Projeto Memórias da Vila Nova Esperança
Entrevista de Maria Edite Oliveira
Entrevistado por Lucas Torigoe (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, dia 22 de outubro de 2025
Entrevista código: MVE_HV003
Transcrita por Miriam Allodi
Revisada por Nataniel Torres
P/1 - Dona Edite, para começar, qual é o seu nome completo, que cidade você nasceu e que dia e ano foi?
R - Meu nome é Maria Edite de Oliveira, nasci no dia 5 de novembro de 1954, na cidade de Penedo, em Alagoas.
P/1 - Legal. Como foi esse seu nascimento? Contaram para você?
R - Não, não me falaram bem, eu nasci na cidade, na maternidade, assim minha mãe me conta, depois que eu nasci, dias depois, eu fui morar no interior, num lugar com o nome de Malhada, depois, eu já, a mocinha, voltamos pra cidade e depois a gente foi morar num lugar com o nome de Capela, que eu vivi até os meus 25, meus 30 anos.
Eu já era mãe de dois filhos, aí foi quando eu me casei e vim morar em Aracaju, aí morei lá um tempo, depois meu outro filho já estava rapazinho, depois foi que eu vim para Cubatão em 2006.
P/1 - Você fala um pouquinho da família da sua mãe? Eles são de onde?
R - Todos somos de Alagoas, tanto meu pai, meu pai quando a minha mãe se casou, o meu pai tinha 40 anos e a minha mãe tinha 15 anos, ela foi mãe de 10 filhos, morreram 5 e tem 5 vivos. E depois disso, meu pai faleceu, a minha mãe ficou com nós 5 e eu não tenho feição do meu pai, porque o meu pai faleceu, eu tinha de 5 a 6 anos, ele morreu em 1961, meu irmão Caçula não chegou a conhecê-lo, e eu não tenho muito a feição dele, nós somos três mulheres e dois homens e fomos criados por minha mãe.
P/1 - Qual é o nome completo dela?
R - A minha mãe é Honorina Nogueira dos Santos.
P/1 - E ela viveu muitos anos?
R - Viveu, ela morreu já aqui, ela faleceu com 81 anos, ela vai fazer 19 anos de falecida.
P/1 - E como é que você lembra dela quando você era criança?
R - Olha, eu... A minha vida com a minha mãe...
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Entrevista de Maria Edite Oliveira
Entrevistado por Lucas Torigoe (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, dia 22 de outubro de 2025
Entrevista código: MVE_HV003
Transcrita por Miriam Allodi
Revisada por Nataniel Torres
P/1 - Dona Edite, para começar, qual é o seu nome completo, que cidade você nasceu e que dia e ano foi?
R - Meu nome é Maria Edite de Oliveira, nasci no dia 5 de novembro de 1954, na cidade de Penedo, em Alagoas.
P/1 - Legal. Como foi esse seu nascimento? Contaram para você?
R - Não, não me falaram bem, eu nasci na cidade, na maternidade, assim minha mãe me conta, depois que eu nasci, dias depois, eu fui morar no interior, num lugar com o nome de Malhada, depois, eu já, a mocinha, voltamos pra cidade e depois a gente foi morar num lugar com o nome de Capela, que eu vivi até os meus 25, meus 30 anos.
Eu já era mãe de dois filhos, aí foi quando eu me casei e vim morar em Aracaju, aí morei lá um tempo, depois meu outro filho já estava rapazinho, depois foi que eu vim para Cubatão em 2006.
P/1 - Você fala um pouquinho da família da sua mãe? Eles são de onde?
R - Todos somos de Alagoas, tanto meu pai, meu pai quando a minha mãe se casou, o meu pai tinha 40 anos e a minha mãe tinha 15 anos, ela foi mãe de 10 filhos, morreram 5 e tem 5 vivos. E depois disso, meu pai faleceu, a minha mãe ficou com nós 5 e eu não tenho feição do meu pai, porque o meu pai faleceu, eu tinha de 5 a 6 anos, ele morreu em 1961, meu irmão Caçula não chegou a conhecê-lo, e eu não tenho muito a feição dele, nós somos três mulheres e dois homens e fomos criados por minha mãe.
P/1 - Qual é o nome completo dela?
R - A minha mãe é Honorina Nogueira dos Santos.
P/1 - E ela viveu muitos anos?
R - Viveu, ela morreu já aqui, ela faleceu com 81 anos, ela vai fazer 19 anos de falecida.
P/1 - E como é que você lembra dela quando você era criança?
R - Olha, eu... A minha vida com a minha mãe foi boa, graças a Deus, minha vida... A minha mãe foi, pra mim, ela foi boa. Toda mãe, ela tem que dizer sim e não, nós, como somos crianças, sempre queremos não obedecer, o que eu tenho de miudinha, eu fui desobediente, então eu apanhei um pouquinho da minha mãe. Ela não me batia muito porque eu tenho problema de coluna, então ela achava… Que eu não apanhei tanto quanto os outros, mas quando ela estava com raiva, ela trancava nós todos no quarto e batia em nós todos de uma vez, quem merecesse, quem não merecia, era assim que ela criou nós cinco.
P/1 - Então você fez os seus irmãos apanharem muito, é isso? [risos]
R - Mais ou menos, um pouquinho, eu fui quem menos apanhei e meu irmão caçula, porque quando meu pai morreu, ele tinha... faltavam oito dias pra ele completar um ano, então, ele tava engatinhando ainda, então, ele nunca apanhou.
Assim, apanhou já depois de grande, mas era assim, foi bom a vida, depois, a gente criamos na roça, trabalhando na roça, e minha mãe sustentou a gente depois que o meu pai faleceu, trabalhando de roça.
P/1 - Plantavam o que?
R - A gente plantava milho, arroz, mandioca, aipim, como vocês chamam aqui, é pra gente, macaxeira, é tudo, arroz, tudo a gente plantava. E eu como eu sempre fui humilde demais, eu sempre fui pra roça, eu nunca gostei muito de estar em casa, então a gente sempre foi de andar na roça, mas quando eu era pequena, eu ficava mais com meu irmão caçula pra minha mãe trabalhar. Então, tinha os três maiores, que eram o Josias, a Creuza, minha irmã, que foi a mais velha, e a Helena, eu e o Francisco, o Francisco era o caçula, era o mais novinho, então, eu ficava com ele para os outros trabalhar, e foi assim.
P/1 - E vocês tinham bicho também? Criavam ou não?
R - Não.
P/1 - Galinha nem nada?
R - Só galinha no quintal, pouca coisa, eu criava essas galinhas todas, porque também onde a gente, quando de certa idade, a minha mãe passou a morar na cidade, e aí era que a gente não tinha mais. Aí depois a minha irmã casou, aí casaram tudo e só ficou eu, mas depois a minha mãe veio pra cidade, e a gente ficou na cidade de Penedo mesmo, aí de lá pra cá, depois eu me casei, e voltei para... aí fui morar em Aracaju, morei um tempo em Penedo, vim para Aracaju, eu tenho dois filhos e moro com um neto.
P/1 - Vamos falar um pouquinho mais dessa sua vida na roça, então. Como é que era o dia-a-dia de vocês?
R - Era maravilhoso, viu? Não me queixo dos dias que eu vivo hoje, mas, para mim, viver na roça foram os melhores momentos, para mim, da minha idade, do meu tempo, não tinha essa violência que nós temos hoje, para mim, a roça foi boa. A gente plantava, comia do que a gente colhia, a gente comia da roça, maxixe, quiabo, abóbora, tudo isso a gente tinha na roça, então, a gente cozinhava na roça, depois que o meu pai faleceu, a minha mãe ficou e a gente sempre continuamos trabalhando na roça, e para mim, foi um dos melhores momentos, ah se eu pudesse voltar esse tempo, eu bem que voltaria, se eu pudesse hoje voltar para a roça, eu voltava.
P/1 - Por quê?
R - Porque eu gosto, eu gosto de mexer com a terra, gosto de plantar, eu gosto de ver, eu gosto de colher aquilo que a gente plantou, porque não existe coisa melhor, gente, do que você colher o que você plantou. Coisas boas, sabe? Você colher um pé de feijão, aí você vai lá, você tira, você quer comer hoje, você vai lá, você tira, você... Não tem coisa melhor, a batata, batata doce, abóbora, inhame, tudo isso eu plantei, tudo isso a gente tirava na hora que queria comer, era só ir lá e comer, tranquilo, não tem coisa melhor.
P/1 - O que você mais gostava de comer nessa época que você plantava?
R - De tudo, de roça, de verdura, de fruta, eu gostava de tudo, manga tiradinha do pé, que eu gostava de subir no pé da mangueira e ia comer, chupar manga lá em cima no olho da mangueira, é, eu gostava, é muito bom a gente morar na roça.
P/1 - E vocês trabalhavam, mas vocês brincavam também?
R - A gente brincava, claro, estudava também, viu? Não era só roça, não. Porque antigamente as escolas eram longe, olha que a gente andava a pés pra ir pra escola, mas a gente ia, mas quando a gente chegava, a gente ia. Era uma coisa que a minha mãe sempre pedia, era a gente ir pra roça, trabalhar e também estudar, ela nunca deixou a gente… Se a gente não aprendeu a ser alguém com bastante estudo, não foi por falta de que a minha mãe não fosse assim, não, eu mesma ia pra escola, mas lá eu me juntava mais às outras amigas, faltei muito à aula.
P/1 - É? Vocês saíam pra fazer o quê?
R - Ah, brincar, correr, depois que eu fiquei mocinha, ia pros forró, ia dançar, e isso aí… vixe Maria, quando a minha mãe descobriu, meu Deus, era uma surra que a gente levava, era uma surra. A gente fugia pela janela pra ir pro forró, a surra, quando eu chegava, a surra tava certa.
P/1 - Ela castigava vocês de que jeito?
R - Não, ela só batia, hoje os pais não podem bater mais nos filhos, mas antigamente a gente apanhava, eu, como sempre, ela não gostava de bater na minha coluna, eu apanhava mais as coitadas das minhas pernas, era quem se via, com o cipozinho do mato, eu não sei, eu acho, não sei se vocês conhecem o mato com o nome de Cambuí, que ela é muito cheia de perninha, de coisinha. Ela tirava um cipó e tirava toda a folha do cipó.
P/1 - Ardia?
R - Ixi, Maria, ardia muito.
P/1 - E que problema você tem nas costas? Como é que foi que você descobriu isso?
R - Não, a coluna foi assim, eu nasci perfeita, a minha mãe falou que eu nasci perfeita. Mas, quando eu comecei a andar, aí eu comecei chorando, comecei a chorar, chorar, chorar, talvez se fosse no mundo, na época de hoje, eu não tivesse ficado como eu fiquei, porque a minha coluna, no lugar dela estirar, ela encolheu, e ela formou um caroço nas minhas costas, mas, como antigamente não tinha a medicina que tem hoje, talvez se fosse hoje, eu não tivesse ficado assim. Tanto que quando eu vou passar pelo ortopedista, pelo especialista, eles dizem: “Mas a senhora não quer mexer, não?” “Hoje eu não quero mais, não, hoje deixe ela como está”. Se fosse antes, na minha época, que eu nasci em 1954, era outra coisa, que eu era criança, podia... Mas hoje mais, digo: “Não, meu filho, não quero mais, não. Hoje deixo do jeito que está”. Eu faço tudo, na minha época de mocinha, eu andava a cavalo, eu corri atrás de gado na fazenda que a minha irmã morava, eu corri atrás de gado no lombo do cavalo, sem nada em cima, só eu mesmo, eu sempre fui miudinha, mas fui danada, viu? Eu montava, eu fazia tudo.
P/1 - Pra que mexer?
R - Ela nunca me incomodou, agora, depois que eu velha, pra que eu vou mexer nessa coluna? Pra fazer o quê? Não, deixa ela aí mesmo, quer tentar me ofender de nada, eu faço de um tudo o que eu quero fazer, quer dizer, hoje, por causa da idade, eu tenho mais algumas limitações, mas, graças a Deus, eu faço de tudo, não é?
P/1 - Agora, nessa época ainda na roça, antes de você ir para a cidade, o que mais te marcou assim? Teve algum dia que você lembra mais, quando você para para pensar nessa época?
R - Não, quando eu penso na minha época passada da roça, eu penso em tudo.
P/1 - Tem um dia específico?
R - Não, não tem um, sabe por quê? Porque assim, tudo na roça da gente é uma coisa só, é na casa de farinha, é arrancar mandioca, é ralar mandioca, é puxar, é a gente cevando mandioca e os homens puxando, então, eu quando lembro, eu lembro de um tudo, foi os melhores bom, maravilhoso momento quando a gente tá na roça, quer dizer, pra mim, tem gente que não gosta, mas eu mesmo gostava muito da roça.
P/1 - E você, Dona Edite, você era mais próxima de algum irmão específico que tava sempre do seu lado?
R - Não, eu mesmo, o único irmão que ficava mais do meu lado é o Francisco.
P/1 - Você cuidava dele?
R - Porque ele era o caçula, eu mesmo só, eu fui quem mais cuidei dele, depois que eu saí de casa, foi que ele já era rapazinho, ficou com a minha mãe, mas sempre, e até hoje, a gente somos mais unidos, o Francisco, porque ele era o caçula, foi com quem mais eu convivi dentro de casa, porque os outros só viviam saindo, pulavam, saíam para lá, para cá, iam trabalhar. Depois casaram todo mundo, e aí pronto, mas eu mesma, a convivência mais perto é mais do Francisco, dos meus irmãos homens, só.
P/1 - E qual é a diferença de idade entre vocês?
R - Ah, eu nasci em 1954 e ele nasceu em 1961.
P/1 - Você tinha 7 anos quando ele nasceu, então, mais ou menos.
R - Mais ou menos isso, foi a época que o meu pai morreu, aí quase a idade dele é a idade que meu pai tem de falecido.
P/1 - Você não lembra nada, nada, nada do seu pai?
R - Do meu pai, não, não tenho feição nenhuma, nem foto antigamente não se tirava. Fosse hoje não, hoje tem bastante foto, a pessoa tira foto, tem tudo. Mas hoje mesmo, quase não tem, não tem foto.
P/1 - E perto da sua casa, existiam parentes de vocês? Primo, tio, tia?
R - Aonde?
P/1 - Lá na roça.
