Entrevista de Milena Klinke
Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 12 de dezembro de 2025
Projeto A Vida que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV001
Realização Museu da Pessoa
Revista por Nataniel Torres
00:00:18
P1 - Milena, pra começar, eu queria que você se apresentasse dizendo seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.
R - É, meu nome é Milena Klinke, eu nasci no dia 9 do onze de 90, num hospital que não existe mais, ali na 23 de maio, mais pra Zona Sul, assim, mais chegando na Zona Sul, em São Paulo.
00:00:42
P1 - E me conta qual que é o nome dos seus pais.
R - Minha mãe se chama Ângela Helena Rubino, hoje não é mais Klinke, só Ângela Helena Rubino, e meu pai é Erwin Klinke Júnior.
00:00:55
P1 - E como você descreveria isso?
R - Eles são muito opostos. A minha mãe, acho que ela é uma mulher de uma família mais de mulheres, então são muitas irmãs, e ela é a mais velha. Então, ela tem uma relação muito grande com a ideia de família e uma coisa do “maternar” muito forte. Então, ela é muito carinhosa, muito dedicada a essa coisa da família, das crianças, do cuidado. Mas, ao mesmo tempo, ela tem uma coisa muito festiva. Minha mãe gosta muito de festas de samba, de música alta e de dar risada. E a história dela é uma história muito trágica. E ela é muito… Hoje eu acho que eu consigo reconhecer que ela é muito boa de dar uma desbaratinada na tragédia, assim. Então, dá uma sambada na tragédia e a vida vai seguindo. E eu acho que isso é uma característica que também torna ela uma pessoa um pouco difícil de lidar, porque ela não é muito apegada aos sistemas, às coisas certinhas, porque ela tem que ter uma malemolência, porque é um pouco de samba, um pouco de família, é um cuidado que vai se adaptando. E o meu pai é completamente dos processos. Então, hora pra acordar, hora pra sair de casa, hora pra chegar no trabalho, a hora que ele tem que esquentar o café,...
Continuar leituraEntrevista de Milena Klinke
Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 12 de dezembro de 2025
Projeto A Vida que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV001
Realização Museu da Pessoa
Revista por Nataniel Torres
00:00:18
P1 - Milena, pra começar, eu queria que você se apresentasse dizendo seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.
R - É, meu nome é Milena Klinke, eu nasci no dia 9 do onze de 90, num hospital que não existe mais, ali na 23 de maio, mais pra Zona Sul, assim, mais chegando na Zona Sul, em São Paulo.
00:00:42
P1 - E me conta qual que é o nome dos seus pais.
R - Minha mãe se chama Ângela Helena Rubino, hoje não é mais Klinke, só Ângela Helena Rubino, e meu pai é Erwin Klinke Júnior.
00:00:55
P1 - E como você descreveria isso?
R - Eles são muito opostos. A minha mãe, acho que ela é uma mulher de uma família mais de mulheres, então são muitas irmãs, e ela é a mais velha. Então, ela tem uma relação muito grande com a ideia de família e uma coisa do “maternar” muito forte. Então, ela é muito carinhosa, muito dedicada a essa coisa da família, das crianças, do cuidado. Mas, ao mesmo tempo, ela tem uma coisa muito festiva. Minha mãe gosta muito de festas de samba, de música alta e de dar risada. E a história dela é uma história muito trágica. E ela é muito… Hoje eu acho que eu consigo reconhecer que ela é muito boa de dar uma desbaratinada na tragédia, assim. Então, dá uma sambada na tragédia e a vida vai seguindo. E eu acho que isso é uma característica que também torna ela uma pessoa um pouco difícil de lidar, porque ela não é muito apegada aos sistemas, às coisas certinhas, porque ela tem que ter uma malemolência, porque é um pouco de samba, um pouco de família, é um cuidado que vai se adaptando. E o meu pai é completamente dos processos. Então, hora pra acordar, hora pra sair de casa, hora pra chegar no trabalho, a hora que ele tem que esquentar o café, a hora que ele tem que parar pra comer, a hora da bolachinha, a hora do banho. Meu pai não cronometra porque ele não é tão obsessivo pela tecnologia, mas, se eu e meu irmão parássemos pra cronometrar, ele tomava banho exatamente em 10 minutos, às vezes menos, às vezes 4 minutos. Então, ele é cheio dos processos. E aí, naquela época em que era uma coisa muito determinada, minha mãe dona de casa, meu pai saindo para trabalhar, ele voltava para casa muito irritado com aquela coisa da vida da minha mãe meio malemolente, das coisas fora do lugar, do jantar ainda não tá pronto, das crianças, sei lá, brincando ainda. Nada muito disciplinar. A minha mãe não é muito disciplinada. E o meu pai, muito disciplinar. Então, a gente sempre, eu sempre tive essa imagem do meu pai ser uma pessoa meio do: “Opa, aqui é as regras. Então, aqui vem a severidade, as disciplinas”. E a minha mãe ser assim: “Ah, vamos brincar junto, vamos inventar coisa, uma coisa meio livre”. Apesar da minha mãe ter as obsessões dela, as coisinhas mais certinhas e importantes pra ela, tipo da feminilidade, de como se vestir, uma preocupação com imagem, mas ela era mais solta. E o meu pai era assim, comportamento muito certinho: “Vamos todos fazer desse jeito, porque a vida é seguir regras”. Mas o meu pai também dançava nas festas, puxava todas as mulheres da família pra dançar, inventava lá uma dança que eu não sei até hoje se é forró, se é samba, se é gafieira, dança junto. Então, tinha momentos em que ele também relaxava, sabe? Mas eles brigavam muito. Então, eu acho que eu descrevo eles muito opostos e aí fazendo uma composição, assim, complicada em termos de casais. Então, a gente vivia meio que entre dois mundos. Eles não partilhavam muito os mundos. Estar juntos, com os dois juntos, era mais difícil. Mas momentos com meu pai e momentos com a minha mãe eram ok, assim, separados. Depois eles se separaram. Foi melhor.
00:04:22
P1 - E você sabe como eles se conheceram?
R - Sei, sei. Meu pai e minha mãe se conheceram, eles moravam no bairro onde a gente cresceu, na zona sul, ali na região de Veleiros. E eles falam que eles eram da turminha, que é como era mencionado. Meu pai tinha um monte de irmãos homens, minha mãe um monte de irmãos mulheres. E eles estudavam, nesses colégios, os irmãos com os outros irmãos em uns e outros com outros. E aí tinham alguns bailinhos que se faziam na turminha, que era o pessoal desse colégio aí. E a minha mãe estava inserida nessa turminha. Mas ela e o meu pai não eram exatamente a paquera principal, pelo que eu ouvi dizer. Ele tinha umas paquerinhas e a minha mãe tinha outras. Em determinado momento, eles meio que ficaram juntos. E meu pai lembra, minha mãe não lembra quando, mas meu pai lembra e disse que foi num acampamento que eles foram fazer, numa praia. E aí eles ficaram juntos, e aí namoraram tipo por oito anos. E aí minha mãe deu uma enquadrada no meu pai e falou, a gente tem que casar, oito anos é muito tempo. E meu pai, meio a contragosto, meio pensando na vida, falou: “tá bom, vamos casar”. E aí eles casaram.
00:05:28
P1 - E você tem irmãos?
R - Tem um irmão mais velho, que é o Fábio, ele veio primeiro, e ele veio acho que uns dois anos depois que os meus pais casaram. Recentemente eu fiquei sabendo que não foi rápida a gravidez. Meu pai e minha mãe contam que, antes eles não falavam, acho que eu também não me interessava sobre esse assunto, mas que a minha mãe assim que casou queria muito já ter um filho. E o meu pai tava, “ah, tudo bem, pode ser”. E aí acho que levou dois anos pra ela conseguir de fato engravidar do meu irmão. E aí o Fábio nasceu, e aí eles moravam no Campo Limpo. Era mais afastado ainda de onde a gente... Depois eu nasci, né? Eles moravam nesse apartamento no Campo Limpo. E aí, o Fábio veio três anos depois, a minha mãe engravidou, eu vim. Só que é engraçado, porque a minha mãe diz que não foi muito planejado. Mas o meu pai nega isso, ele fala que foi planejado sim. Eu não sei, mas eu vim três anos depois do meu irmão.
00:06:25
P1 - E como é que era a relação de vocês na infância, entre irmãos?
R - Então, o meu irmão conta, e a minha mãe também, de que a minha mãe fez uma lavagem muito boa cerebral no meu irmão, de assim: quando ela tava grávida, ela falava - ela fala até hoje - que ela falava assim: “A sua irmã é a pessoa mais importante da sua vida. Ela é preciosidade, ela é maravilhosa, ela é uma criança que você mais vai amar, mais vai querer estar perto”, assim. E ela repetia todos os dias, quase meditativamente, e o meu irmão, com três anos, falou: “Não, ela é mesmo. Ela é a coisa mais importante”. E aí, quando eu nasci, tem uns vídeos que o meu pai grava, que o meu irmão, assim: “Meu Deus, é a coisa mais importante da minha vida, eu amo muito ela, eu amo muito ela”. E isso tornou meu irmão muito próximo, então a gente não tinha uma competição, ele não ficou inseguro. Mas aí a minha memória é de que o Fábio era excessivo. E aí eu ficava muito brava, então ele vinha, dava beijinho, e eu falava: “Sai!”. Eu era muito rabugenta. E tem essas características nas filmagens de criança, de eu sempre meio puta com ele, assim, e ele vem dar os beijinhos, eu: “Para, chega!”, e gritava com ele. Aí ele tirava minha chupeta, eu queria minha chupeta de volta, então a gente teve isso, de, na infância, eu ser mais avessa. E aí, quando a gente foi crescendo, aí eu comecei a gostar das coisas que o meu irmão fazia, porque eram coisas de mais velho, e aí eu acho que eu comecei a querer me inserir mais nas brincadeiras. Lembro muito da gente: ele trazia muitos amiguinhos em casa e ele resolvia brincar de coisas mais, mais violentas às vezes, tipo guerra de bexiga, pegava bola de basquete, tacava no outro e machucava. E aí a minha mãe ficava preocupada comigo. E aí ela tinha esse comando pro meu irmão: “Você tem que cuidar da sua irmã, preciosa, nananã”. Tinha uma coisa de gênero que eu acho que minha mãe já colocava também: “É uma menininha, né?”. Aí o meu irmão falava, não pra mim, porque eu acho que ele já me conhecia, falava pros amigos: “Ela é café com leite. Tipo, ela tá brincando, mas a gente faz de conta”. E eu lembro que eu tava muito feliz brincando até o momento que eu percebi essa conversa e eu falei: “Como assim? Eles não tão tacando a bola pra mim?”. Que eu lembro de ficar muito brava, de chorar, de brigar com a minha mãe e falar: “Por que você disse isso pra eles?”. Eu já tinha, sei lá, uns sete anos. E aí começou a se romper um pouco também. Então, (eu digo): “Quer saber? Eu vou brincar com os meus amigos”. Aí ele ficou com os amigos dele e eu comecei a ir atrás das minhas amizades, mas a gente sempre se deu muito bem. A minha memória é que, na pré-adolescência, a gente ficou muito oposto, porque o meu irmão ficou muito nerd na escola, porque acho que também já era mais avançado os estudos, e muito dos livros ele passava horas lendo, e eu não tinha essa pegada. Eu tava no mundo das artes, do teatro, das minhas amigas, que eu lembro que foi assim um momento em que o meu irmão tava, sei lá, ouvindo Enya, curiosamente para um adolescente, e eu ouvindo pagode. E aí o meu irmão ficou muito assim: “Não é possível que eu vou ter uma irmã pagodeira em casa”, todo cheio de preconceitos. “Não, isso não é erudito o suficiente para a nossa família”. E aí a gente teve alguns embates em que o Fábio ficava meio bravo e eu ficava meio assim: “Me deixa, a minha vida é feliz, olha o pagode, que alegria”.E aí depois a gente se reconectou, porque a gente se reencontrou um pouco também nas coisas mais de falar de teorias, coisas mais intelectuais, um pouco que ele trazia, um pouco que eu descobria. E aí também as músicas começaram a bater mais. Enfim, tiveram momentos de aproximação e afastamento, eu diria assim, com o Fábio.
