubatão. Minha mãe era prostituta, ela foi prostituta, se conheceram e aí foram morar na Vila Parisi. Não sei bem a época, porque foi bem antes do meu nascimento.
P/1 - Eles são nascidos lá?
R - Não, minha mãe é de São Paulo, meu pai é do Piauí.
P/1 - Ah, daí de repente...
R - Se cruzaram aqui na Baixada Santista, chegaram a Cubatão e aí ficaram.
P/1 - Tá, e eles tiveram mais filhos?
R - Tiveram, tem a minha mãe, eu tenho um irmão mais velho, que é o Fábio, Mestre Cabrito, ele é filho da minha mãe com outro rapaz e minha mãe e meu pai tiveram 2 filhos também que infelizmente faleceram. Depois disso meu pai teve mais 2 filhos, que depois que minha mãe faleceu ele teve mais dois filhos que é o Andrei e a Jéssica.
P/1 - Você tá em qual posição desses filhos?
R - Eu sou, vou falar assim, do meu pai eu sou a terceira, que os 2 mais velhos faleceram, que era a Lilian e o Gilmar, falecidos, e aí depois vem eu, da minha mãe eu sou a quarta, aí tem o Fábio, a Lilian e o Gilmar e vem eu.
P/1 - Quando seus pais então tiveram você, você foi a primeira filha dos 2.
R - Dos 2, que ficou viva, porque a Lilian e o Gilmar tinham falecido antes de mim.
P/1 - Antes de você.
R - Isso. Eles faleceram na época da Vila Parisi. A Vila Parisi tinha um problema muito grave com poluição, caía como se fosse neblina mesmo, chuva, a poluição das empresas, não tinha filtro, não tinha esse cuidado com o meio ambiente, não tinha, não tinha nenhuma lei que obrigasse a cuidar, na verdade.
E as crianças nasciam com muitos problemas respiratórios, nasciam com muita... com falta de órgãos, enfim. Cubatão era conhecida como a cidade de morte mesmo. E aí os dois faleceram por conta de problemas respiratórios.
P/1 - Pequenininhos?
R - Recém-nascidos, a bem dizer, não chegaram a completar dois anos de idade. E aí, depois, quando minha mãe engravidou de mim, minha mãe e meu pai queriam abortar pra não passar de novo pelo mesmo problema, pela mesma situação, e a minha madrinha, a dona Ernestina, dona Tina, falou que se eu nascesse, ela cuidava, que não era pra abortar, que ela ia cuidar. E aí eu nasci e meu pai não quis dar pra ela, não, ficou... aí criou, não quis dar pra ela porque eu era a única menina e o sonho dele era ter uma filha.
P/1 - Você tem alguma memória dessa infância, dessa primeira infância? Como era a tua vida lá?
R - Tenho
R - Na Vila Parisi, eu sempre fui criada com muita gente, na minha casa era eu e meu irmão, mas a gente ficava muito na casa da minha madrinha e do meu padrinho, que tinham mais filhos. Então, a gente... Todo mundo sempre estava muito junto, eu fui criada no meio de muita gente, tanto que eu falo pra minha família que eu não sei ficar sozinha, eu odeio ficar sozinha. Não gosto, tenho um problema muito grave com isso, eu não gosto de ficar sozinha porque eu fui criada no meio de muita gente.
Então, eu lembro que tinha circo, eles me levavam, eu era a menor da turma, então, eu era a única menina, eu tinha todo um cuidado. O que os meninos faziam, eu queria fazer, tem uma história ainda de família que eles iam fazer xixi em pé, eu queria fazer xixi em pé, na família, a gente, todo mundo tira sarro dessas situações, mas eram coisas que, para mim, eram normais porque eu era criada no meio de um monte de menino, mas eu sempre fui criada com muito cuidado, eles tinham muito carinho, e a gente criou assim, essa é a lembrança que eu tenho de infância.
P/1 - Você tinha pai e mãe presentes?
R - Tinha, aí a minha mãe faleceu, eu tinha 8 anos, ela adquiriu o HIV dentro do hospital, ela tinha um problema muito grave com respiração, ela tinha bronquite, e ela passou mal, foi internada, tinha anemia também, e minha mãe era uma pessoa muito teimosa, eu acho que eu puxei isso muito dela… e ela que pediu pra enfermeira pra levá-la ao banheiro pra tomar banho, a enfermeira não levou por conta de várias questões, não sei… Ela caiu no banheiro, bateu a cabeça e aí teve que fazer transfusão de sangue, na época não tinha aqueles cuidados que tem hoje em dia, foi em 1989, 1990, não tinha os cuidados que a gente tem hoje em dia com exames de sangue, ela recebeu uma bolsa de sangue com vírus do HIV, e aí ela faleceu com HIV e meningite.
Aí na época foi um transtorno, porque o HIV estava em alta, todo mundo falando sobre… a família inteira teve que fazer exame, aí meu pai foi acusado na época que ele tinha transmitido pra ela, enfim, só que todo mundo da família teve que fazer os exames e ninguém tinha o HIV no sangue, só ela.
P/1 - E foi comprovada alguma coisa?
R - Na época ninguém… por falta de conhecimento, por falta financeira, estagnou ali, aliás, não teve nem processo, na verdade, a família só aceitou, teve que enterrar, não tinha o que fazer… e passou.
P/1 - E foi rápido o momento que ela caiu, que ela recebeu sangue, que ela morreu?
R - Então, eu era muito pequena, então, eu não acompanhei esse processo, eu estava em São Paulo. Quando ela adoeceu, a minha família me levou para São Paulo, eu tenho umas tias parentes em São Paulo, que são irmãs dela, a gente ficou pra lá, eu e meu irmão mais velho, eu e o Fábio, e aí eu não tive esse contato, não tinha essa noção de tempo.
Eu não sei quantificar o tempo que levou de quando ela adoeceu, que ela foi internada, até o fato dela falecer, mas eu lembro que quando ela faleceu, a família teve que fazer esses exames, que era uma coisa, a gente não podia nem tomar água no mesmo copo, porque tinha esse preconceito, o medo de pegar o HIV pelo ar. Enfim, era um processo totalmente violento pra quem tava passando pela situação, os talheres eram separados, o prato era separado. Até que todo mundo teve que fazer o exame e constatou que ninguém da família tinha o HIV. Somente foi ela mesma que recebeu a bolsa de sangue com o vírus.
P/1 - Como é que foi pra você, uma criança de 8 anos, perder a mãe?
R - Tenso, viu? Bastante tenso, só que assim, eu sou uma pessoa muito privilegiada. Eu posso falar que eu sou uma pessoa muito privilegiada? Porque eu tenho várias mães. [intervenção] Eu sou uma pessoa muito privilegiada, de verdade, eu não tive só minha mãe de sangue, que é a Dona Shirley, quando ela faleceu, o meu pai arrumou uma outra pessoa, que é a Rose, que eu considero como mãe, tem a Dona Tina, que é minha madrinha também, que me criou como mãe, tem minha tia Sandra, que me criou como mãe.
Tem as amigas da minha mãe, que também me criaram, então, foi difícil, porque não tem o papel da mãe ali, mas eu recebi todo o carinho e todo o amor de todas elas, tanto que me chamam de filha, me acolhem como filha, acolheram meu filho como neto, então, eu acho que não supre 100%, mas supriu, não deixaram a desejar, entendeu?
P/1 - E aí você logo voltou de São Paulo pra Cubatão?
R - Voltei logo em seguida, depois que ela faleceu, não demorou muito tempo. Aí eu vim morar com meu pai, ainda teve uma guerra de família (falando): -”Porque, não, que é menina, você é homem”, aquela situação toda, mas aí ele arrumou uma outra pessoa, que é a Rose, que eu considero como mãe, e aí a gente foi morar com os 2 na minha casa mesmo, enfim.
P/1 - E aí você ficou lá nessa comunidade até?
R - Até... Acho que fiquei mais uns 2 anos depois, porque logo em seguida a gente teve que sair de lá, teve que sair da Vila Parisi por conta da remoção mesmo. Aí já era uma coisa que já era programado do bairro inteiro ser removido, a casa do meu pai foi a última casa que foi removida, porque ele não queria sair do bairro. Ele gostava muito de ir lá, entendeu?
P/1 - E vocês foram para onde?
R - Então, meu pai era meio da pá virada, meu pai não era uma pessoa muito centrada… e aí ele foi morar em Santos, eu fiquei morando um tempo na minha tia, depois eu fui pra São Paulo, ele separou dessa minha mãe de criação...
Então, tipo assim, foi muita confusão no meio do caminho, então, eu morei no Bolsão com a minha madrinha, a criação foi um pouquinho aqui, um pouquinho ali, até que ele faleceu. Infelizmente, ele também faleceu, e aí eu fui morar com essa minha madrasta, que eu falo que é a mãe, que me criou, quando ele faleceu, ela me adotou no papel direitinho, fez toda a documentação e hoje eu... Tanto que eu chamo de mãe, eu a chamo de mãe.
P/1 - Quantos anos você tinha quando seu pai morreu?
R - Tinha 12 pra 13 anos, foi muito em seguida, não demorou muito tempo, entendeu? Ele foi assassinado.
P/1 - Nossa.
R - É, eu falei que ele não era muito… Ele era meio da pá virada.
P/1 - Patrícia, sua infância te marcou com tudo isso, claro.
R - Sim.
P/1 - O que você carrega de memória, do que tinha ali, das suas brincadeiras favoritas? Qual era esse lugar protegido da criança? Como você viveu essa infância?
R - Então, o meu pai, por todos os defeitos que ele tivesse, que eu só fiquei sabendo depois que eu cresci, ele sempre foi um pai muito amoroso. Isso eu não posso negar, nunca deixo faltar nada, ele sempre foi um pai muito preocupado, eu sempre tive os melhores materiais, eu sempre estudei muito bem, ele sempre cobrou isso. Então, não posso falar que faltou pra mim, porque não faltou, por mais dificuldade que todas as famílias tivessem, ele sempre correu atrás pra não deixar faltar.
A minha infância foi muito no meio dos meus primos, brincando na rua, pulando corda, correndo, indo pro rio, nadar no rio, hoje em dia é mais perigoso, antigamente a gente tinha mais facilidade, então, foi uma infância muito aproveitada, eu aproveitei muito a minha infância.
Eu brinquei muito, eu me diverti muito, fui muito bem orientada, tanto que, da minha família assim, das mulheres, das minhas primas, a gente sempre teve esse cuidado. A família sempre teve muito cuidado com as meninas, então, isso foi uma coisa geral, então, eu sempre fui muito cuidada. Então, mas eu tive toda... Aproveitei minha infância, não posso falar que não aproveitei, com todos os problemas que teve, eu aproveitei a minha infância.
P/1 - E qual que era a base segura pra você quando as coisas saíam. Sua mãe faleceu, seu pai faleceu. Quem te segurava ali? Como era a sua base?
R - Então, eu sempre tive muito o meu irmão, o Fábio, sempre esteve muito presente. Ele é 5 anos mais velho que eu, a minha madrinha, meu padrinho, Dona Tina e o Geraldo, são as pessoas que eu tenho, assim como Porto Seguro, a minha tia Sandra, meu tio Jorge, são duas casas que eu sempre estive muito firme, muito segura e na casa também da minha madrasta, que eu chamo de mãe, Rose.
Então, eu tive 3 lares, assim, que falavam, aqui é meu lar, eu posso falar que é meu lar, entendeu? Eu sempre tive muito isso, então, são 3 lares que eu... que até hoje eu tenho, tipo, não acabou, mas até hoje eu tenho.
P/1 - E onde a Rose morava?
R - Ela é do Paraná, ela é de Curitiba, aí ela veio pra Cubatão, morou na Vila Parisi, morou no Costa Silva e morou no Casqueiro, a última moradia dela em Cubatão foi no Jardim Casqueiro.
P/1 - Você morou com ela lá?
R - Morei no Casqueiro.
P/1 - E pra quem não conhece, Casqueiro é uma comunidade, é uma favela?
R - Não, é um bairro nobre de Cubatão, mas ela morava nos prédios da CDHU no Jardim Casqueiro.
P/1 - Você cresceu, me conta como foi esse entorno.
R - Então, lá na época do Casqueiro eu tinha 14, 15 anos de idade, aí fiquei uns 2 anos, lá ela já casou de novo, ela tava casada, o marido dela era uma pessoa que também me viu crescer, cuidou também de mim como pai, sempre teve, que é o Sr. José Saúba, que a gente chamava ele, também sempre deu um apoio também como pai pra gente.
