Projeto Memórias da Vila Nova Esperança
Entrevista de Luciano Leal Teixeira
Entrevistado por Nataniel Torres (P/1) e Lígia Scalise (P/2)
Cubatão, dia 23 de outubro de 2025
Entrevista MVE_HV004
Transcrito por Miriam Allodi
Revisado por Nataniel Torres
P/1 - Luciano, então, bom dia. Pra gente começar e deixar registrado, vou pedir pra você me dizer o seu nome completo, sua data de nascimento e o local que você nasceu.
R - Tá. Bom dia, me chamo Luciano Leal Teixeira, tenho 32 anos, nasci na Bahia.
P/1 - Qual sua data de nascimento?
R - 17 do três de 1993.
P/1 - E você me contou que nasceu na Bahia e em algum momento você chegou aqui na Vila Esperança. Mas para a gente entender antes de chegar aqui, vamos falar sobre a sua família. Você conheceu seus avós?
R - Conheci.
P/1 - Me conta um pouco sobre seus avós, por parte de mãe, por parte de pai, o que você lembrar.
R - Conheci meus avós, meu avô Casimiro, conheci na Bahia, veio para Cubatão também, nessa cidade, minha família quase toda veio parar aqui, nessa cidade. Ele era um cara muito... aquele ritmo do Norte mesmo, aquele cara matuto, que seguia tudo na regra mesmo, sempre se ensina ou não, e vida que segue. Minha avó sempre foi aquela pessoa que sempre, mais maleável, com um puxãozinho de orelha, mas maleável assim, sempre com risada, reunia a família no final de semana, mesmo com aquela situação da boia, aquela situação um pouco carente que é lá também, e chegou uma época que meus avós vieram pra cá e na sequência vieram meus pais junto.
P/1 - Seu avô Casimiro que você estava falando, ele é pai do seu pai ou da sua mãe?
R - Pai do meu pai.
P/1 - E da sua mãe, você conheceu também ou não?
R - Não, da minha mãe eu não conheci. Da minha mãe eu conheci minha avó.
P/1 - E do seu pai, o que eles faziam lá na Bahia? Com o que eles trabalhavam? Como era a vida deles lá?
R - Lá era na roça, que já vem de geração e família. Sempre criavam gado,...
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Entrevista de Luciano Leal Teixeira
Entrevistado por Nataniel Torres (P/1) e Lígia Scalise (P/2)
Cubatão, dia 23 de outubro de 2025
Entrevista MVE_HV004
Transcrito por Miriam Allodi
Revisado por Nataniel Torres
P/1 - Luciano, então, bom dia. Pra gente começar e deixar registrado, vou pedir pra você me dizer o seu nome completo, sua data de nascimento e o local que você nasceu.
R - Tá. Bom dia, me chamo Luciano Leal Teixeira, tenho 32 anos, nasci na Bahia.
P/1 - Qual sua data de nascimento?
R - 17 do três de 1993.
P/1 - E você me contou que nasceu na Bahia e em algum momento você chegou aqui na Vila Esperança. Mas para a gente entender antes de chegar aqui, vamos falar sobre a sua família. Você conheceu seus avós?
R - Conheci.
P/1 - Me conta um pouco sobre seus avós, por parte de mãe, por parte de pai, o que você lembrar.
R - Conheci meus avós, meu avô Casimiro, conheci na Bahia, veio para Cubatão também, nessa cidade, minha família quase toda veio parar aqui, nessa cidade. Ele era um cara muito... aquele ritmo do Norte mesmo, aquele cara matuto, que seguia tudo na regra mesmo, sempre se ensina ou não, e vida que segue. Minha avó sempre foi aquela pessoa que sempre, mais maleável, com um puxãozinho de orelha, mas maleável assim, sempre com risada, reunia a família no final de semana, mesmo com aquela situação da boia, aquela situação um pouco carente que é lá também, e chegou uma época que meus avós vieram pra cá e na sequência vieram meus pais junto.
P/1 - Seu avô Casimiro que você estava falando, ele é pai do seu pai ou da sua mãe?
R - Pai do meu pai.
P/1 - E da sua mãe, você conheceu também ou não?
R - Não, da minha mãe eu não conheci. Da minha mãe eu conheci minha avó.
P/1 - E do seu pai, o que eles faziam lá na Bahia? Com o que eles trabalhavam? Como era a vida deles lá?
R - Lá era na roça, que já vem de geração e família. Sempre criavam gado, porco, tirava leite de vaca pra vender. Sempre foi essa tradição na Bahia, porque emprego fixo lá é coisa rara, é muito difícil. Então lá, não me lembro muito, muito, muito, mas, assim, é muito difícil se conviver lá por causa dessa situação do emprego, né? E naquela região ali de Caetité, que é bem no interiorzinho, uma cidade bem pequenininha, ali é difícil. Então, a renda ali mesmo é você plantar alguma coisa e você colher.
P/1 - Mas seu avô tinha terras dele ou ele trabalhava pra alguém?
R - Não, meu avô sempre teve, minha família sempre teve. Já veio passando em gerações, né? Aí sempre teve terra, sempre criou alguma coisinha, sempre plantou e foi vivendo a família até hoje.
P/1 - Você nasceu lá, mas você veio pra cá pequeno? Como é que foi isso?
R - Eu só nasci lá e vim pra cá, porque quem veio primeiro pra cá foi meu pai. Meu pai veio, aí depois o meu irmão mais velho. Aí ficou eu, minha mãe e minhas outras duas irmãs também, que é mais velha que eu, que eu sou o caçula da família, da parte dos homens. Então os últimos a vir foi nós três.
P/1 - Então, só pra gente fechar esse capítulo lá da Bahia. Seu avô, você tava contando que trabalha plantando e tal, e depois você veio pra cá. E aí, o que aconteceu com eles lá? O que você sabe da história deles lá?
R - Então, de lá o que aconteceu? Meu avô já faleceu, minha avó também faleceu, e meus outros tios que continuam por lá tocando. Ainda tem algumas pessoas por lá e vai vivendo a vida. Os outros da família, todo mundo veio pra cá, pra Baixada Santista, minha família toda veio pra Cubatão, e tem alguns parentes também que veio, alguns tios também que veio, tia veio pra cá, pra Cubatão, então todo mundo aqui. Lá ficam alguns parentes, meu irmão, somos seis, o segundo mais velho voltou pra lá agora há pouco tempo, pra cuidar das terras, dos gados. Ele tá lá cuidando. Ele ficou lá.
P/1 - Sua família continua trabalhando na roça lá?
R - É, um ou outro só, mas a maioria tá todo mundo aqui.
P/1 - Então vamos falar sobre seus pais. Seus pais nasceram onde e qual o nome deles?
R - Meu pai se chama Jaime Alves Leal Teixeira. Nasceu também na Bahia, descendente de lá. Minha mãe, Maria Aparecida Leal Teixeira, também da Bahia, de Caetité. Todo mundo é daquelas cidades pequenininhas do interior. Todo mundo é dali então se conheceu, há muito tempo se conheceu lá, fizeram a vida lá e viemos pra cá.
P/1 - Então vamos falar sobre cada um deles, vamos chegar na mãe, primeiro me conta como era sua mãe, como é sua mãe? Sua mãe tá viva, né?
R - Tá, tá viva.
P/1 - Como é sua mãe? Qual é o jeito dela? Qual a aparência dela? E como é que ela é como pessoa?
R - Ah, minha mãe, como pessoa, é a melhor mulher do mundo. É aquela pessoa que abraça todo mundo. Meu pai faleceu, então sobrou muito pra ela. E ela continua do jeito dela, carismática. Costureira, de raiz. Desde a época do Norte, ela sempre foi aquela pessoa acolhedora. Dava bronca? Dava bronca, puxava a orelha, mas sempre foi o coraçãozão. Sempre foi a matriarca de todo mundo. Sempre quem estabilizava todo mundo era ela. Falar da minha mãe é até meio suspeito. Minha mãe é a melhor mulher do mundo.
P/1 - E seu pai, me conta um pouco sobre ele. Quem ele era, como ele era?
R - Ah, meu pai era gente boa, só que aquele ritmo do Norte. Da Bahia, assim: “Sim, sim”. “Não, não”. Um cara muito chucro, num tipo... “Ah, tá conversando, você não pode passar no meio. Espera terminar a conversa”. Então sempre foi aquele cara muito na linha. É o costume deles da Bahia, aqueles caras do sertãozinho ali mesmo, antigo. Meu pai faleceu já tem uns 18 anos. Faleceu aqui em Cubatão, com 18 anos, com problema de saúde, e de lá pra cá vamos seguindo a vida. Veio pra cá, trabalhou na Ecovias (Operadora de rodovias concessionadas), varrendo essa Imigrantes, limpando tudo, então ele fazia parte disso daí também, e foi uma pessoa muito querida aqui no nosso bairro também, foi uma das primeiras pessoas também a chegar, foi um dos caras que fundou o Beco Só Love, não sei se vocês já ouviram falar, o Caminho de São Cristóvão, o Beco Só Love, Então foi ele uma das primeiras pessoas que chegaram aqui na Vila Esperança também na época.
P/1 - Então vamos falar um pouquinho mais dessa questão do seu pai, que é importante a gente entrar nesse viés. Aí seu pai veio pra São Paulo, pra cá, e como é que é essa trajetória dele aqui?
R - Então, ele veio pra cá. Aí fez um barraquinho lá no Beco Só Love, lá que é o Caminho São Cristóvão. Era palafita na época, né? Aí veio ele, aí teve outros moradores também que já estavam no local. Aí aos poucos foram aterrando. Ele conseguiu um emprego, aqui foi trabalhando, trabalhando. Aí aos poucos veio trazendo minha família pra cá. Aí foi onde se estabilizou todo mundo aqui na cidade de Cubatão, aqui dentro da Vila Esperança.
P/1 - Só pra gente seguir, o que é esse “Só Love”? Pra quem não conhece, pra gente entender. Quem tá de fora não sabe o que é isso.
R - “Só Love” é um beco, uma viela. Na realidade é Caminho São Cristóvão. Só que aí nós fundamos um time, as pessoas mais antigas colocaram o nome “Beco Só Love”. Na época aqui antigamente era bem tranquilo. Tinha esses negócios, tinha um casal lá que sempre vivia junto pra lá e pra cá e o pessoal antigo fundou. Aí ficou esse nome até hoje, Beco Só Love. Tanto que tem um time nosso aqui que eu faço parte também hoje, da nova geração. Jogo, sou diretor também desse time. Por isso que ficou o Beco do Só Love, mas na realidade é Caminho São Cristóvão.
P/1 - Então, vamos voltar lá para a sua infância. Você nasceu lá e veio para São Paulo. Como é que foi a sua infância? Porque você estava aqui já na vida. Então me conta isso. Você não lembra de quando você saiu de lá da Bahia e veio para o Brasil, para cá, para Cubatão?
R - Lembrar, lembrar, eu não lembro, porque eu era muito moleque, eu só nasci lá na Bahia, só nasci e vim para cá, não tinha nenhum ano quando eu vim para cá. Mas chegou uma época que nós veio crescendo e nós vem nos recordando de algumas coisas. A infância aqui foi um pouco turbulenta, cara. Aqui, a Vila Esperança, é isso aí. Então, tipo assim, pô, nós viemos todo mundo da Bahia, mano. Aqui, saneamento básico, aqui, você vê que alguns lugares, até hoje, ainda nós não temos. Então, nós temos que sobreviver. Tem que puxar água, fazer famoso gato. Então, pra nós, ter uma infância, tipo assim, foi difícil. Difícil pra caramba, porque naquela época, nós não tínhamos condição, nosso pai e nossa mãe. Não tínhamos condição. Então assim, se virando com o que podia, não tinha luxo, não tinha nada, não. E é olho no olho e vamos viver na vida. Às vezes você toma café, às vezes você não toma. Às vezes você tem alguma coisa pra comer no almoço, beleza. Você tem, você come. Se você não tiver, você espera seu pai chegar ou sua mãe chegar ou alguém te dar alguma coisa, você come mais à noite. Então assim, a infância é fácil de dar vida à inspiração. Não é, ainda mais naquela época pra cá. Agora melhorou um pouco, mas naquela época pra cá, temos poucas pessoas. Tanto que o índice de mortalidade naquela época era muito alto. Então, assim, muito difícil. Daquela época pra cá, da... que eu cheguei aqui, mesmo aqui, que tem minha idade, poucos que estão, tipo, vivos, que não seguiu outro caminho e também que não veio a óbito por causa de algum tipo de doença, de água de esgoto, de várias coisas que deram na Vila Esperança. Então, assim, não... aquela infância pra cá não é fácil, mano. Não é, ainda mais se morar ali em Mangue, em palafita, pô. Eu acordava dentro da minha casa lá, pô, com a água no joelho, mano. Tá entendendo? Então assim, pô, Vila Esperança. Esperança não é pra qualquer um, mano. Esperança é pra quem?
P/1 - Tem alguma situação que você lembra, pra você contar alguma história, que se você voltar pro passado vem na sua memória?
R - Ah, tenho, tenho um monte. Pô, pra que história mais? Pra que nós que moramos na favela, só em estar vivo já é uma história. Pô, meu pai me acordava aqui, porra, que nem eu acabei de falar, com água no joelho, mano. Nossa casa alagada. Entendeu, mano? E assim, tem uma irmã que é mais nova que eu, então o meu pai colocava eu e minha irmã em cima da cama e ia levantar os móveis, mano. E deixava a água entrar, não tinha o que fazer, mano. Alagava o beco todo, mano. Aí ia secar a água, a maré esvaziando e a água indo embora. Aí no outro dia você via os prejuízos. Aí você perde uma geladeira pra você comprar outra geladeira naquela época. Entendeu, mano? Então assim, aí tem história pra caramba, mano. Vila Esperança é Vila Esperança, mano. É esperança mesmo. Porque se tu não tiver esperança aqui dentro, é complicado, mano.
P/1 - E como é que era para estudar, Luciano, nessa época? Tinha escola, não tinha? Como é que foi essa questão da educação?
R - A educação nossa aqui sempre foi precária. Temos a escola hoje no Morro do Índio. Eu estudei lá, lá no Morro do Índio, mesmo com toda dificuldade, conseguimos aí ter um ensino, aprender algumas coisas, falar um pouco a nossa língua, que dentro da comunidade todo mundo fala: “Tem que saber falar isso aqui não, você tem que saber falar a língua do povo, mano. Tem que saber falar a língua da comunidade”. Então nós aprendemos isso um pouco. É difícil, mano, porque tem uma escola ali e você vai. Tem merenda, tem merenda. Tudo bem, mas você vai viver só de merenda? Tá entendendo? Então a nossa infância aqui foi complicada, mano. Você tem que ajudar aqui, você tem que ajudar ali. Quantos caminhões de aterro não carreguei? Tá entendendo? Então é foda, mano.
P/1 - Tem alguma história que te marcou, que você lembra pra contar pra gente desse período, dessa época?
R - Cara, história, mano. Deixa eu ver uma aqui. Tem muita, mano. Tem história boa, mano. Tem história ruim.
P/1 - O que você quiser contar, mas que te marcou, que você lembra pra contar pra gente?
R - Cara, a nossa infância aqui, velho, sempre foi marcada por altos e baixos, mano. Teve uma vez que nós tava ali no campinho, jogando bola, um cara discutiu com o outro, mano, quando pensou que não, nós tivemos uma briga generalizada, mano, cara que saiu sem dente, mano. Tá entendendo? Então, assim, pô, nós tem vários fatos que aconteceram na nossa infância, porque naquela época ali era tipo “Sim Sim - Não Não”, era terra sem lei, mano. Entendeu? Eu era novo naquela época, só que tem uns caras que vêm de um regime muito, tipo assim, muito rígido, mano, que não gostava de muita conversinha, entendeu? Então, assim, mano, nós… Tem muitos fatos que aconteceram aqui dentro da nossa comunidade e no nosso lado, que marca não só a minha história, como a história, da minha geração, a geração passada, tá entendendo? Que os caras que eram antigos também lembram: “Pô, você tava lá naquele tal dia? tu era molecão,” - “ eu tava lá também” - “Tu viu o que aconteceu com fulano?” - “Pô, ví, lembro”, tá entendendo? É muita história que tem aqui dentro, história boa, tem histórias também que é ruim, que nós já vimos gente morrer do nosso lado, né, mano? Então, assim... Vila Esperança, mano, começou a ter uma disciplina aqui dentro, a ter o respeito mesmo, agora não se pode fazer mais isso, pô... durou até chegar isso, então, naquela época lá, mano nós viu muitas pessoas morrer do nosso lado, mano. Tá entendendo? A nossa realidade é essa, não tem que chegar aqui e eu fantasiar, não. Aqui foi “Pedra 90”, mano, Vila Esperança, é isso daí, não tem maravilhas aqui dentro, mano, aqui dentro, os sobreviventes que tem aqui, graças a Deus, foi os que escolheu outro caminho, que (disseram): “vou ficar aqui até chegar uma melhoria,” chegou alguma coisinha, melhorou e quis viver a vida, mano, mas daquela época pra cá mesmo, é poucos caras, poucos caras mesmo, que tá hoje aqui, sobrevivendo aí mesmo, é esses veínho (velhinhos) que eu fico conversando muito aí, que viu eu crescer também, que passou por muita coisa aqui dentro. Tá entendendo? Vila Esperança é isso daí, mano. Tem muita, muita, muita história aqui, e eu conto um pouco. Tem cara que é mais antigo que eu, se for parar com vocês pra conversar mesmo aqui, ficar uns 2, 3 dias aqui contando várias histórias aqui, tanto histórias boas quanto histórias ruins mesmo que não tem como chegar a contar só a história boa da Vila Esperança, pô, tem que contar a Vila Esperança toda. Vila Esperança aqui, era barro, mano, era barro. Vila Esperança começou a ser formada da década de 80 pra cá, quando pegou fogo lá na antiga Vila Socó, veio uns moradores, veio o pessoal do... Porque aqui é uma cidade muito nordestina, Bahia… esse negócio veio muito pra cá, então começou a ser formada, o pessoalzinho na linha do trem era só barro, mano, não tinha nada. Então, assim, você brigou aqui, mano, putz... (Vou) falar pra você, mano: - Você arrumou uma dor de cabeça tremenda aqui naquela época, você arrumou qualquer tipo de briga aqui, sendo errado! Aqui era olho por olho, dente por dente e... (Vou) falar pra você, viu, cara: - Difícil, mano, difícil... Agora melhorou, melhorou bastante, acabou com isso.
