Projeto Memórias da Vila Nova Esperança
Entrevista de Anderson Luiz Santos da Silva
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 23 de outubro de 2025.
Entrevista código: MVE_HV005
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
P/1 - Tá. Andinho, eu vou pedir pra você começar falando o seu nome inteiro, sua data de nascimento e a cidade onde você nasceu.
R - Anderson Luiz Santos Silva, nascimento dia 20 do 03 do 1989 e nasci aqui em Cubatão mesmo.
P/1 - Você nasceu aqui na vila?
R - Sim, na Vila Esperança mesmo, vim daqui.
P/1 - E seus pais?
R - Minha mãe é alagoana, Meu pai é pernambucano, né? Vieram de Pernambuco pra cá. Minha mãe também é alagoana. É mais isso mesmo.
P/1 - E você sabe como eles se conheceram? Como que eles vieram parar aqui?
R - Eles se conheceram aqui, né? Vieram como todas as pessoas que, de outros estados, vieram pra Cubatão. Vieram por conta da demanda de emprego, né? Que tinha na época aqui. E do lado do Nordeste sempre foi mais difícil. Então, se conheceram aqui mesmo, em outro bairro, aqui no Casqueiro. Mas, aí, minha lembrança que eu tenho é pelo menos disso que eu saiba. Eu nunca perguntei uma coisa assim pra minha mãe. É legal perguntar isso aí um dia. Aonde foi.
P/1 - Como eles se chamam?
R - Minha mãe é Dona Maria Cícera e meu pai é o José, o Sr. José Pedro.
P/1 - A Dona Maria e o Sr. José estão vivos?
R - Estão, graças a Deus.
P/1 - Tem outros filhos?
R - Tem o Marcelo, né? É o mais velho, tem o Renan também, que é um ano mais novo que eu e tem a Shirley também, que ela tem 10 anos a menos que eu, né? No caso. Então, somos três irmãos, Marcelo, Shirley e Anderson e o Renan.
P/1 - Então, são três meninos e uma menina.
R - Isso.
P/1 - Tudo do mesmo pai, mesma mãe e mesmo casamento?
R - Tudo, tudo. Graças a Deus, foi tudo uma família só.
P/1 - Como eles são fisicamente, seu pai e sua mãe? Deixa eu...
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Entrevista de Anderson Luiz Santos da Silva
Entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 23 de outubro de 2025.
Entrevista código: MVE_HV005
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
P/1 - Tá. Andinho, eu vou pedir pra você começar falando o seu nome inteiro, sua data de nascimento e a cidade onde você nasceu.
R - Anderson Luiz Santos Silva, nascimento dia 20 do 03 do 1989 e nasci aqui em Cubatão mesmo.
P/1 - Você nasceu aqui na vila?
R - Sim, na Vila Esperança mesmo, vim daqui.
P/1 - E seus pais?
R - Minha mãe é alagoana, Meu pai é pernambucano, né? Vieram de Pernambuco pra cá. Minha mãe também é alagoana. É mais isso mesmo.
P/1 - E você sabe como eles se conheceram? Como que eles vieram parar aqui?
R - Eles se conheceram aqui, né? Vieram como todas as pessoas que, de outros estados, vieram pra Cubatão. Vieram por conta da demanda de emprego, né? Que tinha na época aqui. E do lado do Nordeste sempre foi mais difícil. Então, se conheceram aqui mesmo, em outro bairro, aqui no Casqueiro. Mas, aí, minha lembrança que eu tenho é pelo menos disso que eu saiba. Eu nunca perguntei uma coisa assim pra minha mãe. É legal perguntar isso aí um dia. Aonde foi.
P/1 - Como eles se chamam?
R - Minha mãe é Dona Maria Cícera e meu pai é o José, o Sr. José Pedro.
P/1 - A Dona Maria e o Sr. José estão vivos?
R - Estão, graças a Deus.
P/1 - Tem outros filhos?
R - Tem o Marcelo, né? É o mais velho, tem o Renan também, que é um ano mais novo que eu e tem a Shirley também, que ela tem 10 anos a menos que eu, né? No caso. Então, somos três irmãos, Marcelo, Shirley e Anderson e o Renan.
P/1 - Então, são três meninos e uma menina.
R - Isso.
P/1 - Tudo do mesmo pai, mesma mãe e mesmo casamento?
R - Tudo, tudo. Graças a Deus, foi tudo uma família só.
P/1 - Como eles são fisicamente, seu pai e sua mãe? Deixa eu imaginar como são eles.
R - Minha mãe é uma senhora evangélica, né? Muito temente a Deus, sempre tá olhando pela gente também. Meu pai já é um pouco mais descolado, um pouco mais …., gosta de sair, tomar uma cerveja, tomar uma pinguinha no final do dia. Muito trabalhador, não me lembro de ter deixado faltar nada dentro de casa, em questão de alimento, mas vontades, sim, até por um monte de filhos que a gente tinha. Mas são duas pessoas trabalhadoras, meu pai é um pouco baixinho, minha mãe é um pouco altinha.
P/1 - Você parece com eles?
R - Acho que pareço mais com a minha mãe, não com o meu pai, não. Acho que é mais ou menos isso. Meu irmão mais novo parece um pouco com o meu pai, meu pai é carequinha baixinho, meio carequinha, mas uma pessoa do bem, um orgulho, eu me orgulho do meu pai, eu tenho, assim.
P/1 - E eles trabalham com o que, Andinho?
R - Minha mãe é dona do lar mesmo, em casa, e meu pai ele trabalha na industrial mesmo, continua trabalhando até hoje, vai encarregado de montar andaimes aí no ponto industrial aqui de Cubatão.
P/1 - E quando eles vieram pra cá, pra Cubatão, eles já vieram direto pra vila? Ficaram nela? Eles te contaram como foi esse chegada?
R - Na realidade, vieram para cá, depois saíram, foram para outro bairro chamado Vila dos Pescadores, que é outra comunidade, onde morava minha avó também, minha avó estava morando lá também, minha mãe enfrentou um problema de saúde, e aí a gente foi todos morar lá, e aí depois a gente voltou de novo para cá, para Vila Esperança. Mas a vida foi mais ou menos isso. Ficava entre lá e aqui, né, por conta desse problema da minha mãe e minha avó morava por lá. Acho que foi mais ou menos isso que aconteceu.
P/1 - Qual é a sua memória de criança aqui na vila?
R - Cara, a memória de criança foi uma... Era um pouco sofrida, né? Mas se divertia muito, né, aqui nessa comunidade. A gente nadava no rio, a gente empinava pipa, brincava de... Polícia, ladrão, se escondia dentro de caixa d'água. Fazia tanta coisa boa antigamente que a gente tinha. E hoje a gente não vê mais isso, né? E passa tão rápido que, de vez em quando, eu dou um pulo lá na comunidade onde eu morava, porque aqui são várias comunidades juntas. Na Ilha Bela eu fico vendo aquela rua já asfaltada, bonitinha. Nunca foi assim, nunca era asfaltada. Era só buraco, lama. Mas, mesmo assim, a gente se divertia muito, né? ia no mangue que pegava caranguejo, nadava, pulava em cima das árvores no mangue pra nadar. Então, coisas que eu não vejo a criançada fazendo no dia de hoje, no tempo de hoje, né? Então, a infância foi um pouco legal de... por brincadeiras, questão de brincadeiras mesmo.
Meu pai e minha mãe nunca foi de deixar a gente brincar na rua muito assim, né? Só que a gente sempre saia escondido, tipo, saia escondido _____ ladrão, pulava portão. Porque o nosso negócio era brincar com as crianças da época. E foi muito gostoso, um pouco sofrida também a questão de ter vontade de ter as coisas. Como eu falei, meu pai nunca deixou a gente faltar nada em casa, mas a gente também tinha vontades também que não tinha. O básico ele conseguia manter, mas o restante a gente não tinha muito acesso.
P/1 - O que faltava?
R - Às vezes é uma questão da estrutura mesmo. Às vezes não tinha um quarto pra todo mundo dormir, três filhos. Às vezes queria comer um Danone, por exemplo, não teve pra comer, hoje, depois que a gente começou a trabalhar hoje, a minha geladeira está cheia de Danone, que eu nem compro. Às vezes, é um negócio assim que às vezes a gente tinha vontade de ter e a gente não tinha. Naquela época, né? Salsicha… essas coisas que a criança gosta.
Eu lembro muito disso aí também. Tempo que acabava gás, às vezes ficava tempo sem gás, eu lembro que tinha um terreninho lá, meu pai fazia um fogão, fazia aqueles fogareiros assim, colocava lá e fazia arroz sem gás mesmo. Minha mãe fazia, então... Bem... Era difícil, a estrutura era difícil, né? Ou você comia, ou você mantinha uma estrutura, uma casa, uma... Ter uma cama melhor, ter uma roupa melhor, tinha umas coisas, então a gente foi... Como eu falei, a questão da alimentação nunca deixou faltar, mas a questão de vontade, estrutura, a gente percou (perdeu) muito, até porque é muito a realidade dessa comunidade que a gente mora, né?
P/1 - A casa de vocês, a casa que você cresceu, onde que ela ficava na vila? Era lá nas Palafitas?
R - Começou pelas Palafitas mesmo, né? Eu morei nas Palafitas por muito tempo, lá na Ilha Bela, e era sofrimento, né? Às vezes passava frio, Às vezes, havia um vento, não tinha segurança, não tinha nada, então o telhado voava. E é aquilo que eu falei da questão da falta de estrutura, porque para repor essa telha era uma briga, para repor essa madeira que voava, era uma briga. Então foi bem... É bem triste mesmo, assim, porque a gente vê isso até hoje ainda acontecendo aqui. Questões de... Toda vez que tem algum fenômeno da natureza, alguma coisa, uma chuva forte, a gente veem muitas coisas acontecendo aqui dentro, né? Desespero, às vezes até barraco caindo. Então é bem... Foi bem triste, né? Foi uma época que a gente passou bem sufocante mesmo. Às vezes o barraco cair, baixar as coisas, e depois reerguer de novo. Foi triste esse tempo, foi um tempo muito difícil. Às vezes, quando a gente dá um pulo assim, pra gente ver um pouco da realidade de hoje, a gente vê que não mudou muita coisa. Tá vendo que ainda continua a acontecer essas coisas ainda. É uma parte muito triste, mas que não mudou nada. Que ainda eu vejo que continua, com continuidade.
P/1 - Essa casa foi seu pai que construiu?
R - Foi. Meu pai construiu, e terminou, graças a Deus, depois que a gente foi crescendo, amadurecendo, a gente foi trabalhando todo mundo junto. E fazendo, às vezes, começava com... Eu lembro que a gente ficou morando num comodozinho, no finalzinho, e ele começou a comprar uns blocos pra começar a aterrar, a construir, a fazer as coisas no terreno, mas foi em anos pra terminar. Não foi um negócio, assim, de... A gente vê, assim, a questão de um ano, seis meses, sete meses, como a gente vê uma obra normal a caminhar, mas foi uma questão de anos pra terminar um reboco, por exemplo. A maré enchia dentro da casa, a realidade daqui era uma realidade muito triste, sabe? Bem complicado mesmo.
P/1 - Quem chegava a perder geladeira, armário?
R - Tudo. Tudo. Eu lembro que quando a gente mudou pra outra casa, entre aspas, porque a casa não tinha terminado ainda, tinha só o telhado e as paredes, mas o pai já falou, vamos produzir pra dentro. Porque lá naquele cantinho, a gente tava lá, não tava segurando. Aí começou a comprar as coisas tudo de novo, às vezes de segunda linha, às vezes usado. Foi bem sofrido mesmo, não foi um negócio... assim, fácil de ver. A gente vê as pessoas e é um pouco da nossa revolta que a gente vê isso até hoje, não mudou muita coisa. A gente dá uma volta assim e a gente vê isso acontecendo, né?
Eu lembro, por exemplo, um dia que o telhado voou e choveu tudo dentro de casa, eu lembro um dia que a parede caiu do nada, bateu um vento. Então, essas coisas que a gente tem de infância, lá, aqui. Isso aqui. Tô falando de coisas pra vocês mais ou menos de uns 15 anos atrás que não mudou ainda, continua mais ou menos até hoje.
P/1 - Tinha energia elétrica? Tinha água encanada? Como que era?
R - Quando a gente chegou aqui, no tempo, a gente não tinha isso. Não tinha acesso à água e não tinha acesso à energia. Por exemplo, lá, um dia, eu lembro muito do Zumbi, que as histórias vão se conectando, os líderes da época se reuniram e montaram um chafariz, porque era até onde o ponto chegava, de água. E aí as pessoas vinham até esse chafariz, pegavam os baldes, levavam os baldes até em casa, porque não tinha esse acesso à água ainda nesse tempo.
A questão da energia era muito gato, eles pegavam da principal, e levavam lá pra dentro, porque aqui na Vila Esperança a principal normalmente era mais estruturada, mas quando você descia pelas vertentes ali, ali no Sítio Novo, onde vocês já foram lá ver, não era dessa forma, não tinha essa estrutura toda. Então a gente via muita lâmpada com garrafa PET, normalmente dentro da garrafa PET, quando chover não dá choque em ninguém, e muito mal iluminada mesmo, muito mal assessorada. Eu chegava da escola normalmente e não tinha nada, estava tudo escuro, tudo escuro na época, era bem complicado assim que a gente chegou nesse começo, foi um começo bem triste para as pessoas da época. A maré, por exemplo, enchia e no meio do caminho tinha pessoas com barcos transportando essas pessoas de um lado para o outro, assim, porque aqui tinha dessas vertentes da maré, de alta de maré.
P/1 - O mangue, ele era presente, vocês pisavam na lama?
R - Muito, muito presente, nessa época o mangue era presente demais. A gente conseguia, por exemplo, pegar caranguejo na porta de casa, assim. Era bem... Nesse tempo a maré enchia, os peixes vinham, caranguejo, quantas vezes a gente ficava brincando de criança, a gente brincava muito nas palafitas, jogando água na... jogando... pescando. Normal, jogava... pegava peixe ali mesmo, assim, era muito bacana também até. Era bonito também, a gente tinha um lado bonito, não tinha um lado só sofrimento também não. A gente gostava dessa época, não era uma época tão... assim, a gente vê hoje, o dia de hoje, né? A gente não vê mais isso, né? Porque devido às invasões, devido a tudo, essas coisas não acontecem mais, você raramente vai ver um caranguejo hoje… Você raramente vai ver um peixe hoje aqui, então é bem... Na época a gente fazia projetos, a gente limpava mangue, fazia um monte de coisa na época.
Era bem bacana também, não era só assim, a gente fala de muito sofrimento, mas como criança a gente via aquilo ali também dando uma... Dava até uma alegria. Às vezes você vê um peixe, pegar um peixe, levar o peixe pra casa pra você comer. Era um tempo bom, caranguejo também, tinha umas coisas boas também, assim.
P/1 - E os vizinhos? Tinha muita gente? De onde vinham essas pessoas? Quem eram os teus amigos?
R - Os vizinhos, normalmente, vieram também como a gente também, né? Procurando um espaço melhor pra morar, né? Então, eram as pessoas bem sofridas também, que vinham de algum tempo de... Normalmente, estavam fugindo de alguma situação, de alguma área de violência, pra tentar procurar uma área, porque também tinha muito isso aqui também, pra procurar uma área mais segura.
Pessoas que moravam de aluguel e não tinham onde morar, ficavam desempregadas, então eles vinham ali, invadiam um pedacinho do mangue, e subia seus barracos, porque não era casa, né? Suas palafitas subiam.
Os vizinhos eram... até que era bacana. A gente brincou muito na casa dos vizinhos. E era bacana que a gente, tipo assim, todo mundo às vezes se ajudava, às vezes faltava um... faltava alguma coisa dentro de casa e eu cansei de comer na casa dos vizinhos também. Os vizinhos gostavam da gente, né? Que eram três meninos, a gente ajudava muito. Nessa época da água mesmo, a gente ajudava os vizinhos mais velhos que não conseguiam pegar o balde, a gente ia lá e trazia os baldes pra ajudar eles a ter água em casa, porque tinha muitas senhoras acamadas que não conseguiam fazer isso. Então tinha essa possibilidade também.
P/1 - As crianças ajudavam? Os pais ajudavam a cuidar dessa turma?
R - Todo mundo. Era normal dar umas cinco horas da tarde e você viu um monte de gente saindo com um monte de balde, carrinhos de mão, sei lá, alguns carrinhos improvisados. Tinha gente que montava até o seu carrinho, o próprio carrinho, pra caber mais balde, pra caber mais coisa, pra tá pegando essa água lá no chafarizinho, que o pessoal montou na época, que era pra acabar mesmo com esse sofrimento da água que tinha na época. É, porque não tinha muita... A gente raramente também...
Às vezes a gente ia pra escola sem tomar banho porque não tinha água. Água era bem difícil, né? Então a gente tinha...
P/1 - Tinha escola aqui perto?
R - Não, nunca teve escola aqui perto, né? A gente estudou, normalmente, era mais em outro bairro vizinho, que era Vila Natal. A maioria das pessoas faziam isso. Não tinha ônibus pra pegar essas crianças, todo mundo ia a pé as vezes, pra pegar o ônibus municipal, como esse aqui, você andava quase 1Km de dentro pra... que não entra, acho que é assim até hoje, acho que... Muitos ônibus não entram lá dentro ainda.
P/1 - E juntava um monte de criança pra ir juntas?
R - Todas as crianças iam juntas, era bem, bem difícil. E, normalmente, as mães, minha mãe mesmo ia nos levar pra escola todo dia, acompanhava a gente todo dia. Não deixava a gente sozinho nem que a… (a gente falava): “Vou sozinho hoje”. Não, dava ruim, não adianta, não vai. Era bem...
Pra elas era difícil também, a gente via que, na época, pra eles era muito difícil também. E aí, a gente juntava os colegas todos, a gente ia pra escola, todo mundo. Às vezes se jogava bola também no meio da rua, tinha bastante... Muitos já se mudaram, mudaram, conseguiram sair.
Porque as pessoas também estão no sofrimento, mas também não vai permanecer para sempre, chega uma hora que todo mundo quer uma melhora na vida, ninguém quer ficar onde nasceu para sempre, entre aspas, no meio do sofrimento.
Às vezes a pessoa quer voltar para dar uma força para ajudar a tirar alguém de lá, mas a tendência da vida da gente é melhorar, é isso aí. Então muitos desses amigos de infância nossos também, graças a Deus, muitos se encaminharam, se formaram e infelizmente outros também já foram embora também devido à violência da época.
P/1 - Os seus pais foram ficando, vocês continuaram?
R - Continuamos, a gente continuou aqui, a gente não saiu não. Teve algumas oportunidades de sair, mas a gente gostava daqui. A gente gosta daqui, né? É diferente aqui. É mais ou menos isso aí.
P/1 - Tinha alguma coisa que seus pais falavam enquanto você era criança que te marcou? Filho vai estudar, sabe? Alguma coisa que... Qual era o conselho deles? O que eles falavam da Vila?
