Projeto Memórias de Vila Nova Esperança
Entrevista de Maria Ivani do Nascimento
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 24 de outubro de 2025
Entrevista número MVE_HV007
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
P/1 - Ivani, eu vou pedir pra você começar me dizendo o seu nome inteiro, sua data de nascimento inteira e a cidade onde você nasceu.
R - Meu nome é Maria Ivani do Nascimento. Nasci dia 16 de 03 de 1971 na cidade de Petrolina, Pernambuco.
P/1 - Cresceu em Petrolina também?
R - Nasci e me criei. Fiquei lá até os 19 anos.
P/1 - Como era a sua vida quando você nasceu? Como era a vida dos seus pais?
R - A vida dos meus pais era uma vida simples, trabalhadores, a gente sempre fomos criados na cidade, nunca fomos da zona rural, sempre da zona urbana, só que conforme a gente foi crescendo, os filhos foram tomando suas vidas.
Eu, pernambucana, casei muito nova, e por causa de um problema que eu tive com meu ex-marido lá no Nordeste, eu resolvi vir embora pra cá pra tentar outra vida aqui no estado de São Paulo.
P/1 - Então, antes de vir pra cá, voltar lá pra Petrolina um pouquinho, tem quantos irmãos?
R - Tenho 4.
P/1 - Tá em qual posição?
R - Hoje eu sou a mais velha, né? Porque o mais velho faleceu.
P/1 - Tá, e vocês eram idades próximas, os 4?
R - O meu (irmão), que é falecido, era mais velho do que eu, 2 anos. Eu sou mais velha do que o meu outro, 2 anos. Aí, mais velha do que o outro, acho que 6, e mais velha do que a caçula, 9 anos.
P/1 - Uma escadinha.
R - É.
P/1 - Como chamam seus pais?
R - Meu pai é Ângelo Belarmino, do nascimento, e a minha mãe, Maria Teodora, do nascimento.
P/1 - Como que eles eram ou como eles são?
R - Eles eram, eles são os 2 falecidos. Meu pai... Hoje eu não tenho nem palavras, assim… Falar do meu pai é difícil, trabalhador. Sempre batalhando pra criar os filhos, no que ele pôde fazer por a gente, até onde ele viveu, ele fez....
Continuar leituraProjeto Memórias de Vila Nova Esperança
Entrevista de Maria Ivani do Nascimento
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 24 de outubro de 2025
Entrevista número MVE_HV007
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
P/1 - Ivani, eu vou pedir pra você começar me dizendo o seu nome inteiro, sua data de nascimento inteira e a cidade onde você nasceu.
R - Meu nome é Maria Ivani do Nascimento. Nasci dia 16 de 03 de 1971 na cidade de Petrolina, Pernambuco.
P/1 - Cresceu em Petrolina também?
R - Nasci e me criei. Fiquei lá até os 19 anos.
P/1 - Como era a sua vida quando você nasceu? Como era a vida dos seus pais?
R - A vida dos meus pais era uma vida simples, trabalhadores, a gente sempre fomos criados na cidade, nunca fomos da zona rural, sempre da zona urbana, só que conforme a gente foi crescendo, os filhos foram tomando suas vidas.
Eu, pernambucana, casei muito nova, e por causa de um problema que eu tive com meu ex-marido lá no Nordeste, eu resolvi vir embora pra cá pra tentar outra vida aqui no estado de São Paulo.
P/1 - Então, antes de vir pra cá, voltar lá pra Petrolina um pouquinho, tem quantos irmãos?
R - Tenho 4.
P/1 - Tá em qual posição?
R - Hoje eu sou a mais velha, né? Porque o mais velho faleceu.
P/1 - Tá, e vocês eram idades próximas, os 4?
R - O meu (irmão), que é falecido, era mais velho do que eu, 2 anos. Eu sou mais velha do que o meu outro, 2 anos. Aí, mais velha do que o outro, acho que 6, e mais velha do que a caçula, 9 anos.
P/1 - Uma escadinha.
R - É.
P/1 - Como chamam seus pais?
R - Meu pai é Ângelo Belarmino, do nascimento, e a minha mãe, Maria Teodora, do nascimento.
P/1 - Como que eles eram ou como eles são?
R - Eles eram, eles são os 2 falecidos. Meu pai... Hoje eu não tenho nem palavras, assim… Falar do meu pai é difícil, trabalhador. Sempre batalhando pra criar os filhos, no que ele pôde fazer por a gente, até onde ele viveu, ele fez.
E um pai bom, amoroso, cuidadoso, tinha as falhas dele como marido, mas como pai ele era excelente. Então falar dele é difícil.
P/1 - Qual o nome dele?
R - Ângelo, as pessoas apelidava ele de “papel”.
P/1 - Papel?
R - É, porque ele era bem magrinho, sabe? Aquela pessoa magrinha, inclusive, eu falo que o meu filho Davi parece muito com ele, cabelo, rosto, os traços dele, é tudo do meu pai. Falar dele é difícil porque ele adoeceu, eu já morava aqui quando ele faleceu, só deu tempo para eu chegar lá. Então, falar do meu pai é voltar lá atrás e reviver uma dor assim que não tem explicação, mas, com muito prazer, relembrar dele e dizer que ele foi e faz parte da minha história.
P/1 - Esse choro é de saudade?
R - Muita, sinto falta, sabe? Chegar correndo, ele chegar, a gente correr e abraçar, e eu falar: “Pai, vai tomar banho, senta aqui pra mim cortar sua unha, pra mim arrumar seu cabelo”. É muito difícil. Difícil, difícil falar do meu pai.
P/1 - Ele trabalhava com o quê?
R - Meu pai trabalhava na Compesa, sabe? A Compesa em Pernambuco é a Sabesp aqui no estado de São Paulo, o meu pai trabalhava na estação de águas. Ele transformava água que vinha do rio em água potável para jogar para as torneiras, para os depósitos, para jogar para a rua. Trabalhou a vida toda nessa empresa, e foi trabalhando nessa empresa que ele conseguiu criar os 4 filhos dele, dar estudo, casa própria, e entregar pra sociedade, pro mundo, e graças a Deus os 4 são pessoas de bem, hoje eles são todos casados, todos têm suas famílias, enfim.
P/1 - E sua mãe?
R - A minha mãe... A minha mãe tem oito anos que ela faleceu. Minha mãe faleceu em 2016. Ela deu um AVC, eu tava trabalhando, meu irmão me ligou e falou. Foi num dia de domingo, inclusive eu ligava pra ela todo dia e nesse dia eu não consegui ligar pra ela, na correria do dia a dia do trabalho.
Quando ele me ligou, eu tava trabalhando, era umas 10h da noite, aí ele falou pra mim, aí eu falei: “Vai me dando notícia. Conforme for, eu viajo pra ir”. Aí ele: “Tá bom”. Aí demorou, quando foi a noite, ele me ligou e falou pra mim assim que... O caso dela era gravíssimo, se eu pudesse ir, era pra mim ir o mais rápido possível. E nisso, isso foi no domingo, na segunda-feira eu fui no escritório da firma, conversei com o meu chefe. Eu tinha umas férias vencidas e outras vencendo, conversei com ele, fui na agência, comprei a minha passagem e fui.
Isso era 17 de novembro e ela faleceu dia 30, não de setembro, 17 de setembro, ela faleceu dia 30. Pra mim foi difícil porque eu fiquei esses 15 dias que eu fiquei lá, eu fiquei com ela no hospital e ela faleceu nos meus braços, eu tinha acabado de dar banho, de trocar, e eu senti quando ela…
Então, falar dos meus pais é sempre difícil, porque minha mãe, apesar de ser do lar, mas era uma pessoa assim, batalhadora, que lavava roupa pra fora, pra ajudar meu pai na renda, pra criar nós. Eu, sendo um dos filhos mais velhos, sempre ajudei ela, eu passava roupa, pra não ver ela se desgastar sozinha, ela lavava, eu passava, eu ia entregar, e a nossa vida foi acontecendo, foi indo. Graças a Deus, até aqui eu não tenho o que falar nada deles.
P/1 - Você falou que a sua mãe faleceu faz oito anos. O seu pai faz quanto tempo?
R - Meu pai vai fazer 25 anos agora, dia 2 de novembro.
P/1 - Bastante tempo, né? E a sua infância?
R - Na minha infância, eu era “Maria Moleque”, né? Naquela cidade de Petrolina, onde a gente tinha vários amigos, eu jogava bola, eu jogava bolinha de gude, a gente fazia aquelas notinhas de maço de cigarro e esconde-esconde. A minha infância foi uma infância boa, graças a Deus, muito boa, a infância que eu tive, os meus filhos não podem ter hoje aqui no lugar que a gente mora.
P/1 - Por quê?
R - Porque aqui a gente mora em comunidade e comunidade é difícil pra gente deixar os filhos na rua, brincando. É complicado, mas a minha infância foi muito boa, graças a Deus.
P/1 - Ficava na rua brincando, então?
R - Brincava na rua, ia pros rios, pros riachos. Sabe, era muito bom, aquela turma de amigos, saia da escola, ir para a Concha Acústica da cidade, brincar, ia para a igreja, ia para a praça: “Está tendo tal coisa na praça”, a gente estava lá na praça, correndo, brincando. Então, foi muito boa a minha infância.
P/1 - E seus pais, eles falavam, pegavam no pé por algum motivo, para a escola, para os estudos?
R - Meu pai era muito ciumento, ele tinha muito ciúme, principalmente de mim e da minha irmã, né? Os meninos eram mais liberais, mas nós duas eram mais... Então ele pegou muito no pé e a gente fugia de casa pra ir pra festa escondida, a gente fazia boneco na cama, deixava lá, pulava a janela e ia pra festa. Deixava o boneco lá na cama e ia pra festa.
P/1 - Ninguém descobria?
R - Descobria, minha mãe descobria, que minha mãe era danada. Quando a gente tava lá no bem-bom, chegava ela com o meu irmão, aí ficava lá. Daqui a pouco meus irmãos chegavam: “Vamos pra casa, você fez minha mãe me acordar porque vocês saíram? Vamos, vamos embora”, a gente ia embora, mas a gente dava as fugidas da gente. As mulheres eram mais sapecas do que os homens. Mas era bom.
P/1 - Aprontou alguma que a senhora lembra?
R - Uma vez eu saí de Petrolina, acho que eu tinha 12 anos, eu saí de Petrolina, só com a roupa do corpo. Fui parar lá no Juazeiro do Norte, no Ceará… De carona, eu e mais seis amigas, fomos… E sem avisar papai, pra mãe, pra ninguém, mas fomos. Aí ficamos lá, ficamos 5 dias lá, era negócio de romaria, de Padre Cícero, não sei o quê.. Ficamos, lá a gente comprou roupa, trocamos de roupa, comemos pão doce com caldo de cana, que lá fala garapa. Aqui é caldo de cana, lá é garapa. E quando voltamos pra casa é aquela… Mas a gente já tinha curtido, já estava tudo bem.
P/1 - E dormiu onde?
R - Tinha até um hotelzinho baratinho, em Juazeiro do Norte, é igual a Aparecida, a gente ia escondido, mas a gente programava tudo antes da gente ir, a turminha.
P/1 - E quem é que liderava?
R - Acho que era eu, eu era terrível, terrível. Aí, depois disso aí, com 15 anos eu comecei a namorar, aí meu pai não queria, minha mãe não queria, minha irmão não queria, era uma briga, uma briga, uma briga. Aí engravidei da minha filha número 1.
P/1 - Desse namorado?
R - Foi o primeiro namorado, aí engravidei dele.
P/1 - E aí?
R - Ele foi embora, os pais dele moravam em Petrolina, só que eles eram de Serra Talhada, uma cidade próxima. E quando ele descobriu que eu tava grávida, ele foi embora pra casa do avô. Aí eu fui falar pro meu pai, aí meu pai perguntou: “E aí, cadê ele?” Lá no Nordeste é isso, né?
Aí eu falei a ele: “Ele foi embora para casa do avô dele”
- “Quando que ele foi embora?”
Eu digo: “Foi hoje de manhã”. Meu pai arrumou a mala: - “Eu vou atrás dele agora”. Eu digo: “Homem, não vai não, que eu não quero casar com ele, não”
- “Eu vou só pelo desaforo. Ele tá pensando que a minha filha não tem família, não tem pai?”, e foi.
Ele chegou lá de manhã, meu pai chegou de noite, chegou lá, bateu na casa do avô dele, o avô dele saiu. Aí o avô dele já conhecia meu pai, né? Era tudo perto: - “Ô, seu Ângelo, o que é que o senhor tá fazendo aqui?”