P/1 - E, Luciano, você estava me contando isso nessa época, você era criança. Como é que era pra você, criança, começar a entender o mundo assim, desse jeito que você estava me contando? O que você sentia? Como é que era pra você, Luciano?
R - Mano, eu nasci aqui dentro. Nós estamos acostumados com isso, mano. Nós estamos acostumados a andar no mangue, pô.
P/1 - Então, isso que você estava me contando, você era criança. O que é que você sentia com toda essa situação aqui na vila? O que você sentia, Luciano?
R - Cara, é que é que nem eu falei, mano. Eu nasci aqui dentro, mano. Eu nasci vendo o lado bom e o lado ruim das coisas, mano. Na realidade, eu nasci na Bahia e vim pra cá e não tinha nenhum ano, mano. Então, o que acontece aqui hoje, pô, tá todo mundo acostumado, mano. Temos a operação da polícia aqui dentro. Pô, ninguém se assusta com isso. É uma coisa que, em outros lugares, todo mundo se assusta. Aqui dentro, ninguém se assusta mais com isso. Então naquela época você ficava meio assim, “pô, mas e aí? Ah, mas morreu, morreu, acabou”, mano. Por causa da nossa rotina, do nosso costume, mano. Então você vê, pô, nós estamos acostumados a andar dentro do mangue, mano. Correr no mangue com o rato, mano. Acostumado a pisar em água, que rato mija, mano. Tá entendendo? Então assim, nós estamos acostumados com essas situações da nossa comunidade. É a Vila Esperança, mano. Aqui foi fundada pelos caras mesmo que é a raiz, mano. Os caras que sobreviveram, mano. Um dos oito não está mais aqui. Mas é assim, pô, você vai se assustar mais com o quê? Você viveu a infância toda no meio disso. Então você vai se assustar com o quê hoje em dia? Não tem o que se acostumar mais. Chega a notícia aí, “fulano, aconteceu isso e aquilo”. Ou mais. Normal, mano. Não é normal pra quem tá de fora, pra burguesia. Mas pra nós que vem de uma comunidade carente, que foi formada aqui a ferro e a fogo, mano. Não é normal, mano. Isso daqui nunca teve água, mano. A energia foi gato que nós puxava. Os caras mais antigos puxavam pra ter uma luz dentro de casa. Então, assim, pô. Água vem aí e temos indício até hoje. Lugar que alaga aqui dentro da Vila Esperança, então. Estamos falando de uma comunidade que avançamos só na (Avenida) Principal, que é a asfaltada, mas aqui pra dentro tá aqui. Nas vielas continua, mano. Tem gente que não sabe o que é palafita. Gente que não sabe o que é passarela, mas o que é passarela? É desfile? Não, não é desfile não, amigão. Passarela é aqui dentro. É formada por barraco, onde tá mangue, o pessoal coloca tábua ali e chama passarela. Tem gente que não sabe o que é isso. E daí foi formado lá atrás, entendeu? Aí os moradores vieram aterrando e foi acabando com as passarelas. Mas 40% hoje da nossa comunidade é mangue, é passarela. Então nós vamos nos assustar com o quê? Hoje não tem mais por que se assustar aqui dentro. O que vem acontecer aqui dentro é normal. O que aconteceu lá atrás, lá que era coisa abismada, já ficou normal, imagina hoje em dia. Então, assim, muita coisa aconteceu aqui dentro da Vila Esperança. Vila Esperança pra chegar aqui hoje, onde tá todo mundo aqui de boa hoje, cara, passou um processo terrível, mano. Terrível, passou um processo terrível. Teve que muitas pessoas interferir mesmo de um jeito muito, muito bruto pra todo mundo começar a se respeitar, porque ninguém respeitava ninguém. Pô, uma briga ali, você mata outro cara. Pô, morava no Só Love ali, onde eu vi o cara morrer? Pô, tem uma história agora que eu tô lembrando. Muito bacana. Tinha o Beco do Só Love, aí do lado, na época, tinha um bar do Zé Maria. Cara, antigo, um dos primeiros também da Vila Esperança, lá junto com o meu pai, lá no Beco Só Love. No outro lado tinha uma casa e tinha outro bar, que era uma descida e o bar normal. Pô, nós tava todo mundo lá, eu molecão, meu primo tava lá, tava todo mundo, as molecada lá, que já é de idade, um pouco mais velho que eu, pô, se lembra até hoje, pô. O cara veio e matou o outro do nosso lado, mano. Então assim, todo mundo ficou parado, vai fazer o quê? Ligou, depois a polícia veio. Ficou por isso mesmo, entendeu? A investigação teve tudo, ninguém teve respaldo nem nada. Depois o cara fechou o bar e foi embora. A família vendeu o bar, isso e aquilo. Então assim, pô, é Vila Esperança, mano. Não adianta vou fantasiar, não tem o que fantasiar. Vila Esperança é nua e crua, mano. Naquela época lá era dolorido. Não sou aqueles caras antigos não, que nem esses velhos que estão aqui. Pô, esses velhos que estão aqui confirmam tudo, mano. Os caras são sobreviventes. Tá entendendo? Então assim, mas teve uma época aí que foi rígida aqui, a coisa. Então não tem muito o que se assustar hoje em dia. Você vê, mas vai falar aqui, não tem o que se assustar. Onde que vocês mesmo se assustam com cada história que nós temos aqui dentro.
P/1 - E Luciano, aí tinha tempo de brincar? Você conseguia aproveitar alguma coisa? Se aproveitava, o que vocês aproveitavam? Como é que era, Luciano, isso? Quando você era criança?
R - O que acontece é que brincar você precisa ter tempo para alguma coisa. Não adianta falar que não tem como brincar, tem como brincar sim, mas sempre vai acontecer alguma coisa. Você nunca vai esperar nada. Você está brincando e do nada acontece alguma coisa. Nós sempre jogamos bolinha, sempre brincamos de pião, sempre empinando pipa quando podia. Ali depois do Beco Só Love, mais para frente, tem uma canaleta ali ainda, na época tinha um cano, dessa vez mesmo que era furado, que os moradores furaram, a nossa diversão era ali dentro, dentro de uma vala, que era a nossa diversão, que nós brincávamos. Tempo sempre tinha, mas as brincadeiras que nós brincávamos. Algumas é saudável, outras já não era saudável, mas era a nossa infância. É dentro de uma comunidade carente que nós estamos falando. Então não tem luxo. Qualquer coisa, divertir aquelas crianças.
P/1 - E aí você falou que alguns amigos já não estão, outros... Como eram os seus amigos dessa época? As crianças junto com você. Você falou que alguns não existem mais. O que aconteceu com isso?
R - Não existe mais. Eu perdi um moleque meu novo, com a doença. Perdi um amigo meu que com 12 anos, 14 anos, estava vendendo droga, a operação da polícia matou o moleque. Os moradores falaram que o moleque se rendeu e mesmo assim mataram o moleque, não foi um nem dois. Perdi gente roubando, molecada furtando o trem. Tem um amigo meu que até hoje não tem perna. Caiu, o trem cortou, mano. Tá entendendo? Então assim, pô, é complicado, mano. E temos uns que estão aí hoje até hoje, sobreviventes. Que é eu, e mais outras molecadas aí também. Mas perdemos muito, muito cara bom, muito moleque bom naquela época perdemos. Que hoje ia virar cara homem de verdade. É que nem eu falo, mano: - Comunidade carente, você não tem nada, você vai viver do quê? Você tem o crime batendo num lado, mano, o governo não tá nem aí pra ninguém, mano. Tá entendendo? Você vai viver do quê, meu?
P/1 - Luciano, você sobreviveu, você tá aqui. O que você fez pra sobreviver? O que você acha que tinha que fazer aqui na vila pra sobreviver?
R - Não, eu não fiz nada, mano. Quem fez foi meu pai e minha mãe, que trabalhou e deixou eu estudando, mano. O que eu tinha que fazer é o seguinte, é sobreviver. Chegar na escola, estudar e voltar pra casa e me virar no dia a dia, mano. Mas meu pai e minha mãe sempre trabalhou, mano. Sempre trabalhou. Tá entendendo? Então assim, eu fui tendo aqueles conselhos. Aprontei? Aprontei muito. Muito, mano. Você vai chegando nos seus 15 anos, 14 anos, pô. Quanto que eu não aprontei aqui dentro!
P/1 - Mas aprontou, como assim?
R - Aprontei em vários sentidos aqui dentro da Vila Esperança, mano. Tipo assim, meu pai sendo um chucro, aprontava na rua, brigava na rua. Aí ali no mercadinho furtava alguma coisa ali, mano. Aí chegava em casa, meu pai arrebentava, mano. Arrebentava, mano. Não tem boi, mano. Então sempre fui ali, mano. Tipo na linha, aprontava, mas sabendo que em casa ia ter o dobro, mano. Não tem pra onde correr, mano. Então foi nessa linhagem que eu vi crescer, mano. Então tipo assim, eu aprontei muito aqui dentro da Vila Esperança. Graças a Deus estou aqui hoje. Tá. “Ah, chegou, foi fácil”. Foi fácil nada, mano. Foi fácil nada, mano. Pô, quantas vezes já pegando rabeira aí nos caminhões dentro da Vila Esperança aí. Quantas vezes eu caí, bati a cabeça, desmaiei e ia acordar no hospital. Pô, com a minha mãe lá comigo lá, eu nem sabia como eu cheguei no hospital. Então, assim, mano, aqui é... Tem muita história, irmão. Tem muita história, mano, aqui dentro dessa Vila Esperança. Tem muita, cara. Muita coisa aqui que aconteceu aqui de... Tipo, de 90 pra cá. Muita coisa mesmo aconteceu aqui.
P/1 - Tá, então vamos só finalizar essa parte da infância. E aí você cresceu um pouquinho mais, quando você ficou mocinho aí, perto dos 14, 15 anos. O que é que mudou pra você começar a... Porque primeiro você brincava, você via coisas aqui, e depois você chegou na adolescência. Como é que foi esse período da adolescência? Você contou que aprontou, mas como é que foi? Conta pra mim essa trajetória, que é chegar da adolescência até a idade adulta.
R - Cara, da minha adolescência até chegar, tipo, mano, o meu pai morreu, eu tinha acabado de completar 18 anos, mano. Então assim, na minha adolescência ainda eu tava muito na, tipo, na aba do meu pai, mano. Fazia o que tinha que ser feito pra sobreviver na rua mesmo, e vivendo a vida. Mas sempre tendo meu pai do lado. Tipo, que nem eu falei, eu não tava na rua, mas em casa eu sabia que ia acontecer alguma coisa, mano. E a rua foi nossa escola, mano. Entendeu? Nós sabemos o que pode e o que não pode por causa da rua. Não foi por causa de escola. Nós foi sobrevivendo, mano. Foi sobrevivendo, passando uns perrengues mesmo. Aí que eu vou te contar, mano. Eu vou falar pra você. Tinha situações que, pô, “nós não vamos sobreviver, mano”. E, tipo, toma aí. Vivendo. Aí foi passando o tempo, passando o tempo. Aí meu pai teve uns problemas de saúde. Aí faleceu aqui no hospital modelo de Cubatão. Aí, mano, eu tinha acabado de arrumar meu primeiro emprego na Terracom, me cadastrei num pátio aqui, que naquela época o pátio ainda ligava pras pessoas. A Terracom tava muito alta na época da Usiminas, fichando todo mundo. Foi quando eu arrumei o primeiro emprego, mano. Tinha uns dois meses de trampo, mano. Fui visitar meu pai no hospital. Subi pra visitar, tava eu, minha mãe. Ele falou: “Quando eu sair daqui, vamos comer uma…” Lembro até hoje. “Vamos comer uma rabada”. Meu pai não saiu do hospital. E foi essa daí a nossa infância. Daquele ponto pra cá, eu falei, “mano, mudou as coisas”.
P/1 - O que o seu pai teve?
R - Coração grande, meu pai bebia muito. Só que na realidade, o que matou ele? Não foi exatamente o coração grande, porque ele ficou nessa aí, indo e vindo do hospital. Aí, tipo, quando ele ia, o médico dava um diagnóstico. E era todos os diagnósticos errados. Chegou uma vez que o médico falou que meu pai tava com tuberculose. E meu pai não estava. Aí fomos para o hospital do Ana Costa em Santos. (Tomou) Medicamento, medicamento, nada. Voltamos para cá. Aí foi... Não, não acharam ainda a causa mesmo. Só ficou nessa vai e vem, vai e vem. Aí meu pai já estava emagrecendo muito, muito, emagrecendo muito e nada de achar o que ele tinha. Sempre dando várias doenças, mas nunca era a correta. Aí meu pai voltou pra casa, teve algumas complicações e foi pro hospital. Quando fomos visitar ele e isso e aquilo aí, de lá pra cá, e quando nós saímos, depois o médico ligou pra minha mãe e falou essa situação. O complicado foi que nesse dia, eu lembro até hoje, foi num domingo, por que eu lembro? Porque eu tinha ido pra igreja esse dia. Tinha acabado de chegar, aí eu via a minha mãe chorando, o meu irmão chorando. Aí minha irmã veio falar: “O pai morreu”. Eu falei: “Pô, como que o pai morreu, mano? Você foi visitar o pai e o pai morreu? O pai tava falando”. Aí depois, quando eu desci pra casa, eu vi que era verdade. Aí quando chegou, fez autópsia no meu pai, foi constatado que ele tinha coração grande. Então o médico mesmo falou: “Esses medicamentos mataram o teu pai”
P/1 - E sua mãe nessa história, Luciano? Como é que foi pra ela?
R - É, morreu, mano. Seis filhos pra ela e morreu, mano. Tem que viver a vida. Mais uma que foi mãe, foi pai, foi avó. Foi tudo, mano.
P/1 - E pra você, Luciano? Como é que foi? Porque aí você tava trabalhando o que você tava contando. Como é que foi voltar pro trabalho? Como é que foi isso?
R - Ah, foi difícil. Você pega aí cinco dias de atestado, que eles te dão, de óbito. E vai voltando aos poucos, tem que encarar a rua, tem que encarar a realidade. Você perde um pedaço de tu, mas você tem que continuar. Não tem o que parar. Vou fazer o quê? Vou parar a minha vida, mano? Não tem o que parar. Vai ter que voltar. Tem que ser forte, viver a vida, mano.
P/1 - E você contou que estava na igreja até. Como é a sua questão com a religião? Você estava indo para a igreja?
R - Ah, mano, minha religião é Deus. De vez em quando ainda vou. Naquela época eu estava na igreja mesmo, estava frequentando. Tenho muita fé em Jesus Cristo, nosso Deus, mano. Então, assim, tudo que eu faço, com a permissão dEle, sempre... Antes de eu fazer qualquer tipo de coisa, eu oro, converso com ele, pra depois eu fazer, mano. Então assim, você que é muito Deus na nossa vida, na minha vida, então... Muita fé mesmo, pras coisas acontecerem. Pra estar aqui hoje, é isso: muita fé e perseverança, porque senão você não consegue viver, não tinha nem chegado.
P/1 - E isso foi há 18 anos atrás, como você está me falando.
R - Isso.
P/1 - Como estava a vila nessa época? Que já não era mais infância, você já era adulto.
R - Ah, não. Aquela época ali, quando meu pai faleceu, a vila já tinha melhorado um pouquinho, né, mano? Mas não tinha estrutura, saneamento básico, nós continuamos. Nós estamos parados no tempo. Tem uma urbanização batendo aí, mas daquela época pra cá não mudou muita coisa, não. Se fala muito de urbanização, que eu vejo meio mundo falando, pô, eu faço parte disso, mano. Tá entendendo? Mas, pô, é um processo lento, mano. Você vai andar aqui, tem barraco caindo. Tem rato, pô. Longe, a minha amiga aqui, a Maiara, eu falo o nome dela porque é minha amiga. Foi mordida por um rato na casa dela. Que progresso é esse que nós estamos? Não tem progresso nenhum. Nós estamos parados no tempo, mano. O progresso chegou, foi lá na avenida principal, caiu o asfalto, mano. Pô, que progresso é esse que nós temos, mano? Estamos parados no tempo há... Mais de 30 anos estamos parados no tempo. Pô, temos gente ainda que não tem água. Não tem um relógio, tá chegando agora o relógio. Tá chegando agora a energia, ela não sabe nem se vai chegar. Nós estamos brigando pra isso. Tá entendendo? Então, pô, nós não tivemos progresso, mano. É um progresso porque, pô, veio de fora, mano. A Vila Esperança. Os predinhos aí, tá feito, vai tirar os moradores. Pô, tá chegando um progresso agora, mas é um progresso lento, não é rápido. Pô, mas quanto tempo nós vem sofrendo com isso aqui dentro? Tá entendendo? Então nós estamos parados, por enquanto estamos parados, mano. Tá chegando um processo, pô, tá assim. Mas é um processo lento, mano. O pessoal precisa de uma saída. Tá ligado? Precisa ser escutado esse povo, mano. Não é escutado, mano. Tá ligado? O povo que tá parado no tempo, mano. Sobrevive aí porque é Deus mesmo e a indústria e os comércios aí mesmo aí que... Deu um up grande na época da Usiminas. Usiminas aí metade de Cubatão, 90%, aí tava fichado lá. Os outros 10% tava fichado no petróleo aqui na Petrobras. Então naquela época ali, pô, deu um up de lá pra cá e o nosso governo aí fraquejou. Então cê vê aí que... Pô, fechou tudo. Então, o índice de criminalidade aumenta quando se fecha as coisas. Você não tem de onde tirar dinheiro. Você vai ver seu filho com fome. Você tem uma loja aí de droga batendo na porta ali pra você conseguir sua diária. Então, assim, que progresso que nós temos? Nada, é conversa de gente aí que quer iludir os outros. Falar que temos progresso. Não tem nada, mano. A nossa realidade, vocês andam aqui dentro, não preciso falar muito. Vocês veem a nossa realidade. O progresso que chegou foi na avenida principal, o progresso que nós chegamos lá. Temos assaltos, pô, isso é muito? Isso é o mínimo, mano. Temos lixo jogado no meio da rua. Não tem uma ciclovia decente também, né? Eu não vou colocar só a culpa no governo, não. Os moradores também não respeitam, não deixam espaço pra ter uma ciclovia. Que progresso é esse? Você tem um progresso dentro da comunidade. Tem um progresso lá na Vila Nova, no Casqueiro, no centro lá. Lá é urbanizado, você tem escritura. Que casa aqui dentro tem escritura? Não tem escritura, não tem nada. Você vai vender o que aqui dentro? Você vende de boca. O que vale aqui é a sua palavra, mano. Então o que mudou de lá pra cá? Mudou que nós temos que manter nossa palavra até hoje.