00:09:59
P1 - E você sabe a origem dos seus pais? Você chegou a conhecer os seus avós?
R - Sim, sim. Os meus pais têm uma origem muito da miséria, da pobreza, os dois. Eu acho até que a minha mãe é mais miserável, do ponto de vista da ausência completa de recursos, do que o meu pai. O meu pai nasceu em Piraporinha, que é o interior do interior de São Paulo, quase Presidente Prudente. E o meu pai, por exemplo, conta que, na época, eles não tinham geladeira, então era aquele esquema bem rural. O banheiro ficava fora, você tinha que sair, muita preocupação com passar fome. Ele é o mais velho também dos irmãos. E depois o meu avô, que eu conheci, o pai do meu pai, resolveu vir pra São Paulo e ficou nessa região de Veleiros. A minha mãe é um pouco mais complicada a história, porque o meu avô, segundo a história que ele conta, ele é italiano, era, já faleceu, e ele veio aos 13 anos pra cá meio que clandestinamente, num barco, fugindo da Itália. A mãe dele colocou ele do tipo: “Aqui tá ruim, as questões da guerra”, e aí ele veio e não tinha dinheiro pra passagem, então ele se escondeu. E diz ele que, no meio da viagem, descobriram que ele tava lá sem ter pagado passagem. E aí que rolou uma confusão de: “Você vai voltar com a gente”. E aí ele conta que ele falou: “Não, eu vou me matar, então”. E aí fez uma coisa de tipo: “Vou me jogar do mar”. E eu lembro dele contar essa história. E aí eles meio que fizeram: “Não, tá bom, vai, não precisa se jogar do mar”, não sei o que aconteceu de acordo. E aí eles falaram: “Não, a gente vai te deixar”. E aí ele chega em Santos sem falar português, sem nenhum dinheiro, clandestinamente. E aí se virou de um jeito bem bagunçado. Sei lá o que ele fez pra sobreviver, isso ele não deu detalhes. E aí ele, nessa vida de aí, veio pra São Paulo, aí foi pro interior, atrás de trabalho, assim, né? Muito bonitão, meu avô, foi pro interior onde a minha avó morava, também numa família rural, (se) chama Dois Córregos, a cidade. E ela se apaixonou por ele lá. E ela engravidou. E aí ela ficou naquilo, “e agora?”. E aí o pai dela falou: “Ó, vocês vão ter que casar, então”. E aí ela falou: “Então vamos casar”, e ele meio que, contra gosto, acho que topou, pela pressão ali do meu bisavô. E vieram pra São Paulo, e aí minha mãe nasceu. Só que aí eles moravam, segundo minha mãe, numa parte ali meio do Ipiranga, assim, que era uma casinha dividida, enfim, do jeito que se arrumava, com outras famílias, cada um tinha um quarto. Aí minha mãe sofreu muitas coisas, desde abusos. Ficava muito largada. E depois disso meu avô decidiu comprar um terreno, não sei se ele comprou ou ocupou, ali na região um pouco mais afastada de onde meu pai morava com a família. E ele, minha mãe fala, ele construiu a casa sozinho.E aí muitos bicos, até que ele virou taxista, e nasceram as outras irmãs da minha mãe, e aí meu avô melhorou um pouco de vida. Aí já tava um pouco uma vida mais normal, assim. Minha avó era babá, às vezes empregada doméstica das casas, lavadeira, enfim, se virando.E aí minha mãe trabalha desde muito cedo, meu pai também. Eles, os mais velhos, vinham com essa função também de: “Vamos ajudar a família”, desde os 12, 13 anos, a trabalhar. Então essa é a origem deles.
00:13:38
P1 - E o que o teu pai fazia? Faz, né?
R - O meu pai, segundo a minha mãe, desde sempre foi da área de vendas. Desde esses caras que vendiam meio na porta, sabe? Até que, o que eu sei é que ele entrou nessa história de vender rolamentos, que é uma pecinha pra empresa, e aí ele entrou e nunca mais saiu disso. Ele chegou a fazer técnico, faculdade na FATEC, de pavimentação, mas já tava ganhando bem, como vendedor, e aí ficou nisso, assim, até hoje ele trabalha numa empresa, ele é vendedor, enfim, fica ligando e vendendo os rolamentos lá.
00:14:19
P1 - E na sua família, assim, pensando principalmente na sua infância, tem algum cheiro ou alguma comida ou alguma data comemorativa que lembra essa época, assim, com carinho?
R - É curioso isso, assim, porque eu até costumo falar, é engraçado, se a minha mãe ver isso, ela vai ficar brava. Mas, ao mesmo tempo, acho que ela vai rir, porque ela fica brava e ri também. Mas a minha mãe cozinhava muito mal. As minhas avós também. Então, não tem um registro da minha infância que as pessoas costumam falar daquela comidinha, era tipo, ruim as comidas. Assim, não é horrível, era a minha referência, eu comia. Mas não tem nada assim que você fala: “Nossa, aquele bolo”. Então, não tinha isso, mas tinha um bolo que era comemorativo, que a minha mãe fazia, que era um bolo de chocolate com recheio de doce de leite, e aí ela colocava amendoim, às vezes, não sei o que acontecia que ela conseguia dinheiro pra colocar nozes, aí aquilo era tipo comemorativo. Então, sei lá, no meu aniversário falava: “Mãe, faz aquele bolo de doce de leite”, então tinha uma coisa do acontecimento dela fazer. Mas não, era um bolo incrível também, mas era feliz, sabe? Era tipo comemorativo. Então, tinha coisa dos aniversários. A minha mãe, ela gostava muito de proporcionar pra gente aniversários. Eu nasci dia 9 de novembro e o meu irmão, 16. Então, a gente comemorava na mesma semana sempre, o que era bom e ruim. Porque teve a minha fase do... “Ai, que saco! Tão cantando parabéns só pra ele”, sabe? Uma coisa meio de... E ele nunca teve coisas comigo, mas eu tinha um pouco com ele, porque ele era mais velho. E aí a gente, às vezes, juntava os amigos, e aí o meu irmão tinha mais amigos, e eu ficava: “Nossa, eu tenho poucas amigas”. Tinha umas comparações, mas também era muito bom, porque era uma festa mais cheia de coisas. Então, tinha gelatina naqueles copinhos de plástico. Acho que essa mesa arrumada é uma lembrança que eu tenho, assim, de aniversário. Minha mãe fazia os brigadeiros, fazia gelatinas no copinho de plástico. Aí, às vezes, tinha aquela bexiga com docinho dentro, então essa memória do aniversário é gostosa, assim, de ter um preparo gostoso.
00:16:33
P1 - E eu queria que você me contasse como que era a casa que você passou a infância, se você se recorda.
R - Era uma casa legal, até hoje meu pai mora lá e ela não mudou muito, bizarramente, inclusive tá caindo meio (com) as coisas aos pedaços, mas é uma casa geminada, numa rua bem larga, assim, e aí ela tem um espaço de garagem principal, assim, pra guardar o carro, e depois ela segue tipo meio que um quintal na lateral, né, assim, e aí no final a lavanderia. E aí você entra, é uma cozinha, tudo muito escuro daí, porque é geminada. É a cozinha, depois tem o banheiro e a sala. Muito escura a sala. E em cima tinha o quarto dos meus pais, mas um banheiro e o quarto meu e do meu irmão, que a gente dividiu até eu ter 17, 18 anos. Que aí meu pai resolveu fazer uma reforma pra fazer um outro quarto, tipo um puxadinho atrás, que virou meu quarto. Mas era uma casa muito escura, que batia sol só umas duas vezes por ano, assim, durante um mês. E aí era um cheiro de mofo, uma coisa… A gente cheio de rinite, ninguém nem sabia que era rinite, vivia espirrando. Mas era muito divertida a casa porque a gente tinha muita liberdade. Então, assim, eu lembro que a gente tinha um colchonete e a gente colocava na escada e usava o colchonete de escorrega, assim. E horas a fio. Eu e meu irmão brincávamos muito dessas coisas. Às vezes a gente jogava o colchonete pela janela do quarto, não se jogava de lá, porque aí minha mãe botou na nossa cabeça que tinha uns espíritos que iam vigiar a gente se a gente jogasse. A gente tinha medo dos espíritos e a gente não pulava, não resolveu fazer essa aventura. Mas aí a gente jogava e a gente ficava jogando bonequinhos do meu irmão. Aí tentava fazer aquela coisa de sacola pra ver se voava, pra ver se planava, muito experimental. E o quintal, no calor, a gente montava aquelas piscininhas de plástico, ficava três, quatro dias direto com a mesma água, aquela coisa toda barrenta, ficava lá. Aí eu e o meu irmão, a gente brincava muito com água. Aí a gente esvaziava, às vezes, produtos de limpeza, enchia d'água e fazia guerras, assim. E aí eu lembro, era uma briga, porque o meu irmão era o meu irmão mais velho em algum lugar também. Ele é muito compreensível, muito companheiro, mas tinha umas sacaneadas de, tipo, “vou jogar puff no olho dela”. E aí, tipo, brincando, normal, de repente tinha um puff no olho e eu ficava, chorava. Aí minha mãe vinha e batia nós dois, dava um tapo em cada um, falava: “Não importa quem fez, vocês não podem brigar”. Era o lance dela, não briguem. Então, a gente brincou muito na casa. A casa, eu acho que tem uma memória muito viva pra mim. A gente brincava muito na casa e brincava muito nas praças do bairro. E minha mãe tinha muito essa disponibilidade. Na infância, eu lembro de que era muito legal ter uma mãe dona de casa, porque ela estava disponível não para a casa, tipo, a casa ficava bagunçada, a comida ficava ruim, meio crua, mas a gente tinha o tempo que a gente precisava para ficar na praça. Aí minha mãe levava, e minha mãe, eu lembro dela fazer amizade com as crianças para levar para casa. Às vezes, até o meu irmão, a gente às vezes, assim, recorda que às vezes dava no saco, assim, dava uma raiva da minha mãe, porque ela resolvia assim: “Ah, aquela menininha - sei lá, a Daniele - quer brincar com você, você vai para a casa dela agora brincar”. E eu falava assim: “Não quero ir na casa dela, não conheço essa menina” e minha mãe: “Já combinei, vai lá fazer amizade”. Aí eu ia e gostava, a gente brincava com a Barbie e tal, minha mãe ia buscar depois. Ela tinha uma disponibilidade pra que a gente vivesse muito bem a infância com muita brincadeira, com muita paciência. Minha mãe levava no parquinho de escorregador e ficava lendo, ela não era muito de fazer amizade com as outras mães, ela ficava mais isolada, eu olhava de longe, e a gente ficava lá horas. Tenho memórias de passar a tarde inteira sem água, mas não bebia água, não fazia a gente ficar brincando. Minha mãe lá, sustentando a gente (para) brincar. Então tem uma coisa gostosa da minha mãe.
00:20:32
P1 - E você tava falando um pouco do bairro, né? Que bairro que era? Onde que ficava?