R - Tinha a família da minha mãe e a família do meu pai, tinha a tia Vestilina, a tia Maria, que era a irmã do meu pai, casada com o finado Juventino, tinha a minha avó, que é parte da minha mãe, viúva também, que o meu pai, meu avô morreu antes da minha mãe se casar. É que disseram: “Pra que a senhora se casou?” Uma pessoa com 15 anos, casar com um homem de 40 anos, digo: “Meu Deus, não tinha homem mais, não, minha mãe?” Pois, ela ficava danada comigo, eu digo: “Porque se fosse eu, não tinha casado, não” ela “porque antigamente os filhos tinham respeito, a palavra do pai era isso e isso”, ele morreu, deixou um novilho pra fazer o casamento dela com o meu pai. Eu digo: “Pra que a senhora casou se ele não tava mais vivo?” Aí ela disse: “Ah, mas a palavra… a minha mãe tava” então tá bom, porque se fosse eu não tinha casado, não.
P/1 - Só pra entender, ela casou mesmo com uma pessoa morta, é isso?
R - Não, o meu avô foi quem morreu.
P/1 - Ah, tá.
R - Quem tava vivo era o meu pai, só que o meu pai casou com 40 anos, era viúvo, e a minha mãe tinha 15 anos, e aí, eu não casava, não! só porque meu pai queria que eu me casasse com aquela pessoa, sem eu nunca ter visto... Ela, depois que casou, ela passou oito dias na casa da minha avó, pra não ir dormir mais ele, imagina…
P/1 - Mas ela fala... O que ela lembra do seu pai?
R - Quem? A minha mãe?
P/1 - É. Ela fala alguma coisa ou não?
R - Não. Não era muito de falar, não.
P/1 - Entendi. Agora, a sua casa tinha luz, energia nessa época?
R - Não, nem energia e nem água encanada, a gente lavava roupa e tomava banho e fazia de tudo no rio, e pegava água de cacimba, como se chamava, hoje é cisterna, mas antigamente se pegava água de cacimba. Agora, lavar roupa, tomar banho, era no rio, que ficava bem pertinho da minha casa, a gente tinha um banco bem comprido, a gente levava, botava dentro do rio, sentava e lavava a roupa, os peixes assim, tudo passando. Mas era bom, por isso que eu me lembro assim, é muito bom morar na roça, o rio bem pertinho.
P/1 - E o povo contava história nessa época?
R - Não era muito, não, quer dizer, na época, se contava, eu não me recordo, porque depois que eu fiquei mocinha, a gente veio morar na casa da minha avó, depois minha avó faleceu, a gente ficamos, a gente ia morar debaixo de um pé de pau, porque a minha avó era dessas avós bem danadas, aí se abusou com a minha mãe, depois a minha mãe fez uma casa e a gente foi morar. Mas nunca foi assim mesmo de ouvir, porque eu tomava mais conta do meu irmão, para a minha mãe trabalhar, então, a gente não tinha tempo de estar ouvindo história ou seja lá como for, de jeito nenhum.
P/1 - E como era você na escola? Você já falou um pouquinho, mas me conta mais.
R - Não, eu não quero saber, não, como era na escola, não. Você quer mesmo que eu diga? Eu era danada. Não, eu nunca... Fiquei. Todo ano eu passava de ano, nunca fui levar pau na escola, não. O meu único problema na escola era brigar com os outros, aí menino do céu, eu brigava muito na escola.
P/1 - Mas por quê?
R - Não, sabe por quê? Sempre na escola a gente tinha uma patotinha, aquela de juntinha, daquelas menininhas ali, e sempre tem umas que sempre ficam por fora, que é mais quieta, e quando eu via os outros dizendo coisa com aquela outra minha amiguinha, que é mais quieta, que estava na escola... Ah, menino do céu! a gente ficava danada e aí a gente descia o pau, descia o cacete. Uma vez eu estava na escola fazendo uma prova, Dona Judite, que era a minha professora, chegou e falou: “Dona Edite, a senhora vai fazer prova hoje, vai não sei o que…” aí eu: “Tá bom” aí deu a cada um a prova, eu lá bem séria, fazendo a prova, fiz, terminei a prova, aí o menino me “futucava”, eu mostrava, eu virava a prova assim pra ele ver o que eu tinha feito, eu sei que eu findei e fiquei lá sentada, depois eu me levantei, peguei minha prova: “Dona Judite, terminei”. Ela nem olhou a minha prova. Ela pegou a minha prova, ela fez um zero assim, bem grande, e fez dois traços assim no meio, eu digo: “Dona Judite, a senhora nem corrigiu a minha prova”. Ela: “Não, eu sei que está certa, mas você ficou ensinando os seus amigos, por isso, eu fiz isso” Menino, me subiu um negócio, eu peguei a prova em cima do balcão, rasguei ela, eu fiz todo em pedacinho e joguei em cima dela assim, joguei e fui embora, saí da sala, fui embora, não disse nem “até logo”.
Quando eu chego em casa, daí um pedaço, umas 3h. da tarde, chega a professora na minha casa: “Dona Honorina” “Oi, Dona Judite. Entre”, e tal, conversando, foi dizer o que eu fiz, levei uma surra, fiquei uma semana sem ir para a escola, mas levei uma surra da minha mãe. “Você vai para a escola fazer o que, tal?” Aí depois eu voltei para a escola de novo, mas eu brigava muito. E tinha uma menina lá que era órfã de pai e mãe, e no Dia das Mães deram as poesias a elas, e sempre a poesia da menina falava de uma pessoa que morreu, não sei se é a mãe, não sei o quê… e a Judite achou de dar essa poesia para ela citar no Dia das Mães, eu não concordei, sabe? Mas fiquei quieta. E tinha outra menina que deram outra poesia pra ela, e a outra, ela se engrandecia de ter mãe: “Ai, eu tenho mãe e você não tem”, e ela sempre olhava pra menina que não tinha mãe, ah, menino, isso eu ficava danada da vida, e quando a gente saía, a gente brigava toda vez: “Olha, se você citar sua poesia…” - a gente ensaiando, né, cada um a sua - “E você olhar pra ela, você vai ver, toda vez que você sair da escola, você leva um cacete” Eu não prestava, não, quando eu estudava, eu sou miudinha de hoje, com 70 anos, o senhor imagine eu com 15 anos, 16 anos, misericórdia, e assim foi, no dia da poesia, elas faziam... Toda vez a gente brigava, quase todo dia a gente brigava, e quase todo dia elas diziam à minha mãe que eu tinha dito, que eu tinha brigado, que eu tinha falado isso, tinha falado aquilo. Mas era injusto, não era justo… Só porque eu tinha mãe, eu tinha que me engrandecer? Não, está certo, eu tenho mãe, e eu tinha a que sempre... “Tenho mãe, você não tem”, e ela ainda apontava para a menina… eu dizia: “Menina, assim tu leva um cacete!”
P/1 - Essas coisas já te aborreciam?
R - Não, eu sempre fui muito assim, menino, eu sempre fui uma pessoa… desde eu criança, a minha mãe dizia: “Eu não sei a quem você puxou”, porque a minha mãe, se ela tivesse raiva de uma pessoa, se a gente fosse falar com ela, meu filho, ela não gostava, não… minha mãe era geniosa, já eu não, a minha raiva é ali, naquele momento, aí eu brigo com você, você pode dizer o que foi, eu também lhe digo.
Se eu estiver com razão ou não, eu lhe respondo tudo aquilo que você me disser, mas eu não sou de guardar mágoa, rancor, não sou. A minha briga é ali, naquele momento, acabou, passou, vou embora. Amanhã se eu encontrar você: “Oi, bom dia. Você já passou a raiva?” Vambora, é assim, fale comigo se quiser, se não quiser, também não fale, mas eu sou assim, é uma coisa minha. Sabe? Eu não sei ficar guardando mágoa, eu acho que isso adoece a gente, rancor, você encher a sua alma de coisa ruim, não dá certo, você fica com a consciência…você fica pesado, enquanto você não põe para fora, você não aguenta, até hoje eu sou assim.
P/1 - Na escola, você tinha alguma matéria que gostava mais ou menos?
R - Mais ou menos, eu gostava de história, mas eu nunca fui de me aprofundar mesmo. Estudei em colégio de freira, estudei três anos em colégio de freira.
P/1 - Isso em Penedo?
R - Em Penedo, estudei em Penedo, no Colégio Imaculada Conceição, não sei se até hoje ainda tem esse colégio em Penedo, mas eu estudei três anos nesse colégio.
P/1 - E era igual aos colégios que você tinha estudado antes?
R - Não, no colégio eu fiquei mais requentada porque eu já tinha que idade? Eu já era quase mãe, que eu trabalhava em casa de família, eu tinha que idade? 20 anos, quando eu fui estudar, que eu trabalhava na casa de família, pertinho do colégio. Eu estudava à noite, eu trabalhava durante o dia e à noite eu estudava.
P/1 - Tá, vamos voltar um pouquinho até chegar nisso, mas como é que era Penedo nessa época que vocês se mudaram pra lá?
R - Ah, Penedo era um pouco quieto, sabe? Não tem mais, não tinha o desenvolvimento que tem hoje. Penedo era um lugar mais sossegado, por falar assim, ele era um lugar mais calmo, mais sossegado. Tinha o Rio São Francisco, sempre tinha festa de Bom Jesus dos Navegantes, era o que mais se movimentava, era o Carnaval, a festa de Bom Jesus dos Navegantes, o Natal, o Ano Novo, que ficava o centro enfeitado o ano todo e para a gente era bom, uma coisa que eu nunca fui de carnaval, eu nunca gostei.
P/1 - Por quê?
R - Não sei, aquela zoada, aquela mela-mela, aquela coisa que o pessoal aproveita para jogar coisa nos outros “Ah, eu não gosto”. Bloco de rua, eu nunca gostei de carnaval, se eu pudesse eu ficava num lugar em que eu não via nem falar em carnaval! Mas a gente não pode fazer assim… se não… mas eu não gosto, carnaval não gosto mesmo.
P/1 - Você arrumava briga no carnaval também?
R - Não, porque eu nunca ia! Carnaval, trio elétrico, essas coisas, não é comigo, esse enxame de gente, não gosto.
P/1 - Mas forró você ia nessa época né?.
R - Agora forró é comigo mesmo, meu filho. Forró é a noite toda, [risos] forró aí sim, forró eu dançava muito.
P/1 - Você se lembra das primeiras vezes que você foi dançar forró? Como é que você aprendeu a dançar, enfim?
R - Isso é que eu não sei, menino, como eu aprendi a dançar, eu não sei. Eu sei que o forró, eu ia muito, agora, o forró eu gosto. São João, aqui não, porque São João aqui é muito quieto, mas na minha terra, lá em Alagoas, sim, meu Deus do céu, lá tem muita coisa, tem muito forró, tem muita dança, tem fogueira a noite toda. Lá é bom.
P/1 - E quais forrós você gosta mais ou quais músicas você gosta mais?
R - Música de quê? De forró? Eu gostava mais do Luiz Gonzaga, que era quase da minha época, mas, assim, se for forró e eu gostei de todas. A única música que eu não gosto mesmo é esse tal de funk, que eu detesto mesmo… Não dá. Eu escuto, porque a gente não pode tapar os ouvidos de vez, mas dizer que eu gosto...
P/1 - Mas, assim, para quem não viveu essa época, não sabe como é que era. Como é que era montado um forró, assim? Era o que? Era um palco? Como é que era a banda?
R - Não, o forró era assim, a gente tinha um grupo lá, de onde eu morei, na capela, onde eu vivi quase a minha... criancice, a minha mocidade toda lá na Capela, como a gente fala no interior, a minha juventude toda, eu vivi na Capela, é município de Penedo, é tipo um bairro de Penedo. O forró é assim: “É São João? - Vamos contratar um forró, um forrozeiro pra tocar”. Pronto, é o quê? - Acordeão, um tambor, o triângulo, o pandeiro, e os zabumba que toca, pronto, esse é o forró, aí não tem negócio de palco nem nada, senta assim nos bancos, nas cadeiras e aí vai, é isso, assim que é o forró.
Se a pessoa que está tocando a sanfona for um desenvolvido que saiba tocar, a gente tinha um lá que era por nome de Banguelão, ele já faleceu, o nome dele era Antônio, ele saía tocando na frente e a gente atrás, dançando, a noite toda, até amanhecer o dia, chegava em casa com os sapatos na mão, e às vezes, nem sapato, como era no interior, só de areia, a gente usava sandália japonesa, não tinha negócio de sapato.
P/1 - E você ia vestido como? Os homens iam vestidos como?
R - Roupa comum, tinha gente que botava a sua melhor roupa pra ir, estando limpa, tando arrumada, cheirosa, pra mim, tava bom: - me mandar pro forró.
P/1 - E como é que funcionava essa coisa de, você esperava o parceiro chamar, ficava sentada ou não? Como é que era?
R - Lá no interior é assim, se um homem chamasse uma dama pra ir dançar e ela não quisesse ir e outro viesse chamar, dava briga, não podia, por exemplo: - Tinha uma moça, o senhor chamava pra dançar, se ela fosse dançar com o senhor, tranquilo, agora, se o senhor chamasse ela pra dançar e ele viesse e chamasse ela e ela fosse, aí dava briga. Aí não pode escolher, antigamente era assim, hoje não é mais assim, mas antigamente era assim, não se pode escolher parceiro pra dançar. Não pode.
P/1 - E o que você viu de mais, assim... O que mais te marcou nesses forrós nessa época? Você viu alguma cena que você se lembra?
R - A única cena que eu me lembro que me marcou foi uma briga que o meu irmão teve, meu irmão Josias, meu irmão mais velho. Estava eu e ele no forró e eu não sei por que começou uma briga, eu sei que quando eu dei fé, meu irmão estava agarrado com o cara, eu acho que foi por causa de uma menina, da Lôrinha o nome dela, ela também já faleceu, ela foi embora para a Bahia, eu não sei se foi por causa dela, eu não sei se foi uma briga por causa de mulher. Eu sei que quando eu dei fé, meu irmão estava agarrado no pescoço de um cara, menina, um monte de gente, esse dia me marcou, findou terminando o forró e a gente indo embora, isso me marcou! porque fiquei com medo, o cara com a peixeira desse tamanho, armado, isso aí me marcou. Sempre a gente tinha a briga por causa dessas coisas, mas não assim, com arma pra tá... Aí eu fui embora com ele e não voltamos mais pro forró nessa noite.
P/1 - Entendi.
R - Isso eu achei ruim.
P/1 - Mas agora, me diz uma coisa, vocês arrumavam um parceiro, um namorico ali?