P/1 - Luciano, como você se engajou na luta? Porque aí tem essa questão da estrutura que você está contando, que teve luta para conseguir o básico, que ainda precisa melhorar, mas conseguir o básico. Mas como você se engajou nisso? Porque em algum momento você se meteu.
R - Cara, aqui dentro a gente sempre teve envolvido em tudo o que aconteceu dentro da Vila Esperança. Desde quando eu era menor, eu sempre acompanhei os outros, mano. Porque é o seguinte, aqui sempre foi nós por nós, mano. Tipo, se ela teve, pegou fogo ali, mano. Pô, vai todo mundo se ajudar. Aqui os moradores é assim, mano. Tipo assim, pô, às vezes um briga com o outro, mano. Mas pegou fogo no barraco ali, todo mundo vai se ajudar, mano. Ou tá precisando disso aqui, vamos fazer uma vaquinha ali, comprar uma cesta básica, vamos doar. Tá entendendo? Então assim, sempre nós fomos envolvidos, só que chegou uma época que estava na mão de outros caras que também ajudou muito aqui. Uns caras antigos aí ajudaram muito. Aí foi quando se foi se formando uma questão política, se formando o quê? Politizando as pessoas. Mas não era todo mundo que tinha esse acesso, era um ou outro que era amigo de fulano, que tinha conhecimento na prefeitura. Então isso daí foi passando em gerações, mas até chegar a nós. Quando chegou nós, que nós tivemos esse up, nós fizemos tudo diferente, entendeu? Que nós abrimos para a população. Porque assim, você é politizado, mano. Você tem o seu contato, você tem o seu corre, entendeu, mano? Mas você não vai botar a pessoa lá dentro. Você vai pegar lá e você vai distribuir aqui. Você não vai querer colocar a pessoa lá. Você abrir a sua correria para todo mundo. Você não vai querer mostrar de onde tá vindo ali e ajudar aqui pra ajudar o morador. Nós não, fizemos tudo diferente. Eu venho aqui: “É desse jeito aqui. Aqui é o caminho. Você quer o seu peixe? Toma a vara aqui e vai pescar o teu peixe. O caminho é esse daqui. Tem que ir lá falar com o fulano lá” (eles dizem) “- Ah, mas vai…” (e eu digo:) “Não, não vai eu, porque quando eu não tiver aqui, o que você vai fazer da sua vida?” “Então, vai aqui, ó. É fulano, beltrano e ciclano. O caminho da prefeitura é aqui” Hoje todo mundo pode fazer um ofício como pessoa física. Bom, antigamente não se conseguia, tem que depender de uma associação. A associação que eu tô hoje aqui, que eu sou o presidente hoje, não foi eu que fundei, tá? E há mais de 20 anos, aí foram as pessoas mais antigas, que foi esse pessoal que eu acabei de falar, que ajudou, ajudou, né? Trouxe algumas melhorias pra dentro do bairro. Mas agora a população tá politizada. A população senta aqui e conversa de igual. A população não quer saber de cesta básica, quer saber de melhoria pro povo. Não quer saber de uma água, de um esgoto, de uma luz. Quer saber que quando vai poder ligar lá na CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz), eles vão poder vir aqui dentro pra arrumar uma energia aí, que o pessoal paga energia agora. Não paga na Vila Esperança toda porque ainda não tem relógio pra todo mundo. Então, você vê o tanto, tipo, nós avança 10% e fica 90% parado no tempo. Pô, na Vila Natal aqui, que é o bairro do lado, todo mundo tem relógio. O resto da cidade, todo mundo tem relógio. Por que nós não temos? Por que nós não temos água encanada? Então assim, a nossa luta é essa daí. Então os próprios moradores agora, mano, tá lutando também. Tá vindo junto, tá abraçando a causa. Então assim, não tá mais só na mão de um ou de outro. Pô, os moradores sabem o caminho agora. Os moradores estão se unindo. Então mudou muita coisa. E tipo, na mentalidade dos moradores, mudou muita coisa. Os moradores levam algumas coisas na risca ainda. Eles deixam claro. Chega na eleição, vai vir aqui pedir voto, vai escutar um monte. “Não tá fazendo, mas sabe que é o vereador que tá fazendo?” “O prefeito lá fez tal coisa” “Então vai ter nosso apoio”, mas talvez se não fizer, sabe que não vai nem andar aqui dentro de boa. É a Vila Esperança, irmão. É isso aí, mano.
P/1 - E como é pra conversar com o morador? Porque aí você tem uma questão com o poder público, a gente pode falar isso logo em seguida, mas como é que é conversar e dialogar e chegar a conclusões, a chegar a ideias de melhorias com a população? Como é que você consegue conversar com o pessoal?
R - Cara, hoje, devido a esse relacionamento que nós criamos aqui dentro, é bom, mano. É bom, tipo, os moradores abrem a porta da casa, chamam os moradores, nós fazemos reunião com os moradores. Então os moradores aceitam, colocam em pauta o que eles querem de melhoria, certo? Que não dá pra abraçar todas as ideias de uma vez. Vem aqui, tem que ser um coletivo. O que é melhor hoje pra nós? É um campo? Tem um campo aí atrás, mano. Corremos lá atrás, o prefeito... Na época era o Ademário, trouxemos, conversamos, fez a maquete, fez tudo. Entregou o campo. Então, assim, foi um bem coletivo aí pra todo mundo. Pô, nós temos aqui vários projetos hoje aqui dentro. Então, assim, decisões tomadas num conjunto, mas pra ajudar o coletivo, que é em geral, não é individual. Se for pra ajudar o individual, senão nem senta com nós pra conversar. Ou nós ajudamos todo mundo, ou não ajuda ninguém. Porque no individual não vai. Ou nós mostra a força aí mesmo, aí que é a Vila Esperança, tem que ser unida aí porque, por mais que os caras façam, os caras ajudam, mano. Mas por mais que os caras façam, os caras ainda estão devendo nós, mano. Estão devendo, mano. É um povo sofrido, não adianta. É que nem eu volto a falar: - “Tem a urbanização”, pô, morreu um monte aí, não viu nem a urbanização chegar. Nós estamos vendo agora, pô, beleza. Mas quanto tempo nós estamos aí nessa luta?
P/1 - Vamos falar um pouco sobre essa questão da urbanização, né? Porque eu sei que é um ponto bem importante, assim. Pra quem não conhece a Vila Esperança, o que é essa questão da urbanização na Vila Esperança? Conta um pouco pra gente, Luciano.
R - A questão da urbanização é desafogar um pouco os moradores. Tipo, eu concordo que tem que ter essa urbanização, mas, ao mesmo tempo, eu desconcordo. Porque hoje nós temos gente aqui que tá sobrevivendo com Bolsa Família. E o governo lá em cima, nós sabemos que não é o governo daqui que (os prédios para realocação da população) vai ser CDHU (que desconta), isso é 20% da tua renda, mano. Tem gente que o Bolsa Família hoje tá 500 reais. Então, se tem gente falando de 120 reais por mês, que desconta da pessoa. E o restante dos 380 vai sobrar pra fazer o quê? Então assim, urbanização é bom, mas por quê? Não tem ninguém pra sentar pra discutir. Essa favela é carente. Tem gente que tem condição de pagar. Tem gente que não tem. Vamos estudar essas pessoas aí. Vamos colocar essas pessoas no mercado de trabalho. Pra poder pagar esses 20% aí. Se não, dá um jeito aí de trazer uma taxa fixa aí pra todo mundo. Cem reais. Porque tô tirando o morador da casa dele, mano. Onde vai passar perimetral. E também não vai sair só barraco, que é palafita, que é madeirite. Vai sair um barraco que é de bloco. O cara levou ali uma vida inteira pra construir. Aí vai colocar um cara num prédio ali, pequenininho ali, pra pagar 30 anos. Pô, só a favor que melhore a vida do povo, mano. Eu luto por isso, mas que melhore a vida do povo ali, em cima de uma igualdade para todo mundo, com a transparência. Chegou ali, vão empurrar goela abaixo os prédios. Vê quem quer os prédios. Todo mundo, um ou outro quer, mas muitos não querem. Quantas pessoas estão vendendo aí hoje? Sou a favor da urbanização. Quem não quer aqui ter um CEP. Porque o Correio não vem aqui dentro. O Correio não vem aqui dentro, mano. Tá entendendo o que eu tô falando? O Correio não vem dentro da Vila Esperança. O Correio vem aqui na Vila Natal, na favela do lado. Só porque é urbanizada, mano. Mas não vem aqui dentro. Pô... Correio não vem, mas nós temos o governo que tá aqui dentro. Por que nós não sentamos aí pra conversar? Montamos um negócio aqui dentro. Pô, pega uma associação, bota um endereço fixo e todos os moradores vêm retirar seus negócios, suas entregas aqui dentro. Pô, nós não temos, estamos falando de urbanização. Conseguimos mais 200, 300 milhões pra fazer uma via, mas nós não conseguimos dinheiro pra levar um esgoto. “Ah, mas o esgoto vai vir com a urbanização”, vai vir com a urbanização, mas nós estamos sofrendo há 200 anos, mano.
P/1 - Como é falar com o poder público? Até onde vocês conseguem chegar e como é esse diálogo? Eles chegam aqui, vocês chegam lá, como é que é?
R - O diálogo chega no prefeito. O prefeito (a gente) liga e atende. Esse prefeito novo que tá aí, chega aí, que é o César Nascimento, o cara que nós ajudamos a eleger, ele por causa da origem dele, que é a origem de comunidade e de favela também, o cara que para aqui pra tomar uma no bar, mano.
P/1 - Mas ele é daqui, Luciano?
R - Não, ele não é daqui, mas ele conviveu dentro da favela. Ficava muito aqui. Antigamente tinha um riozinho que até acabaram com o rio Camarão, que se chamava na época, então ele era aqui, pegou na época do meu pai, de meio mundo, de gente, dos caras antigos, então os caras convivem juntos e é um cara que é periferia. Tá entendendo, mano? Mas tem muita coisa, eu falo pra ele, tem muita coisa aí que não tá certa. Porque é periferia que nós vamos abraçar tudo, não vamos. Mas as ideias chegam no governo. Muitas vão ser executadas e não levadas pra frente. Mas alguma outra é feita, tá entendendo? Esse diálogo aí nós não temos com aquela frequência que nós gostaríamos. Devido, tem algumas pessoas que são burguês que estão lá. Que algumas pessoas que não adianta. Não adianta eu me cercar de pessoas burguês, num governo que precisa da periferia e eu não tenho ninguém que fala a língua da periferia. Porque quando você tem alguém que fala a língua do povo, a língua da periferia, vai vir aqui dentro, vai olhar a demanda que tem que fazer. “Nós temos aqui, vamos tirar daqui, vamos investir ali”. Ah, nós temos aí o quê? todo final de ano, início de ano, nós temos um orçamento de cada pasta. As pastas (é) que vão falar aí, que (vamos) asfaltar a rua ali da Vila Esperança, vamos colocar uns 5, 10 milhões a mais aí, vamos trazer esgoto lá pra dentro lá” Então é falta disso daí, mas o diálogo tem com o governo, mas é falta de ter as pessoas corretas nos lugares corretos. Porque quando se cerca de pessoas da burguesia, do alto padrão, os caras tão olhando pra eles, mano, não tão olhando pra periferia, mano. Os caras querem saber que a lâmpada da Vila Nova lá queimou e o imediato vai trocar rápido. Nesses dias num diálogo com um camarada, camarada meu, o camarada meu conversando, vai pra lá, vem pra cá, ele: “pô, Duti, tu acha certo o que tão fazendo?” (perguntei) “Mas o que que tão fazendo?” (ele respondeu) “Pô, acabou as luminárias aí.” Eu: “Pô, mas acabou? É normal, mano, o contrato é pra abranger quantas? Um exemplo, é pra comprar 20.000 mil luminárias? Pô, não comprou, mano? Vai queimando, vai trocando, mano, mas aí, tem que fazer o orçamento de novo, 20.000 não deu? Compra 40.000, mano, dobra. Entendeu? Tem um período, tem essas luminárias, tem que durar quanto tempo? Mas quem vai saber do tempo, mano? Entendeu? Quando queimou… às vezes é um curto, um apagão que nós temos aí na nossa cidade com frequência, (aí ele falou): ” Mas tu acha justo, mano? Minha mãe com 80 anos tá com a luz apagada e a mulher de 80, ela da Vila Esperança, a senhorinha tá com a luz na casa dela. Eu falei: “mas sua mãe, o sangue dela é diferente daquela senhora lá da Vila Esperança, mano? O que sua mãe tem de melhor com aquela senhora da vida esperança? Sua mãe não tem nada de melhor, sua mãe sangra igual as outras, sua mãe uma época vai falecer igual a senhorinha da vida esperança, sua mãe sofre igual as outras senhoras, sua mãe dá risada igual as outras, então sua mãe não pega enfermidade? só o pessoal da Vila Esperança que tem que morrer? que não merece nada… Então ela tem que ficar sem energia, com a luminária queimada e você que mora na Vila Nova aqui... você tem que estar com a luminária ali.” Isso daí gerou o maior transtorno, só que é camarada meu, só que depois ele veio e falou: “desculpa isso aqui”, Eu : “mas foi preconceituoso conosco que vem da periferia mano”, e é camarada meu dentro da a prefeitura, batendo um papo lá, tava eu e ele, mais um outro camarada, o camarada ficou dando risada, e falou “ O Duti te pegou, hein? foi falar o que não devia, mano” de camarada para camarada, (que) seja brincando, mas você sabe que tem um preconceito, com as pessoas lá de dentro, então assim, mano, o diálogo chega, só que nós temos pessoas, mano... Eu não vou nem falar pessoas ruins, mano, é pessoas que não falam a língua do povo em lugares que era pra estar falando, mano, entendeu? Então dificulta, mano, dificulta a nossa entrada no circuito. Tá ligado? Dificulta o nosso desenvolvimento da comunidade da periferia. Por isso que eu falo nós estamos atrasados há 200 anos, mano, porque o básico, a metade tem, a outra metade não tem, mano. Então, evoluímos no quê? Mas o diálogo com o governo tem, o governo escuta, mas uma ou outra coisa coloca em prática, mas outras não colocam. (É) devido também, eu entendo que é devido a algumas pessoas que estão ao redor, porque às vezes, se você não consegue chegar no prefeito, tem algum outro braço dele aqui que você vai falar, tem alguma pasta, algum secretário que você vai procurar, tá ligado? Que é pra você passar a informação e, ele fazer acontecer ou no mínimo levar até o prefeito. Às vezes... Você vai lá, conversa e fica por isso mesmo e não tem aquele respaldo, aquela resposta pra população. E vai se passando, ano após ano, vai ficando nessa, entendeu, mano? - Ah tá com a urbanização vai chegar tudo... - vai pra louco, mano. Tá entendendo?
P/1 - O diálogo com as empresas, como é, Luciano? Porque tem as empresas no entorno também. E com as empresas, como é?
R - É ruim, mano. É péssimo. O diálogo com as empresas aqui, eles não respeitam ninguém. Hoje nós temos o diálogo aqui com um pouquinho, que é mais ou menos ainda... Não é o 100%, é a Rumo. Desenvolveu alguns projetos aqui devido a muita briga mesmo, a muita briga mesmo, a ferro e força mesmo, vocês não imaginam, mano. A ferro e a força. Desenvolveram alguns projetos aqui dentro, temos alguns projetos deles aqui, disseram as entidades aqui pra dentro também, as entidades grandes que respondem pelo Brasil, estamos desenvolvendo alguns projetos, através da Rumo. Mas das outras empresas aqui que estão dentro da nossa cidade, que passam aqui dentro da Vila Esperança, nenhuma ajuda em nada aqui dentro, por isso que eu falo pra você, mano. Tipo assim: “Pô, vamos parar essas empresas aí”. Força do poder público, vem aqui. “Você tem que olhar aquela comunidade. Vocês não estão atendendo lá dentro? Estão trabalhando lá dentro e tal?” “Tão” “Ah, porque vocês não fazem algum projeto lá dentro? Porque não investem alguma coisa lá dentro?” O diálogo é ruim, mano. Os cara não tá nem aí pra nada. Os cara vem aí só, só quer ganhar o dinheiro deles. E é por isso que eu falo pra vocês. Hoje mudou muita coisa, mano. Porque se é naquela outra época lá atrás, não ia fazer isso. Hoje tá mais de boa morar aqui, tá mais tranquilo, os caras vêm aqui, botam internet aí, tipo, não ajuda ninguém, um ou outro que ajuda com alguma coisinha. Aí vem e ‘cabeia’, aí vem telefone aí, que é um ou outro só que tem. Aí vem empresa de ônibus, vem aí, pô... Falamos de quantas empresas aqui, rapidinho, um monte de empresas. Aí tem Avon, tem Natura aqui dentro, tem entrega aqui dentro. Tem empresa que tá lá no centro, mas a maioria dos clientes deles é da Vila Esperança. Mas por que não faz uma ação aqui no Dia das Crianças? Chega o Natal, aí distribui alguma coisinha no Dia das Mães, dá uma rosa pra cada mãe aí. Fazer nada, mano. Aquela época lá dentro lá, aquela época lá atrás lá, não é assim não, mangão. Está aqui dentro e não quer ajudar? Pode ir embora, mano. Você é roubado, mano. Você quer vir aqui ganhar?