R - Minha mãe, toda vez que eu chegava com uma nota vermelha, o que me marcou legal, é que ela me botava para fazer tabuada, eu decorei a tabuada toda. Eu falei, mãe, mãe, isso não tem nada a ver, é de ciências, mas ela trouxe a tabuada: “Vai fazer tabuada. Vai fazer tabuada”. Eu não sei se é por causa que eu não gostava, mas ela botava para a gente fazer tabuada. Era história, tirava nota vermelha de história e vai fazer tabuada… Eu não entendia nada disso, né? Eram as coisas que marcavam legal também assim a gente, né? E o sofrimento, né? O sofrimento, às vezes, das pessoas, da gente também marcou um pouco, né? A história do gás mesmo é uma história muito... que eu via muito, aquilo ali e me marcou legal, porque hoje, depois que a gente vai crescendo, a gente vai vendo, né? Caramba, né?
E o sofrimento é bom porque ensina também, eu mesmo nunca dependi de gás. Graças a Deus, eu nunca precisei de um gás, pra fazer dessa forma do gás aí, de fazer uma fogueira e colocar pra assar um arroz, por exemplo, um feijão, alguma coisa, fritar um ovo. Nunca precisei fazer isso, mas aquela época me marcou muito porque precisou realmente, precisou e era difícil porque você não tinha a quem dar a mão naquele tempo não.
Hoje a gente vê bastante gente dando a mão hoje, naquele tempo não tinha não, era raro, e as pessoas sofriam muito dentro de casa mesmo, sabe? Então é bem... as pessoas às vezes iam para a escola, no meu caso mesmo, eu ia para a escola com uma roupa e a tarde meu irmão pegava a (mesma) roupa para ir para a escola rolou tempos dessa forma, a gente achava normal, mas depois a gente vai crescendo, a gente vai vendo que não é normal, né? Isso não é normal.
Aí depois, aí hoje, no tempo de hoje, a prefeitura já está dando a roupa, já dá o transporte, já dar um material escolar, mas naquele tempo não tinha isso não, naquele tempo era você por você mesmo, então, por isso que eu acho que o sofrimento naquela época era muito maior, era muito difícil.
P/1 - Você comentou que vocês tiveram que mudar de casa, vocês faziam isso com certa frequência?
R - Não, foi duas vezes ou três vezes, uma foi devido a enchente, que perdeu as coisas todas, mas era tipo assim, uma casa era aqui e a outra casa era atrás. A gente morava na parte de trás e é onde enchia e a gente passou pra casa da parte da frente. Mas foi mais esse tipo de mudança. E quando minha mãe teve que fazer uma cirurgia também, aí a gente ficou muito em outro bairro aqui de Cubatão, em outra comunidade, que é a Vila dos Pescadores também, então a gente ficou muito lá pro lado de lá também, que minha avó morava por lá, então a gente fazia mais essa troca assim. Mas questão de mudança mesmo, assim, repentina não foi mais aqui.
P/1 - Fico curiosa, Andinho, imaginando você criança… Como você era criança?
R - Era danado, nossa. Era bem danada. Ah, eu pulava, eu pulava a janela pra sair pros locais, pra ir, pra vender água na pista. Tipo assim, a gente sempre foi determinado em fazer alguma coisa, né? Nunca foi assim de querer ficar parado, de querer ficar parado, né? Por exemplo, antigamente o meio de sobrevivência, muito aqui na Vila Esperança era quando a Imigrantes (Rodovia dos Imigrantes) parava.
P/1 - No trânsito.
R - No trânsito. A Imigrantes parava, e a gente foi muito lá, né? A gente pegava água, pegava uma Coca (Refrigerante), os vizinhos saíam vendendo, e chamavam a gente junto também, aí chamava a gente pra fazer essa venda, dava um dinheirinho pra gente, pra gente vender. Então teve tempo que eu lembrei que eu tomei uma surra porque eu fiquei dia 25 de Natal vendendo água na pista, dia de 24, 24 pra 25. A gente ficou vendendo água na pista pros turistas, a gente não entendia, a gente queria ganhar um dinheiro, né? Mas trabalhando, fazendo uma... Então, às vezes a gente... Aí a minha mãe não gostava da gente ir, dizia que era perigoso, né? Aí às vezes também a gente queria vender, - Tá tendo carnaval na avenida, tava tendo carnaval. A gente ia pegar os isoporzinhos e ia vender, a minha mãe não gostava, e aí, - tá lá no mercado fazendo empacotamento, ajudando as pessoas, sabe? Pegando o carrinho, não gostava, a minha mãe não gostava, era bem triste mesmo essa situação, mas a gente queria se virar, né?
P/1 - E muito você... Ia com seus irmãos?
R - Ia com meus irmãos, ia com meu irmão mais velho, normalmente, o mais novo não ia, não, o mais velho ia com a gente, a gente fazia muito isso. Às vezes a gente burlava aula pra trabalhar também, pra fazer um bico também.
Mas a questão de ser danado era mais por conta disso mesmo, que a gente queria se virar nos trinta né? A gente não queria estar naquela situação, a gente via o sofrimento do pai da gente, então a gente fazia muito isso, brincava muito na rua, era arteiro sim, nunca fui bonzinho não, mas..., Mas as minhas piores brigas dentro de casa, entre aspas, com a minha mãe e com o meu pai, eram mais por conta disso, porque eles não queriam que eu fizesse isso.
P/1 - Então deixa eu entender, eles não queriam que você fosse trabalhar por uma questão de segurança?
R - É segurança, também, hoje eu entendo que é segurança também. Talvez eu ter o meu filho hoje, talvez eu não... Eu não queria também que ele fizesse isso. Então é... Mas mesmo sabendo que o momento é diferente, o momento já é outro, mas eu não queria que ele fizesse isso também, era bem difícil, mas a questão do arteiro era mais por conta... O que eu lembro, minhas piores dificuldades mesmo com minha mãe, com meu pai, minhas maiores briga com eles foi por conta disso.
P/1 - Eles eram bravos?
R - Minha mãe era… minha mãe era brava, continua ainda. ‘Era’ não, continua sendo brava, não muda não. Mas o coração é bom, minha mãezinha é tudo, não tem como. É a mulher que a gente via todo dia, enfim, orando, fazendo pela gente, quantas vezes eu ouvia isso. Às vezes eu tava deitado e ela tava lá orando pela gente também, fazendo as coisas, então, minha mãezinha, mesmo que ela era brava, mas ela também era uma mulher de fé, gostava muito da gente.
P/1 - E o teu sonho de menino? O que você queria ser? O que você gostava? Qual era o teu sonho?
R - O sonho da gente era sair daquela realidade, quem mora na situação daquela, infelizmente, não tem muito sonho, as pessoas tiraram o sonho daquelas pessoas.
P/1 - Mesmo de criança?
R - Mesmo de criança, não tinha como ter sonho naquele momento. A gente queria trabalhar, a gente queria trabalhar, porque o país sempre mandava a gente entrar no caminho certo. A gente via a luta do pai da gente, né? Mas questão de sonho naquele momento, eu lembro que eu não tive bastante, o que eu queria é trabalhar.
P/1 - De qualquer coisa ou de alguma coisa?
R - De alguma coisa, não sabia o que era, mas era de alguma coisa. A gente queria virar adulto, acho que quem é criança naquele momento queria virar adulto logo, não queria estar na... A gente não quer ficar naquela situação pra sempre, né? É difícil, é bem complicado. Eu não gosto de culpar ninguém com isso, mas eles tiram o sonho das pessoas.
P/1 - Quem?
R - Eu acho que é o próprio sistema, eles tiram o sonho das crianças mesmo aqui no bairro, e naquela época você não via muitas pessoas incentivando. É muito poucas pessoas que eu tenho memória, que incentivaram a gente a estudar, terminar os estudos, foi bem doloroso sabe? a gente pensar dessa forma, mas depois que eu fui crescendo, a gente foi entendendo que: - Eu sonho em ser um advogado? Não tive, engenheiro? Não tive, a gente queria estar se virando.
Depois foi aparecendo os sonhos, depois a gente foi crescendo, foi aparecendo alguns objetivos na vida, mas naquele momento a gente só queria sair daquilo.
P/1 - Mas tinha uma criança que talvez quisesse ganhar uma bicicleta? Alguma coisa que fosse ali, próximo?
R - Essas coisas mais básicas, a gente tinha, a gente via, né? A gente via as crianças, com algumas pessoas, você não entendia, né? Como algumas pessoas, algumas tinham muita coisa e outras não tinham nada? A gente tinha esse pensamento também: - por que as pessoas têm uma bicicleta? Hoje, a pessoa pergunta nas festas das crianças que a gente faz hoje, fala das bicicletas, mas a bicicleta pra mim era um símbolo também, acho que você tocou no assunto melhor, era um símbolo mesmo, todo mundo tinha uma bicicleta pra ir pra escola, as pessoas tinham uma bicicleta pra se locomover, e a gente não tinha. E, normalmente, um vizinho, uma vez, deu uma bicicleta toda velhinha pra gente, a gente foi arrumando, a gente pegou e ficava andando com essa bicicleta. Mas eu acho que o sonho de muitos dessa molecada hoje em dia, é ter uma bicicleta mesmo, não é uma...
Hoje o objetivo vai mudando, né? Hoje a gente quer ter outras coisas, tem mais coisas, mas, naquele momento, foi triste demais.
Você não ter uma bicicleta, você, às vezes, não ter um tênis! Às vezes, o tênis você vai andando, o tênis tava saindo, tava descolando. Ou, senão, você chegava na escola, com o tênis sujo de barro, e aí você via que você morava num lugar e outras pessoas moravam em outro, as pessoas chegavam todas arrumadinhas, todas que moravam próximo da escola. E você via você mesmo com o pé cheio de barro, às vezes você não conseguia tomar um banho, por causa da água que não tinha, acordava cedo, já colocava a roupa, porque não tinha água, você ligava a torneira, não tinha água, não tinha nada. Então o sofrimento naquela época era mais sair daquela situação.
Por isso que quando a gente fala do sonho, a gente não lembra do sonho, não lembra do sonho daquele momento, a gente queria sobreviver, a gente queria estar em alguma situação, né? A gente queria dar uma melhora pro pai da gente, pra mãe da gente.
P/1 - Mas... Em que momento, Andinho? Porque eu imagino que uma criança perceba essas coisas, mas não tem um entendimento, né? Em que momento você percebeu essa realidade? Aquela: - opa, isso aqui faz parte da minha vida, eu quero melhorar isso, eu quero sair disso. Quando que isso começou a se tornar real pra vocês? Já tinha uns quantos anos?
R - Eu acho que uns 14.
P/1 - Adolescente?
R - Adolescente já. Criança não tinha, não tinha esse objetivo como criança não, a gente não tinha entendimento ainda, a gente era arteiro, a gente andava muito, a gente fazia um monte de coisa, eu lembro que a gente ia pra praia andando e tal, fazia um monte de coisa escondida.
Mas pra dar uma virada de chave assim mesmo, pra entender, foi quando a gente tinha uns 14 anos, e é duro, porque foi o primeiro “não” que eu tive na minha vida, foi de 13 pra 14 anos, porque tinha os Jovem Aprendiz (Programa Jovem Aprendiz CIEE) aqui na cidade, e aí o meu irmão conseguiu entrar, porque o meu irmão é mais velho do eu
P/1 - Onde?
R - Foi nesse Jovem Aprendiz
P/1 - Mas era uma empresa?
R - Era tipo o CAMP aqui da cidade, os Jovens Aprendizes aqui, que você começava a fazer com 14 anos e depois de 15, você fazia um curso até 15, 16 e 17 você conseguia, já estava trabalhando, você já entrava no mercado de trabalho, e meu irmão conseguiu, aí eu fui tentar fazer e eu fui negado. Então aquilo ali foi a pior decepção que eu tive na minha vida, porque, você fez tudo certinho, você tem que estudar, tem que fazer isso, você tem que ter o objetivo, tem que ter alguma coisa, né? Mas aquele “não” ali foi por conta da... Aí depois a gente foi saber algum não outro também, mesmo porque só podia ter um de uma família, não podia ter outro.
P/1 - Não podia ter o elo do irmão.
R - Não podia ter o elo do irmão, então foi bem triste pra mim aquilo ali, aquele momento foi... Eu acho que é uma das coisas que eu mais lembro que me dá uma revolta, sabe?
E aquele momento ali porque, pô, eu fiz tudo certinho: Não repeti de ano, não fiz nada, tanto sofrimento, fiz tanta coisa e aí... Tinha nota boa, você morava num lugar que era vulnerável, que é todos os pré-requisitos que ir lá pedia.
Só que aí, na hora da entrevista final, negado, fiz todos os pré-requisitos, aquilo ali foi bem triste pra mim naquele momento, foi o entendimento da virada de chave mesmo, e daquele momento pra frente, a gente começou a se virar de outras formas também.
P/1 - Qual foi o seu... eu tô chamando de trabalho, mas quais foram os tipos de trabalho que você foi fazendo na sua caminhada desde o comecinho?
R - A gente começava trabalhando com esse pessoal da... isso aí eu tinha menos de 10 anos, já tava ajudando essas senhorinhas a pegar os baldes, aí chegava no final, elas vinham, deixavam um dinheirinho pra gente. Depois dos 10, 12 anos, mais ou menos, eu ia para a pista vender água, a gente ajudava as pessoas fazendo a casinha deles.
A palafita estava se acabando, entre aspas, para quem mora um pouco mais para frente, hoje ainda existe muita, mas você vê que (naquele) tempo já estava se acabando porque as pessoas estavam dando uma melhora na sua casa.
Chegava um aterro e estava todo mundo lá esperando o aterro para carregar o aterro, no final, o pessoal dava um dinheirinho também para ajudar, para te ajudar também.
Então a gente foi entendendo também a força do... como que era trabalhar, né? E a gente saía como ambulante, saía vendendo as coisas na rua, né? Mesmo o pai da gente não querendo, a mãe da gente não querendo, mas a gente tava querendo dar uma melhora pra vida da gente, pelo menos conquistar o que a gente queria, né? A gente não teve direito lá atrás, pelo menos a gente tenta conquistar fazendo uma coisa, e trabalhando, né?
P/1 - Você lembra em algum momento o que você fez com o dinheirinho que você ganhou? O que você comprou pra você?
R - Ah, fui no mercado, eu comprei o Danone. Fui. Comprei o Danone. Fui no mercado e comprei o Danone. Foi a primeira vez, e pior que não foi, e não era nem dinheiro que me deram o primeiro ganho, me deram foi aqueles tickets antigamente, sabe? Tinha uns tickets antigamente que você ia no mercado e trocava, juntava como se fosse um VR, aí me deram dois tickets daquele eu fui no mercadinho, no mercado aqui e consegui comprar Danone, suco, salsichas.
P/2 - Ticket, você disse ticket de alimentação.
R - É, porque antigamente eram os tickets que eles davam, não era o cartãozinho igual é hoje.
P/1 - Você já comprou e comeu?
R - Ah, peguei e comi na hora, na hora, a gente já pegava e comia na hora, foi bem... A gente fala assim, mas foi uma alegria na época… Pô. Cheguei em casa também com umas coisinhas a mais, foi uma coisa boa que eu lembrei com esse primeiro salário. Foi uma festinha porque o meu irmão foi comigo, a gente entendeu também como é o motivo, o bom de você andar certo, conquistar as coisas no caminho certo. Mas foi um sofrimento nessa época também. Mas foi bom.
P/1 - Andinho, ainda ali na época da criança, até seus 14, vocês comemoravam aniversários? Tinha esses momentos?
R - Eu vou te falar pra você que eu acho que... até uns 15, 16, eu não sabia, porque eu nunca tive um aniversário, nunca. Não lembro de não ter um bolo pra bater um aniversário, eu não lembro, então... Não tinha essa prática, em casa não tinha, mas tinha os amigos que faziam, a gente tinha muito amigos, mas em casa mesmo, o nosso, a gente não tinha.
P/1 - E tinha alguma cultura dos seus pais do Nordeste que eles continuaram praticando com vocês? Porque trouxeram pra cá alguma festa popular, alguma receita de comida que é muito afetiva?
R - Essas comidas do Nordeste, meu pai sempre fazia, eu lembro que meu pai chegava em casa com tripa e carne seca e botava pra assar, pra fritar, um fedor dentro de casa, eu olhava assim: - nossa! Tanto que eu não como isso até hoje, de verdade, não consigo comer carne seca até hoje, por conta que eu lembro desse cheiro, mas não sei se é gostoso a carne seca, é por causa do cheiro, parece que me dá um negócio... Então, é umas comidas antigas que a gente lembra?
Mas eu não como até hoje por conta disso, ele colocava pra fritar lá, nossa, a casa da minha mãe ficava um fedor assim. Mas as questões de comidas mesmo, as questões de costume mesmo deles, eles não tinham.
P/1 - Em música?
R - Minha mãe é crente, então não tinha, era mais da igreja. Meu pai tinha os forrozinhos dele, que ele gostava de escutar, quando eu era mais novo. A partir do momento que a gente chega aqui, a gente vê que a cultura vai mudando, vai misturando. As pessoas da rua, por exemplo, se reuniam, às vezes, para fazer um Natal, alguma coisa, eu lembro muito disso, eu lembro que foi o dia que eu amanheci o dia na rua, então é bem, a gente ficava brincando, dançando forró, com o pessoal.
P/1 - Era Natal?
R - Era Natal.
P/1 - Você lembra o ano? Por volta?
R - Ah, eu sei lá, por 1997, 1996, por aí. A gente era criança ainda, tínhamos uns 12 anos, uns poucos anos.
P/1 - E aí pra você estudar era um caminho que seus pais te colocavam nesse trilho e pra você era importante também, tipo, pra crescer?
R - Era importante, porque a referência que a gente tinha era em casa, né? A gente tinha na rua algumas referências também, algumas referências negativas, bastante tinha, não era muita. Mas a gente abraçava muito a de casa, a questão de estrutura de mãe e pai, a gente teve, então, eles falavam pra gente, tanto que muitas pessoas elogiam até hoje, minha mãe e meu pai, por conta de que você pega, e em uma época totalmente violenta que era na Vila Esperança, e você vê que nenhum filho se perdeu, nenhum filho foi para nenhum caminho errado. Mas teve pessoas, colegas nossos, que não ficaram assim.
Mas o objetivo da minha mãe, ela sempre explicava para a gente o que era errado e o que era certo. E a gente também foi, depois dos 14 anos, a gente foi se envolvendo em projetos sociais também, então, a gente foi entendendo com outros exemplos também, como que funcionava. Eu acho que foi nessa época que a gente também começou a dar um start na cabeça. Quando a gente começou a ver exemplos de outras pessoas.
P/1 - Você falou que tinham referências negativas na rua e depois os projetos sociais. Fala pra mim primeiro das referências negativas.
R - Referência negativa na rua na época era o tráfico de drogas, o tráfico de drogas aqui era muito forte, era muito forte. A violência aqui era constante. Todo dia que a gente amanhecia, tinha alguém morto na rua, tinha uma... Era bem forte, né? Por exemplo, eu cresci no bairro da Ilha Bela, o pessoal chamava de Ilha Bela, mas na época era “Ilha Bala”, porque a gente tinha muita violência mesmo, era um trecho, era um tempo que a violência estava muito alta, o sarrafo estava muito alto, e convites pra gente, pra vida errada teve de um monte. Muito.
P/1 - Convite pra vender droga?
R - Vender droga, usar droga, fazer coisa errada, roubar. Tudo que você imagina, de ruim a gente teve naquele tempo. Teve tempos até que a gente já tentou até se misturar com essas pessoas também, só que aí a gente viu o sofrimento da mãe da gente, a gente viu como as coisas estavam caminhando no tempo, então a gente entendeu que estava errado, que era um momento errado, mas as referências foram muito mais negativas do que positivas. Muito mais negativas.