R - Não, não, não, não, não, mas não assim. Em forró, essas coisas, não.
P/1 - Como é que você encontrava essas pessoas?
R - Que pessoas?
P/1 - Os namoradinhos e tal. Como é que você paquerava nessa época?
R - Ah, eu nunca fui, olha, menino, quando eu vim namorar mesmo, eu tinha meus 20 anos, quando eu era jovem, eu nunca fui de namorar, eu era mais pra tomar conta do meu irmão, cuidar da casa, minha mãe trabalhava, entendeu? Depois eu passei a trabalhar, porque a minha mãe adoeceu, ficou doente, então, para eu ajudar também na casa, eu tinha que trabalhar também. Aí eu passei tanto a trabalhar para ajudar ela, então eu fiquei mais trabalhando, quando eu vim namorar mesmo, foi dos meus 20 anos em diante.
P/1 - E como é que foi esse colégio de freira, então? Como é que funcionou?
R - O colégio de freira foi bom, era bom, eu ia só pra aula, só, mas a gente sempre ia lá visitar o colégio, antes de eu estudar lá, a gente ia que era pertinho da onde eu trabalhava, em casa de família. Mas era bom também, as freiras eram muito boas.
P/1 - E você sempre foi católica na sua família?
R - Eu tenho família de toda religião, só que eu nasci católica e católica eu vou morrer, com a graça de Deus. Mas na minha família algumas, da parte da minha mãe nem batizadas são na igreja católica porque são da assembleia, são de outras religiões. Mas eu não, eu sou católica, minha mãe morreu católica e eu também vou morrer católica com graça de Deus.
P/1 - E na Roça ou em Penedo vocês iam na igreja aonde?
R - Bom, na roça a gente tinha uma igrejinha só, feita de madeira, o padre ia celebrar a missa lá uma vez no mês, ele chegava lá, ou a pé, ou montado num jeguinho, antigamente, né! hoje, não, hoje tem todo tipo de coisa pra andar, de carro, transporte, tudo, mas naquela época, não. Depois, quando eu fui morar, aí eu passei a morar num lugar pro nome de Campo Redondo, quando eu me casei tinha uma igreja lá que também era de freira, a gente sempre ia à missa lá, eu já era casada, eu já tinha um filho. Eu sempre fui à igreja, mas nunca fui de igreja como eu sou hoje, hoje eu sou mais dedicada à igreja. Depois, que o meu segundo marido faleceu, eu me dediquei mais à igreja e deixei a vida do mundo assim, algumas coisas do mundo, eu parei e não fui mais… Me confessei quando meu marido faleceu, que eu disse à minha mãe: “Pois agora eu vou me confessar, não quero mais saber de negócio de namoro com homem nem nada”. Minha mãe: “Edite, você presta atenção, - Confessar, comungar não é qualquer coisa, não”. Eu digo: “Não, minha mãe, eu vou me confessar”, aí fui, me confessei, vou fazer 20 anos de viúva no dia 13 de março de 2026, vou fazer 20 anos.
E de lá pra cá não namorei mais, não quis mais saber, foi uma escolha minha, uma decisão minha. Não que eu não encontrasse, com um mês que o meu marido morreu, me apareceu um casamento, eu não quis e nem quero.
P/1 - Agora, desde pequena você tem alguma relação com Deus, com Jesus?
R - Não, sempre, quando a gente é católico, sempre a gente tem que ter, eu sempre rezei, eu tinha uma senhora que ela sempre me ensinava a rezar, e a minha mãe também, então, desde pequena que a gente tem, depois, eu comecei a andar nas coisas do mundo, quando eu tomei entendimento, meus 12, 13 anos, comecei, mas eu sempre ia à igreja, eu sempre ia à missa, eu sempre rezava quando eu dormia, uma coisa que eu nunca esqueci.
Mas nunca fui de ir à igreja como eu vou hoje, hoje eu sou Ministra da Eucaristia, hoje sou coordenadora da Capela Divina Misericórdia, aliás, eu sou, não só coordenadora, eu sou tudo… Que eu faço quase de um tudo, então, vou ficar assim o resto da minha vida, até o dia que ele quiser.
P/1 - Mas como é que é essa sua relação com Deus? Você conversa com Ele?
R - Ah, lógico, a gente tem que conversar, a gente tem que conversar com Ele e ouvir, dar atenção, parar um momento, pra ouvir o que Ele quer nos dizer, o que a gente tem que fazer ou não. Realmente hoje a minha vida é mais baseada em Deus do que em outra coisa, hoje eu vivo assim: “ Vou fazer uma coisa? Vou. Então vou rezar, vou pedir a Deus, vou pedir orientação a Ele, se é isso mesmo que vai ser”.
P/1 - E você acha que Ele já intercedeu na sua vida, já? Em alguns momentos?
R - Ah, já, e muito.
P/1 - Quer contar pra gente?
R - Ele já livrou a minha família de muita coisa, eu tenho um filho que, um dia de Natal, parece que tem 5 anos isso, o meu filho mais novo, meu caçula, arranjou uma namorada lá em Santos e o Natal, a gente passa todo mundo junto, a família inteira, todas juntas, onde tiver. E quando a gente estava depois da janta do Natal, ele sumiu, foi pra casa da namorada e não me disse nada, aí eu fiquei procurando: “Rogério, cadê o seu irmão?” Ele disse: “Mãe, o Beg foi pra casa da namorada, eu não ia dizer a senhora não, porque a senhora não ia deixar ele ir.” Eu digo: “Mas nessa hora da noite?” “Sim”. Bom, aí de manhã, eu tô aqui, aí acordo, com uma coisa, com o negócio ruim. Eu digo: “Vou ligar”. Liguei pro Rogério: “Rogério, cadê?” Aí eu liguei, quem atendeu foi minha nora: “Rosilda, cadê os meninos?” Aí ela: “Ah, saiu. O Clodoaldo também tava aqui, saiu, não sei o quê, foi não sei pra onde”. Eu digo: “Essa história tá tão mal contada”. Aí eu digo assim: “Eu vou procurar saber em qual cama ele dormiu esta noite”. Aí eu peguei o telefone, liguei, ele atendeu: “Estou aqui no hospital, mãe” “Está onde?” “Estou aqui no hospital” “O que foi?” “Não, não se preocupe, não, que o rapaz bateu no meu carro, o carro deu perca total”, ele tinha um Vectra.
O carro dele deu perca total de um jeito, que o policial olhou pra ele assim, disse assim: “Meu filho, sua mãe reza muito por você, porque não era normal você ter saído com vida do jeito que o carro dele ficou”, mas ele não sofreu um arranhão, acredita, que o que incomodou a ele foi só o cinto de segurança, que feriu no lugar do cinto. E ele é bem alto, é bem mais alto quase do que você, e ele não sofreu nada, quando ele chegou aqui já foi umas três horas da tarde, eu tava doidinha, tava doidinha, mas graças a Deus ele não sofreu nada, nada, não é a benção de Deus? Existe coisa melhor? Não existe. Vale a pena? Claro. Tem gente que acha que não vale, mas vale sim, vale muito a pena rezar, pedir a Deus, entregar nossos filhos, quem tem marido, entregar. Eu moro com o neto, filho dele, tem 24 anos, ele sai seis horas da manhã pro trabalho e chega às seis, mas é uma bênção também, Graças a Deus, mas vale muito a pena a gente se entregar a Deus. Mas quando a gente se entrega de coração… só na boca não! A gente falar com Deus, não existe coisa melhor, mas quando você dá espaço, quando você dá abertura pra Ele falar com você. Mas se você só fala e não dá abertura, ou você fala só da boca... Porque tem gente que diz assim: “Ah, eu vou... Eu já pedi tanto isso a Deus e Ele não me dá”. É porque, às vezes, o que você tá pedindo não é aquilo que é bom pra você, ele não dá o que você quer, ele dá o que você precisa. Então, as pessoas acham “Ah, eu quero isso, eu quero ficar rica, eu quero um carro, eu quero isso”, não é assim. O momento de Deus não é assim, o momento de Deus é o dele. É o que ele vê que você precisa, ele dá a você o que você precisa, o que você merece, o que você escuta, o que você fala dele. Entendeu? Isso é o que ele faz por todos nós. Se você falar com ele, dê abertura pra que ele chegue até você e fale, aí você vai ter tudo que você precisa dele.
P/1 - E tem gente que se não recebe uma coisa de Deus, deixa de acreditar, né?
R - Ah, fica com muita raiva: “Ah, não sei pra que eu faço isso?” Gente, não é assim não... Não é assim, e outra, a gente tem que sempre confiar nos piores momentos das nossas vidas, porque tem gente que cai e vai lá embaixo. Mas se você cair e você segurar na mão de Deus e pedir a Ele que levante, você sai daquele buraco, mas se você pedir com fé, com coragem. Porque Jesus, Ele não deu nada mal pra ninguém, o tempo que Ele viveu nessa terra, ele viveu só fazendo o bem. Olha onde ele foi parar, numa cruz. Crucificado por causa de quem? Por amor a nós. A cada um de nós. Mas nós dar essa recompensa a ele? Eu não vou dizer porque hoje eu vivo na igreja, sou Ministra da Eucaristia, eu sou santa não, meu filho, ninguém é santo, ninguém. Nós estamos tentando encontrar nossa santidade. Agora, santo nós não somos, não.
P/1 - Vamos voltar um pouquinho para Sergipe, então. Na verdade, você em Sergipe já estava casada, é isso?
R - Já.
P/1 - Então, me fala de como é que você conheceu o seu primeiro marido, no caso.
R - Eu tenho dois filhos, cada um é de um pai, tem o pai do Rogério, que já morreu, que é o mais velho e tem um pai do Rosenberg, que é o caçula, eu tenho dois filhos homens só. Então, quando eu fui morar em Aracaju, eu já fui para lá casada, e vivi lá em Aracaju por oito anos. Não, vivi muito mais do que isso, já fui casada, levei minha mãe e a gente morava lá, ela tinha a casa dela, eu tinha a minha. Vendi depois que eu vim morar aqui, depois que ele faleceu.
P/1 - Mas vocês foram para Aracaju por quê?
R - Porque meu esposo queria trabalhar, ele era soldador, e na cidade de Penedo tem poucas coisas para fazer com a profissão dele e Aracaju, ele tinha mais escolha de trabalho, aí a gente foi morar em Aracaju. Ele era soldador, aí chegou lá, ele arrumou uma firma e foi trabalhar. E por isso que a gente foi morar lá.
P/1 - E como é que foi pra você se tornar mãe naquela época?
R - Bom, eu fui mãe com 20 anos, meu filho mais velho vai fazer 50 anos. Ele fez 50 anos, ele fez agora, em julho, 50 anos.
P/1 - E você queria ter filho nessa época já?
R - Não, saiu assim, porque é como eu lhe disse a primeira vez, como eu falei, que eu não fui uma pessoa muito normal, sempre eu fui danada, então, mesmo assim, na escola a gente saía para namorar depois. Eu estudava no Colégio das Freiras e, quando terminava as aulas, a gente saía e eu, findei engravidando, e o meu menino, o pai dele morreu… O Rosenberg, não, o Rosenberg o pai dele ainda é vivo, é o meu filho, o Rosenberg, o pai dele ainda é vivo, mora em Alagoas. Agora, o Rogério, o meu mais velho, o pai dele já faleceu. Eu engravidei e pronto, criei ele, mas com minha mãe, não exigi que o pai desse nada, apesar do pai ter... Tinha condições na época, mas não exigi nada dele, não, que a errada foi eu, então eu assumo o meu erro. Criei meu filho, hoje ele tem 50 anos e tem uma filha coroinha também, gosta da igreja, parece que puxou avó, gosta da igreja que só… Graças a Deus.
P/1 - E... o seu primeiro marido morreu? O seu filho tinha quantos anos?
R - Não, não, foi meu marido, é assim.
P/1 - O seu companheiro?
R - Eu tive um caso com ele e só, pronto. A gente só teve um caso passageiro, engravidei e acabou-se, não foi meu marido.
P/1 - E aí você passou uns anos em Sergipe e veio pra cá.
R - Eu vim pra cá visitar meu irmão caçula, que morava aqui, estava aqui há muitos anos.
P/1 - Ele já morava aqui, já?
R - Já, meu irmão, o Francisco, já morava aqui em Cubatão. E a gente veio fazer uma visita. Meu marido desempregou, disse: “Vamos lá, Edite?”. Disse: “Vamos”, aí eu vim. E que coisa foi essa, que visita foi essa que eu tô aqui até agora? Eu cheguei aqui no dia 24 de junho de 2000. Tô aqui até agora, aí ele adoeceu, esse meu marido, apareceu com a doença de chagas. Aí ele queria, porque queria voltar para Aracaju, que a gente tinha casa lá, voltei para Aracaju com ele, cheguei lá no dia... saí daqui em janeiro, ele só ficou vivo janeiro, fevereiro, março, 24 de março, ele faleceu, lá em Aracaju. E lá eu só tinha minha mãe e eu, meus filhos ficaram todos dois aqui, eles não queriam ir, e eles deram tanto conselho, mas ele queria morrer na casa dele, então foi. E lá ele faleceu, depois eu vendi a casa e comprei essa aqui.
P/1 - Isso em 2006, você falou?
R - Em 2006, que eu cheguei aqui em Cubatão.
P/1 - O que você achou daqui, a primeira vez que você veio pra cá? Desculpa, o seu irmão, ele morava na Vila Esperança?
R - Não, meu irmão morava na Gonçalves Torres, lá perto do centro, ele morava lá perto do centro, lá no Costa Silva.
P/1 - Então, você nem conheceu aqui.
R - Não, eu vim conhecer a Vila Esperança depois que eu cheguei aqui, depois que o meu irmão Francisco comprou um barraco aqui na frente e foi morar lá, e eu fiquei morando no barraco, na casa onde ele morava antes.
Quando eu fui embora, que meu marido faleceu, o meu irmão saiu do barraco que ele morava, de onde eu tinha vindo visitar ele, e ele tinha comprado uma casa aqui na Vila Esperança, que ele mora ali perto do Nego Gel (Bar), vocês passaram, não viram o Nego Gel ali?
P/1 - Na Principal mesmo.