P/1 - E dos programas que estão sendo feitos agora, Luciano? Esses que você está vendo que geram algum resultado. Quais são os programas e que você está vendo de impacto dentro? Bom, positivo. Para a gente ter cada vez mais.
00:50:33
R - Cara, desses programas hoje aí, no geral, o que nós temos aqui hoje também, que através do vereador aqui também do Topete. Temos escolinha de futebol para as crianças, onde mano, tá dando o maior resultado positivo. Temos a capoeira também, que tá dando o maior resultado positivo, então ele é um cara que ajuda muito aqui dentro. Então esses dois projetos aí é dele, dentro do bairro mesmo, por isso que eu tô falando, a importância, de ter pessoas que falam a língua da comunidade lá dentro, pra tu ver: temos 15 vereadores, temos um prefeito, temos, acho que,18 secretários. Aqui, se cada um botar a mão em alguma coisa, nós não estaríamos mais evoluídos?
P/1 - Deixa eu registrar isso pra ti. Fala o nome da sua associação, Luciano, pra gente deixar registrado.
R - Associação de Melhoramento do Bairro da Vila Esperança, AMEVE. Então, assim, aí através da Rumo, nós temos a “Visão Mundial” (ONG - Organização Humanitária Visão Mundial), que dá curso profissionalizante, fechou a parceria com o Senai. Aí nós vemos os cursos que têm um respaldo que vai trazer um retorno mais rápido para os moradores, para tentar colocá-los no mercado de trabalho. Então, a visão mundial, temos esses cursos aí. Formamos, no ano passado, mais de 500 jovens e moradores já de idade. Agora abriu mais umas vagas também, no finalzinho de ano. Temos mais três cursos aí rolando. Temos o “Futebol de Rua - (Projeto Futebol de Rua pela Educação)” também, que é da RUMO, que é lá no Campinho Imigrantes (Campo Marginal dos Imigrantes - Centro Esportivo)", tá rolando lá também, que é um ponto positivo. Temos a “Gerando Falcões” aqui dentro, que é um projeto que eu conheci lá em Ferraz de Vasconcelos, um projeto bom, que é que eles acompanham as pessoas da pobreza até trazer a dignidade, que é, tipo, tentar botar no mercado de trabalho. Tem outro projeto também, que é o “Kondzilla”, que é com 20 jovens aqui dentro, se não me falha a memória, ensinando eles a gravar conteúdo, criar o próprio conteúdo, mexer com câmera, com celular, que é hoje esse negócio de internet aí que tá dando dinheiro mesmo. Então temos alguns projetos aqui dentro. Mas foi tudo devido através da Rumo. Devido a nós falar: “Chega, vai ter que vir aqui, vai ter que sentar…” Teve até uma CEV (Comissão Especial de Vereadores), a comissão de investigação, que os vereadores abriu. Em 2022, 2023, eu fui convocado. Na época, fui lá na Câmara, estava o... Acho que o gerente, o diretor da Rumo mesmo, que manda o Verardino, Gustavo Verardino… Marcelo Verardino… Um negócio assim, o nome dele, foi devido aos vandalismos que estava tendo e às ações da Rumo dentro da cidade. Porque estava... O pessoal abriu os vagão e caía soja. E o que que acontece, né? O respaldo da Rumo com os outros bairros mais nobres era, tipo, muito rápido, mano. E com nós aqui da Vila Esperança a soja ficava aí, a soja é podre. Eu ficava aí, dias após dias, não via ninguém aqui dentro limpar. Ficava aquele negócio aqui, aquele fedor pior do que lavagem de porco aqui dentro. E a Rumo nem aí. No bairro lá que é nobre, tinha vereador lá, tinha advogado, tinha isso e aquilo. Eles iam lá e faziam, mano. Aí foi nessa serve lá na Câmara, na reunião, que tava todo mundo, tava o pessoal da segurança pública também, pessoal da prefeitura, foi quando me deram a palavra. E aí eu peguei e soltei o verbo. Nu e cru, conforme manda o figurino, conforme fala a nossa língua da Vila Esperança. Eles vêm aqui só pra ganhar o dinheiro. O trem deles passava aqui, passa aqui dentro aqui, pô. Olha quantas casas nós temos rachadas aí. Os caras passam aí buzinando. Isso incomoda pra caramba. Pô, os caras nunca fizeram nada aí pra ajudar os moradores da comunidade. A soja dos caras caía aqui dentro e os caras não limpavam. Quantas pessoas morreram aí. Os caras veio aqui cercar o bairro, como se fosse aquele filme lá, o “Bairro 13” (Filme de ação francês, 2004) , que é cercado. Pô, não tinha um projeto dos caras, sociais, aqui dentro da Vila Esperança. Pô, os caras nunca assistiram ninguém, meu. Pô, o tamanho da Rumo. Só que o projeto nas cidades nobres aí, só escutando porque o vereador chamava eles. Nós chamavam eles aqui dentro, nunca vinham aqui dentro falar com ninguém. Vinha aqui, vinha com polícia, vinha com força da autoridade, com mandato judicial, que tinha que fazer isso e aquilo, tirar a casa, ia lá e fazia, por mais que não escutava ninguém. Aí, “pô, desse jeito aí não, cês tá achando que cês é o quê? Cês vai tá aí sempre por cima da carne seca, mano? Ou cês vai lá dentro da Vila Esperança, lá passa o trem de vocês, aí não tem um retorno? Não tem nada. Nem para vocês terem vergonha na cara de mandar o pessoal ir lá limpar. Vocês não conseguiam mandar, mano?” Tipo, caia soja hoje. Quinta-feira, vai limpar daqui uma, duas semanas. Enquanto lá no bairro nobre, você vê cem, duzentas pessoas limpando lá. Fazendo tudo o que tem que fazer. Aí entristece nós. Aí é revolta do que eu estou falando. Então, essas coisas aí, mano, que... que mata nós muito, aí depois de muita briga, muita briga mesmo, aí destinaram alguns pessoal pra vir pra cá, pra escutar as lideranças aqui do bairro, pra sentar comigo, sentar com outros camaradas aqui dentro aqui, e começar a desenvolver alguma coisa, mas tipo assim, não foi da noite pro dia isso daqui não. Isso que eu tô falando, algumas coisas que vocês veem aqui não foi da noite pro dia não. Foi luta, foi sangue, foi suor, foi muita briga, mano.
P/1 - Deixa eu só entender como foi esse processo, porque tem empresa, têm poder público e tem morador. Os moradores têm uma necessidade, o poder público tem um interesse e as empresas outro interesse. Como é que você administra tudo isso, Luciano? Como é que vocês administram? Você, a população, mas você é um líder comunitário. Como é que você administra, equilibra esses pratinhos?
R - Não dá pra seguir pra equilibrar, mano. Não tem equilíbrio aí, a balança nunca vai pesar para o nosso lado. Olha o que nós acabamos de falar, as empresas não ajudam, mano. Como que você vai equilibrar a balança? Não tem que equilibrar a balança. Nós vamos tentar buscar algum outro meio. “Ah, você não ajudou, vamos em outra empresa”. Quantas empresas tem aqui dentro que não ajudam? Então não tem equilíbrio na balança. Tem o nosso interesse que é uma melhoria em comum aqui para todo mundo. Porque se você se fala aí, estamos falando aqui o que passa aqui dentro, umas oito, dez empresas aqui no fundo da Vila Esperança. Temos a Petrocoque (Indústria Petroquímica), temos a... E outra empresa ali também que estamos gerando um monte de emprego. É barro para chegar nos caras. Estrada de barro. Alaga a estrada, cheia de buraco. Então o cara está preocupado com o quê? Extrair o que ele quer extrair da comunidade. Você pega o trabalhador ali, você vai na lei ali, um ajudante ali e você pô, paga o mínimo do mínimo que a lei manda pra ele ali. Tem direito ali que a lei deixa em um ponto de interrogação pro empresário ali, favorecer o empresário. A lei dá essas brechas, pô. Não, paga tudo que é direito do trabalhador ali. Pô, nós estamos falando de empresa aí que se pagar o Vale Alimentação, não paga o VR. Temos empresa aqui no fundão. E assim, não tem a capacidade de asfaltar na frente da tua empresa? Tá usando um solo que é nosso, que é da comunidade. “Pô, vem aqui, o que a comunidade tá precisando?” “Pô, vou começar a asfaltar até aqui, até aqui eu consigo”. Chama outra empresa, outra empresa começa a asfaltar daqui pra ali. “Pô, não dá, vou fazer um esgoto ali pra aquela população”. A equilibrar balança como? Balança não é equilibrada aqui dentro não, amigo. Não tem balança equilibrada. Aqui tem o povo pelo povo e vida que segue. Tem a Rumo aí que veio fazer umas ações agora aqui dentro. E as outras empresas não ajudam. Não ajudam, não tem empresa aqui dentro que fala: “Ah, vou ajudar”. Temos aqui empresa que levanta milhões aqui dentro. Então o interesse deles aqui é só a matéria-prima dele e dinheiro no bolso. “Pago ali, chamo aqui os moradores aqui mesmo, pago qualquer coisa pra eles aqui mesmo, ficho eles aqui, vou lá na lei lá, pego lá, pago o mínimo do mínimo, tô dentro da lei”. Estão preocupados com o quê? Os caras lá estão preocupados com o quê também? O Direito trabalhista fica onde? Não tem, mano. Isso aí direito trabalhista foi que inventaram pra enganar nós. Eu não tenho, mano.
P/1 - E deixa eu te perguntar, você ainda tem regiões aqui que tem enchente? Alagamento? Como é que é isso dentro da comunidade?
R - Ah, na Vila Esperança se alaga. A Vila Esperança se alaga todo, que não alaga aqui. Se não for chuva forte, forte, a principal. Mas se for chuva forte, mano, vai ter alguns pontos da principal que vai alagar, mano. Essa rua aqui alaga, meu amigo. Onde você passou aqui alaga. A segunda entrada do Sítio Novo alaga. Lá no fundo dele... Vários pontos alagam. Estamos falando o quê? Acabei de conversar um papo lá na década de 90 pra cá, viemos andando, andando, andando até aqui, pô. Estamos parados no tempo. Eu falo pra você, tá chegando a urbanização. Tudo bem, é legal, mano. Estamos parados, mano. Estamos falando daqui a pouco. Se chover aqui, daqui a pouco você vai sair daqui com água no joelho. Tá entendendo? Porque, pô, mete uma drenagem. Faz um esgoto. Não vai melhorar 100%, não vai. Mas, pô, você melhora 80%. Então nós vai caminhando, devagarzinho, devagarzinho. Vai lá, briga, briga, manda os tubos, faz isso, faz aquilo. Vai caminhando, mano, mas progresso... Pra quem é da favela é lento, mano. É lento. Não adianta falar: “O progresso chegou hoje”. Não, eu vou estar mentindo. Vou ser hipócrita com os meus parentes aqui dentro, com os meus semelhantes aqui dentro, pô. Que progresso chegou? Quase agora falei de uma mulher que foi mordida por um rato aqui dentro, aqui do lado da lista. Daqui a pouco ela passa aqui, eu chamo ela, ela fala pra vocês aqui. Os casos não é só ela, é várias pessoas. Tá entendendo?
P/1 - A sua casa ainda tem enchente ou pelo a sua não tem?
R - Hoje, graças a Deus, a minha não tem mais. Porque eu moro aqui do lado. Eu moro aqui perto. Então assim, eu saí do Só Love e vim pra cá. Então hoje não tem mais enchente. Só Love alaga. Minha mãe mora no Só Love. Meus parentes todos moram no Só Love. Aí o que eu falar do Só Love, o que eu falar da Vila Esperança, eu falo o que eu vivi. Se você for andar em dia de chuva, que você estiver por aqui, bota uma bota, vamos andar aqui dentro. Você vai ver o que eu estou falando. Estou falando de uma realidade crua aí, mano, que não se encontra por aí não. Claro que você vai encontrar essa realidade em algumas cidades lá do Nordeste mesmo. Aqui melhorou, melhorou, o que nós não temos aí, mas é aquela coisa de estar matando as pessoas à toa, estar abusando de mulheres, de crianças aí. Não se faz isso daqui mais, porque se fazer também vai morrer. Mas assim, alaga alaga. Aqui é ruim. Aqui é Vila Esperança. Eu amo isso daqui. Eu vivi aqui dentro a minha vida toda. Não quero sair daqui porque eu amo esse lugar. Porque tem muita gente que depende de mim também. Eu amo isso daqui, eu luto por isso daqui dia após dia. Eu luto por isso daqui, pô. Vai falar aqui da Vila Esperança, porque quem for falar? “Ah, tem o Luciano lá, que é Duti, é o presidente”. Não tem como você bater na porta ali e alguém não me conhecer. Não conhece. Ah, por quê? Por causa da nossa luta. Quantas vezes aqui lá na Rua da Benção, foi criada essa Rua da Benção aí agora que é invasão nova, vocês já ouviram falar? Foram lá? Pô, o quê? Vamos lá colocar uns oito, dez anos. Pô, construindo e polícia batendo na porta pra derrubar os moradores, derrubar o barraco. Pô, e quem tava lá de frente era eu. E aí? Tá me entendendo, mano? Então assim, é complicado.
P/1 - Deixa eu te perguntar das palafitas, só pra gente voltar, porque elas ainda existem, né?
R - Sim.
P/1 - Como é que tá lá a região específica da palafita e como é que o povo tá lá, como é que são as questões deles, como é que consegue resolver questões pra eles lá?
R - Ah, o pessoal tá lá do mesmo jeito, mano. O pessoal arruma o dinheirinho, troca um madeirite. É palafita. Ligado? É barraco de madeira. Entendeu? Pô, daqui a... coloquei o madeirite hoje, daqui a um tempo eu tenho que trocar ele de novo. Tenho que me virar. A passarela é a mesma coisa. Que as palafitas aí muitos não sabem nem o que que é. Então é madeira. É sol, é chuva apodrece. Quantas pessoas não caem aí, não se machucam aí na palafita? Pô, meu sonho é acabar com isso, mano. Trazer uma dignidade pros moradores. Mas como que você acaba? Se não tem nem emprego pros moradores. Pega esses moradores e vai botar nos prédios aí pra pagar 20% do salário de gente que vive aí com Bolsa Família. Pô, eu não tô andando pra frente. Tô trazendo os moradores pra miséria de novo. Porque o morador vai pra lá, vai vender o apartamento dele por 40, 50 mil aí pra quem tem condição. E vai fazer o que com esse dinheiro? Vai voltar aqui pra dentro de novo. Tá entendendo o que eu falo pra você? Eu sou a favor da urbanização. Sou a favor de todo mundo aí ter um lugar pra sentar, tá ligado? Pra conversar com os filhos, pra brincar, mano. Sou a favor disso, mano. Entendeu? Mas... Vai fazer isso com o quê? Tô dando... Tô enfeitando o bagulho. Tô dando um apartamento pro morador. Pra iludir a mídia. Tô dando ali, tô urbanizando. Tô dando apartamento, beleza. Mas o que esse morador vai fazer? Vai sobreviver com o quê? Tá entendendo? Não temos nem emprego. É um outro que trabalha. Vários aí cortam cabelo, vendem uma coxinha, pegam reciclagem pra sobreviver. Vou tirar 20% desse cara aí, ele vai manter a família dele com o quê? Pô, então tem gente que prefere ficar na palafita, mano. A trancos e barrancos: “Não pago água, não pago luz. Pô, não vou pagar síndico, não vou pagar condomínio, não vou pagar 30 anos de prestação. Se eu morrer aí, os caras tomam apartamento de novo”. Tá entendendo? Então muita gente prefere ficar aí. É complicado, mano.
P/1 - E a questão, por ser palafita e tal, da saúde. Chega gente de saúde lá, tem UBS aqui, não tem, tem hospital, como é que é?