P/1 - Te dava o que? medo?
R - Naquele tempo? muito, muito medo. Muito medo, e não só medo, né? A gente via também os colegas da gente também... - Um dia tava jogando bola na rua, eu e um menino, já chegou com um rapaz oferecendo pra gente trabalhar com eles, lá atrás, né? Eu não fui. O menino foi.
P/1- O que aconteceu?
R - Ficou 10 anos preso, saiu e morreu, então é uma... É os exemplos que a gente foi entendendo. Às vezes a gente tava, pra você ter ideia, eu tava na escola, sentado no banco no dia de reunião. Minha mãe, dentro da escola, fazendo a palestra, lá dos professores, e eu lá fora esperando minha mãe, e tinha um rapaz sentado do meu lado, do nada, assim, era da minha classe mesmo, do nada, chegou o rapaz e matou o menino do meu lado, assim. Então, é umas referências que a gente tinha.
É o que a gente fala, né? Aqui também o pessoal também, não chega nada de bom, não chega. A gente faz as coisas aqui e acontece hoje, pra tentar levar uns exemplos bons hoje, mas esse povo aqui não teve referência boa, não.
A gente é sobrevivente de muita coisa aqui, eu falo pra vocês que a gente é bem sobrevivente mesmo, das coisas que a gente viu, e que já passou pra chegar nesse momento até aqui. Convite pra vender droga, a gente teve muito, pra usar, piorou. Qualquer festinha que a gente ia depois da adolescência, tinha alguém oferecendo droga pra gente.
Obrigação, nunca, ninguém nunca me obrigou, obrigação, nunca, chegar assim e dizer que você é forçado a usar, forçado a fazer, mentira, nunca aconteceu isso. Mas convite, nossa! E não era um só não, onde você ia, tinha, você ia para um lado, tinha, você ia para o outro e tinha também, e era bem… e aí você entendia por que muitos dos amigos seus foram para esse caminho.
P/1 - Tem uma tentação, né?
R - Tem. Tem uma tentação, tem a falta de casa, né, é claro, das coisas dentro de casa que você não vai deixar faltar. Porque eu tive, graças a Deus, uma mãe e um pai, mas teve gente na época que era criado com uma avó, por exemplo, tinha amigos nossos que era criado com uma avó. E nesse meio, criado com vó, a vó tende a ir embora primeiro, isso significa ficar sozinho, daí você já imagina o final dessa brincadeira.
P/1 - E aí quando você chegou nos projetos sociais?
R - Depois que eu saí desse... que eu não consegui entrar no Jovem Aprendiz, aí a gente conversou, a gente tinha umas referências na época, né? Tipo assim, eu via, a gente era criança, a gente via que o pessoal que se reunia pra fazer as festinhas das crianças, não era igual as de hoje, né? Mas eram as festinhas normalmente bacana, até legal mesmo, você tinha uma pipoca, você tinha um brinquedinho, né?
E aí foi aonde a gente conheceu o projeto social da Ilha Bela, que tinha, né? Que na época era o Zumbi. Nesse momento, a gente via a união das pessoas lá, das pessoas próximas da Associação, eles faziam as festinhas, fizeram tudo.
E nessa mesma Associação que foi criada lá dentro, foi feito um curso de inglês lá dentro, então, logo em seguida, a gente se matriculou lá, e foi uma fase muito boa, com o professor Menezes.
E aí a gente começou a caminhar um pouco, ele começou a mostrar outros ares pra gente, outros caminhos, para você ter ideia, até 14 anos, 12 anos, a questão da praia era pouco, eu não tinha visto praia, e eu moro do lado, muitas pessoas moravam do lado, e quando a gente ia para a praia, normalmente… uma vez, a gente foi de bicicleta, se reuniu do nada, a gente tinha 12 anos e a gente ia de bicicleta.
P/1 - Qual é a distância?
R - Mais de 20KM, se a gente for parar para ver mesmo, dá uns 20 e poucos quilômetros. Era bem longo, era bem longo, mas, pra você ver, a gente mora do lado da praia, a gente não tinha muito acesso à ir a praia por conta de logística, por conta de um transporte, por conta de muitas outras coisas também. A mãe e o pai da gente também não tinham condições de levar na época.
P/1 - Parecia distante, né?
R - Muito distante. Aí foi onde conheci o professor Menezes, que foi o professor de inglês que dava uma aula na Associação da Ilha Bela, e aí foi o meu primeiro contato que eu fiz com o Projeto Social, e eu participei desse projeto social de inglês lá na Associação do Zumbi, lá na Ilha bela. E dali em diante eu comecei a participar de mais alguns, também, que iam aparecendo, mas é... Mas foram muitas pessoas, muito poucos, né?
Eu lembro que a minha sala lá tinha 9, 8 jovens, é muito pouco mesmo, que o interesse era pífio, muito pequeno, e a maioria era menina também, eram mulheres, não tinha homem mesmo, tinha poucos. Acho que era eu e meu irmão, que a mãe da gente pegava muito no pé, a mãe da gente mandava ir toda vez lá, era eu e meu irmão, hoje o meu irmão é formado hoje em inglês, ele é tradutor, anda o Brasil todo, é professor de faculdade, então ele tem, ele seguiu esse caminho até hoje, nessa situação de projeto social.
P/1- Que legal, porque isso começou numa sementinha quando ele era adolescente.
R - Quando ele era adolescente.
P/1 - A força que isso tem, né?
R - É, hoje ele mora em outra cidade aqui da Baixada, mas ele ficou lá, não era só ele não, ficou a gente, tinha uns 3, uns 4 também, tem gente que tá fora do Brasil morando também, foi um primeiro contato mesmo, e foi um contato muito bom, foi um contato com o social. Acho que foi nesse momento aí que a gente começou a dar um pouco de virada também, né? De chave, só que acabou! Depois de dois anos, acabou esse projeto, e aí foi onde ficou uma lacuna, porque você com 16, 17 anos, né? E aí o que aconteceu? Eu não consegui ir pro Jovem Aprendiz, quando deu a idade melhor, o meu irmão mais novo conseguiu ir, porque o meu outro irmão já tinha saído, porque o outro meu irmão já tinha saído, aí ele conseguiu ir e conseguiu se encaminhar nesse processo.
Meu outro irmão nessa época ficou efetivado porque ele foi trabalhar numa empresa, ele já continuou na empresa que ele estava, e meu outro irmão entrou.
P/1- E você?
R - E eu. Jogado, mais uma vez, jogado.
P/1 - O que você fez?
R - Eu fui procurar outros projetos para participar, nesse meu momento de 16 anos, a gente já estava com alguns focos de objetivo de fazer curso, a gente queria ir para a indústria, eu já queria ter 18 anos, isso é a realidade. Eu já queria ter 18 anos para me procurar um caminho também, eu gostava da indústria, não sei por quê. Eu passava pela indústria, eu gostava da indústria, e eu via a indústria, a gente passava e pelos ônibus, a gente via as fábricas, era mó...
Aí um dia lá mesmo, no mesmo projeto, acho que o Zumbi também fez uma... Levou também as crianças pra conhecer a indústria. No tempo era Usiminas aqui, não, o COSIPA hoje é Usiminas. Mas é... E aí ele mostrou a fábrica pra gente, eu fiquei doido naquele momento, fiquei doido naquele momento, foi bacana pra caramba, a gente conseguiu ter…
Então eu fui fazer curso. Consegui uma bolsa através da associação e fui fazer curso no Senai também.
P/1 - De que?
R - Na época era caldeiraria, caldeiraria, depois eu fiz soldador também. Caldeiraria e soldador junto, que já era voltado à indústria mesmo. Mas foi um processo muito bacana, porque eu me senti jogado: - “porque para os outros foi e eu não consegui?” E eu não consegui, né? Era um negócio meio louco na época.
P/1 - É? Você se sentiu revoltado?
R - Pô, muito. Muito. Eu lembro que eu brigava com a minha mãe e falava que eu tava revoltado, eu falava mesmo assim mesmo, tô revoltado, de verdade: - ”Tô revoltado”. Mas é do mesmo jeito que eu tava revoltado também, mas eu tinha uma planta na cabeça, né? Tinha uma planta na cabeça. E aí foi o primeiro momento que eu tive com o traficante, foi nesse momento. 16, 17 anos.
P/1 - Por quê?
R - Porque eu me senti revoltado mesmo, eu me senti revoltado, de verdade. E fiquei um tempo com eles lá, não chegava a vender, mas ficava acompanhando. E ficava acompanhando, vendo as situações todas, né?
P/1 - Mas era tido como seu dia a dia, seu trabalho?
R - Era quase um curso pra virar traficante lá na frente. Era quase um curso pra virar traficante, tava quase no caminho mesmo de entrar. E aí minha mãe, mais uma vez, surpreendeu a gente também, ela não me julgou não, ela abraçou, foi bom.
P/1 - Me conta.
R - Ah, ela passou, viu lá, tal, veio conversar comigo, explicou, falava coisas que “te amava, que gostava”, né? As coisas que a mãe gosta de falar, que abre o coração da gente, e aí foi o caminho que me tirou desse momento. Porque nesse momento eu não já precisava mais estar ali, o sofrimento tinha ficado lá atrás, o meu irmão já estava trabalhando, o mais velho, já estava ajudando também.
O peso não estava mais só em cima do meu pai, eu já tinha alguns cursos também. Eu sei que logo ou logo eu também ia estar no meu caminho, eu estava no caminho certo também, em questão de um ano, mais ou menos, acho que quase 18 anos. Quando acabou essa época, e aí me colocaram num projeto chamado Agente Jovem, que não era o que eu queria, não era o que a gente estava planejando, e não foi no bairro da Vila Esperança, foi em outro bairro. Era no bairro da Vila Natal, e aí, onde a gente pegava os jovens, isso aqui foi o que mais me forjou, pelo lado do social, pelo lado do social foi esse bairro, foi essa...
Porque a gente aprendia algumas coisas e aplicava dentro da comunidade, e aplicava dentro da comunidade, então a gente fazia um trabalho aqui na... Vamos supor, na creche. Às vezes a creche não tinha uma hortinha, não tinha nada, a gente ia... eles davam todo o suporte, a gente montava uma horta na creche, não tinha um jardim na escola e a gente ia na escola, montava um jardim com as crianças na escola.
P/1 - Antes da gente entrar nesse projeto, que eu acho que daí começa bastante da sua carreira, né?
R - É, daí foi mesmo.
P/1 - Eu quero entender como é que foi pra você... as memórias que você carrega desses 17, 18 anos desse momento aí com o tráfico. O que que te marcou? O que você aprendeu?
R - A gente aprendia coisas que não prestam, né?
P/1 - Mas às vezes a gente aprende o que a gente não quer fazer, né?
R - Tipo assim, mas é o exemplo que a gente tinha na época, né? A gente viu que o pessoal comia bem, o pessoal tinha todo o suporte, usavam roupas boas na época. Então, eu aprendi, mas, a gente via mais esse lado, né? O lado da, - pô, porque uns tem, outros não tem? A gente via também que eles não vão buscar ninguém em casa, as pessoas que vão lá e buscam, então, tinha dois lados que eu tentava entender naquele momento, era mais uma confusão, acho que era mais uma confusão mesmo.
A gente via que tinha gente que tinha muito e tentava ajudar, as referências que eu tenho mesmo de ajuda mesmo, que eu vi ajudando muitas pessoas, era mais traficante, a gente via muito fazendo isso, a gente via traficante ajudando pessoas na rua, dando um gás, dando uma cesta básica, dando coisa que um sistema era pra ter ajudado e não daria, e não dava, então a gente via essas coisas também acontecendo.
Quantas vezes a gente viu... Eu via filas e mais filas de pessoas indo lá buscar um gás, os caras chegavam e davam, como se fosse um... E eu achava que aquilo ali era certo, de verdade mesmo, eu achava aquilo ali certo naquele momento, mas aí depois eu a gente vai entendendo que não estava legal, não estava justo.
Mas eu vejo que o sistema jogava as pessoas para aquele caminho, não é a mente das pessoas que mudaram, a gente via que às vezes a pessoa não tem o que comer dentro de casa, vai fazer o que? vai esperar a fome matar ela alí? não vai… se você tem uma oportunidade de fazer alguma coisa errada, você vai fazer, não tem como, você vai fazer, porque já entra naquela lei da sobrevivência, eu vi muito isso acontecer naquele momento. Eu vi muitas pessoas morrerem também, eu vi pessoas sendo presas, eu vi muita fuga, né? Fuga de polícia também.
Então foi um tempo bem triste, mas também foi muito aprendizado também, sabe? Porque você ter poder de fala é legal, você ter, você pode chegar e dar um... Hoje você consegue dar um conselho pra pessoa porque você viveu aquilo, não foi ninguém que te...
Não foi nenhuma história fictícia da tua cabeça, você viu aquilo acontecer, e muita referência das pessoas, de criança hoje é eles, é eles, porque não entra na comunidade daqui não entra nada… Você não tem um esporte, você não tem um lazer, você não tem nada, você não tem nada. Isso é revoltante pra mim, é muito revoltante quando você tenta ser exemplo. A gente vai fazer uma pracinha, tem que reunir as pessoas pra fazer uma pracinha…então é bem dificultoso. Você vai em outros bairros, você vê que tudo tem lá. Você vê que tem um... uma UBS de qualidade, você vê que tem uma praça de qualidade, aí você vê que tem uma estrutura, você vê que tem um asfalto, você via tudo isso nas outras comunidades, você ia estudar, eu estudava na comunidade, e aí você ia, voltava pra tua realidade, você vê que é isso! por que é o que tem aqui e não tem? Então o sistema ensina muito isso, a gente dentro da comunidade.
Então, quando você ia lá, você via aquelas filas e filas de pessoas querendo pegar uma cesta básica, acabava um gás e ia pedir para os caras os que davam, acabava um alimento dentro de casa e ia pedir para o pessoal, o pessoal dava. O pessoal dava. E aí, às vezes, a pessoa queria fazer o caminho certo, vai lá, vou usar o fundo, vou lá no fundo social da cidade, vou ver se eu consegui, não chegava lá, só tomava negativo na época, e era muita, né? E era muita negativa na época. Porque ou você... Ou você comia... Ou você comia, ou você ficava com fome. Ficava com fome, e tinha mesmo, não vou mentir pra vocês não. Vontade naquele momento eu tinha mesmo, porque eu via, sabe, parecia que era a justiça naquele tempo, era uma justiça. Pô, parecia que o lado bom era eles, o lado ruim era a gente, que tava ali tendo que sobreviver e trabalhar, gente normal, é isso que a comunidade passa aqui dentro, é isso que as pessoas passam aqui dentro, esse tipo de sufoco.
P/1 - A ajuda não vem de onde deveria, né?
R - Não vem, não tem ajuda, e a gente, tipo assim, eu sempre fui contra, hoje eu sou muito mais contra, esse negócio de cesta básica, essas coisas, hoje eu sou, porque eu acho que é isso que é o cabresto da vida das pessoas, sabe? Depois eu entendo que ali era uma forma de cabresto que eu via. Não é uma forma correta. Uma forma mais de cabresto de você manter as pessoas do teu lado, de você manter as pessoas do teu lado. Você via que as pessoas estavam lá… Chegava Páscoa: tinha ovo de Páscoa para as crianças, chegava Festa das Crianças: tinha kit doce para as crianças, tudo ali próximo.
Pô, meu irmão, será que esses caras aqui estão errados mesmo? Será que esses caras são ruins?
Essa é uma das dúvidas que eu tinha na época, então esse ano foi muito mais aprendizado do que... do que briga, do que... do que tristeza. Talvez a tristeza vinha pra minha mãe, vinha pros meus familiares, a tristeza vinha pra eles. Só que eu via muita coisa, eu via muito aprendizado naquele momento, eu via que as pessoas estavam aprendendo, estavam ajudando uma a outra, estavam tentando incentivar as pessoas. Sei lá, eu via dessa forma, tipo uma justiça, não sei, naquele tempo, na cabeça do adolescente que estava querendo trabalhar, que via... Será que esses cara aqui é errado? E você ia na casa de colegas da gente, você via lá... e às vezes a pessoa não tinha nada para comer dentro de casa, nada.
Essas pessoas iam atrás do poder público, por exemplo, o poder público negava tudo para elas. Porque se eu não trabalho e não tinha trabalho para ninguém. Então, foi uma época que eu aprendi muito, eu posso usar isso nesse momento. Hoje eu tenho totalmente uma cabeça diferente a isso, já tenho uma visão mais ampliada, mas na época foi uma época de aprendizado, até para mim ter poder de fala, me forjou muito esse momento para eu chegar onde eu cheguei hoje.
P/1 - O que te convenceu a sair?
R - Nesse momento aí? Foi mais a minha mãe mesmo, foi mais a família mesmo, a nem entrar, na verdade. Eu estava naquele momento de, tipo assim, vai comprar uma marmita?
P/1 - Era um ajudante.
R - Isso, eu sou ajudante naquele momento ali. Vai comprar não sei o que…me ajuda aqui a fazer isso, me ajuda a fazer aquilo, então eu estava mais nesse momento aí.
P/1 - Foi difícil sair?
R - Foi difícil porque era uma época ruim, foi difícil, sim, era tentador, hoje eu posso usar esse momento, foi tentador, foi complicado, mas foi tentador. Porque a gente via, como eu te falei, a gente via as pessoas com roupa legal, a gente via as pessoas com tênis legal, com chinelo legal, um boné, uma corrente, né? E por outro lado você viu o cara uma vez só com descalço e um calção.
P/1 - Eu digo difícil, teve alguma... tentaram te segurar ali?
R - Não, graças a Deus eu não tive porque eu acho que eu não cheguei a entrar com força mesmo, eu estava tipo um ajudante mesmo no momento, mas eu não cheguei a entrar assim, como pegar sacaria e essas coisas ir pro front igual, às vezes vão, né, para saber.
P/1 - Você presenciou muito conflito entre polícia e comunidade?
R - Muito, muito, crianças morrendo, tomando tiro, teve uma cena mesmo que revoltou a comunidade, quando aconteceu isso aí, a gente estava próximo na época. Então foi bem triste mesmo, pessoas inocentes tomando um tiro do nada. Porque imagina, você também está num barraco de madeira e começa um tiroteio próximo... Quantas pessoas morreram tomando um tiro nessa época, vocês imaginam? E era um tempo que estava morrendo muita gente aqui na comunidade. Foi um tempo muito triste, a gente saía pra fora de casa e sempre falavam: - “fulano morreu, mataram um ali, mataram um rapaz lá não sei aonde”.
E aqui era grande: - “Ah, pegaram e mataram um lá no ponto final, mataram um rapaz lá no Morro do Índio, mataram um lá na Ilha Bela”. Então, sempre tinha, sempre tinha, nas escolas principalmente, nas escolas principalmente. Nas escolas que a gente ia, o comentário era só mais esse.
P/1 - E Como você lidava com isso, Andinho, porque… é…
R - A gente não lidava, sobrevivia, né? A gente não lidava. Era bem difícil. Porque, pô, tinha dia que a gente ia pra escola, por exemplo, sempre tinha, eu lembro que a mãe pegava a gente pequenininho, passava correndo assim pela lateral pra gente não ver, ó, o que tava acontecendo naquele momento. E aí, chegava certo horário, você não poderia estar na rua, tinha muito isso: - Ó, a partir das seis horas da tarde, ninguém pode estar na rua.