Foi uma infância tranquila, eles cuidaram muito de mim, acho que o medo que eu caísse numa perdição, que eu fosse pro lado errado da vida, era tão grande da família inteira, eu acho assim dizendo, que eles cuidaram muito bem de mim. E eu falo isso muito pra minha família, pros meus alunos, pros meus amigos: - “Eu fui muito bem cuidada”, com os ensinamentos deles, eu tinha muito medo de fazer alguma coisa errada, entendeu? Porque, tipo assim, eu via muita coisa acontecendo em volta, eu vi muita coisa acontecer, então, pelos ensinamentos deles e por tudo que eu já tinha visto acontecer, eu sempre tive muito medo de fazer alguma coisa errada, então, eu andava, tipo: - “ó, eu vou na esquina” e se você me procurar na esquina, eu vou estar na esquina. Se eu falar pra você que eu vou no Japão, se você me procurar, eu vou estar lá no Japão.
Então, eu sempre tive essa conduta de fazer o que é certo pra mim não quebrar a cara, porque a gente acabava vendo né?, então eu não queria ser mais uma na estatística.
P/1 - O que que era as coisas erradas que você viu?
R - Ah, eu vi amigas minhas usando droga, eu vi amigas minhas se prostituindo, teve amigas minhas que foram presas, eu não fumo cigarro, o dia que eu coloquei um cigarro na boca eu quase morri, porque tipo, era uma coisa que... Tipo, era uma coisa que todo mundo usava e eu falei: - “Não, vou só experimentar pra ver como que é”. Não gostei. Então, todas essas coisas que a gente vê, que começa como uma brincadeira e vai levando pra algo mais sério, eu sempre tive muito medo do algo mais sério, porque eu já sabia as consequências. Então, eu evitava pra não acontecer comigo também, entendeu? Então, por conta disso, eu sempre andei ali, não vou falar na linha, porque a gente acaba errando também, que todo mundo erra. Mas eu procurava não fazer o que os outros faziam.
P/1 - E as escolas por onde você passou, as amizades que você teve, a comunidade que você cresceu, como que era?
R - Olha, eu estudei em bastante escola, viu? Mas eu tenho amizade delas até hoje. Tem amigas minhas de Santos, que eu estudei em escola em Santos, que a gente traz até hoje. Eu sempre levei a sério os estudos, porque meu pai cobrava muito, ele falava assim: -“Você não tem obrigação nenhuma, a sua obrigação é estudar”. Então, eu não podia tirar nota vermelha, se tirasse, eu apanhava. Hoje não pode bater, não pode dar chinelada, mas, na nossa época, podia, na minha época, meu pai colocava de castigo. Meu pai batia e era a regra, então, ele falava: - “Você não tem obrigação nenhuma. A sua obrigação é estudar. O mínimo que você tem que fazer é tirar nota azul”. Entendeu? Então, eu sempre fui muito estudiosa, eu sempre fui muito “Caxias”, como as pessoas falam, por conta desse medo do castigo.
A mão do meu pai era pesada, a mão dele era uma mãozinha enorme, eu era seca que nem um palito, não dava… Ou eu fazia o que era certo ou ia ser castigada, então, eu não queria ser castigada, então você faz o que é certo.
Então, eu estudei bastante por conta disso, sempre, nunca tive falta de material. Graças a Deus, ele sempre supriu. Depois que ele faleceu, a minha mãe de criação, meus tios, enfim. Nunca deixou faltar o básico pra gente e o básico era muito bom na época também, então, não tenho o que falar, assim… A minha infância foi muito boa. Eu aproveitei bastante.
P/1 - Tinha algum sonho de menina?
R - Eu tinha um sonho de ter 1 filho só, com 18 anos, e eu consegui. É, porque como eu perdi meus pais muito cedo, eu não queria ter uma menina. Meu sonho era ter 1 filho homem, 1 menino, e tinha o sonho de me formar, de ter minha casa. Mas não sabia o que eu queria ser ainda, mesmo tendo essa vontade de ter 1 menino, 1 filho homem. Eu falei pra minha mãe, que com 13, com 13 pra 14 anos, que eu ia ter um filho homem, eu falei pra ela e ela quase me bateu na época, porque ela achou que eu fosse engravidar logo em seguida.
Mas não foi assim, mas o meu pai tinha o sonho de que eu fosse advogada. Eu odeio ler, eu leio por obrigação, de verdade, não vou brincar, não vou mentir, mas para ser advogada você tem que ler muito, eu falava: - “ meu Deus, o sonho do meu pai não é o meu”. E aí eu não tinha ainda uma pretensão de formação mesmo.
P/1 - Você queria ser mãe?
R - Queria ser mãe de um filho, de um menino só. Acho que era só isso, na época. Quando era na infância.
P/1 - E você gostava de alguma coisa em especial? Esporte, dança, música?
R - Capoeira, sempre foi, desde quando eu me conheço como gente, o meu sonho era poder jogar capoeira, mas como falei, meu pai era um cara muito rígido, machista, nordestino, bravo. Só o meu irmão podia fazer e eu não, só pude fazer depois de adulta, só. Aí depois a vida levou, levou até onde eu estou hoje. Mas o sonho mesmo era só ter um filho homem e consegui.
P/1 - E como é que foi a adolescência?
R - Minha adolescência também foi bem vivida, só que na adolescência eu fiquei entre Cubatão e São Paulo. Um pouco de rebeldia, às vezes você não quer ouvir muito e você acha que todo mundo está errado e só vê se você está certa, mas ainda assim eu sempre andei certinho para evitar conflitos.
Aí saí da casa da minha mãe, fui morar na minha tia em São Paulo, fiquei 2 anos em São Paulo, morando lá com as minhas primas, enfim, namorei, não deu certo e tal. Aí voltei para Cubatão de novo, mas também foi... Adolescência não foi uma coisa tão, assim, marcante, não, não teve muita coisa que marcou, não.
P/1 - Você começou a trabalhar?
R - Eu trabalhei com 15 anos, trabalhei num consultório dentário por 7 meses, depois eu saí. Mas também por hobby, tá? Porque eu queria aprender alguma coisa, eu queria fazer alguma coisa, não porque alguém mandou ou porque era uma obrigação de casa. Não, eu fui porque eu queria trabalhar, eu queria ser útil, eu queria fazer alguma coisa. E aí... “Você quer?” Deixaram eu trabalhar para ver como funcionava, o dinheiro era meu, eu ajudava a minha mãe em casa porque eu queria, não que fosse uma obrigação, não foi porque, - “ah, eu fui trabalhar porque eu tinha que ajudar dentro de casa”, nunca tive isso, graças a Deus, não passamos por essa situação.
P/1 - A Rose provia.
R - O esposo dela.
P/1 - O esposo dela.
R - É. O Sr. José Saúba, ele provia, ele também era ensacador de café, é. Infelizmente faleceu também, hoje só tem a Dona Rose, hoje ela mora no Paraná.
P/1 - O que você fez com o dinheirinho quando você ganhou?
R - Ah, na época a gente... é roupa, sapato, batom, ia comer um lanche…coisa básica de adolescente, tipo, não tinha uma coisa de guardar dinheiro: - “Ah, vou fazer uma poupança”. Não, não tinha. E também era na época, era bem baixo o salário, eu trabalhava meio período, então era um salário bem baixo, não era nada tão exorbitante pra época também.
P/1 - E quando você ia pra São Paulo, você ficava em que bairro lá?
R - Lá na Ponte Rasa, na Zona Leste.
P/1 - Gostava?
R - Amo aquele bairro, a minha prima ainda mora lá, é um bairro que lembra a infância também, a casa da minha tia, é uma casa que a gente, hoje não tem mais a casa, foi vendida, mas muitas memórias da infância foi dentro da casa da minha tia também lá em São Paulo.
P/1 - E parecia com o que você vivia aqui?
R - Não, totalmente diferente.
P/1 - Quais eram os contrastes?
R - Ah, que as casas aqui, quando eu era criança, a casa aqui era de madeira, lá a estrutura era outra. A casa aqui tinha, quando eu morava na Vila Parisi, eram três cômodos, lá já era uma casa estruturada, quarto, sala, cozinha, banheiro, totalmente diferente. Mas não era nem isso, eu acho que era mais o contato mesmo com os primos, que a gente tem até hoje. Mas a lembrança mesmo é só o contato com os primos, as brincadeiras, as memórias de infância, as brincadeiras que fazia.
Tem uma caixa de som com sangue do meu pé até hoje, que caiu no meu pé e sangrou, então tem um poço nessa casa, hoje não é mais a mesma casa. Foi vendida, mas tem um poço com todos os nossos brinquedos dentro do poço, que minha avó guardou como recordação, isso são coisas que a gente vai levando pra vida.
P/1 - E Patrícia, eu fiquei aqui curiosa pensando, as pessoas te contavam a real da vida, assim, quem foi sua mãe, quem foi seu pai?
R - Todo momento, a gente nunca foi escondido, tanto que, quando a minha mãe... As pessoas acham que é vergonhoso, a minha mãe foi prostituta, foi a realidade dela, infelizmente. A minha avó também foi, foi a realidade delas, não é a mesma minha realidade, não é porque elas foram que eu também tenho que seguir a realidade, mas também não pode apagar o passado, eu só sei quem eu sou por conta delas, entendeu?
P/1 - Isso era contado por quem?
R - Isso foi contado depois, eu fiquei sabendo depois que minha mãe faleceu. É, porque a gente era pequeno, eu era criança, então não tinha entendimento do que eram as situações, mas eu fiquei sabendo depois que... A minha mãe faleceu, já depois, acho que um pouquinho mais de idade, quando ela faleceu, eu tinha 8 anos. Então, acho que uns 10. Depois quando você começa a entender as situações.
P/1 - E você entendeu bem? Como é que você lidou? Foi tranquilo?
R - Na época, não vou falar que eu tenho alguma recordação disso, porque eu não tenho. Mas hoje eu vejo como uma profissão comum, era o que ela tinha pra época. Se não fosse isso, como ela ia se sustentar? Ela ia roubar? Então, pra ela foi preferível fazer e tudo bem.
P/1 - E do assassinato do seu pai foi contado?
R - Foi. Na época eu morava com ele, a gente não sabe quem foi. Meu pai, como eu falei, meu pai tinha uma vida meia... Eu não sabia dessa segunda vida dele, tinha uma outra vida, uma outra realidade, e aí a gente...
Eu só recebi a notícia que ele tinha sido assassinado, aí o meu irmão falou. Morava eu, ele e meu irmão mais velho, o Fábio, falou que ele tinha sido assassinado, a gente não sabia. Até hoje a gente não sabe quem foi.
P/1 - Nem por quê?
R - Provavelmente por alguma coisa que ele fez que não foi legal, também a gente não foi atrás. Não investigou, aliás, se teve investigação, eu não sei.
Eu tinha 13 anos de idade, 12, 13 anos de idade, então, se teve investigação, eu não tive esse conhecimento, também nunca me preocupei em ir atrás.
P/1 - Você tinha algum medo de algo acontecer com a sua família depois disso?
R - No começo, a gente ficou meio que recluso. A gente, na época, morava em Santos com meu pai e o meu irmão, e aí eu evitei ir a Santos por um bom tempo, porque a gente não sabia… Eu fui seguida em Santos, eu estudava em Santos, e aí eu vi que tinha um carro me seguindo, eu peguei uma contramão, me enfiei dentro de uma loja, porque já tinha sido orientado que se acontecesse algo, que era pra mim fazer isso, aí eu fiz, oque minha mãe me orientou.
Mas também não voltei mais pra Santos, eu fiquei bastante tempo sem aparecer em Santos porque eu não sabia quem era, até hoje a gente não sabe. Então, aí depois de um tempo eu comecei, eu voltei a andar em Santos, mas por um bom tempo eu fiquei longe de lá.
P/1 - E aí como é que a gente chega então na realização do seu sonho de ser mãe aos 18?
R - Como chega? Namorava, comecei a namorar com o pai do meu filho, aí a gente terminou, a gente voltou, e nessa, que a gente voltou, eu tava morando aqui em Cubatão já, a gente foi morar juntos, eu tinha 17 anos. E aí eu engravidei, engravidei na época eu queria engravidar, eu tinha 17, eu queria ter meu filho com 18 anos.
Por que eu queria ter meu filho com 18 anos? “Hoje a gente sai pra todo que é lugar juntos, hoje a gente passeia, nós somos amigos, nós somos companheiros”, então, eu queria ter, poder curtir não somente a infância, mas a adolescência e a fase adulta dele bem. Então, hoje a gente vai pro pagode, hoje a gente sai, almoça junto. Então, tipo assim, eu queria aproveitar essa fase dele de adolescente para adulto.