R - Não, tem, tem. Essa daí é a parte do governo abrir o... É concurso, teve um pessoalzinho aí que fez, entrou, então assim, não é o número exato aí pra atender a Vila Esperança, não é. Mas chega o pessoal aqui da unidade, aqui do Caic, que essa unidade é dentro da Vila Esperança aqui, mas tá lá. Tamo brigando pra ela voltar aqui pra dentro aqui. Pelo que eu vi, o prefeito já sinalizou “ok” também, mas tá caçando um espaço aqui dentro. Mas a gente diz, a unidade vem. Aqui é dividido em duas etapas. Tem essa daqui e tem a outra UBS ali mais pra baixo. Se vocês chegaram a conhecer lá? Então, o que acontece? Os agentes de saúde vão, acho que não tem como abranger também todo mundo, mas eles vêm, descem na palafita, fazem ações aqui dentro, o pessoal me liga pra me acompanhar, acompanho, deixo a associação lá à disposição deles, o sinal eles fazem aqui na praça, o senão faz no bar, faz na casa do morador, vai até esses daí. Os agentes de saúde aí, questão de saúde, é... questão dos agentes, mano. Então, assim, vai, vai, orienta, marca a consulta. Temos um hospital lá. Hoje, nessa parte, nós avançou lá, mano. Temos um hospital aí que o... O prefeito pegou na situação aí triste, teve que fechar, mas logo conseguiu o dinheiro, reabriu o hospital. Hoje estamos falando de um hospital bom. Aqui na Baixada Santista, hospital modelo de Cubatão, a referência. Temos também uma coisa que nunca se viu aqui na nossa cidade, um centro de oncologia. Então, assim, Cubatão nunca teve. O cara fez o bagulho acontecer. Então, assim, pô, avançamos, avançamos. Entendeu? Nós avançamos mais na cidade num contexto geral. Então, pô, foi bom, foi bom pra caramba. Temos um homem aí que o cara trouxe também, um AME. Um AME aqui em Cubatão não tinha. Era só pro lado de São Vicente, Praia Grande, Santos. Nós temos um AME aqui do lado, mano. Então, questão de saúde assim, mano, nós evoluímos, evoluímos bastante. Temos coisas aí que... Tanto que, mano, que melhorou que... Acho que... Podia ter evitado algumas mortes naquela época. Tratamento de câncer mesmo aí, dependendo, você faz aquilo em Cubatão. Não precisa botar a pessoa pra ir lá pra São Paulo mais igual... Algumas ainda vai porque é todo tratamento que é feito aqui, mas melhorou? Acho que melhorou, mano. Mas no contexto em geral. Mas em vista da Vila Esperança mesmo aí, temos muito ainda que melhorar, mano.
P/1 - Vamos só voltar um pouquinho para esse Centro de Oncologia, que é importante por causa da região que vocês estão, que é de área de preservação ambiental. Conta um pouquinho sobre esse centro, o que você sabe sobre ele, como é que ele apareceu aqui, o que acontece aqui?
R - Caraca, aquele Centro de Hemodiálise ali era um elefante branco. Porque nós falar isso que ali vários governos passou, ficou de fazer um teatro, vinha verba, não vinha verba, sumia verba, e isso e aquilo, e falava que vinha, outra vez já não vinha. Pô, e sempre ficou ali jogado. Passou gestão, gestão, gestão, foi passando, passando. Essa comunidade aí, no geral aí, a população precisa de alguma coisa. Aí o prefeito assumiu o primeiro passo dele e foi ao Hospital Modelo. O cara fez o bagulho. A gente vem de São Vicente aqui, passar no nosso hospital aqui. Como é que o cara não fez? O cara fez. Aí esse centro de oncologia aí. Pô, foi uma estratégia, tipo assim, pensando no povo mesmo. Um tratamento de câncer. Quantas especialidades nós não temos ali. Onde nós nunca tivemos, tá ligado? Então, assim, no Cubatão, em geral, aí, tipo, as periferias aí é carente, mas lá andou. Pô, no Centro Mundial de Hemodiálise aqui em Cubatão, só troca de sangue? Ó, mas que não andou, mano. Quantas pessoas aí não morreu aí, sem ter essa oportunidade aí? Então, assim, não é isso. Primeiramente, é Deus, nós agradecemos mesmo aí. Mas isso daí foi uma sacada de mestre. Isso daí é “aplausível” e muito, mano. Muito. Muito “aplausível” isso daí. É uma coisa que tira o chapéu mesmo. Porque quando se fala da saúde aí, pra olhar pra população aí, que é uma situação delicada aí, os caras que fazem isso daí, nós temos que aplaudir de verdade, mano.
P/1 - E aí, quando você tava me contando, você falou que tem uma questão do futebol também. Você tá envolvido, né? Conta essa coisa na sua vida. Como é que é o futebol?
R - Cara, o futebol, o que que acontece, mano? Eu acho que é o sonho de todo mundo, de todo moleque, ainda mais de periferia, mano, é o sonho. Não adianta falar: não, eu quero ser engenheiro” - não quero, é mentira, mano. “Quero ser advogado”, não quero, é mentira, mano. Você quer ser jogador de futebol, quer o que tá na tua realidade ali do lado, que o que você tem mais acesso, e nós crescemos nesse meio, mano, na frente do Beco Só Love sempre teve, se você passar lá ainda tem a marca, ainda tem o campeonato, mas não tem as traves, porque está nessa briga com a RUMO, o tira ou não tira, já falei para eles: “ se não vai tirar, faz um campinho aqui, cerca aqui todo mundo, tem a passarela, e entrega o campinho para a população”. Então assim, é o sonho de todo mundo ser jogador de futebol. E nós cresceu o Beco Só Love lá mesmo, que é o time. Está aí já há muitos anos, o pessoal antigo fundou. Tinha uma diretoria lá, alguns caras foram mudando, alguns veio falecendo. Até chegar a nossa vez, a nossa geração, e nós que tomamos conta do time, do clube, onde a gente participa de campeonato. Também a alegria do final de semana e da nossa população, que dentro das periferias é o futebol, que se reúne todo mundo. Une homem e mulher, criança, a cara de idade. Você reúne todo mundo na beirada do campo, aí um já vende um churrasco, outro já vende uma cerveja. Já gira o comércio também, que é a melhor coisa que acontece, já solta fogos aí mesmo. Isso, irmão. É o futebol, a nossa alegria, irmão, de final de semana. Então, assim, é o futebol que move isso daqui, mano. Você encontra todo mundo que você quer encontrar? Na beirada do campo. “Eu quero falar com o fulano” “Na beirada do campo, final de semana”. Na semana tá todo mundo no corre, pra lá e pra cá, atrás de alguma coisa. Um tá trampando, um tá fazendo um bico, tá atrás da diária. No final de semana não, é o start. Principalmente no domingo, na beirada de campo, vai encontrar todo mundo.
P/1 - Mas você organiza ou você joga também? Como é que é isso?
R - Eu faço os dois. O campeonato do Morro do Índio, a “Taça Morrão”, foi nós que organizou. Inclusive, estamos divulgando nas redes sociais. Se você entrar, agora você vai ver. Essa é a terceira Taça Morrão. Temos cinco times já confirmados. Vamos fazer à noite isso daqui agora. Porque está tendo alguns campeonatos para não ficar batendo, porque hoje está tendo muitos campeonatos. Então, às vezes, se bater o mesmo horário, os caras não conseguem jogar aqui e lá. Então, o que nós fazemos? Como não está tendo campeonato à noite, nós joga o nosso campeonato aqui para a noite. Está tendo domingo e sábado, de dia. Deixa os campeonatos de dia e os moleque caras conseguem jogar à noite. Tá entendendo, mano? Eu jogo, mano. Aqui temos o Vila Esperança também. Sou o presidente do Vila Esperança. Sou diretor do Só Love. Então, assim, o que é futebol, eu tô envolvido. Eu gosto. Eu vivo o futebol. Nós colocamos aí Sub-15 lá na ponte, aí perdemos. Beleza. Aí montamos o Sub-17 agora que vai ter aí no Cubatão, aí nós vamos entrar, com o Vila Esperança. Tá batendo ali no Mário Covas ali, né? Entramos com o Beco Só Love, tá entendendo? Então vai ter outros campeonatos aí na cidade de Ruma, entrar com o Vila Esperança também. Futebol é a minha paixão. Futebol é o que movimenta aí, movimenta todos, você faz amizade que leva pra vida toda. Outra hora você já arruma uma briga também, você já xinga meio imundo. Meu Deus do céu, daqui a pouco já estão ali tomando uma cerveja, quem bebe Guaraná toma Guaraná, já queima uma carne, daqui a pouco já tá todo mundo de boa de novo. É o futebol, mano. É altos e baixos. Você chora, se dá risada, você xinga, você arruma briga. Mas é emoção, mano. É sentimento porque você defende a sua quebrada. É o bagulho que você fundou, mano. O Vila Esperança foi nós que fundou. O Beco Só Love aí vem de cara aí que é parente nosso lá de trás, lá. Então tá no nosso sangue também. Então vai defender. Vai brigar. Vai brigar mesmo. Depois resolve, mano.
P/1 - Desses campeonatos que você tá me contando, teve algum que te marcou mais, que você lembra, se rememorar, fala assim “nossa, esse aqui”, você contar pra gente?
R - Cara, teve. Teve um que foi muito marcante. Foi pelo Beco do Só Love. Nós fomos campeão lá no CSU (Centro Social Urbano Costa e Silva). Saímos daqui, fomos ser campeões lá no Costa e Silva (Jardim Costa e Silva, Bairro em Cubatão), mano. Quebrada que nem é nossa. Quebrada urbanizada, mano. Time de periferia, saímos daqui, fomos ser campeão lá, mano. Ganhamos um dos caras lá. Então, assim, aquele campeonato ali foi marcante. Aquele campeonato ali foi demais. Os caras pegou, os nossos outros diretores pegou. Foi lá na família, pegou uma mulher da rapaziada, gravou, mandando mensagem às crianças. Ah, aquele campeonato ali nós íamos ganhar, mano. Não tinha como, entramos pra jogar a final, nós só queríamos saber de quanto nós íamos ganhar. Porque nós já saímos dali, mano, já meio mundo chorava, meio mundo já de cara fechada, sem risadinha com ninguém, entramos em campo, mano, nós já sabíamos o que íamos ganhar. Tá no sangue, tá no sangue. Você sai do vestiário ali, você vê o vídeo ali, seu filho te mandando a mensagem, sua esposa te mandando a mensagem, sua mãe, quem tem pai tem pai, um irmão aí. A comunidade se reuniu, mandou uma mensagem. Você olha pra lateral, você vê aquele campo ali, preto, branco e vermelho. Molecadinha pintando o rosto. A gente já sabia que ia ser campeão. Quando a gente chegou lá, pelo amor de Deus, todo mundo só ficava olhando pra nós. Ficava só olhando pra nós: “Os caras chegou”. Pô, os caras nem conseguiam se concentrar, a torcida dos caras ficou calada. “Pô, chegou os caras aí, mano, acabou com tudo”. Acabamos, nós já sabíamos que seríamos campeões. Nós já saímos daqui da favela sabendo que seríamos campeões. Você sabe quando o bagulho está gostoso, quando está aquela harmonia, quando o clima está propício. Você sabe que se você sair daqui, você vai ganhar alguma coisa. “Eu vou ali, vou fazer isso, mas que vai dar certo”. Você sabe. Você não quer saber que vai estar lá. Você vai chegar e vai fazer algumas coisas acontecerem. Nós já sabíamos. Nós já sabíamos pela nossa união, porque quando nós saímos daqui. Só de nós estar lá já é um bagulho diferente. Aí depois já foi só festa. Depois nós foi campeão três vezes lá, perdemos. Não direto, fomos duas vezes direto, e uma nós perdemos, e depois nós ganhamos. Mas o primeiro campeonato que nós levamos lá, não tem igual, mano. Pô, o busão daqui, sinalizador, fumaça. Olha, mano, parou a cidade. Nós pegamos lá, viemos pela avenida lá, e todo mundo atrás, mó carreata. Pô, pelo amor de Deus, mano. Foi coisa de outro mundo, meu. Ali nós já sabia que ia ser campeão. No decorrer do campeonato, briga pra lá, briga pra cá. Chega numa final aí, a trancos e barrancos aí, você vê aí o pessoal te mandando mensagem. Você vê as molecadinhas pintando o rosto. Pelo amor de Deus, mano. Não tinha quem vinha, mano. Nós ia ganhar de qualquer jeito. Não tinha quem vinha pela frente. Esse campeonato aí foi demais, mano.
P/1 - E aí, como tem essa importância toda, você vê isso com as crianças agora também. Isso vai passar para outras gerações, né? Você tem alguns programas que foi contando, né? Como é que é esse futebol para a criançada aqui? O que você vê?
R - Bom, futebol aqui é a saída, mano. Essa escolinha que tá aí hoje, por isso que eu falo: “O que é bom você ter que aplaudir”. Não é todo mundo que tem a mesma atitude que os caras têm. Nós corremos atrás e trouxemos, a Rumo hoje tem o futebol de rua. Tem o vereador Topete (Alexandre Mendes da Silva) que tem um futebol para as molecadinhas. Não é todo mundo que faz isso. Porque é o sonho de todo mundo. Não adianta falar que não quer. Vai parar qualquer molecadinha da periferia: “Quero ser jogador”. “Vou ser o quê, advogado? Vou ser médico, mano?” Pelo amor de Deus. “Brinco com a bola aqui, dia após dia, sou habilidoso. Quero ser jogador”. Você vê aí, molecadinha, olha aí, todo mundo hoje quer ser um Neymar da vida. Então assim, hoje, mano, o futebol, os programas que nós temos aqui que envolvem o futebol, tem uns programas bons, mas já é pra pessoas já mais adultas, já é de certa idade. Mas hoje, é o futebol. Futebol move tudo, mano, tá ligado?
P/1 - Mas as pessoas se engajam?
R - Olha, a molecadinha sai da rua. A molecadinha quando tá no futebol, tá na rua. E é, pode abrir o portão aí, mano. Vai ver alguém passar. Daqui a pouco tem aqui um... Putz, mas na hora que ele chegasse por aí, ou na outra hora que ele estiver aqui dentro, o Pidão, nós chamamos ele de Pidão. Toda hora que ele me vê, ele quer R$2,00, R$5,00. Não só eu, molecadinha tudo aí. Para aí, qualquer um que eles vê aí: “Ó, dá R$2,00”. “Presidente, dá R$2,00, mano”. Mas molecadinha, quando não tá aqui, tá brincando. Mas tá brincando, tá no futebol. Não tem outra brincadeira aqui dentro da Vila Esperança, mano. Tá entrando a brincar do que, mano? Hoje é o futebol que movimenta as molecadinhas. Ficam andando de bicicleta pra lá e pra cá. Tá na rua, tá fazendo isso, tá fazendo aquilo. “Pô, vai ter treino aqui, mano”. É o professor já manda. Já desce pra lá com as bolas, com tudo. Não, aquela renca atrás. Daqui a pouco você encontra todo mundo lá no campo. O pai e a mãe às vezes tá nem sabendo que tá lá no campo. Aí vai lá e encontra a criança lá. Às vezes a criança tá nem escrito no projeto, não tá inscrito, mas chegou na beira do campo: “Vai brincar também”. O pai e a mãe tá doida, pra lá e pra cá, começa a ligar, começa a ligar aqui e ali, aí pra lá e vai lá no campo, tá o bendito lá, brincando lá. A mãe: “Eu vou te matar, menino, por que você não avisa”. Aí tá brincando lá, mano.
P/1 - A gente viu além do futebol, que é muito bom, a capoeira também, né? A gente viu as crianças bem engajadas lá na festa do Zumbi. Como é que é essa questão da capoeira?
R - A capoeira, esse projeto é nosso. O professor Bonito aqui, através do vereador, também do Topete. Você vê o engajamento do cara aqui, o cara aqui do lado, o cara da periferia. Pra você ver, mano. Então aqui, temos o salão aqui atrás, o camarada cedeu aqui o espaço pra nós aqui, o Fábio, o salão dele. Capoeira aqui é todo dia. Não tem um intercâmbio um dia assim, um dia não. É todo dia. É o projeto é nosso. Porque eles vão lá, de vez em quando tem algum evento no Zumbi, aí chama, “Vai pra lá. Não, vai pra lá”. Se apresenta lá isso e aquilo. Mas o projeto é nosso, tá aqui, as crianças tudo inscrito. Todo mundo é inscrito aí. Aí o que que é feito? As crianças não têm condição de comprar o uniforme. É ganho o uniforme. É de graça, mano. Então assim, as criançadas ficam aí. Você viu os projetos? Estou falando, tem que ter gente assim envolvida na política. Tem que ter. Se não tiver, a burguesia vai tomar conta do bagulho. Tá ligado? Não adianta os caras falarem que olha pra nós, olha pra porra nenhuma, mano. Olha quem sofre na pele. Quem vem aqui dentro e conversa. Quem sabe das coisas mesmo aí da periferia que realmente precisa. Então nós temos os projetos aí que estão acontecendo. Temos o futebol, temos a capoeira, temos esses outros aí da Rumo. Mas poderia ter mais. Poderia ter mais espaço, sim. Poderia ter um olhar diferente aí pra nossa comunidade. Mas... Vamos lutando. Vamos vivendo dia após dia aí. E estamos indo.
P/1 - Então só pra gente fechar esse capítulo das crianças: e escola? Tem hoje escola pra todas as crianças, elas vão pra aula, dá pra acompanhar? Como é que é isso?
R - Cara, escola temos, nós temos o Elza, temos o Parquinho também aí, né? Não é pra todo mundo que não cabe também. Alguns estudam aqui fora, mas também o governo aí, deu condução pras crianças que estudam aí, tipo, Vila Natal em diante, que é da periferia que estuda lá, porque aqui chega uma hora que não cabe mais, entendeu? Aí como que não cabe mais, tem que ir para as escolas vizinhas. O Parquinho nosso aí também é legal, atende a comunidade, não contempla todo mundo também. Tanto que tinha um estudo aí para mudar o Parquinho, tirar da onde era, levar lá para onde é o campo e trazer o campo para cá para fazer um Parquinho maior. A nossa escola aí hoje, aí eu creio que... Creio não, é certeza, eu também estudei 100% da comunidade aqui mesmo, tá? Até a quarta série, o quinto ano em diante já Ulisses, Dom Pedro, outras escolas aí. Mas assim, o estudo mesmo assim, hoje tem. Então assim, tem um parquinho e a escola, então hoje a mãezinha, o paizinho que quiser mesmo aí colocar suas crianças na escola, no parquinho, tem essa oportunidade.
P/1 - Então vamos voltar para a sua vida pessoal. Você estudou, foi até onde? Como é que foi para você?