R - Isso, aí na principal, e ele mora ali atrás, numa casa, aí, quando eu voltei, ele já morava lá, aí eu aluguei uma casa pra mim e fiquei morando, depois, foi que eu comprei aqui. Aqui não, porque eu já tinha... Quando eu fui receber o seguro de vida dele, eu digo: “Eu vou comprar uma casa”, mas aí, fui lá, fui cá, e não achei a pessoa que eu já tinha certo pra comprar casa, desistiu. Aí eu fui atrás de mais outra, não consegui, só essa aqui foi que eu consegui, porque também o dinheiro que eu tinha não dava pra eu comprar uma casa maior em outro canto. Aí comprei aqui, me mudei com minha mãe e meu neto e ficamos aqui até hoje.
P/1 - Rogério e Rosenberg não vieram morar com você aqui, não?
R - Não, porque quando eles vieram, eles já estavam casados, o Rogério, ele ficou em Aracaju, e o Rosenberg, quando ele veio, ele veio com a mulher, depois a mulher foi embora e ele ficou aqui, depois foi que ele casou de novo. Ele mora aqui embaixo.
P/1 - Na Vila?
R - Aqui na Vila Esperança, todos os dois.
P/1 - Agora, você achava que, o quê, assim, eu imagino que seja um pouco diferente de Sergipe, onde você morava.
R - E muito, muita diferença.
P/1 - É?
R - Só que eu sou assim, onde eu moro, Graças a Deus, eu vivo na minha casa e pra minha casa, a vida dos outros: - se você estiver precisando de alguma coisa, chegar na minha casa e dizer: “Dona Edite - ou Edite, como que iria me trataR - eu estou precisando disso, você pode me ajudar?” Se eu puder lhe ajudar, eu lhe ajudo, mas só que eu sou assim, eu sou pessoa de viver, da minha casa para a minha casa e para a minha família. Gosto de ajudar os outros? Sim. Gosto, se eu pudesse, eu não via ninguém sofrendo, só que a gente não pode ajudar todo mundo. Não é isso?
Aqui tem muitos que me chamam de mãe da favela, porque é assim, tem uns meninos que eles usam muito… né? E chega aqui com fome, então, chegam aqui: “Dona Edite, a senhora tem uma comidinha?” Eu dou. Depois chegam: “Dona Edite”. E (as pessoas) dizem: “Mas a senhora não tem juízo? Eles não tem dinheiro pra usar droga? Também tem dinheiro para comer”. Eu digo: “Pra mim não importa o que eles sejam, o que eles tenham, o que eles são, eles são filhos de Deus, tanto quanto eu, então, tá com fome? Tá. Se eu tiver, eu divido, minhas panelas” Meu problema foi isso. Foi o que Deus disse: “Dá com a mão direita e que a esquerda não veja, fazer o bem sem olhar a quem”. Então, pra mim, não importa, se a pessoa é o que ele é, o que ele seja, o que ele escolheu pra ser, muitos que eu tenho mais intimidade, eu sei quem eles são, mas, o que é que eu vou fazer? Se eu pudesse mudar, transformar a vida deles, eu faria isso, mas não posso. Então, o que é que eu faço? Do que eu aprendi na palavra de Deus, eu passo para eles, eu digo a eles: “Mas já que vocês escolheram esse caminho, não faça assim, faça assim e tal” Mas cada um é cada um, a gente não pode transformar as pessoas se elas não quiserem. Eu acho que a pessoa só tem transformação se a pessoa quiser, se a pessoa tiver força de vontade, se não tiver, não adianta nada.
P/1 - Vamos voltar um pouquinho para isso depois, as suas ações aqui, mas tinha diferença também de clima, de temperatura, de natureza.
R - Tudo, o ar puro. Quer comparar (com) lá, na minha terra, na minha Alagoas, que não tem essa poluição? Porque Cubatão é o bairro mais poluído de São Paulo, e agora que tá com mais, tem menos poluição, mas Cubatão foi o bairro mais poluído que tinha de São Paulo, foi Cubatão.
P/1 - Você notou logo quando você veio pra cá?
R - Hã? Ah, aqui é mais! Cheguei aqui, eu tive depressão, seríssima. Primeiro que eu deixei os dois filhos lá, e toda hora eu sabia, ligava pra mim, eu tinha telefone fixo na época e eu recebia sempre umas ligações não tão boas. Mas aí eu ia fazer o quê?
Eu tava aqui e tal, aí eu comprei uma passagem, passar um ano novo lá. Aí à noite, eu ia viajar como amanhã, como hoje à noite: “Rogério sofreu um acidente de moto”. Fui pra lá, a passagem já tava comprada, só que daqui lá são três dias de viagem de ônibus. Quando eu cheguei lá, ele estava todo ensanguentado, sem trabalhar, deitado lá, ele caminhava, mas estava todo ensanguentado. Aí cuidei, depois foi que eu vim embora. Depois que eu vim embora, que eu estava lá, meu marido adoeceu aqui, aí eu ia demorar, mas não tive como demorar, voltei logo, depois eu trouxe ele para cá, o meu filho, e devagarzinho eu trouxe os dois. Mas aqui é muito poluído o ar, a respiração que você respira, você chega em Alagoas, você respira: “Ai, meu Deus, tranquilo”. A água, você toma assim, sabe que aquela água ali é limpa, é tranquila, não tem negócio, hoje já botaram água encanada, antes não tinha, mas até hoje que eu vou pra lá, eu tomo água da... Eu tenho um filtro de barro que eu trouxe, eu uso ele, eu tenho dois filtros, um de barro e um sem ser de barro, mas eu tiro de um e põe no outro de barro, mas eu gosto mais da minha aguinha do filtro de barro. Eu não tomo água gelada, raramente eu tomo, tomo mais água natural.
P/1 - E frio, essas coisas?
R - Pra mim, o frio é melhor.
P/1 - Não, o frio.
R - O frio, o frio, na época fria, pra mim, é melhor, primeiro, eu não posso tomar muito sol, olha quando eu tomo sol… não posso tomar sol. Nasci e me criei no lugar de sol, de roça, de tudo, mas agora, como eu estou envelhecendo, a pele, por causa do sol, que eu levei muito, fica assim, qualquer coisinha que bate ou que eu amasso... até eu dormir por cima do braço, ele amanhece roxo, já essa semana eu fui pro dermatologista, ele me falou isso. Até eu vou fazer uma biópsia pra ver, por causa do sol, então, pra mim o frio é melhor do que o sol. Eu gosto do sol. Pra arrumar casa, pra lavar roupa, isso é uma benção, agora, pra mim o frio, apesar de lá da nossa terra não ter frio, pra mim o frio é melhor.
P/1 - E a natureza daqui, você achou diferente também ou não?
R - A natureza aqui nem tem essas coisas todas, porque tem mato tudo igual lá, tem as coisa do mesmo jeito, tem diferença nenhuma.
P/1 - Passarinho?
R - É, lá tem bastante, menino, lá o passarinho é o que mais tem.
P/1 - E aqui não?
R - Aqui não, aqui tem muito pouco, só nas gaiolas. Meus meninos trouxe aqui, eu digo: “Ó, pode levar, senão eu solto tudinho, você não quer estar preso, agora prende os bichinhos?” Porque lá você vê eles assim… na casa da minha irmã, lá em Alagoas, é, fica tipo um alto e tem um baixo, e na parte baixa, os passarinhos ficam tudo lá no campo, de tardezinha, tem um pé de pau bem grande no oitão da casa da minha irmã, fica tudo eles dormindo em cima, e eu gosto, sempre gostei dessas coisas. Já aqui é difícil, aqui, sei lá, eu só estou aqui por causa dos meus filhos, se não fossem os meus filhos, eu já teria voltado para a minha terra há muito tempo. Mas é que eu sou mãe, sou pai, sou tudo deles, então, eu não tenho coragem de ir embora e deixá-los aqui, não tenho. Porque quando eles precisam, é para onde eles correm? Para mamãe. Então, não saio para deixá-los, não.
P/1 - Agora, a primeira casa que você viu aqui era um barraco, era isso? A primeira casa que você morou aqui era um barraco, pelo que eu entendi? Não era essa casa.
R - Não. Quando eu vim morar aqui, que meu esposo faleceu, eu fui morar na Água Fria, não vim direto aqui pra Vila Esperança, eu fui morar direto na Água Fria, não sei se vocês conhecem, sabe onde é. Eu fui morar lá, que era a casa que era a Rosenberg, o meu filho que morava lá, lá era muita lama, muita coisa, como eu trouxe a minha mãe, e a minha mãe já vivia doente… de lá eu aluguei uma casa lá na Gonçalves Torres de novo, aí fui morar lá com a minha mãe e o Andrew, o meu neto, depois de lá, foi que eu vim morar aqui.
P/1 - E você andava por aqui procurando casa, isso?
R - Não. Eu vim uma vez, eu já tinha uma casa já pronta, já pra eu comprar, quando eu recebi o dinheiro, que eu fui comprar a casa, a pessoa desistiu, que era entre a casa do... No oitão da casa do meu irmão, aí, pra mim, era bom, porque os meus irmãos já moravam lá, mas aí, no dia que eu vim fazer o pagamento, a mulher desistiu. Aí arranjei outra lá no viaduto, mas nessa época era só bananeira, só tinha algumas casas, hoje não, hoje tem muita casa, mas antes não era, a casa era só bananeira, aí meu menino disse: “Não, mãe, a senhora não vai ficar aqui sozinha, não. A senhora vai morar aqui sozinha com o Andrew?|”. O Andrew era miudinho, tinha oito anos. Não dá.
P/1 - Esse viaduto é onde, ali?
R - É isso, lá embaixo. Atrás da casa da associação. Atrás da associação, ali.
P/1 - Associação do Zumbi?
R - Do Zumbi, ali atrás. Era só bananeira.
P/1 - Isso em 2006?
R - Em 2006.
P/1 - E aí você decidiu que não era bom lá?
R - Não, meu filho disse que não era bom e eu fiquei lá sozinha. Hoje não, hoje tem muita casa ali, já tá cheio de casa, aquela praça já foi feita, já estão reformando de novo.
P/1 - A gente está gravando essas entrevistas para, inclusive, contar essa história da Vila Esperança, então, você chegou aqui e não era do jeito como está hoje.
R - É nada.
P/1 - Então, como que era? O que tinha? O que não tinha quando você chegou aqui? Como que era? Se puder descrever para a gente.
R - Quando eu vim morar aqui na Vila Esperança, era lama pura, a frente lá, a principal, era tudo lama. Só tinha... Só era... Parece que a do Zumbi pra lá já era feito o alicerce, ou não, eu acho que não era não, eu acho que era lama mesmo, que a gente ia levar as crianças lá no Elza, no colégio Elza pra estudar, e o meu neto estudava lá e a gente ia levar todo dia. E era lama mesmo, sabe o que é lama? De você levar um calçado e chegar lá adiante e vestir no menino o calçado, porque eles não podiam… Quando estava enxuto, sem chover, era poeira, Ave Maria, quando o carro passava, a gente ficava tudo preto de poeira, mas era uma lama. Aqui mesmo onde eu estou morando, aqui, quando a maré enchia, enchia a minha casa toda de água, enchia tudo de água aqui, tudo, eu ficava em cima do sofá e deixava a água encher, a casa enchia todinha, eu botava a geladeira em cima da mesa e deixava. Às vezes, as pessoas chegavam aqui: “Dona Edite, Dona Edite: Ó, a maré tá enchendo, viu?” Aí me ajudava, a botar a geladeira em cima da mesa, e pronto, o resto eu deixava encher. Eu e a vizinha aí, aquela que saiu aqui agora. Quando enchia, aí a gente ia limpar, tirar a água, quando era de tarde, tudo de novo. Mas eu não sabia, quando eu comprei, que era assim, eu vi que tinha lama. Esse córrego aqui era mais fundo, enchia, depois foi... ficava de vez em quando a prefeitura manda dar uma limpada e às vezes não, às vezes fica aí já quase rentinho, mas era assim quando eu vim morar aqui, era muita lama na estrada, depois mandaram calçar, arrumar, o prefeito mandou.
P/1 - Essa principal?
R - Isso, e era só do Miúdo, não tinha associação do Zumbi ainda, e se tinha, não me recordo, sei que era do finado miúdo, do Paulinho ali, a Associação era lá, a gente tinha... Lá já tinha o Miúdo, também era uma pessoa muito boa, que ele fazia, dava a cesta básica para o povo e tal. Eu nunca fui pegar, não, porque graças a Deus eu nunca precisei, mas a maioria do pessoal ia pegar a cesta básica lá, tinha uma moça, uma psicóloga, que de vez em quando, à tarde, vinha fazer encontro mesmo, na minha depressão, que eu tive eu fazia lá, o Paulinho lá tinha aula de inglês para as crianças, sem pagar nada, não sei hoje se ele ainda tem, mas ele tinha.
P/1 - E como é que você fazia, então, pra subir tudo, assim, esses móveis, isso tudo aqui, você já deixava de um jeito pronto pra se a maré subisse?
R - Eu não, quando eu vim morar logo aqui, eu não tinha nada disso, quando eu vim morar aqui, eu trouxe a cama, a geladeira, só. A mesa, o fogão, a geladeira e pronto, o armário, o rapaz que me vendeu a casa deixou um armário, não é esse que tá na parede, é outro. E foi isso que eu tinha, não tinha sofá, televisão, eu tinha uma de tubo daquelas antigas, só isso, não tinha cadeira, banco pra sentar, não tinha nada, quando eu vim morar aqui, depois foi que eu comprei sofá, comprei essas coisas.
Mas era assim, quando a chuva vinha… e um dia choveu que até a igreja lá encheu de água, até o presbitério em cima, encheu tudo de água, ela não era reformada assim ainda não, mas ela encheu até lá em cima. Aqui ficou tudo, tudo nadando na água, encheu tudo de água, eu tava dormindo, nem vi nesse dia, eu tava dormindo, e aí o menino: “Dona Edite, olha a água. Olha a maré”. Quando eu desci da cama, já botei os pés e foi dentro d'água, aí eu desci, fui ali pra rua, isso aqui tudo enchia d'água, tudinho isso aqui, aqui, eu já gastei muito dinheiro pra subir ela, tá com cinco anos que eu fiz a última reforma agora que eu fiz, gastei 32 mil, mas eu botei dois caminhões de aterro aqui pra fazer tudinho. Aqui embaixo tem dois pisos, três com esse, subi o teto, que ela era bem baixinha, que eu sou alta, era capaz de topar a mão assim nela. Mas era assim, quando eu cheguei aqui na Vila Esperança, agora tá um amor, tá uma benção, tá tudo calçado, tudo assim, mas antes, meu filho, só era lama.
P/1 - Você acha que parou de encher aqui a sua casa e perto? Mais ou menos em que época, assim? Que ano, mais ou menos?