P/1 - Isso era pensado?
R - Era pensado. Sempre foi pensado. Foi pensado dessa forma.
P/1 - Como é que ele se chama?
R - Carlos Eduardo, conhecido como Cadu e 07, que é o nome dele de MC.
P/1 - Quando é que o Cadu nasceu?
R - Dia 07 do 07 de 2000. O dia mais feliz da minha vida.
P/1 - Como é que foi o parto?
R - Foi normal, foi um parto tranquilo, não senti dor. Eu entrei no hospital meio dia, fiquei o dia inteiro deitada tomando soro e ele não queria nascer. Ficou lá deitado lá, eu deitada o dia inteiro e ele bem calmo, tranquilo, o parto dele teve que fazer, teve que estourar a bolsa porque a bolsa não estourou. Já estava com quase 40 semanas, ele nasceu bem ali no limite, ali quase... mais um pouquinho ia ter que fazer cesárea. Eu falava: - “Eu não quero de jeito nenhum que seja cesárea”. Eu tenho pavor de cirurgia, nunca tive cirurgia, tenho pavor.
E aí eu falava pra ele: “Por favor, nasça normal, meu amor”, eu conversei muito na gestação, e quando foi 7h... Às 19h estourou a bolsa, o médico estourou a bolsa. veio com um palitinho lá, tipo uma agulha de tricô, teve que furar a bolsa pra poder estourar, porque não estourou normalmente.
E aí ele nasceu... Quando eu comecei a sentir dor, eu falo isso pra todo mundo, quando eu comecei a sentir a dor, que eu falei assim, - “não, não dá mais”, aí eu chamei o médico e falei assim: “Doutor, é o seguinte, uma cesárea, que daqui pra lá eu não vou aguentar. Eu tenho certeza”. Ele falou assim: - “Ele já está coroando, ele já está nascendo”, foi muito rápido, eu falei pro médico, era... 22:09h, ele nasceu às 22:19h. Foi um parto muito rápido, não senti dor nenhuma, me recuperei muito bem depois do parto.
P/1 - E aí você estava com o pai dele na época?
R - Estava com o pai dele na época.
P/1 - E onde vocês moravam?
R - Na Água Fria, em Cubatão.
P/1 - E o que é a Água Fria?
R - A Água Fria é uma comunidade quase igual a da Vila Esperança, só que um pouquinho menor, próximo aos pólos industriais, Anchieta, Rio dos Pilões, fica ali mais ou menos no meio, Fabril, Água Fria, por ali.
P/1 - Como é que foi voltar pra casa com esse bebê no colo?
R - Olha, como eu já tinha cuidado de outras crianças da família, pra mim foi bem tranquilo. O cuidar do Cadu foi muito tranquilo, porque era algo que eu queria muito. Então, eu que cuidei do umbigo, eu que cuidei... Basicamente a vida toda dele, quem cuidou dele fui eu, nunca deixei ele de lado, até pra dormir na casa de alguém era muito difícil, eu não deixava. Era muito difícil, eu sou aquela mãe chata, sabe? Coruja, que fica em cima, até hoje eu sou assim.
P/1 - E você se sentia preparada com 18 anos, com a responsabilidade de ser mãe?
R - Não. Preparada acho que não, hoje olhando pra trás, não. Hoje, hoje eu falo muito pra ele, se eu tivesse a cabeça que eu tenho hoje naquela época, ele não teria nascido. Totalmente imatura, 18 anos, começando a viver, mas eu acho que nessa questão faltou um pouco de orientação, dos mais velhos nessa questão, mas pra mim foi uma descoberta diária. Não vou falar que foi tão difícil, que não foi tão fácil, mas também não foi aquela coisa...
Quando eu precisei de apoio, eu tive quem me ajudasse, não ter essa rede de apoio que as pessoas falam: - Todo mundo ali em cima, eu queria viver aquele momento com ele, e eu consegui viver esse momento, quando eu precisei, de fato, me ajudaram, me auxiliaram, mas na sua grande maioria era eu e ele. Nem o pai dele foi tão presente, mesmo a gente casado, tudo certinho, ele não tinha esse papel tão presente.
P/1 - Como é que vocês viviam na época? Vocês trabalhavam?
R - Eu não trabalhava, só ele trabalhava. Eu comecei a trabalhar quando o Cadu fez 3 anos de idade, que aí eu decidi, aí foi uma virada de chave na vida, assim, sabe? Que aí algumas coisas foram acontecendo, aí você vê que aquilo ali não é pra você, aí você vai vendo, mas eu comecei, eu voltei a trabalhar, o Cadu tinha 3 anos de idade.
P/1 - E aí você foi fazer o quê?
R - Auxiliar Administrativo. Eu já tinha feito cursos, e aí eu comecei a trabalhar como auxiliar administrativo.
P/1 - Você já tinha terminado seus estudos também?
R - Tava no segundo ano, tipo, não tinha terminado ainda. Quando eu engravidei do Cadu, eu parei por opção, aí voltei no ano seguinte, o Cadu ficou doente, ele tinha bronquite, e aí o médico falou assim: “Ou você estuda ou você cuida dele”. Porque eu pegava, deixava ele na minha mãe, ia pra escola, na volta eu pegava ele na minha mãe e voltava tarde da noite pra casa.
Então, eu pegava friagem, chuva e aí a saúde dele começou a ficar debilitada por conta que ele era novinho, e aí o médico falou: “Ou você cuida dele ou você estuda, é uma opção sua. Você tem que ver o que é melhor pra você e pra ele”. Aí eu parei. Falei: “Não, meu filho é em primeiro lugar”. Aí parei de estudar por conta dele e aí voltei em 2004, eu voltei a estudar em 2004.
P/1 - E aí você ficou casada com o pai do Cadu por quanto tempo?
R - Até 2004. Assim, a gente morou junto até 2004. A gente tinha separado dentro de casa, ficou um tempo morando na mesma casa, mas meio que separados. E aí em 2004 a gente encerrou os laços definitivos mesmo.
P/1 - E aí você continuou onde você morou?
R - Eu continuei morando na Vila Esperança. A gente já tinha voltado Já tinha mudado para a Vila Esperança nessa época.
P/1 - Ah, então me conta esse momento de vir para cá.
R - A gente morava nos Pilões, numa casa da empresa onde ele trabalhava, e aí, por conta que era da empresa e a gente estava passando por alguns problemas familiares, a gente decidiu comprar uma casa aqui na Vila Esperança. Alguns amigos indicaram, meus cunhados também indicaram uma casa, um barraquinho na época, e aí a gente veio para cá, para a Vila Esperança, em 2004.
P/1 - Você já conhecia?
R - Aqui a Vila? Já, já conhecia, sim. Porque eu já treinava capoeira aqui na Vila Esperança, então, e já tinha amigos que moravam aqui, então a gente já frequentava bastante o bairro.
P/1 - O que você achava do bairro?
R - Pra mim sempre foi um bairro normal, um bairro tranquilo, porque, tipo, eu nunca tive nada demais aqui, nunca vi nada demais aqui na vila. Fui muito acolhida aqui pelos amigos, então... Era um bairro comum como qualquer outro de Cubatão, pra mim continua sendo um bairro comum como qualquer outro de Cubatão.
P/1 - Tinha esse tamanho todo que tem hoje? Essa quantidade de gente que mora no bairro?
R - Não, era bem menor, viu? A quantidade de pessoas era menor, as vias não eram asfaltadas, a encanação não era da Sabesp, tinha encanação que vinha das bicas. Aí o pessoal fazia encanação e ia pras casas, aí às vezes tampava a encanação, o pessoal tinha que vir arrumar, ou quebrava cano no meio do caminho, o pessoal tinha que vir arrumar.
Não era dessa forma bonitinha que está hoje, não, não tinha esse muro de contenção ainda, era só uma via férrea, não tinha uma proteção entre a via férrea e a rua, não tinha proteção nenhuma. O pessoal até sentava na linha do trem, era bem diferente, o bairro era bem diferente, e a gente foi vendo as mudanças acontecendo, não tá 100% do jeito que a gente gostaria, mas tá bem melhor do que já foi um dia.
P/1 - E você falou que em 2004, então, você, o pai do Cadu e o Cadu se mudaram pra Vila Esperança pra um barraquinho. Onde ficava?
R - No Sítio Novo, a gente mora na Rua Santa Marta, eu moro lá desde então. Rua Santa Marta 546.
P/1 - Na mesma casa?
R - Na mesma casa, hoje a gente tá reformada, mas antes era um vão, um barraco de madeira em cima do mangue, era em cima do mangue e não tinha divisórias ainda, era uma outra realidade.
As ruas ainda eram de terra, às vezes enchia maré, a rua enchia, então pra chegar em casa às vezes tinha que molhar o pé na água da maré, aí foi por pouco tempo, essa fase de da maré subir, encher a rua, foi por pouco tempo, porque os vizinhos já estavam se organizando pra estar aterrando a rua, então, não vou falar assim que eu peguei essa fase umas duas, três vezes, até que aterrou, entendeu? A rua toda.
P/1 - E você olhava pra seu barraquinho, pra sua casinha e falava: “Vou reformar, vou…”
R - É, era o sonho. De todos os moradores que têm, e ainda é, continua sendo. A gente sabe que ainda tem outros barracos, mas é o sonho de todo morador, ter uma residência melhor.
P/1 - E você foi fazendo isso?
R - É, a gente foi e fez isso, hoje a minha casa é meio-a-meio, ela é meio bloco e meio madeira. Porque quando a gente foi fazer ela toda de bloco, foi orientado que ia sair… que se a gente gastasse ia perder dinheiro… então a gente pegou, acabou só dando uma reformada mesmo para deixar ela mais confortável, mas a gente não fez ela toda de bloco, a minha casa não tem quintal, então ela é, tipo, ela é toda, né?, e aí as divisórias dentro de casa, então a gente fez ela toda metade de bloco e aí metade de madeira.
P/1 - E por quanto tempo vocês moraram os três nessa casa?
R - Pouco tempo. 1 ano e pouco.
P/1 - Logo ele foi embora?
R - Logo foi embora. É um 1 e pouquinho. Ele foi embora em 2005, 2006. 2005, 2006 mais ou menos. 2005, é mais ou menos isso. Foi pouco tempo, não ficou muito tempo morando na mesma casa.
P/1 - Você se habituou rápido a esse bairro?
R - Sim, eu já praticamente vivia aqui dentro. Eu treinava capoeira, então tinha festa de amigo, aniversário, compadres, amigos que moravam aqui no bairro. Então a gente sempre estava aqui no bairro. Então não era uma realidade tão diferente do meu cotidiano.
P/1 - E criar o Cadu nesse bairro?
R - Olha, eu sempre fui muito rígida, então acho que indifere de bairro, eu sempre fui muito rígida na questão da criação dele. Porque eu sempre mostrei pra ele a realidade do mundo, que se ele fizesse alguma coisa errada, ele poderia ser preso, que tem droga… Tudo que eu aprendi, eu passei pra ele, então, a gente sempre teve uma conversa muito franca.
Eu sou muito rígida. “Se você vai na esquina, é pra você ir na esquina e voltar, se você quiser mudar o caminho, você volta em casa, fala com a mãe. Se você não fizer isso, você vai apanhar”. Então, essa criação foi muito firme com ele, então, eu não tive essa dificuldade de... O Cadu nunca foi pra baile funk, porque eu falava pra ele: - “se eu não tô lá, se não é bom pra mim, por que que é bom pra você?” Então, eu não consigo entender isso, tipo, se não é bom pro pai e pra mãe, por que que o filho tem que tá lá? E eu sempre falei isso pra ele: - “ Se eu não estou lá, se eu não estou lá naquele local, porque não é bom pra mim. Se não é bom pra mim, não é bom pra você. Então, não vai”.
Então, ele sempre... E ele sabe que se eu não fizer o que eu falar, sou muito brava, sabe? Sou ruim, eu falo pra ele que eu sou aquela mãe tinhosa. Então ele não fazia. Pra falar que ele não foi num baile funk, ele foi com o meu irmão, com a minha permissão, com a permissão do meu esposo, e não gostou. Falou que era muito barulho. E aí voltou pra casa, tipo, foi rapidinho, conheceu, provou do negócio lá. Não gostou, veio embora. Pediu pra vir embora. Então...