R - É, o bairro chama Veleiros ou Jardim Suzana, dependendo, às vezes muda assim, o CEP. E ele fica, é um bairro muito gostoso porque ele é meio interiorano. Ele é um bairro entre a periferia mais afastada do Grajaú, enfim, entre o Campo Limpo, entre o Guarapiranga, entre Interlagos. Então, ele fica um miolinho que hoje eu até acho que virou um pouco mais nobre, porque é um miolinho que eram casas, não tem prédio, tem praças, eram meio terrenos vazios. E aí a gente tinha essa casa lá. Depois do Campo Limpo, meus pais conseguiram financiar essa casa e eu nasci já lá. Então, era muito bairro e era meio interior. Eu tenho a sensação de que eu não morava em São Paulo. Hoje que eu conheço São Paulo, São Paulo era tipo, lá era o interior. Hoje deixou um pouco de ser, assim. Mas, na época, era bem interiorano. Então, tinha muita criança soltando pipa, brincando na rua, as praças eram ocupadas, as escolas eram próximas, tudo no bairro se fazia andando, porque não tinha ônibus lá dentro. Você tinha que andar até a avenida mais próxima, que chama Avenida Atlântica, para pegar um ônibus até Santo Amaro, que era a referência. Em Santo Amaro, você pegava ônibus para todo o resto. Então, quase não tinha ônibus para o resto do mundo, assim, da cidade. Então, era meio isolado, por um lado. E aí tudo você tinha que fazer andando. Então eu tenho memórias de andar, assim, minha mãe ia me buscar andando na EMEI, depois voltava pra casa. Aí à tarde ela ia buscar o meu irmão e eu ia com ela, porque ela não me deixava sozinha. Aí andava até a outra escola, buscava o meu irmão. Voltava, então a gente tem memórias de andar muito e parar às vezes. E a minha mãe tinha essa coisa meio da infância, que eu acho que ela tem muita conexão. Parava no meio e tinha, sei lá, um pé de pitanga. E a gente subia e ela falava que ia cair um tempo e pegava a pitanga. Parece interior, sabe? Então tem um carinho também pelo bairro. Foi um bom bairro de viver a infância. Adolescência nem tanto, né? Porque a gente não tinha nada pra fazer na adolescência. Tudo isolado. Mas a infância foi boa.
00:22:42
P1 - E você tava me contando que você não tinha animais de estimação, mas tem histórias, dessa época já.
R - Sim.
P1 - Eu queria que você contasse um pouco como é que foi essa época em relação a animais de estimação pra você.
R - Sim, é muito curioso, porque os meus pais, os dois, tiveram muitos animais nas histórias das infâncias, mas com a gente eles tinham uma restrição, e os dois estavam de acordo com isso, sim. Minha mãe não queria, porque eu acho que ela achava que dava trabalho, e o meu pai, eu acho que ele tinha medo do vínculo e de perder a coisa da morte. Mas nunca falaram exatamente. Eu e meu irmão começamos a demandar, mais velhos, talvez, ter. Mas eles sempre diziam: "não, bicho aqui não." A gente aceitava o não. Só que eu tinha muitas amigas que tinham bichos, e é engraçado, porque as minhas principais amigas da rua tinham muitos bichos. Tinha uma amiga minha que morava duas ruas atrás, que era a Marina; ela era meio a louca dos bichos. Ela pegava o bicho, a família inteira dela pegava, cachorra pra ganhar outros filhotinhos, prenha. Aí pegava gato. Teve uma época em que ela até pegou uns ratos, uns hamsters. Ela era dos bichos. Então eu ia na casa dela e ficava encantada com aqueles cachorros. Eu lembro de todos que ela teve. Eu lembro da Lulu, que foi a mais apaixonante, assim, com quem a gente brincava, corria, se divertia. E tem até um episódio legal: uma das cachorras que ela pegou tinha acabado de parir uns filhotinhos, e eu falei: "não, eu vou pegar", porque eu fiquei muito... pô, muito legal o cachorro, sabe? Eu devia ter uns 11 anos, e coloquei na minha mochila na hora de sair. Foi todo um plano: passei o dia com a Marina, pensando: "como a gente faz pra eu esconder da minha mãe e levar?" A gente passou o dia construindo o plano. Colocava jornal na mochila, porque se ele fizesse xixi, aí bota não sei o quê. A gente passou o dia inteiro preparando uma mochila pra transportar o cachorro em segredo, o filhotinho que eu tinha escolhido. Era bem pequenininho, marronzinho. Coloquei na hora, minha mãe chegou e saía, e sei lá, o cachorro fez... "Por que você tá carregando a mochila?" Abriu a mochila, eu chorei e falei: "deixa eu ficar." Minha mãe falou: "não vai ficar." Tipo, deixa aí, eles vão dar um destino. Fiquei muito arrasada, mas beleza. Depois passou um tempo, minha amiga falou: "ai, chegou uma cachorra que é a sua cara aqui"; aí eu acho que a mãe dela conversou com a minha e convenceu minha mãe. E eu já tinha dado até o nome: Catita, uma cachorra meio caramelo, que já não era tão filhote. Acho que minha mãe topou levar pra casa e falou: "a gente vai convencer seu pai, então." Levei pra casa, passei o dia numa alegria bizarra. À noite, meu pai chegou e falou: "não, não vai ficar." Eu falei: "meu Deus!" Tentei convencer, mas não tinha nada que pudesse mudar. Meu pai foi irredutível. Minha mãe falou: "não vou entrar nessa briga por causa disso, amanhã a gente devolve." Eu chorava à noite, porque meu pai ainda não deixou a cachorra ficar dentro de casa, e ela ficava chorando também no quintal. Eu ficava na cozinha, que tinha uma porta de vidro, vendo a sombra dela, e pensava: "não!" Foi muito triste. Depois eles devolveram, e eu não tive mais a Catita. Mas eu gostava mais de gatos, já na época. Só que (os) gatos eram mais soltos, não tinha gato muito domesticado na nossa região; eles ficavam na rua ou nos quintais. Teve também outra vez: eu era mais novinha, e a vizinha de frente tinha muitos gatos. Nasceram uns filhotinhos, e tinha um laranjinha que ficava miando no portão. Eu entendi que ele queria ficar comigo. Eram aqueles portões vazados de grade, e eu simplesmente peguei o gatinho e levei pra minha casa. Dessa vez fui mais esperta, não falei pra ninguém. Minha mãe tinha ido na casa da minha avó, e passei a tarde com o gatinho, eu e ele. Uma amiga minha veio em casa, e eu falei: "olha o que eu tenho, um gatinho!" Era o Batatinha, laranjinha, e íamos lá viver com o gatinho. Minha mãe chegou e falou: "Não, né, Milena? De onde veio?" E ainda tinha aquele lado de: "pô, coitada, roubei o gato, né? Achei que alguém ia sentir falta." Aí devolveu o gato. Desde então, eu só tive convivência com os cachorros das amigas, com os gatos da rua. Eu interagia com eles, ficava com eles, mas não eram os meus, não ficavam na minha casa.
00:27:23
P1 - Mas existia essa vontade, ainda mais com a convivência que você tinha com as amigas, com os animais do bairro, assim, existia uma vontade sua de ter?
R - Existia, eu queria ter. Quando eu fui ficando adolescente, menos. Aí eu fui desencanando, porque eu acho que eu fui ficando um pouco também amargurada. Tipo, “não dá pra ter, então eu não vou desejar ter”. Aí eu fui me afastando. Eu lembro de ter uma mudança de nem me relacionar tanto mais com os bichos dos meus amigos. Adolescência foi uma coisa mais afastada do bairro, mais afastada das brincadeiras, né? E aí os cachorros também já não eram uma questão, porque eu já tinha muita coisa pra lidar dentro de mim. E aí essa fase eu nem pedi, nem me relacionei, até a vida adulta, que aí eu fui morar sozinha e aí eu já comecei a flertar: “E aí? Quando é que eu vou pegar um gatinho?” E aí toda uma conta disso, “se eu tinha dinheiro pra conseguir suportar, cuidar de um bichinho ou não”. Aí vieram outras questões, mas o desejo voltou rápido assim.
00:28:24
P1 - Eu queria voltar um pouquinho pra época da escola. E antes da escola, na verdade. Eu queria voltar ainda pra sua infância. Com o que você gostava de brincar, além dessa questão de ter um flerte com animais de estimação? Quais eram suas brincadeiras favoritas?
R - "Na escola a gente brincava muito de pega-pega, assim, uma coisa de correr. Polícia e ladrão, eu gostava muito de polícia e ladrão, muito. Tinha uma coisa de eu ser uma boa corredora, então me satisfazia bem, de conseguir pegar bastante gente. E eu acho que eu já tinha um flerte de sair um pouco do quadradinho da menina, assim, no lugar de, acho que eu via o meu irmão mais velho, eu queria ser um pouco essa coisa que ele tinha de correr, de jogar bola, então eu me aventurava muito nessa coisa, na escola principalmente, de brincar de corrida, de brincar de lutinha, de brincar, tentar brincar de bola. Mas em casa, com as amigas da escola, eu gostava muito de brincar de Barbie, de boneca, de (boneca) Polly. Mas era uma mistura: ficava um tempo nisso e, de repente, já inventava um: "vamos escorregar no colchonete". Tem uma brincadeira muito particular minha, que eu tinha muito, assim, desde muito pequena, que era de espionagem. E aí era uma brincadeira que eu fazia sozinha. Eu definia na minha cabeça que eu ia espionar a minha mãe lavando louça. Aí eu descia, me arrastava no chão, tentava ir por baixo, porque a minha pira era: "ela não pode ver que eu tô aqui, eu vou ficar vendo o que ela tá fazendo". Se ela fizesse qualquer coisa esquisita, eu ia ver sem ela saber. E minha mãe nunca via, e eu ficava horas assim. Aí voltava, inventava uns desafios: "agora eu tenho que passar pro lado direito da cozinha sem ela me ver". E aí: será que eu vou caber ali atrás daquele armário? Ficava calculando, me arrastava, e às vezes ela via e ria, aí eu ria também, aí voltava, dava uma hora, fazia de novo. E na escola também. Eu tinha às vezes umas piras de sair pra beber água, ir no banheiro e me enfiar em algum lugar pra ficar vigiando as pessoas. E não voltava pra sala. Meio que matava a aula, mas pra ser uma espiã. Aí eu me escondia em algum lugar e ficava observando as coisas, e era uma pira de não ser vista. Então eu ficava tentando achar os melhores esconderijos, observava e ficava lá um tempo. Então isso é uma coisa que eu lembrei agora, mas eu tinha, de espionagem. Depois eu convidei umas amigas pra fazerem. No bairro a gente fazia bastante, chamava, ia na casa de uma amiga que tinha uma casa de frente pra praça, e a nossa pira era entrar nas árvores no meio da praça sem ser vista por elas que estavam brincando no quintal. Era uma pira de espionagem, assim. Era massa."
00:31:09
P1 - E aí, o negócio do teatro, quando que começou?
R - Olha, a minha mãe tinha um sonho de que eu seria bailarina. Nesse centro espírita que tinha, tinha um centro espírita perto do bairro, que tinha muitas atividades de artes para as crianças gratuitas. Tinha balé, flauta, teatro. E aí, a minha mãe queria que eu fizesse balé, porque ela achava (que eu era) a princesa bailarina de rosa. E eu não queria fazer balé. Mas foi o primeiro contato, porque aí eu gostava de fazer dança. Minha sorte é que a professora não era da coisa clássica, então eu brincava de fazer dança. Mas aí eu comecei a gostar do palco. Comecei a achar uma pira, a coisa das roupas. Aí tinha umas danças que contavam uma história, uma coisa de personagem, aí as palhaças, a palhacinha. Aí eu acho que aí já começou uma pira de ser personagem, de brincar com apresentações. E aí eu entrei seis, sete anos já nessa pira. E aí eu começava já a falar que eu queria ser atriz, que eu queria estar no palco. E aí eu, na escola, toda vez que tinha atividade de teatro, tava lá, inserida. Queria fazer teatro, queria inventar história. Eu ficava, às vezes, sozinha em casa, no quintal, inventando uma peça de teatro na minha cabeça (com) uns 7, 8 anos: “Ah, porque aqui é uma bonequinha que nasce e ela faz assim”, e aí eu fazia toda a coreografia da boneca, “e aí vai vir uma outra personagem que faz assim”, e eu ficava fazendo uma peça de teatro. Isso desde sempre, mas aí eu entrei para um grupo que trouxe técnicas quando eu tinha 13 anos, acho que de 12 para 13, que podia entrar a partir dos 12, aí eu fiz 12 e não dava para entrar, e com 13 eu entrei e aí foi uma coisa muito legal. Além das técnicas, de fato tinha uma coxia, as roupas, aí você podia construir o personagem, escolher as histórias que você ia fazer. Aí eu adorava. Eu achava que eu era já a atriz e fazia as peças.
00:33:19
P1 - Tem alguma história dessa época do teatro que tenha sido marcante?