R - Uns cinco anos atrás ou seis, depois que de vez em quando eles vêm, e eu também, aumentei a casa, mas quando chove, muita a casa ali embaixo e ainda enche, a água vem até aqui em cima, tudo fica mar e céu aqui, ó, de lá de baixo, quem mora lá embaixo até aqui, fica mar e céu. E se tiver uma maré grande, não precisa chover, a maré sobe, que coisa, esse cano aí, que enche tudo, as pessoas que moram ali embaixo ainda sofrem, mesmo que elas aterraram, mas não dá vencimento, não.
Aqui, porque nós estamos mais afastados da maré e aqui, eu altiemo (Subimos) muito, tanto eu como o rapaz aqui, ela ainda entra, ela ainda entra a água, porque ela não aterrou ainda, ela vai aterrar agora, mas ainda entra a água.
P/1 - E era você, a sua mãe, pra acordar e levantar as coisas e os vizinhos?
R - Tudo, os vizinhos me ajudavam, na época, os meus meninos trabalhavam, eles já estavam casados, o Andrew era miudinho. Eu cheguei a matar a cobra debaixo aqui, ó, desse sofá, quando eu cheguei logo pra morar aqui. Era tudo lama, tá vendo? Se você perguntar a qualquer um aí diz a mesma coisa, era difícil logo quando eu cheguei aqui.
P/1 - E você tinha medo de encontrar alguma doença também?
R - Ah, sim. O xixi do rato, o xixi, fezes, tudo aí dentro dessa vala eu entrava pra cá. Por mais que você não quisesse, mas você colocava os pés na água, tanto aqui como lá fora. que subia desse córrego, porque todo esgoto daqui é dentro desse córrego, é por isso que eles estão fazendo esse trabalho, que é para tirar as coisas de dentro do córrego, mas... eles estão fazendo, mas agora é tudo aí dentro.
P/1 - E mais ou menos que altura que ficava, se puder mostrar?
R - Água? Ah, meu filho, ela sobe até ali assim, ó, ela sobe tudo, tanto entrava por aqui, por a frente, como subia no vaso, subia pelo vaso, pelo ralo do banheiro. Não tinha como fechar, subia, mesmo que eu fechasse o ralo, mas subia pelo vaso do banheiro. Mesmo que eu pegasse uma garrafa Pet de refrigerante e fechasse o ralo, subia pelo vaso. O vaso, a água voltava que subia tudo assim, aí não tinha como fazer, a ideia era só deixar encher, depois que enchia tudo, que a maré começava a vazar e começava a vazar, era que a gente ia tirando e limpando. Porque a minha casa era só daqui assim pra cá, a sala era bem miudinha, aqui era mais o terraço, esse terraço aqui era maior. Na reforma que eu fiz, eu só não mexi na cozinha, na cozinha, eu deixei do mesmo jeito, porque essa casa era um bar, quando eu comprei. Então, tinha um banheiro aqui na frente, aí eu quebrei e o meu banheiro era lá atrás, na cozinha, pra crescer o quarto pro meu neto, eu tirei o banheiro de lá e coloquei aqui, e tirei de lá.
Mas enchia tudo, tudo, tudo, tudo, ea borbulhava assim, pelo pé do azulejo, no meu banheiro, como o meu banheiro era lá e a casa dela também enchia, aí vinha da casa dela pra minha, do vizinho aqui atrás, que era um beco, aí tinha a parede da casa dele e a minha, o beco enchia de água, não tinha pra onde correr, aí corria tudo pra cá.
P/1 - E como é que vocês faziam, fazem pra… pra secar, pra não mofar a parede, enfim?
R - As coisas, as paredes sempre mofam, olha ali como está, se você entrar no meu quarto, você vê que a parede está toda preta, ficando preta, você arruma, e num instante, como já fica ali tudo caindo, mesmo que a gente tire, eu agora mesmo estou pensando de botar azulejo nela, por dentro e por fora, aqui por dentro e lá essa parede daqui, porque essa aqui é a casa dela e não dá pra fazer, mas é assim… não tem como. A igreja a gente fez bem feita, botemos... O rapaz botou selador pra selar mesmo, pra não entrar nada, e botou gesso nela toda, ela é toda feita no gesso, arrumou toda a capela, só que aqui não. Emassou (Masseou), arrumou tudinho lá, foi o serviço mais bem feito, porque também o gasto que foi ali...
P/1 - E você... Você chegou aqui, tinha parentes aqui já.
R - Tinha o meu irmão.
P/1 - Mas ao longo desse tempo que você foi fazendo amizade, conexão com quem aqui na vila?
R - A primeira pessoa que eu fiz amizade foi com ela aqui, com a Nilza, depois da Nilza foi dona Maria, que também já faleceu, que ela foi quem fundou a igreja aí, a Divina Misericórdia, e que é a mãe da Gonçala, que mora aqui de lado, foi a primeira pessoa que eu tive intimidade e que eu comecei, assim, com amizade, só foi com ela aí, hoje, até hoje, eu já tenho… Cheguei aqui em 2006, até hoje, tem gente que eu não conheço, só porque é assim: “vizinha é vizinho”, se me perguntar o nome não sei, conheço assim… mas, até hoje, a gente só se trata de “vizinha”, o menino dela, ela mesmo, só me chamam de vizinha, é vizinha, vizinha, pronto.
P/1 - Mas o que foi que juntou você e essas pessoas em especial, você acha?
R - Eu não sei, era porque ela ia levar os dois filhos dela na escola e eu o meu, o meu neto, então, a gente ia junto, e tinha outro senhor, o Sr. Sebastião, que também já morreu, que ele ia levar o menino também na escola, que ele ganhava pra isso, como ele era aposentado, podia pegar o ônibus sem pagar nada e levar as crianças na escola. E, às vezes, a gente ia de pé, quando tava chovendo, meu Deus do céu, a gente tinha que levar o sapato, a bolsa, tudo, pra trocar roupa e lavar os pés do menino lá adiante, quando passava essa lameira todinha quando tava chovendo, aí a gente começou uma amizade e pronto, quando eu saía, o menino ficava com ela, quando eu ia pra um lugar pra fazer alguma coisa, o menino ficava com ela, e pronto, é uma irmã, é tudo, ela é mais família do que a própria família, porque raramente os meus irmãos vêm aqui em casa, mas ela tá aqui toda hora, mas é bom ter uma pessoa assim.
P/1 - E esses seus amigos, a Nilza, o pessoal, eles são de onde? De onde eles vieram?
R - A Nilza é da Bahia, e ela, a menina aqui, ela é de Pernambuco, não sei de onde.
P/1 - Mas é do Nordeste também? Do Nordeste?
R - A pra banda é de lá, do Sul, parece que ela é da... de Pernambuco, parece, e Nilza é da Bahia.
P/1 - Isso talvez tenha ajudado vocês a se reconectarem também, ou não?
R - Ah, é verdade, porque a gente se junta... A mãe dela era da Pastoral da Criança. Além de ela ter fundado a igreja com o Padre de Antônio, ela era coordenadora da Pastoral da Criança, e eu comecei a sair com ela, comecei a ir para a igreja e acabei também, entrando na Pastoral da Criança, fazendo parte, fui coordenadora por 8 anos, até quando ela faleceu. Quando ela faleceu, eu assumi a coordenação da Pastoral da Criança, fiquei 8 anos na coordenação da Pastoral da Criança.
P/1 - Como é que você saiu dessa depressão que você falou que você teve?
R - Se eu lhe disser a você, eu nem sei o que me fez eu sair, eu saí assim, indo para a igreja, a Pastoral da Criança. A Pastoral da Criança, uma vez no mês, tem a pesagem, que é o dia da celebração da vida, então, a gente tem as visitas nas casas, a gente visita essas crianças que fazem parte da pastoral de 0 a 6 anos. As mães que estão grávidas também, para saber se elas fizeram o pré-natal, se elas estão fazendo, as condições de vida, o lugar onde mora. As crianças também, se elas não estão sendo maltratadas, se elas têm o que comer, porque hoje uma criança passa muito de necessidade, se o pai não está trabalhando, qual é a situação? Isso tudo a Pastoral da Criança tem que ver, na minha época era assim. Então, a gente ia visitar, um dia eu ia pra um lado, lá pra lá, e outro dia a gente ficava aqui no bairro, que já é muita coisa e é muita criança que tem aqui, só que hoje, as meninas até querem trabalhar, até querem fazer o trabalho, mas elas trabalham, eu não, eu e dona Maria, nós não trabalhávamos, nós não tínhamos marido pra se preocupar, e hoje elas têm marido, tem trabalho, que elas trabalham, então, eu não vou dizer assim… mas a visita elas fazem, mas algumas fazem visita, que todas elas trabalham. Aí fica difícil, mas na minha época não, a gente visitava, era bastante criança. No dia, a gente fazia duas, três panelas de sopa, no dia da pesagem, aí todas as crianças vinham comigo, vinham pesar e comer, e às vezes ainda levavam pra casa.
P/1 - E vocês faziam isso onde? Ali já?
R - Na capela, aí na capela, a cozinha era embaixo, hoje, quando a gente renovou, eu coloquei a cozinha lá pra cima.
P/1 - E você escolheu aqui também por estar perto da igreja ou não?
R - Não, eu acho que Deus foi quem me empurrou pra aqui, porque em nenhum canto dava certo, duas casas já tava contratada certa pra eu só levar o dinheiro, a primeira é lá perto do meu irmão, aí o homem desistiu, aí outra lá pra cima, mas não deu certo, a terceira, que foi lá perto da casa do Zumbi, ali no fundo da associação, meu menino não deixou porque disse que eu ia ficar lá muito sozinha, só essa daqui deu certo - Não é porque Deus queria que eu viesse pra cá? Então, fiquei aqui. Minha mãe não gostou porque ela não tem quintal: “Você vai comprar uma casa sem quintal?” “Minha mãe não posso fazer nada. É aqui mesmo que a gente vai ficar”. Aí comprei aqui, pronto. E aqui eu estou até agora, eu tenho meus 20... 2006, meus 18 a 19 anos que eu tô aqui.
P/1 - E você gosta aqui?
R - Eu gosto.
P/1 - Da igreja?
R - Daqui eu gosto, eu vivo na minha casa, não me meto na vida de ninguém, nem ninguém se mete na minha. Tá tudo certo.
P/1 - Agora, você falou que você passava na psicóloga também, é isso?
R - Passava.
P/1 - E como é que era essas conversas com ela?
R - Ah, é só saber… porque assim, com tudo eu choro, até hoje, lembrar de um momento bom, um momento difícil, eu, até hoje, sou assim. Se eu assistia um filme, eu chorava, até hoje, eu sou assim ainda, sou muito sensível a algumas coisas, qualquer coisinha, eu estou chorando, tô me derretendo toda. E, na época, quando eu vim pra cá, meu filho ficou lá em Sergipe, e, de vez em quando, eu tinha uma notícia, de vez em quando, não tão boa, porque o meu filho, o caçula, ele é bom como ninguém, mas também ninguém pise no calo dele, e de vez em quando eu sabia alguma notícia, e pra gente, mãe, é difícil. Tá longe dos filhos. Três dias de viagem daqui lá, não é fácil, e eu sempre recebendo notícia que o Rosenberg fez isso, o Rosenberg... tá bom. E aí o menino, me deu uma depressão, só vivia chorando, só vivia... Meu Deus do céu, foi ruim, viu? Aí fui passar pela psicóloga, aí ela disse que eu tava com depressão e passou um monte... Eu tomava tanto remédio que onde eu comia, o prato ficava lá, eu já arriava (Virava) pro outro lado e dormia. Aí a minha mãe dizia: “Edite, minha filha, isso não é na vida, não. Você não tá vivendo. Mas é isso mesmo!” Eu morava de aluguel lá no Costa Silva ainda, aí quando eu comprei aqui, a mesma psicóloga, ela dava encontro aqui no Miúdo, ela fazia terapia em grupo. Aí eu fui. Aí eu comecei a ir.
E ela gostava porque a gente, antes, a gente fazia uma oração, que antes ela não fazia, depois que eu comecei, aí eu disse a ela: “Não se faz uma oração antes de começar?” Ela disse: “Não, ninguém faz”. “Então, vamos fazer, a partir de hoje nós vamos fazer”. Aí, todo dia, antes de começar a terapia, a gente orava, rezava, pedia a Deus, entregava cada um, cada problema de cada um, e eu fui fazendo. Depois, ela teve um problema, o marido dela faleceu, não sei como foi, adoeceu, ela deixou de vir, e também não veio mais outra. Aí eu também não passei mais por ninguém, aí foi quando eu conheci dona Maria e da Capela e eu fiquei, parei de tomar remédio controlado, que eu tomava. Hoje eu só tomei o remédio pra pressão alta e pra diabetes. Aí o remédio de pressão alta eu ainda tomo até hoje, quer dizer, lá agora tá boa, graças a Deus, tanto ontem eu fui levar os meus exames, tá tudo tranquilo.
P/1 - Então, foi com contato com a igreja e o que a igreja te trouxe.
R - Com a igreja, isso. Sabe o que é? Você ficar dentro de uma casa, só lava, passa, cozinha, não tem marido pra cuidar, e mesmo que tivesse, o marido não é empecilho. E eu acho que depressão é muito de nós, da nossa força de vontade. É uma doença, claro, tem que se procurar um especialista? Lógico. Mas você também tem que ter força de vontade. Porque tem gente que toma remédio, toma, toma e não sai daquilo, e fica pior ainda. Eu acho que a depressão, no meu ponto de ver, como fui eu mesma que passei por isso tudo, é difícil, mas se você tem força de vontade ou você põe sua cabeça pra funcionar com outras coisas, você sai da depressão, foi o que eu fiz.
Cheguei aqui, conheci dona Maria, era da igreja, eu andava com ela visitando os meninos, ia pra tudo quanto é canto, quer dizer, que eu não tinha tempo de estar num sofá ou numa cama, pensando besteira, ocupando a minha mente com coisas que não levam a lugar nenhum, então, assim foi que eu vivi e saí da depressão. Hoje mesmo, só tomo por causa da pressão alta e do diabetes, que a minha pressão sobe sem querer mais, quando eu penso que não, ela tá lá em cima, também quando eu penso que não, ela cai, tá lá embaixo.
P/1 - Como que era a dona Maria? Como é que era o jeito dela? O porte dela?
R - Ela era um mulherão, menino, um mulherão morena. Ela era uma pessoa católica. Sabe o que é ser católica? É ela. Também viúva, era maravilhosa ela.