Aí meu pai: “Boa noite, seu Severino eu posso entrar?” Aí ele falou: - “Pode”.
Aí entrou, tomou café, aí ele falou: “Cadê Edmilson?” Era Edmilson o nome dele, aí meu pai falou... Perguntou a ele e ele falou: - “Ele tá deitado”.
Aí meu pai falou assim: “Seu Severino, eu vim aqui por causa disso, disso, disso... Aconteceu isso com a minha filha, a minha filha tá grávida e ele veio embora”.
Aí o avô dele foi lá e acordou ele, aí ele falou: “Agora você vai se arrumar e você vai voltar pra casa do seu pai e vai reparar o seu erro. Você vai junto com o pai dela”
E quando foi de manhã, ele foi, voltou, né? Aí quando chegavam as coisas, prepararam tudo, fizeram pra casar, pra casar. Aí foi todo mundo pro cartório pra casar.
P/1 - Mas cê não queria?
R - Aí quando chegou no cartório, na hora do juiz de paz, tudo bem, tudo bem, pra casar, eu digo: “Eu não quero casar com ele”. Ficaram todo mundo... Meu pai olhava pra mim, minha mãe, a mãe dele.
Digo: “Eu não quero, eu não preciso casar com ele porque eu tô grávida dele”, aí desci a escada do cartório, ele foi descendo atrás de mim. Aí eu falei pra ele hoje, agora você tá livre pra você voltar pro você quiser, só que aí ele não quis voltar mais, aí ele quis ficar comigo. Aí a gente continuou namorando, aí nasceu a minha filha, Nayara, amanhã, ela faz 35 anos a Nayara, aí engravidei de novo, com 1 ano e 2 meses que Nayara nasceu, eu já estava grávida de novo.
P/1 - Com o mesmo namorado?
R - Do mesmo namorado.
P/1 - Aí vocês foram morar juntos, então?
R - Nós já morávamos juntos. Aí engravidei de novo.
P/1 - E aí nasceu o segundo filho?
R - Aí nasceu o segundo filho. Quando nasceu o segundo filho, essa pessoa começou a se envolver com drogas, começou a roubar, começou... A vida... Aquela vida que era boazinha, começou a virar um inferno a minha vida. Aí, quando o meu filho tinha 4 meses, eu me separei dele.
Aí, eu já não morava em Petrolina, quando eu morava com ele em Belém do São Francisco, que é outra cidade do estado de Pernambuco. Aí ele saía de manhã e só chegava à noite drogado, brigando, aí começou a ficar violento, um certo dia ele chegou, eu abri a porta e ele entrou.
Aí ele foi dormir e eu sentei no sofá e comecei a passar um filme na minha cabeça da minha vida, que era o que eu estava fazendo da minha vida, eu com 18 anos, com a vida toda pela frente, passando por tudo aquilo, e lá nessa cidadezinha tinha um rapaz que ele fazia, fazia tipo van: (Como a Van) São Paulo-Cubatão… Lá era São Francisco, Belém de São Francisco-Petrolina. Eu não tinha um centavo no bolso, só a bagagem, 2 filhos e as roupas, juntei tudo. Fui no homem da van e perguntei se ele me trazia pra Petrolina, ele falou: “Eu te levo, chega lá, teu pai paga, e tá tudo certo”.
Aí eu vim pra Petrolina de novo, e meu pai, quando eu fui embora pra Belém, meu pai falou assim pra mim: “Tá saindo você e ele. Quando voltar, eu quero só você”. Quando eu voltei, eu trouxe eu e 2 filhos, mas, mesmo assim, ele me recebeu bem, me abraçou e falou: “Filha, seja bem-vinda”.
E lá estava eu de volta, só que ele veio de Belém e começou a me perseguir. Mesmo sem eu querer mais dele, ele me perseguia armado. Eu saía pra trabalhar, porque eu tinha que trabalhar pra criar meus filhos, eu trabalhava nesse negócio, plantação de uva, colhendo uva, manga, essas coisas. E um dia eu saí pra trabalhar, ele foi na minha casa e pediu a minha mãe pra passear com a minha filha. E a minha mãe inocente, além de ter dado a minha filha, ela ainda deu o registro de nascimento na mão dele. De manhã, eu cheguei, eram as 19h em casa, aí eu entrei de casa e falei: “Mãe, cadê Naiara?” Ela falou: “Tá com Edmilson”.
Aí eu falei: “Mas como assim?” “Ah, ele veio aqui cedo e pegou a menina”. Eu digo: “E até agora?”
Aí fiquei louca na cidade, no bairro que a gente morava, aí fui na casa da mãe dele. Cheguei lá, entrei: “Dona Júlia, fulano veio aqui?” Aí ela falou: “Não”, eu digo: “Ele foi lá em casa cedo, pegou a Nayara e até agora não voltou”.
Aí ficou eu, as irmãs dele, a mãe dele, o pai dele, todo mundo procurando, aí, tinha um amigo dele que tinha visto ele, falou: “Ivani, eu vi Edmilson entrando lá no Hotel Petrolina”. Aí eu falei: “Tem certeza?” Aí ele falou: “Tenho”.
Aí eu falei, aí eu fui lá no hotel, cheguei lá no hotel, chamei a recepcionista, conversei com ela, ela falou: “Como é o nome dele?” Eu falei: “O nome dele é Edmilson Ferreira da Silva”. Ela: “Você é o que dele?” “Hoje eu sou ex-mulher”. Aí eu falei: “Porque ele tá aí dentro com a minha filha”.
Aí ele falou: “Não, ele tá aqui, é ele, Maria Ivani do Nascimento e Nayara do Nascimento Silva, que é a filha dele” Ele tava com outra mulher, usando o meu nome, e com a minha filha. Aí eu falei: “Ó, se vocês não chamarem ele pra ele vir trazer, eu vou chamar a polícia, porque é sequestro, e ele tá usando o meu nome pra se hospedar nas pousadas de Petrolina com outra pessoa”.
Ela chamou o gerente, aí o gerente veio, conversou comigo, aí foi lá no quarto, conversou com ele, aí ele foi e trouxe a menina, aí eu peguei a minha filha e fui embora. Graças a Deus, foi a última vez que eu vi ele. Aí eu cheguei em casa e conversei com meus pais.
P/1 - E ele entregou tranquilo assim?
R - Entregou. Entregou. De boa. Aí eu conversei com meus pais, aí falei pro meu pai: “Pai, eu vou embora. Não dá pra mim conviver na mesma cidade que ele”. Aí ele falou, aí meu pai falou: “Mas como, e as crianças?” Aí eu falei: “Não, eu já conversei com a mãe dele, o senhor vai ficar com a Nayara, que é a menina, e eu vou dar o menino pra eles. E eu vou embora, vou seguir minha vida. Quando a minha vida estiver estabilizada, eu venho e busco” Só que a Nayara já era registrada no meu nome. Belezinha, ficou com meu pai e com minha mãe. Quando eu voltei lá, os pais do Edmilson tinham registrado o meu filho como filho deles. Dois anos depois eu voltei lá. Aí eu conversei com eles, aí a mãe dele... Aí eu falei: “Tudo bem, registrou…” Porque quando eu deixei ele lá, ele era novinho, ele tinha 9 meses.
P/1 - E você foi pra onde?
R - Eu vim embora pra cá.
P/1 - Ah, de lá você já veio pra cá?
R - Já.
P/1 - Veio sozinha?
R - Sozinha.
P/1 - E veio pra onde, exatamente?
R - Aqui, eu tinha o endereço do meu irmão, lá na Mooca. Eu vim embora de carona de caminhão. Não tinha condições de pagar passagem, não tinha nada. Eu tinha o endereço do meu irmão e uma carona de um caminhoneiro Expedito, que era amigo do meu pai. Aí eu vim com ele.
P/1 - E se despedir dos seus filhos pequenininhos.
R - Ele eu fui dar mamar, que ele ainda mamava, levei pra casa da avó, aí fui e dei mamar. E vim, dei as costas e vim embora, a minha filha sabia, que em qualquer momento que eu chegasse, ela estaria lá me esperando. E... Abracei, beijei, meu irmão foi me levar lá do lugar onde eu ia sair, do caminhão e vim.
P/1 - Que coragem!
R - Aí eu vim com o endereço do meu irmão, que morava na Mooca, meu irmão mais velho, aí, onde tá a história é quando eu cheguei na Mooca… Quando eu cheguei na Mooca, o endereço do meu irmão era uma delegacia, que ele estava preso, e aí? 8h da noite, na boleia de um caminhão, sem conhecer ninguém, aí vim.
Cheguei lá, fui lá, perguntei, aí o carcereiro falou assim: “O teu irmão estava preso, tem 4h que ele foi liberado”. Aí eu falei: “Mas…” Aí ele falou: “Vai no hotel tal, tal, que ele costuma se hospedar lá”. Aí eu fui, cheguei lá no hotel, a menina falou: “Não, ele não veio pra cá e a gente não sabe pra onde ele foi”.
E o rapaz tava comigo, o Expedito. Aí o expedito falou: “Ivani, eu vou pegar uma menina aqui e vou levar ela lá pra Baixada Santista, lá pra Cubatão, que ela vai pra casa dos parentes dela, vamos lá e de lá a gente vê o que a gente faz, ou eu te levo de volta pra Petrolina, ou você decide o que você quer fazer” Por coincidência, quando ele chegou pra pegar a menina, eu conhecia ela.
P/1 - Ela era da sua cidade?
R - Ela era de Petrolina e estava vindo pra Cubatão, pra casa dos amigos dela, aí ela: “Vamos comigo, chega lá, a gente arruma um emprego, trabalha”. O endereço desse pessoal dela era lá no Humaitá, aqui, em São Vicente. Aí a gente chegou e nesse dia tava uma chuva… uma chuva… ele deixou a gente na pista, a gente atravessou ali no Parque Continental.
Tanta chuva, de madrugada, aí eu falei pra ela assim: “Jú, como é que a gente vai bater na porta do povo de madrugada? Vamos nos acolher aqui debaixo dessa árvore, quando amanhecer o dia, você vai e conversa com eles”. Isso a gente fez. Ficamos com as malinhas, embaixo de uma árvore, aí, quando foi de manhã, que o portão abriu, a mulher estava saindo, a amiga dela, a amiga dela foi super gente boa, hospitaleira. Falou: - “Gente, por que vocês não me chamaram? Vocês passaram a noite na chuva, - “Entra”... E a gente entrou, tomou banho, tomamos café, descansamos, aí ela conversou comigo, assim, de cara ela já gostou de mim, já queria que eu ficasse trabalhando na casa dela.
E a minha amiga vinha aqui pra Vila Esperança, pra casa de outro pessoal, que ela ia ficar na casa, aí eu falei pra menina: “Eu vou com ela e depois eu volto”, mas aí quando eu cheguei aqui na Vila Esperança, eu gostei do lugar, só que era um lugarzinho feio, Vila Esperança era um lugar que quando... Olha, eu cheguei dia 5 de dezembro, de 1995. Com 3 dias, deu uma chuva de granizo, porque você é nordestina, nos barracos, tudo de madeira, horrível. Aqueles bequinhos, tu virava pra um lado, palafita, pro outro, palafita, aquela água passando, eu chorava igual criança, com a mão na cabeça: “Meu Deus do céu, o que é que eu vim fazer aqui? Eu saí do Nordeste pra morrer aqui”, na minha cabeça.
No primeiro dia que eu cheguei aqui, eu conheci meu esposo, eu desci do carro e ele estava em pé no beco que eu ia entrar, e assim, é uma história que até hoje eu fico pensando, tinha que ser! Vila Esperança e tinha que ser naquele lugar, naquela hora. Ele estava em pé, eu passei e olhei ele e ele disse: “Boa tarde”, Digo: “Boa tarde”, entrei.
A casa que eu ia com essa minha amiga era a casa do pai da namorada dele. Olha que história doida, e essa namorada dele era lá de Petrolina. Eles vieram de Petrolina pra cá, só que aqui eles já tinham a vida deles estabilizada, e essa minha amiga era amiga deles.
P/1 - E ele era daqui?
R - E ele, o meu marido é de Diadema, a família dele é toda da Bahia, mas ele nasceu em Diadema. Aí tá… Só que eles tinham brigado, estavam brigados e tudo. E ele bem... aí a gente começou a conversar, aí conversa vai, conversa vem, e nisso, a gente começou a ter um vínculo. Aí tá...
O pessoal falava pra mim assim, “Ivani, tu tá namorando com o Roberto?” O nome do meu esposo é Roberto, né? Eu falei: “A gente tá indo”, ela: “Pelo amor de Deus, não se envolva com ele, ele é mulherengo, ele tem um rolo com a Elza, que é um vai e volta, que não acaba nunca”…
Eu digo: “É?” Aí, eu cheguei em dezembro, fiquei dezembro, janeiro e fevereiro.