Mas eu sempre mostrei a realidade pra ele, hoje ele é MC, ele canta trap, rap, uma coisa assim, não é funk, é uma outra realidade que eu não sei os nomes ainda, não sou habituada.
Mas eu acompanho ele, todo show dele, tudo que ele vai fazer eu tô lá, tô na frente. Tudo que ele vai fazer... “Mãe, eu vou cantar na Fabril” “Vamos!” “Mãe, eu vou cantar na Vila Esperança” “Vamos!” Ele fala que eu sou a empresária dele. Mas tudo que ele vai fazer a gente tá junto.
P/1 - Enquanto ele era criança, você deixava ele brincar na rua? Como era a relação dele com os vizinhos?
R - Muito boa. Ele sempre brincou na rua, jogou bola, empinou pipa, ele ama empinar pipa até hoje, bolinha de gude, pife, como é que é? Bafo. Ele teve uma infância muito boa também. Acredito que não foi ruim, não, tinha bicicleta, jogava bola, mas sempre...
A minha rua é a rua sem saída, então é mais fácil para as crianças ficarem ali. Então, aí tinha minhas sobrinhas, vizinhos, que às vezes iam almoçar lá em casa. E eu, teve uma época que eu estava desempregada, então ficava todo mundo lá. Então, na hora do café da manhã, eles estavam tomando junto o café da manhã comigo, na hora do almoço, “ah, vamos almoçar”. E aquele “mundaral” de criança por dentro de casa. Almoçar também, então, foi uma infância legal. Ele brincou bastante também.
P/1 - E você tinha uma boa relação com seus vizinhos?
R - Muito, até hoje. Eu tenho compadres na rua. A gente tem amigos lá que os filhos convidaram eu e meu esposo, o atual esposo, o Cláudio, para ser padrinhos. Então, a gente tem uma convivência muito boa.
P/1 - Você ficou mãe solo um tempo?
R - Pouco tempo, pouquíssimo tempo, eu não sei ficar sozinha, eu tenho medo. Eu não nasci sozinha, não cresci sozinha. Então, eu tenho um problema muito grave com essa questão de ficar sozinha, eu tive uma crise de ansiedade porque eu estava sozinha.
Tive uma crise muito grave de ansiedade, então, eu acho que isso de estar sempre com alguém me deixa muito amedrontada quando eu estou sozinha, então eu odeio ficar sozinha, odeio, se eu estou sozinha em casa, eu ligo o som, a televisão. Eu preciso ouvir…. Mas pouco tempo.
P/1 - Quanto?
R - Menos de um ano, eu estou há 20 anos com o meu esposo, são 20 anos de casamento, a gente vai fazer agora dia 6 de fevereiro de 2026, a gente faz 20 anos de casado.
P/1 - Quem é seu esposo?
R - Senhor Cláudio Henrique Soares, meu amor. Meu companheiro de vida.
P/1 - Onde você conheceu o Cláudio?
R - Na Capoeira.
P/1 - Na Vila Esperança?
R - Na Vila Esperança. Dentro da Vila Esperança.
P/1 - E como é que foi o encontro?
R - Ah, a gente era amigo. Bons amigos, confidentes na verdade, grandes confidentes e nasceu o namoro, nasceu o amor e a gente está até hoje juntos, através da capoeira. Eu falo que a capoeira me deu tudo o que eu tenho hoje, ela me deu uma família maravilhosa, ela me deu grandes amigos, ela me deu o meu esposo, me deu a minha profissão, que eu sou professora de educação física e arte educadora por conta da capoeira. Então, a capoeira me trouxe, me proporcionou uma vida maravilhosa.
P/1 - Como é que era ser mulher com um filho pequeno na Vila Esperança?
R - Eu não... Se eu falar pra você que eu tive dificuldade, eu não tive dificuldade. Quando eu vim pra cá pra ver a Esperança, que eu tava casada, morava com o pai do meu filho e tal. E depois que ele saiu, pra mim continuou a mesma situação. Porque depois, nessa época, eu já tava trabalhando, cuidava do meu filho, a minha rotina não mudou, nunca mudou por conta de ser mãe solo ou não, ou de ser mulher ou não.
É sempre a mesma rotina, nunca teve... As dificuldades que eu tive, acho que qualquer outra pessoa tem também, se é casada ou solteira, eu não tive esse... Não posso falar que tem um parâmetro de sofrimento ou que eu posso falar que eu sofri mais ou menos, não… Pra mim continuava uma rotina normal, porque eu só separei e continuei vivendo da mesma forma, trabalhava, cuidava do meu filho, ia pra capoeira, voltava. A minha rotina não mudou, entendeu?
P/1 - E você trabalhava com o quê?
R - Na época, eu tava trabalhando como camareira.
P/1 - Aqui mesmo?
R - Não, eu trabalhava no Gonzaga, no hotel luxuoso, no Gonzaga. Trabalhei um ano e pouco de camareira.
P/1 - Ia e voltava então, todo dia?
R - Todo dia, pegava esse ônibus aqui de Cubatão, daqui da Vila Esperança 936… 938. Aí ele dá uma volta de 2h até chegar no local de trabalho.
P/1 - Você levava 2h pra ir e duas pra voltar?
R - É.
P/1 - Todo dia?
R - Todo dia. Quando eu queria chegar um pouquinho mais cedo, aliás, queria descansar um pouquinho mais e chegar, poder descansar um pouquinho mais, aí eu pegava o 933 que passa na pista… eu descia no centro de Santos e pegava o ônibus para o Gonzaga, aí eu conseguia diminuir esse tempo de 2h para 1h, porque 933 ele vai direto, então ele não pega semáforo, ele vai direto pela pista até o centro de Santos. Mas o Vila Esperança, ele dá uma volta em Cubatão, todinha, Costa e Silva, Avenida, Casqueiro. Aí se você pegar o que vai para o São Vicente, dá uma volta em São Vicente até chegar ao Gonzaga, se você pegar o de Santos, ele dá uma volta em Santos até chegar no Gonzaga, então, dá umas 2h de viagem.
P/1 - E isso durou então um ano da sua vida?
R - Um ano e pouquinho.
P/1 - E aí depois disso você começou a trabalhar com o que?
R - Aí eu saí de lá, fui trabalhar numa padaria, de auxiliar administrativo, lá no Canal 5, que era um pouquinho mais distante. Também dava mais ou menos esse horário. Só que aí eu pegava um outro ônibus que é direto, que era o 936.
P/1 - E não existia na época a possibilidade de trabalhar aqui na Vila Esperança?
R - Aqui na Vila, não, área administrativa não, esse, quando eu trabalhei de camareira, porque eu estava desempregada, e você desempregada você precisa trabalhar. Então, aí eu consegui o emprego, meu irmão me indicou lá, aí fiquei um ano e pouco, depois eu comecei a trabalhar nesse em Santos, no Gonzaga, que já era na área administrativa também. Só que lá também trabalhei um ano e pouco também.
P/1 - E não tinha oportunidades por aqui?
R - Aqui na vila, não, e Cubatão é muito difícil. Cubatão é o QI - quem indica - se você não tiver o QI, amiga! é difícil, acho que quase em todo lugar, né?.
E aí eu fiquei bastante tempo lá, nesse local, lá em Santos, na área administrativa. Só que eu cheguei num ponto de que eu não tava... Eu tenho um problema que quando eu começo a estagnar as situações na minha vida, eu começo a me incomodar.
Eu gosto de movimento, gosto de coisa nova, gosto de ver mudanças e aí eu estava presa numa sala, fazendo nada pra mim, nem pra ninguém, só pro meu patrão. Eu ficava o dia inteiro trancada numa sala, com um computador na minha frente, então aquilo começou a me incomodar muito, tipo: “o que eu tô fazendo da minha vida aqui? O que eu tô aprendendo? O que que eu tô fazendo de bom pra alguém, não é só pro patrão”. E eu já fazia capoeira, e a capoeira é movimento, ela é compartilhamento.
E isso começou a me incomodar muito, muito, muito, até que chegou um dia que eu liguei pro meu esposo e falei: “Ó, estou pedindo conta”.
Aí ele: “Você tá ficando doida? A gente tá construindo a casa, a gente tá morando de aluguel”. Eu falei: “Mas se eu ficar aqui, eu vou ficar doida.”
.Aí começou a acontecer algumas coisas de injustiças que eu não gosto, dentro do local que eu trabalhava, e aí eu liguei pra ele chorando e falei: “Ó, eu vou pedir conta. O que vai vir depois, não sei. Mas eu vou pedir conta”. Ele falou: “Tá bom, você tá falando que vai pedir conta”...
Fiz uma carta de demissão, entreguei pro meu patrão. Falei: “Ó, enquanto eu não arrumar outro emprego, eu tô aqui cumprindo meu aviso prévio. Vou cumprir. Se eu consigo emprego amanhã, eu vou te avisar. Rafael, estou saindo porque eu consegui outro emprego.”
Fui bem sincera com o meu patrão, com o meu antigo patrão. Ele: “Tudo bem? Só me avisa”
Falei: “Tá bom” Com 8 dias depois, o meu irmão me chamou para dar aula de capoeira junto com ele. Num projeto aqui em Cubatão, chamado Mais Educação.
P/1 - Aqui na Vila Esperança?
R - No Pieruzzi, a gente dava aula em vários locais de Cubatão, na verdade, então, eu comecei a trabalhar no Mais Educação, e no Cubatão Plural, que eram projetos culturais, isso em 2010, 2011, mais ou menos, que eram projetos que a gente levava a cultura para dentro da escola. Então, a gente começou com 8 dias, que eu pedi conta, falei: “Universo, Deus, meus orixás, abre os caminhos aí, porque a gente precisa”. E eu era ainda aluna, então, tem um problema também, só que eu não dava aula sozinha, eu dava aula junto com o meu mestre, que era o meu irmão, então, com 8 dias ele me chamou e a gente começou era no Bolsão 8, era aqui na Vila Natal, era no Costa e Silva, era no Casqueiro. Então, tipo assim, eram projetos dentro das unidades escolares da prefeitura, atendia as escolas de Cubatão, e aí eu fiquei bastante tempo, até 2000, de 2011 até 2016, se eu não me engano,
P/1 - 5 anos.
R - Cinco anos dentro das escolas.
P/1 - E a logística da sua vida ficou mais fácil?
R - Bem complicada, mas facilitou por quê? Porque eu conseguia levar o Cadu comigo, então, hoje eu dou aula dentro da Escola Pieruzzi e ele estudava na Escola Pieruzzi, então tinha dia de aula dele, que ele ia estar comigo à tarde.
Então tinha dia de aula que eu ia dar aula de capoeira em outros locais, eu consegui, conseguia levar ele junto. Então, tipo assim, o que também me incomodava muito na época em que eu trabalhava nos outros empregos era não poder acompanhar ele. As minhas vizinhas que olhavam ele, assim como todas as outras mães aqui, a gente sempre olha o filho do vizinho aqui na Vila Esperança. Então, eu ia trabalhar, meu esposo ia trabalhar, a vizinha passava o olho, só que isso sempre me incomodou muito, porque eu ia trabalhar e ele ficava em casa. Quem queria filho? Era eu. Quem tinha que criar? Eu sempre tive muito isso, quem tem que cuidar dele sou eu. Então, isso me incomodou muito.
E, quando eu fui trabalhar nesse projeto de cultura aqui em Cubatão, eu conseguia levar ele, ele estudava de manhã, à tarde eu estava em casa, almoçava com ele e voltava para dar aula de capoeira à tarde com ele, ele sempre me acompanhou. Depois desse período, eu consegui acompanhar ele também no processo de desenvolvimento dele, foi mais fácil também a criação de adolescência dele.
P/1 - A adolescência dele aqui é mais próxima. Teve alguma situação dessa adolescência dele, desse momento da sua vida que te marcou?
R - Ele sempre foi muito tranquilo nessa questão de... Ele sempre foi muito educado, o Cadu um menino muito carismático, não é porque é meu filho não, tá? Mas ele é um menino muito carismático, ele não é um menino que nunca me deu tanto trabalho assim. Coisa de escola, de briga de escola e tal, mas coisas que é corriqueira, que é normal, que a diretora liga, que você tem que ir lá rapidinho, mas nada tão extraordinário. Não, pelo contrário, ele sempre me ajudou muito nas aulas de capoeira. Como ele treina capoeira, então ele me ajudava na aula de capoeira. Então ele ia junto comigo na aula de capoeira.
P/1 - E o pai dele era presente?
R - Mais ou menos. Mais ou menos. O meu esposo Cláudio é mais presente na vida dele, começou a ser presente agora depois de adulto, eles tiveram uma conversa bem séria. Só que assim, a gente sempre falou pra ele que independente do que o pai dele fazer ou não, se tivesse presente ou não, era pai.