R - Estudei, estudei. Eu não passei pelo parquinho. Não passei pelo parquinho, mas eu fui para a escola naquela época. Eu estudei no Elza até a quarta série. A quinta em diante já fui pro Ulisses. Na oitava série parei de estudar. Devido a ter que se virar mesmo. Parei de estudar, voltei a estudar depois de alguns anos. Tanto que eu vim terminar o ensino médio e o fundamental... Vamos lá... Uns oito anos que eu terminei os estudos todos. Superior tudo. Terminei faz pouco tempo, mano. Então, assim, na oitava série eu tive que parar de estudar. Porque aqui no Ulisses fiz até oitava. Tanto que na oitava série eu repeti. Reprovei, entendeu? Por causa que não ia muito pra escola. Arrumei algumas brigas também. Tive que me virar aqui também um pouco na rua. Então, tipo assim, não deu pra conciliar tudo de uma vez, junto. Era muita coisa acontecendo. Então, reprovei e falei: “Mano, reprovei e também não vou estudar mais, não”. Aí comecei a fazer alguns bicos, já começar a se virar na vida. Aí depois de um tempo, quando as coisas começaram a andar um pouquinho mesmo, deu uma melhorada em alguma coisa, eu voltei a estudar, terminei todo o meu estudo. Sou formado em finanças, gestão financeira, sou formado. E estamos aí, de lá pra cá, vim estudando, aí consegui algumas pessoas que me ajudaram, que pegaram na mão também, que sozinho a pessoa não consegue chegar a lugar nenhum. Me mostrou alguns caminhos, uns caminhos bons. Me ensinaram muita, muita coisa também para eu chegar onde eu cheguei hoje. Conheci algumas pessoas boas que me ensinaram muita coisa da vida, me mostraram os caminhos, algumas direções para tomar, alguns conselhos até para estar hoje aqui onde eu estou. Porque se fosse por mim mesmo, pela minha força, pelo que me levou naquela época, vou fazer o que da minha vida? Vou ter que ir para rua.
P/1 - Mas quem te deu conselho e que conselho que eles deram?
R - Cara, tipo assim, teve muito cara bom, teve o que hoje é meu compadre, o Guguinha. O cara lá do Só Love também me mostrou outro caminho. Teve o Ailton lá do Morro do Índio, que é conhecido precisamente por Macumba. Teve algumas pessoas da minha família. É muitos conselhos e vários exemplos também do dia a dia. Chegou uma hora que você vai acordando pra realidade, aos poucos mais você vai acordando. Você vai chegando na maior idade. “E aí, o que você quer pra sua vida?” Fui pai novo, mano. “Então, e aí, o que você quer pra sua vida, mano?” “Vai acordar ou vai ficar dormindo ainda? Vai ter que tomar uma decisão”. Então, teve uns caras que foram fundamentais na minha vida. Tipo, pegou na minha mão mesmo e falou: “Ó, mano, vamos por aqui” “A melhor coisa é fazer isso” “Vai aqui que você vai conseguir um trampo”. Na época arrumei meu trampo lá na Terracom, através do PAT (Posto de Atendimento ao Trabalhador) lá, fui lá. Eu nem sabia ainda. “Vou ter que me inscrever”. Os caras: “Mano, vai e se inscreve lá”. Aí me inscrevi, o PAT ligou, arrumei meu trampo na Terracom. Foi quando aconteceu aquela situação toda lá com o meu pai. Mas se você tem ideia, meu pai nem conheceu os meus filhos. Meu pai nem conheceu, pra você ver, mano. E meu pai faleceu, eu tinha 18 anos, pra ele conhecer os meus filhos. Então assim, tem alguns anjos aí, primeiramente é Deus, que me mostrou o caminho. Me mostrou, pegou: “Vamos por aqui, que aqui vai dar certo. Aqui você vai colher frutos bons aqui”. E você vai mostrando seu desempenho, seu trabalho, sua parceria, sua lealdade com algumas pessoas, e o que você vai plantando, você vai colhendo também. Que aqui é a lei da vida: Plantou, colheu. Não adianta, mano. Se plantar pimenta, você vai colher pimenta, amigo. Você vai arder. A vida vai te ensinar do jeito terrível. Se você plantar morango. Você vai colher morango. Que a nossa vida desse jeito. Graças a Deus eu encontrei essas pessoas boas aí, que me guiaram, convivem comigo até hoje. Muito também da minha esposa. Conforme você é pai, você arruma uma mulher decente.
P/1 - Então vamos entrar já. Você contou da sua esposa. Vamos começar a falar dela. Como é que você conheceu ela e você falou que ela é importante. Como é que é? Vamos voltar para a história.
R - Mano, eu tô com a minha esposa, casado, fizemos um ano de casado. Casado. Junto? Se não me falha a memória, que a memória dela é melhor do que a minha. Eu acho que uns 13, 14 anos, mano.
P/1 - Como é que você conheceu ela?
R - Eu conheci minha esposa na escola, mano. Conheci ela aqui no Ulisses, na época eu estudava aqui no Ulisses. Conheci ela, estudamos juntos, só que era aquela amizade normal, tipo... Vai pra lá, vai pra cá, vai pra lá, vai pra cá. Conhece, rola e não rola, mas nada. Aí quando ela se mudou pra escola, eu fiquei um tempo sem estudar, mas sempre manteve o contato. Ela se mudou lá pro Trinta e um, que é o José da Costa. Aí ela sempre foi... Conforme eu parei aqui, ela passou pro primeiro. Aí eu acho que eu voltei a encontrar ela, que eu voltei a estudar. Ela no segundo... Foi no segundo, foi por aí. Aí, até aí nós voltamos, sempre tivemos uma amizade, isso e aquilo, aí foi quando começou a rolar. Uma pessoa boa, que me mostrou o caminho, pra você ter ideia. Ela conheceu o meu pai, acho que duas vezes. Tá entendendo que ela conheceu o meu pai? Então assim, quando eu comecei a elaborar, quando o meu pai faleceu, foi tudo, tipo, na minha vida, foi tudo muito rápido, mano. Não deu pra aproveitar que nem, tipo, meus filhos aproveitam hoje a infância deles. Pô, maior tranquilidade. Ah, eu não tive isso, mano.
P/1 - Você falou que você teve um filho quando você era bem novo, mas já tem outros filhos também, né?
R - Tenho dois. Tenho um de 11 anos e um de 5 anos. Vai fazer 6 anos agora. Em outubro. Meu pai não viu nenhum dos dois, mano. Eu vi meu filho de 11 anos, meu pai não viu. Então assim, foi quando eu comecei a namorar e aconteceu essa situação do meu pai falecer, né? E logo na sequência minha esposa ficou grávida. Aí você tem que tomar um rumo na tua vida. Aí você arrumou uma mulher, né, mano? Ela é a mãe. Minha esposa foi mãe nova. Se não me falha a memória, acho que ela foi mãe com 15 anos. Você vê que a nossa infância... Não tem aquela mordomia que tem hoje, tem mais regalia. Ela é da Vila Esperança, ela é daqui. Todo mundo se conheceu aqui dentro, mano. Todo mundo é da Vila Esperança. Falar da Vila Esperança, meu Deus do céu.
P/1 - Qual o nome dela?
R - Nubia, Nubia Paula. Núbia Paula.
P/1 - E dos seus filhos?
R - Cauê Henrique e Caleb Leal.
P/1 - Então aí eles vieram e a sua vida era agora casar, cuidar da esposa dos filhos.
R - Eu vou chegar nessa parte ainda. De lá pra cá eu conheci ela, meu pai faleceu, passou um tempo ela engravidou, aí ela trabalha, pra você ter ideia, ela trabalhava no carrinho, ela era de menor na época e o pai dela sempre conheceu, o pai dela é comerciante, então o pai dela tinha muita influência nesse meio. Trabalhava atrás do camelô lá vendendo coxinha. Então ela trabalhava, você tem ideia? E eu não, mano. Então assim, a boa parte que segurou a ponta foi ela.
P/1 - Você tinha saído da Terracom?
R - Já.
P/1 - Você tinha saído?
R - Eu tinha saído, acho que eu não tinha nem entrado. Eu não tinha entrado. Não, acho que tinha saído. Tinha saído nessa época. Tinha saído porque foi quando ela começou a trampar lá. Meu pai conheceu ela umas duas vezes. Sei que quem foi segurando as pontas foi ela. Ela trabalhava lá, que era de menor, o pai dela tinha influência, eu lembro até o seu Gentil, Gentil que era o dono, esse carrinho tem lá até hoje, que é da família dele, lá atrás do Camelô, ali na avenida ali, só ele que pode vender, caldo de cana, coxinha, só ele que pode vender. É da família dele ali a vida toda, mano. Então o pai dela sempre teve essa influência, ela trabalhou lá. Aí as coisas foram passando, foram passando, aí ficou grávida, eu falei: “Não, mano, agora... Vou ter que fazer alguma coisa. Meu pai faleceu, só eu, minha mãe e meus irmãos. Vou fazer o que da minha vida?” Aí foi quando as coisas… Comecei a tomar um rumo na vida, mano. Aí de lá pra cá, aconteceu algumas outras situações, aí meu cunhado, na época, arrumou um trampo pra mim lá no Guarujá. Aí foi quando, foi andando as coisas de verdade na minha vida. Arrumei um trampo lá, já tava com um salariozinho lá que foi a... A SAIPEM, lá no Guarujá, essa empresa aí, trabalhei nela. Aí foi quando eu fui entrando no dinheirinho, aí minha mãe me deu um pedaço do terreno lá no Só Love, eu construí atrás da casa da minha mãe. Minha esposa morava aqui no Sítio Novo e eu morava no Só Love, e ela já grávida. Aí eu comecei a construir, aí ela teve nosso primeiro filho, ficou morando aqui com os pais dela, aí eu vinha pra cá ver as crianças, mas também não dormia aqui nem nada pra também não estar incomodando os outros, que casa era pequenininha, só cabia ela. Dormia ela, o irmão dela e o moleque, meu moleque. Casa pequena, e eu dormia lá na minha mãe, tinha meu quarto, dormia lá. Aí foi andando as coisas, fui pegando meu salário, e meu cunhado também foi me ajudando. Aí eu construí minha primeira casa no Só Love. Construí, mobiliei, minha mãe me ajudou, comprou algumas coisas também. Aí foi, a passar do tempo, ela foi morar lá. Ela que foi morar lá e vivemos juntos, aí as coisas começaram a andar. De lá pra cá sempre fui envolvido nas situações de trampo. Aí veio a questão da política também na minha vida. Conheci os caras aí que me colocaram no caminho também da política. Aí de lá pra cá, tô até hoje na política, mano.
P/1 - E hoje, na política, especificamente, além da liderança, o que você faz, Luciano?
R - Hoje, na política, eu trabalho no setor de obras.
P/1 - Na prefeitura?
R - Na prefeitura de Cubatão. Hoje eu trabalho lá, hoje nós temos acesso a algumas situações que vão acontecer, não só no bairro, mas na cidade toda. Agora já dá pra você brigar lá dentro. Mas mesmo assim, é aquela situação que eu falei. Você vai até aqui, tem secretário, adjunto, diretor. E até chegar no prefeito, às vezes não chega. E eu tô na política. A política até hoje aí, tenho meus trampos também por fora. Tenho o meu serviço por fora também, que eu também trampo. E vou conciliando o meu serviço com a política, com o meu trampo da prefeitura.
P/1 - E a esposa trabalha onde que negocia?
R - Trabalha, tem uma lojinha de roupa aqui do lado. Essa lojinha que vocês passaram ali, vocês vão ver ali, é Baby Cute, que é de criança, é dela.
P/1 - E aí você falou que seus filhos têm uma vida diferente da que você teve. Vamos só traçar esse panorama aqui, o que eles têm de diferente?
R - Mano, tem tudo. Tem tempo, mano. Coisa que eu não tive. O tempo da minha infância foi roubado. Você não teve isso. Então hoje meus moleques... Vou te dar um exemplo aqui agora. O meu moleque mais velho tá na escola, o meu mais novo tá dormindo. Acorda sem preocupação nenhuma. Daqui a pouco ele vai acordar, vai tomar o café dele. A mãe dele vai preparar ele, vai pra escola daqui a pouco. Quando chegar vai brincar. Se quiser, liga um videogame. Tem um tablet dele. Você tem ideia do que eu tô falando? Ah, na minha infância eu não tenho isso. Que videogame que eu tive na minha infância? Tive videogame? Minha infância foi a rua. Foi o me virar. Isso que eu tô falando. O rir dia não só meus filhos como as próprias molecadinhas têm uma certa facilidade de se viver por causa dos pais, que teve a cabeça firma aí e que quiseram fazer acontecer. Quiseram se virar de algum jeito ou de outro pra dar essa estrutura pras crianças. Isso daí eu não tive. Hoje meu filho não acorda com água no joelho, na canela. Não acorda, meu filho não sabe nem o que é alagamento. Meu filho sabe, porque quando eu pego ele aqui, eu vou lá no Só Love na minha mãe, eu vou lá no fundão, eu levo ele na palafita. Aí meu filho conhece. É muita diferença, mano. Tá ligado?
P/1 - Uma coisa que eu fiquei na dúvida é, na sua infância, a casa que você morava era uma palafita ou não?
R - Era palafita, porque quando meu pai veio pra cá era tudo mangue. Aí foi ao passar do tempo que você vai aterrando, vai acabando com as palafitas aos pouquinhos, aí você constrói uma casinha de bloco. O chão daquele chão, não tinha isso daqui não. Na época do meu pai lá na época do Só Love era aquele chão vermelho. Que você passa, você sentar e fica na roupa. Era esse chão, mano, que nós estamos falando. Isso daqui é luxo. Mas isso daqui é o simples que tem que ter. Pra quem trabalha, tá entendendo? Isso daqui é o simples.
P/1 - A casa da palafita era tudo de madeira, né?
R - Tudo de madeira e você vai....
P/1 - Como é que vocês conseguiam manter a casa? Como é que vocês faziam para ela ficar em pé e isso é importante.
R - Mano, é mangue, é mangue, é caibro, é travamento, você trava. É as vigas em pé e com o travamento do lado. Você tem que trocar na passada do tempo, mano. Mangue é o quê? É lama. A lama, ela come madeira. Tudo que ela botar a mão com o tempo ali, o mais bom que seja, vai apodrecer. Então você tem que se virar, mano. Você vai fazendo essa manutençãozinha você mesmo. Não tem segredo. É ferro e força, amigo. É mangue, é água, é chuva. Tem que se fazer. É sol pegando. Então aquilo dali vai apodrecendo.
P/1 - E vocês quando fizeram isso, vocês ajudavam a fazer essa reforma, essa manutenção? Ou não era mais seu pai?
R - Não, era mais meu pai, minha mãe, meus irmãos mais velhos, que sempre foram engajados nessa situação, porque nessa época eu era novinho. Aí, ao passar do tempo, você vem ajudando. Mas era sempre eles, e é mangue. Aí, ao passar do tempo, o que foi quando a gente foi aterrando. Aí você vai construindo aos pouquinhos, mesmo sem aquela estrutura mesmo que tem que ter, que naquela época você botava bloco e massa e vai embora. Não levanta a coluna, não faz cintas, não faz amarração. Você levantou aqui, a parede aqui, você não tem divisória, você bota um telhado aí, lona, o que for aí naquela época lá e pronto, amigão. Acabou, você cai pra dentro. É melhor do que você morar num barraco ali onde tem rato te mordendo.
P/1 - Se você voltar para a infância e olhar o cenário, como era o lugar, e hoje, como é? Vamos deixar esse panorama para as pessoas que não conhecem a Vila Esperança e saber o que ela foi e o que ela é hoje. Como o cenário, o que ela era quando você lembra da infância e como é que ela é hoje.
R - Como a Vila Esperança era, mano. A Vila Esperança era...
P/1 - Tipo, você fechar os olhos e você fala: “Nossa, lembra da Vila Esperança assim”, como é que ela era?
R - Ah, mano, Vila Esperança era um nada. Era barraco, barro e fé, mano. Esperança não era um nada. Vila Esperança foi construída por moradores aí que pegou esse essa Vila Socó e veio pra cá, uns pessoal veio da Bahia, do Norte, aí cada um pega um pedacinho aí de lama e vai construindo aí. Esperança era um nada. Não tinha nada naquela época lá. Hoje, pô... A gente andou pra caramba. Andou naquelas que evoluiu, que você consegue construir uma casinha digna aí pros seus filhos ficarem. Então, assim, isso que andou. Tipo, hoje não tem mais, é 40% da palafita. Aí, a Vila Esperança toda era palafita. Só não era a principal. O resto era Mangue. Aqui é uma área invadida, que é Mangue, pô. Que é Mangue. Você vai cavar, você vai achar Mangue aqui. Você não vai achar terra firme aqui quando você cavar. Não vai achar, mano. Aqui é tudo mangue. Dá uns passinhos aqui, nós estamos no mangue. Então mudou isso daí. Os moradores mesmo, veio aterrando. Aí hoje tem uma ruazinha. Os becos mesmo, aí quem... Acho que vocês andam, né? Alguns... Tá asfaltado, tem um chãozinho lá pra o pessoal andar. Mas até certo ponto, o resto é palafita ainda. Evoluiu, mas as marcas estão aí presentes ainda até hoje. Tem marca até hoje, mano.
P/1 - A Avenida Principal já era asfaltada ou ela também não era asfaltada?
R - Não, que? Era asfaltada o quê, mano? Isso daí é luxo, o básico é luxo aqui dentro.
P/1 - E a rua principal? Era asfaltada, não era nessa época? Conta isso também, por favor.
R - Nada, mano. Asfalto chegou aí há pouco tempo, asfalto é luxo, que é o mínimo que nós deveríamos ter. Pelo asfalto que vocês vieram mesmo, viram lá? Nunca foi asfaltado a Avenida Principal. A Avenida Principal é o seguinte, era barro vermelho mesmo, estradão de terra, chuva, ficavam os buracos. A Vila Esperança foi formada desse jeito. Não era asfaltado. Que, na realidade, hoje é asfaltado só a Principal, mano. Pessoal da Vila Esperança, andem aí, vocês estão vendo a nossa realidade, tá ligado?