P/1 - E ficou onde, exatamente? Na casa de quem?
R - Eu? Na casa do pessoal que a gente estava.
P/1 - Aqui, na Vila Esperança?
R - Na Vila Esperança. Aí, arrumei um serviço na feira, eu era babá dos filhos do pessoal que tinha barraca na feira, arrumei. Aí a irmã dele me chamou pra morar com ela, a irmã do meu esposo, aí eu fiquei morando com ela e trabalhando e tudo. E o aniversário do meu marido é em fevereiro, quando foi em fevereiro, aniversário dele, eu fui e comprei um quadro do Flamengo, uma corrente de prata, dei de presente pra ele.
E ele sempre foi padeiro, ele trabalhava à noite, saiu pra trabalhar…E ele chegava e eu saía, porque eu trabalhava na feira, e feira é de madrugada, que sai pra trabalhar, e quando foi esse dia, ele chegou mais cedo na casa da irmã dele, batendo na janela; Aí eu abri a janela e disse: “Oxi, o que aconteceu que tu chegou essa hora?”, ele: - “Eu vim pegar a chave”, porque eu ficava com a chave da casa dele, ele disse: - “Eu vim pegar a chave do meu barraco”, digo: “é…?” Só que aí eu abri a porta, ele precisou que eu entregasse pela janela, e eu abri a porta.
Quando eu abri a porta, ele estava com a ex-namorada, que ela tinha vindo de São Paulo e tinha ficado com ele, aí eu olhei assim, aí a irmã dele falou: “Dá na cara dessa vagabunda, fala que o homem é teu, que não sei o que” Eu digo: “Não, deixa ele, deixa ele vai ver”. E ele saiu de mão dada com ela e eu saí atrás, porque o caminho era o mesmo, porque eu tinha que sair pra pegar o ônibus pra ir trabalhar.
P/1 - Mas vocês estavam namorando?
R - Tava. Aí tá. Aí foi. Fui trabalhar. Quando eu voltei pra casa da irmã dele, quando eu boto o pé na porta, quem que tá na casa da irmã dele conversando com ela? A dita cuja. Bem lá, batendo papo com a minha cunhada. Aí eu entrei “Boa tarde” tudo.
Aí fiquei assim, analisando aquela situação. Eu digo: “Meu Deus, onde é que eu vim me meter?” Aí tá. Aí peguei, arrumei minhas coisas, aí nisso eu já conhecia muita gente, aí tem uma amiga minha que morava no Costa e Silva, daqui em Cubatão. Aí ela falou: “Ivani, lá onde eu moro, aluga quartos pra pessoas”, aí eu fui. Fui pra lá, aluguei um lugar pra mim, nisso, fiquei trabalhando mais um dia na feira, depois arrumei um serviço fichado na Usiminas, antiga Cosipa.
P/1 - O que você fazia lá?
R - Lá eu era ajudante de serviços gerais, aí trabalhei lá um 1 e 2 meses pagando o meu aluguel certinho e tudo. Aí nesse intervalo de um ano e dois meses, eu fiquei 1 ano sem ver ele, sem falar com ele, sem ter contato com a família dele, sem ter contato com ninguém da família dele.
Quando foi um dia eu encontrei a irmã dele, a Márcia, que morava no 31, ela falou: “Ivani, vai lá em casa”, eu falei: - “Ah, não, vou não. Chega lá teu irmão, vou encontrar teu irmão”. E nisso a minha vida seguiu, trabalhando, não namorei mais com ninguém, de boa. A dona Severina, hoje é falecida, era dona do... quando eu tô conversando com ela, ela falou: “Ivani, tu é sapatona?”, desse jeito, a senhorinha. Eu digo: “Sou não, dona Severina, eu tenho 2 filhos, tá? Que conversa é essa, que eu sou sapatona? Só porque a senhora não vê homem entrando e saindo na minha casa? Quer dizer que a mulher, pra mostrar que gosta de homem, ela tem que viver com um e com o outro?” Ela: “Não, é porque eu te sinto tão sozinha”, falei: “Não, sou assim mesmo”. E segui minha vida trabalhando. Com um ano certinho, eu encontrei ele na Avenida 9 de Abril, ele e o cunhado dele.
Aí ele: “Nossa, quanto tempo!” Digo: “Eu não tenho tempo pra passear, nem pra encontrar ninguém, meu tempo é esse, assim, corrido”. Aí ele: “E o namorado?” Eu: “Não tem namorado, não. Eu quero um homem aqui de São Paulo? É tudo safado, inclusive você.” Aí eu falei: “E aí, como é que você tá? E a esposa?” Aí ele falou: Tem oito meses que a gente se separou”. Eu falei: “Tu tá morando onde?” Ele falou: “Eu deixei a casa pra ela e fiquei com os móveis. Levei pra casa da minha irmã e eu moro lá”. Eu digo: “Ah tá”, aí ele falou: “Tu mora onde?” Eu disse: “Eu moro aqui na rua João Damásio”. Aí ele falou: “Posso ir lá pra gente conversar?” Aí eu falei: “Pode”. Aí ele: “Posso ir lá na quarta?” Eu digo: “Pode. Vai lá na quarta-noite”.
Aí ele foi. Aí chegou lá com aquela historinha de namorar, “vamos, você quer namorar comigo de novo, não sei o quê”. Eu digo: “Namorar? Eu tenho dois filhos, eu pago aluguel, eu trabalho pra me sustentar, agora, se você quiser vir pra minha casa pra assumir a minha casa, o meu aluguel, o meu guarda-roupa, o meu armário e meus filhos, se não, filho, namorar não… Namorar?” Aí ele: “Eu posso pensar?” Eu: “Fica à vontade, já tá um ano aí pensando, fica à vontade”. Aí tá. Isso foi na quarta.
No sábado à noite, eu toda arrumada pra ir pra quermesse em Cubatão, chega ele, de mala e cuia, dia 24 de junho de 1994. Aí ele: “Estou aqui”, eu falei: “Seja bem-vindo”,
Aí eu morava num cômodo com banheiro, não cabia nem a metade das coisas dele, aí ele falou assim: “Não tem um lugar maior pra gente morar?” Eu disse: “Tem, mas hoje não dá pra gente resolver, joga aí as coisas e vamos pra quermesse que os meus amigos estão esperando”
P/1 - Mas como é que você se sentiu quando ele chegou?
R - Assim, na quarta-feira, por mais que ele falasse que queria, que gostava, eu fiquei com medo. Por que que faz uma, faz duas, faz três? E quando eu dei o ultimato pra ele vir de vez, eu achava que ele não viria, pelo histórico dele, eu achava que ele não viria. Aí quando ele chegou, eu falei: “Meu Deus, será que é isso mesmo?” Eu fiquei... Aí ele ainda perguntou assim: “Tu não gostou, não?” “Não é que eu não gostei, claro que eu gostei, porque eu gosto de você, então, pra mim, é ótimo, mas será até quando?
Porque lá, ela bateu na porta com você e pegou a chave, aqui, se ela bater na porta, aí vai ser diferente, ela vai conhecer a verdadeira Ivani e você também, porque aqui eu não aceito”. Ele: “Não, não vai acontecer” Eu: - “Tá bom”, aí, no outro dia, eu fui conversar com a dona Severina, que tinha dois cômodos em cima, no sobrado, com banheiro e tudo. Aí ela falou: “Não, tudo bem”, aí a gente mudou, a gente morou lá ainda 3 anos, aí depois a gente comprou nossa casa na Cota, saindo do Costa e Silva, compramos nossa casinha na Cota.
P/1 - Onde é a Cota?
R - Cota é aqui em Cubatão, lá nos morros.
P/1 - É comunidade lá?
R - É. Aí eu já estava grávida do meu filho, Kennedy, eu estava grávida de 3 meses do Kennedy quando eu mudei do Costa Silva para a Cota. Aí a nossa vida foi...
P/1 - E você estava trabalhando onde nessa época?
R - Eu trabalhava na Cosipa.
P/1 - Continuou lá?
R - Continuei lá.
P/1 - E ele?
R - Ele é padeiro nas Nações Unidas aqui no Costa Silva.
P/1 - E vocês pensavam em voltar aqui para Vila Esperança? Como que era?
R - Não, é assim, eu nunca quis morar aqui, até hoje eu não gosto daqui, assim, de dizer assim: “Eu moro porque…” Não, eu moro porque eu não tenho condições de morar num lugar melhor. Aí ele falava: “Mas filha, mas a gente vive bem” Eu disse: “Filho, eu sei, mas eu vim lá de Petrolina, duma cidade completamente diferente”. Onde foi que eu parei? Não sei mais.
P/1 - Eu perguntei sobre se vocês tinham ideia de vir pra Vila Esperança?
R - É que ele morava aqui, né? Quando eu conheci ele aqui, a gente foi pro Costa Silva, do Costa Silva pra Cota, quando surgiu da gente trocar lá, porque era morro muito alto, quando eu tive meu filho...
P/1 - Nasceu lá?
R - Nasceu lá, na Cota, aí ele falou: “Filha, tem um barraco pra vender lá na Ilha Bela”, no caso, que é aqui, eu disse: “Não, filho, mas lá é ruim, é invasão, é não sei o quê”. Ele disse: “Não, mas vamos lá olhar”. Eu disse: “Vamos, né? Não custa nada”. Aqui, a gente veio pela primeira entrada, quando a gente chegou aqui na entrada ali, era só uma trilhinha com as tábuas pra você passar, aqui água, aqui água.
Eu digo: “Nós vamos passar por onde pra lá? Ele: “Por aqui”, aí a gente foi… Quando a gente chegou aqui, a gente entrou pra cá, aqui era um barraquinho, quatro por quatro. Tu tocava os dedos e os madeirites faziam assim, iam e voltavam, eu falei: “Amor, como é que nós vamos morar aí?” Ele: “Não, eu vou dar uma arrumada e a gente vai pra dentro, depois a gente vai arrumando”, aí eu falei: “Mas tu acha que vale a pena a gente vender lá?” Porque lá já era uma casinha de alvenaria, arrumadinha, só que era morro. E aqui, a vontade dele de vir morar aqui era que as irmãs dele, a família dele morava toda aqui, porque eu não tenho parentes, só meus filhos, aí eu falei: “Então tá bom, a gente vai fazer isso”. Aí a gente comprou, ele arrumou, fez contrapiso.
P/1 - Aí vendeu lá?
R - Vendemos lá e viemos pra cá.
P/1 - Você lembra o preço? Quanto que era na época pra comprar?
R - Aqui? R$2.500, nós vendemos lá por R$4.000 e compramos aqui por R$2.500. E o que sobrou a gente arrumou, aí... Isso foi em... O Kennedy tá com 29 anos… 2019, nós compramos aqui.
P/1 - 2019 ou 2009?
R - Ele nasceu em 2016.
P/1 - Então foi 2009.
R - Não, 2000... Não, 1900... Não, 16... É 1919, né?
P/2 - 1999.
R - Não, calma aí. 2000 e...
P/1 - Quantos anos ele tem?
R - Ele tem 29.
P/1- Tá, então ele é de 2000 e... Não, noventa [sobreposição] e... noventa e nove. Não, ele é noventa e seis
P/1 - 1996.
R - Ele é 96.
P/1 - 1996.
R - É verdade, eu tenho dez anos mais ou menos. 1996, é isso aí. É 96.
P/1 - Ninguém sabe fazer conta.
P/2 - Aqui todo mundo é das humanas.
R - Aí o aniversário dele de 3 anos a gente fez aqui, a gente mudou no mês do aniversário dele.
P/1 - Como foi pra você entender que essa era a sua realidade, a sua casa? Ela ficou bonitinha? Como é que foi?
R - Não ficou muito bonitinha, não, filha, foi aquele improviso, dei aquele tapa e vamos entrar pra dentro. Ele, na época, trabalhava na padaria lá na cota, o salário do meu marido era R$250 na época. Porque ele falava assim pra mim: “Filha, quando eu tiver recebendo R$500 de salário, você não vai mais trabalhar pra ninguém”...Aí eu falava assim: “Humpf, Tá bom”. E aí nós mudamos.
Aí tinha aquele todo processo, não tinha luz, não tinha água encanada, essas ruazinhas aí com essas pedras, não tinha. Não tinha nada de bom, não tinha, nada. Era tiroteio, era matança, era uma vida corrida, era toque de recolher. Os caras vinham matar. Essa casa aqui da frente, mataram duas pessoas aqui, aqui no meu beco, o cara tava almoçando, chegou os caras, botaram ele pra fora, deram tiro de 12, ele caiu na minha porta.