R - Tem algumas, assim, bem significativas. Teve uma, uma vez, que eu lembro que a gente foi fazer... Era um espaço espírita, né? Então, as peças, às vezes, tinham esse tema. E aí, eu ia fazer um espírito de uma camponesa, que acho que tinha sido assassinada na vida dela, sabe assim? E aí eu lembro de... Aí a gente tava na fase de construção do personagem, aí tinha todo o exercício de ir construindo, eles ajudavam, e aí eu escolhi a roupa, e aí eu ia apresentar a narrativa da minha personagem, e aí eu lembro de me sentir muito séria, porque era muito dramático. Ela tinha sido assassinada. Eu tinha 13 anos. Falei: “Nossa, preciso acessar”. “Nossa, eu morri assassinada”. E aí foi uma coisa muito marcante, porque eu lembro de ir na coxia, assim, respirar, porque aí já chamava cada um pra apresentar pro grupo todo. “Milena!” (chamando). Aí eu tava na coxia, eu respirei pra ela. Agora... Muito dramático, assim. E eu acho que eu já tinha uma coisa da comédia, mas eu achava que eu era do drama. Então, pra mim, foi o meu momento de brilhar. E aí eu lembro que quando eu fiz a cena, eu chorei, eu dava detalhes da dor, do tiro, não sei o quê, e inventava toda a história do drama, como foi a minha morte. Fiquei muito apegada à morte, sabe? Nem era muito essa a pegada da personagem, mas eu fiquei. Eu lembro que, como era um espaço espírita, a coordenadora depois veio e falou assim: “Você incorporou? Tipo, será que era um espírito…” E aí eu lembro que fiquei um pouco com medo. Falei: “Será que eu incorporei? Se eu incorporar?”, ficava pensando comigo, “será?” “Mas eu senti que era eu lá”. E aí eu fiquei um pouco na dúvida, aí eu acho que ela me deu um passe. Então esse dia foi meio marcante, foi meio confuso. Foi assim, “e aí? Eu fui incorporada por um espírito ou eu fiz uma atuação?” Não sei, mas eles acharam ótimo. E aí eu fiquei super feliz, né? Falei: “nossa, eu fiz o maior drama, eu sou do drama”. E nada a ver. Depois eu fazia vários outros personagens que eram de comédia, na verdade.
00:35:25
P1 - E na escola, como é que foi começar a estudar e onde você estudou?
R - Eu estudei, bom, teve primeiro a creche, que era o EMEI, chamava EMEI Clara Nunes (localizada em Veleiros na zona sul de SP), que eu gostava muito porque era muita brincadeira no espaço grande assim, só que eu acho que eu não me adaptei muito bem à coisa da disciplina da escola. Então, as horas da brincadeira eram ótimas, as horas das atividades eu acho que eu era meio desafiadora para as professoras. Eu me negava a fazer, fazia meio esquisito e não importava que eu estava fazendo fora do combinado, tipo cortar, colar. E aí eu acho que a minha mãe foi chamada para falar: "Sua filha não se adapta às ordens." E aí minha mãe, para o bem e para o mal, falou: "Não se adapta mesmo. Ela não precisa estudar aqui, nem é obrigatório, ela só precisa entrar na primeira série." E aí me tirou. Aí eu fiquei em casa, aí foi minha infância ficar em casa e não fiz essas atividades. Mas aí eu entrei pra primeira série e aí eu entrei já mais adaptada, porque aí era uma escola grande e eu fiquei um pouco com medo daquilo. E aí é muito mais marcado com menos tempo de brincadeira, né? E aí eu entrei mais nessa coisa de aprender a escrever, aí já tinha aqueles materiais pra fazer continha. Então, foi uma inserção um pouco mais... Eu tava mais dedicada, acho que eu tava mais pronta pra entrar nesse modo não tão brincadeira, sabe? Antes eu não tava. E aí minha mãe, acho que conseguiu escutar. Aí quando começou a entrar matemática, eu tive muita dificuldade, muita dificuldade com exatas. Não acho também que a professora sabia passear muito por essa matéria. Devia ser também uma matéria desafiadora pra ela, porque, tipo, todo mundo era meio ruim em matemática. E aí a gente estudava, mas não muito. A escola era muito mais convivência pra mim do que estudo. Na primeira série foi a Alessandra, porque era minha professora, incrível, eu acho que eu achava: "Ela era muito alta e muito altiva, ela usava umas roupas diferentes do bairro, assim, acho que um pouco meio até chique, sabe?" Então eu achava ela linda, então ela era minha referência, adorava ela. Depois eu não lembro mais muito, assim, não tive... E aí, quando foi a quarta série, também teve essa quebra importante. A minha mãe, dentro desse centro espírita, recebeu um convite para ser coordenadora de uma escola que eles iam fundar, (escola) particular. E coordenadora, assim, de questões de evangelização, que eles chamavam, de ensinar os preceitos espíritas para as crianças, que ia ter na escola. Isso ia fazer parte, era uma escola espírita. E aí ela tinha a bolsa para um dos filhos. E aí, como ia só até a quarta série, aí ela me colocou, eu acho que eu tava na terceira. E eu fui pra esse colégio particular, e aí foi um divisor de águas, porque era um colégio bem pequenininho, diferente da escola estadual, que tinham dez alunos por sala, às vezes sete, quando todo mundo faltava. E as pessoas tinham mais dinheiro, era diferente, minha mãe trabalhava lá, então eu tinha um certo privilégio também de saber que minha mãe tava lá. E tinham também muitas atividades artísticas no colégio, e nesse colégio teve uma coisa diferente que é, aí era muito legal estudar, porque eram poucas crianças e os professores, puts, era incrível, assim, eu lembro de muitas aulas, eu lembro de fazer perfume na aula de Química, dissecar um peixe, abrir um peixe, né? Mas a gente tava dissecando o peixe, vendo os órgãos do peixe. Eu lembro do professor Benê, de matemática, que eu aprendi a fazer conta. Puts, foi incrível me perceber aprendendo coisas. E eu acho que tem a ver com a escola, assim, tinha uma outra qualidade de ensino mesmo. E aí era legal, porque tinha espaço, tinha laboratório, tinha aula de música, a gente aprendia matemática com música, era outra pegada. Então foram professores mais marcantes dessa escola, que era a professora Cátia, o Benê, a professora Tereza de Espanhol, que eu infernizava a vida, mas eu adorava ela, porque ela era muito brava e aí eu gostava de provocar ela. Me lembro de uma vez, inclusive, coitada da Teresa, eu infernizava mesmo a vida. Era proibido usar chiclete na aula dela. E eu fingia que tava mastigando chiclete. Ficava... (barulho) E aí ela falava: "Milena, cospe o chiclete, não pode, é proibido." Aí eu: "Mas eu não tô com chiclete na boca." Ela tava assim, ela era um pouco mais já idosa, sabe? Aí eu abri a boca: "Ah, não tô." Aí ela continuava a aula e eu ficava... E aí ela falava: "Não é possível, ela tá escondendo um chiclete na cabeça dela." Ela nunca pensou que eu tava fingindo. Então ela ficou caçando esse chiclete, aí eu fingia que ia cuspir também: "Não, tá bom, professora." Aí eu ia no lixo, fazia um teatro, cuspia, todo mundo ria, porque todo mundo tinha sacado. Mas a professora não tinha sacado que eu tava fingindo, coitada. Ficava estressada, então eu tinha umas coisas assim de ser chata mesmo, assim. Me divertir, de fazer meio uma palhaçaria, né? Mas eu adorava aula de espanhol, adorava. Era muito legal.
00:40:45
P1 - E nessa época tinha alguma profissão que você já pensava em seguir, assim, um sonho ou não?
R - Eu queria fazer teatro. Não sabia ainda o que se chamava artes cênicas, mas queria trabalhar com teatro. Achava que eu ia ser atriz. Tinha certeza. Já desde essa fase, não mudava assim.
00:41:05
P1 - E como é que foi a sua adolescência, esse período da juventude? O que você fazia pra se divertir?
R - Foi bem ruim, né? Adolescência. Uma relação com uma aparência… bizarra. Começou a se destacar muito também uma disparidade financeira, porque até se você era esquisito, todo mundo é meio esquisito na adolescência, né? Mas se você tem um pouco mais de grana, você fica mais arrumado, né? E a gente não tinha (dinheiro) em casa. Tinha uma restrição muito grande pra roupa, sapatos. Então, a gente ficava com roupa de criança, esquisitos. Então, eu tive uma negação na adolescência. Eu lembro que até os 14, quando todo mundo começou a beijar na boca ou falar de coisas da adolescência, eu decidi me negar, que aí eu ia nas festas de aniversário e eu brincava com as crianças jovens, do tipo: "Vamos brincar, o que esse pessoal tá fazendo? Estão perdendo tempo." E aí eu me defendia um pouco da tristeza que era, negando que isso tava acontecendo. Aí brincava de pega-pega com as crianças da festa. Aí eu comecei a entrar numa função de tia das crianças, pra me afastar do que era difícil, porque era muito difícil, essa coisa de me achar muito feia, era muito esquisita, todas as meninas já se desenvolveram primeiro que eu, e era esquisita, então foi difícil a adolescência. Mas eu acho que aí eu achei um caminho quando eu entrei numa coisa assim da fase das músicas, dos apaixonamentos platônicos, aí foi muito gostoso. Eu era apaixonada pelo namorado de uma das minhas melhores amigas, entende? Olha o drama, que maravilhoso! Era tipo: "Ela não podia saber e ela era minha melhor amiga, e ele não podia saber porque namorava ela, mas assim... a gente ia viver um romance em algum momento." Eu era apaixonada, escrevia o nome, fazia aquela brincadeira de quantos anos eu vou me casar e colocava ele com código, porque minhas amigas estavam vendo e nós ninguém podia saber, falavam o código e as pessoas falavam: "Quem é esse?" Eu: "Ninguém, ninguém vai saber quem é." Eu vivia secretamente. Só quem sabia era meu irmão, que aí pra ele eu contava tudo. Então teve isso, os apaixonamentos muito platônicos, muito platônicos da época. E essa coisa meio também das músicas, aí começou a ter um grupinho, das épocas do emo, do indie, uma coisa, teve uma fase do skate, Avril Lavigne, CPM 22, que aí todo mundo do colégio começou a andar de skate, eu falei: "Eu também vou andar de skate." Meu irmão pediu o skate de Natal, ganhou o skate de Natal, eu roubava o skate do meu irmão, fingia que andava. Eu lembro até que a gente fez, acho que era na quinta série, sexta, eu acho, uma peça de final de ano, que aí a professora falou que a gente podia montar. E aí a gente fez uma peça que contava a história dos diferentes ritmos e trupes que tinham. Aí tinha os clubbers, aí tinham os skatistas, aí tinham os emos, aí tinham as patricinhas, o drama da peça era esse. Eu lembro que foi muito duro pra mim escolher um, porque eu queria ser um pouco de todas. Eu era meio emo, só não queria patricinhas, mas clubber eu seria feliz se eu me vestisse daquele jeito, e aí eu fui skatista, e eu lembro a cena de... A maioria eram mulheres fazendo a peça, os meninos não topavam muito, e aí entramos no palco de skate, andando mal, mas assim, super: "Nós somos skatistas", colocamos um negócio até aqui pra parecer a Avril Lavigne. Foi ótimo, foi uma peça muito gostosa de fazer. Deve ter sido horrível, enquanto quem assistiu, mas foi muito legal. Então, tiveram coisas que eu acho que eu consegui criar na adolescência, mas ela foi sofrida. Aí só foi melhorar aos 18. Porque teve essa quebra também. Quando eu fiz 15 anos, que aí é completa a oitava série, acabou os anos da escola particular - eles só iam até oitava - aí eu tive que voltar pra escola pública, que era gigantesca. E aí foi muito esquisito, porque todos os vínculos que eu fiz com as pessoas mais próximas dessa fase, elas foram todas pra mesma escola particular. E eu não tinha como pagar, e aí eu fui pra pública. E aí a gente não se via mais com frequência, eu perdi essas amigas. Via assim, a cada dois meses, os pais ajudavam a gente a se encontrar, mas eu não tinha mais a convivência. E quando eu voltei pra escola, eu fiquei sem amigos. Foi uma fase bem ruim, assim, meio triste. As matérias eram ruins, os professores eram ruins na época, não todos, mas dava pra ver o contraste e uma certa desmotivação. Mas tinha uma liberdade diferente também, porque lá ninguém sabia meu nome. Na outra escola era muito pequenininha, todo mundo sabia meu nome, todas as professoras. E lá era uma coisa também meio livre, porque ninguém sabia de ninguém. E nessa fase foi a fase que eu entrei muito em ser emo. Aí eu fiz amizade com as pessoas emo, aí a gente fazia lagriminha no olho, colocava o cabelo pra cá de lado, aí fazia perfil no Orkut de emo. O meu era "Little Princess." Eu, que não tinha nada de princesa, resolvi ser princesa naquele momento porque era um grupo que acho que era o grupo mais acolhedor da escola. Porque era todo mundo excluído, eu acho, os Emos, na minha escola. Então eu entrei pra esse grupo. Aí foi uma fase meio sobrevivente, assim, de tipo, ficar ouvindo música. E aí um pouco mais dedicada aos estudos, porque a convivência ficou mais chata. Aí eu passei a estudar mais, aí eu com meu irmão estudávamos muito, porque meu irmão nessa escola era um gênio. Ele foi o destaque, ele passou em vários cursos, passou na USP, passou no Unicamp, passou na UFSCar, depois assim, logo no terceiro, e aí a escola colocou uma placa, porque sei lá, não sei em quantos anos algum aluno passava numa universidade pública, que o meu irmão passou. Então assim: "Obrigado, Fábio Klinke, você é o nosso aluno querido." E eu entrei nessa escola com a sombra do meu irmão gênio, né? Então isso me motivou um pouco: "Ah, putz, acho que eu tenho que dar uma estudada aqui", e tal. E aí foi diferente do colégio pequenininho e tal.