Eu sempre... O respeito do pai e da mãe é uma coisa que eu tenho muito firme, não importa o que ele tá fazendo com você, ele é teu pai, ele é tua mãe, a obrigação sua é de respeitar. Depois você entra e conversa, mas pai e mãe é sagrado. Eu tenho muito isso.
E aí teve uma época que ele tava meio rebelde com essa questão de relacionamento com o pai, a gente sentou com ele, conversou. “Ah, mas ele não vem”. “Não importa. Ele vai arcar com as responsabilidades dele. O que ele fez é problema dele. O que você vai fazer é problema seu. Então, você não pode tomar suas atitudes por conta do que ele fez. As suas atitudes vai gerar consequências pra você. Então, se você deixar pra trás, é você quem vai sofrer”.
E eu sou bem séria, eu sou bem... Se morrer e chorar no caixão dele, vai apanhar, porque eu não vou aceitar, se não cuidou em vida, não adianta querer cuidar depois de morto. Então, eu tenho muito isso. Então, a gente passa muito isso pra ele. Hoje eles estão, graças a Deus, estão bem.
P/1 - Patrícia, eu tô aqui pensando que você se mudou muitas vezes por condições da sua própria vida. Pra tia, vai pra outra... E aqui na Vila Esperança você chegou e ficou?
R - Foi.
P/1 - O que te fez ficar?
R - O que me fez ficar aqui? Acho que... Primeiro que é minha casa, eu tenho vontade de sair da vila por uma casa melhor, por um local melhor. Porque o meu sonho é ter uma casa com uma cozinha grande, porque eu quero...
As reuniões em casa tem comida, então, a minha casa é pequena, mas mesmo pequena cabe mais de vinte pessoas. Então, eu gosto de fazer a comida para os meus alunos, para o meu filho, para a família, o meu sonho é ter uma casa com uma cozinha enorme, com uma mesa enorme, tipo aquelas famílias italianas, para acomodar todo mundo, mas é o meu lar. E onde a minha família está é o meu lar. Então, eu amo a minha casa, é simples, é pequena, mas é onde eu deito tranquila, é onde a minha família está. É onde eu me sinto bem, onde eu tô segura, e sempre foi assim. Entendeu? Então, acho que foi isso.
P/1 - Eu entendo que você ama a sua casa. E em relação ao bairro que a sua casa está, como é a sua relação?
R - Muito boa, eu conheço todo mundo aqui, todo mundo me conhece. Se você perguntar quem é a Narizinho, as pessoas sabem quem eu sou. A gente tem uma convivência muito boa com as pessoas daqui do bairro. Eu gosto muito do bairro, de verdade.
P/1 - Me fala os desafios e os pontos que você gosta, além dos seus vizinhos e amigos.
R - Os pontos que a minha casa é acessível, tenho bons amigos, uma convivência muito boa com as pessoas do bairro. Os pontos negativos são a violência que a gente sabe que tem, a falta de manutenção da prefeitura com o bairro, a falta de educação da própria comunidade na questão de lixo, na questão de higienização das ruas, não é porque eu moro numa favela que eu tenho que deixar minha rua suja. Então, acho que são os pontos negativos mesmo, a falta de estrutura mesmo. E não vou falar que é só da prefeitura, porque a questão da sujeira não é a prefeitura, porque tem o caminhão de lixo que passa, que limpa, que cuida, tem o pessoal que limpa o bairro, mas é a falta de educação da própria comunidade. Acho que são os pontos negativos, mas o bairro é muito bom. Eu gosto da Vila Esperança.
P/1 - E você foi construindo a sua vida aqui dentro.
R - Sim.
P/1 - Ao mesmo tempo que o bairro foi crescendo também, não foi?
R - Foi. O bairro foi crescendo e a gente vai crescendo junto. A gente mudou, morou um tempo de aluguel na Ilha Bela, o tempo que a gente estava construindo a nossa casa. Que foi pouco tempo, um ano, acho que um ano mais ou menos que a gente ficou lá. Depois a gente voltou pra nossa casa, e a gente vai vendo essa... A minha rua era totalmente de terra, hoje ela já tem paralelepípedos. Tem iluminação, antigamente não tinha, era só um poste com uma luzinha no final da rua. Era um breu pra passar, hoje não, hoje é bem iluminado, a CPFL vem e arruma quando queima uma lâmpada da rua. Então, a gente viu essa evolução, e é bom ver, é bom ver também a evolução dos vizinhos que também moravam na mesma situação e hoje tem uma casa melhor. Andava de bicicleta, hoje tem moto, tem um carro, então, você vai vendo a evolução. As crianças crescendo, estudando, casando, meus afilhados, sobrinhos, vizinhos, hoje que moram no bairro também. Então, a gente vê a evolução de todo mundo, cada um querendo buscar o melhor pra si.
P/1 - E essas melhorias foram frutos do quê?
R - De muito trabalho da comunidade, na verdade, eu acho que do pessoal das associações, o pessoal vai cobrando aqui, cobra ali, pede aqui, pede ali. Já teve muita paralisação aí nessa pista por conta de água, por conta de energia, por conta de acidente. Esse muro de contenção também foi por conta de vários acidentes e ainda não pararam porque as pessoas ainda não tiveram essa conscientização de que é perigoso, que o muro tá ali pra te prevenir de várias situações, mas as pessoas ainda se põem em risco, falta ainda essa virada de chave das pessoas.
P/1 - Qual risco que ela se põe?
R - Ah, se põe em risco na linha do trem as vezes as crianças não estão bem orientadas pra sair correndo na linha do trem, pode ser atropelada, teve uns casos assim aqui.
P/1 - E você participou, você esteve próxima a essas movimentações, a paralisação, a contato com um líder comunitário? Como é a sua relação com o bairro em relação?
R - Hoje eu tenho mais contato, antigamente nem tanto, porque eu era aluna da capoeira, então quem ia mais era meu irmão, então meu irmão sempre foi muito mais pra frente, ele tem esse espírito mais de liderança. Então, o meu irmão mais velho, ele sempre foi pra essas... Sempre esteve mais presente nessa parte de... Mesmo não morando na Vila Esperança, porque ele não morava na Vila Esperança.
P/1 - Ele participava?
R - Ele participava, porque ele dava aula de capoeira na escola.
P/1 - Mas você não se envolvia muito?
R - Não, não, nessa questão de mobilização, mesmo porque eu sempre pensei muito no meu filho, e onde eu vou, meu filho vai junto, então, ele era pequeno, eu não deixava ele pra trás, de jeito nenhum. Então, sempre fiquei mais na retaguarda mesmo.
P/1 - Mas tava nas reuniões dos...
R - Muito raro. Hoje eu vou falar que hoje eu tô mais presente, depois que você amadurece, hoje a gente tem um grupo de capoeira, é uma outra realidade. Então, você vai se envolvendo mais, mas antigamente, não. Se eu falar para você que eu ia, estou mentindo, não ia, não que não fosse convidada. Mas não era uma coisa que me interessava para a época, mesmo que fosse uma questão geral de bairro, às vezes teve algumas reuniões no Elza (EMEF Profª. Elza Silva dos Santos), mas quando eram reuniões marcadas por entidades específicas, agora, quando era para muvuca, que o pessoal se organizava, eu nunca participei, não.
P/1 - E das festas, dos movimentos culturais do bairro?
R - Quando tem, a gente é convidado, eu participo, já fiz apresentação aqui no Zumbi, na Ilha Bela, Vila Esperança, aqui no Morro do Índio. Nesses dias, esse ano mesmo, a gente já fez várias apresentações. Então, quando tem alguma coisa que a gente é convidado para apresentar capoeira, para apresentar a nossa cultura, eu vou sim, com muito prazer.
P/1 - E você participava ou participa de projetos sociais?
R - Participo do Grupo de Capoeira Arte e Luta. É um projeto social, sem fins lucrativos, eu e o meu esposo, que é o meu mestre, mestre abridor, a gente tem um projeto com a capoeira na Escola Luiz Pieruzzi desde 2012. E aí a gente atende de crianças a adultos totalmente gratuito, usando a capoeira como ferramenta de transformação social.
P/1 - E você vê que isso faz diferença na vida dos moradores da Vila Esperança?
R - Faz. A maioria dos meus alunos são daqui da Vila Esperança, eles saem daqui pra ir pra lá, pra Vila Nova, que a escola é na Vila Nova. É divisa entre Vila Natal e Vila Nova, curtume ali, fica no meio. E a maioria dos nossos alunos sai daqui pra ir pra lá, então sai de bicicleta, vai de bicicleta, e depois a gente volta todo mundo junto. Hoje eu vou, geralmente hoje eu vou de moto, porque eu trabalho, meu horário, às vezes eu vou direto.
Mas, antigamente, quando a gente começou a dar aula de capoeira, a gente ia de bicicleta, aí ia uma fileira de criança na minha frente, então eu saía da minha casa e ia pegando, eu e meu esposo, a gente ia passando, nas casas, porque eram crianças, então, se eu tenho cuidado com o meu filho, a gente tem que cuidar do filho dos outros também.
Então, a gente saía de bicicleta pela Vila Esperança, aí ia parando, no caminho, até chegar no Pieruzzi, aí eu gritava: “Olha o carro!” porque, às vezes, a ciclovia, como sempre, nunca está disponível, acham que é estacionamento, que é lixeira, isso nunca mudou. E a gente ia gritando: “Cuidado”, e eu tinha uma cargueira vermelha. E às vezes o aluno não tinha bicicleta, colocava na cargueira e eu carregava a criança lá, ia atabaque, mochila, berimbau, criança pendurado e a gente ia.
Quando voltava, fazia o percurso inverso, o último que era pego, era o primeiro a ser entregue, então, saía entregando de casa em casa, chegava em casa às 11h da noite, 11 e pouquinho, até entregar todo mundo.
P/1 - O que você vê de significado para esses projetos, para as crianças, adolescentes, para as pessoas da Vila Esperança? O que isso dá para elas?
R - Dá vida, dá esperança, se não fosse isso, muitas crianças estariam dentro de casa, presas, ou fazendo qualquer outra coisa. Cabeça vazia, oficina do cão, que é a frase que todo mundo fala, criança é vulnerável, adolescente é vulnerável, e o mundo do crime está aí.
Então, se o projeto não tiver um projeto que auxilie, que direcione, eles estão à mercê, mas não é todo mundo que está disposto a fazer. A gente entende que é uma coisa, eu falo que é uma missão mesmo, eu amo o que eu faço, e eu amo muito o que eu faço. Hoje a gente tem 12 anos de projeto, eu e meu esposo, mas esse projeto já vem de anos, vem lá da Vila Parisi, de 1981.
Então, são pessoas que vieram sendo transformadas desde lá, o que eu tô fazendo hoje é um pouquinho do que eles já fizeram. Então, é uma continuidade, assim como o Zumbi, assim como qualquer outro projeto social aqui da Vila Esperança. Então, o que eu faço hoje, eu já vi resultado lá atrás, a gente tem um mestre hoje de capoeira no nosso grupo que ele é engenheiro elétrico, uma coisa assim e ele começou a capoeira com 7 anos de idade, com 6 anos de idade, então, tipo, vai transformando. O meu esposo, que é meu mestre, começou novinho também, o meu irmão, então, são pessoas que vieram caminhando, vieram mostrando que dá certo.
O meu padrinho começou esse trabalho e muitas pessoas passaram pelas mãos dele como aluno e deram certo na vida, hoje a gente, com o nosso grupo de capoeira, a gente tem formados, tem um professor de Educação Física aqui, tem um professor de Educação Física em Santa Catarina, eu sou formada em Educação Física, graças à capoeira. Então, tem trancista, tem design de sobrancelha, então, tipo assim, a gente orienta os alunos a ter uma profissão, não é só a capoeira, não é só jogar capoeira, tem um processo de construção ali dentro.
Então, eu acho muito importante, porque você direciona as pessoas, e a gente faz muito isso quando a gente tá no grupo, não é só um grupo, é uma família, a gente fala que é a Família Arte e Luta, é meio emocionante pra gente quando eu falo da Família Arte e Luta. Então, a gente direciona mesmo, crianças que hoje, que eram crianças e começaram comigo com 10 anos, hoje trabalham na refinaria, hoje tem uma profissão. Então, não é só jogar capoeira, vai muito além disso.
P/1 - Vocês viram pais e mães.
R - Pais e mães. A gente faz muito esse papel de pai e mãe.