Aqui era... À vista do que era antes, hoje a gente tá no céu, tem todas essas coisas, mas não é assim escancarado como era antes… Só que a gente vai se acostumando com onde a gente vive. A gente sempre trabalhando, criando nossos filhos, levando no parquinho, levando pra escola, levando pra tudo, né? E pedindo a Deus todo dia pra segurar na mão, e hoje eu falo pra vocês que foi uma luta, o meu filho, número 2, Wallace...
P/1 - Número 3.
R - Não, esse é o 3, o Wallace é o 4, é o 2 com o Roberto, ele ainda se envolveu aí nesse mundo aí. Aí foi luta, aí é outra parte dolorosa da minha vida, mas, cada vez que eu conto, eu fico mais forte. Graças a Deus!
Com 12 anos, ele se envolveu, e, quando a gente veio descobrir, já... Aí, foi uma luta, eu não dormia de dia, eu saía pra trabalhar.
Quando falavam: “Aconteceu isso e isso, na Vila Esperança”, eu já ficava doida no trabalho, já ligava pra casa, ligava pra ele, ele não atendia, ligava pro meu esposo, ligava pro meu outro filho, e eu achava que tinha sido com ele… Depois de muito tempo, ele me ligava e falava: - “Mãe, fica tranquila, eu tô bem, tô em casa, não é nada comigo, não”
P/1 - Ivani, ele se envolveu como usuário?
R - Não, ele era barra pesada mesmo.
P/1 - Ele vendia?
R - Ele vendia, ele cobrava dos outros, ele... Só que quando a gente veio descobrir, que ele fazia as coisas tão... Não dava... Todo mundo sabia, menos nós. Aí passou. Ele tinha 12, 13, 14, 15, 16, com 17 anos, ele conheceu a menina lá, eu já tinha feito de tudo pra tirar ele.
P/1 - O que você fazia?
R - Nossa, eu viajava com ele, eu comprava tudo que ele queria pra ele, pra mostrar pra ele que ele não precisava daquilo, mas nada que a gente fazia… Só que assim, nunca foi violento dentro de casa com a gente, nunca foi malcriado, era o jeitinho dele. Da porta pra fora, ele era uma coisa, da porta pra dentro, ele era outra coisa. Aí, quando ele tinha 17 anos, ele conheceu a menina, a Emanuele, essa é uma gigante na minha vida, o que ela conseguiu fazer em uma semana, foi o que eu tentei fazer em 5 anos e não consegui.
Ela chegou na minha casa um sábado à noite, ele me apresentou: “Mãe, essa aqui é a Emanuelle, minha namorada”. Aí ele entrou pro quarto dele e ela ficou na cozinha conversando comigo, aí ela olhou pra mim e falou assim: “Eu posso fazer uma pergunta pra senhora?” Falei: “Pode, meu amor, fica à vontade”. Ela: “O Wallace vive nessa vida pra ajudar vocês?” Eu falei: “Nunca, filha. Você tá vendo esse rostinho bonito? Essas roupinhas de marca que ele usa, que você gostou dele? Sai tudo do meu bolso e do pai dele, aqui na minha casa não entra nada desse tipo de coisa”.
Aí ela falou: “Essa carinha triste é o quê?” Aí eu falei: “São 5 anos de luta, 5 anos tentando tirar ele dessa vida e não consigo”. Ela olhou no meu olho e falou: “Mas eu vou conseguir, eu vou tirar o seu filho de você, mas vou tirar desse mundo também”. Aí ela falou assim: “Eu vou lhe dar uma semana” - desse jeito, olhando pra mim como eu tô olhando pra você - “Eu vou lhe dar uma semana pra ele sair, porque eu nunca fui, nem sou mulher de bandido, eu não tenho homem pra ir visitar ele na cadeia”.
Eu falei: “Tá bom, meu amor. Se você conseguir…” Aí ela falou assim: “Daqui uma semana eu procuro a senhora de novo”. E com oito dias certinho ela voltou na minha casa, nós sentamos naquela mesa ali na cozinha. Ela falou: “Wallace, vem aqui”, e ele saiu do quarto, e ela: “Dá aqui teu radinho, dá aqui tua pistola, dá aqui tua balança e todo o dinheiro que você tem aí”, ele deu, ela botou numa sacola e saiu daqui pra biqueira. Chegou lá, chamou o gerente da biqueira e falou: “Aqui são os pertences do Wallace”.
O Wallace é o Neguinho, o vulgo dele era “Neguinho”, perguntou: “Ele deve alguma coisa pra vocês?”, responderam: “Não, inclusive ele já conversou com a gente”.
Falei: “Então, ele não deve nada e aqui tá a porcaria de vocês, e a partir de hoje, ele é uma nova pessoa aqui nesse lugar”, e assim foi, meu filho hoje tem 25 anos, tem 9 anos que ele tá com ela, casado, mora no Bolsão, trabalhador, honesto. E essa pessoa, essa Emanuele, ela fala assim: “A senhora não gosta de mim”, porque ela é muito brava, briga muito com ele, eu digo: “Você não sabe o quanto que eu gosto de você, eu te amo. Você não sabe o bem que você fez pra mim”. E pra ele, né? Porque se não fosse ela, onde ele estaria hoje? Ou preso ou morto.
Mas graças a Deus, Deus coloca as pessoas na hora certa na nossa vida, no nosso caminho, e, é assim, meu filho é, por incrível que pareça, o filho mais carinhoso que eu tenho, é ele, é carinhoso comigo, com o pai, com os irmão, hoje com minha netinha, e é aquele hoje que não dá trabalho nenhum. Ele pode passar o que ele passar na casa dele, nem ela fala e nem ele. Se a gente for lá e perceber alguma coisa, claro que a gente ajuda. Mas se não... Mas graças a Deus.
P/1 - Vocês chegaram a conversar sobre isso, você e o Wallace? Sobre a saída dele?
R - Não, conversei bastante, hoje ele conta, hoje, a gente conversando, ele conta o que ele já fez, como ele entrou, como ele saiu, como ele tá hoje, como ele vê hoje e o que ele via antes. Aí eu falei: “Meu filho, mas tu não tinha medo de nada? E ele: “Mãe, eu não tinha medo de nada”. E ele não usa droga, meu filho não era usuário de droga, o mais incrível é isso, que você fala assim: “Ah, fazia porque era drogado, viciado, não tinha…” Não.
E hoje ele fala: “Mãe, essa vida eu não quero pra…” É tanto que tudo que acontece aqui ele sabe, ali onde o meu marido trabalha, a gente tem um estabelecimento que é alugado, e em cima tinha um pessoal morando, que o pessoal fazia sequestro, esse tipo de coisa, e invadiram lá o espaço nosso, eu saí pra trabalhar e ele saiu pra fazer entrega, e invadiram e levaram R$9.000 nossos, que a gente tinha lá, e, por incrível que pareça, meu marido não foi preso porque pela trajetória dele e por todo mundo conhecê-lo, porque senão era pro meu marido estar preso. Porque eles estavam roubando a nossa internet de lá e usando pra combinar os negócios lá pra fazer sequestro. E como tanto a (internet) daqui como a de lá é tudo no nome do meu esposo, quando puxou lá o ID, dava o nome dele por causa do CPF, eles vieram aqui na minha casa e lá. Mas, graças a Deus, a gente foi na delegacia deu depoimento e foi liberado.
P/1 - E teve envolvimento do seu filho nisso, de ajudar alguma coisa?
R - Não, meu filho, a gente só comunicou a ele, porque como ele conhece todo mundo, ele ligou pro pessoal e falou: “Pô, o que que tá acontecendo? Como é que acontece um negócio desse, invade a casa do meu pai? Meu pai é trabalhador, minha mãe é trabalhadora, acontece isso?” Mas, graças a Deus, não teve envolvimento nenhum, não, dele não. Só que o dinheiro a gente não recuperou, porque os policiais que pegam, eles não vão devolver nunca. E nem colocam lá, na folha que a gente encontrou, se colocar, é pra jogar como se a pessoa fosse culpada, e é um dinheiro perdido que ficou.
P/1 - Faz tempo isso?
R - Vai fazer um ano agora, em dezembro.
P/1 - O Ivani, voltando um pouquinho antes aqui na Vila Esperança, vocês foram melhorando, era aqui ou era em outro lugar?
R - Era aqui.
P/1 - Era aqui?
R - Aqui. Toda melhora foi tudo aqui. Depois que a gente mudou pra cá, pro barraquinho, depois a gente alugou um espaço, aí mudamos, demolimos o barraco e construímos a casa. Toda melhora foi aqui.
P/1 - Então você foi construindo a sua história aqui, querendo ficar aqui de alguma forma, porque é a coisa que tá acontecendo?
R - Pelos meus filhos, pelo meu esposo, né? Todo ano eu... Em férias eu viajava para o Nordeste, voltando lá atrás para ver meu pai, minha mãe, meus irmãos, meus sobrinhos que iam nascendo, a família crescendo e eu não conhecia. É tanto que meu vinculo com meus sobrinhos lá do Nordeste, é muito pouca, porque eu vi muito pouco eles.
P/1 - E teus filhos lá?
R - Só tem um lá.
P/1 - A Nayara?
R - A Nayara mora aqui.
P/1 - Ela veio?
R - Eu fui buscar ela, ela veio.
P/1 - Com quantos anos?
R - Nayara veio com sete.
P/1 - Ah, no comecinho então.
R - Quando a Nayara veio, eu ainda morava na Cota.
P/1 - Você foi buscar?
R - Fui buscar. Fui buscar os dois, né?
P/1 - E o Francisco?
R - O Francisco não veio porque a pessoa que ele conhecia de mãe era avó. Por eu ter deixado ele muito pequeno e tudo. E as histórias que foram contadas para o Francisco eram histórias horrorosas da minha pessoa aqui. Quando eu ligava pra ele de aniversário, ele não atendia: “Porque eu não quero falar com rapariga. Não quero falar com isso, com aquilo outro”. Era o que contavam pra ele.
Aí depois de 2014, eu fui, ele já era rapaz, aí eu chamei ele pra conversar, falei: “Você quer ir no shopping comigo pra gente conversar?” - eu e a Nayara. A Nayara estava comigo - “Pra gente conversar, pra mim contar a minha história, a parte da minha história que você não conhece”. Aí ele, foi eu, ele e o esposo dele, que ele gosta de homem, né? Ele é casado com um homem.
E eu contei a ele: “Mas não é nada disso que eu sei”, eu falei: “Francisco, tem coisa que a gente só não vê porque não quer, olha, presta atenção, Nayara é o que é sua?” ele: “É minha irmã” e eu: “Nayara é filha de quem, Francisco?” “Da senhora e de Edmílson”, eu falei: “Como é que você é filho de dona Júlia e seu Francisco, se você é irmão da Nayara?
Você sabe o que aconteceu pra mim deixar você com sua avó e Nayara com a avó dela, que é sua avó também?” Ele: “Não”. Aí eu fui contar a história do pai dele, o que o pai dele tinha feito, como foi a minha conversa com a avó dele e o avô e a filha, quem levou ele da minha casa pra casa dos avós dele e ele: “Mas não é isso”. Eu disse: “Mas é isso”.
Aí liguei pra irmã dele, a suposta irmã, que é a tia, pra ela encontrar com a gente lá, porque eu precisava que ela esclarecesse o que eu tava falando, aí ela foi, aí ele ficou ouvindo, ouvindo ela falar, aí ele olhou na cara dela e falou: “Mas você era a primeira a falar mal dela, falar que ela não prestava, que ela nunca ligou pra mim”. Eu digo: “Não, não é assim”.
E até hoje, ele vem aqui, tem 2 anos que ele veio, ele veio passear, ele fica, ele liga pra mim, ele conversa e tudo, mas a gente sente que não é a mesma coisa. Ele fala: “Você sabe a dor que eu sinto quando eu pego o RG da Nayara, que tá lá: filha de Maria Ivani do Nascimento, e Edmilson Pereira da Silva, e pego o meu”? Eu digo: “Filho, mas isso é a sua história de vida, tinha que ser assim. Mas se você quiser mudar, ainda tem tempo”. Aí ele: “Eu te amo do mesmo jeito”, inclusive a avó dele, que é mãe dele, morreu acho que tem 4 meses. [intervenção] Mas ele vem, ele gosta dos irmãos, ele conversa, tem toda afinidade com os irmãos, com o Roberto. Gosta muito do Roberto, o meu esposo. E hoje, de mim, eu sinto mais um... Não é aquela coisa de “minha mãe”, mas graças a Deus a gente se dá muito bem.