00:47:07
P1 - E como entra a psicologia nessa história?
R - A psicologia vem como acidente. Não foi nunca imaginado, nem sabia que existia psicologia. Até o primeiro ano da faculdade eu não sabia o que era psicologia. Mas foi assim, na fase do terceiro, do segundo pro terceiro colegial, que eu passei a ter mais conversas com meu irmão, eu comecei a gostar muito da coisa das ciências sociais, da revolução. Meu irmão trazia coisas de Marx, história, e aí eu entendi que eu conseguia compreender melhor esse tipo de estudo, as exatas não tanto, e aí nesse tipo de estudo eu mergulhei: histórias, ciências sociais, revolução, aí eu fiz, eu lembro que aí eu fiz várias manifestações e passeatas na escola, a gente chamava assim, pra proteger o fulano que foi chamado de gay. Aí eu fazia, eu lembro até que a diretora me chamou e falou assim: "É o seguinte, a gente tá tendo um problema aqui, porque os agressores do fulano que você tá defendendo, a gente tem um problema grave, assim, social mesmo, e talvez vocês fiquem em risco. Então, para aí com isso." Aí eu, movida por isso, decidi, então, que não seria atriz. Porque atriz é coisa super cooptada pelo capitalismo, nada a ver teatro, não tive referência de outro teatro que não fosse meio entretenimento na época, então eu falei: "Não, vou fazer ciências sociais na faculdade, vou estudar isso, vou dar aula sobre isso", era a minha referência. E aí eu comecei a ir pra esse rumo e tal, só que aí eu não tinha, não era tão inteligente que nem meu irmão, eu não tinha tantas capacidades de fazer prova, então eu não passei na FUVEST. E aí não tinha nenhuma outra opção. E aí meu pai falou: "Tenta no ano que vem?" E aí eu falei: "Cara, não sei se eu vou conseguir a nota de corte de ciências sociais, não é tão baixa." Eu achava que era mais baixa. Aí comecei a planejar, tipo: "Meu Deus, eu não posso não fazer faculdade." Meu irmão já estava na USP, ele fez a primeira graduação de filosofia. E ele também muito preocupado, ele: "Não, vou te ajudar." Eu tentando estudar, mas não rolava. As atas todas eram muito ruins. Aí, no meio do ano, abriu a vaga pelo Prouni, com a meia-nota do ENEM. E a meia-nota do ENEM tinha sido melhor que a da FUVEST. E aí, eu lembro com o meu irmão, a gente abria, assim, as universidades particulares e falava: "Como essa aqui eu faria, então?" Porque tinha que fazer faculdade. Aí, eu lembro que apareceu o Mackenzie, a gente não conhecia as universidades particulares. Meu irmão falou: "Eu acho que o Mackenzie não é ruim, não. Eu já ouvi dizer nessa faculdade, tenta essa." Eu falei: "Tá bom." Eu abri a economia. "Ah, faria, mas putz, matemática não. Engenharia não, não faria? Não dá, esse não dá. Letras? Ó, letras pode ser. Psicologia?" Ai, o meu irmão: "Ah, psicologia eu sei um pouco, tem uma coisa de Freud, dá pra você meter uma ciência social e uma filosofia", que eu gostava. Falei: "Então vou escrever nessa." Aí eu entrei, foi assim, tipo, entrei numa faculdade. Aí depois que eu fui descobrir que era longe da minha casa, que eram duas horas de distância pra eu chegar numa 15. Mas falei: "Vou fazer", aí consegui a vaga só à tarde. Então era tipo 1 da tarde até as 5 da tarde. Então eu não almoçava, nem tinha dinheiro pra almoçar lá. Então foi um perrengue, assim, o começo da faculdade. Mas aí eu lembro da sensação de chegar lá e tá muito feliz que eu consegui uma faculdade, cara. E olha, essa daqui parece ser boa, é grande. E aí eu lembro de que todo mundo do meu curso, todos, escolheram Psicologia e as pessoas já sabiam. E eu falava: "Quem é Freud? O que estuda Psicologia?" Eu fiquei muito confusa no começo. Falei: "Cara, eu me ferrei." Que aí eu entrei numa, gente, eu preciso estudar mais. E aí eu entrei num fluxo, pela primeira vez, muito nerd, assim. Que eu fiquei obcecada por aprender os bagulhos. E aí eu fui uma ótima aluna. E aí, ao longo do processo, eu fui gostando muito de psicologia. Falei: "Nossa, é mó legal isso, que bom que eu escolhi isso." Bem melhor que ciências sociais, na minha cabeça, assim. Porque dá pra juntar tudo, né? Aí eu me realizei, mas foi durante o processo, nunca foi um sonho, enfim.
00:51:13
P1 - E como foi esse momento de conhecer um novo mundo? que você saiu da Zona Sul, que era a sua referência até então, e para o centro de São Paulo para estudar, como é que foi essa ampliação do seu mundo?
R - Foi difícil. Foi muito legal porque eu lembro de sentir uma autonomia, até a mais do que todo o resto da minha família. Porque eu conhecia já ruas, eu já sabia, eu já versava muito bem os ônibus, eu comecei a me virar muito sobre isso. Eu lembro que eu descobri o Sesc. Meus pais nunca tinham me falado que existia o Sesc. E aí tinha um Sesc perto de uma quinta, que é o Sesc Consolação, que, nossa, era ótimo, eu ficava esperando o trânsito lá. Acabava às 5 horas e eu ficava até às 7 no Sesc. E aí eu via um monte de espetáculo de graça, um monte de música, um monte de exposição, um monte de oficina, porque o Sesc ofertava isso tudo. Então, eu me sentia muito autônoma e eu sentia que eu tinha mais coisa do que, sei lá, quem ficou mais na Zona Sul, dos meus amigos, até do meu irmão, que fazia o USP, era mais perto, era só ir de trem e voltar. Só que foi muito difícil essa coisa da inserção num mundo que demandava mais grana, que demandava mais estrutura, que eu descobri que as pessoas já tinham acesso às coisas que eu não fazia muita ideia de cantores, cultura, artistas. E na faculdade de psicologia isso conta muito, porque as pessoas vão fazendo conexões com, sei lá, artistas. Eu falava: "Quem é esse artista? Sei lá, não lembro." O Escher, todo mundo da minha sala sabia quem era o Escher. Mas foi um pouco movimentado, porque passei a olhar programação de museu. Fiquei meio assim: "Não, tenho que começar a ver essas coisas." Tinha exposição de não sei lá quem, ia no Centro Cultural Banco do Brasil. Comecei a rodar muito a cidade, circular muito nos territórios da cidade, principalmente do centro. E foi interessante.
00:53:15
P1 - E tem alguma história da faculdade que tenha sido, assim, imagino que várias, mas uma que tenha sido marcante que você queira contar?
R - Eu acho que talvez tenha uma toada interessante minha de... Eu gostava um pouco de sair do esperado, assim. E isso era bom pra mim, mas era, acho que, um pouco também ruim, porque as pessoas ficavam com uma certa inimizade, então eu não criei muito laço na faculdade. Porque eu lembro de eu me autorizava muito a questionar tudo aquilo, porque como eu vinha de fora, eu acho que tinha uma coisa assim: meu, vocês não sabem o que é duas horas de ônibus, galera. E meio faca na caveira, assim. Então, eu lembro de, por exemplo, teve um trabalho que a gente tinha que fazer um vídeo e entrevistar umas crianças pra mostrar a teoria do (Jean) Piaget, que é um cara do desenvolvimento infantil. E eu lembro que eu falei assim: "Ah, eles só gravaram gente rica, né? Não vai ser possível provar isso na quebrada, pelo amor de Deus." Aí eu levei o meu grupo na quebrada pra gente fazer o vídeo com as crianças. Não é que saiu totalmente da teoria do Piaget, estudou muito, né? Tem muito sentido tudo que ele traz. Mas eu trouxe nessa pegada para a professora. A apresentação foi falar mal de ela não ter trazido nenhum escape para a gente questionar a teoria do Piaget. E ela ficou muito brava. Era uma relação muito... E os alunos ficavam meio bravos, tipo: "Lá vai a Milena." Sabe, tinha uma coisa do virar o olho, mas eu me sentia muito autorizada de ver isso acontecer, não ficava ofendida, pra mim era meio prazeroso, assim, tipo: "É, vira o olho mesmo." Então, eu acho que tinha um tom, assim, na faculdade que também me levou pra lugares muito bons, porque aí alguns professores mais da área social gostavam muito do que eu fazia. E aí me davam algumas direções, assim, que aí eu já consegui trabalhar muito cedo. Eu passei no processo seletivo da USP pela FAPESP para fazer parte de pesquisa e mestrado no segundo ano. E eu acho que tem muito disso, porque eu não estava muito adequada ao estudo, então ganhei, eu acho, um pouco mais de corpo mesmo para me aventurar. Então, isso me deu, assim, algumas oportunidades, sabe? Mas era um tom da faculdade. Eu fazia umas palestras, assim, anti-teorias.
00:55:39
P1 - E essa época, logo depois da faculdade, então, pelo que eu estou entendendo, você vai um pouco para a área acadêmica, mas você começa a clinicar ou ainda não?