P/1 - Ela veio da onde?
R - Ela era de Pernambuco. Ela é da banda de Pernambuco.
P/1 - E logo que vocês se encontraram, vocês viraram amigas ou não?
R - Não, que a gente brigava muito antes, assim, que a minha mãe foi quem começou. Ela tinha um bazar na igreja, e minha mãe ia lá sempre, quando a minha mãe... Quando a gente chegou logo aqui, aí a minha mãe ia lá no bazar, saia aqui caladinha, e quando eu saía fora eu procurava ela, como eu era novata, eu tinha medo da minha mãe sair e se perder em alguma coisa, porque a minha mãe era uma pessoa doente, tinha 80 e poucos anos quando eu vim morar aqui, setenta e poucos anos. Ela morreu com 81.
Aí, quando eu ia lá, ela dizia assim: “Lá vem a sua filha. Lá vem, a chatice vem ali, vem. Já vem buscar a senhora”. Eu digo: “Ó, eu vim aqui só pegar ela, só pra ver onde ela tava, porque eu não quero que ela saia por aí sem conhecer” Ela dizia: “Pode deixar que eu tomo conta dela” quando a minha mãe faleceu, eu continuei indo na igreja dia de missa, ela rezava o terço todo dia, como hoje a gente ainda faz, todo dia às sete horas, eu e as outras meninas, a gente vai e reza o terço todo dia, mas ela era excelente. E aí eu continuei indo rezar o terço com ela, aí eu passei toda noite, ia pra lá e a gente rezava o terço junto, mas ela era uma pessoa excelente, acho que foi por isso que Deus levou ela, pra ficar lá juntinho dele mais cedo, mas ela era uma pessoa boa.
P/1 - Ela morreu com que idade? Por quê? Como?
R - Não sei a idade dela, não, ela morreu de câncer no estômago, e a idade dela, sabe o que eu não sei? Nunca me informei a idade dela direito, não.
P/1 - Mas você acha que ela era mais da idade da sua mãe ou sua idade?
R - Não, ela era mais velha do que eu, ela tinha menos a idade da minha mãe, ela tinha menos quando ela faleceu, acho que hoje ela tem, parece que seis anos ou é sete que ela faleceu. Ela faleceu... A minha mãe já tinha falecido, não sei, um negócio assim. Não me recordo muito disso, não.
P/1 - E foi ela quem trouxe essa igreja pra cá?
R - Foi ela. Quando eu cheguei aqui pra morar, ela já tinha fundado a igreja, foi ela e o Padre Antônio, que também já faleceu, que é lá da igreja, da Paróquia São Francisco de Assis, eles dois foram quem formaram a igreja aqui, foi quem a fundou.
Quando eu cheguei, era, a primeira vez que eu vim à missa aqui, que eu vim na casa do meu irmão, eu morando lá no Costa e Silva, eu vim à missa aí, mas um lameiro ainda hoje anda. - “Menino, onde é que é essa igreja?” “É ali, é uma capelinha ali”. Quando eu cheguei aqui, eu sou grande, eu topava assim, na igreja, assim, só era levantar uma, bem, mas tava cheia de gente. Mas eu não conhecia ela, só vim até mesmo aproximada, assim, pra conhecer ela, sair com ela, depois que eu vim morar aqui, mas antes não tinha. Eu só vim um dia só pra missa porque eu tava na casa da minha irmã, só. Mas era bem miudinha, toda de madeira.
P/1 - E... Como é que vocês faziam pra ajudar as pessoas? Vocês falam um pouquinho. Mas ia na casa das pessoas? Nas crianças?
R - É, porque tinha a Pastoral da Criança, na Pastoral da Criança, ela era a coordenadora na época. Então, ela era quem tomava conta das crianças, conversava com o pessoal e como era aqui, botava um letreiro na porta avisando que ia ter missa naquele dia, as crianças vinham pra pastoral, as mães que hoje não tinha nada de Bolsa Família, não tinha nada disso que o governo tá dando hoje.
Então, muitas mães, muitas crianças vinham pra pastoral também, mas pela comida que elas comiam e levavam pra casa.
P/1 - E aí, nessas, vocês andaram muito aqui na Vila Esperança?
R - Muito, muito, tinha reunião no Valongo, lá em Santos, tinha um lugar lá no Valongo, que a gente tinha um lugarzinho lá, um canto, que a gente ia pra reunião lá com ela. E eu andava pra todo canto mais ela, depois que a gente começou a se conhecer, a andar assim, pra todo canto a gente ia junto, todo canto.
P/1 - E imagino que você tenha visto muita coisa nessa época. Andando pra lá e pra cá.
R - Ah, a gente anda nos cantos, mas é assim, quando a gente tá fazendo as visitas, a gente vê, mas não pode comentar. Porque tem casas que você chega, você olha, mas só que você... É como um Padre, quando você vai se confessar, ele não pode dizer nada do que você falou, e assim somos nós. Quando fazemos visita nas casas, a gente chega, a gente olha, observa, precisa que a pessoa, você tem que deixar que a pessoa confie em você pra poder ela dizer o que ela quer, o que ela tá precisando. Não é só o primeiro dia você chegar e ver as coisas erradas e você falar, não, primeiro, a pessoa, a dona da casa, tem que confiar na pessoa, tem que a pessoa chegar lá e a pessoa confiar pra poder ela dizer o que é que ela precisa, como ela é tratada, se ela tá com fome, se o marido tá trabalhando ou ele tá parado. Não é de primeira que a gente chega que ela vai dar confiança, mas até hoje ainda tem criança que eu passo e ela fala: “Olha a tia. Olha a tia da pastoral, olha a tia da sopa” Eles vinham pra comer e já traziam aquela tupperwarezinha, aquela coisinha de margarina de sorvete pra levar pra casa, que talvez fosse a única refeição que eles tivessem naquele dia, ea gente tem que ver, ouvir e fazer de conta que é cego e mudo. E surdo também, não pode sair falando do que se vê nas casas dos outros.
P/1 - Agora, quem recebia vocês eram as mulheres, geralmente?
R - Sempre, sempre as mulheres. Só tinha um homem, ele morava mais a mulher, ele saía ainda, mas a gente atendia, ele atendia a gente. “Cadê sua esposa?” “Tá aqui” Mas também ele só falava e voltava, também a gente via e acabou-se. Porque ela tava grávida, aí a gente vai lá “ Você fez a pré-natal?” Se ela não fez, a gente tinha que correr atrás com ela, levar ela no posto pra ela fazer o pré-natal, ver direitinho a caderneta, se ela tomou a vacina, se é a primeira gravidez. Tudo isso é da pastoral que fazia, hoje já tá diferente, hoje eu não sei, eu acompanhei muitas mulheres grávidas. Cada um ali da pastoral tinha mulher grávida e tinha uma quantidade de criança.
P/1 - E, bem, você falou que você não pode falar tanto em detalhes. Mas, em geral, quais são os problemas maiores que vocês identificavam nessas casas?
R - Tem vários, tem alguns que a gente não pode sair comentando, isso é certo. Mas, alguns é... Pai desempregado, que às vezes tá sem trabalhar, a mãe, falta de necessidade pra dentro de casa, comida pros seus filhos, que não é fácil. Anoitecer, amanhecer, olhar, não ter de onde tirar, nem o que fazer. Então, isso aí eu acho que são momentos difíceis pra um pai e pra uma mãe, ver os filhos precisando pedir um pão pra comer e não ter, então, a gente arrumava a cesta básica pra esses tipos. A gente tinha que correr atrás, se a gente tivesse alguma coisa em casa, entre nós, a gente fazia, a gente fazia, já arrumava e levava. Mas quando a gente não tinha, a gente tinha que procurar quem fizesse, como os Vicentinos, os Vicentinos, eles ajudam muitas pessoas, eles arrumam muita cesta básica, no mês passado mesmo, eles ligaram pra mim e me deram 15 cestas básicas. Então, a gente dá pra quem? Pra aquelas pessoas que mais têm necessidade, porque, se a gente for perguntar, quem quer uma cesta básica? Todo mundo quer. Mas, se você vai atrás daquelas pessoas que mais precisam, como eu sou da capela, como eu trabalhei na pastoral, eu conheço cada um assim, aquelas pessoas que mais precisam e a que menos precisa, aquelas pessoas que precisam mesmo, que estão passando necessidade. Aí eu vou lá, pego o nome todinho, direitinho e mando ir buscar a cesta básica, há algumas que não vai, que às vezes não pode. Aí eu mesma vou com esse menino que estava aqui, com esse moreninho, aí eu chamo ele e ele vai comigo a gente pega, põe no carro e traz. E aqui a gente dá para aquelas pessoas que precisam.
P/1 - E outros casos assim, agressão, alcoolismo, uso de drogas?
R - Nunca vi, não, isso aí, se tem esse caso, é só entre eles, em casa, família. Nunca passei por, durante o meu tempo, nunca passei por isso, não.
P/1 - Não foi relatado?
R - Não, não foi. Pra mim, não. Nunca foi relatado essas coisas.
P/1 - Entendi. E... É uma relação muito entre mulheres.
R - É. Isso aí é mais só, mesmo só, assim, dificuldade, principalmente as mulheres grávidas ou aquelas mulheres de primeira viagem, como se chama, que precisam, não conhecem bem o caminho, que às vezes a gente tem que ajudar, dar uma mãozinha.
A Pastoral da Criança é pra isso, e tem aquela farinha que se fazia antigamente e hoje não faz, porque a Pastoral da Família, antigamente, tinha uma farinha que a gente fazia, própria da pastoral, porque assim, só para crianças que estavam desnutridas. “Aquela criança estava desnutrida”, então, até os próprios médicos dos hospitais, do AMA, mandavam procurar a Pastoral da Criança. Hoje não tem mais isso. Por quê? A farinha, ela tem um produto nela que a pessoa, a criança que tem alergia a ovo, não pode comer, e tinha muitas pessoas, por isso que foi proibida, que estavam levando sem a Pastoral saber para a pessoa idosa, e as pessoas, teve uma pessoa que passou muito mal, umas duas pessoas, por causa disso. É uma farinha que a gente faz, mas só o médico pede, passa lá e fala com a pastoral que ela dá farinha para a criança que é desnutrida, não é para qualquer um comer.
P/1 - E me conta uma coisa, você andou até as palafitas também, muitas vezes, eu imagino.
R - Ah, muito, as palafitas é que dói no coração, viu? A falta de higiene, isso dói muito, porque a gente não pode chegar numa casa com a falta de higiene e dizer à dona da casa: “Ó, isso aqui tem que ser feito assim, assim, assim”, ou chegar lá, pegar e lavar, limpar tudo e deixar tudo limpo, eu acho que não é pra pastoral. Quando depois que a gente começa a intimidade com a dona da casa, falar, aí a gente pode chegar a dizer, tá passando necessidade e tá, a pessoa pode chegar lá e dizer como ela pode fazer, qual tipo de comida, verdura, fruta que pode usar. Porque hoje o brasileiro, a gente sabe que no Brasil se destrói muita coisa, às vezes por falta de conhecimento, às vezes porque a pessoa não gosta ou porque a pessoa tem demais, ou tem de menos, ou seja lá o que for, se estraga muitas coisas, principalmente verduras, frutas, essas coisas, hortaliças, tem muita gente que não sabe como fazer. E como a gente teve orientação e estudo pra isso, eu tenho até aí hoje, ainda tenho livro de fazer as coisas tudo direitinho pras pessoas que não tem o que comer direito e a pessoa tem como ir numa feira, chega lá e escolher a folha, o talo de couve, tem muitas hortaliças que é boa. E tem muita gente que não sabe, pra isso era que a Pastoral da Criança também serve para ensinar as mães pra não destruir tantas coisas.
P/1 - E vocês ajudaram em algum caso, assim, de parto que teve que sair correndo?
R - Não, parto não. Nunca me envolvi nisso não, nem eu, nem as meninas que estavam comigo, assim: ”faz o pré-natal” isso a gente estava sempre, todo mês, "foi fazer o pré-natal?”, tá lá, “já fez o pré-natal direitinho, como é que tá?” Isso a gente fez, que também é trabalho da pastoral fazer, cuidar da pessoa, da mãe, que tá, saber a alimentação, se ela tomou a vacina direitinho,que é pra ela depois não ter problema no parto quando for ganhar.
P/1 - Agora, sem falar dos casos que você não pode falar que são delicados, assim, agora tem alguma família, alguma criança, alguma mãe, enfim, que você viu nesses anos todos uma transformação boa, assim, algum caso que você lembra mais, assim?
R - Ó, menino, hoje, depois das pessoas, hoje, tem muitas pessoas que tiveram transformação, sim.
P/1 - Positiva?
R - Positiva. Teve muitas pessoas, sim. Que teve muita... Que hoje tá bem melhor do que antes. O lugar... Tá morando no mesmo lugar, mas o lugar foi restaurado, foi reformado. Eu acho que hoje essa pessoa tá muito bem melhor do que antes do que a época que a gente cuidava, aliás, hoje, gente, só não transforma quem não quer.
Hoje tem muitos meios da pessoa se transformar, porque o governo tá aí ajudando, vamos supor, não essas coisas todas, mas é uma ajuda. Numa casa que tem três, quatro crianças, é uma boa ajuda, porque cada um ganha um total diferente pra estudar, então, se a pessoa não estragar com coisas sem necessidade, aos pouquinhos dá pra pessoa cuidar, porque às vezes tem gente que não cuida só pra aquilo, porque também numa casa com três crianças, come três vezes ao dia, veste, calça, se o pai trabalhar, já é uma ajuda… Não deixar porque, ah, tem uma mensalidade que o governo dá que, ah, eu não vou me esforçar a trabalhar, não, tem que trabalhar pra pra crescer, não cresce se não quiser, porque tem uma boa ajuda.
P/1 - Bem, depois você ficou um bom tempo na Pastoral.
R - 8 anos.
P/1 - 8 anos?
R - Fiquei 8 anos como coordenadora, eu era coordenadora e líder, eu tinha um caderno que é onde a gente nota os nomes do pessoal das crianças, de todas as crianças da Pastoral. A gente tinha, hoje são diferentes, hoje é celular que avisa as mães. De vez em quando chegam as mães aqui. “Dona Edite, hoje tem pastoral?” Digo: “Minha filha, eu não sei. Porque não sou eu mais que tô na pastoral, hoje são outras pessoas. Então, não sei lhe dizer se tem”. “Ah, mas é porque não foram na minha casa, digo: “mas não tá sendo pelo celular?” “Não tem o grupo das mães?” elas: “Ah, mas ninguém me falou. Digo: “Então, não tenho nada o que fazer”
P/1 - Você saiu que ano da coordenação?