P/1 - E como é que foi criar dois filhos pequenos aqui na Vila Esperança naquela época?
R - É assim, a história do Kennedy, do Wallace e da Nayara, são três irmãos. Bem que ela não era filha do Roberto, mas é como se fosse. Ele tem ela como filha mesmo, criada pelos mesmos pais, pela mesma mãe. O Wallace deu uma desandada, mas voltou, porque da mesma forma que eu criei a Nayara e o Kennedy, eu criei o Wallace. Os mesmos... O mesmo círculo de amizade, a mesma escola, os mesmos professores, os mesmos caminhos.
O Kennedy, falar do Kennedy é... Nunca me deu trabalho, cada emoção é (uma) emoção, né? O Kennedy toda a vida foi... Nunca se envolveu com nada errado, estudou, aí trabalhou, com 16 anos, foi trabalhar na padaria com o pai, a primeira carteira dele fichada, de balconista, na padaria, trabalhou, aí, com 19 anos, ele já era padeiro, de balconista passou pra padeiro. Aí trabalhou 4 anos na padaria aqui na Vila Esperança, com 4 anos que ele saiu de lá, ele falou: “Mãe, eu não quero essa vida, eu não quero essa minha profissão, já tenho, mas eu não quero isso pra minha vida, eu vou pra construção civil”. Eu disse: “Kennedy, tu não sabe nem pregar um prego na parede, como é que tu vai?” ele: “Não, eu vou, eu vou entrar de ajudante de carpintaria, depois eu vou…” Aí foi. Só que a ficha dele, em vez de vir de ajudante, já veio de carpinteiro. Aí eu falei: “Filho, mas como?” “Não, mãe, eu vou. Vou olhando e vou”.
Hoje o Kennedy tá encarregado de carpintaria, com 29 anos, graças a Deus, nunca ficou desempregado. Aí casou, viveu sete anos com a esposa, aí tiveram uma bebezinha, a Maria Lívia, a Maria Lívia tem 1 ano e 4 meses, só que eles se separaram quando ela nasceu, no decorrer da gravidez até ela nascer. Aí separou, ele voltou pra casa. E a esposa dele mora lá no Bolsão.
Aí no final de semana eu pego minha netinha porque ele trabalha fora, ele hoje tá em Candeias, lá no estado da Bahia, trabalhando pela firma. Aí só vai vir em dezembro, mas o Kennedy é... Sempre foi. Ele só tem um defeito. Ele é mulherengo demais. Demais. Ele separou e já... Já separou e já tá engatilhado de novo, mas eu sempre falo pra elas. Como eu falei pra Rayane, que é a mãe da minha neta, oje eu falei... Agora esses dias eu falei pra Micaela, que é atual: “Vocês têm certeza disso, né? Depois eu não quero ninguém chorando aqui, não, que o Kennedy tá te fazendo sofrer. Porque ele é desse jeito” “Ah, tá bom. Eu quero”. A Nayara é guerreirinha. É meu mundo rosa, meio rosa, meio azul, mas é rosa. Ela veio, aí estudou, fez curso, fez Senai, fez inglês, fez caldeiraria, fez tudo que você imaginar de curso, e aí foi embora pra São Paulo, não, casou, teve casamento com 19 anos, conheceu um rapaz e nunca tinha namorado.
P/1 - Aqui na Vila?
R - Não, ele era amigo nosso de pequeno lá da Cota, olha pra tu ver. A família dele era toda amiga da Cota, nós viemos embora pra cá, a amizade continuou. Ele sempre vinha pra cá e tudo. Nayara novinha, ele mais velho, ele falava: “Quando Nayara tiver 15 anos, eu vou namorar com ela”. Dizia: “Sai pra lá que tu vai namorar com ela” Aí, quando ela tinha 16 anos, eles começaram a sair e tudo aí, com 19 anos, eles casaram, fiz tudo tradicional, chá de panela, festão de três dias.
P/1 - Onde foi o casamento?
R - A gente fez a festa... Hoje é na igreja católica, ali era a sede de melhoramento do Zumbi. Ali. Fizemos três dias de festa ali e tá. Aí eles foram lá no Joca, em São Vicente, com seis meses de casado, começou as queixas do esposo. Aí ligava pra mim: “Dona Ivani, a Nayara isso, a Nayara aquilo” Eu disse: “Mas rapaz…” Aí depois, com sete meses, ele comprou uma casa aqui, veio morar aqui, perto. Aí, se ele já tinha um bote, já tinha um carro, ele era o genro que toda mãe pediu a Deus. Aí, vieram morar e tudo, a Nayara entrou em depressão, não saía de dentro de casa, toda hora que chegasse lá, Nayara estava deitada.
A minha filha parece muito comigo, ela é muito isso aqui, meu rosto, assim, muito parecida comigo, e teve uma época que Nayara estava dessa finura. E ele reclamava que Nayara não dava atenção, que Nayara não queria nada com ele. Aí quando foi um dia que eu estava trabalhando, aí ele me ligou, que quando eu chegasse em casa, ele queria conversar comigo e com o Roberto. Daí eu falei: “Tá”. Cheguei, mandei mensagem pra ele: “Tô em casa, vem”. Aí ele veio, sentou bem onde você tá sentado, lembro como se fosse hoje.
O Roberto sentou aqui no braço do sofá, eu sentei aqui e ela ficou ali em pé. Aí eu falei: “O que tá acontecendo?” Aí ele falou assim: “É que a Nayara quer separar de mim”. Eu falei: “Como assim, separar?” Aí ela falou assim: “Mãe, vamos lá em casa que eu quero conversar com a senhora”, aí eu fui lá com ela, pedi licença pra ele e fui lá na casa dela, que era aqui pertinho.
Chegou lá, sentei no sofá e ela falou assim: “Mainha, eu vou separar do ______ porque eu não gosto de homem, eu gosto de mulher e eu não quero mais viver essa vida”. Eu disse: “Pra que tu casou, filha?” “Ah, eu casei com medo do meu pai não aceitar”. Eu falei: “Filha, uma semana antes de você casar, seu pai sentou com você e perguntou se era isso mesmo que você queria, por que que você não falou?” “Mainha, você já tinha gastado muito e minha festa já estava toda montada ali” “Filha, festa, a gente desmonta e desfaz”. Aí eu falei: “Tá bom. Chega lá, não fala pra ele que você quer se separar porque você não gosta de homem nem nada. Fala só que não gosta mais dele e quer se separar”. Aí chegamos, ficamos ali. Aí ela foi e falou, aí meu marido tá sentado aqui e falou. Aí o marido dela falou assim: “Ela vai se separar de mim porque ela gosta de mulher”. Quer dizer, ele sabia tudo. Aí ela falou: “É isso mesmo” e o meu marido olhou assim e falou: “Mas, Nayara - com aquele jeito calmo dele, vocês não conheceram ele, mas o menino conheceu - Mas, Nayara, por que você não falou?” “Ah, pai Roberto, eu fiquei com medo de o senhor brigar”. Esse marido dela chorava igual criança aí no sofá: “Pelo amor de Deus, não vá embora, eu aceito você do jeito que você é, vamos continuar assim, não sei o quê”. Aí ela: “Não, eu não quero”, aí, foi pra lá pra casa dela, fazer as malas. Aí, fazendo as malas, chegou o pai dele, a mãe dele, chegou todo mundo. Aí, ela fazendo as malas. Fechou as malas.
P/1 - E foi pra São Paulo?
R - Deu tchau, pegou táxi e foi embora pra São Paulo, foi embora. Aí, no outro dia ele veio aqui. Aí... Foi embora, nisso ficou em São Paulo, fiquei 9 meses sem vê-la. Pra mim, falar com ela, eu ligava… O celular dela no viva-voz e a pessoa escutando… Com quem ela foi morar lá, escutando a conversa toda, aí ela foi embora acho que em junho, julho, março era meu aniversário, não, antes disso, ela foi, com 8 dias ela veio, porque tinha que ir no advogado. Porque eles tinham carro, tinha moto, tinha tudo, né? Casa própria.
Aí ele foi comigo buscar ela na rodoviária, aí quando ela entrou no carro, ele falou pra ela assim: “Quando chegar lá no advogado, não precisa você falar nada. Porque eu já falei tudo e já tá tudo certo”. Aí ela falou: “Como assim não preciso falar nada?” ele: “Em relação a casa, carro, esse negócio”. Aí ela: “Tá bom”. Chegou lá o advogado e perguntou assim: “Vocês construíram algum bem junto?” Ela falou: “Tudo que ele tem, foi depois que ele casou comigo, casa, moto, carro. Mas eu não quero nada, a única coisa que eu quero é a parte do dinheiro da casa que ele vendeu 3 dias depois que eu saí de casa”. Aí ele falou: “Não, mas…” Aí o advogado falou: “Você vendeu a casa por tanto e esse depósito caiu na sua conta tal dia, aí não foi?”. Ele falou: “Foi”. Ele falou: “Então, a metade desse dinheiro é dela, você tem que dar 50% agora e 50% quando sair o divórcio”.
Aí ele falou pra ela assim: “Ó, Nayara, se você tiver um garfo e uma faca, a faca é dele e o garfo é seu”, ela falou: “Não, não quero nada. Só quero esse dinheiro”. Aí eu fui pra ela: “Nayara, pega esse dinheiro e compra um barraco pra tu aqui, né? Mesmo que você esteja lá em São Paulo, mas quando você voltar, você vai ter seu cantinho aqui”. Aí ela falou: “Não, mãe, eu vou embora”, aí foi pra lá.
P/1 - E ficou?
R - Ficou, ficou, ficou. Depois, 9, 8 meses depois, era Março o meu aniversário, ela me ligou: “Mainha, a senhora vai fazer seu aniversário, que nem meu pai faz todo ano?” Eu digo: “Sim” “Tem como a senhora mandar o dinheiro da passagem pra mim, pro seu aniversário?” Eu digo: “Tem”, aí mandei, ela veio, quando a minha filha chegou aqui, eu nem conhecia, de tão feia que ela tava.
P/1 - Eita!
R - A mulher... Sabe aqueles relacionamentos abusivos que a pessoa não pode fazer nada, não pode sair pra lugar nenhum,nem conversar com os pais? Era assim que ela vivia, aí ela falou assim: “Mainha”. Eu falei: “Tu ainda vai voltar pra lá?” Aí ela falou assim: “Eu vou, mas eu vou vir embora”. Aí ela ficou uma semana aqui. Quando ela voltou, eu fiquei tão ruim, pensando, o que será que vai acontecer com a minha filha? Porque ela morava lá em Paraisópolis, aí, com 8 dias, ela não voltou. Aí eu liguei pra ela. Aí ela falou: “Não, mainha. Eu tô dentro do ônibus, eu tô voltando”. Aí eu fui e arrumei emprego pra ela, aí ela foi reconstruindo a vida dela devagarzinho, aí resolveu ir embora de novo. Aí foi morar lá em Tremembé, lá conheceu outra pessoa. Aí não deu certo morar lá e vieram morar aqui, alugaram. Aí ficou um tempo, a menina perdeu a visão.
P/1 - Eita! Ivani, vamos voltar pra tua história. Senão a gente vai longe aqui com as histórias dos filhos, né? Hoje, então, quem mora aqui na Vila Esperança?
R - Dos meus filhos? Só os daqui em casa. Davi, eu e Roberto, que é o meu esposo. O Kennedy mora na Vila Natal, a Nayara mora na Vila Natal, o Wallace mora no Bolsão e o Francisco mora em Petrolina.
P/1 - E nesse tempo todo que você está aqui na Vila Esperança, o que você foi vendo acontecendo aqui na vila, no bairro, que foi melhorando a vida de vocês, que foi importante para a sua história?
R - O desenvolvimento do bairro foi uma coisa que aconteceu gigantesco, aquilo que era tudo palafita, que era aquelas fiações tudo embaralhadas, aquele chafariz onde a gente tinha que pegar água, pra abastecer a casa. Aquilo foi se transformando como um cenário de novela, sabe? Você mora numa comunidade que é completamente defasada de tudo, sem infraestrutura nenhuma, e de repente você vê acontecer.
P/1 - Mas foi de repente?
R - Não, no decorrer de 33 anos que eu moro aqui, né? Foi melhorando. Aí foi construindo uma casinha aqui, derrubando um barraquinho ali, construindo outra casinha. Aquela casinha que foi construída primeiro, hoje é um sobrado. E assim foi acontecendo.
P/1 - Chegou energia, chegou a água?