R - Ainda não. Esse projeto de pesquisa envolvia isso um pouco, porque a gente trabalhava com crianças em situação de vulnerabilidade social e eu tinha que só fazer os testes e catalogar as entrevistas que a gente fazia. Mas era uma lida com eles, arrumar o grupo, às vezes fazer uma atividade antes de chegar à avaliadora neuropsicóloga. Então, já tinha muita convivência, muita criação, e eu já muito querendo inventar coisas. Então, tinha um contato, assim, indireto, meio clínico, que eu tive muito antes de todos os meus colegas, por exemplo, porque tava lá fazendo. Mas, quando eu me formei, eu não achei que eu ia ser uma psicóloga clínica, eu achei que eu ia ser uma psicóloga social e que eu ia trabalhar em instituições, porque essa era a minha pira. E fiz isso assim que me formei. Trabalhei em vários, tem que trabalhar muito, né? Porque não é bem remunerado. Então, em cada canto da cidade, você arruma um trampo pra fazer (com) Psicologia Social. E aí, uma hora, junto com isso, começou a vir um pouco de, de certa maneira, indicações já formadas. E aí eu fui pegando também, que era, tipo, mais trampo. E aí isso começou a aumentar muito mais do que os trampos. Então, financeiramente, eu fui ficando mais clínica do que psicóloga social. Fui deixando de trabalhar, mas pra mim não destoa tanto, porque é uma escuta social. E aí foi quando eu descobri uma outra modalidade de atendimento que chama acompanhamento terapêutico, que aí é uma coisa que a gente cria na luta antimanicomial, que é um jeito de acompanhar as pessoas pelo mundo, pelas atividades, socializando ou ressocializando as pessoas, que é muito andança pelo território. E aí não é dentro do consultório. E aí, nessa via, eu falei: "Ah, consigo juntar aqui." E aí começou a vir muita demanda. Então, eu trabalhava numa instituição que acomodava as AT's (Acompanhamento Terapêutico) em grupos, e era pra gente mais rica, que pagava pros jovens estarem lá, os pais pagavam, e fazia esse trabalho particular e fazia um pouco também disso socialmente, assim, né, com valores sociais e tal. Então, foi a minha saída, que até hoje é onde mais eu me encontro: é como AT. Então, tem o consultório, mas tem essa clínica ampliada, e que tem muito da minha fase de descobrir território na faculdade, de ampliar meu mapa e entender o quanto isso cresce, e é importante e tal.
00:58:37
P1 - E eu queria saber, eu queria que você contasse um pouco como que entram os animais de estimação nessa época dessa vida, assim, já adulta e como é que a Olga chega, mas eu sei que antes você tava me contando que você era a cuidadora oficial, Eu queria que você contasse um pouco essa história pra mim.
R - É, no último ano da faculdade eu decidi que não ia mais ficar duas horas em transporte público e aluguei uma mini-mini kitnet no centro; eu já tava trabalhando e aí as minhas amigas da faculdade moravam pela região de Higienópolis, e essas poucas amigas tinham gatos, viajavam muito, e eu não viajava, eu tava trampando, então ficava com os gatos e adorava, tenho foto dos gatos até hoje, eu sei o nome, tem o Lu, tem a Sol, são gatinhos do coração, ela pegou pequenininhos, eu vi eles crescerem, já tinha um xodó durante a faculdade com os gatos que não eram meus, mas eu era meio a madrinha dos gatos, vai, então eu cuidava sempre e aí eu sempre ficava: eu preciso pegar um gato, eu quero pegar um gato, mas era muito pequeno o meu espaço, eu falei: "Meu, muito cruel, aqui é demais, é demasiadamente pequeno", e aí eu conheci na época o meu namorado da época, a gente namorou um tempo e depois mudamos juntos, pra morar num bairro um pouco melhor, com um apartamento maior, ele podia pagar mais, e esse foi o momento de: "Putz, agora dá pra pensar num gato", mas eu acho que eu tava um pouco afastada desde a adolescência dessa coisa do tipo: não posso me apegar porque eventualmente meu pai não deixa, sabe, essa coisa meio que ficou gravada de: não posso me apegar, vai ser perigoso gostar tanto, então eu deixei um pouco nas contas dele, falei: "Eu quero pegar, mas assim, você vai ser mais responsável, quase como quem diz: eu não vou me apegar muito, tá?", ele: "Não, beleza", e aí aparece a Olga, a gente já tava buscando no Facebook gatinhos, teve até um gatinho que a gente achou muito bonitinho mas a moça não autorizou, porque, sei lá, ela tinha um questionário e a gente não cumpria o perfil do casal que ela queria, sei lá, doideiras, e aí a Olga apareceu numa fotinho, eram três filhotinhos rajadinhos, dois machos e uma fêmea, que tinham sido resgatados na Mooca, numa fábrica, aí esse namorado da época, vimos e falamos: "Acho que eles são fofinhos, vamos lá, vamos lá", e foi um pouco de bate e pronto, vamos lá, aí a gente escreveu, ela falou: "Pode vir", era um domingo chuvoso, eu lembro que a gente pegou o carro dos pais dele pra buscar ela, ele foi dirigindo, e no meio do caminho paramos num pet shop pra comprar ração, caixa de areia, tudo na hora, porque decidimos e fomos lá escolher qual dos três, eu lembro que ele ainda falou: "Vamos pegar os três?", eu: "Não, vamos pegar só um", eu toda: "Um só", e aí fomos escolher, nesse dia chegamos na casa da senhorinha que tinha resgatado, os três estavam andando pela sala, era uma casa bem pequenininha, e eu fiquei um pouco afastada, falei: "Escolhe aí", pra ele, olhando e achando fofinhos todos, ele queria uma fêmea, então pegou a Olga, a Olga mordeu, depois a Olga arranhou, ela não foi muito com a cara dele, eu acho, e aí ele: "Putz, acho que vai ter que ser outro", eu só me sentei no sofá, fiquei quieta e falei: "Escolhe aí", aí a Olga veio no meu colo e deitou, eu falei: "Pô, acho que vai ser ela, ela me escolheu", peguei ela no colo e ela ficou comigo, ‘miante’, super ativa, tipo: "Meu Deus, colo, o que vocês estão fazendo comigo?", ela era plena, mas aconchegada, eu falei: "Não, vai ser a Olga", e aí a gente levou pra casa.
01:02:29
P1 - E como é que se desenvolve essa história com a Olga? A parte de levar pra casa, como é que começa essa relação de companheirismo? dia da adoção?
R - Nossa, aí depois que eu adotei a Olga, foi o mais importante encontro da minha vida, até hoje, assim, bizarro, quase inexplicável para as pessoas que estão ao redor, talvez esse tipo de descrição, mas é um dos encontros mais importantes da minha vida, uma amizade interespécies profunda, de um jeito que a Olga pequenininha, não sei como, mas ela me escolhe para ser companhia, e aí o fato dela me escolher com certeza me faz me sentir alguém importante e especial por ser escolhida. Então, não só eu tenho a companhia da Olga, como eu acho que tem algo muito fundamental, que é eu passo a ser uma Milena com a Olga, a que na ausência da Olga não tem como ser essa Milena, sabe? A que é escolhida, a que desenvolve uma linguagem não verbal, isso é uma coisa muito especial, acho, que eu tenho com a Olga, porque a gente se comunica muito bem. Então, desde pequenininha, a trajetória foi um pouco propor muitas brincadeiras e jogos com a Olga, em que ela rapidamente entendia. Às vezes, ela propunha e eu rapidamente entendia. Então, a gente brinca de pega-pega, de esconde-esconde. Acho que tem umas brincadeiras em que, às vezes, é uma coisa de ela fazer um barulhinho pedindo alguma coisa. Ah, e eu sempre inventei muita coisa com a Olga. Às vezes eu achava ela meio entediada, ou eu achava só a vida dela muito pequena num apartamento. Aí eu inventava umas coisas do tipo: "Ah, vou abrir o armário de cima e colocar ela lá", e ela curtia o armário de cima, achava coisa, pedia pra pular, e eu fazia um ombrinho e ela pulava no ombro, assim, sabe? E a gente desenvolvendo essa lógica de ela miar pra pedir pra abrir, pra beber água. Acho que quem tem gatos vê que tem essas coisas, eles desenvolvem uma linguagem de tipo: "Ô, eu quero água daqui, abre pra mim esse chuveiro?" Abro. E aí bebe a água do chuveiro e fala: "Legal, depois quando eu quiser de novo eu te aviso", sabe? E tem essa comunicação com algo muito claro. E acho que quando eu me separei dessa pessoa que foi escolher a Olga, foi muito mais forte ainda, porque teve uma sensação de morar sozinha de novo e ser a Olga a testemunha da minha vida. E foi uma fase complicada, separação, né? Choros, tristezas, angústias, trabalhos a mil para tentar mudar a vida. E a Olga lá, testemunhando tudo. E é uma testemunha silenciosa também, em que ela me vê, em que ela me acompanha, em que ela traz uma alegria, em que ela me traz uma ocupação de cuidar dela. E não diz nada, né? Mas diz tanta coisa, esse não dizer. E é meio emocionante essa lida, é um acontecimento mesmo estar com ela. E aí a gente viveu muita coisa, aí eu decidi que ia levar ela pra umas praças. Eu falei: "Não, esse apartamento é muito pequeno." Aí fizemos a aventura de colocar a coleirinha pra ela ir pra praça. Ela odiou, mas ao mesmo tempo achou interessante. Então subiu numa árvore, ficou com um pouco de medo dos cachorros que passaram, depois desceu e ficou no meu colo. Eu falei: "Acho que é mais ou menos bom." Então, por um lado a Olga é meio aventureira, e por outro lado ela tem os medos dela, mas eu acho que ela aprendeu a curtir mais a vida. Eu tenho uma fantasia, que não dá pra saber porque não dá pra perguntar pra Olga, que ela me adora, mas o sonho dela era poder curtir o mundão e, às vezes, voltar pra falar: "E aí, beleza? Deixa eu te contar como foi a minha aventura." Porque ela é muito aventureira, assim. E ela pede até hoje pra descer e passear pelas escadas do prédio, que é uma coisa que eu sempre deixei ela fazer também, com cuidado, eu vou com ela. E aí tem lugares que não funciona. Os prédios que eu morei funcionavam, em que tem as portas que fecham pra coisa do fogo, e aí ela fica só na escada. E ela vai num batidão. Aí eu corro atrás dela. Aí quando eu chego lá, ela sobe. Aí eu corro atrás dela. É um super exercício, assim. E ela curte muito. E aí todo mundo que interage com ela e tenta brincar, a Olga se nega. Então tem uma coisa que a gente tem de brincar juntas. E ela dorme só comigo. Não importa. Ela não vai no quarto que outra pessoa tá dormindo. Quando eu não durmo em casa e alguém dorme na minha cama, ela não dorme lá. Porque ela escolhe dormir comigo. Não é nem a cama que ela escolhe, sabe? Então é muito significativo. E aí eu me descobri muito fortalecida por essa companhia. E aí os percursos são as vulnerabilidades de vida de Olga, que tem sido essa fase que eu tô com ela agora, é um respiro profundo, porque a Olga tá numa fase terminal. Então cuido dela agora de forma paliativa e, ao mesmo tempo que é muito importante estar cuidando dela, eu me sinto muito bem que eu tenho o privilégio de ter espaço na minha vida para acomodar o que ela precisa. É uma sensação de ir perdendo um vínculo tão importante, que já tenho feito minhas elaborações porque a Olga tá fazendo milagre. Esses mistérios da vida que não se explicam, né? Então, toda a parte medicamentosa da Olga diz que ela teria morrido lá por fevereiro, março. Mas ainda assim com chances de vida. E aí essas chances iam acabar quando a pedra do rim da Olga obstruísse o canal, porque depois de uma obstrução renal, com o outro rim não funcionando, não tem como filtrar a água. Então, dali um mês a pessoa ou o bicho morre. E aí faz cinco meses hoje, mais ou menos essa semana, que a Olga tem uma pedra obstruindo o canal dela, e vocês chegaram aqui, vocês viram, a Olga está andando e comendo e pedindo pra ir pra escada. Então são mistérios. Ela tá viva, tem dias difíceis em que eu sei que ela tá com mais dor, tem uma coisa de ter que cuidar com muitas intervenções pra ela ter essa qualidade de vida também, que é uma demanda forte, são cinco remédios por dia, aí desenvolver um jeito de dar remédio que não estresse, aí você descobre a massinha da ração mole que pode enrolar o remédio, aí dá soro, enfia o soro na agulha, aprende a fazer, dá iogurte pra microbiota, tantas coisas. E aí é cansativo. Às vezes eu me pego meio exausta nessa lida quase hospitalar da Olga. Mas eu entendi que não tem o que fazer. É o que é, né? Ela tá viva e tá bem. E eu não sei mais. É engraçado que quando eu soube que ela ia morrer porque tinha obstrução da pedra, eu fiquei muito mal, passei até insônia, chorei muito. E a minha mãe é espírita. Eu já não acredito mais nessas coisas com tantos dogmas, mas eu também não duvido dos mistérios. Mas eu lembro de ligar pra minha mãe, ela ligou pra mim e perguntou da Olga, e eu não falo muitas coisas pra minha mãe porque ela dá umas viajadas, mas aí ela falou: "Ai filha, eu acho que não chegou a hora dela. Você vai ver, ela vai surpreender todos os veterinários." Isso há cinco meses. Eu lembro de ficar brava, falar: "Para de me dar esperança. Eu tenho que me preparar, é isso que é." Aí passaram uns dois, três meses, minha mãe me liga: "E a Olga, hein? Eu não disse? Tá surpreendendo não só os veterinários como você." E aí eu entrei num fluxo de tipo: "Eu vou deixar o mistério comandar." Sei lá. Até hoje, às vezes, os veterinários falam: "Talvez mais um mês." Eu falo: "Que isso? Talvez o tempo que talvez." Então acho que isso diz muito de um formato de dedicação. Eu passei a ser uma Milena que cuida da Olga. E essa companhia eu acho que é muito significativa pra mim. Eu entendo essa amizade como algo que me mudou muito, e que faz sentido nessa companhia. Isso é muito mais significativo do que ter um bichinho em casa, é ter uma amiga. Silenciosa, com uma outra linguagem. É. E aí a gente é muito próxima. E, sei lá, eu escolho estar com a Olga. Em vários momentos, às vezes, é colocada essa escolha: você renuncia a isso porque a Olga precisa. Eu falo: "Renuncio. A Olga precisa." E é muito gostoso. A gente tem feito esse processo do paliativo. A veterinária paliativista conta: existe um momento de muito sofrimento em que é possível avaliar, por exemplo, nos bichinhos, o uso da eutanásia. Só que tem critérios pra isso acontecer, e a Olga não chegou nesses critérios. E os critérios não aparecem. Enquanto não aparecerem, a gente vai indo, assim, porque eu acho que é aprender que na morte também tem vida. É toda essa história que as pessoas falam que lidam com alguém que vai morrer, né? E eu tô aprendendo isso, assim. A Olga traz muita vida até na “morrência” dela. E aí eu fui descobrindo, porque eu tava morrendo junto com a Olga. Vai morrer uma parte de mim com a Olga. Mas é descobrir, tipo: "Putz, tem algo que vive." E ela vive dentro de mim, eu sei, são características da Olga. Acho que a gente é meio palhaça, assim, e a brincadeira, o jogo, a dança. Teve uma vez que eu, na pandemia, fiz aula de dança online, e aí eu dançava e, quando eram umas músicas mais lentas, mais introspectivas, os gatos nem tchum. E aí eu lembro que teve uma que foi mais agitada e a Olga apareceu na câmera, tipo, pulando também. Eu falei assim: "É isso, a Olga é da vibe animada, assim, sabe?" Então, são coisas que eu aprendi junto com ela, observando ela, que ela me traz. Eu até brinco que a Olga é aquariana, porque ela nasceu, eu peguei ela em março, ela nasceu provavelmente no final de janeiro, porque ela tinha uns três meses. Sei lá, não acredito tanto em signo, mas tem essa vibe meio arquetípica. E a Olga tem essa vibe meio aquariana, meio desprendida. E eu gosto disso.