R - Ah, não sei não. Sei que eu tenho mais de oito anos que deixei a coordenação. Porque era muita gente, mas não tinha ajuda, entendeu? Ajuda que eu falo é assim, pra fazer as visitas, pra assumir as crianças, pra fazer... Porque a Pastoral da Criança não é só chegar aqui no dia da pesagem, ir dar o lanchinho e mandar embora.
A visita das crianças é você ir hoje numa casa, tá fechada, não tem ninguém, amanhã você volta lá pra saber o que tá acontecendo, Ah, tá fechada, depois você tem que voltar lá, você tem que saber o que tá acontecendo com aquelas crianças daquela casa, com o pessoal daquela casa. Porque, senão, como é que você vai saber? Como é que você vai, num dia que tiver uma reunião, como é que você vai saber, como é que você vai dizer como aquelas crianças estão? Porque elas todas estão ali no livro, escrito no caderno, você vai botar aquela criança pesou 10 quilos, como é que você vai saber? Se você nem é criança, você viu. Não é isso? Então, você tem que ser honesto, você tem que ser sincero com o trabalho que você está fazendo, porque, senão, não vai adiantar nada. Você dizer: “Ah, eu sou da Pastoral. Ah, eu sou isso, eu sou aquilo”, mas você tem que demonstrar que você está fazendo o seu serviço bem feito.
P/1 - Agora, a Pastoral, ela cobre que lugares aqui da Vila Esperança? Todos os lugares?
R - Se for da Divina Misericórdia, é do Morro do Índio pra cá, porque do Morro do Índio pra lá tem a outra Pastoral da Criança, com outra coordenadora, com outra líder, na Perpétuo de Socorro.
P/1 - Que é já na Vila Natal, é isso?
R - Não, na Vila Esperança, a Vila Esperança tem a Perpétua de Socorro e a Divina Misericórdia. Na Vila Natal tem Nossa Senhora de Fátima, que também tem a Pastoral da Criança, e na Nossa Senhora da Lapa também tem Pastoral da Criança, não sei se ainda tem, mas tem sim, que a gente fazia reunião, todas as coordenadoras iam fazer reunião na Nossa Senhora da Lapa. Hoje eu não sei, sábado foi aqui, sábado que passou teve a reunião aqui porque a Perpétuo Socorro tava tendo lá um encontro de jovens, aí não pôde, e na Nossa Senhora de Fátima estava tendo um aprofundamento para as pessoas que fazem liturgia.
P/1 - E o Morro do Índio, ele é um morro mesmo? Tem que subir?
R - Não, é só o nome… porque eu não sei, é um meio ladeira, realmente. É meio ladeira, mas não é esse morro, só que botaram o nome Morro do Índio e eu acho que por isso ficou.
P/1 - E tudo, tudo, tudo a pé você fazia? Tudo, tudo a pé? Tudo você andava?
R - Ah, andava tudo a pé, pra fazer as visitas tem que ser a pé. Aonde tem uma criança, a pastoral tem que ir a pé.
P/1 - E além da pastoral, o que mais você fazia ou faz contribuindo aqui com a igreja?
R - A Pastoral da Criança hoje eu não distribuo mais porque eu já deixei, eu só ajudo financeiramente ou com alguma coisa, quando é o dia da pesagem, aí tá faltando isso. Aí a coordenadora liga pra mim: “Dona Edite, tá faltando isso e isso ainda pra fazer o lanche das crianças” E a gente dá uma ajuda. A Capela da Divina Misericórdia sempre tá presente nisso aí na ajuda e que elas vêm fazer aqui mesmo na Divina, no salão lá em cima, fica lá em cima a Pastoral da Criança, pesagem, tudo é lá em cima.
Fora isso, fora o resto, eu faço de tudo um pouco na capela, como eu sou ministra e, além de ministra, eu sou coordenadora da Capela Divina Misericórdia, então, de tudo eu faço um pouco, eu faço liturgia, eu sou ministra, eu faço… No grupo da oração, eu faço pregação, celebração é que, até hoje, eu nunca fiz. Porque, assim, eu não sei falar em público, não é que eu não saiba, eu não me sinto bem, sabe? Assim, de falar em público, não sou muita coisa, não, na pregação, eu já fico vermelha, parece que o meu sangue quer sair, você imagina, eu estou aqui, mas meu sangue está fervilhando o meu corpo todinho. É, eu sou assim, eu não sei falar em público, então, e o resto eu faço de tudo um pouco.
P/1 - A celebração se diz nas missas?
R - Nas missas, sim, vai ter missa, aí o padre não vem, o diácono está ocupado, então o ministro tem que fazer, isso aí tem que vir um ministro de fora para vir fazer, porque eu, até agora, ainda não me achei capaz de fazer, aí chama outra pessoa de fora e vem fazer, outro ministro.
P/1 - E os padres que passaram por aqui, estão aqui, quem são eles?
R - Dos que eu conheci, foi o Padre Antônio.
P/1 - Falecido?
R - Já faleceu, depois o padre Carlos, que hoje está no Guarujá, Guarujá ou Praia Grande? Parece que ele está no Guarujá, o Padre Carlos. Depois o padre Carlos veio o Padre Eniroque, que é esse que tá aí até agora, mas já teve o Padre José Fernandes. Agora tem o Padre Eniroque e o Padre Oscar.
P/1 - E os padres costumam ficar muito tempo na capela?
R - Não, eles vêm, celebram a missa e vão embora, às vezes, quando tem alguma festa, alguma coisa, eles vêm e ficam, ou quando tem uma necessidade, eles vêm participar daquilo, não sempre, porque eles também têm outros compromissos. Como domingo, são quatro missas na paróquia, então, as missas de lá são às 8, às 10, às 17 e às 19, então, são quatro padres, e não tem padre para tudo isso, então, o mesmo padre que celebra ás 8h, às 10h e às 17h é um só, e o outro padre celebra às 19h, então, as nossas missas aqui são no sábado às 17h e às 19h, é a nossa missa daqui.
Então é assim: no primeiro sábado é missa, no segundo é celebração, no terceiro é missa e no quarto é celebração, mas aí vem sempre o diácono, ou o diácono Valmir, ou o diácono Henrique, ou o diácono Toninho, são três diáconos, um dos 3 vem celebrar aqui.
P/1 - E vocês organizam festas pela capela?
R - Sim, aí tem a Festa da Divina Misericórdia, que é em fevereiro, logo depois da quaresma, porque esse ano a gente faz a novena, sempre está tendo alguma coisa pra gente fazer, só que é assim, quando tem na paróquia, a gente não pode fazer nas capelas, aí a gente deixa passar, como agora, teve a festa de São Francisco, a gente foi mais pra lá do que fica aqui, aqui, às vezes, a gente só ia à noite rezar o texto quando a gente não ia pra lá, mas aqui a gente faz muitos eventos ainda.
P/1 - E qual, tem algum que você gosta mais, assim, todo ano?
R - Ah, da igreja eu gosto de tudo, se eu tiver, sempre em todas eu tô presente. Sempre, a não ser que eu tô viajando, como ano passado que eu viajei, fiquei um mês fora, mas se eu estiver aqui, todos eu participo. A não ser que eu esteja doente, agora eu tô evitando mais de sair por causa desse problema na minha pele, eu tô invitando mais de ir à paróquia, mas aqui, todos eu vou.
P/1 - O que você acha que ia acontecer se essa capela fosse embora e todo mundo que ajuda aqui?
R - Se ela fosse embora, com todo mundo, eu não sei, eu ia sentir muito, porque... Ia sair daqui pra outra, mas eu ia continuar em outra, talvez não fazendo o que eu faço aqui, mas eu ia sempre à missa, eu sempre iria.
P/1 - Mas a comunidade sentiria, talvez?
R - Eu acho que sim, porque sempre estão aqui na missa, apesar de às vezes... Que assim, a gente vai à missa aqui no sábado, domingo vai na paróquia, porque o domingo é sagrado a Deus. Domingos e feriados, dia santo, é sagrado a Deus.
O certo, mesmo que eu tenha missa no sábado, o certo é ir no domingo, porque no domingo é a missa dedicada a Deus, o dia do Senhor. Então, a gente tem que ir à missa, ás vezes eu não vou no sábado, no domingo, mas tem que ir, mas o certo é ir.
P/1 - A paróquia, qual paróquia aqui é? Onde fica?
R - A paróquia fica na Vila Nova. E tem a Nossa Senhora da Lapa que fica no centro. Só que cada uma tem as suas comunidades, a paróquia São Francisco, ela tem a Divina Misericórdia, Nossa Senhora da Lapa, Perpétuo Socorro, a Irmã Dulce. A Irmã Dulce, ela é... não é capela, ela é só um... tem missa lá, mas ainda não é uma capela, e tem outra igreja que eu me esqueci, que fica do outro lado, é um núcleo as duas. É só um núcleo, tem o Vale Verde e tem a São José. Tudo isso são capelas que fazem parte da Paróquia São Francisco.
P/1 - E vocês aqui na capela têm grupo de jovens?
R - Antes a gente tinha, mas agora parece que os jovens sumiram, tudo indo à capela, e os jovens que estão, só vem participar da missa e pronto.
P/1 - Tá tendo alguma dificuldade de chamar jovem para a capela?
R - A dificuldade é o jovem, porque assim, jovem chama outro jovem é igual eu. Eu tenho o quê? 70 anos, se eu for chamar um jovem, participar de um grupo de jovens, como é que eu vou dizer a eles, jovem? Então, tem que ter jovem na capela para chamar os jovens, e os jovens que tem, não sei por que eles não convidam.
Eu tenho a minha neta, que é coroinha, vai fazer 16 anos, ela participa dos grupos de jovens de outras comunidades, da paróquia, ela podia chamar para vir para a capela, mas eu não sei qual a dificuldade. Pra gente, que é adulto, é mais fácil convidar as pessoas, porque a gente tem encontro das mulheres, tem encontro dos homens, a gente tem várias coisas que a gente faz na capela, tem a novena de Natal, tem a novena Nossa Senhora Aparecida, esse ano foi o que a gente não fez, a gente faz a novena a gente faz de... da mancha ensanguentada de Jesus, tem muitas coisas que a gente faz, mas pra isso a gente tem que convidar as pessoas, pessoas de outras comunidades, vem participar e fazer parte da nossa comunidade.
P/1 - E a Vila Esperança, ela é... Como é que você acha que tá dividida aqui a religiosidade? Tem católico, mas tem mais o quê também?
R - Menino, eu vou lhe dizer, nós temos católico. Mas hoje, você olhando, tem mais igreja evangélica sendo aberta do que católica, no meu ponto de vista. Porque religião é uma coisa assim que só quem pertence, porque religião não salva ninguém: “Ah, eu sou da religião”. Mas religião não salva ninguém, Deus só existe em um, não existe dois, nem três, nem quatro, então, cada um tem a sua fé, tem a sua crença. Mas, no meu ponto de vista, Deus só existe um é Deus e pronto, ele morreu na cruz por amor a nós. Mas acha, fulano, acha que abrindo igreja, fulano de tal, com nome fulano de tal, salva alguém. “Ah, fulana de tal…” Eu não acho isso. Eu acho que o que salva é você procurar a sua salvação, confiar, acreditar, Deus é um só, não existe dois nem três Deus, só existe um, se você crê, se você confia, se você acredita, pronto, sua religião é essa, se você quer ser transformado, confie em Deus. Não adianta você estar hoje com... “Ah, eu sou católico, agora eu passei pra igreja fulana de tal, porque lá eu me senti bem”, ótimo, agora vamos ver se o seu Deus é o mesmo, por isso que eu digo, religião não salva ninguém. E não adianta você estar hoje numa igreja, amanhã em outra, procurando o meio de você fazer o quê? Deus só nasceu, viveu e acabou-se. Deu a vida por cada um de nós, ele sangrou, ele foi coroado, mais do que ele sofreu! E a gente não sofre nem um terço do que Deus sofreu, nem nada, não é verdade?
Por isso que hoje eu escolhi servir a Deus até o fim dos meus dias, não sei se eu sirvo bem, eu sirvo do meu jeito, agora, Deus é quem sabe, quando eu chegar lá diante dEle, se eu receber essa graça de eu chegar diante dEle e dizer o que eu fiz ou deixei, porque Ele sabe tudo o que a gente faz ou deixa de fazer nessa terra. Mas aqui nessa terra é que a gente faz a nossa escada lá no céu, pra chegar até lá. A nossa transformação tem que ser aqui. O povo tem uma maneira de dizer assim, antigamente, a gente dizia: “Ah, quando você morrer, você me paga”. Vai pagar o quê? Você tem que pagar aqui na terra. Você tem que fazer a sua vida aqui na terra, você tem que mostrar a Deus quem você é aqui na terra, porque quando chega lá, você vai prestar conta de tudo que você fez aqui. Aí você vai dizer que fez o quê de bom na terra, se você não construiu nada de bom?
P/1 - Para mudar um pouquinho de assunto, você tem um monte de caixa de som aqui na sua sala. Caixa de som aqui e tal.
R - É da igreja, não.
P/1 - É da igreja.
R - Da igreja, essa aqui mesmo é da igreja, agora esse som é meu, mas se você perguntar se eu uso, eu não uso, você sabe o que eu uso mais? A televisão, eu gosto da televisão, se eu não tenho o que fazer, eu me sento aí e vou assistir na TV Evangelizar, na Aparecida, na Canção Nova, isso aí tudo eu assisto.
P/1 - Tem alguma música que vocês cantam na igreja, assim, Padre Zezinho, essas coisas que você gosta mais de cantar?
R - Menino, eu não sou muito de cantar não, sabe, porque a minha voz não é lá muita coisa não. [risos] É uma coisa que eu não sou muito de cantar na igreja, a gente canta quando tá no grupo de oração, todo mundo junto, agora, de cantar mesmo, sou muito de cantar não.
P/1 - Sozinha, assim.
R - Sozinha sou um desastre, para cantar não sou muito não, meu filho.
P/1 - Eu te pedi para cantar algum.
R - Meu Deus do céu!
P/1 - Você acha melhor não…
R - Mas logo eu? Tem vários cantos, a igreja tem cantos maravilhosos, bonitos. Tem cantos bonitos, só que eu não sou muito de cantar, não, a gente canta mais quando tá todo mundo junto.