R - A gente fazia protesto, a gente se juntava todo mundo. Ia pra pista com um panelaço, queimar pneu, pra eles virem olhar, vir no bairro, andar no bairro, não só em época de eleição, mas vir ver como realmente a gente vivia aqui. E foi funcionando. Quer dizer, eu falo que a comunidade foi quem trouxe o bem-estar pro lugar.
P/1 - Quem juntava esse pessoal pra ir bater panela lá na estrada?
R - Olha, aqui tem uma pessoa, que faz parte da história da Vila Esperança, o Zumbi, ele lutou muito por isso. O Zumbi, o Miúdo, o Manoel Bispo, mesmo em tanta dificuldade, eles reuniam força, eles iam na prefeitura, eles pediam uma pedra, eles pediam uma areia, eles pediam um cano. E a gente vinha, aí vinha pedia ajuda da gente, a gente colaborava com o trabalho, assim, com a mão de obra, quem podia pagar, pagava, pro outro ir lá e arrumar, e assim a Vila Esperança foi se construindo.
P/1 - E você sempre fez parte desse movimento também?
R - Sempre, eu sempre fiz parte, eu sempre apoiei o Zumbi muito, muito, muito, muito, porque aqui, a Ilha Bela, mais aqui dentro da Ilha Bela, ele fez muita coisa. Ele trouxe curso, curso de panificação, curso de inglês, muitos cursos ele trouxe para as crianças e para os adultos. Teve um projeto do Sopão, que foi o primeiro projeto do Zumbi aqui, foi do Sopão, aqui dentro. Aí depois ele foi só...
E, assim, hoje, a minha história com o Zumbi, ela terminou ali, na política passada, hoje, eu sou muito decepcionada com ele, mas eu reconheço tudo que ele fez… Mas, hoje, eu não acredito mais nele. Eu ajudar ele a construir o sonho dele, pra mim, era o meu sonho, indo crescendo junto dele, só que não foi assim.
P/1 - Qual era o seu sonho?
R - O meu sonho era que ele, junto com o crescimento dele, ele levasse as pessoas que ajudou ele a crescer também, entendeu? Um emprego, eu sei que nada é fácil. Ninguém tá pedindo pra ele pegar o dinheiro dele e dar pra pessoa, mas que é uma pessoa que a gente sabe que tem. Ele tem conhecimento e ele tem poder na mão. E se você chegar lá e pedir um emprego, eu sei que ele tem possibilidade de arrumar, e eu não queria nada. Eu só queria um emprego pra mim e pra um dos meus filhos, porque somos pessoas capacitadas a trabalhar junto com ele, e ele não fez isso.
Em fevereiro eu fui lá, lá na pracinha, ele tava lá sentado de manhã, 9h da manhã. Cheguei lá e conversei com ele, falei: “Zumbi, eu tô desempregada, eu tô precisando emprego” Ele olhou pra mim e falou assim: “Não se preocupe, não procure mais emprego. Porque você já pode se considerar empregada”. Eu falei: “Tá bom”, não me preocupei, só que fevereiro, março, abril, maio, nada. E eu cobrando: “Zumbi, todo mundo tá trabalhando”. Sempre.
Chegou uma hora que eu parei de cobrar, aí, esse dia, ele postou, ele fez uma postagem do... Meu Deus, do que foi, pra mim... Alguma coisa com um rapaz num carro na rua: “O trabalho continua”. Aí, eu só comentei, falei: “O trabalho continua pra todo mundo, menos pra mim, né?” Aí, ele mandou um texto pra mim: “Ah, eu te chamei duas vezes pra você vir aqui pra gente conversar e você não veio” eu disse: “Sabe por que eu não vim? Porque eu estou fazendo bico no restaurante, e não é fichado, não posso, eu não estou disponível no horário que você quer. Pra mim conversar com você, eu tenho que estar disponível, porque ao contrário de você, eu tive que correr atrás do serviço”. Aí ele foi me responder: “Não, mas eu quero que você venha aqui pra gente conversar”, conversar o quê? Não tem conversa…
P/1 - Entendi.
R - Não tem mais assim. E ele sabe que quando eu vou, eu levo muita gente comigo, e eu falei pra ele assim: “Zumbi, faltou 36 votos pra você se eleger, mas esses 36 votos não foram da minha parte. Foi de muitas pessoas que estão do teu lado e não pediu esses votos pra você, mas tão aí trabalhando com você, e eu não”. E eu, ó, por incrível que pareça, três eleições que ele saiu candidato, as três eleições eu apoiei ele de graça, ele nunca pagou uma água pra mim.
P/1 - Esse envolvimento dos moradores com os líderes acaba acontecendo bastante por aqui, né?
R - É, hoje aqui, aqui na Ilha Bela, não muito porque o pessoal, hoje nem acredita mais nisso, agora que tá vindo o pessoal da Rumo, o pessoal que tão querendo… É que aqui na Ilha Bela, o melhoramento tem que ser nas ruas, nas vielas, porque aqui a gente não tem espaço pra nada, aqui a gente não pode montar um espaço pras crianças brincarem, porque a gente não tem um local ideal para isso.
P/1 - Ilha Bela é dentro de Vila Esperança? É um bairro dentro da bairro?
R - É, porque Vila Esperança é Vila Esperança, Sítio Novo, Ilha Bela, Morro do Índio, Imigrantes 1 e 2.
P/1 - Tudo isso é dentro da Vila Esperança?
R - Da Vila Esperança. Todos esses bairros são dentro da Vila Esperança. Então, Vila Esperança é uma cidade, a Vila Esperança, ela elege 2 prefeitos e 5 vereadores, a Vila Esperança hoje não tem um vereador eleito que a gente possa brigar.
P/1 - Tem uma pessoa na Vila Esperança que responde? Alguém que é um poder maior?
R - O Zumbi. Qualquer coisa é o Zumbi, porque ele era da Secretaria Social, hoje ele é da Secretaria de Finanças.
P/1 - Mas se vocês têm algum problema, é pra ele que vocês procuram ajuda?
R - É, é a pessoa mais indicada, porque tem o Jair, que foi eleito, mas ele mora no Caminho 2, então já não faz parte da Vila Esperança. A pessoa mais indicada aqui pra qualquer situação, que tem envolvimento, conhecimento, que sabe conversar, dialogar, é o Zumbi.
P/1 - E aí outros líderes vão existindo, vão chegando, vão sendo formados por aqui.
R - Hoje tem o Cabeça’s Bar, que eu não sei se você já ouviu falar dele, o Cabeça’s Bar que também faz um projeto social com o pessoal ali, onde ele mora, muito legal. Eu acho que só Zumbi e o Cabeça.
P/1 - E tem muito projeto social?
R - Aqui, eu desconheço desse projeto social. Aqui, para nós, aqui, eu falo de Ilha Bela.
P/1 - Na Vila Esperança?
R - Na Vila Esperança, eu acho que lá do Ponto Final, lá do Zumbi, acho que tem muita coisa que ele faz para a molecadinha, projeto de futebol, de curso, não só para a molecadinha, para as pessoas, mas é mais para a parte de lá da Vila Esperança.
Querendo ou não, ele é uma pessoa que... Ele tem um projeto social bonito, o Zumbi. Eu acho que ele só não tá sabendo trazer as pessoas da comunidade pro lado dele, porque ele traz os 4 anos, mas quando chega na reta final ele não consegue, não sei se as pessoas estão desacreditadas, não sei o que acontece, mas o projeto social dele é um projeto sempre, desde o começo, que ele começou, é bom.
P/1 - Você me contou que muitas vezes precisou ir lá bater panela, fechar a via, né? Hoje em dia isso ainda acontece?
R - Não, hoje não mais, porque hoje o pessoal já tem asfalto, já tem água, tem energia, tem internet, então hoje tudo pra se viver bem aqui dentro da Vila Esperança tem, né? Tem creche, tem escola, tem supermercado, tem pão, tem tudo, aqui tem tudo. Então, hoje as pessoas que moram na Vila Esperança, estão bem... Como é que isso eu posso dizer? - Vivem uma vida boa, então, hoje aqui a gente vive no céu, Vila Esperança era caótico, hoje não. Se você pegar uma foto da Vila Esperança há 30 anos atrás e você comparar com hoje, você vai dizer: É outro lugar, totalmente diferente.
P/1 - A melhor coisa que aconteceu aqui, o que foi?
R - Aqui na Vila Esperança? Eu acho que foi a questão das escolas, das creches, porque a creche é quando a gente sai de manhã, deixa o filho e volta tarde, pega o filho e tá tudo bem. A escola é onde eles aprendem, onde a gente educa em casa, mas lá também eles são educados.
Então, as escolas pra mim e as creches é uma coisa assim, essencial. Cabe a nós, pais, saber falar para os nossos filhos: “Vocês têm que estudar e vocês têm que estudar”. E o resto é depois.
P/1 - E assim como você, que veio lá do Nordeste, tem muita gente de todos os lugares aqui, né?
R - Aqui, Vila Esperança, eu estava falando para ele, a maioria das pessoas aqui são migrantes, são nordestinos, então aqui, o Nordeste se encontra aqui na Vila Esperança. É Pernambuco, é Bahia, é Alagoas, é Sergipe, é Ceará. Todos os lugares do Nordeste tem um pedacinho aqui.
P/1 - E tem festas tradicionais do Nordeste aqui? Comida? Vocês mantêm a cultura?
R - Sim. O bar do Cabeça mesmo é comida nordestina, é buchada, é sarapatel, é rabada, é mocotó, é baião de dois, é carne de sol, é queijo de coalho na manteiga, é essas coisas. Todo nordestino, ele tem um pouquinho da cultura. Igual na minha casa, os meus filhos, a única comida do nordeste que meus filhos gostam é do baião de dois, se eu fizer, todos comem. Agora, se eu cozinhar uma galinha, uma rabada, um sarapatel, só é meu esposo que come.
E assim, o meu esposo come aqui, eu fazendo aqui, porque quando a gente viaja pro nordeste, ele não come nada de comida nordestina. É peito de frango e peito de frango, porque até o bife, ele fala que tem gosto de bode. “Fia, pelo amor de Deus”. Até a farofa, ele fala que tem gosto de carne de bode.
P/1 - E o que você gosta daqui? Você gosta de sair? O que você faz pra se divertir?
R - Ah, minha filha, eu sou forrozeira, eu vou pros forró. Eu não gosto muito da praia, né? Mas eu vou de vez em quando tomar caipirinha, água de coco, é bom. Tirar umas fotos e mandar pro Nordeste pra se amostrar, que nordestino é bicho amostrado… E eu não fico atrás, sou assim, tá no sangue. Eu gosto de tomar minha cervejinha no final de semana, fazer meu churrasco, convidar meus filhos: “Hoje a mãe vai fazer almoço, quero a casa cheia”. Meus filhos, minhas noras.
E hoje Cubatão pra mim é minha casa, né? Aqui eu cheguei com 19 anos, hoje tô com 54 e vim pra me encontrar, e graças a Deus, encontrei o Roberto, que mudei ele, que eu tive que mudar e falar pra ele: “Eu sou nordestina, eu não tô aqui de brincadeira. Ou você para e fica, ou você sai e vai”. E ele resolveu parar e ficar.
P/1 - E essa vila aqui representa o que pra você?
R - Essa vila pra mim representa o meu recomeço, essa casa é o meu recomeço. Foi aqui onde eu construí minha casa, comprei meu carro, comprei minha moto, tive os meus filhos. Criei, eduquei, graças a Deus.
Se você sair ali na porta e perguntar quem são os filhos de Ivani, todo mundo vai falar pra você, é uma educação em pessoa, vão dizer: “Ela é uma peste. Porque ela é. Mas os filhos dela são um amor”.
P/1 - Peste por quê?
R - Porque eu sou briguenta, eu brigo mesmo, se eu tiver na minha razão. Então, nessas idas e vindas, nesses empregos que eu arrumei, eu trabalhei 10 anos numa empresa de ônibus aqui no Cubatão. Trabalhei de 2008 a 2018, eu fiz muita amizade e muita inimizade.
Porque eu era fiscal e eu liderava 150 funcionários, e motorista não é fácil de se lidar, e eles iam pra cima e eles me xingavam, e eu xingava, e eu encerrava a ficha e mandava pra casa. Mas, graças a Deus, tudo com dignidade, com raça, com força, com trabalho.