01:14:02
P1 - Tu tava contando meio blasé, né?
R - Meio blasé. Ela não se importa muito com nada, mas quando ela se importa, ela se importa de verdade. Então é bonito ver, tem alguma coisa que liga, e aí é meio mágico, mas de repente desimporta, tipo: "Isso aí..." Às vezes tem algo que você acha que ela vai achar mágico, porque ela já achou. Tipo: "Olha, Olga, trouxe uma caixa, você ama caixas", e ela olha pra você: "Não amo." Ela nem vai na caixa. Você fala: "Que é aleatória." Assim, comidas que ela ama, de repente ela não come mais. Aqui em casa a gente usa a ração exigente, porque ela é exigente. É aleatória. Eu gosto que ela seja exigente, tem uma coisa gostosa da Olga ter uma personalidade forte. Acho que tem uma característica que as pessoas que visitam... A minha mãe, que já cuidou um tanto da Olga quando eu precisei viajar, falam mal da Olga, que eu adoro, que é assim: ela não é muito obediente, ela é meio revolucionária, ela faz as coisas que você não espera, até quando ela já definiu o que ela faz. E aí, de repente, ela fala: "Não vou mais fazer. Lide com essa imprevisibilidade que eu vou te apresentar aqui." E eu acho isso demais. Eu acho que eu tenho um pouco isso também. Então, a gente tem umas identidades que se misturam com o gatinho, enfim. Então, é isso. Tamo aí nos perrengues de cuidar desse finalzinho de vida, mas a Olga é muito massa, assim. Ela é uma gatinha fofa.
01:15:41
P1 - Você tava contando que ela viveu momentos importantes da sua vida como uma telespectadora silenciosa, né? E também como uma companheira, de certa forma, né?
R - Sim.
P1 - Ela conviveu com você nesses momentos, né?
R - É, e é uma convivência muito íntima, né? Porque eu, sei lá, dividi casa, dividi quarto com meu irmão, que eu acho que é uma das pessoas mais próximas a isso que eu tenho, porque é muito tempo todo junto, né? E aí, a Olga, desde que eu vivo sozinha, e agora voltei a morar com o meu companheiro atual, mas ela sempre esteve no cotidiano mesmo. É um acordar para o café da manhã e é rotineiro, né? Então tem uma coisa muito gostosa de ter esse fluxo do cotidiano, do rotineiro. Ela estava lá todas as vezes. Todas as vezes. Não tinha para onde ela ir. Coitada. Talvez, infelizmente, para ela. Talvez ela quisesse dar uma viajada pelo mundo. Mas já levei, já levei a Olga pra praia, e ela miou a viagem inteira, mas adorou a casa que a gente ficou. Nossa, tentou escapar mil vezes e a gente cuidando de tudo. O quintal, ela pirou. A Olga pira no sol. Ela tem umas coisinhas dela. Eu acho que até comentei com você antes, né? Mas a gente descobriu recentemente que a Olga curte Jack Johnson. Tipo, você coloca Jack Johnson, a Olga deita assim, começa a se virar na varanda, é meio aleatório, você fala: "Me explica isso." Você coloca depois qualquer outra música relax, ela não fica assim, mas Jack Johnson, ela curte um Jack Johnson, e é muito divertido descobrir. Eu fico muito observando e, às vezes, engraçado, quando a gente começou a retomar, mas eu acho que a Olga me proporciona um pouco essa brincadeira da espiã, assim, sabe? Porque às vezes eu vou espionar a Olga, porque ela fica no cantinho dela e eu chego, e aí, às vezes, ela me vê e toma um susto. Mas, na maioria das vezes, a Olga já olha assim, tipo: "Meu... você tá aí, eu tô te vendo. Ai, droga." Só que ela faz isso também. Então, de repente, eu tô e é sorrateira a Olga, eu tô na cozinha e ela passa por trás das cadeiras, que eu não vejo, e eu vou atrás dela, não acho ela pela casa e falo: "Onde é que tá a Olga?" Ela tá do outro lado da cozinha porque passou sorrateiramente. Eu acho muito divertido. Eu realmente dou risada às vezes com essas coisas. Então, tem uma coisa de espiãs, uma da outra.
01:18:15
P1 - E nos seus atendimentos, ela aparece?
R - Já. Na pandemia ela aparecia mais, essa coisa meio co-terapeuta mesmo, né? E é uma interação muito possível com as pessoas, às vezes tem os fluxos de passar o rabo, tem hora que a Olga sinaliza um certo cansaço: "Tipo, já deu, hein?" E isso é bom, porque às vezes sinaliza pra mim e pra pessoa, tipo: "Acho que já deu esse assunto." E eu brinco muito com isso, do fenômeno poder aparecer também nos atendimentos. E a Olga tava lá. Mas é muito gostoso que tem dias em que a Olga percebe, e é meio desses mistérios, que eu tô mais frágil, eu acho, e ela fica deitadinha. E aí é uma paz, não sei quem já experimentou um gato deitar, é uma paz, a respiração mais baixa, e ela fica na minha perna enquanto eu tô atendendo online. Eu já tive várias brisas de tentar levar ela no consultório, mas essas ainda não foram aventuradas.
01:19:23
P1 - Você estava contando que você cria vários lugares para ela se alimentar em casa e ela brinca de escolher quais ela quer ou não, né? Como é que é isso?
R - É, eu fui descobrindo coisas pra contornar alguns problemas da Olga. Então, antes ela comia normal, mas aí, desde que ela tá com essa questão renal, é mais difícil ela se alimentar. Então eu fui fazendo jogos, assim, e ela entrou. Que aí eu coloco três lugares de comida e ela escolhe um pra ser o preferido, aí você tira os outros que ela não tá comendo e ela não come nenhum, então você tem que fazer o jogo de: "Não, então tem três lugares pra você comer." Tem uma coisa também, quando a Olga vai usar a caixinha de areia pra fazer cocô, que ela vai e mia, porque hoje ela tem mais dificuldade, já que está menos hidratada. E aí eu vou lá, ela faz o cocô dela com eu assistindo, e se vai outra pessoa, ela não faz. No limite, eu acho da vontade, ela até faz quando eu preciso ficar mais dias fora de casa e tal, mas ela tem uma comunicação e eu já sei, é um miado diferente, do tipo: "Vem aqui me acompanhar que eu tô com um pouco de dor, sabe?" Aí eu vou. Tem cenas bonitas também de eu levar ela no veterinário, e a Olga não fica arisca com nenhum veterinário, ela é muito boazinha sobre isso, mas ela vem entrando em mim, assim, se ela puder, vai tentando se enfiar na camiseta comigo, quase como: "Me protege." E aí tem toda essa cena. E pra alguém, sei lá, coletar o exame de sangue, o melhor esquema com a Olga é ela no meu colo. Eu seguro ela, nem precisa de muito, mas ela fica aqui, aí puxa uma patinha, tira o sangue, assim, então tem uma confiança mesmo, eu acho, na nossa relação, que ela tem comigo, que é gostoso. É gostoso de saber que você tem um bichinho que confia em você, né? Essa sensação de uma relação em que é estabelecida a confiança, sabe?
01:21:16
P1 - E como tem sido esse momento de entrar nos cuidados paliativos pra você?
R - Eu já estive muito pior. Quando eu soube, eu fiquei um pouco na negação, apesar de saber que não tinha muito o que fazer, em termos de... não tem uma cirurgia, não tem nada que cure, né? Tinham algumas intervenções que davam algumas promessas de mais meses, colocar um bypass entre um canal e outro, que é um canal alternativo, mecânico, mas eu fui muito investigar qual era o custo pra Olga disso. E aí tem o custo de fazer uma limpeza de quase dois meses, com anestesia, no veterinário, tem o custo da cirurgia, tem o custo de eventualmente ficar inflamado. Eu falei: "Não." Então eu entrei numa lógica de vou deixá-la sossegada no tempo da vida dela. E aí é menos intervenções que prometem mais uma vida, e a gente passou a ter só intervenções que dão qualidade. E aí é desenvolver métodos infinitos pra dar remédio, por exemplo. No começo era desesperador, ela cuspia quase todos, ficava muito irritada, eu ficava muito eufórica porque eu não tava conseguindo, chegava a hora do remédio e eu começava a ficar um pouco ansiosa porque, putz, tem que conseguir dar o remédio. E ela cuspia, ela é muito boa de cuspir remédio. Aí fui descobrindo um jeito no canto da boca, depois fui descobrindo uma massinha que você coloca em volta do remédio que ela não sente gosto, daí vai com muita facilidade. Aí todo mundo falava de vários churus e não sei o que pra dar com... A Olga não gosta. O que todo mundo gosta, a Olga não gosta. Aí um dia eu falei: "Vou experimentar." Requeijão, boa, ela gosta. Iogurte, ela gosta. Algumas outras comidas molhadas, ela não gosta. Ela gosta de coisas que são para humanos e que são chiques. Então, tem um tipo de queijo específico que uma vez o Maurício deu pra ela, que era um queijo meio caro, que ela amou. Assim: "Nossa, pode me dar infinitos que eu vou comer todo remédio que vocês quiserem." Só que a gente não pode dar muito porque também... Então, ela tem gostos muito refinados. E aí eu entrei numa função de testagens. Eu desenvolvi um jeito de cuidar da Olga, sabe? Às vezes aqui em casa a gente divide os cuidados, eu e o Maurício, mas eu fico no lugar do comando, porque eu sei como que tem que ser. Então é tipo: "A Olga quer beber água, aí dito e feito." Ela quer beber água, aí a gente leva ela, porque às vezes ela se vê querer beber água, mas não tá com muita força, aí você leva ela, abre água corrente, porque os potes ela tem que deixar, porque eventualmente ela toma, mas tem que ser água corrente, não pode ser da fonte, tem que ser da pia. Várias exigências, assim. Aí eu fui sacando e me mobilizando pra isso. Então tem sido muito trabalhoso. E a parte de me despedir, eu acho que eu tava mais nela quando eu soube que ela ia morrer dali uns meses. Aí eu entrei numa de chorar muito, de ficar... Desmarquei trabalho. Falei: "Vou ficar o máximo de tempo em casa pra me despedir." Passaram dois meses e não aconteceu. Eu falei: "Cara, acho que eu vou não me relacionar com a morte." Então tem um medo, tem uma tristeza envolvida, mas tem uma piada, e eu acho que é muito Olga isso. Porque hoje, todo mundo que soube que ela ia morrer, eu encontro os amigos e falam: "E a Olga?" E eu dou uma risada, tipo: "Ela tá lá e tá correndo na escada, cara." Então, tô indo um pouco pra esse campo do mistério, do risível, dessa ironia de ela tá morrendo e, inexplicavelmente, estar viva ainda, com a biologia interna dela toda ferrada. Todos os índices mostram um gato em estado terminal de não se mexer. Então, o gato tá se mexendo.