P/1 - E a linha do trem, como é que era nesse período?
R - O que que acontece, cara? A linha do trem nesse período aí, velho... Cara, sempre teve. Sempre teve. Então assim, eu não sei se foi bom, se foi ruim ter essa ajuda desse pessoal aí, porque quando não tinha linha do trem, tinha uns barraquinhos lá na avenida e isso e aquilo, pô, mas nós tínhamos uma rua que passava aí, dois, três ônibus, um do lado do outro, tinha espaço pros moradores, tinha terreno, tinha tudo. Então a rua era larga lá na principal. Não tinha estrutura, não tinha nada. Mas se tinha uma rua larga lá na principal. Então assim, o pessoal naquela época ali poderia, tipo assim, passar pra lá, pra cá, de boa. Aí a Rumo veio aí, meteu essa segunda linha deles aí, trouxe mais transtorno para os moradores, e diminuiu a avenida principal. Hoje nós estamos falando aí de seis metros, seis, oito metros. Passar dois ônibus um do lado do outro aí... É mó briga. Aí, mano, eu não sei se foi bom. Se for ruim, chega uma hora que você já fica até perdido no tempo. Se o que tá vivendo hoje é bom, se o que tava lá atrás de algumas partes é boa. Se estamos avançando, se estamos parados ainda. Estamos avançando em qual sentido? Estamos avançando no asfalto que caiu? Se avançar? Avançar nada, mano. Isso aí é foda, muito foda.
P/1 - E no momento que a gente estava conversando, você contou de um incêndio que foi importante até. E a gente pesquisando viu que aconteceram alguns incêndios. Você teve alguma vivência nesse sentido? Você viu alguma coisa assim acontecer aqui na comunidade?
R - Todos os incêndios que teve aqui eu participei. Não participei esse daí da Vila Socó, que foi muito antigo, foi quando a Vila Esperança começou a ser formada. Mas dentro da Vila Esperança aqui todos, eu sei todos os incêndios aqui que teve, sei quando foi formada a lei que hoje tem aqui, que indeniza as famílias, tá? Se foi incêndio de causas naturais mesmo, sem ser aqueles incêndios daquelas pessoas espertinhas que botam fogo pra querer pegar um recurso do governo, tá? Eu presenciei, mano. Fechamos foi a pista aqui, quando pegou fogo aqui no Beco do Zé Buchinho ali atrás. Eu e os moradores fechamos a rua, para hoje ter uma lei que indeniza os moradores. Eu sei todos os incêndios que tiveram aqui, participei de todos, ajudando a pagar, acertando com o prefeito. Eu sei quando a lei foi formada. Eu sei qual foi o motivo que ela foi formada. Eu sei quem foi o vereador que votou na época aí pra aprovar, que o prefeito fez e mandou pra Câmara, pra Câmara aprovar, pra voltar pra ele, pra ele conseguir indenizar os moradores, mano. Daí foi briga nossa. Não foi briga de ninguém, não. Então tem algumas coisas aí que veio de nós mesmo. Da nossa união, da nossa força. Por isso que eu falo aí: “Pô, não é todo mundo, mano. Quer ser líder comunitário tem que ser, mas quer ser líder comunitário pra quê? Só para ter nome, para falar que defende alguma coisa, que não defende nada”. Tem gente que fica se aparecendo aí por questão política, mano.
P/1 - Nesse caso dos incêndios, por exemplo, Luciano, você já estava na liderança em algum deles, né?
R - Teve outros que eu não estava na liderança não, mano.
P/1 - Mas como é que chegava em vocês a informação do Luciano?
R - Tem incêndio aqui do lado de casa. No Só Love lá teve incêndio no fundo do Só Love. É madeira, mano. Pegou fogo aqui, ia pegar fogo no outro, mano.
P/1 - Vocês viam as pessoas...
R - Então nós todo mundo aí se unia, que eu tô falando pra você, a Vila Esperança aqui sempre teve guerra. Mas sempre teve um povo também unido, mano. Eu tô vendo você morrer ali, eu não vou te ajudar, vou deixar seu barraco pegar fogo? Pô, mano, teve lugar aqui que pegou fogo aí de mais de 20 barracos. Temos foto aí, temos relato aí, pô, pelo amor de Deus, mano. Ou teve gente aí que não conseguiu reconstruir sua moradia. Teve gente aí que tá sendo assistida agora. Esse pessoal mesmo que foi pra essa 116 unidade aí, primeiro aí, foi o pessoal dos incêndios aí, primeiro aí, lá de trás lá, amigão. Foi esse pessoal aí. Pegou fogo lá no Dom Pedro lá, nós de madrugada aí. Na época o César era vereador, não era prefeito. Ligamos pra ele: “Então tô indo praí ver”. O ______ deu total apoio. Então assim, não adianta. Aqui eu sei quem é todo mundo. Sei quem realmente lutar por um coletivo aí, de todo mundo. Sei quem luta pelo ego, por um bagulho que é dele. Então assim comigo não cola. Não adianta. Chegar a falar A ou B. Não, eu falo a língua do povo. Eu falo desse jeito que vocês estão vendo aqui, eu falo com todo mundo. Falo com o prefeito, falo com todo mundo, falo com o vereador, falo com o pessoal. Falo desse jeito, mano. “Aí, causa aí, nossa luta aí. Nossa luta é essa daí”, não adianta vir pra cá. Sei todo mundo que tá envolvido nos incêndios. Eu sei quem ajudou, quem não ajudou, eu sei quem é liderança antiga, quem não é liderança antiga. Eu sei que sempre que teve por nós, quem briga por ego, quem não briga, eu sei, mano. Eu sei quando se fala num contexto em geral que a causa é pra ajudar os moradores, eu sei quem realmente luta. Eu sei um por um desses incêndios aí que teve, eu estive junto. E pode pegar todos esses moradores e vai falar, mano. “O Luciano, o Duti, o presidente, sempre esteve junto conosco, desde quando ele não era nada. Sempre esteve aqui”. E hoje o pessoal grita aí, não grita outro nome. Grita é o meu nome. Socorro primeiro que bate aqui na Vila Esperança é o meu número tocando. É beco para desentupir é o meu número. Não é o número de outros aqui dentro. É o meu número que bate. Daí não foi criado da noite para o dia. Foi nessa luta e o morador pegando a confiança em tu. Vendo que realmente você representa o povo. Não adianta eu querer levar o nome de liderança e não representar o povo. Abra um negocinho ali, uma ONG pra mim ali. Pô, meus interesses políticos ali, primeiro ali, na frente da população. Livro o meu e tá de bom tamanho. Que nada, mano. População não é besta, não. População sabe quem é quem. Aí nossa luta é isso daí, mano. Esses incêndios aí não teve um, não foi dois, não, não foi três. Ó, o que mais teve é incêndio, mano.
P/1 - E o povo nessa questão? Você falou que tem gente que está sendo assistida agora. Incêndio de lá de trás. E aí como é que faz para esse povo? Eles perdem a casa, perdem as coisas. Como é que faz?
R - Esse pessoal que está indo para lá, foi o pessoal que está sendo assistido agora de qual forma? Dos apartamentos. Essa lei que foi fundada foi quando esse incêndio que teve atrás, no Beco do Zé Buchinho, porque ficou um beco que pegou uma proporção, um beco que era referência. Só que a lei englobou muitos barracos, tinha outros becos, um pouco do Dom Pedro, então foi muita família. Foi quando nós sentamos na época com o prefeito, com o Ademário lá: “Vamos pra cá, vamos pra lá, vai botar esse pessoal onde? Em abrigo? Como que se bota ali em abrigo com outras pessoas aí que já tá lá, que você nem conhece, tem criança, tem todo mundo”. Aí briga pra lá, briga pra cá e tem um pessoal jurídico lá, senta pra aqui, senta pra lá: “Prefeito, dá pra fazer isso. A lei permite? Permite”. Foi criada essa lei aí de indenização pros moradores, foi briga nossa. Foi briga nossa, não foi briga de ninguém, de A ou B, não. Briga minha, dos moradores lá, do Zé Buchinho. Tanto que até sair daí, nós fomos a primeira vez, sentamos, conversamos com o prefeito, não tivemos êxito, não conseguimos. Voltamos aqui, sentamos ali no meio da rua, na entrada da Vila Esperança, eu fiz chamar a rua, pô. Olha lá, fechamos a rua, todos os moradores lá, foi uma de greve, veio a polícia, veio todo mundo, a polícia também não encostou, só ficou lá pra manter a ordem. Não fizemos bagunça nem nada, mas fechamos a rua, ficou todo mundo sentado, não vai atropelar nós. Eles não querem nada fora que não é nosso direito, mano. Eles querem ajuda. Incidente aí tem um laudo, o fogo foi acidental, foi curto. Você mora na periferia, mal tá chegando luz, o morador lá daquela ponta do último barraco vai fazer o quê? Vem aqui, puxa um garrancho aqui, tem energia na casa dele. Vila Esperança até hoje a maioria é assim. Vai melhorar no quê? Vai brigar por quê? Aí foi quando... “Não, volta aqui”. Aí voltou eu, montei uma comissão com os moradores. Fomos lá: “Não, tem essa brecha aqui na lei”. Aí ficou no jurídico lá, o prefeito aprovou, deu ok, foi lá, mandou pra Câmara, os vereadores também, foi excepcional naquela época lá, fizeram uma sessão extra, que eles falam assim, alguma coisa fora da data mesmo da sessão. Aprovaram, voltou para a prefeitura, o jurídico deu ok, tudo certinho dentro da lei, quando o pessoal que não, o pessoal estava recebendo. Na época eu acho que era, acho que ficou acordado de cinco salários mínimo. Sei que foi por aí. Aí foi quando aí os moradores teve o direito de alguns reconstruir sua moradia, porque como era barraco, era madeira. Aí fomos, alguns materiais de construção, alguns doou algumas coisas, doou algumas coisas, outros moradores também já foram lá, comprou, aí fecharam o pacote. Que aí as coisas são mais de conta, mais barato. E aí, daquela época pra cá, aqueles moradores de lá, alguns conseguiram reconstruir. Uns foram pra casa de parente, foi pra outro lugar, mas foi assistido agora com essa situação aí dos prédios. Então, assim, os incêndios que tem aqui, mano, não sei onde foi, beco com beco, quantos barracos foram pegados, quem foi assistido, o que fizemos aí pra ajudar os moradores, entendeu? Quem recebeu benefício, quem não recebeu benefício. Daí foi criado através de nós, das lutas. Daí a confiança. Que você vai adquirindo a passar do tempo, que os moradores já veem você como referência. Sabe que você é o S.O.S. da Vila Esperança. Sabe que você primeiro, antes lá do prefeito, do vereador, você vai ser você. Primeiro a estar no local é você. Não é ninguém, não é o bombeiro, é você que vai estar no local, mano, ajudando ali, pegando lama, pegando água, pegando água da maré, de onde tiver pra apagar o fogo. É você e não tem frescura. É você que vai estar no cara-crachá ali, no tête-à-tête com o morador. E é desse jeito aí, cara.
P/2 - Quando e como começou a associação?
R - Essa associação não fui eu que fundei. Nós estamos falando dessa associação aí em torno de uns 20 anos. Foi passada por diversas mãos até chegar em mim.
P/2 - Você tinha quantos anos?
R - Ela chegou na minha mão, acho que uns... Estamos falando em torno de uns 6 anos.
P/2 - Mas foi um convite? Você queria? Você se apresentou para isso?
R - Não, na realidade foi um convite porque nós não tínhamos muitas opções. O pessoal que estava aqui antigamente lá, que nem você s foram lá na associação, a associação era fechada, tinha um espaço, mas a associação era fechada. O cara que estava de frente dava comprovante de residência dentro do estabelecimento dele. Aí eu falei para os camaradas: “Nós já nos envolvemos em tudo, nós já estamos envolvidos em tudo. Nós é a referência aqui dentro. Vamos pegar. Se os caras não querem, vamos fazer o bagulho acontecer pra ter o espaço pra você bater um papo com o morador. Vamos chamar essa responsabilidade? Vamos”. Montamos a diretoria, montamos um time, aí fomos eleitos, e estamos aí até hoje, mano.
P/2 - Então é mandato?
R - É mandato. Mandato é de 4 em 4 anos, quem vota são os sócios. Porque se o morador tem direito ele vai virar sócio. Então todo mundo em dia e vai indo, mano.
P/2 - E seu dia-a-dia lá deve ser super puxado, correria?
R - Meu dia-a-dia é correria aqui dentro. Não tem como você escapar. É toda hora, comprovante de residência, quem assina é eu. Morreu alguém, quem faz o comprovante de residência é eu. Tem noção disso? Pra você ver, é o que eu tô falando pra você. Que progresso que nós estamos? O cara pra ser enterrado, se for morador da Vila Esperança, eu tenho que assinar, mano. Água e luz que não tem pra todo mundo. O comprovante de residência do morador é a água e a luz. E se não tem, vai fazer o quê? Aí eu tenho que comprovar que ele reside aqui dentro da Vila Esperança. Aí a família vem até mim, nós fazemos todos os trâmites legais para comprovar que ele mora aqui dentro. Aí vai lá, libera o corpo e enterra ele. Aqui não é terra para quem quer ser amado, não. Aqui não é terra para quem é aventureiro, não. Aventureiro que vem para cá e diz: “Vou me aventurar lá na Vila Esperança”. Não vai, mano. Não vai, porque você vai sair fora duzentos por hora que você vê. Aqui não é brincadeira, não, mano.
P/2 - Luciano, eu fiquei muito curiosa. Você falou que quem é daqui conhece a realidade daqui, vive isso aqui. Você que hoje tem muito contato com os moradores, eles querem sair daqui ou eles querem continuar?
R - Não querem, mano. Não querem. Eles querem ficar aqui. Eles querem uma melhoria. Mas eles querem ficar aqui. Eles querem ficar aqui. Pode perguntar pra qualquer um, mano. Pra qualquer um. Quer sair daqui é um ou outro, mano. Quem quer sair daqui de dentro? Mas você vai pra onde, mano? Todo mundo tem esse medo. “Vou sair daqui, vou pra onde? Vou assumir uma dívida de 30 anos? Tô com a minha casinha aqui, o que eu quero é só uma melhoria. Só quero uma água, um esgoto passando aqui. Não quero mais nada, o resto eu me viro. Daqui a pouco eu consigo um trampo, arrumo minha casinha, faço um quintalzinho, levo meu moleque pra jogar uma bola, pra brincar numa pracinha. Pô, vou sair daqui pra quê? Vou me enfiar?” Porque quem tem condição, tudo bem. Quem tem condição vai morar nesse lugar. Super apoio. Nada contra ninguém. Pô, estamos falando de gente que sobrevive com Bolsa Família. Estamos falando de gente aí que recebe um salário mínimo aí. Pô, hoje quem paga bem aí, hoje aí, vamos lá que é uma Petrobras da vida. Paga o salário mais 30%, pro ajudante. Nem tá tendo emprego aqui na nossa cidade, não tá tendo, mano. Vai sair pra onde, mano?
P/2 - E você? Quer continuar aqui?
R - Quero continuar aqui. Nem pela questão financeira, mas hoje. É por esse povo. Porque se eu sair daqui, como que esse povo fica? Certo que daqui a pouco vai ter outro no meu lugar. Pô, eu tenho saúde, mano. Tenho força, tenho minhas raízes aqui dentro. Eu conheço todo mundo. Eu tô esperando. Tô esperando o quê? Por dias melhores. A urbanização chegou, um processo lento. Mas chegou, mano. Pô, será que nós não conseguimos aí, né? Pô, muita luta aí, não sei. Não sei também que eu não entendo muito de lei. Será que nós não podemos congelar essas parcelas? Vamos botar esses moradores lá que não tem condição. Será que nós não podemos aí botar uma água e um esgoto pra esses moradores? Será que nós não conseguimos montar uma parceria aí, hoje aí, pra deixar um dia aí da tarifa zero dentro da Vila Esperança? É meu sonho, trazer melhoria para esses moradores. Felicidade. Os caras pensam que amanhã vai ser diferente. Quero que eles pensem assim, que amanhã vai ser diferente. Essa é a minha esperança aqui pra dentro. Não é eu sair, não é mais a questão financeira hoje em dia pra mim. É a questão que tem um time por trás. Tem esse povo que me acolheu. Tem esse povo aí com todo respeito. Eu abro o meu celular e mostro pra vocês. Tem gente me pedindo cesta básica agora. Tem gente que eu ajudo, que não tem o que comer. Aí eu vou sair, vou deixar esse pessoal pra ir pra onde? Não tem, mano. Hoje não dá pra sair.
P/2 - Eu penso muito em futuro, né? Você tá contando pra gente muito do passado até aqui. Quando você olha pra frente, o que você enxerga? Você tá falando dessas melhorias, desses sonhos. O que você quer pros seus filhos? Que eles continuem aqui?