Hoje eu posso falar pros meus irmãos, pros meus sobrinhos: “Cubatão é vida, é qualidade de vida”. Porque aquele lugarzinho que eu cheguei, que era feio, que era horrível, que eu achava que eu não ia me adaptar por isso, por aquilo ou outro, não. Eu encontrei o meu lugar aqui, construí minha vida, minha família e estou aqui até hoje, hoje no Nordeste eu tenho casa própria, que eu já comprei depois que eu estou aqui, meu filho mora em casa minha. Tenho outra casa que minha irmã mora. E se você perguntar, você pretende voltar pra lá? Hoje eu não sei mais, há dez anos atrás eu queria muito, porque eu ainda tinha minha mãe. Hoje é indiferente, porque da mesma forma que eu vivo aqui, eu vou viver lá… Só com a saudade.
P/1 - O que te deixaria saudade se você saísse daqui?
R - Aqui de Cubatão?
P/1 - Não, aqui da Vila Esperança.
R - Da Vila Esperança? Acho que as amizades que eu construí no decorrer do tempo. E se eu chegasse a ir embora daqui, eu só vou embora da Vila Esperança com uma condição, ou se eu ficar milionária e puder…, ou se eu separar do meu marido. Eu creio que isso não vai acontecer nunca na minha vida, porque, além dos meus filhos, ele é tudo que eu tenho hoje, ele é meu alicerce, é meu porto seguro. Eu acho que o amor eu tenho um amor pelo meu pai, muito grande, um respeito, um carinho enorme, pela minha mãe também, mas eles se foram, e eu tirei aquilo ali dos dois, com mais do que eu já tinha, e coloquei nele. E ele hoje pra mim, fora dos meus filhos, é tudo que eu tenho na vida. Tudo. É meu amigo, é meu companheiro, é meu esposo, ele é fora do comum, meu esposo.
P/1 - E vocês tiveram o número 5?
R - A história do número 5 é a melhor, com 43 anos, eu tô deitada, 42. Eu falei: “Amor, eu senti uma fisgada na minha barriga”, era um dia de domingo, eu tava levantando pra ir trabalhar. Ele: “Como assim, filha, uma fisgada?” “Segunda-feira eu vou no médico, acho que eu tô com mioma”. Aí ele falou assim: “Filha, presta atenção, acho que tu tá é grávida” , eu digo: “Tá doido, como é que eu vou tá grávida se as minhas regras tão vindo normal?”. Ele: “Tá bom, então”.
Aí eu fui, aí fiquei com aquilo na cabeça, falei: “Vou passar na farmácia e vou comprar um teste”, aí passei na farmácia e lá fui trabalhar, chegou lá, eu fiz o teste: (apareceram) as duas listinhas rosa… eu: “Ai, meu Deus do céu, uma velha grávida”, só veio na minha cabeça isso, aí eu: “E agora? O que é que eu vou fazer? Como é que eu vou fazer pré-natal? Chegar no posto uma velha de 42 anos grávida?” “Não, não é não”. Aí cheguei em casa, ele tava deitado, era 2 e pouca da tarde, aí eu joguei nele lá, o teste.
P/1 - Você ficou feliz?
R - Não, na hora eu fiquei... eu não tive reação, sabe por quê? Você vai entender por quê. Aí ele ficou todo bobo, porque na cabeça dele era uma menina, já tinha 2 meninos, queria uma menina. Aí eu falei: “Amor, segunda-feira eu vou marcar um ultrassom pra mim ver”. Porque eu toda vida fui gordinha, né? Aí fui, marquei o ultrassom, duas e meia da tarde fui. Cheguei lá, o médico da ultrassom: (Vendo) Mãozinha, pezinho, não sei o que lá… e eu lá dura.
Aí ele falou: “Mãezinha, a senhora tá com 26 semanas e meia de gestação”, 6 meses e meia de gestação eu tava. Aí eu: “Ah!” Ele: “Quer saber o sexo?” Eu falei: “Não, não quero saber nada não, moço”, aí ele: “Como assim?” Eu digo: “Eu nem sabia que eu tava grávida, eu descobri ontem”. Ele: “Como assim?” Eu digo: “Eu tô menstruando esses 6 meses e meio que cê tá falando aí. Normal, nunca enjoei, eu nunca senti desejo de nada, eu nunca vomitei, eu nunca senti nada em relação à gravidez, foi os 6 meses que eu mais tomei cerveja e comi churrasco na minha vida”.
Aí eu falei: “É”, ele: “Então, essa vai ser a gravidez mais rápida da sua vida. Você tem 2 meses e meio pra você fazer 9 ultrassons e 9 consultas”. E eu digo: ”É né? Ainda bem que eu tenho convênio”, falei pra ele. Aí foi. Fui fazendo 1 ultrassom por semana, 2 consultas por semana, e aí quando foi 40 semanas, eu não tinha comprado nada pra essa criança, fui fazer uma ultrassom na Unimed, um doppler e o meu esposo foi comigo. E eu, crente que era uma menina, toda contente, o barrigão, aí, quando rodou, o médico falou assim pro meu esposo: “Parabéns, papai, mais um flamenguista”. Eu desabei em lágrimas e chorava, a ele perguntou pra mim: “Ela tá emocionada?” Ele: “Não, ela tá com raiva, porque ela queria uma menina”. Aí, saindo de lá, fomos direto pra loja pra fazer o enxoval do Davi, aí está Davi Lucas Nascimento, 11 anos. (Eu com) 43 anos, foi um parto difícil pela minha idade, e ele deu 2 paradas cardíacas na barriga.
P/1 - Antes de nascer?
R - Antes de nascer, a sorte que os anjos que Deus enviou aquele dia no Hospital São Lucas de Santos fizeram acontecer, a minha pressão foi pra 19 por 17, muito alta e eles tinham que fazer uma cesariana urgente. “E quem tu salva? Tua esposa ou teu filho?” “Minha esposa”, digo: “Não, meu filho”.
Aí minha filha tava lá, foi comigo, aí ela falou: “Não, tem que fazer o que a minha mãe quer”, aí foi, assinou. Eles demoraram 4 minutos pra tirar o Davi da minha barriga, 4h, às 4:05h que ele nasceu, 16:05 da tarde.
Nasceu da cor dessa caixa de som, aí foi pra incubadora, aí depois foi tomar banho de luz e... Foi todo aquele processo, aí teve que fazer acompanhamento durante um ano, pra ver se não ia ter problema de audição, se não ia ficar alguma sequela. Depois foi que veio a vista, né? Mas tirando isso aí...
P/1 - O que veio na vista?
R - Ele, a vista, ele é... Esses problemas de vista, eu acho, ela falou que é devido ao banho de luz que ele tomou, essas coisas. Mas tirando isso, graças a Deus, está aí. Pulando, saltando, daqui a pouco está me dando é neto.
P/1 - Então hoje ele está com quantos anos?
R - 11
P/1 - 11.
R - Onze anos.
P/1 - É a raspa do tacho.
R - É. É que eu nunca evitei, né? Eu não evito. E eu não sou operada, eu não sou nada, e tenho uma vida ativa. Então... Deus sabe que não é, né? Agora é 54, não dá, né? Nem pode, nem dá e nem pode.
P/2 - E se vier outro?
R - Deus é mais. Não vem, não. A minha máquina, Deus fechou.
P/1 - Ivani…
P/2 - Mulher! Porque 54 ainda dá, viu!
R - Não dá, porque é tudo... Aqui não tem... Eu não sei o que acontece na minha vida que nada vai embora, tudo continua no lugar. E assim vai. Mas eu quero... Agora é a hora dos filhos trazerem os netos.
P/1 - Hoje você tem quantos netos?
R - Tenho só uma.
P/1 - Uma?
R - Minha Maria Lívia. Tem um 1 e 4 meses. Do meu Kennedy. Da minha benção.
P/1 - Como é ser avó?
R - Ah, ser avó é ser mãe duas vezes. É reviver tudo aquilo que você viveu há 11 anos, aí vem 11 anos, 25 anos, 29 anos, 33 anos e 34. É bom demais ser avó. Só que eu passei uns perrengues quando minha neta nasceu, que foi a época de separação do meu filho. E a mãe não deixava ver, não deixava pegar, chorei bastante. Sofri bastante, mas a vitória veio hoje. Amanhã, inclusive, vou buscar ela, né?
P/1 - Como é que tá a sua vida hoje em dia?
R - A minha vida hoje é assim, eu sempre gostei de trabalhar, eu sempre fui uma mulher independente. Independente de qualquer coisa, a minha independência é em primeiro lugar. Eu tive meus filhos, eu nunca deixei meus filhos com ninguém pra mim sair de casa enquanto eles eram pequenos, não saía pra lugar nenhum, era cuidar deles.
Porque eu acho que mãe é isso, é cuidar, e hoje a minha vida continua sendo de batalhar. Durmo tarde e acordo cedo, tem dia que eu levanto 3h da manhã, o meu esposo, hoje, ele trabalha solo, ele trabalha pra nós. Ele trabalhou muitos anos em padaria dos outros, hoje a gente tem o próprio negócio da gente.
P/1 - É uma padaria?
R - Não, ainda não, mas vai ser em breve, o meu marido entrega salgados e assados, pra padaria, lanchonete, restaurante, pra sua casa, pra sua festa. Além disso, eu trabalho fora, como a gente tem entrega pra fazer, tem vezes que ele levanta todo dia 3h da manhã. Porque o nosso salgado, entrego fresco, a gente faz recheio agora, a massa agora, o forno agora, e a entrega sai quentinha pra nossos clientes.
P/1 - Vocês cozinham no estabelecimento de vocês?
R - É. E ele tem 7 anos que ele trabalha pra ele, e aí o pessoal fala: “Mas pra que tu trabalha fora?” eu respondo: “Porque eu não consigo trabalhar com ele. Porque ele é muito chato pra trabalhar com ele”. Ele é muito mimizinho, detalhista, esse negócio, ele pensa... Eu não, eu sou porra louca, eu chego aqui, eu faço a massa, eu modelo o salgado, eu ponho no forno, eu tiro, eu embalo e já vou embora, enquanto ele ainda tá pensando a fornada que ele vai tirar, então, eu vou por parte dos salgados fritos, coxinha, risoles, esse negócio, é tudo eu. E ele dos assados, esfiha, blê, blê, blê. Aí eu deixo ele no momento dele, né? Acaba o meu, eu venho pra casa descansar, ele fica lá. Aí, 2h, ele chega em casa.
Mas a minha vida hoje, graças a Deus, está estabilizada, mesmo trabalhando, mas, graças a Deus, eu tenho uma vida estabilizada, meus filhos estão bem, graças a Deus, que em primeiro lugar eles, eles estando bem, eu vou estar ótima.
P/1 - Você se sente segura hoje aqui?
R - Sim. Porque hoje assim, a referência de família está aqui ao meu redor, não está aqui comigo dentro de casa, mas se eu gritar, eles vão escutar, que são meus filhos, né? Eles, pra mim, é... Eu sou aquela mãezona coruja, aquelas que eles gritam assim: “Mainha” “Tá aí” O pai é mais... Eu não, meu filho, pra mim, é a minha vida. Hoje eu tenho a minha neta, a minha neta é reviver, é revigorar, é renascer.
Eu vejo na minha neta... Hoje eu vejo em ela tudo aquilo que eu não vi na minha filha, porque tive que deixar ela lá pequena e vir pra cá, então, a minha neta hoje é minha estrutura, minha base, meu renascer, sabe? E por incrível que pareça, ela puxou todinha a nossa família, os traços, ela tem tudo do pai dela, a cor, o jeito, tudo, tudo, tudo, graças a Deus.
Hoje eu posso dizer pra vocês que eu sou uma mulher realizada, aqui na Vila Esperança eu encontrei o meu alicerce, o meu bem-estar. Eu nunca imaginei na vida que eu ia no supermercado de carro, chegar lá, estacionar meu carro, entrar dentro do mercado, fazer minha compra, voltar, botar dentro do meu carro e vir pra minha casa. Eram coisas que lá atrás eu jamais... Eu vi acontecer com os outros, mas eu pensava que nunca ia acontecer comigo, e aqui na Vila Esperança aconteceu.
Eu posso falar pra vocês, eu sou petrolinense? Não. Eu nasci em Petrolina, hoje eu sou cubatense, nascida na Vila Esperança, porque foi na Vila Esperança onde eu encontrei o meu marido, onde eu o vi pela primeira vez, foi na Vila Esperança onde eu construí minha casa, comprei meu carro e construí minha família, então hoje eu não quero mais nada.
P/1 - Tem sentimento por esse lugar, não tem?
R - Tenho, só viver e contar minha história, porque eu acho que dormir na rua, trabalhar na feira, vim de carona, foi o mínimo, se eu tivesse que fazer, eu faria tudo de novo. Tudo. Arrumar amigos, inimizades, porque a gente não tem inimigos, né? Pessoas que gostam, pessoas que não gostam, e assim a gente vai vivendo. Dessa forma que a gente constrói a nossa vida, a nossa história.