P/1 - Toque de recolher?
R - Toque de recolher a partir das 18h. Tinha... Nesse tempo aí, foi um dos piores tempos que eu...
P/1 - Isso na adolescência?
R - Na adolescência, um dos piores tempos que eu vi, acho que eu não vi tanta coisa ruim acontecer como eu vi nesse momento. As pessoas iam pra você ver, tipo assim, um vizinho meu que era referência nossa, lá, de acolhedor mesmo, onde a gente ia comer, levava comida de casa e tudo. Foi um tempo que eu... aí depois a gente foi descobrir que ele era o dono do tráfico na época, então era bem louco o negócio. E tinha esse antigamente aqui, esse negócio de briga rival, tinha aqui no começo. E aí depois, uma das piores tristezas foi quando eu fiquei sabendo que mataram ele de um dia para o outro, não sei quantas pessoas foram lá e mataram o cara. Então tinha muito dessa... E o cara que mais ajudou a gente, uma das pessoas que mais deram... Levava comida pra gente, arrumava um biquinho pra você fazer, às vezes ia pegar caranguejo no mangue e ele comprava, nem gostava, só comprava pra dar pros outros, pra te ajudar. Sabe? E comprava briga por você, aí do nada, viraram o cara e mataram o cara, depois a gente chegou a saber da história o que ele era… então tinha muito disso aqui na comunidade, foi um tempo bem difícil mesmo.
P/1 - Ele foi uma das pessoas mais próximas que você perdeu?
R - Nesse momento, sim, foi um dos mais próximos, que realmente, eu gostava do cara mesmo, a gente gostava muito do Cabeça. A questão da infância marcou muito, marcou muito a infância da gente, porque era vizinho, era colado, assim, era colado… de vez em quando a gente vê a mulher dele ainda está viva, mora pra cá ainda, a gente vê, de vez em quando, a gente se lembra, sabe? A gente se lembra das crianças pequenininhas que se a gente for ver, estão todos homens hoje, grandes, mas a gente vê também... Ele foi uma pessoa que ajudou a gente bacana, há muito tempo.
P/1 - Quando você começou a ter ajuda de projetos sociais, tinha algum líder comunitário na época que te inspirou, que você olhava para o caminho dele? De alguma forma te trazia vontade de seguir esse mesmo caminho?
R - Eu via mais, eu cresci mesmo na escola do Zumbi. Eu vi o Zumbi mesmo fazendo as ações dentro da comunidade, ele era uma liderança muito forte dentro da comunidade, reunia muitas pessoas. Eu conheci ele numa festa das crianças, depois eu entrei num projeto social de inglês dele, depois a gente ficou acompanhando os trabalhos de limpeza de mangue, depois a gente via lutando por causa de água, conseguiram colocar um termo de água, aquele sofrimento da água lá acabou. A gente viu essa luta deles, da comunidade lá também, questão da energia não tinha, a gente viu o pessoal parando pista para conseguir, fazendo manifestação na pista para conseguir essa estrutura que era para ser básica, que todo mundo era para ter, pelo menos. Porque as pessoas não queriam nada de graça, queriam ter o serviço e queriam pagar, só que não tinha nem isso, nem isso que eles queriam fazer na época, colocar uma água para as pessoas.
Era bem difícil mesmo, bem complicado. Mas aí é questão de luta mesmo, a gente via ele lutando, a gente via ele do lado. Sempre estava ali, conversando com a gente, e eu acompanho ele desde pequeno. Sou suspeito pra falar, porque eu vi mais desse lado de cá, a gente ouvia falar de outros líderes aí, mas próximo mesmo, talvez conhecimento, conhecia outros líderes, mas o que eu mais acompanhei foi o Zumbi. Porque eu vi a luta dele lá, talvez um pouco mal compreendido por uns, por outros, mas também ninguém vai agradar a todo mundo, depois que eu me tornei liderança, eu fui entender essa forma, eu fui entender como funciona essa briga de ego, de querer ser melhor que o outro, de querer você ter um trabalho melhor que o outro. É bem difícil. Mas depois que eu fiquei em obra, eu fui entender, mas a referência que eu tenho mesmo, que eu vi, que eu acompanhei, foi o zumbi.
P/1 - Quais foram os projetos sociais que transformaram sua vida, antes de você virar um líder comunitário?
R - O que me transformou... O de inglês, eu acho que o de inglês foi o que mais me marcou, por conta do professor Menezes. Era uma sedezinha bem simples, só tinha uma salinha pequena, pequenininha, e aí ele ia, ele vinha, conversava com os alunos, fazia os intercâmbios, intercâmbio dentro da comunidade, porque o pessoal morava no começo e não vinha por cá pro final, e ele andava com as crianças aqui, eu lembro, e trazia outras pessoas de fora do país pra visitar a comunidade, pra falar com as pessoas, pra ensinar.
O de inglês eu acho que me marcou muito, o projeto de inglês com o professor Menezes me marcou muito, porque foi o cara que forjou a gente pra ser homem, sabe? Explicava as coisas, talvez coisas que o pai da gente, a mãe da gente não tinha condições de falar, ele falava. Ele falava pra gente, levava os alunos da Vila Esperança pra conhecer o bairro nobre daqui, na época a gente achava que era o bairro do Casqueiro, o bairro da Vila Nova, que eram os bairros bem nobres aqui. Ele tinha parente no Casqueiro e levava a molecada daqui pra lá, tinha parente na Vila Nova, ele pegava a molecada daqui e levava pra lá. Porque tinha dessas coisas, assim, e a pessoa morava aqui e não conhecia o outro bairro, e não conhecia o outro bairro, porque as pessoas ficam só aqui, o sonho fica só aqui e aí foi a questão desse projeto social do inglês foi o que me marcou bastante. A gente fez outros, eu fiz o Agente Jovem, cheguei a fazer futebol, cheguei a fazer karatê, mas esse do inglês eu acho que foi o que mais forjou, pelo simples fato de ser educacional e ter um acolhimento ali do professor. O acolhimento do professor é diferente, a gente via que não era só um professor, nunca foi um professor.
P/1 - Ele falou alguma vez, algum conselho que te marcou, que você guardou?
R - Era mais amigo mesmo, né? Ele falava mais do estudo mesmo, né? Os conselhos de estudar, né? Pra ser alguém na vida, ele falava pra gente: - “Pessoal, estuda aqui pra você…” Normalmente quando tinha uma guerra dentro da comunidade, sabe? Eles chamavam a gente, que aí já não tinha muito aluno, e aí já ia muito poucos mesmos no final, e aí ele falava, né, da importância do estudo pra você não ver aquilo ali, pra você não ser aquilo ali. Ele sempre foi muito papo reto. Isso que eu achava bacana, porque ele é papo reto mesmo com a molecada: “Você quer ser alguém, você corre atrás, ninguém vai dar nada pra vocês, não”.
Ainda mais essas coisas que ele falava: “Ninguém vai chegar na tua porta e vai te dar nada, não. Então, meu irmão, estuda. Se você tiver oportunidade de trabalhar, trabalhe”. Então é mais esse conselho que ele deu pra gente na época, então foi quando a gente viu essa luta do Zumbi, junto com o professor Menezes, no tempo, pra tirar a molecada daquele momento.
E também tinha outros também, tinha um que era o Ney que pegava a molecada, saía, pegava a molecada no meio da... pegava a molecada em casa, pegava em casa assim, pegava em casa e levava pra um campo de futebol pra jogar bola, porque não tinha campo de futebol aqui. Pegava um daqui, andava lá perto da escola, na Vila Natal, em outro bairro, em outro bairro, de novo, pra estar jogando em escola.
Todo domingo ele fazia isso, todo domingo, todo domingo. Ele nunca falhava, domingo ele pegava todo mundo que queria ir jogar futebol, levava pra jogar bola e voltava pra casa, e voltava pra casa. Então, pra você ver, aí, não tinha instituição, não tinha nada, mas tinha boa vontade de querer fazer as coisas. Pra mim, ele era um líder também, pra mim, ele também foi uma grande liderança nesse momento, aquela moleca que tava se forjando ainda, que tava procurando. E todo mundo se reunia domingo, jogava bola, não tinha nem campeonato, não tinha nada, não, tinha uma bola só. Ele conversava com as crianças, falava com todo mundo. Então, acho que esses projetos foram muito importantes na vida da gente.
P/1 - E você ia aos domingos?
R - Ia, todos os domingos eu estava lá, não faltava nada, até porque ele levava Coca-Cola, dava bolacha para a molecada também no final. Dava para o time que ganhar, para o time que perder ele não dava nada não, pode ir embora. Ele fazia isso para você ganhar pra você entender o seguinte: na vida você só ganha. Se você perder, meu irmão, tu não ganha nada. Então ele já fazia isso com todo mundo, ele chegava, a gente inventava o nome, o nome era Bico Seco.
Bico Seco, meu, quem perder não tinha nada, não tinha nada, era Bico Seco. Ó, tu vai perder? se tu perder, tu pode ir embora, não adianta ficar aqui não, porque ele não tinha dinheiro pra comprar pra todo mundo, aí ele comprava sempre só pro time que ganhou. O time que perdeu ele mandava ir embora, domingo que vem você vem tentar ganhar pra comer, era isso que ele fazia com a gente.
P/1 - Era divertido?
R - Ah, muito. Muito. Jogar bola a gente nunca sabia, ninguém ia se profissionalizar nisso, mas pelo menos a gente tentava estar todo domingo ali. E acordava cedo, era 6:30h, 7h da manhã, e ele saía pegando a molecada, a molecada tudo de bicicleta, um ia levando o outro, quem não tinha ia a pé. Era uma cena muito bacana, era muito bacana. Então eles faziam essa junção com a comunidade.
P/1 - E a importância de uma pessoa, de um adulto, fazendo esse trabalho com os jovens, né?
R - Fazendo, nossa, foi muito bacana a iniciativa dele. Eu não sei o que levou ele a fazer isso, sabe? De vez em quando a gente conversa, eu vejo ele, ele tá vivo ainda, a gente tenta conversar, eu paro pra conversar com ele, assim, e aí a gente tenta entender, assim, né, porque que levava um rapaz a fazer isso, né? Chegar na molecada… ele falou: - “eu gostava, simplesmente gostava. Eu gostava, eu via a molecada aí, reunia a molecada”, no final ele pedia fiado no botequinho lá, pega aqui, pega dois refrigerantes e cinco bolachas, duas bolachas, que a molecada tudo com fome, não tinha tomado café de manhã, não tinha feito nada. Não tinha feito nada, e dava, por ele mesmo. Era dele mesmo, e nunca falhava, ficou uns anos assim, indo, e nunca falhou. Acho que é bem... É bem explicativo do que é uma liderança, não precisa ter nome, não, basta ter uma boa vontade de querer fazer para o próximo. Acho que é bem bacana essas iniciativas.
P/1 - E você estudou até onde foi sua vida acadêmica?
R - Eu fiz certinho, até a oitava, até o oitavo ano eu fui certinho, né, por conta de que eu queria ser, o patrulheiro, era patrulheiro o nome. Eu queria ser patrulheiro do campo, eu fui certinho, não repeti nada, nem nada. E aí depois daquela decepção deu um negócio na cabeça, 16, 17 anos assim, que eu fui: - “pô, meu, tudo errado”, aí eu fui estudar na escola, eu ia quando eu queria, eu não queria ir mais. Às vezes tinha um biquinho pra fazer, eu ia fazer o bico, eu preferia fazer o bico do que ir pra escola. Aí repeti o primeiro ano, primeira repetição que eu fiz. Repeti o primeiro ano por conta dessa situação aí, porque... É ruim, né? Porque você faz as coisas certinha, né? Depois você vai entender. Eu fiz tudo certinho, e aí chegou na hora de você vir ser coroado pela... Aí você vem, vem... Aí vem um destino, vem te dar uma rasteira. Ficou revoltado do caralho, me deu uma revolta naquele momento. Aí eu repeti o primeiro ano, aí... Depois... Fui pra noite, comecei a ensinar na tarde, estudar na tarde, aí eu repeti, fiquei meio... Meio louco da cabeça, né? Fiz essas coisas tudinho aí também, às vezes me matriculavam e não ia pra escola, não queria ir. Aí quando... Aí depois eu voltei, passei do primeiro pro segundo ano, do segundo para o terceiro eu já estava trabalhando.
P/1- De quê?
R - Eu já estava em Minas, eu já estava trabalhando por conta do curso que a gente teve. Só que antes disso, eu completei 18 anos, foi meio engraçado, o negócio é meio... Completei 18 anos e vi uma oportunidade para viajar, para trabalhar viajando. E eu fui.
P/1 - De quê?
R - Na época eu já fui de caldeireiro porque eu tinha feito um curso no Senai, e veio a oportunidade de pegar a profissional de cara. Fiz a provinha lá, e no segundo ano eu fui viajar, eu viajei, foi um ano, eu só parava e viajava, mas eu conheci tanto lugar.
P/1- Pra onde você foi?
R - Fui pra Minas, fui pro Espírito Santo, fui pro Rio de Janeiro…caramba, fui pra tanto lugar… fui pra Bahia nesse ano, com 18 anos. Peguei pra dar pra trabalhar. E fiquei. Fiquei trabalhando.
P/1 - E aí parou o estudo nesse momento?
R - Parei o estudo nesse momento. Aí eu voltei, terminou a empresa, saiu, acabou. Que tipo assim, não era era fixo, tu ia ficava um mês, dois meses, e eles mandavam você embora, você ficava em casa. Depois eles precisavam de você, eles chamavam você de novo, aí você ia de novo, mas normalmente era Espírito Santo, vai pra Minas, vai pra Belo Horizonte.
P/1 - Como é que esse menino entrou no avião, esse menino da Vila Esperança entrou no avião e foi pra outro lugar? O que você sentiu?
R - Nossa, naquele momento foi muito feliz, naquele momento ali foi bem... Quando eu fiz aquela provinha e o pessoal chamou a gente, nossa... Foi muito bacana, ali eu já senti uma virada, né? Uma virada de muita coisa que a gente tinha passado. Aí sim, você começou a querer ter um sonho, ter um objetivo, - “ah, quero ter um carro, quero ter uma moto, quero ter uma casinha, quero ter não sei o quê”. Porque você já vinha trabalhando para ter esse momento, então comecei a viajar, só que aí faltava um negócio que eu achava que era a questão do estudo, me faltava mesmo.
Eu tinha esse negócio do estudo, porque eu via as pessoas falando, e é louco, porque não deu naquele momento para estudar, e aí eu voltei e vim para estudar: - “Eu sou aqui de Cubatão, vou ficar aqui em Cubatão”: - “Cubatão é a Cidade da Indústria, por que eu tenho que ficar viajando? Se aqui tem muita oportunidade aqui”, eu tinha isso na mente, na cabeça: - “a função que eu faço aqui, eu consigo fazer aqui do lado de casa também, não precisa estar longe. E aí, fiquei esse tempo todo viajando, parei, pedi para não viajar mais e consegui arrumar um emprego aqui, só que já não era na profissional, de profissional, era de ajudante, mas pelo menos era aqui.
P/1 - Nesta sua área?
R - Sim, ajudante de caldeiraria, mas pelo menos era aqui, eu namorava na época com a menina e a menina fez o... O tio dela me ajudou e me colocou lá. Eu tinha viajado com o tio dela, o tio dela tava trabalhando aqui e me chamou. Falei: “legal vou ficar por aqui agora”, né? Nesse momento, aí eu fui estudar de volta, mudei de estudar, aí eu consegui completar o segundo ano, consegui completar o terceiro ano, aí eu falei, ah, vou tentar a faculdade, né? Não custa nada… E aí me matriculei em Direito, matriculei em Direito.
P/1 - Então, passou no vestibular?
R - Isso, passou no vestibular, mas não me matriculei em direito, e aí, depois de um tempo, aí vem a vida, depois me dá uma rasteira de novo, mais uma vez. A menina, com quem eu estava, ficou grávida, aí ficou grávida. E eu tinha, na época, 19 anos. Eu tinha 19 anos na época. E aí foi o... aí eu tive que parar o estudo para trabalhar, só para focar para trabalhar, porque a gente pagava a faculdade com o dinheiro que eu estava ganhando naquele momento, que era pouquíssimo. Nossa! Era mais isso mesmo, para manter só a faculdade mesmo.
P/1 - Você foi pai com quantos anos?
R - 19 anos.
P/1 - E aí que a paternidade chegou?
R- Nossa, aí chegou a responsabilidade, né? É muita, né? Muita responsabilidade com 19 anos.
P/1 - Quem nasceu?
R - O João Pedro. O João Pedro hoje tá com 16 anos.
P/1 - Lindão
R - 16 anos o João Pedro hoje. É bem... E não sofreu o que a gente sofreu ainda, não passou um terço do que a gente passou. Aí, desse momento pra cá, que depois tive que trancar a faculdade, e fiquei só no lado da indústria mesmo, trabalhando por aqui mesmo.
P/1 - Você foi morar com a sua namorada?
R - Na época, não. Não fui morar com ela na época por conta dessas coisas também que, tipo assim, que depois eu me liguei que eu estava ganhando muito pouco. Estava ganhando muito pouco, porque quando eu fiquei aqui, meu interesse era terminar o estudo. E aí eu comecei a viajar de novo, mas como profissional, eu não queria estar como ajudante mais, fiz um curso de salvatagem, que é o pessoal que trabalha embarcado nas plataformas de petróleo. Fiquei um ano nessa... Ganhava um pouco mais. Só que tinha um porém, você trabalhava 20 dias direto, não podia ter telefone, não podia ter nada. Na época era bem louco, você ficava 20 dias trabalhando e ficava 10 em casa quando podia, sempre assim.
P/1 - E esses 20 eram onde?
R - Embarcado no meio do mar.
P/1 - Mas aqui?
R - Isso, na Bacia de Santos, no Rio de Janeiro, na Bahia, vários lugares, não era só aqui, não era só aqui, então a gente conseguiu fazer esse curso e trabalhar também, ganhar um pouquinho mais, só que a gente estava muito fora da realidade, muito fora de casa, saudade da criança, a gente queria ver a criança, era um sofrimento na época, muito.
Então eu consegui, aí eu volto um pouco lá atrás, quando eu fiz a primeira visita na Usiminas, estava tendo um processo seletivo e eu fiz de lá, um processo que eu consegui passar, aí eu passei e vim trabalhar na empresa que eu gostei de ver naquele momento.
Só que depois tu entra lá e vê outra decepção de novo, que não era aquilo que tu pensava que era! que não era aquilo que você via como criança… Não era aquilo que você via, aí eu vim trabalhar, fiquei, fiquei trabalhando, é claro, não fui na força do ódio, mas ficamos lá. Tinha um menino até...
P/1 - E quanto tempo você ficou lá?
R - Fiquei até meu filho fazer uns cinco anos, acho que deve ter dado uns dois anos e meio, mais ou menos, trabalhando na Usiminas, há uns 5, 6 anos.
P/1 - E continuou morando na Vila Esperança?