P/1 - Até mesmo porque você sabe. Você foi uma mãe que teve que trabalhar e deixar o filho com outras mães, com outras pessoas.
R - Sim, sim.
P/1 - Você faz muito esse papel, então?
R - Faço. A gente, eu tenho um exemplo muito grande nessa questão de pai e mãe. A gente não teve, como é? Isolamento. Na pandemia, a minha casa não teve isolamento, as pessoas, a maioria das pessoas tinham medo de estar próximo aos outros.
A minha casa foi um ponto de apoio, então, os meus alunos tinham minha casa, a gente não pôde dar mais aula de capoeira, a gente ficou desde março de 2020 até 2021 sem dar aula de capoeira no espaço que a gente trabalha hoje, que a gente dá aula, que é o Pieruzzi, por conta da pandemia.
Mas a nossa casa ficou aberta, os alunos estavam lá todo dia, todo dia eu tinha aluno na minha casa, o dia que não teve, eu tive crise de ansiedade e eu quase morri, o dia que não foi ninguém na minha casa, foi um sábado de tarde, eu tive uma crise de ansiedade que eu pensei que eu fosse morrer, que meu esposo tinha saído, saiu todo mundo, eu fiquei sozinha, eu falei, “pronto, cadê o povo? Morreu todo mundo”. E aí me deu um desespero, acho que foi a única crise... Foi o pior dia da minha vida, foi esse dia, que eu não vi ninguém. Depois foram chegando, as pessoas foram chegando, o primeiro a chegar foi o meu esposo, mas a minha casa não teve esse distanciamento, não teve essa questão de cuidado, que não pode… Não, não teve, foi uma rede de apoio mesmo, minha casa foi um ponto de apoio. Todos eles tiveram acesso, tinha criança que não tinha acesso à internet porque tinha que fazer atividade da escola, e a gente, graças a Deus, a gente tem condições, a gente tem um computador, usava nosso computador, usava nossos celulares.
Então, a gente vai além da capoeira, vai muito além do que a gente acha que é só jogar capoeira, e eu não vou falar que só foi na minha casa, viu? Porque eu conheço outras pessoas que fizeram a mesma coisa com os alunos, então, é muito além de só jogar capoeira, de ter só um projeto social. É muito mais além do que isso.
P/1 - Eu escutei você dizendo que a capoeira te deu muita coisa, te deu tudo o que você tem, e a Vila Esperança, o que que te deu?
R - A capoeira, [risos] também. Porque eu comecei a treinar capoeira aqui dentro, por mais que a capoeira estivesse na minha vida desde que eu nasci, que eu acompanhei todo um processo da minha família com a capoeira, do meu irmão se formando na capoeira, do meus primos se formando na capoeira, eu comecei a treinar capoeira aqui dentro. Foi aqui dentro da escola Elza que eu comecei a treinar capoeira, então, a capoeira, a Vila Esperança me deu a capoeira de fato, vou falar assim, foi aqui dentro da Vila Esperança que eu me formei a monitora, a professora e hoje a contramestre, morando aqui dentro.
P/1 - Esse bairro te trouxe, talvez, estabilidade?
R - Muita, muita estabilidade, poderia ser em outro bairro? Não sei se seria diferente, a gente não sabe. Mas me trouxe muita estabilidade.
P/1 - E quem não conhece nada disso e te perguntasse, eu, por exemplo: “como é ser moradora desse bairro? O que você responde? O que vem na ponta da língua”?
R - O que é ser moradora da Vila Esperança? Olha, eu nunca pensei numa resposta assim, de verdade, acho que nunca me fizeram essa pergunta. O que é ser moradora da Vila Esperança? Já ouvi algumas pessoas respondendo que é ter esperança, morar aqui é ter esperança de algo melhor. Mas acho que isso vale pra qualquer lugar, de você morar em qualquer lugar e ter a esperança de ter algo melhor. Mas me traz muita tranquilidade, eu já fui em outras comunidades e eu já falei assim, “gente, a minha comunidade é maravilhosa”. Porque você vai em alguns lugares e você fala assim, “meu Deus do céu, o que eu tô fazendo aqui?” E aqui dentro eu ando tranquila, qualquer horário que eu chegar aqui dentro, eu chego tranquila, eu não tenho medo de andar aqui dentro e olha que eu já andei em vários becos aqui na Vila Esperança, que as pessoas têm medo de andar, nunca me falaram uma graça aqui dentro da Vila Esperança, nunca me chamaram de feia pra falar assim, ó, fizeram alguma coisa de... Nunca, aqui dentro eu ando tranquila. Mesmo com todos os problemas, lógico que você não vai enfrentar ninguém sem necessidade, vamos falar assim, você também não vai se pôr em risco, não vai sair no meio de um “Quebra Gereba”, que a gente fala na capoeira, mas não vai sair no meio de um tiroteio…
Tanto que quando acontece alguma intervenção policial aqui no bairro, a gente cancela o treino, porque eu não ponho meus alunos em risco, a gente cancela: - “Ó, tá tendo intervenção”, porque já teve várias intervenções por questões, por várias questões, a gente acaba sabendo, porque vai comunicando e tal: - “Ó, hoje não tem treino”. E eu não ponho ninguém em risco, só que eu dou aula na Vila Nova mas os meus alunos, a maioria são daqui. Então, a gente cancela, mas, fora esses casos assim, não vou falar pra você que eu tenho medo de andar na minha comunidade, na minha favela, porque eu não tenho. Eu ando tranquila aqui dentro, qualquer horário do dia.
P/1 - Quando você chegou na sua casa, tinha energia elétrica? Tinha algo encanada?
R - Então, não tinha, na época, não, era Rabicho, depois de um tempo que foi urbanizando, foi organizando, aí veio a Sabesp, acho que depois de uns... acho que 2009, mais ou menos assim. 2008, 2009, foi quando começou a organizar mesmo.
P/1 - A gente escuta muito o processo de urbanização. O que você entende disso?
R - Foi quando começou a trazer o asfalto, a energia, porque as vias eram de terra. Chovia, fazia buraco, lama, era bem difícil, o acesso era difícil. Os ônibus eram uma frota diminuída, hoje, a gente tem uma quantidade enorme de ônibus, é um dos bairros que não falta ônibus na Vila Esperança, a hora que você chega no ponto, vai passar, não demora muito tempo, a gente não tem um tempo de demora de uma 1h de espera de ônibus, estou falando do município.
O (ônibus) de Santos é um pouquinho mais demorado porque o percurso dele é mais demorado, mas o de Cubatão, você chega no ponto, tem o acesso, o bairro tem acesso, hoje tem acesso, antigamente não tinha, por conta da via mesmo, que era difícil, o acesso por conta que a via era precária até para os próprios moradores. Então, a empresa não queria colocar ônibus aqui. Aí veio asfaltando, depois veio a energia, de fato, a CPFL colocou os postes de luz nas ruas, na principal já tinha, algumas ruas já tinham, mas nos becos não tinha esse acesso, não tinha o acesso da água encanada da Sabesp. Era uma encanação que vinha da Bica, depois foi colocando, deram esse acesso de água encanada.
Hoje a Sabesp faz uma grande... Acho que a maioria da Vila Esperança já é da... Mesmo os barracos nas palafitas, acho que uma grande parte tem acesso à água da Sabesp, então, esse processo foi lento, mas chegou. Mas chegou.
P/1 - Você sente ainda falta de algo dentro da Vila?
R - Eu sinto falta da UBS dentro da Vila, porque assim, uma UBS pra Vila Esperança é pouca, por mais que eles dividam, agora acho que tem o Morro do Índio, Vila Esperança, mas a Vila Esperança é um bairro que é quase uma cidade, então, o acesso à saúde ainda falta. O acesso à saúde, mas em Cubatão também ainda falta. Então, vou falar que é uma coisa generalizada, mas o acesso à saúde ainda falta. Se eu falar que o atendimento é ruim, não é ruim, eles atendem super bem, a equipe que atende as UBS são pessoas maravilhosas, a gente tem um atendimento muito bom, mas ainda falta, porque é uma cidade, com uma UBS pra uma cidade.
P/1 - Então, a saúde para você é o ponto principal.
R - Hoje eu acho que pudesse melhorar, tem escolas maravilhosas, o Elza é uma escola maravilhosa. Tem o Santa Catarina, que é aqui dentro também, que é a UME para as crianças menores do ensino infantil. Também é uma escola maravilhosa, tem acesso. A Prefeitura dá acesso às crianças saírem daqui para outros bairros estudarem, então, tem ônibus para as crianças, então, essa questão do ensino, eu acho que é muito bom, porque tem o acesso. Só não estuda quem não quer, aqui, só não estuda quem não quer.
Mas, eu acho que a questão primordial mesmo, fora a segurança, mas, aí é uma outra realidade de comunidades, mas o que falta mesmo, eu acho que é uma UBS com mais profissionais para atendimento. Porque a que tem é pouca, ainda é pouco. Para o tamanho que é a Vila Esperança, ainda é pouco.
Mas atendem muito bem, não tenho o que falar, porque eu passo pela UBS e eu sou super bem atendida, da hora que eu chego, a hora que eu saio, sou super bem atendida.
P/1 - E tem opção de lazer, educação para as crianças adolescentes? Tem praça, tem parque, tem…
R - Aqui dentro, agora tem alguns campos que o pessoal já tinha e o pessoal, a própria comunidade cria alguns locais de convívio, de convívio, mas até pouco tempo não tinha tanto. Hoje tem aqui debaixo da ponte, daqui da Imigrantes, a Rumo fez o parque ali. Mas tem no Sítio Novo também tem uma, agora, acho que agora na Rua da Benção tem outra. Mas são coisas recentes, são coisas que, tipo, de um ano pra cá. Que estão se mobilizando mais por questões de políticas públicas, mas, antigamente, não tinha tanto assim, não, muitas crianças iam pro rio nadar no Caninho lá na Vila Natal. Lá no... Ia pro Horto, que é um caminho bem longo.
O Horto é de frente pra Anchieta, então, é um caminho muito longo pras crianças saírem daqui e irem pra lá, mas, iam, era um ponto de refúgio, de brincar. Iam pro Caninho, o Horto, quem tem mais acesso financeiro ia para o centro da cidade, para o Parque Anilinas, que aí tem uma outra realidade, mas ainda falta acesso para crianças de fazer esporte e lazer.
Tem, tem a capoeira, tem vários grupos de futebol aqui dentro do bairro, isso tem bastante, mas não é todo mundo que gosta, não é todo mundo que gosta de capoeira, não é todo mundo que gosta de futebol. Tem alguns grupos de, acho que é um grupo de Jiu-Jitsu, não sei se é Jiu-Jitsu, tem Karatê. Tem alguns pontos, tipo assim, mas que atende um grupo, perto do todo que é a Vila Esperança, são pequenos grupos que tentam...
P/1 - Isso são mobilizações mais dos moradores, que se juntam e organizam isso, ou vem do Poder Público ou vem…
R - São pessoas que gostam de fazer algo. Não vou falar que é do Poder Público, não. Porque, que nem vou falar, gente, da capoeira, é coisa que já vem de anos. Então, quando eu quis dar aula de capoeira, eu fui lá na escola, conversei com a direção, a direção liberou espaço e a gente começou a dar aula de capoeira. Então, vai muito do eu: ”O que que eu posso oferecer?” Então, o rapaz que faz, tem uma associação, eu não lembro o que que é, é Jiu-Jitsu, Muay Thai, Kick Box. E ele tem uma sede, que é um ovinho, mas que faz um trabalho maravilhoso, é super pequenininha a sede, muito pequenininha, mas ele faz um trabalho maravilhoso pra quem gosta daquela atividade, então não é todo mundo que tem esse acesso. Aí tem pessoal da igreja que vai pra igreja, que pra eles também é um momento de lazer, de descontração, mas perto do todo ainda falta muito, viu? Falta muito. Bastante coisa.
P/1 - E você sente a presença da Prefeitura, do poder público aqui dentro, das empresas, diálogo entre empresa e comunidade?
R - Hoje mais. Eu não sei se é por conta da linha do trem, enfim, por todo o processo de convívio, de políticas públicas, porque a Rumo precisa também desse diálogo com a comunidade. Eu falo porque eu trabalhei com o projeto da Linha Pra Frente, então, a gente trabalhou na conscientização da população referente aos cuidados com a linha do trem.
Então, desde 2015, a gente vem fazendo esse trabalho de grafitar a Vila Esperança com projetos, com gravuras que mostrem a realidade da Vila Esperança e o cuidado com esse meio ambiente, com essa linha do trem, então, a gente fez um trabalho. Eu fazia parte do projeto da Linha Pra Frente, desde o começo.