P/1 - O que esse bairro te ensinou de principal?
R - A ser humilde. E foi difícil pra mim, porque eu... Falar a verdade... Até hoje o meu filho fala que eu não sou, o meu filho, a minha filha aí. Mas humildade não é você andar de pé no chão, sujo e rasgado. Humildade pra mim é você saber ajudar o próximo, é você conquistar o próximo, é na hora que ele precisar, você tá ali. Então, eu sou assim, eu não dou nada pra receber em troca, eu dou, e pra mim tá tudo certo. Porque na hora que eu te ajudar, eu vou ver o sorriso no teu rosto e vou saber que tu tá feliz.
Olha, ontem aconteceu um fato com a irmã do meu esposo, essa irmã do meu esposo foi a que trouxe todos eles da Bahia pra cá, ela tinha vida boa, uma vida ótima. Era a rica da família, aquela que morava no 31 de março, numa casa boa, que tinha carro, marido bom, tinha empregada, ela tinha a vida que pediu a Deus, como se diz assim.
Hoje, ontem à noite, nós estávamos deitados, ela ligou, pedindo, pelo amor de Deus, pra gente ir na casa dela, a gente foi, hoje eles são em oito irmãos, hoje ela é a menos que tem condições de vida. E tá vivendo uma história muito triste, e eu falei pra ela, ontem eu falei pra ela: “A minha porta tá aberta pra vocês. Por tudo que você fez, pros seus irmãos e até pra mim, quando eu cheguei aqui”, que eu (a) conheci ela. E ela, pra mim, é uma pessoa de coração gigantesco… Deu umas cabeçadas na vida e hoje tá pagando preço, mas eu não desejo que ela tá passando por meu pior inimigo. Mas tô aqui, eu, meu esposo, estamos aqui de portas abertas pra acolher ela a qualquer hora.
P/1 - Foi isso que você recebeu muitas vezes, é isso que você oferece?
R - Exatamente. A gente só dá o que a gente recebe, e eu fui, eu recebi muito acolhimento aqui de pessoas que eu nunca tinha visto na vida. Eu fui bem acolhida por ela, pelo ex-esposo dela, pelos filhos, deles todos, dos meus cunhados, tanto as meninas como os meninos.
E os filhos deles hoje me chamam de tia, eles me respeitam mais do que o próprio meu esposo, que ao tio deles disse ainda, entendeu? Então, é a família que me acolheu. Então, a família que eu tenho hoje são eles, e o que eu puder fazer pra ajudar, eu vou fazer. Porque eu sei como é bom você chegar num lugar onde você não conhece ninguém e você ser acolhido.
P/1 - Ivani, você se sente pertencente à Vila Esperança? Você se sente em casa por aqui?
R - Sim. Muito. Se você perguntar pra mim: “Ivani, tem algum outro lugar que você queria morar em Cubatão que não fosse a Vila Esperança?” Eu ia falar pra você que tem, mas é aqui na Vila Esperança que eu pude me encontrar e dizer que sou da Vila Esperança. “Ah, você mora onde?” “Não. Eu moro na Ilha Bela”, onde é a Ilha Bela? No Guarujá?” “Não”... Ilha Bela é na Vila Esperança.
É na comunidade, eu sou povão. Eu gosto de forró, eu vou olhar as meninas dançarem funk. Depois que eu tomo umas até funk eu danço, e é assim, eu vivo assim… Trabalho a semana toda, e no final de semana que eu posso sair com meu marido, com meu filho, eu vou sair, eu vou me divertir, eu vou... Vou ficar com o povão ali na rua, batendo papo, conversando, jogando conversa fora. Eu sou assim, eu sou povão.
P/1 - Quando você anda pelo seu bairro, o que que passa pela sua cabeça?
R - Às vezes eu fico imaginando... Às vezes eu saio daqui assim, eu tenho uma colega minha que mora lá nos fundos, ela ganhou neném nesses dias, eu fico andando aqui e fico pensando: “Meu Deus, como era isso aqui, como tá hoje” Porque quem chegou aqui há 5 anos atrás, há 10 anos atrás, já encontrou do jeito que tá, não tem o que contar.
Nós atravessava, nós saía daqui, tinha um homem que ele tinha um barco, o irmão do meu marido, ele tinha um barco, ele colocava, ele ganhava dinheiro pra atravessar as pessoas lá pra principal, porque quando a maré enchia, alagava tudo… As ruas, as vielas, tudo, tinha que ir de barco, pra não se sujar, pra não chegar com o tênis molhado no serviço, e hoje, não. Até ônibus vem aqui, passando aqui no Torre Forte, vem ônibus, pega na avenida, desce aqui, tá na porta de casa. Hoje, Vila Esperança é uma cidade de primeiro mundo, uma cidade de primeiro mundo, porque aqui era a cidade do terror. Por tudo, era os barraquinhos de palafita, era energia, era escuridão, era tiroteio, era bala. Hoje tem, mas é tudo... Ninguém mexe com ninguém, cada um na sua e pronto, então, hoje eu me sinto uma mulher realizada.
Só tenho a agradecer, só agradecer por tudo. Todo dia eu agradeço a Deus, acredita? Todo dia eu peço pelos meus e por todos. Pelos meus vizinhos, por todos. Que Deus continue abençoando grandemente.
P/1 - Você ainda tem um sonho?
R - Eu acho que hoje, se Deus me levasse hoje, eu ia ser uma mulher realizada. Até aqui, Deus me abençoou e eu não sonho muito mais, não. Até aqui tá…
Claro que eu não quero morrer, né, gente? Quero viver desse jeitinho por muitos e muitos anos. Mas a realização da minha vida é a minha neta, a minha Maria.
Se essa entrevista fosse amanhã, ela estaria aqui, é por ser… além de ser minha neta, é uma menina, porque eu só tenho uma menina, né? Agora eu tenho duas meninas. E pra mim tá tudo bem.
P/1 - Você imaginaria que aquela menina que nasceu lá em Pernambuco ia construir toda essa história, ter 5 filhos, e tá aqui na nossa frente contando tudo isso?
R - Não. Quando os meninos...
[Intervenção] Foi tu e ele, né? Chegaram. Eles já queriam começar a gravar dali, né? Eu com a mesa cheia de cebola, de tomate, de pepino, de repolho. Eu falei: “Não, gente, assim não dá. Por favor, né? Deixa eu tirar a touquinha vermelha da cabeça e vamos marcar outro dia”.
E Vila Esperança é um sonho realizado, e eu faço parte desse lugar, da Vila Esperança. Aqui foi onde eu consegui tudo, aqui foi onde eu terminei meus estudos. Aqui foi onde eu consegui me estabilizar, porque tinha que ser aqui, na Vila Esperança.
P/1 - No começo da nossa conversa, você falou “eu não gosto daqui” e eu tô ouvindo essa história toda linda aqui que você tá me contando.
R - Quando eu cheguei aqui, eu não gostava não, gente. Eu demorei, demorei bastante pra me adaptar. Porque, assim, você conhece Petrolina, você mora 20 anos em Petrolina, aí você cai de paraquedas na Vila Esperança.
Aí você tem a visão: aqui Petrolina e aqui Vila Esperança. Aí você vai tirando, você vai esquecendo, Aí vai sumindo. E hoje Petrolina só vive, o nome Petrolina, porque a tua vida inteira é Vila Esperança. Então hoje, pra mim, a Vila Esperança é minha terra natal, a cidade que eu construí, que eu ajudei a construir. É aqui onde eu tô hoje. Com meus filhos, com meu esposo e com meus amigos.
P/1 - Valeu a pena?
R - Muito. Demais. Talvez se lá atrás meu pai não tivesse deixado eu vir, eu não estaria contando e nem... Ou talvez não tivesse nada pra contar, então, hoje eu conheço que é muito bom viver aqu na Vila Esperança. Quando eu não tô trabalhando, por incrível que pareça, a coisa mais difícil que tem, é eu ir no centro da cidade, porque aqui na Vila Esperança, tudo que tu quer, tu encontra. Tudo. Então, viver aqui tá bom demais.
P/1 - Que bom ver o crescimento, né?
R - E o projeto que tem, minha filha, é pra melhorar mais ainda.
P/1 - É?
R - Muito mais. O projeto da construção da Vila Esperança, da urbanização, é muito bonito. É urbanização, é parque, é muita coisa. Só vivendo pra ver acontecer. Porque é bonito o projeto.
P/1 - Esse projeto, ele já tá acontecendo?
R - Já. Ele já deu início, começou ali, pela Vila Natal, e agora acho que tá lá pro lado da Imigrança 2, que é de urbanização, de retirada de umas... pra abrir ruas, aí fazer praça, fazer parque. Então, eu creio que em breve vai ser uma nova Vila Esperança. E eu vou estar lá, em algum lugarzinho, se me procurar, vai me achar.
P/1 - Isso aí, tem alguma história que você viveu aqui dentro que pra você é muito importante contar que a gente não falou?
R - Tem uma coisa que aconteceu comigo, eu tava grávida de 8 meses do meu filho, do Wallace, o número 4. E eu tinha uma consulta, meu esposo tava dormindo e eu saia ali fora pra levar o lixo. E tinha um moço que morava aqui que ele gostava muito de brincadeira, e ele tirou uma brincadeira comigo, tipo que ia correr atrás de mim, e eu tropecei e caí… Barrigão… Caí por cima da barriga, aí ele ficou apavorado, morrendo de medo do meu esposo. Aí me pegou, botou no carro e levou pro hospital, os olhos desse tamanho. Até hoje quando eu encontro ele, que eu conto essa história ele dá risada, aí chegou lá, passei pelo médico, o médico falou que tava tudo bem, que como eu caí pra frente, a bolsa protegeu o neném, se eu tivesse caído de costas, talvez não tivesse acontecido isso. Então, foi uma coisa que aconteceu na minha vida que, assim, ficou marcado, toda vez que eu vejo ele, eu lembro disso que aconteceu.
E a coisa que mais marcou a minha vida foi o dia que eu conheci meu esposo, eu chegando de viagem e encontrando ele, morava na mesma viela que eu vim pra ficar. Então é uma coisa assim que eu falo assim: “É porque tinha que acontecer, tinha que ser ele”.
Eu falando é a mesma coisa de eu estar revivendo aquele momento, e graças a Deus, agradeço a Deus, e peço muitos anos de vida pra ter mais histórias pra contar juntos, porque eu acho que ele... Olha, eu vou te falar uma coisa, não tenho nem palavras pra classificar o meu esposo, ele é tudo de bom na minha vida. Tudo. Tudo. Bom marido, bom pai, bom tudo, bom moço. Se você sair ali na rua e perguntar, o que você acha do Roberto? Todo mundo vai dizer, “nossa, Roberto é sem palavras”. É tudo de bom. Tudo de bom e mais um pouco.
P/1 - Como é que foi contar pra gente as suas histórias hoje? Você falou que reviveu.
R - Eu revivi toda a trajetória, de 1995, quando eu cheguei aqui até hoje, e reviver, relembrar é viver, né? Momentos bons, momentos não tão bons, mas reviver faz parte. E eu só tenho a agradecer a vocês. Os meninos que caíram assim, naquele dia eu faltei no serviço, tinha que ser eu.
Aquele dia faltei no serviço pra fazer um serviço extra que eu ia ganhar mais do que o que eu ganho por dia no meu serviço, que é uma festa que acontece aqui no bairro, que é o Encontro dos Botequeiros, é toda segunda-feira. E nessa segunda, que eu conheci os meninos, ia acontecer aqui, no Bar do Baixinho, e foi ali que eles falaram, e a gente começou a conversar e aconteceu, né?
P/1 - Tinha que acontecer.
R - Tinha que acontecer.
P/1 - Como é que tá seu coração agora?
R - Tá assim, acelerado, meu marido tava até com medo de eu dar essa entrevista. Ele falou: “Fia, tu não vai aguentar”. Eu digo: “Aguento sim, eu vou ficar calma”. Porque é difícil, tem coisa que a gente lembra e chora porque não foi bom. Tem coisa que a gente lembra e chora porque foi muito bom. E nós somos seres humanos e a gente tem que viver todas essas coisas, uma coisa de cada vez. Um degrau, um passo pra trás pra dar cinco pra frente. E assim a gente vai viver na vida. E essa é a minha história. A minha vida aqui na Vila Esperança.
P/1 - Obrigada. Sua neta vai poder ver (a entrevista) quando ela crescer, teu filho, teus filhos, todo mundo. Essa história vai ficar lá guardadinha.
R - Obrigada por essa oportunidade. Só tenho a agradecer.
Recolher