P/1 - Então não daria uma palhinha, não, pra gente?
R - Ah, não, não, não. Homem não peça isso, não, não. [Risos]
P/1 - Não, tranquilo. Dona Edite, vamos para o caminho para o final, então.
R - Ah, graças a Deus.
P/1 - Da entrevista. Você tem alguma pergunta a fazer, alguma coisa?
P/2 - Tenho, mas aí a senhora pode ser sucinta, é que é uma pergunta que é importante, que é sobre a construção da igreja, que a senhora tem uma ligação direta para ela se transformar da igreja pequenininha, para ela virar esse colosso que ela virou aqui, ela é importante porque tem oficina, tem um monte de coisas, ela reverbera em outras coisas. Então é importante falar sobre essa construção da igreja, que a senhora tá com a mão lá. As mãos da senhora estão marcadas nessa igreja.
R - Não, a minha mão, quem tá lá marcada é Deus.
P/2 - Não, então conta, por favor.
R - Deus é quem tá lá e Deus foi quem fez tudo aquilo, nós só fizemos o meio de chegar até ali. Mas se Deus não existisse, nada disso existiria.
Não, a minha participação é assim, como eu moro aqui em cima da capela da igreja, a gente sempre assim, tudo só vem aqui, todo procedimento só vem aqui na capela: “Tô aqui atrás da dona Edite”. Quando o padre liberou pra fazer a capela, foi a primeira coisa que ele disse: “Ó, tem que ter um homem de frente, a Dona Edite vai ficar só pra fazer o chá, o café, almoço, se for necessário, mas Dona Edite não vai poder ficar aqui. Pode arranjar, pode um homem ficar”. “Vai derrubar a igreja?” “Vai” “Tá bom”.
Aí quando chegou pra derrubar a igreja: “O dona Edite, quem vai derrubar a igreja vai ser a firma fulano de tal, e vai levar tudo da igreja, a senhora tem que desocupar tudo dentro da igreja” “Tá bom” Aí eu fui lá, tiramos tudo que tinha dentro da igreja, colocamos um lugar, colocamos tudo lá, que vai derrubar a igreja toda.
Como uma parte da igreja já tinha sido feita, que era aquela parte de trás, a mais alta lá atrás, da cozinha ali, já é antiga, já tava pronta. Aí a gente colocamos tudo ali, naquela parte em cima e embaixo. Daqueles primeiros degraus embaixo ali, aqueles degraus ali da escada que sobe, você teve lá, viu ele não? Lá é antigo, já estava pronto. Colocamos tudo lá. “Tá bom, tá aqui pronto”. Tiremos tudinho, que era nossa obrigação como mulher, como da igreja, fizemos isso tudo, eu e as outras meninas.
No outro dia, o caminhão encostou a máquina pra derrubar a igreja. “Com quem eu falo pra derrubar a igreja? O que é que vai ser?” “Dona Edite tá em casa, vai lá, chama ela” Se não o homem chegou aqui: “Dona Edite, a senhora tem que ir ali dizer ali na igreja se vai precisar tirar alguma coisa que eu vou levar ou não”. Cadê o homem pra me substituir, pra ir lá tomar frente do trabalho da igreja? Não apareceu nenhum homem. Digo: “Meu filho, pode derrubar e levar tudo que tiver aí dentro, o que eu tinha de tirar, eu já tirei. O resto pode levar”
Então, aí ele derrubou tudo, botou dentro do caminhão e se mandou, aí, agora tem que mandar limpar o chão, o piso, pra tirar toda a sujeira, pra deixar limpinho pro rapaz, quando chegar, que vai medir, pra ver o que vai fazer, não sei o que, no terreno, pra ver o que vai fazer. Foi chamar o homem. Aí o homem veio. “Dona Edite, quem vai limpar ali? A senhora tem que procurar”... “Eu? Por que eu?” Aí lá vai eu arrumar gente pra limpar tudinho, limpou tudo. No outro dia chega o profissional pra fazer o trabalho do piso, o preparo do piso pra ver como é fazer os alicerces, as coisas, medindo tudinho. “Dona Edite, tá tudo pronto, tá tudo medido, tá tudo pronto, agora, precisamos…” Aí me deu uma lista desse tamanho. Eu disse: “A mim que você vai me dar essa lista?” “Não tô vendo ninguém”. Pronto, daí em diante, foi só eu, material, tudo que vinha, veio o menino, o Giba, que foi muito presente também, que é lá da paróquia, o engenheiro lá da paróquia, ele veio. Aí vinha, mas como ele mora na Vila Nova, na Vila Natal, pra lá, quem mora aqui na Vila Esperança, em cima da igreja, aí sobrou a maioria tudo mais pra mim, era o material chegando, material pra comprar. “Dona Edite, tá faltando isso”. Lá vai eu. “Ô, Dona Edite, a senhora faz um chá, um cafézinho?” “Tá aqui.” Que bom, água… tudo. Então, a minha participação dela foi de cima, do derrubar ao ponto que ela tá hoje. E continua sendo que, como eu sou coordenadora, faço de um tudo, não sou só a coordenadora, coordenadora é só um mérito, coisa que dá para as pessoas, para toda bronca que vem cair por cima da pessoa. “Ah, porque você não é a coordenadora? você é quem devia estar de olho nisso”. Não é isso? O chefe sempre é quem está ali de olho em tudo, tanto que me botaram um capacete e botaram o chefa lá em cima.
P/1 - E o homem não apareceu em nenhum momento?
R - O homem até hoje não apareceu, só os trabalhadores para fazer as coisas.
P/1 - Mas quem que falou pra você isso, que era pra você ficar nesse cantinho?
R - O padre, não era só pra eu fazer chá, o café, as coisas. Aí depois ele disse assim: “Dona Edite, tá chegando, Dona Edite, muita coisa, muito pouca coisa assinada pela senhora”. Eu digo: “Olha, fala aí com o senhor Giba, porque o Giba traz as coisas, as folhas, coisa e leva pra lá pra paróquia”. Depois: “Agora só vai sair daqui se tiver sua assinatura, se não tiver, não vai”. Aí pronto, tudo foi passado pela minha mão e tudo isso eu assinava, até hoje, tudo que é comprado da paróquia, é eu que assino, é eu que compro e eu que assino. Até hoje.
P/1 - Esse padre algum falou pra você alguma coisa? Obrigado, desculpa?
R - Ah, fala! no dia da inauguração, falou, a placa tá lá, inaugurada, é um bom padre. Padre Eniroque. Eniroque, o nome dele. Ele agradeceu a todos, porque isso aí não foi eu só que fiz dizer: “Ah, foi só isso”, tem a minha mão em tudo, mas também teve os outros que ajudaram, ou de um jeito ou de outro, mas todos participaram, todos ajudaram.
P/1 - Que placa é essa que você falou?
R - Não, tá lá dentro da inauguração da igreja, tá pelo lado de dentro, se vocês quiserem tirar uma foto depois, vocês podem. Mas tá pelo lado de dentro da igreja, foi o dia da inauguração que ela foi colocada lá.
P/1 - O que você sentiu nesse dia de inauguração?
R - Ah, menina, eu chorei tanto de alegria, eu fiquei muito alegre, muito contente, tanto dela estar pronta, que eu não esperava ela estar pronta nesse nível que ela tá, porque a base inicial da conversa foi assim: “vamos suspender toda de bloco, cobrir e botar um forro”, e depois eu vejo ela desse jeito, depois é como eu lhe digo, Deus transforma tudo, só basta a gente querer. E hoje é como ela está, não foram feitas só as paredes, foram feitas as paredes, mas muito bem feitas, o piso, tudo, tudo escolhido, o piso, eu escolhi dei opinião de tudo, viu!. [risos] É, de tudo, só não dei palpite nas telhas e nas madeiras, mas o resto... Toda a gente... Vinha o piso, as fotos, o Giba trazia as fotos do piso: “Olha, Dona Edite essa cor, está boa essa daqui? Está boa essa?” “Está boa”.
Os armários, tudo, o padre disse: “Olha, Dona Edite, a senhora tem que ver os armários, viu? “A senhora tem que ver, porque tem que ser feito como a senhora quer, porque a senhora é quem cozinha”, e toda comida do dia da inauguração fui eu que fiz. Todo banquete, ainda teve isso. Não eu sozinha, viu? Com a minha turma toda, com a comunidade toda, ajudando, doação, a gente pedindo doação, que essa capela foi feita mais de doação, Graças a Deus. O altar ali, tudo foi doado, uma benção de Deus lá de Santos que doou, não sei de onde ela mora, mas ela doou, mesmo sem conhecer a capela, mas ela doou. Tudo, a maioria foi quase tudo doado, graças a Deus.
P/1 - O que você escolheu para o banquete nesse dia? Você se lembra?
R - Ah, meu Deus do céu. A gente fez, o que eu fiz?
P/1 - Não tem problema se esquecer, tá?
R - Não tem problema de esquecer? Não? Não. Eu fiz feijão tropeiro e foi almoço. Eu fiz feijão tropeiro e fiz outro tipo de feijão, porque se a pessoa não gostasse, não comesse feijão tropeiro, comia do outro. Fiz arroz, macarrão, salada, pernil assado no forno, coxa sobrecoxa no forno, três galinhas cozidas, bem sequinhas, bem deliciosas, o que foi mais? Teve mais coisa, e a gente não lembra de tudo mais.
P/1 - Claro. E que dia foi isso? A data?
R - Vocês sabem que a data eu não me lembro, eu sei que foi... Foi em setembro, outubro, foi em setembro. Lá na placa tem. Lá vocês vão ver, tirar a coisa. Lá vocês vão ver a data. Tá tudo lá.
P/1 - E assim, como é que você se sente quando você tá lá dentro?
R - Ah, eu me sinto no paraíso. Como que eu tô no céu quando eu chego lá dentro? É, todo dia eu vou lá, todo dia à noite a gente vai rezar o terço, toda noite, que adianta fazer uma capela dessa e deixar ela lá sozinha, abandonada?
Sábado tem missa, na quarta-feira, hoje, tem grupo de oração, hoje não vai ter porque a gente vai ter missa hoje lá no Morro do Índio, lá na praça, aí a gente vai ter a missa lá. Lá no Morro do Índio, na praça, a gente vai ter a missa. Agora, em novembro, vai ser naquela praça ali do Zumbi, vai ser lá em novembro, a gente tá olhando a data ainda, se não seja uma data que tenha lá na paróquia, uma data que esteja livre, e hoje a missa vai ser com o padre Adriano, tem pouco tempo que ele foi padre.
P/1 - Tem algum cantinho da Igreja da Capela que você gosta mais?
R - Eu gosto diante do Santíssimo, quando a gente se ajoelha ali diante do Santíssimo, que a gente fica ali, aí o mundo ali pode... parece que não tem mais nada, só tá eu e ele ali, só nós dois. Não tem um lugar melhor, quando a gente chega ali e se ajoelha diante dele, o mundo inteiro parece que não existe, só tá ali eu e ele ali, só. Pra mim tá ótimo, se eu morresse ali naquela hora, Ave Maria, tava bem morrida. Não é? Porque é muito bom.
P/1 - Você... Últimas perguntas, então, agora?
R - Então, meu Deus do céu, última pergunta, viu? É.
P/1 - Só mais duas, só, por favor. A penúltima é a última.
R - Ah, pergunte.
P/1 - A penúltima é que você falou assim, eu estou aqui por causa dos meus filhos.
R - Isso.
P/1 - Mas qual é o sentimento de você viver e estar aqui todo esse tempo na Vila Esperança? Assim, você realmente acha que vai ficar mais tempo aqui?
R - Eu acho, tem hora que eu acho que eu só vou sair daqui depois que eu morrer. Outra hora eu penso em ir embora à minha terra, e aí eu fico assim, não sei. Eu só acho assim, que enquanto meus filhos viverem aqui, eu vou viver, porque Deus, Nosso Senhor, Ele tá em qualquer lugar. Né? Tanto aqui em Cubatão, como em Penedo, Aracaju, em qualquer outro lugar que Ele estiver, eu posso servir a Ele do mesmo jeito. Agora, filhos, a gente tem, vai embora, Ele chama, vai embora, ou Se ele dissesse assim: “Mãe, eu não quero mais viver aqui, eu vou morar em Penedo, em outro lugar”. Meu filho mais velho já falou, que quando se aposentar vai embora pra Penedo, aí vai ficar só o mais novo aqui, aí você imagina a minha decisão, como é que eu vou fazer? Passar um tempo aqui, outro tempo lá.
P/1 - Como foi você contar um pouquinho da sua história pra gente hoje?
R - Pra mim foi bom, é bom. A pessoa falar, conversar um pouquinho é bom, e saber que ela anda por aí também foi bom. Ah, é bom.
P/1 - Foi bom?
R - É, e falar de Deus também foi muito bom, a pessoa saber que Deus também transforma as pessoas. Quem eu era e quem eu sou hoje, quem eu fui e quem eu sou hoje, tem vezes que o meu irmão, quando eu tô de ministra que eu tô lá, que o meu irmão tá na missa, uma vez ele chamou, disse assim: “Quem diria que a Edite ia chegar onde chegou, pra estar ali hoje, ali em cima?” Porque ele é meu irmão, ele me conhece, quem eu fui e quem eu sou hoje. Né? É, meu filho, mas Deus transforma, o Espírito Santo, ele, quando ele faz, maravilha, só basta a gente deixar, ele transforma nossas vidas.
P/1 - Você achou que ia liderar a construção de uma capela?
R - Não, meu filho, isso foi uma coisa que nem sonho, nunca me passou isso na minha mente. E nem viver como eu vivo hoje dentro de uma capela, nem sonho, nunca passou na minha cabeça. E a igreja? Claro que toda a vida eu gostei de ir para a igreja, não do jeito que eu sou hoje, mas ser coordenadora de uma capela? eu nunca pensei, nem em sonho. Nunca na minha vida passou na minha mente isso, do jeito que eu era, pra hoje eu ser uma coordenadora de uma igreja católica, nunca pensei que eu fosse, não. Mas se Deus quis, eu estou aqui, se Ele me trouxe de tão longe para fazer isso, eu vou tentar fazer o meu melhor. Já que eu assumi, vou fazer o meu melhor, que eu sei que Ele vai me ajudar a fazer. Então, tô aqui pra o que Ele precisar de mim, o que Ele escolher pra eu fazer, eu tô aqui, aí depois a Ele pertence.
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