R - Isso, continuei morando aqui, continuei morando aqui. Paralelo a isso, a gente estava fazendo outros cursos também, estava trabalhando em outras formas, né? E foi onde eu consegui, depois... E nesse momento, trabalhando nas empresas, a gente viu que tinha muita desigualdade em questão também na empresa trabalhada, sabe? Porque a gente trabalhava... Porque tinha tanta empresa aqui no Polo Industrial, só que tinha uma que parecia que era blindada, que ninguém conseguia entrar nela, e quando conseguia entrar, que era muito pouca gente, e tinha mais oportunidade para quem vinha de fora do Estado, do que o pessoal daqui que no caso era a refinaria, a Refinaria de Cubatão, Presidente Bernardes.
E todo mundo, os melhores salários estavam ali, os melhores estavam ali dentro. Às vezes o que você ganhava, o que eu ganhava no mesmo trabalho que eu fazia na Usiminas, na refinaria você ganhava o triplo, mais ou menos. E era muito blindado, todo mundo queria estar lá, todo mundo queria estar lá naquele momento, e a gente saiu, nesse momento eu saí da Usiminas e fui tentar lá também, fui tentar na refinaria também, só que só bateu na porta, era trave, fiquei um ano desempregado nesse momento. Foi naquela crise que teve agora em 2015, mais ou menos, em 2015, foi na crise da Dilma lá, que tava aquele negócio de processo de Dilma, saindo e tal, e aí a gente passou um perrengue naquele momento mesmo.
P/1 - Como é que você se virou naquele ano?
R - Fazendo bico, fazendo...Correndo atrás de sempre, aquele aprendizado lá de trás, né? Que a gente viveu, né? Só que aí a gente também... Eu me liguei também em uma coisa também, eu via que tinha muito mais pessoas também no mesmo objetivo que eu, que também estavam revoltados com aquilo. Também ficaram muito revoltados como a gente também nesse momento. Né?
E aí a gente se reuniu num grupo, mais ou menos 10, 15 pessoas, em qual eu estava sendo liderado ali, o liderado era eu, e aí a gente foi cobrar o poder público sobre isso: - Por que a gente que é daqui a gente não consegue oportunidade aqui? A gente não consegue oportunidade de trabalhar aqui dentro? Sendo que a refinaria é do Brasil e a gente não tem oportunidade de trabalhar aqui, quer dizer, eu conseguia sair daqui para trabalhar na refinaria lá de fora, mas quando chegava aqui, onde eu morava, eu não conseguia entrar, qual a lógica que tinha nesse meio termo, né?
E a gente marcou uma conversa, jogamos no tempo, não era em rede social, não, ligava para um, ligava para outro, a gente marcou um grupinho, fizemos um grupinho, e a gente cobrava o poder público, era a questão de cinco, seis pessoas. E aí, do nada, chegou mais de 100, 200, foi um negócio muito... muito assustador no momento, sabe? Pessoas também que estavam no mesmo sentimento que eu, nesse contexto todo, né? E aí, foi muito legal, porque mais gente, mais pressão. Mais pressão, e aí, a gente fundou a “Associação dos Desempregados de Cubatão”. Nesse momento aí.
P/1 - Em 2015? Você que era o…
R - Um dos cabeças ali.
P/1 - Chamava como?
R - Associação dos Desempregados de Cubatão.
P/1 - E o objetivo era ajudar essas pessoas a se recolocarem.
P/1 - Sim, no mercado de trabalho.
R - O objetivo era esse, da cidade, a gente queria que o pessoal da cidade tivesse oportunidade dentro da cidade, de Cubatão, em geral. Então eu fiquei muito conhecido em Cubatão através desse movimento, o movimento dos empregados que a gente fundou. A gente pressionava sindicatos, pressionava o poder público, pressionava empresários, tudo, para ajudar a população que estava sofrendo naquele momento. Porque tinha pessoas também que eram super qualificadas e não tinham oportunidade nenhuma. E não tinha.
E a grande maioria era Vida e Esperança, das pessoas que estavam lá, é por ser aqui uma das maiores, porque, querendo ou não, aqui é uma comunidade praticamente a maior da Baixada Santista. Se você for parar pra você entender a questão da favela, aqui é a maior. E quem normalmente procura emprego são as pessoas que moram aqui. Porque é aquilo, né? Ninguém mora aqui porque quer. Então, a grande maioria das pessoas já me conheciam daqui e já iam pra lá também, então a gente pressionava sindicato, poder público, todo mundo.
E aí teve um fato que me deixou muito... muito triste, acho que no fim do dia vocês podem puxar no YouTube e vocês vão ver isso aí, conversamos com o Poder Público na época, tinha uma prefeita na época, a gente pressionou ela, ela pressionou a refinaria, e a empresa da refinaria, ia ter um processo na época de que há 3.500 vagas por aí, ia ter um processo muito grande de vagas, então, por conta desse processo que estava acontecendo, o movimento de 100 já virou quase 500 (pessoas). Então, era muita gente, era muita gente mesmo. Pra você ver, a gente não tinha noção de quantas pessoas eram, e a grande maioria eram daqui de Cubatão, tinha gente no final que vinha de Santos, São Vicente também, que era muito próximo. Mas a maioria era de Cubatão, que nunca teve oportunidade de entrar dentro de uma refinaria. E quando vinha tipo essas paradas de manutenções, que normalmente as empresas já vinham com pessoas todas de lá, todas de fora, todo do corpo dela lá, tipo assim, lá da Bahia, do Rio de Janeiro, enfim.
Aí a gente criou uma cota chamada 70-30. 70% da cidade, 30% de onde eles quiserem vir, e tava uma... E estava uma guerra para eles respeitarem esse momento, sabe? Então, foi bem... E aí, em 2015, vai 2016, eles fizeram um acordo que até essa parada ia acontecer e que essas pessoas iriam pegar, dentro da porta da refinaria, pegar o currículo dessas pessoas lá e iriam contratar. Iriam contratar não, iriam levar para uma avaliação e, se possível, estivesse no qual eles quiserem, no caso, no quadro deles, eles poderiam estar contratando, isso foi falado. Isso foi falado via imprensa, porque a imprensa toda hora estava lá, toda hora tinha imprensa lá. Se juntava gente, tinha imprensa, não adianta, se juntava, tinha imprensa. E aí, em 2016, a gente deu a data que eles falaram, fomos todo mundo para a porta da refinaria. E aí o pessoal chegou de madrugada, o pessoal chegava duas da manhã, uma da manhã, porque o desespero estava grande na época. Hoje não está mais assim, mas na época o desespero estava enorme, até por conta da grande oferta de vaga que ia ter e a grande oportunidade, os salários eram melhores, e aí foi onde, mais uma vez, enganaram a gente de novo.
P/1 - Não abriram as vagas?
R - Não abriram as vagas, não abriram a porta. E aí, se vocês puxarem isso na internet, vocês vão estar vendo o que aconteceu no resultado disso. Tinha mais de 3.000 pessoas na porta, tinha gente na baixada toda, foi 7 ônibus incendiados, foi uma baderna mesmo, foi uma baderna nesse dia. Foi bem... Foi bem louco.
E a gente tava no meio tentando conter. Pista fechada, a gente parava toda semana, toda semana a gente parava essa rodovia. Toda semana, depois que aconteceu isso, toda semana, toda semana, toda semana, até que foi feito um grande pacto, né? E aí oficializamos, a comissão na época ficou oficializada, não estava até o momento, até a hora dos ônibus, graças a Deus, não estava. Depois oficializou, e a gente criou, então a gente ficou aí nela. Fiquei mais ou menos uns oito anos com o pessoal da comissão de desempregados, para normalizar, né? Depois a prefeita saiu, que estava com atraso de vida, que estava atrasando a gente aqui. E... E aí as coisas começaram a andar mais ou menos, eles deram uma sala pra gente dentro do pátio de Cubatão. A gente ficava do lado do sindicato de Cubatão, então a gente tinha toda uma estrutura que montaram pra gente, pra gente dar seguimento nessa situação, tinha toda manhã, era certeza, toda manhã, tinha de 500 a 3.000 pessoas lá, querendo saber das vagas de emprego.
Eu não sei o que acontecia, porque naquele momento não tinha vaga de emprego em lugar nenhum mais, tava naquela crise de 2015 que ninguém tinha investimento, não tinha nada no país, só ali que tinha umas paradas de manutenção de vez em quando, então sempre tinha gente lá, sempre tinha gente lá, sempre, sempre. E a grande maioria era aqui da Vila Esperança, eu saía de casa e tinha diversas pessoas com currículo na mão querendo me entregar.
P/1 - Já te entregaram aqui?
R - Diversas vezes. Eu chegava a sair de casa, já tinha uma fila de pessoas querendo me entregar currículo, querendo uma oportunidade de trabalho, querendo muita coisa. E eu vi que eu estava ficando meio doente nesse momento, por conta da pressão mesmo das coisas, então, em 2021, eu parti, saí.
P/1 - Mas antes disso, Andinho, você conseguiu ajudar muitas pessoas?
R - Muitas? Nossa, muitas. A gente conseguiu ajudar mulheres, pessoas de primeiro emprego, pessoas que não tinham oportunidade, hoje, se vocês entrarem dentro da refinaria hoje, a maioria das pessoas são daqui da Baixada, não é de fora, não são de fora. Foi bem gratificante quando eu entrava lá dentro, eu via que as pessoas trabalhavam.
Porque depois eu entrei lá dentro para trabalhar ainda, depois disso, e era mó legal, porque você via o reconhecimento das pessoas; porque quem consegue a vaga de tem o reconhecimento e tem a gratidão, o que não conseguiu tem raiva. E não adianta, e você nunca vai fechar. Só que a gente tentava fazer uma rotatividade dessas pessoas também, de vagas, mas é bem difícil, porque quem vai escolher? Eu não sei o que (a pessoa) tá passando dentro de casa, eu não sei, é de cada pessoa, então a gente tava nesse... E a gente não era sindicato, a gente não era político, a gente tava brigando, a gente só era lideranças ali que estavam tentando, de uma forma ou de outra, organizar aquele fluxo, naquele tempo, a gente não era nada, a gente tinha toda uma...
A sociedade olhava pra gente muito feio por conta dessas manifestações, e era manifestação gente, não estou falando de uma só, não, tinha semana que eram três vezes, que paravam a pista, o pessoal era muito organizado nesse quesito, era muito mesmo.
P/1 - E você estava sempre envolvido?
R - Todas, todas as vezes. Todas as vezes eu estava envolvido. Todas. Então foi bem, foi luta mesmo. Foi uma luta árdua, gratificante no final, quando você via oportunidade, quando viu pessoas que conseguiam. Mas tinha pessoas que estavam lutando com a gente lá de trás, que quando a gente ligou pra ela, ó, surgiu uma oportunidade de emprego aqui e tal, a pessoa falava, - “meu marido morreu”. Tinha muito dessas coisas também, tinha pessoas que chegavam chorando pedindo oportunidade, tinha pessoas que não tinham o que comer dentro de casa.
Então eu vi que eu tava ficando meio doente com essas coisas, sabe? Eu tava absorvendo o problema das pessoas, o problema pra mim, porque eu via pessoa chorando, eu não conseguia resolver, eu ficava doido junto com elas, então, tinha muito do equilíbrio.
E a maioria dessas pessoas, normalmente, era daqui, da Vila Esperança das pessoas que me viam aqui. Pô, era muito legal, né? A gente chegava nos lugares pra aqui, às vezes ia no botequinho, bater um papo com alguém aqui, vinha gente pra... “Quer tomar um refrigerante? Quer tomar não sei o quê? Quer tirar uma foto aqui?” Tinha muito disso, a gente virou tipo fosse um... Na época, a gente virou tipo um pop star da comunidade, doideira, porque as pessoas gostavam do trabalho da gente, de uma forma ou de outra.
Alguns não gostavam porque não tinham oportunidade, mas admiravam também o trabalho porque não tinha a capacidade de fazer igual, porque fica difícil também. Imagina, você acha que todo mundo tem coragem de chegar e parar uma rodovia dessa? Imagina o tanto de polícia, o tanto de borrachada, o tanto de bala de borracha que voou, o tanto de Spray de pimenta que voava? Tinha muito disso, meu irmão, tinha muito disso. Então ninguém tinha capacidade. Eles criticavam, mas também, no fundo, eles admiravam também a coragem das pessoas. A gente batia, a gente brigava com a empresa, a gente batia na mesa, a gente batia na mesa pra falar de problema. “Não, o pessoal daqui vai ficar com o pessoal daqui.” E aí a gente conseguiu, de uma forma ou de outra, sentar com a empresa, com as empresas, sabe? As empresas que a gente nunca conseguiu ter contato, eles sentavam na mesa pra discutir com a gente, eles vinham pra mesa. Eles: “Não, mas eu quero trazer o meu pessoal”. Nós: “Você não vai trazer ninguém. Não, velho, a gente vai parar de novo.” E tinha tudo essa... e é só dessa forma que as coisas andavam.
P/1 - Onde ficava a sede? Aqui, na Vila? Ou lá em Cubatão?
R - Cubatão. No centro, no centro de Cubatão. A gente ficava no pátio de Cubatão na época. Então a gente ficou bem conhecido por conta disso, né? Que as pessoas iam atrás de emprego e viam a gente lá toda hora.
P/1 - Você super aperfeiçoou o seu diálogo com as empresas nas negociações.
R - Muito, muito. Foi ali que eu acho que eu aprendi a dialogar com a empresa. Foi naquele momento que a gente conseguiu ter um olhar melhor, eu digo assim, para as coisas. Porque eu vi as pessoas também ali da empresa, tipo assim, no começo do movimento, às vezes, eu via eles como inimigos, sabe? Depois que eu fui ver também que eles também não eram inimigos da gente também naquele momento. Porque sem eles também não ia ter vaga de emprego. Então a gente tinha esse olhar de... Eles querem fazer isso? eles que querem, não sei o quê? Só que a gente viu o outro lado também, a explicação deles também, tinha muito trabalhador também que dava trabalho, que eles não conseguiam, eles não queriam. Então tinha toda uma organização feita, só que Cubatão é 120.000 pessoas. Naquele tempo tinha muita gente desempregada, tinha gente mais ou menos de 15.000, 17.000 pessoas que trabalhavam na indústria naquele tempo, era muita gente mesmo, currículos a gente tinha pilhas de currículo. Era muita gente, muita, muito mesmo. E organizar esse povo foi complicado, a gente entrou mais como organizador. A gente queria organizar esse povo naquele momento.
P/1 - Vocês tiravam o sustento disso?
R- Tiravam. Naquele momento? Não. Nada. A gente ficou...
P/1 - Você não tirava sustento desse trabalho todo?
R - Não tinha, naquele momento não tinha sustento nenhum, por incrível que pareça, não tinha. A gente ficou naquele tempo há um 1 e pouco ali, praticamente vivendo de doação do próprio pessoal mesmo.
Porque o que a gente fazia, que era engraçado, né? As pessoas que arrumavam emprego, eles davam a cesta básica pra doar pras pessoas que ficaram de fora, para ajudar as pessoas que estavam de fora. Então, toda vez que tinha uma parada de grande proporção aí, e aí a gente conseguia pilhas e pilhas de ciência básica para ajudar essas pessoas. Era muita gente de fora, por semana a gente dava mais de 100 ciências básicas.
P/1 - Quanto?
R - Mais de 100, por semana, a gente organizava, vinham uns saquinhos legais de doação, o Ronaldo, o pessoal, tudo vinha com a gente e dava esse tipo de coisa. Então foi ali que a gente conseguiu forjar algumas coisas, e naquele momento eu era um dos que eram mais contra a cesta básica. Eu era contra, eu não era a favor. Porque eu vi aquilo lá atrás, a cesta básica, e você pensar que é pra manter as pessoas perto de você, eu era um dos mais contra.
Só que depois naquele momento eu fui entender também que tinha muita gente que realmente precisava, não era uma... Pessoas chegavam chorando pedindo oportunidade para você, e aí eu lembrei que lá atrás todo mundo pedia também, não tinha também onde pedir. E virou referência na cidade toda, as pessoas saíram daqui para ir lá, pedir lá, porque sabia que os trabalhadores estavam se reorganizando e estavam dando, estavam ajudando as pessoas.
A gente vivia, mas de vez em quando eu também trabalhava, às vezes eu pegava bico à noite, trabalhava à noite, às vezes eu pegava uma parada de manutenção de mês à noite também. A gente se virava nos 30 também, porque a gente tem que se virar, tem que fazer as coisas acontecerem.
P/1 - Você estava nessa relação com a mãe do seu filho?
R - Estava.
P/1 - Estava casado?
R - Estava, estava, casado não, mas estava junto. Nesse momento estava e era bem complicado também, foi onde a gente ficou muito mais separado, ficou mais... Fora, né? A gente não ficou muito mais junto, né? Porque tinha muito trabalho, a gente saia às 3h da manhã e a gente chegava em casa 11h da noite, 11h da noite, é bem complicado mesmo, nossa, foi um trabalho árduo, foi um trabalho muito árduo.
E aí, 2020... 2021, 2022, eu saí, não aguentei a pressão, não aguentei a pressão. A gente teve um... Não dava, não tava dando também, porque, pô, eu também tinha meus objetivos também. Não é só ajudar, você também tem que ser ajudado pra você ajudar os outros, você tem que estar bem, pô. Depois que eu percebi isso, não adianta você tá mal em casa, tá mal na vida, tua vida não tá legal, e você querer também dar uma de super-herói e querer ajudar os outros. Então eu fui entender isso depois, né, eu tive um problema com cólica renal, e eu vi e falei: “não, deixa eu dar um tempinho aqui, deixa eu viver um pouco minha vida também um pouco, deixa eu cuidar um pouco de mim”.
Aí foi o momento que a gente deu uma parada na vida pra tocar outros projetos, mas também pra trabalhar de uma forma que eu queria, e aí, nesse meio tempo que eu tava lá, eu tava fazendo a faculdade de produção industrial, o sonho do Canudo ainda tinha, aquele sonho do Canudo. Não era mais direito, porque depois eu percebi que lá atrás, talvez com o livramento por mim mesmo, eu acho que eu não iria ser um bom advogado. E aí depois veio o sonho da indústria também, de crescer dentro da indústria, né? Então eu fiquei de ajudante, caldeireiro, com o canudo já virei supervisor encarregado, então eu já consegui alcançar outros voos, né?
P/1 - Quando é que você se formou?
R - Me formei em 2022. 4 anos.
P/1 - Depois da pandemia.
R - Isso. Eu fiquei estudando a distância, foi mais ou menos isso mesmo. Eu trabalhando lá, eu já estava estudando, eu já estava estudando para fazer. Porque eu tive um convite do prefeito da época para me acessar lá, só que eu não tinha faculdade, eu não tinha faculdade. Então, naquele momento ali, eu falei, pô, as oportunidades estão vindo, só que eu estou cuidando da vida dos outros, estou esquecendo de cuidar da minha, estou esquecendo de cuidar da minha. E aí eu fui tentar a minha também, fiz vestibular e fui estudando.
Era presencial, depois na pandemia virou online e eu consegui concluir em 2022 essa faculdade, depois que concluí em 2022, eu voltei para a indústria de novo e já voltei direto dentro da refinaria, onde lá atrás eu não conseguia acesso. Depois de ter lutado, depois de ter fechado a pista, depois de ter fechado a portaria dela um monte de vez, depois de ter parado tudo, me quiseram lá dentro ainda, aí me botaram lá dentro, eu peguei e eu fui trabalhar lá com o pessoal, fiquei uns meses ainda.