Então, a gente ia primeiro pra dentro da escola, fazia um trabalho de conscientização com os alunos e esses alunos desenhavam o que eles achavam, o que eles pensavam referente à linha do trem, o cuidado com o meio ambiente, o cuidado com as histórias locais, então, não era simplesmente só grafitar o muro, tem um processo.
Então, esse processo era feito com os alunos, a gente retirava o conteúdo desses alunos e levava para o muro. O desenho do muro da Rumo não são desenhos aleatórios somente, entendeu? “Ah, hoje eu vim desenhar uma árvore”, não, tem um porquê daquela árvore. Então, esse projeto levava as crianças também para o muro. Então, o pai entendia que o filho está fazendo parte daquele processo.
Então, de 2015 para cá, desde quando construiu esse muro, vem sendo trabalhado esse cuidado entre a Rumo e a comunidade e a prefeitura, falta bastante coisa, a gente sabe que ainda falta, mas melhorou muito perto do que a gente já teve um dia. Porque as pessoas estranharam esse muro aqui, era cinza, aquele muro não tinha nada e do nada apareceu um muro cinza no meio da comunidade. As pessoas estranhavam, quem entendia que era por segurança, beleza, e quem não entendia? Aí lá pichava, fazia comercial do restaurante, por vezes a gente teve que apagar até alguns desenhos que eram do comercial do estabelecimento da frente, que ele achava que aquele muro era dele, “faz parte do meu comércio, extensão da minha casa”. Então, foi um processo bem difícil. De 2015 foi quando foi, acho que foi 2013, 2014, construíram o muro, mais ou menos essa data, em 2015, a gente começou o projeto de grafite.
P/1 - E foi bem aceito?
R - Foi muito bem aceito. Nossa! E vou falar assim, a comunidade vem conversar com você, contar histórias assim, de que a avó lavava roupa na bica, e aí queria que fizesse o retrato da avó lá na bica, porque a avó fazia parte daquilo, fez parte daquela história. Então, é uma memória local, então, a gente captava isso. E até hoje, esse ano parou, não sei como vai ser daqui pra frente, mas o projeto, a gente já mandou outra proposta pra Rumo, pra continuar o projeto, que é um projeto que ele é infinito. Porque outras memórias vêm sendo feitas, vão sendo criadas no seu dia a dia. Outras pessoas estão chegando, então, a gente nesse processo, que a gente tá desde 2015, a gente parou, voltou, parou, voltou, são várias memórias que passaram e não teve nenhum lugar que a gente teve um não como resposta. Se eu parar (e perguntar), “o que você gostaria que a gente retratasse no muro?” Sempre tinha uma coisa positiva.
O que eu tomei de refrigerante, eu só eu não peguei uma diabetes nesse muro, porque Deus não quis, porque todo dia era refrigerante, água, bolo, tinha pão, eles vinham como se a gente fizesse parte da família deles, Chup-chup, suco... Eu nunca tinha tomado suco de... Ai meu Deus, como foi o nome? Eu não lembro o nome da fruta… Um senhor, ele arrumou a fruta, não sei da onde, ele falou assim, “eu fiz o suco pra vocês tomarem”, eu falei, “meu Deus do céu, da onde que ele arrumou essa fruta?” Ele foi buscar, não sei da onde, que ele tinha plantado do outro lado da pista, um pé de uma árvore lá que dava um suco e ele trouxe pra gente, então são coisas que a gente veio trazendo, nesses anos.
P/1 - E isso enquanto vocês grafitavam?
R - Enquanto a gente grafitava.
P/1 - Qual era o time?
R - Começou comigo, na verdade, eu fui convidada para trabalhar no projeto. Por que? Quem me convidou foi a Juliana, Juliana Clabunde, ela era uma das responsáveis do projeto, o idealizador é o Marco Tuim, ele é o grafiteiro, ele é o cara da tinta, é o cara que sabe, a gente ainda tem esse contato muito próximo e ele...
P/1 - Ele é da Vila Esperança?
R - Não, ele é do Casqueiro, ele é o artista do Casqueiro, ele é de Cubatão. E na época tinha uma outra moça, que eu sou péssima de recordar nome, não lembro o nome dela, lá ficou pouco tempo.
P/1 - Um grafiteiro montou um time?
R - Um time, éramos em 3, que ia pro muro era eu, Tuim e a outra moça. Eu não lembro o nome dela...
P/1 - Iam vocês três grafitar?
R - Iam nós três grafitar.
P/1 - Então você botou a mão na massa? Você botou a mão na tinta ali?
R - Muito mais que isso, eu fui limpar o muro, a gente foi raspar o muro, porque o muro de contenção já estava feito, só que ele não foi feito e a gente foi grafitar. Ele foi feito, e aí criou limo, criou sujeira, o pessoal jogava sujeira lá no muro, e a gente foi lixar o muro, antes de pintar o muro, a gente lixava o muro.
A gente tinha que tirar a sujeira daquele muro, então saía limo, às vezes o pessoal jogava lixo e grudava lá no muro e ficava colado, não foi só pintar o muro, não, a gente lixava o muro, a gente limpava o muro, porque não adiantava nada passar a tinta em cima da sujeira, porque ia sair.
P/1 - O muro foi construído em que ano?
R - Se eu não me engano, em 2013, 2014, essa é mais ou menos a data que está na minha memória.
P/1 - E aí vocês começaram em 2015?
R - 2015. A gente começou em 2015, aí fui até 2018, aí deu uma parada em 2018. Que a gente fez... O ideal era fazer os 3 KMs, esse muro tem 3 quilômetros e pouquinho de distância. Iniciando lá debaixo da ponte da Vila Natal até o final da Vila Esperança, ele tem 3 KMs mais ou menos e algum pouquinho. E a gente fez esses três anos pintando, e a gente não conseguiu concluir ele todo nos 3 anos, a gente passou um pouquinho mais, foi 3 anos e algumas coisinhas.
P/1 - Isso não é um trabalho voluntário?
R - Não, é remunerado, era um projeto que a Rumo patrocinou, era um projeto que foi apresentado pra Rumo, não sei como, que eu só entrei depois dos trâmites feitos. E aí a princípio foram nós 3, eu, o Tuim e essa outra moça, que eu não lembro o nome dela mesmo, sumiu da memória. E aí a gente ficou um tempo, aí depois ela saiu porque ela morava em Santos, para ela, para chegar aqui era muito difícil para ela e tal… e aí entrou o meu esposo para trabalhar com a gente, aí ele ficou um tempinho também, aí ele foi trabalhar em uma outra empresa, aí ele saiu, eu continuei até o final, a gente fez, e a gente fez um show depois, veio artistas de fora, a gente fez um mutirão.
Então, vieram outros artistas de fora, de São Paulo, de Santos também grafitar no muro, fazer parte, já teve show de música, de apresentação de capoeira, foi um dia bem diferente, a gente fez duas apresentações assim, uma na Vila Natal e uma aqui na frente do Zumbi. Aí parou o projeto… Aí retomou de novo o projeto, e eu voltei de novo a trabalhar no projeto numa segunda fase. Isso?
Não, na segunda fase eu não voltei, perdão, minto, na segunda fase eu não voltei, porque eu estava trabalhando já, e aí, só que o Marco Tuim, a gente tem uma amizade muito grande e ele insistiu, insistiu. Falei pra ele, “mas os meus horários não estão batendo”, ele: “mas eu queria que você voltasse”. Nem que seja num horário seu vago, que você consiga fazer meio período, que você fale pra mim que você pode, eu quero você dentro do projeto. E aí eu voltei de novo com ele, nessa fase. A gente ficou junto de novo, a gente foi agora, depois da pandemia. Na pandemia a gente ficou parado, depois da pandemia voltou e aí a gente parou agora, no começo, no meio desse ano.
P/1 - Mas não acabou ainda?
R - Então, o projeto acabou, essa fase do projeto acabou. Daí a gente pintou ao contrário, a gente pintou até o Sítio Novo, aí deu uma pausa de alguns meses, depois a gente veio do final até fechar o muro.
P/1 - Tem algum desenho, algum grafite que pra você é muito importante, que te marcou?
R - Ele não tá mais lá, a gente acabou tirando, porque renova, o grafite é movimento também… Era uma menininha fazendo um movimento de capoeira, o “Quebra-Espinha”, que os meus alunos foram pintar. Então, o projeto da Linha Pra Frente não era só o projeto de grafite que o grafiteiro vem e transforma, não. A gente ia no grupo de cultura, a gente foi na capoeira, a gente foi no karatê, a gente foi em alguns grupos de cultura, no futebol.
Então, não eram somente as escolas, a gente captava, às vezes, o pessoal do futebol que tinha um time que a gente nem sabia: - “Ah, a gente queria pintar o símbolo do nosso time aqui”, aí vinha um grupo do time para poder pintar, não era a gente que pintava. Porque, tipo assim, não tem lógica eu retratar uma outra situação, se você faz parte, você tem que vir pintar. Então, vinha 2, 3 representantes do grupo para fazer o símbolo lá do time deles.
P/1 - Interessante, porque aí tem a mão dessas pessoas.
R - Aí é onde você vê o pertencimento. O projeto era para trabalhar isso, não é simplesmente um mural bonito e colorido, não: - Eu tenho que entender que faço parte daquele processo, então, se eu pintar, não vou deixar você sujar. Então, essa era a ideia do projeto.
Não somente ter um projeto de grafite (arte urbana) bonito no muro, não, o pertencimento, então, às vezes, a gente não tinha nenhum grupo para pintar o muro, mas tinha uma criança da comunidade que queria pintar. Então, sempre tinha alguém querendo ajudar a gente a pintar o muro. Sempre tinha.
Então, a gente recebia suco, água, refrigerante, doce e vinha uma senhorinha, vinha e falava que estava bonito, vinha um senhor, vinha um morador, então, tudo isso foi um processo de construção durante esses anos de trabalho no muro.
P/1 - Te fez conhecer muita gente também?
R - Outras pessoas que eu não tinha acesso. Muita gente.
P/1 - E era respeitado ou alguém pichava em cima do que estava gravado?
R - Já teve casos. Como eu falei: - “a extensão do meu comércio, então, eu vou colocar lá o telefone do meu comércio”.
P/1 - Mesmo grafitado?
R - Mesmo grafitado. Já teve situações de eu ter que intervir: ´”Ó, não pode” “Não” “Mas não pode, a gente vai ter que apagar e vai ter que fazer outro desenho em cima, porque não pode, é patrocinado”. O que a gente podia fazer é registros da comunidade, então, se você é um grupo de futebol, de karate, de balé, não importa. A pessoa não podia também questões religiosas, porque senão todas... A gente não trabalhava essa questão religiosa também, porque acaba criando conflitos, mas, se você tem um trabalho de cultura, que você está lá desenvolvendo, a gente colocava. Agora, o comércio, a gente já não fazia isso, porque é um comércio.
Então, você paga e pinte no seu espaço, mas não pode ser pintado no muro, mas acontecia, algumas vezes aconteceram, sim.
P/1 - Você viu resultados desse trabalho, desse projeto? Você viu conscientização, por exemplo, a partir desse projeto?
R - Vi. Aqui mesmo, na frente do Zumbi, a área mais preservada de toda a Vila Esperança é a frente do Zumbi, da sede de Bem Com o Mangue, olha, foram feitos vários painéis aqui, o Guará Vermelho, da foto do Zumbi (Sebastião Ribeiro, o "Zumbi", Um líder comunitário e educador social) com a nota do mangue que ele criou, outros desenhos, essa área que ele, que é em torno da sede, sempre foi a área mais organizada, o pessoal sempre cuidou melhor.
Nos outros pontos, como eu falei, a questão da educação, uma questão de educação, alguns pontos também o pessoal cuidava bastante, mas a preservação maior foi aqui na sede do Zumbi mesmo. Por conta do cuidado da frente dos moradores, tipo, é uma outra realidade.
P/1 - E pra você, o que te ensinou esse projeto?
R - Me ensinou muitas histórias de vida. Às vezes você acha que tá ruim pra você, e aí você olha o outro, e você tem que aprender a agradecer. Porque às vezes você tá passando por uma situação e vem uma senhora e conta uma outra situação, você fala, não, peraí, vamos analisar os fatos. Será que tá tão ruim assim? Ou é só o ponto de vista.