P1 - Imprevisível.
R - Imprevisível. imprevisível. Marcando como ela é nesse mundo.
01:25:34
P1 - E eu queria saber um pouco como que é a rotina, a sua rotina de vida, a sua rotina em relação a Olga, como é que é o seu dia a dia?
R - Bom, hoje é tudo voltado muito pra Olga, né? Então a gente tenta o máximo estar em companhia com ela, e nos dias em que eu não trabalho em casa, o Maurício fica trabalhando em casa. Mas tem uma rotina: eu acordo de manhã, gosto de acordar um pouco mais tarde, o Maurício acorda mais cedo, e a Olga dorme à noite comigo na barriga. Aí eu me mexo, ela sai e dorme num travesseiro ao lado, fica do meu lado, na cabeça, num travesseiro que é dela. Ninguém pode mexer nesse travesseiro, beleza. Quando o Maurício acorda, ela nem tchum, porque não se interessa porque ele acordou. E aí eu acordo, e ela já observa: "Ops, ela acordou." Eu levanto, ela levanta pra me acompanhar, é uma companhia de ir comigo até fazer o café, fica lá. Aí é o momento em que eu preparo minha comida, e a Olga entende: "Ixi, agora ela vai ficar um tempo parada comendo, tomando café, assistindo alguma coisa na TV." Então a Olga, às vezes, vai pra varanda, sobe no alto e fica lá vendo o mundo. Depois ela se liga que eu terminei o café e volta pros meus pés, me seguindo onde eu tô. Geralmente é o momento em que eu dou uma comida molhada pra ela, que já espera, aí ela come, depois vem o remédio, que já está acostumada, depois o fluxo de águas, vejo se ela quer uma água, limpo a caixa de areia. Então eu vou trabalhar e a Olga fica na cama, meio relax. Quando dá umas quatro da tarde, ela já entra no fluxo: "Vamos brincar." Entre quatro e cinco é o nosso momento. Quando eu não tô em casa, isso acontece quando eu chego, mas se eu tô em casa, ela começa a miar na porta: "Vamos descer a escada?" Ou mia na porta do escritório: "Para de trabalhar, vamos brincar." Eu abro a porta, ela sai correndo, já é o sinal da Olga de: "Agora a gente vai brincar." E aí eu brinco com a Olga. Tem dias em que ela está mais cansada, vem nesse ímpeto do tipo: "Eu quero brincar, mas não vou aguentar." Então eu só caminho com ela pela casa, mexo em umas coisinhas, uns papéis de amassado dela, ela fica comigo, mas não dá conta de correr. Eu notei isso já. E tem dia que ela dá conta. Mas é um tempo dedicado pra brincadeira. Então eu passei a ter intervalos pra brincar com a Olga, sempre que posso, entre cinco, seis, sete horas, deixo uns intervalos e brinco com ela. Desço a escada com a Olga, a gente vai geralmente até o décimo andar. Aí ela não dá mais conta de subir, então eu volto com ela de elevador, ela adora andar no elevador. À noite é isso: depois que eu brinquei, ela fica em paz, e aí é a hora em que se interessa de fato por comer, porque vem um remédio antidepressivo que dá apetite. Então eu cuido da janta, vejo um filme, uma rotina mais caseira, e ela come. Se está mais frio, vem pro meu colo; se está calor, fica na varanda até a hora de dormir. Tem dias em que eu durmo mais tarde e a Olga fica no corredor, pronta pra eu dormir. Ela fica um pouco de saco cheio: "Tá na hora, já são, sei lá, onze e meia." E dá umas miadas: "Vamos dormir", porque ela espera eu dormir e aí vai e dorme também. Desde pequenininha, ela entrou muito no meu fluxo, nunca foi uma gata muito espevitada da noite. E essa é a rotina, assim.
01:29:09
P1 - E o que que é importante pra você hoje, na sua vida?
R - Cara, eu acho que... Bom... Hoje eu diria que é a Olga. Tipo, a minha vida é toda pra Olga, assim. E, de certa maneira, acho que é importante pra mim as relações, pensar relações na vida e como elas se dão é uma coisa muito importante. É uma fase, inclusive, em que eu tô menos versada nas relações fora Olga, porque a Olga demanda muito, mas eu acho que essa capacidade dos vínculos é muito importante. Eu usaria essa ideia do vínculo como muito importante na minha vida. Ter vínculo. E eu acho que a palavra que eu usei sobre Olga é importante: vínculos que você tenha segurança e confiança, uma intimidade com segurança, com confiança, que é construída e que às vezes se modifica, mas tem que estar um pouco ali nos interstícios das relações. Eu diria que é isso. E talvez o espaço pra brincadeira. Acho que é muito importante pra mim poder brincar. Acho que eu não conseguiria levar uma vida muito séria ou muito correta. Acho que aí eu vou mais pra minha mãe do que pro meu pai.
01:30:48
P1 - Milena, e você tem sonhos?
R - Acho que sim, acho que sim. Acho que eu tenho um sonho de voltar talvez a me envolver mais com questões sociais, talvez mais revolucionárias, talvez mais disruptivas. E eu tenho vontade, talvez, de conhecer mais territórios. Eu não sou uma pessoa que viajou muito, não tive muitas condições. E hoje é a primeira vez, contraditoriamente falando da Olga, mas que a morte da Olga iminente também me traz essa capacidade de sonhar sair de casa, porque não tem mais a Olga para eu voltar, sabe? Ter um desterrar um pouco o pé daqui. E aí eu acho que me abriu esse espaço de conhecer outros territórios, poder dar uma passeada, sabe? Isso eu acho que... Mas que só acontece à medida que ela vai indo embora. Com a Olga aqui, estava tudo bem sonhar aqui dentro, sabe?
01:32:03
P1 - Tem alguma pergunta que eu não tenha feito? Ou alguma coisa que você queira contar? Que eu não tenha perguntado?
R- Não. Acho que não.
01:32:19
P1 - Tem alguma mensagem que você queira passar? Só se você quiser também.
R - Não. Acho que tem uma pira de imaginar como isso vai virar um acervo, que talvez daqui uns bons anos eu possa rever, né? E eu acho que é quase uma pergunta de como é que ficam os bichinhos na minha vida. Eu espero estar mais velha com outros bichinhos também, acho que eu não quero parar com a Olga, mas eu quero dar um intervalo, assim, sabe? E aí é curioso pensar como que se dão esses vínculos também numa outra vida, da velhice, do mais pra frente. Acho que isso seria interessante, pensando nessa coisa de acervo. E eu gostaria de mencionar que no paralelo da Olga existiu o Ramon, que eu acabei esquecendo, mas é o gatinho macho que eu peguei na pandemia, um pouquinho antes da pandemia, pra fazer companhia pra Olga. E a companhia porque eu tava morando sozinha, daí achava ela sozinha, e a Olga odiou o Ramon, porque ele era um pentelho. Mas o Ramon viveu com a gente quatro anos e morreu também de problemas renais, só que no caso dele foi bem como os veterinários disseram, foi muito rápido o processo. Foi até meio assustador porque ele era novinho, tinha quatro anos. E tem uma coisa que o Ramon era um pentelho, mas ele trouxe pra mim e pra Olga, que era assim: o Ramon era meio um Garfield. O Ramon adorava nada de aventuras, uma vida pacata, com comidinha, muitas comidinhas, e ele aproveitava uma coisa gostosa dessa coisa de dormir, comer. Quando dormir, comer. E dormir, comer e ganhar carinho. E ele adorava colo, qualquer pessoa, ele ficava no colo que ele gostasse, ele era muito fácil, carinhoso. E ele ensinou isso um pouco pra Olga e pra mim, porque acho que a gente é mais aventureira. Então, eu, quando tinha o Ramon e brincava com a Olga, ele ficava em desespero, saia correndo, se escondia, tipo: "O que vocês estão fazendo? Isso é demais pra mim." E ele não engajava em nenhuma brincadeira desse tipo. Ele gostava de brincar eventualmente com a Olga de lutinhas, tipo, ele ia lá e enfiava as unhas nela, mas comigo ele não entrou nesse jogo. Comigo era um jogo do: "Eu quero carinho, eu quero comida e eu quero uma vida boa." E a Olga e eu tínhamos esse jogo. Então, ele tem um registro muito curto na minha vida, mas foi muito amoroso também, foi muito especial tê-lo por perto. Ele traz um contraste de: "Não me identifico, mas gosto de saber que você existe." Tipo, ele é menos eu. Talvez esse lado mais rotineiro, mais previsível. Nossa, o Ramon era muito previsível. E a Olga odiava, porque ele tirava um pouco o espaço dela, das aventuras dela. Então acho que é bom registrar: o Ramon existiu.
01:35:28
P1 - E eu queria saber como foi pra você, a gente tá chegando no final, queria saber como foi pra você contar a sua história no Museu da Pessoa. Sei que é um espaço, é um recorte da sua vida, então você tem que escolher o que contar, né? Mas como foi retomar esses momentos e esses sentimentos pra você?
R - Eu acho que foi muito legal porque, pra mim, aconteceu antes de vocês chegarem, porque eu já fiquei às voltas do tipo: "Contar a minha história." Essa pergunta é boa: "O que é minha história? O que contar da minha história? O que é cabível? O que se narra de mim?" Então eu fiquei num exercício interno gostoso, vieram várias memórias que nem apareceram aqui, mas que eu fui resgatar porque estava disposta a fazer isso, sabe? E, ao mesmo tempo, é uma alegria trazer a Olga porque, de fato, ela deu uma guinada na minha história e eu fico muito feliz de eternizar a história dela. Sei lá, se um dia eu tiver filhos, vou mostrar pra eles: "Olha aqui o acervo da Olga, em especial, sabe? Quero mostrar como era a Olga." Porque ela era muita coisa, né? Ela é muita coisa. E sabendo da iminência da morte dela, isso traz mais significado em contar da minha história com ela, porque estamos eternizando, sabe? E é um pouco mais porque atinge outras pessoas, não é só comigo. Então é muito legal. Eu gostei muito da experiência. E tem uma coisa esquisita que é da entrevista de onde eu venho, sabe? É tipo: "Nossa, por que eu vou virar um acervo?" Tem uma esquisitice gostosa de tipo: "Que legal! A minha história tá sendo contada pra mais gente do que meus amigos." É esquisito, é quase um: "Que importante, que especial, mas que esquisito, sabe?" É bom, é um esquisito bom.
Recolher