Depois, toda vez que tinha trabalho lá, eles me chamavam de volta, eles me chamavam de volta pra trabalhar de novo lá. E aí, em 2024, eu tive o convite do prefeito pra ser Assessor de Igualdade Racial. Então, eu fiquei o Prefeito Ademário. me deu a oportunidade de ser Assessor de Igualdade Racial aqui de Cubatão por conta da comunidade, por conta da luta que a gente já tinha aqui dentro, da liderança, então ele me chamou e a gente fizemos um trabalho na Assessoria de Igualdade Racial aqui na cidade, e foi uma fase boa, legal, sim, porque foi suado, né? Foi um caminho que a gente percorreu lá atrás até chegar naquele momento que a gente chegou, né? Então, não foi um negócio fácil.
P/1 - Hoje você está nesse cargo?
R - Hoje eu já estou de Assessor de Assuntos Estratégicos, mas paralelo a isso eu também tenho empresa também, então, eu estou nessa... No processo.
P/1 - Em 2024, você entrou?
R - Sem nada, é isso. Em 2024... Em 2022, eu concluí a faculdade, em 2023, eu fui trabalhar na indústria, de novo, voltei para a indústria. Porque eu queria voltar lá dentro pra ver como que tava o sentimento lá dentro da indústria também, que era bacana. Depois de a gente ter feito esse auê todo pra entender o que o pessoal entendia da gente, que o sentimento era bom, não era ruim. Aquele sentimento ruim que eu tava sentindo quando eu tava lá vendo as pessoas... Pegando-se cesta básica, chorando, enfim, tal, quando eu entrei lá dentro e vi aquelas pessoas trabalhando, agradecendo, falando que era por causa da gente. Aquilo ali foi legal, aquilo ali foi um assunto muito bacana que eu entendi. E aí eu tive o convite do prefeito Ademário de estar na assessoria de igualdade racial.
P/1 - Você ficou quanto tempo na assessoria?
R - Acho que foi 2 anos.
P/1 - Foi em 2025, então não foi em 2024.
R - Não, em 2023, isso. Em 2023 e 2024.
P/1 - Tá.
R - Fiquei 2 anos.
P/1 - Quando é que mudou?
R - Mudei agora em março. Em março me chamou de assessor de assunto estratégico.
P/1 - O que você faz hoje?
R - Hoje eu assessoro o pessoal do governo, do prefeito, eu trabalho diretamente com eles por questões de lealdade, por questões de respeito, de luta também. Então eles têm essa confiança na gente também pra estar mantendo esse processo com eles ainda aí, um tempo ainda.
P/1 - E o sonho da indústria?
R - O sonho da indústria ficou ainda, né? Ainda tenho esse de voltar ainda, né? De vez em quando eu ainda faço algumas assessorias dentro da indústria, né? Mas hoje é pra mim, não está mais aquele processo de sofrimento, ainda tem muito, de vez em quando a gente conversa com alguns trabalhadores ou outros, a gente vê que muita coisa melhorou, aquela organização que tinha forte, o Jante, a gente viu que a gente conseguiu diminuir ela muito depois desse movimento que se criou. Tanto que depois que a gente saiu, o presidente virou vereador, ficou um dos vereadores mais votados aqui de Cubatão.
Foi reconhecido pelo trabalho que a gente fez, e eu fico muito feliz quando eu vi ele (como) vereador lá dentro, foi bacana a gente ver ele lá, que os trabalhadores reconheceram a luta dele. Uma luta que eu participei dela também junto, né? Mas o sonho da indústria ainda continua, eu gosto da indústria. Não tem o que fale, né? Nesse meio tempo que me formei em meio ambiente, também, mas a indústria ainda continua, né? A gente tem os objetivos na vida ainda. E a gente sabe que hoje a gente tá aqui, amanhã a gente tá ali, se eu precisar voltar de novo, eu volto. E eu não tenho medo de processo não, o fundo do poço, eu dele, cara, não adianta.
A gente só foi pra cima, graças a Deus, de um tempo pra cá. Meu filho, por exemplo, nunca passou um terço das coisas que eu passei, um terço, não passou um terço. Sempre teve tudo, sempre fez tudo o que queria, sempre teve acesso a shopping, teve acesso a praia, teve acesso a tudo, teve acesso a roupa. Então, pra mim, eu sou feliz por conta disso, cara, porque o que eu não passei lá atrás, eu continuo batalhando, correndo atrás pra chegar no meu processo, mas, paralelo a isso, também, em 2015, começou a gente fazendo a minha primeira festa das crianças aqui na comunidade também.
P/1 - É essa a sua empresa que você falou?
R - Não, também não, a empresa é uma empresa de serviços, presta vários serviços aí, de consultoria. Mas o meu lado social aqui dentro da comunidade desde 2015, não, muito menos, antes, 2012 mais ou menos, desde 2012 que a gente faz a festa das crianças na Chatuba, a festa das crianças da Chatuba acho que foi a virada da minha vida, de verdade, do que o... Porque não é só festa das crianças, é tudo, é todo um processo de juntar pessoas, de ter credibilidade, de as pessoas precisarem da gente e a gente tá lá sempre, sabe? Diariamente a gente recebe um pedido de ajuda aqui dentro da comunidade. Só que hoje tá muito, por tudo que a gente passou lá, tá muito mais fácil. Não tá aquele processo mais difícil, né? Difícil era quando você tava lá com 4, 5.000 pessoas te olhando e você sozinho ali.
Hoje uma pessoa vem te pedir uma ajuda, hoje é outra vem te pedir uma ajuda e a Festa das Crianças pra mim foi uma virada na minha vida que eu achei muito louco, porque eu tinha medo de ficar nesses processos, sabe? E aí a gente conseguiu fazer, há mais de 15 anos, manter uma festa. A gente mantém uma festa há mais de 15 anos aqui na comunidade e é a maior e a melhor de todas, não tenho medo de falar isso pra ninguém não, é a melhor festa da Vila Esperança. Esse ano foram nove brinquedos jogados lá, acho que o pessoal do museu estava lá também, foram nove brinquedos na rua, foi palco, foi picolé, foi tudo. Então, a gente viu que todo o processo de todo ano, a gente só melhora, isso é gratificante.
A gente começou numa festinha pequenininha, pequenininha só mesmo, só onde só tinha brincadeira de saco e coisas e hoje você consegue colocar brinquedo inflável, hoje você consegue colocar comida bastante para todo mundo conseguir comer, brincadeiras, bicicleta, aquela bicicleta que queria, que eu queria ter, que eu não tinha, hoje a gente coloca... Cara, eu tava fazendo uma conta hoje, né? Mais de 300 a 400 bicicletas a gente já distribuiu nessas festas de criança, tudo em sorteio, tudo em sorteio. Era 10, 15, toda festa de criança 10, 15, 10, 15, então, eu me sinto muito gratificante nesse momento, sabe?
P/1 - E a festa das crianças acontece em que momento do ano?
R - Em outubro, normalmente, né? No mês de outubro. Mas já fizemos Natal, a gente já fez Páscoa, a gente já fez tanta coisa aqui dentro, a gente já fez trabalho nas palafitas, distribuindo peru, frango no meio das palafitas aqui dentro. A gente já fez tanta coisa aqui dentro, nessa comunidade, a gente já limpou mangue, fizemos limpeza de mangue, já fizemos mutirão de praça, fizemos mutirão de praça. Já ajudamos pessoas, já muitas pessoas, a gente já ajudou inúmeras. A gente consegue colocar pessoas no mercado de trabalho, indicação para curso, hoje estamos fazendo tanta coisa, tanta coisa que está acontecendo, estamos num momento tão bom, graças a todo esse momento, esse trabalho que a gente fez lá atrás, que hoje a situação melhorou mil por cento.
P/1 - Quando é que nasceu a Festa das Crianças? Em que momento você colocou que era fazer uma festa?
R - Quando eu via o Zumbi fazendo, na Ilha Bela, eu via ele fazendo, eu era um daqueles molequinhos cabeçudinhos, que estavam pulando lá, eu era um daqueles meninos magrinhos, tava jogado lá, brincando, querendo pegar um doce, querendo pegar alguma coisa.
E a gente vê que as crianças já esperam esse momento, sabe? E é muito louco, porque não adianta: o poder público não vai chegar aqui. Não chega. Nunca vai ter uma festa de criança do poder público aqui dentro de uma comunidade. Não vai ter. E quando chega, é independente, Ah, pô, tu tá lá dentro, tu fica por aí… isso é real, eu vim de lá de baixo, eu sei: não vai vir, e se essas pessoas não se unirem para fazer, se a importância de uma liderança não fizer, então foi... o meu sentimento nasceu nesse momento, quando eu queria ver as pessoas… Às vezes conseguia fazer um, às vezes não conseguia fazer, e quando não fazia, todo mundo ficava triste, porque não tinha nada, porque não tinha nada.
Então é bem... e as crianças esperam já esse momento, por isso que tem tanta aqui dentro, e eu tenho o meu orgulho porque a nossa foi uma das pioneiras aqui. Grande, que você vê pessoas se espelhando e se espelham mesmo, com força. Mas a vontade de você ter as coisas também fala muito.
P/1 - E isso nasceu você com quem? Foi uma sucessão?
R - Foi, com as pessoas, pessoas que tinham o mesmo intuito que a gente, de se juntar e fazer.
P/1 - Por conta própria?
R - Por conta própria. E aí, no final, é tão louco, porque a gente dá o processo, o primeiro passo, o restante Deus vai... Deus vai dando a direção, vai mostrando o caminho e tu vai vendo que vai chegando coisa do nada. Às vezes tu tá descabelado aqui, do nada chega uma caixa de bolo, de doce aqui, um monte de coisa do nada, tu não entende.
A última agora mesmo, nossa lá mesmo, foi assim... -“A gente não vai dar brinquedo, vamos fazer só sorteio”, e do nada chega um monte de brinquedo lá, as pessoas chegam e jogam, tu não sabe nem quem é, aí chegaram e jogaram no palco lá e foram embora, e tu não sabe nem quem foi, que chegou e jogou.
P/1- Não sabe?
R - É bem assim que funcionam as coisas. Eles chegam, jogam lá e não sabem.
P/1 - Mas você criou uma associação para fazer essa festa ou não precisa?
R - Não, não precisa, não precisa, só juntar…as pessoas já esperam, só o nome, Graças a Deus, é só o nome.
P/1 - Como que chama?
R - O nome que eu digo, é o nome das pessoas, o meu nome.
P/1 - O seu nome?
R - O meu nome e o nome de outras pessoas que estão com a gente, mas o meu nome, já consegue, as pessoas sabem que vai acontecer, eles já esperam isso acontecer.
P/1 - E tem um lugar onde essa festa acontece?
R - Tem, a gente faz na Chatuba, lá no Sítio Novo, na praça. Ali é mais de 15 anos só ali, naquele momento eu era moleque, eu tava ali. Eu virei homem, eu tava ali. E tudo foi feito ali, então...
Aquele processo lá de trás deu certo, super certo, deu super certo hoje.
P/1 - E é doação total?
R - Tudo doação total, tudo doação total, de vez em quando a gente faz um vídeo, faz um bingo, faz alguma coisa, mas tudo é doação total. Tudo que chega é doação total, e de vez em quando a gente mexe o bolo do bolso também, não vou mentir. A gente faz do bolso também porque é um social nosso também, que a gente gosta de fazer, não é um processo, não é uma coisa que a gente fala - “Ah, caiu do céu”, não caiu do céu, não, tem sofrimento no meio, é muito. Mas no final, dá tudo certo, foi sábado agora, terminou.
P/1 - Quantas pessoas você conseguiu juntar nessa última mais ou menos?
R - Eu acho que passou ali mais de mil pessoas. Passou indo embora, passou indo embora, mais de mil e a gente estava chovendo. E graças a Deus estava chovendo, porque se tivesse sol, acho que ia passar muito mais. Ia passar muito mais. Talvez a chuva foi o equilíbrio da situação.
Hoje você consegue colocar um Robotron, você consegue colocar uma banda para tocar lá, naquele momento lá atrás, a gente ficava só numa portinha, fazendo um negócio numa portinha, já ficou grande.
A gente consegue colocar um palco, consegue colocar um som, por conta dessa junção com o poder público, você consegue colocar voluntários pra trabalhar, acho que isso é o mais importante quando você também tem pessoas que também querem ajudar também, e tem muita, meu, tem muita, a gente colocou.
A gente colocava no status do WhatsApp: “Pessoal, eu preciso de voluntário”, em menos de 2 minutos, 3 minutos, a gente: - “chegou, pessoal, não precisa colocar mais, não precisa de voluntário mais não. Não precisa de voluntário mais não”. Então, é as coisas que acontecem dentro da comunidade, comunidade é isso, pô. Tu vai andar na Palafita aqui, tu vê o tiozinho falar ali: - “Quer uma água. Quer um café?” E fica conversando com você, te trata bem, te trata com carinho, conta a vida dele todinha pra você, se você parar ali pra ousar, essas coisas, você vê ele com tão pouco, tão pouco, tão pouco, mas tão feliz ali no beco, conversando, numa palafita, em cima de outra palafita. Você vê, pô, eu tenho um tudo hoje, e tem gente que é muito mais amargurada, sabe?
Então você vê essas coisas, e eu sempre tô ali andando em uma palafita, eu sempre tô andando em um beco. Porque eu quero, eu gosto de ver isso, pra gente entender de onde a gente saiu, hoje eu não moro mais em palafita, hoje eu não moro mais... Eu moro aqui na Vila Esperança, mas a situação é bem melhor do que lá atrás, mas eu nunca deixo de ir lá, nunca, nunca.
Eu criei, eu fiquei uns três anos com a palafita, que a gente fazia um trabalho nessas palafitas, andava, pegava um doce, vinha, pegava o nome de uma criança pra dar um brinquedo, fazer umas coisinhas lá. Mas depois a gente parou por questão de que estava crescendo muito e as palafitas não aguentavam, eu podia quebrar uma palafita e todo mundo cair lá, aí uma coisa que é positivo vira negativo do nada. Mas era bem... Então a gente fizemos tanta...
Eu tenho uma gratidão pela palafita, porque é dali que a gente veio, porque é dali que a gente teve uma... Que forjou um pouco da vida da gente. O sofrimento ensina. Eu falo, o pessoal (pergunta): -“Se você estivesse lá de novo, você conseguiria sair?” Acho que com a mentalidade que eu tenho hoje eu saia, talvez eu veja que tudo isso é questão de mentalidade, tudo isso acho que é questão de você entender como funciona o processo, e tem muitas pessoas que não entendem isso, que não têm isso, que é delas mesmo, perdeu a esperança mesmo, perdeu a vontade de ter as coisas, de querer ter uma melhora. E você vai ver muito isso aqui dentro: pessoas que não têm esperança.
P/1 - Andinho, você começou com esse trabalho fazendo Cubatão, um trabalho social para Cubatão. E aqui hoje, como está me contando da festa, a gente está focando na Vila, né?
R - Sim.
P/1 - O que isso representa para você, ser um líder comunitário da Vila Esperança?
R - Muito, representa muito. Eu tinha medo, hoje representa muito, quando você vê as pessoas te levando como referência, te perguntando as coisas na tua rede social, te mandando um abraço, parabéns pelo trabalho. Porque eu entendi que o líder não é só tampar buraco, desentupir um esgoto, o líder é tentar encaminhar as pessoas para o caminho certo, tentar dar um pouco de alternativa para as pessoas de curso, de desenvolvimento.
O líder não é só aquele que sai com a cesta básica para dar num beco ali para falar que - “sou líder social”. Não é isso, quem pensa que líder é isso, está totalmente errado, totalmente errado. O líder é a pessoa que tem que ter espelho, a gente diz o nome: - líder, né? Se você lidera uma pessoa, você tem que ter espelho, tem que ser o espelho da comunidade. Você tem que saber dialogar numa mesa, você tem que saber bater a mão na melhor hora, bater na mesa, mas você tem que saber recuar e reconhecer também o que tudo de bom também que fazem.
A gente tem muito esse embate aqui dentro da Vila Esperança com algumas empresas referentes a isso, a gente sabe reconhecer, a gente sabe cobrar, mas acho que o melhor de tudo é saber respeitar, respeitar, e tem gente que, infelizmente, nem todo mundo vai pensar igual que você.
Você tem que entender que isso é normal. É um processo, é um processo… ninguém é obrigado a gostar de você, mas você é obrigado a respeitar, respeitar você, o que você é, eu vou te respeitar, você me respeita e tá tudo certo, e tá tudo certo. Então eu vejo mais isso mesmo, eu tinha medo, mas hoje eu gosto.
Hoje eu gosto quando as pessoas vêm conversar comigo, eu gosto quando as pessoas vêm pedir ajuda, porque se eles vêm fazer isso é porque de um jeito ou de outro a gente conseguiu fazer alguma coisa de bom e eles sabem que a gente pode resolver, que a gente pode tentar ajudar eles, seja num médico, fazendo valer o direito deles, quantas vezes a gente vê aqui no UBS, se a gente for lá no poder público cobrar mais médico pra comunidade, porque eu acho que isso é o papel de um líder.
O asfalto, o esgoto, é importante, claro que é, só que são coisas de obrigação que o povo tem que fazer, agora, uma saúde digna, é vida, aí é diferente, aí eu vou embora… acho que a hora que me tira do sério é esse momento, quando a gente tem que fazer valer uma coisa que é referente à saúde, quantas pessoas vem pedir sempre pra gente aqui dentro da comunidade, é bem difícil, é bem difícil mesmo. E, vem pessoas, também pedir oportunidade de curso. Caramba! uma coisa às vezes tão básica, né? Uma oportunidade de um curso, de uma qualificação, que as pessoas estão querendo mudar de vida, e a gente vê que isso não tende, e as pessoas não tendem a ter direito disso, não tendem a ter essa oportunidade.
Eu gosto de ser líder comunitário, sim, mas eu também gosto quando as pessoas reconhecem o trabalho, porque eu acho que é esse que é o combustível para você virar liderança, porque se você não tiver as pessoas respeitando o seu trabalho, só te botando pra baixo, vai acontecer o que aconteceu lá atrás de novo.
As pessoas, você absorve só problema, problema, problema, você é a solução, mas a pessoa tem que entender que o problema, 99%, quem vai sair do problema é ela mesma… Você vai dar o caminho, você vai conversar, quantas pessoas a gente conversa e a pessoa - “Puxa, entendi, vou lá resolver”, e é isso que a gente quer, que é despertar esse momento aí: - “Pô, meu, tu já tentou fazer o caminho certo? Pra ver se dá certo?”.
Porque tem muita gente que só vem através da facilidade: - “Pô, meu filho tá fora da creche. Me ajuda a colocar meu filho na creche?”,
- “Mas tu já tentou fazer o caminho certo? Tu já foi lá, fez o caminho certo?” Porque se de repente você fizer o caminho certo, vai dar certo no final.
Agora, se você fizer o caminho certo e deu errado, dá aqui que eu respondo, eu vou lá contigo, vamos resolver, essas coisas que a gente faz, mas eu quero que a pessoa, pelo menos, faça o caminho certo, que ela vá lá, a gente faça, porque tem gente que pede ajuda pra gente numa situação de creche, mas nem fazer a inscrição da creche, a pessoa faz.