Então, às vezes, a gente estava falando da questão do problema, você olha, você acha que está aquele problema todo, que nada vai ter solução na vida, que você tem um sonho assim mirabolante e que você nunca vai alcançar aquele sonho e tal, e aí, uma vez, a gente estava grafitando mais para o ponto final e a casa da senhora era uma casa bem pequenininha. Por mais que seja na frente da avenida, era uma casa muito pequena, e ela falou para mim que o sonho dela era ter uma árvore, uma árvore… muito provável que acho que na casa dela lá no Nordeste devia ter uma árvore, e ela pediu pra gente desenhar uma árvore de frente pra casa dela, que quando ela abrisse a porta dela, ela visse aquela árvore.
Então, tipo assim, às vezes você tem um sonho tão mirabolante, aquela coisa que parece que é tão inalcançável, e aí vem uma pessoa e fala que só quer uma árvore. Olha só! E tu fala, calma aí, respira… tem coisas mais simples, vamos começar a agradecer um pouquinho mais, não que você não tenha que sonhar, mas tem coisas que são mais... Como que eu posso dizer assim? Mais simples, que o sonho não é porque ele é tão simples que não é tão importante, que é simples e tão importante. Pra ela era só uma árvore, uma questão de ter uma árvore! quando ela abrisse a porta da casa dela, ela visse uma árvore na frente da casa dela, ela não podia ter a árvore física, mas ela tinha uma árvore no desenho.
E ela tomava cuidado ali pra ninguém chegar na árvore dela, aí a gente tirou foto dela lá, enfim. Mas tipo assim, então, às vezes você acha que você tá com um problema tão enorme, tão assim. Aí vem uma pessoa tão simples. Então, a gente passou por isso, por várias vezes dentro desse percurso.
De um senhor chegar e falar assim, “nossa, muito obrigada, porque vocês estão mostrando que a gente ainda tem jeito, que a comunidade ainda tem jeito de algo melhor”, então, tipo, coisas simples, dava um abraço na gente, esse senhor que veio uma vez falar pra mim, ele falou assim, “o meu sonho é ver a Vila Esperança limpa”. Porque, às vezes, a gente vê que o processo da Vila Esperança, o caminho da Vila Esperança é meio complicado, a questão da higiene, mas, como eu falei, a questão dos moradores… não é a prefeitura que joga o lixo lá não, tem o caminhão que passa e recolhe, os moradores que não tiveram essa consciência ainda de onde eu tenho que descartar o lixo de fato.
P/1 - E aí vocês ensinam a partir do projeto.
R - A partir do projeto. Era um trabalho, e assim, de filho eu falava assim, “pai, você tá vendo que tá sujando a rua. Não pode”. Então, a gente teve esse trabalho com as crianças, e faz falta, porque eles cobram a gente. A gente encontra no caminho, “pô, quando que vai voltar pra escola? Quando que a gente vai poder grafitar de novo?” Então, a gente tem ainda esse contato com alguns moradores e eles falam, eles cobram ainda esse processo.
P/1 - Qual é a sua sensação?
R - De dever cumprido. Porque eu fiz algo pela comunidade. Por mais que, “ah, foi remunerado”, que era um trabalho remunerado, é um trabalho remunerado. Mas o contato de estar ali com as pessoas, a convivência, eu gosto de gente, eu gosto de estar no meio de pessoas. Então, isso me fazia muito bem. Muito bem mesmo.
P/1 - De pertencer também a algo.
R - De pertencer a algo. De construir algo juntos. É uma construção, ali.
P/1 - Uma melhoria.
R - Uma melhoria. Verdade, uma melhoria.
P/1 - O que você vê daqui para o futuro próximo da Vila? Como seus olhos enxergam esse futuro?
R - Eu tô vendo muita movimentação dentro da Vila Esperança. Muito movimento dos jovens, tá tendo vários projetos, antigamente a gente via alguns projetos mais voltados pro esporte, pra cultura. A capoeira, o futebol, o kickboxing, o pessoal da igreja e tal, mas eram coisas pontuais, em locais pontuais. Hoje a gente consegue enxergar que tá tendo várias outras ações de educação dentro da Vila Esperança, e educação gera coisas positivas.
Você não simplesmente bonifica, você ensina, você não dá o peixe, você ensina a pescar. Isso é importante, o que está precisando muito é isso. Os jovens precisam entender que eles precisam buscar esse sustento, eles precisam ir em busca dos sonhos, é muito fácil você entregar de mão beijada e não vai ser valorizado.
E hoje a gente está vendo muitos movimentos dentro da Vila Esperança de cursos de capacitação, coisas que os mais velhos não tinham. Então, se você educa, se você capacita, você cria renda, você cria outra geração consciente. Então, eu acredito que esse movimento vai trazer um benefício para a Vila Esperança, porque as crianças estão sendo educadas de forma correta, não só esperando o prato feito. Vamos lá preparar a comida, vamos descascar o alho, descascar a cebola, cortar de forma corretinha pra ver como vai funcionar e aí você capacita e você vê com que eles vão buscar outros ares, entendeu?
E eu vou falar que eu tô vendo esses outros ares, porque eu conheço alguns jovens que estão fazendo parte desse processo e que já tem uma outra visão, entendeu? E o bom é que não é somente numa escola. está atendendo todo mundo, ainda não atende todos os moradores, que seria um sonho que toda a Vila Esperança fosse atendida de forma legal para, tipo assim, todos os jovens ou adultos, enfim… Mas a gente começa a ver essa mudança, do jovem querer buscar, não porque está sendo beneficiado financeiramente, não, porque ele está aprendendo.
P/1 - E de pessoas que estão construindo as suas histórias aqui e se permanecem, porque viram um ambiente bom para estar.
R - Eu participei de uma reunião e a gente estava comentando, eu penso assim, se você capacita quem está aqui dentro, você gera renda para dentro da Vila Esperança. Então, é importante que projetos que estejam aqui dentro, contrate pessoas daqui de dentro, porque não tem lógica você criar um projeto, capacitar e contratar de fora, essa mão de obra de fora. Então, o que a gente tá vendo é isso, é capacitando e contratando quem tá aqui dentro, o ideal é que seja isso, é um sonho que se realize aí, quem sabe no futuro breve.
P/1 - Você pretende continuar por aqui?
R - Pretendo, não sei até quando. Até quando Deus permitir, até quando meus Orixás permitirem, porque como eu falei. Eu tenho o sonho de ter uma casa, não grande, eu quero uma cozinha grande, mas eu acho que o vínculo daqui de dentro não perco mais, daqui de dentro da Vila Esperança, é um bairro que eu gosto muito. Gosto muito… e eu tenho outros planos pra dentro da Vila Esperança, na minha cabeça tem outras coisas, entendeu?
P/1 - Conta um.
R - Eu tenho vontade de ter uma sede aqui dentro da Vila Esperança, minha família não permite que eu faça isso na minha casa, porque senão eu não ia ter vida, como o meu filho diz. O meu esposo fala que eu não vou ter vida, ele até deu risada. Mas porque, como eu falei, minha casa é acesso, os meus alunos, eles têm acesso... Qualquer pessoa abre sua geladeira? Os meus alunos abrem, entendeu? Então, tipo, eles vão lá, pega água, toma café, faz café, faz comida. Não tem essa na minha casa de... “Ah, eu sou visita”. “Não, você não é visita, você vai lá, quer água? Vai na torneira, vai na geladeira, pega”. É assim.
Então, na minha casa não pode ser a sede porque senão eles falam que eu não vou ter vida, mas eu tenho um sonho de ter uma sede dentro da Vila Esperança ou na Vila Natal, que são bairros bem próximos, que atenda não somente a capoeira. Isso é um sonho, uma utopia, quem sabe um dia, se eu ganhar a Mega Sena, se eu tiver condições financeiras para isso, que atenda a comunidade, não só com a capoeira, que tenha reforço, que tenha, mais ou menos parecida aqui com um Zumbi, mas é que seja integralmente mesmo, de manhã à noite, ocupado pela comunidade, então capoeira, karatê, futebol, computação, não sei, o que for de formação, tem que ter. Esse é um sonho meu.
P/1 - Vai ter nome?
R - Não sei. Ainda não sei. Eu colocaria: Arte e Luta, por conta do meu grupo, da minha família. Eu falo que eu só sou arte e luta porque nós somos arte e luta. Da palavra em Yorubá, Ubuntu, (que significa que) eu só existo porque existem outras pessoas. Então, seria algo mais ou menos assim, mas nunca pensei num nome específico pra isso. Mas é um sonho. É uma utopia.
P/1 - Uma semente.
R - É uma semente. E toda vez que eu vou numa reunião com o pessoal da Rumo ou que me chamam, eu falo disso. “Tem que ter”. Não precisa ser meu. Precisa ser da Patrícia…Tipo, isso é um sonho meu, lógico, mas que tenha algo, porque você ocupando as crianças, elas estão fora do perigo das ruas.
Se você ocupa o adolescente, ele não tá em risco com as drogas. Se você ocupa o pai e a mãe, ele não vai ter uma depressão, ele vai ter uma atividade física, como eu sou professora de educação física, aí eu penso no funcional, já penso numa, sabe assim, um sonho grande, é um sonho.
Mas eu já sei, eu sempre falo, precisa que tenha algo que, tipo assim, seja uma referência ali e que você, não seja só pra você buscar uma cesta básica ou pra você fazer um curso de vez em quando, não, é algo que tá ali todo dia. Então, vai ter aula de educação física, vai ter aula de computação, vai ter aula disso, o dia inteiro, que seja algo contínuo, lógico que gera renda, que vai gastar energia, água, luz. Não sei de onde vai tirar o dinheiro disso, mas quem sabe um dia é um sonho.
P/1 - Um sonho de olho acordado.
R - É um sonho de olho acordado, por isso que eu falei que não pode ser na minha casa, que eles não vão deixar. Ó, o Zumbi, o Zumbi não tem vida, o Zumbi é 24h pra sede. Hoje ele pode estar um pouquinho mais calmo, eu conheço o Zumbi há muitos anos, e ele sempre foi nessa correria, porque é o sonho dele. Se a gente sonha, a gente tem que correr atrás.
P/1 - Patrícia, chegando agora ao fim, eu quero saber como é que foi pra você contar essa história.
R - Olha, pra mim é normal, viu? Porque eu sempre tô contando ela, histórias, eu levo comigo assim. Eu não sou africana, mas eu sou descendente, e na África tem um ditado que você tem que saber 10 gerações atrás de você, pra que a sua história nunca seja apagada.
Eu só sei onde eu vou chegar se eu sei de onde eu vim, então, eu sempre estou contando a minha história para alguém, porque é um exemplo. Então, para mim é muito prazeroso contar a minha história, é algo muito simples. Por mais que eu tenha passado por várias situações na vida, por mais que eu tenha passado por altos e baixos, para mim, eu viveria tudo de novo. Lógico, de algumas formas diferentes, lógico, a gente quebra a cara de vez em quando, mas tudo que eu vivi serviu de muito aprendizado para mim. chegar onde eu tô hoje, entendeu? Então, pra mim é muito simples contar. Não é sofredor.
Tipo assim, tem pessoas que sofrem quando vai contar sua história, lembram de forma pesada, eu lembro de uma forma mais leve, porque passou e serviu de aprendizado. Então, pra mim é muito bom contar, eu sempre tô contando. Eu sempre tô contando pra um aluno, porque às vezes precisa ouvir, às vezes ele não entendeu que a vida não é tão conto de fadas como ele tá achando que é… Então, às vezes a gente tem que dizer: - “opa, já aconteceu isso, isso comigo e eu passei. Você também vai passar. Essa fase tá passando. É ruim? É ruim. Mas é uma fase. Passa”. Igual videogame. Começou, passou a fase, foi mais difícil, vai passar pra próxima, a anterior foi fácil, quando você olhar a próxima fase, você fala, não, peraí, a outra tava mais fácil, então, pra mim é muito simples contar. Tenho muito orgulho da história que tenho de vida.
P/1 - Qual é o seu maior orgulho?
R - Meu maior orgulho, além do meu filho, que tenho amor imenso por ele, é ter a Família Arte e Luta e fazer parte da capoeira, porque sei que a capoeira me transformou. Meu maior orgulho é ser da capoeira, fazer parte desse legado, porque a capoeira é um legado. Não do meu padrinho só, que começou aqui em Cubatão, vou falar assim, começou a minha história com ele, mas é um legado de séculos, de renovação, de transformação e que foram passando de sementinha em sementinha e chegou até onde eu estou e vai continuar, porque não para. Acho que é isso.
P/1 - Obrigada.
R - Eu que agradeço.
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