R - Deixa eu te falar uma situação. O que eu almejo no meu futuro, tanto que eu não quis e não tive condição de cursar uma faculdade. Sou formado em gestão financeira, mas não fiz direito, que é o que eu gosto. Tenho muitos amigos advogados hoje. Na família da minha esposa tem um menino que se formou agora há pouco tempo em engenharia. Eu segui outro ramo, tanto que muita gente fala pra eu me formar, fazer alguma coisa, se formar em engenharia, tanto pelos ramos que eu sigo, mas falei que hoje não me vejo mais isso. Luto, luto pra dar uma estabilidade pros meus filhos, pra eles escolherem o que eles quiserem fazer da vida deles, tipo, no sentido bom, a faculdade, eu deixei bem claro pra eles que eles vão ter que estudar, tanto que meu moleque mais velho é muito inteligente, mano. Muito inteligente. Até eu brinco com a mulher, que ele não puxou eu, puxou o tio dele. Sabe, mano? Devido às minhas notas na escola, na época. Devido a muita coisa que aconteceu, que eu parei de estudar. E você vê, o tio dele é um moleque cabeça, um moleque que estuda, formado. E um moleque mais velho. Muito inteligente. O moleque mais velho, ele não fala frequentemente o inglês. Mas se você trocar algumas palavras com ele, ele troca algumas palavras contigo no inglês. O meu mais velho. Então hoje eu tô numa fase da vida que eu luto assim mais por eles. Tipo, não quero... “Ah, vou sair daqui”. Se eles quiserem sair daqui, eles vão ter todo apoio possível, mano. Mas hoje eu tenho 32 anos. Sou novo? Sou novo, mas... Assim, não pode ser que eu saia, num futuro, mas num futuro, tipo, assim, distante mesmo. Liberdade pra eu falar, então, assim, algumas pessoas se mordem, porque Cubatão, hoje, a maior favela é a nossa, Vila Esperança, inclusive, da Baixada Santista é Vila Esperança. Então, hoje, a liderança é eu. Então, assim, a prerrogativa eu tenho muito, pra falar de igual com eles, referente à Vila Esperança. Então, muita gente, às vezes, não gosta, porque eu coloco alguns pontos que doem realmente neles no poder público. Inclusive, essa discussão que eu tive lá com o pessoal, porque quer fazer algumas coisas, doou computador… O computador é lindo, mas aqui é outra situação. Mas vamos lá.
P/1 - A gente já está se encaminhando para o final, mas vamos seguir nessa linha da Vila Esperança, como você já estava falando sobre ela. Você falou da urbanização, que é muito importante, mas quais são as perspectivas da sua luta pessoal para a Vila Esperança? Só para a gente deixar isso bem fixado.
R - Cara, o que eu penso pra Vila Esperança, velho? Cara, ter dias melhores, tipo assim. Nós temos acesso a uma cultura. Aqui dentro do bairro tem que ser mais acessível. A saúde aqui dentro tem que ser mais acessível. Então, assim... Educação aqui dentro. É uma Vila Esperança que o morador tenha escritura da sua casa. Que tenha um esgoto, água, luz. O que você tem é assim. Que você acorde, o bagulho não tenha alagado. Não esteja alagado. Não vou acordar com água na minha canela. Não tô falando isso lá de cima, mas tô falando no contexto aqui de baixo, aqui. Que é o pessoal que sofre mesmo aqui, é o pessoal daqui de baixo. Então, o que eu penso aqui, o que eu espero aqui num futuro... Creio que num futuro próximo. A Vila Esperança ser olhada mesmo com outros olhos. Ter vários projetos aqui dentro, que, tipo assim, tá vindo a urbanização, tá vindo. Aqui dentro dessa urbanização tira algumas casas e abre, tipo assim... Entidades, mesmo que sejam do governo nacional, mas que tenham projetos para a nossa comunidade. Que peguem um espaço, montem uma ONG aí, tragam o fundo social, o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) aqui para dentro. Que atenda essa população, que olhe para essa população mesmo de verdade, a população carente, a população assim, que ela vai te abraçar, ela vai te acolher. Ela vai te acolher aqui dentro, de um jeito ou de outro ela vai. Ela vai te abraçar, vai te mostrar o caminho. Ela vai se unir contigo se for uma causa justa pra nossa população. Então assim, que o pessoal olhe aqui pra dentro. Tem uns bagulho lá na Vila Nova, tem no Casqueiro, porque não pode ter aqui dentro? Porque nós não podemos ir aqui, já está tendo urbanização. Derruba aí umas 5, 6 casas aí, pega esses moradores, faz essa situação de dar uma moradia digna pra esses moradores, pega esse espaço aqui dentro, uma rua, urbaniza esse espaço, monta um playground, monta uma quadra aí que nós vemos em outros lugares, de tênis, bota essas molecadas pra fazer tênis, mano. É esporte de playboy, mano, bota essas molecadas aí pra fazer, pô. Não é só de playboy. Playboy nada, mano. O que não tem espaço, não tem essa oportunidade, essa brecha. Põe essas molecadas pra fazer um futevôlei, que é a onda do momento aí na nossa cidade, na área da favela não tem. Tá vendo? Em outros lugares, é isso daqui, é o básico que eu tô falando com vocês. É o simples. Quem é que não tem acesso a isso, gente? Pelo amor de Deus. Quem é que não tem acesso a isso? Todo mundo tem, mas nós vamos ter acesso aonde? Aqui dentro não tem nada. Tem um playground aqui. A manutenção aqui é difícil. Nossa realidade é nua e crua. Então eu espero isso daí pro futuro próximo. Que o pessoal olhe pra cá com mais cuidado, pra dentro da Vila Esperança. Chega na urbanização, não custa nada. De contrapartida, qual é a empresa que vai fazer? Não sei, ganhou, licitou? Então, vem aqui, você ganhou isso e aquilo, mas tira uma gordurinha do teu lucro aqui, reurbaniza esse espaço aqui. Faz um campo de futebol, faz um campo de futevôlei, faz um playground, faz uma pista de skate, faz algo do tipo. Bota uma professora de reforço aí pra dar reforço pra essas criançadas aí no nosso bairro. Bota um professor de inglês aqui dentro aqui. Porra, mano. É difícil isso? Pô, nós estamos falando de coisas normais, que tem quase tudo quanto é lugar. Mas desde a periferia não tem, meu. Pô, nós arruma dinheiro pra tanta coisa aí, meu. Nós não conseguimos arrumar dinheiro pra isso? É isso, que eu espero pra Vila Esperança, que ela seja assistida. Que o pessoal olhe pra cá com o carinho que plante uma semente de esperança nesses moradores aí. Porque se não, o pessoal vai continuar vendo a Vila Esperança só como lugar de invasão. Nós já somos formados pela invasão aqui dentro, mas é que era tudo mangue. “Pessoal, vamos parar que lá é favela mesmo, lá nós invade e acabou”. Não, mano, vamos parar com isso, mano. Vim na urbanização, vamos lotear tudo, vamos colocar CEP, vamos colocar rua, abrir rua para os moradores aí, para vir um correio aqui para dentro, o pessoal começar a fazer suas entregas aqui dentro. Custa quanto isso daí, mano? Pô, a vida não tem preço. Tá aqui uma UPA que tem lá no Casqueiro, pô. Bota uma UPA aqui dentro. Com médico especialista em várias coisas. Uma vida não tem preço, gente. Tá entendendo? Nós não temos ambulância aqui dentro da Vila Esperança 24 horas. Nós é a maior favela da Baixada Santista, pô. Estamos falando de coisas simples, meu. Vocês estão entendendo, mano? A minha revolta é isso. É coisa simples, não estou pedindo para dar um McDonald 's para essas crianças, não. Que vai sair do bolso deles. E é coisa simples, não estou pedindo. Não estou pedindo para levar essas crianças aí na praia. Que é coisa simples também, mas é fora do comum, não estou pedindo. É o mínimo. Um lugar para as crianças se divertirem, mano. Eu não tive isso lá atrás, meus pais não teve. Os caras que eram antigos, esses caras aqui não teve, mano. Por isso que eu falo, meu filho, hoje tá tendo uma mordomia, tem uma infância boa. Aí, porra, vamos trazer isso pra comunidade. Foda, mano. Muito foda aqui dentro. Muito foda. Vou te dar outro exemplo aqui, rápido. Rápido, rápido pra nós mudar a pergunta. Porra, o pessoal lá da Rua da Benção, vaõ ter um parquinho de diversão agora, mano. Porra, mano. Agora vou ter um parquinho de diversão, meu? Porra! Tá ficando louco? Tamo falando de seres humanos, nós não tamo falando de alienígenas. A água tá chegando lá agora, a água encanada da SABESP, o esgoto. Será que nós tamo falando a mesma língua? Tem alguma coisa que não tá batendo aí não, meu. Não tá batendo. Tamo falando da mesma língua? Tamo falando de seres humanos? Tem lugar aqui que é água da Sabesp aqui, mesmo sendo encanada aqui. Se o vizinho ligar no outro lugar não sobe água na torneira. Que que tá faltando? Tamo tratando de quê? Tamo olhando pra esses moradores? Tá me entendendo? Muito foda aqui dentro, mano.
P/1 - Até foi bom que você comentou essa coisa da SABESP que a gente tá vendo, né? Agora, porque tá acontecendo exatamente nesse momento. Como é que tá sendo isso com o morador? Porque isso mexe com a vida dele, do dia a dia, né? Como é que é pra dialogar com a população e como é que eles entraram aqui, foi por intermédio de você, como é que resolveu isso?
R - Não, isso daí foi luta nossa também. Lá na Rua da Benção, onde nós estamos falando, vocês conhecem lá? Vocês podem parar lá para conversar com qualquer morador, não é eu que vou falar, não, é eles que vão falar. Ali foi luta nossa, luta antiga, minha, do vereador do Topete, que engajou mesmo, pode perguntar, não estou mentindo não, gente. Pode perguntar lá, antes disso não se falava de água e luz lá para os moradores. Cada um puxava seu garrancho, você tem ideia, o pessoal puxava água sabe de onde? Vocês conhecem o Morro do Índio? Nós estamos falando de uma comunidade, que é dentro do Sítio Novo. O Morro do Índio aqui é longe, o pessoal puxava pelo mangue. As mangueiras vêm de lá para cá. Pra vocês ter ideia, gente. Então essa é a nossa realidade nua e crua.
P/1 - Era uma água que vinha direto, ela não era tratada nem nada. É água do mangue que você está falando mesmo?
R - Não. Aquelas mangueiras pretas que vocês veem?
P/1 - Sim.
R - Elas vêm da rede lá do Morro do Índio, mas quem puxa não é SABESP, quem puxa é o morador. Lá tem água encanada, aqui já não tem. Então o lugar mais perto de se puxar, que a água vinha um pouquinho forte pra atender, vinha do Morro do Índio pra cá. O morador que puxava ligava aquela bomba pra dar pressão na água. Olha o que nós estamos falando, mano. Tá entendendo?
P/1 - E isso só agora, em 2025.
R - Agora, a água está chegando agora. A água está chegando agora. Se você descer lá agora, você vai ver essa besta cavando, botando água e esgoto. Ponto. As caixinhas do relógio lá estão bonitinhas. Eu até gravei esses dias com eles lá. Está lá bonitinha lá, aquele S lindo dessa besta. Está lá para eles. Vê se eles não querem pagar água e luz? Precisamos agradecer a Deus todo dia. “Não, nós vamos pagar, nós vamos pagar. Vamos se virar, nós vamos pagar”. O que eles querem, mano? O que eles querem? Eu sou leigo, mas eu acho que a nossa Constituição deixa que o morador tenha que ter o básico para sobreviver. O governo tem que cumprir com isso.
P/1 - E sem, como você falou, de chamar de país das maravilhas, sem falar que é o país das maravilhas, o que a Vila Esperança tem de bom? Porque você tem um bom sentimento em relação a ela, tanto que você não quer sair. O que ela tem de bom? De positivo?
R - Eu acho que é a união dos moradores. É um povo acolhedor, mano. Sabe por quê? Porque é um povo nordestino. Aqui há poucas pessoas molecada nova que nasceu aqui. O resto é Bahia, é nordeste, esses cantos afora de Deus aí. Tá entendendo? Então, assim, é um pessoal acolhedor. Pessoal que luta mesmo aí pra ter dias melhores, né? E, mano... E vivendo vida, cara. E a esperança de dias melhores eles têm. Por que aqui, tem o que de bom aqui dentro da Vila Esperança, a não ser isso, a não ser os moradores que se unem? Vamos falar do futebol toda hora? Vamos falar de uma UBS que tem aí toda hora? Falar mais o que? O que tem de bom aqui é os moradores que se unem. Que abraça, se tiver que carregar um aterro aqui, eles carregam. Se tiver que puxar algo, eles vão fazer, um gato vai puxar mesmo. Se faltou energia lá, tiver que subir aqui. Mano, aqui é Deus. Um morador sobe aqui, bate o alicate e puxa energia, irmão. Não toma um choque. Aqui é nós por nós e Deus por nós, mano. O que tem de bom é isso, aqui dentro. Eu não quero sair daqui, não.
P/1 - Tem algum ponto que eu não perguntei, porque a gente tá vindo de fora, e que você fala, isso eu gostaria de deixar registrado sobre a vila ou sobre você, alguma coisa que a gente não perguntou?
R - Não, acho que nem que vocês perguntou aqui, nós fomos entrando aos pouquinhos mesmo em tudo, em tudo quanto é lugar, entramos de palafita, de saúde, saneamento básico, de linha do trem, de tudo da minha vida fui falando também. Às vezes não é a pergunta, é que você vai entrando, você acaba falando alguma coisinha aqui, vai indo, vai indo, vai indo. Não pensa que não, você englobou quase tudo.
P/1 - E aí, pra gente terminar, o que você achou de contar a história? O que você acha de preservar a história da vila e de contar a sua história?
R - Cara, eu achei muito bacana. No início eu achei assim: “Pô mano, mas esse pessoal tá vindo pra cá, quer saber da Vila Esperança”. É morador? O que esse pessoal quer contar a história? O Andinho falou: “Quer contar?” “Então vamos lá”. “Quer contar? Então vamos lá, mano. Quer saber mesmo? Então vamos lá”. Mano, eu achei bacana, porque isso daqui nunca aconteceu. Todo mundo quer vender a Vila Esperança, como a Vila Esperança é linda, mas isso daqui nunca aconteceu, em lugar nenhum. Quem contou da Vila Esperança aqui, que não contou isso que eu contei, tá mentindo. A Vila Esperança não é linda. Esperança é uma favela que foi criada na década de 80. Não é que você for humanizando pelos moradores e tomando isso daqui até hoje. Então, assim, é a Vila Esperança. A Vila Esperança, acho muito importante isso daqui. Eu espero que chegue sim em outras pessoas aí fora, que realmente caia aí. Que outras pessoas vejam a nossa cultura, a nossa realidade, pra ver que a vida também não é mole pra ninguém. Acho que o pessoal que vem de periferia não é nenhum herdeiro. E gente que é herdeiro não tá aqui dentro. Pode ter certeza disso. Mas o pessoal periférico, o pessoal de periferia, que eles lutem, mano. Lutem dia após dia. Porque é difícil, tá ligado? Que nós já nasce tendo que lutar. Que nós já nasce chorando. Ainda mais o pessoal de periferia, não chora só quando nasce. Chora no outro dia, no outro dia, no outro dia e vai indo. Até você aprender a não chorar mais e se acostumar com o dia-a-dia. Tá entendendo? Aí, quando você se acostuma com o dia-a-dia, você vai se aprendendo a viver. Daqui a pouco você se entende como gente. Aí você vai se agarrar na sua luta, na sua ideologia, o que você quer pra sua vida. É isso que eu espero pro nosso povo, que nunca parem de lutar. Que se eles pararem de lutar, isso daqui vai virar um retrocesso. Vai voltar pra década de 60. Não vamos nem falar nem 80, que foi quando meu pai veio pra cá, mas já tinha gente aqui. Vai voltar muito antes, isso daqui vai virar um retrocesso. O que vocês estão vendo não vai evoluir nunca. Já tá difícil evoluir nós lutando se esse pessoal parar, perder a esperança. Por isso que eu falo que eu espero que tenha outras pessoas com os olhares bons para a Vila Esperança. Que quando você junta os pessoal de fora que tem um olhar bom com esse pessoal daqui de dentro, surge esperança. E se deixar só na mão desse pessoal aqui, não é que eles vão desistir, não. É que você cansa, mano. Você luta, luta, luta, mas sempre vai ter um muro. Aí, às vezes, você quebra uma barreira, mas vai ter outra. Até o pessoal fala:, “Mano, vamos deixar de mão”. E você vai deixar de mão uma comunidade dessa? Se o pessoal daqui perder essa esperança de viver, de dias melhores mesmo, isso daqui vai se tornar uma Faixa de Gaza. A nossa cidade tá... Desemprego é grande. Nós tem um crime batendo na porta. Não vai pro crime quem não quer. Então, assim... Falo: “Não pode abandonar isso daqui. Esse pessoal daqui tem que ter esperança de dias melhores”. E pra ter esperança, tem que ter mais gente junto com eles. Tem que ter mais gente contando a história, mostrando essa história lá pra fora. Que às vezes você mostra essa história aqui. Você consegue trazer pessoas aqui pra realmente conhecer. Às vezes você traz até gente: “Não, mano. Vou lá, vou fazer alguma coisa diferente. Vou engajar em algum projeto lá pra tentar fazer algo diferente. Vou fazer alguma ação social lá dentro. Vou fazer alguma ação de Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, Natal, fazer alguma coisa lá dentro”. Então, isso é importante. O que vocês fazem aqui também, o que estão fazendo aqui. Mostrando essa realidade, porque traz esperança isso, mano.
P/1 - Muito obrigado, Luciano. Obrigado pela sua história. Obrigado por participar. E é isso aí. A gente quer que a história da vila ganhe o mundo e que volte para vocês.
R - Eu que agradeço vocês, porque essa história aqui, ninguém nunca contou, não. Você está sendo o primeiro. Porque a maioria das pessoas quer inventar um mundo que não existe. Eu não invento um mundo que não existe. Eu falo o que eu vivi. O que eu estou vivendo até hoje. E a Vila Esperança não contei muito, não. Tem gente ainda mais antiga que eu para contar. Mas tem que ser cara bom, que queira contar a mesma realidade. Então eu agradeço a vocês por essa oportunidade, por esse documentário, por a Vila Esperança estar ganhando vida. Que a vida é coisa divina. Um bagulho que nós preza. Muito, mano. E a esperança é outra coisa que faz nossos olhos brilharem, encher nossos olhos de emoção. E é isso. É a esperança aqui dentro, e que venha mais gente comprometida com a nossa comunidade. E nunca perca essa esperança em dias melhores. Muito obrigado.
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