Então, a gente entende que não é só o poder público que erra, não, não é só o poder público que erra, as pessoas também erram, e erram muito, e erram muito. Eles querem a oportunidade, eles querem o benefício, mas não fazem nada para se mover, isso me tira muito do sério, porque de vez em quando a gente vai acompanhar, porque a gente gasta muita energia fazendo isso, para procurar a pessoa, para procurar o que ela precisa, e aí quando chega lá no negócio, a pessoa não fez nada, a pessoa não fez processo nenhum.
Então hoje já tem uma mentalidade totalmente diferente de lá atrás, porque, normalmente, o político gosta disso, trabalha em cima da ignorância das pessoas. O líder não, o líder vai ensinar as pessoas a fazerem o caminho certo, vai fazer certo. Quantas vezes? Ah, teve uma menina que foi com raiva de mim, porque eu mandei ela estudar, ela pediu oportunidade de emprego pra mim, eu falei: - “Ó, hoje em dia as empresas não estão pegando mais, sem ter pelo menos o ensino médio”.
Aí ela falou: - “Eu só tenho a quinta série”, eu falei: - “ Então, termina e tenta fazer o ensino médio”, aí ela falou: - “Tá bom”.
Aí no outro dia ela me encontrou e falou: - “Fui atrás do vereador fulano e consegui”. Eu falei: - “Então parabéns, amanhã tu vai atrás dele de novo, depois tu vai atrás dele de novo, e aí quando ele perder a eleição, tu vai ficar jogada aí na rua”.
Então você tem que tentar fazer as coisas certas, mesmo sabendo que as pessoas vão ficar com raiva de você. Não foi fácil pra gente, ninguém me deu facilidade pra mim, ninguém pegou na minha mão e falou, vai lá, sai, não foi assim, foi falando, foi exemplo, fui vendo, foi as coisas que eu fui fazendo, foi as dificuldades que eu passei.
P/1 - Você que é filho daqui, dessa vila, qual é o cenário dela hoje? Como está a vila Esperança hoje? O que ela precisa? O que ela conquistou?
R - Precisa de muita coisa ainda, né? Igual eu falei, a gente começou a história falando pra vocês das palafitas, né? Se vocês dão uma volta hoje, vocês vão ver as palafitas do mesmo jeito que estão aí. Só que hoje, nesse momento de hoje, tem coisas boas vindo para essas pessoas. Hoje eu sinto isso. Hoje a população sente isso também.
Quando a gente conversa com as pessoas, a gente vê muito isso, porque quando você dá uma volta aqui, você vai ver os prédios subindo ali na frente, então aqueles prédios ali já são para essas pessoas que vão sair futuramente dessas palafitas. Então é um dos processos que me deixou mais raiva é ter ainda essa palafita aqui dentro, eu acho que não tinha lógica de ter, porque é uma cidade tão rica… e você ainda ter palafita numa cidade dessa? não tem... pequena e rica, uma maior comunidade, a maior favela da Baixada Santista é aqui em Cubatão.
Até hoje eu não entendo, isso não é orgulho pra ninguém, isso não é orgulho pra uma cidade, você ter a maior favela. Tem beco aqui que as pessoas andam mesmo em cima de fezes ainda, tem pessoas ainda que não tem o que comer, não tem. Porque a pessoa quando vem te pedir um alimento na rua é porque hoje o negócio tá difícil mesmo, tem gente que não tem, e você vê, pô, essa pessoa é trabalhadora…não dá pra entender, né?
Porque tem pessoas ainda que são viciadas em droga, tem muita coisa aqui ainda. Mas tu olha assim: - “caramba, essa pessoa tá nessa situação como?” E fora aquelas... E essa ainda tem coragem de pedir, fora que não tem coragem, porque tem gente que não tem, vive do jeito que tá.
Então você vê tanta coisa aqui dentro ainda, que outros bairros tem, uma UBS de qualidade, uma área de lazer de qualidade, um bairro tão grande, com tantas pessoas, você não tem um lugar pra você sentar e bater um papo com as pessoas! Isso me incomoda muito...
Chega momentos aqui que você fica aqui na frente isso aqui (vai) parar mesmo, fica parecendo a China, um carro atrás do outro, assim, ó, porque só tem uma entrada e uma saída, porque é muita gente… e não tem outra entrada, não tem outra saída, tá bom? A Vila Esperança hoje, se tiver um incêndio de grande proporção, às 5h da tarde, para, para tudo. É capaz da pessoa morrer lá dentro, se alguém precisar de uma ambulância nesse momento, para. Porque no horário de pico que as crianças estão chegando na escola, trava tudo, as pessoas estão chegando na escola, as pessoas estão chegando do trabalho, ou se estão indo pra faculdade, ou se estão indo pra escola que estuda à noite… Caramba, quando você vai ver, para tudo, trava tudo. Travou. E aí, nesse momento aí, se tiver um acidente, se tiver um incêndio de grande proporção, se tiver, vai morrer. Vai morrer, é bem dificultoso.
A minha liderança começou também aqui dentro, mais por conta de incêndio, foi no incêndio que eu vi que a importância de uma liderança é estar próximo, porque faltava liderança naquele momento, que eu tinha um incêndio de grande proporção no bairro do Sítio Novo, onde eu morava ali e eu vi que faltava liderança mesmo, eu vi que o poder público não chegava, doação não chegava, tu via as pessoas jogadas num relento, parecendo uns bichos, parecendo que na favela só mora praga, só tem... Aquele momento ali me deixou muito revoltado, então foi onde a gente fez valer os direitos de liderança, das coisas que a gente aprendeu, então foi onde que eu decidi, na minha vida, também, sair daquele momento lá e entrar em outro momento aqui.
Entrar num momento na Vila Esperança de cabeça mesmo, porque eu vi que tem muita coisa que acontece de bom, mas ainda tem muita omissão aqui dentro e é muito difícil, e não é todo mundo que vai conseguir entrar não, porque é aquilo, para as pessoas, a favela é importante, para políticos, é muito importante ter favela. Agora, político que pensa de verdade mesmo, não quer saber de favela, quer fazer prédio, igual tá acontecendo hoje aí, quer dar uma moradia digna. E eu tenho uma briga eterna com a CDHU. E eu já tô travando uma briga eterna com a CDHU de novo, porque é impossível uma pessoa que mora numa palafita pagar umas prestações tão altas que tão pagando aí, na CDHU, a gente já pediu.
É uma briga que a gente tá travando aqui agora com a CDHU, a gente quer ver esse contrato, gente, vamos ver esses contratos. Porque, com todo o respeito do mundo, uma pessoa que vive de Bolsa Família, se a pessoa tivesse condição de pagar R$1.600, R$2.000 de prestação, não estava morando na palafita, irmão! Desculpa. Você vai tirar uma pessoa daqui da palafita e vai colocar num prédio? E vai colocar num prédio daquele pra dar imposto pra ela pagar, pra dar água pra ela pagar, pra dar... Se você não cuidar do desmame dela primeiro, se você não colocar essa pessoa pra ser qualificada, pra ver se ela tá trabalhando, pra colocar essa pessoa no mercado de trabalho, você fazer todo o diagnóstico dessa pessoa primeiro, pra você entender, ela não vai ficar ali. A tendência dela voltar pra favela de novo, procurar um canto pra ela invadir é muito grande.
Então é uma briga que a gente tem com a CDHU, essas prestações enormes que elas estão dando pras pessoas não compensam, tem gente que paga R$1.600,00 de prestação. Me fala pra mim, eu pergunto pra você, como? Uma pessoa que mora numa palafita dessa vai pagar por mês R$1.600 reais? Não adianta, então é esse momento que a liderança tem que se fazer valer, é nesse momento agora, então eu prefiro muito mais lutar por esse lado, do que lutar por um Tapa Buraco, por exemplo, porque que eu acho que é isso que vai mudar a vida das pessoas, é esse o momento de você mobilizar todo mundo para resolver esse problema, vamos resolver esse problema aqui?
P/1- Prioridade né?
R - As pessoas querem pagar, mas as pessoas também não têm dinheiro para pagar isso aqui, vai fazer como? vão ficar seis meses, e depois vai pra rua de novo? Então é o tipo de situação que a gente tá lutando. É muita coisa que ainda tem que acontecer, tá muito escuro ainda essa urbanização, tá acontecendo, mas tá muito escuro em questão de informações. Porque até hoje que eu entendo, a CDHU não dá nada de graça pra ninguém, não dá nada de graça pra ninguém. E esse é um dos meus medos. É um dos meus... das minhas brigas, o motivo das minhas brigas. Porque eu não entendo, de verdade.
P/1 - A gente escuta muito o processo de urbanização. O que na prática isso significa para vocês?
R - O processo de urbanização significa taxa, conta, responsabilidade, então o processo de urbanização é esse que vai ter. - “Ah, mas dignidade”, talvez, eu vejo bairros aí super de classe média aqui também, quando chove enche tudo, será que vai vir tudo isso? Eles falam de dignidade, possa ser que tenha... E vamos torcer para ter mais dignidade, mas no foco que eu vejo hoje não é dessa forma não, porque a gente viu isso com outros bairros acontecerem, bairros igual o nosso.
Igual o nosso não tem, eu não digo nada, porque o nosso, mesmo se ele fizer uma cidade de prédio, não consegue tirar, não vai conseguir tirar daqui. Mas as pessoas que moram em Palafita não têm condições, irmão, esse processo de urbanização aí tem que ser muito justo, aqui dentro tem que ser muito justo. Se você quer dar dignidade para as pessoas, você tem que ser justo, eu vejo mais esse lado da justiça.
Não dessa forma que está sendo feita com a CDHU igual fizeram com outros bairros, a Vila Esperança é um bairro super carente, irmão! Muito carente… aqui é o que eu falei pra vocês atrás, a maioria das pessoas no meu processo lá, quando eu estava no sindicato, com as pessoas desempregadas, eram daqui que estavam procurando emprego lá.
Por quê? Às vezes, falta de qualificação, falta de estudo, falta um monte de inúmeras coisas que eles passaram, então eles não vão ter essas condições. Quem tá na palafita, com todo o respeito, não tem condições de pagar uma prestação de R$1.000, não tem, aí você coloca água, condomínio, um monte de coisa, vai para R$1.600… não vai ter condições… se a pessoa tivesse R$1.000,00, se a pessoa tivesse R$1.000 não vai estar morando numa palafita...
P/1 - E tem tido bons diálogos com as empresas que estão por aqui?
R - Tem.
P/1 - Vocês têm tido bons projetos com eles? Eles têm ajudado?
R - Com qual empresa você diz?
P/1 - Nem digo o nome da empresa, com as empresas que rodeiam vocês, né?
R - É que a única empresa que a gente tem hoje aqui, graças a Deus, é a RUMO, a gente tem, tivemos um bom relacionamento com a Ecovia também, que corta que corta aqui a comunidade, mas hoje a RUMO é a que mais está próxima da gente aqui. A RUMO é a que mais está próxima, né? A das empresas da CDHU, lá da urbanização, estão, mas estão só nesse momento, né? Depois que entregar, a gente sabe o que eles querem.
O bom da gente ter trabalhado com muita empresa agora é que a gente entende o “X” da questão, o “X” do problema, a gente entende o que eles gostam, a gente entende que empresa quer número, né? Não é o sentimento, empresa não tem sentimento, infelizmente, empresa não tem sentimento, tem responsabilidade social, mas sentimento não tem…Não tem… Porque pra pagar uma folha de pagamento, minha filha, desculpa, sentimento não, vão ter ali, se falhar, não tem conversa.
P/1 - Como é que tem visto, Andinho, a Vila Esperança progredir?
R - Sim. Eu acho que já foi muito melhor do que lá atrás. Hoje está bem melhor. Mas só não está melhor mesmo porque, infelizmente, alguns moradores não entenderam esse processo, mas está bem melhor, sim, em questão de água, questão de luz, questão de alguma estrutura, de um asfalto, hoje você vê que está bem melhor. Hoje a gente consegue acessar em muitos lugares aqui que a gente não conseguia acessar antigamente. Mas está bem melhor, a gente vê todo o andamento acontecendo, né? A gente vê essa urbanização, a gente vê pessoas movimentando a comunidade, né? Fazendo os estudos aqui dentro, acho que isso é legal também. Mas ficou muito tempo parada, então não vai ser um processo de um ano que vai mudar, de um mês, dois meses, o processo é demorado, é muito demorado. Se demorou porque até mesmo questão de...
Uma coisa que eu gostei muito foi quando acabaram com as invasões, acabar com as invasões, para mim, foi essencial para o progresso da cidade, do bairro, da cidade também, né? mas do bairro, eu acho que quando conteve as invasões, eu acho que foi uma das melhores coisas que fizeram, porque estava crescendo muito rápido…
Porque, imagina, você tem uma potência de água aqui, para as casas que estão aqui, aí aumentou duas vezes mais (casas) para trás, o que vai acontecer automaticamente? Essas pessoas vão perder água, não tem… Tudo tem muito esse... A energia, por exemplo, tem poste que você anda, tem fio para tudo que é lado aí... E você não consegue saber de quem é os fios, por exemplo. Então, o processo da invasão acho que foi: - “Ah, mas, pô, todo mundo aqui invadiu”, mas, bom, invadiu errado, é errado. O começo foi invadir, mas a gente sabe que invadir é errado. A gente não pode tapar o sol com a peneira, é errado.
P/1 - E isso acabou?
R - Hoje sim. Hoje eu vejo que eles estão bem rigorosos pra esse tipo de coisa. Parece que quem está vai estar, e quem não tiver, eles tiram. Então eu acho que nesse processo, sim, acho que foi bom, foi bom essa questão de contenção de invasão, acho que foi muito legal da parte deles.
Mas eu acho que em questão de estrutura eles pecam muito, tem becos aí, tem fezes, tu vai conversar com as pessoas: - “Não, na urbanização a gente tira”...Pô, calma aí! A pessoa fica ali com as fezes na porta dela até a urbanização chegar?
P/1 - Quando você diz: eles, quem são eles?
R - Não, é o poder público também, é muito difícil… por conta disso mesmo, como está nesse processo de invasão, de urbanização, é muito dinheiro que eles estão envolvendo aqui dentro, que eles estão jogando aqui dentro, então eles acham, tipo assim, que: - ” Calma aí, todo o dinheiro que estamos jogando já está bom”, só que, pô, é o que eu falo, a população não está feliz com a urbanização assim, porque ela já viu isso em outros bairros. Muitas das pessoas podem ficar, podem perder suas casas rapidamente, igual ao que aconteceu em outros bairros aqui. Então, eles são calejados, porque muitas dessas pessoas que estão aqui são pessoas que já moravam em apartamentos, perderam lá e voltaram pra cá, às vezes comprou um barraquinho, às vezes invadiu também, porque perdeu, ou não conseguiu vender a casinha dela e perdeu.
Então o processo de urbanização, ele é doloroso. E o bairro vai ser difícil, esse desmame. O desmame do bairro, a pessoa não tem, não está acostumada a pagar água, pagar luz, pagar condomínio. O pessoal só tá acostumado a o que? fazer seu barraquinho e comer… e comer. E a partir do momento que acontece tudo isso, esses dias o pessoal tá conversando comigo, lá no apartamento do conjunto habitacional lá em Cubatão: -”Pô, você pensa que aqui o pessoal também não é carente, não, é? As pessoas daqui moravam em uma favela também, vieram pra cá, tão pagando água, luz, condomínio, pagando tudo isso aí, tu acha que eles tão comendo bem?”
Então, tem muito disso também, então, a gente pega muito essas conversas de outros bairros para ter de espelho para cá também. E aí é o processo que a gente está passando, mas estamos lutando para tentar resolver, é claro, da melhor maneira possível, mas a CDHU tem que olhar como um bairro carente aqui. É um bairro bem carente, não é um bairro que as pessoas têm condições, não.
Então, essa é uma das nossas lutas que vão acontecer, mas em questão de melhoria: hoje o acesso melhorou muito com quando houve o antigo prefeito que estava, que no caso o Ademário, porque como ele era daqui, a gente tinha muito um caminho mais rápido para chegar nele, e todo esse processo chegou por causa dele, porque teve que ser alguém que viveu isso, morou nisso, fez isso, para tentar resolver.
P/1 - Você sabe me dizer mais ou menos quantas pessoas tem na Vila Esperança hoje?
R - Deve ter na faixa de 30 mil pessoas, alguns falam que é 18.000 famílias, outros falam que é 15.000 famílias, mas pessoas mesmo, juntando... vai dar em torno de 28 a 30.000 pessoas, então tem bastante gente aqui.
P/1 - E você como líder de muita gente, qual é o sentimento que você capta dessas pessoas? Como elas estão lidando com tudo isso?
R - Elas estão... Com medo algumas, muito medo, estão com medo, isso é fato. Algumas estão esperançosas, eu estava ali, por exemplo, e tinha um rapaz que já me pediu pra ver se tinha como acelerar o processo que ele quer ir.
Então tem todo esse sentimento, um misto de sentimento, pessoas favoráveis, pessoas contra pessoas que querem ficar com a sua moradia, pessoas que não vão ficar com essa moradia, então tem tudo isso, mas eu acho que o pior não é isso, o pior acho que é mais a falta de informação.
A falta de informação acho que deixa as pessoas um pouco burras, sabe? Porque não tem acesso ao documento, você não tem acesso a quantas pessoas vão sair, você não tem acesso a como que é os prédios, você não sabe quantas pessoas vão pagar. Então, essa falta de informação que eu acho que dá um pouco da dificuldade desse processo.
Mas o sentimento das pessoas ainda é dúvida, é medo, é muito disso também, porque eles perguntam muito pra gente, eles chegam pra gente e falam: - “Minha casa vai sair?” Eu falo” - “pô, eu não sei”.
Nesses dias, um rapaz chegou para mim e falou assim: - “A minha casa caiu a telha e o madeirite do lado caiu, eu posso arrumar?”
Eu falei: - “Meu irmão, tu vai morar nisso aí? Tu vai morar sem telha e sem coisa? Se tu tem que arrumar, arruma!”
Porque está muito nisso aí: - “Eu queria aterrar a minha casa, eu posso aterrar a minha casa?” Aí eles chegam perguntando isso para a gente, eu falei: - “Cara, vai melhorar a tua vida? Vai facilitar um pouco a tua vida? -” Então faz”... é isso que a gente fala para ele. Agora, pô, meu, pelo amor, né? - “Vai trocar? não pode trocar a tua telha? vai chover, está molhando a tua casa toda… - Troca, meu irmão, troca! Então, para você entender como as pessoas estão hoje, a falta de informação deixa as pessoas um pouco burras também.
P/1- Perdidas.
R - Totalmente, totalmente, é bem dificultoso isso aí, porque é um processo bem, vai ser doloroso, não vai ser um processo fácil, pode ser um processo bem doloroso para algumas pessoas que não estão acostumadas com isso.
P/1 - E como é que você vê esse processo? Com seus olhos, com seu entendimento daqui para frente, o que você enxerga?
R - Eu enxergo muita luta ainda. Até o ano que vem ainda vai ter bastante luta referente a esse... Eu acho o projeto lindo, você pega umas pessoas que não têm dignidade nenhuma e coloca elas numa moradia! Eu acho um processo super lindo, super maravilhoso. Agora, quando chega na hora da prestação, me dói, porque eu sei que muitas pessoas não vão se manter ali, então, o meu olhar para tudo isso, desse processo de urbanização, é com bons olhos também, porque tem pessoas em condições sub-humanas ali mesmo, tem gente que mora em lona, praticamente, joga uma lona por volta do barraco…
Imagina o calor que faz aquilo quando esquenta? Então tem todo esse submundo que a gente olha, e que parece que (quando) a gente anda na principal a gente não vê isso, mas quando a gente desce um pouquinho, a gente começa a ver todo o porquê está tendo aquele processo lá.
O meu olhar para tudo isso é um olhar mais, é um pouco mais crítico também. Porque a gente já viveu isso, é um pouco mais crítico. Eu sou totalmente a favor, mas desde que seja justo, desde que essas pessoas pelo menos consigam comer, consigam pelo menos pagar a sua prestação.
As ruas que eles forem rasgar, as casas que eles forem tirar, que eles paguem justo para essas casas também, que for ficar no meio do caminho das rodovias que eles forem fazer, que eles quiserem fazer.
O processo é bonito, eu acho lindo, você dá mais mobilidade para o bairro, você dar outra cara nova para o bairro, você tornar o bairro mais acessível, o projeto é lindo. Só que o meu medo é o sofrimento das pessoas no meio disso, criança, jovem, adulto, homem, mulher, não sei, vão sofrer muito nessa urbanização.
Eu acho que vai demorar um pouco ainda até cair em si todo esse processo ainda, e as pessoas hoje, até o momento, não são favoráveis ainda, por falta de informação.
Porque pra nós, que às vezes estamos lá dentro, pra nós que somos liderança que respeita, pra nós chega no escuro, imagine uma pessoa que está numa palafita lá longe, no submundo dela, que não vai ter o acesso que a gente tem, que não consegue chegar numa sala de um secretário pra conversar com ele, não consegue chegar, a única informação que ele tem é a nossa, é a nossa.
Então, essa é a minha preocupação presente nesse processo de urbanização. Eu entendo, eu levo com bons olhos, eu acho lindo, eu acho maravilhoso o processo. Só que desde que seja justo com as pessoas.
P/1 - E qual é a sua principal luta?
R - A principal luta hoje, eu acho que é mais manter as coisas como estão hoje, é uma das principais lutas que eu tenho, porque o ego fala muito alto, sabe? Muito ego, muita pessoa querendo ser talvez o que não é. E a gente tem uma história de vida lá atrás e a gente já percebeu tudo isso lá atrás. Eu acho que as pessoas têm que respeitar um pouco mais as outras, sabe? Então eu acho que é a parte do respeito que desanima muito, a minha luta é manter mesmo o que tá aqui hoje. Minha luta é ver uma molecada no esporte, igual a gente tem um projeto de esporte aqui dentro. A minha luta é ver o pessoal, os jovens aí, se encaminhando no mercado de trabalho, igual a gente tem a Kondzilla (Instituto Kondzilla - Escola de Criadores) que tá aqui hoje também, nesse processo também, tudo luta minha, eu tenho orgulho de falar isso.não é vaidade não, é que é realidade. É tudo luta minha, eu sentei na mesa pra desenhar isso, eu sentei na mesa pra ter esse papo que eu tenho com as pessoas hoje, eu tenho o poder de fala nisso. Foi luta minha.
Quando abriram o leque pra mim, qual que é as oportunidades que vocês têm? Isso aqui, isso aqui é boa, isso aqui acho que é pra tirar a criança, isso aqui tira o jovem da ociosidade: - “Ah, é 25, então a gente começa com 25, mas pode chegar a 50.000 logo, logo”. Hoje meu filho tá num projeto desse aqui, da KondZilla, e eu acho top, porque eu vim disso, eu vim disso, e a questão não é... A minha principal luta, o que vem na mente é o seguinte: - Porque tudo que dá na favela não presta, tudo que acontece aqui dentro não presta, pra muitos aí fora. E a minha principal luta é manter as coisas aqui dentro, pra provar que as pessoas aqui de dentro, que aqui de dentro sai coisa boa, não é só lá fora que sai. Pegar o jovem daqui e jogar ele lá fora, mas depois ele vai voltar pra cá de novo e aí? Ele vai ver a realidade de novo, que ele está aqui. Qual a lógica disso? O jovem está aqui, as pessoas estão aqui, eles moram aqui, eles comem aqui, eles vivem aqui, as crianças moram aqui. Por que eu vou dificultar a vida dessas crianças?
Vamos fazer tudo aqui, vamos montar tudo aqui, então eu acho que a minha principal luta é manter tudo aqui na comunidade. Eu quero que tudo aconteça aqui dentro da comunidade, eu quero que as pessoas de fora venham para cá, não daqui para fora, não daqui pra fora, e é esse tipo de coisa que eu não quero que aconteça. Porque fica muito... E lá fora a gente vai muito, graças a Deus a gente já andou em muitas áreas aqui já, desde Nordeste a Centro-Oeste, Brasília, muita coisa. A gente já foi pra tanto lugar, a gente já foi, e aí a gente vê muito disso. O que as pessoas falam é: - “O que dá na comunidade não presta”. E eu fico nossa! louco por isso! - “Não, mas é melhor pra ter estrutura” ... Então traz a estrutura pra cá pra dentro, então vamos lutar pra trazer estrutura aqui pra dentro.
Ah, se não der, eu tentei pelo menos, eu tentei, eu lutei, eu briguei, eu tumultuei um pouquinho, eu briguei. Mas a minha principal luta é manter as coisas aqui dentro. Eu quero manter aqui dentro. Eu quero que a molecada saia daqui e tenha o mesmo sentimento que eu tive lá atrás: - “eu vim daquilo ali também”.
Fiz um cursinho ali com o professor Menezes, eu fiz um cursinho ali com o pessoal. O pessoal está trabalhando nisso, se encaminharam nisso, porque quando eu fui fazer minha faculdade, ninguém segurou a minha mão, não, Falou assim: - “Meu irmão, faz faculdade”, não, eu fui vendo exemplos de outras pessoas trabalhando, fazendo as coisas, falei: -” Calma, eu também posso fazer isso aí também, eu sei fazer isso aí também, esse negócio não é difícil não, pra mim não”.
Então foi dessa forma que eu fui fazer, o meu pai não era a liderança, minha mãe não era a liderança. A gente não veio de nada, a gente não tinha nada, a gente só tinha só raiva, era só raiva que a gente tinha naquele momento, não tinha mais nada. O sentimento que eu tinha era raiva, nem sonho eu tinha, então eu vou falar o quê? Aí eu vou perguntar, vou ver essa molecada hoje aqui, você vai sentar com a molecada, hoje não tá igual antigamente.
Hoje, graças a Deus, tem várias mãos que tentam ajudar esse pessoal, tem várias opções. Então você tenta conversar com essa molecada. Eu venho aqui, sento e pergunto:
- “E aí, tão estudando? Quem aí já tá… quantos anos você tem? Vinte e dois? Já tá na faculdade? Não? Por quê?”
- “Ah, não sei o quê…”
- “Já fizeram o ENEM? Já tentaram? Não é fácil pra ninguém, não. Mas vamos embora, meu. Vamos embora! Vai continuar desse jeito? Vai ficar sempre aqui?”
- “A gente quer ver vocês evoluindo. Eu quero ver vocês voltando aqui um dia, fazendo uma palestra pra essa molecada de novo”.
É isso que eu quero ver que a molecada faça, e eu faço, meu filho era muito tímido, ele veio aqui, brincou com a molecada, falou, fez uma palestra com a molecada, eu falei:
- ”Vai lá e fala, fala tudo errado, mas vai lá e fala, mete a cara e fala.”
Depois ele chega e fala: -”Falei bem, falou bem?” Eu digo: - “Falou muito bem!”
E falou nada, gaguejou…
Eu digo para ele:
- “Falou top, continua assim e vai dar bom”.
É essa coisa que eu quero ver essa molecada, eu quero ver essa molecada evoluindo, e hoje eu vejo ele falando aqui, eu até saí, eu ficava vendo ele aqui, eu até saí daqui.
Aí hoje eu venho aqui e vejo ele aqui, eu fico vendo ele falando, eu falei: - ”Olha que da hora, que legal, tá falando muito bem, muito melhor do que quando ele entrou”.
Então esse é o processo, o processo é esse, eu poderia chegar hoje e pagar um curso para ele fazer e ir lá longe? Poderia, graças a Deus, hoje a gente tem essa condição de fazer, mas hoje não é assim, não é tudo fácil, não foi fácil para mim. É claro que eu não vou judiar também e falar que tudo que eu passei, ele vai passar também, não, isso não, hoje ele tem uma bicicleta enorme, ele tem computador em casa, hoje ele tem tudo, tem uma roupa melhor, ele come o que ele quiser, então isso ele tem.
Só que o processo dele, que nem...
Eu liguei pra ele e falei: - “Você vai querer estar na KondZilla?”
Ele fez a provinha e passou, só que ele estudava à tarde, e o KondZilla é à tarde também, eu falei:
- “E aí, o que tu vai fazer?
- ”Ele disse: - “Não, eu quero trocar de horário, vamos tentar (estudar) de manhã”
- ”Não consigo de manhã”...
Eu falei: - ”Tem a opção da noite, tu quer ir pra noite?”
Ele falou: - “Vou”.
Tá estudando à noite, vai e volta todo dia, à noite sozinho, então, quer dizer, é o processo mesmo, eu não vou ficar segurando, ninguém me segurou, ninguém me travou, então eu quero ver essa molecada mesmo.
Eu acho que o principal da minha luta é ver essa molecada encaminhada, em alguma coisa, eu quero essa molecada encaminhada.
Porque pra mim é o mais triste eu ver a molecada saindo daqui, indo vender droga ou saber que a molecada morreu, tomou um tiro, ou saber que a molecada tá presa.
Então, pra mim é triste, igual eu escuto muitas vezes, moleque de processo social meu, aquelas crianças que eu via brincando lá na festa das crianças há 15 anos atrás, pô, tinha molecada que eu via lá atrás brincando, hoje tudo vendendo droga, tudo se perdendo, tudo preso, então isso aí é uma coisa que eu fico triste quando eu vejo essas coisas.
Então aí eu percebi, quando eu tive essa parceria com a RUMO, com a Sílvia, falei: -” Sílvia, a gente tem que pensar”.
Foi cinco anos de processo pra chegar no momento de hoje, não foi um negócio que ela chegou aqui, passou aqui e falou:
- “Vamos fazer isso aqui hoje”, não foi assim, foi processo, foi briga, foi tapa na mesa, foi: - “Ah, vocês é omisso, vocês não sei o quê”, - “Mas vocês tem que fazer assim”.
Então, teve toda essa briga pra chegar nesse processo de hoje, e não é por causa de 1, por 2 ou 3, quem vai perder, não vou perder nada, não vou perder nada, (vou) deixar bem claro, quem tá junto, vai tá junto, quem não quiser, deixa nós trabalhar e sai mesmo, só deixa a gente trabalhar, não fica jogando areia no sonho das pessoas, porque, querendo ou não, é a comunidade, cara, pensa na comunidade.
Porque, no caso, se fosse ao contrário, eu ficaria feliz, eu não ficaria triste, não, só vejo o pessoal fazendo o trabalhinho, agora eu vejo, infelizmente, todo mundo que está no mesmo processo que a gente ainda.
P/1 - Andinho a gente tá indo pro fim. E aí eu fico aqui pensando, o menino que cresceu lá nas palafitas e hoje é esse líder comunitário, com toda essa referência que você é. O que que passa pela sua cabeça? Como é que você se sente?
R - Eu me sinto orgulhoso, de verdade mesmo, bem orgulhoso porque passar o que a gente passou, ver tudo o que a gente viu, sentir o que a gente sentiu, é bem difícil e não ter me perdido... Tinha tudo pra ir, eu tinha tudo pra se perder nesse meio, nesse caminho doido da vida da gente.
E eu me sinto muito orgulhoso desse Andinho que se tornou no dia de hoje, eu posso falar pra vocês, eu tenho um orgulho do caramba de mim, tenho por que eu sei o que eu passei pra chegar no momento que eu cheguei.
Ninguém pegou na minha mão, não, ninguém pegou na minha mão e falou assim: - “vai lá não, filho”.
Eu só vi as pessoas indo, e eu queria ser e fui procurando os caminhos, fui procurando o momento, ninguém me decretou nada, não fiquei seguindo caminhão de lixo, não fiquei seguindo caminhão de esgoto, tapando buraco em rua, não fiquei fazendo isso para ser reconhecido, foi tudo através de luta mesmo.
Então, para mim, eu me sinto muito orgulhoso, meu pai não é líder comunitário, minha mãe não é líder comunitária, não é líder de nada, ela foi líder de casa, forjou a gente dentro de casa, não tinha nenhum tipo de motivo pra eu ser o que eu faço hoje, eu não tinha. Eu não tinha um espelho assim em casa, então eu me sinto muito orgulhoso porque a vida foi me encaminhando pra essas coisas, vai te conduzindo, e foi tudo do nada, sabe? Ninguém chegou assim e falou: - “Vamos fazer isso, Andinho? Vamos fazer aquilo, Andinho?”. Não teve essa conexão com as pessoas, então, eu me sinto bem orgulhoso de mim mesmo por conta disso. Vejo meu filho hoje criado, vejo um caminho certo, super educado, trata todo mundo bem, tem um medo de mim? ele tem, mas é normal, eu não tinha medo do meu pai, não. Meu pai é baixinho, não botava medo em mim, não, mas eu não tinha medo do meu pai, não. Então, de verdade mesmo, eu sinto bem orgulhoso das coisas que eu conquistei, do estudo que eu fui estudar também, do trabalho, das coisas que eu tô almejando ainda pro futuro ainda, porque ainda tô com 35 anos, então eu posso ainda chegar ainda e alguns caminhos ainda que eu tenho que percorrer ainda. Mas hoje eu gosto muito dessa comunidade, sabe? Essa favela aqui é o que me deu tudo, me deu reconhecimento, me deu... Muitas pessoas me conhecem por causa dessa comunidade aqui.
P/1 - É aqui que você quer fazer sua história?
R - É aqui que eu quero fazer a história, eu não digo que vou morrer aqui, né? Porque a gente sabe, todo mundo, né?
Vai chegar o momento que a gente vai querer também alçar outros voos também, mas se a gente deixa também coisas boas, referências boas, sabe? De projetos, de pessoas, eu acho que o maior, o melhor caminho da gente, a melhor riqueza da gente não é quando a gente realiza, eu acho que qualquer líder, né?
Não é quando a gente realiza um sonho nosso pessoal, sabe? É quando a gente vê um sonho coletivo, ver pessoas ali que estavam ociosas, que estavam sem tempo pra nada, que estavam sem expectativa de vida, então fui ali, pegou na mão, igual alguns exemplos que a gente puxou aí. Foi ali, puxou na mão das pessoas, falou, vamos junto, meu irmão, vamos, vai dar bom.
P/1 - Você é um homem de esperança?
R - Muito. Muito. Eu tenho esperança de que eu vou ver esse bairro aqui bom. Vai dar bom, vocês vão ver daqui uns 10 anos, quando vocês voltarem aqui um dia, vocês vão ver que isso aqui não vai estar dessa forma, não. Vai estar totalmente mudado, porque essa molecada de hoje em dia, esses líderes de hoje em dia, o Luciano, o Valtinho, enfim...
O Valtinho foi um deles mesmo, chegou na minha mão: - “Valtinho, segura na minha mão, vamos juntos, meu irmão”. Ele tá comigo até... Tá comigo aí, tem um tempo já. E tá dando bom tudo com ele, graças a Deus, a gente vê a evolução do cara, da onde ele saiu, da onde ele passou, da onde ele chegou, da onde ele tá vindo.
Meu irmão, quando a gente vê esses exemplos de pessoas se forjando, eu acho que isso que é importante pra nós, sabe? Porque é difícil, meu.
Porque é muito “tamo junto”, né? “Tamo junto”, “tamo junto”, “tamo junto”, mas se o cara tiver oportunidade, ele chega primeiro, deixa você pra trás, então não, meu. Pô, não “tamo todos juntos”? Vamos juntos, então, mas não é assim que funciona. Talvez as pessoas não tenham o meu objetivo que você.
P/1 - Qual é o seu maior aprendizado sendo filho da vila?
R - Eu acho que aqui o aprendizado que a gente tem é viver o que a gente viveu aqui. O meu aprendizado foi tudo o que eu passei na minha vida, tudo, pra chegar nesse momento de hoje. Tudo. Foi muito difícil, pra chegar nessa evolução. Nessa evolução.
Mas caminhar com algumas pessoas do lado, eu acho que não tem preço nenhum, sabe? De chegar e vir hoje, de ser uma referência do Zumbi hoje, hoje eu chegar e praticamente mandar aqui, se eu quiser usar a sala daqui, eu chego aqui, eu abro e entro: -“ Pega a chave de casa, Andinho, abre lá, fica lá”. É isso, é confiança, eu sou parceiro demais, mesmo que as pessoas não sejam, sabe?
E eu não perco a fé nisso, não, outro dia o pessoal falou assim, Andinho, o fulano tá falando isso, o fulano tá fazendo aquilo, eu falei: “deixa”, eu já fui mais explosivo, eu já fui de chegar e ir para o embate, hoje a gente dá o tempo, a gente espera um pouco, tem paciência, sabe? Eu era muito explosivo, muita coisa, hoje a gente tem paciência para as coisas acontecerem, então a gente já entende que não é só brigando que as coisas acontecem. Talvez você calado, você resolve qualquer problema também.
E foi o que eu passei, acho que eu aprendi mais hoje, que a aprendizagem que eu tenho aqui dentro é ficar mais calado, não querer ir para o embate e fazer a minha parte. Acho que cada um fazendo a sua parte, tudo anda, pode ter 50 líderes aqui dentro, é só cada um fazer a sua parte, se cada um fizer a sua parte, acho que a comunidade ganha, não é eu que vou ganhar nada, talvez eu vou ganhar um pouco de sossego, né? Porque aí eu vou ficar um pouco mais pensando em outros objetivos. Mas aí é... Depende de cada um, cada um faz a sua parte, né? Então, o aprendizado foi uma história que eu passei, sabe? Foi difícil, foi muito difícil. Não é igual aquele pessoal do Nordeste que veio, que passava fome e tal, e tudo, não, mas foi um aprendizado de processo, sabe? Foi vários processos acontecendo, não foi só uma história em si. Ninguém pegou na minha mão, eu gosto de frisar isso, porque ninguém pegou na minha mão e falou: - “Vai, vai ser líder, filho, vai lá”.
Eu não herdei nada de ninguém, eu não herdei nada de ninguém, eu fiz a minha história, eu fiz a minha, e eu espero de verdade, eu quero que outras pessoas façam a deles também, eu quero que uma criança dessa cresça e seja líder.
E eu falo toda festa das crianças, eu falo: - “eu quero que amanhã vocês façam isso aqui”. Porque eu tô ficando velho também, pô, então eu quero que as pessoas façam essas coisas também, que tenham oportunidade também de conhecer um prefeito, de conhecer um vereador, pra cobrar também o que eles têm que cobrar. Porque é muito engraçado, eles vêm cobrar a gente, como a gente fosse o cara que resolve as coisas da cidade. Não, meu irmão. Ademário esteve aqui para dar entrevista para vocês mesmo, ele vai passando na rua, você vê as pessoas acenando, falando com ele e tudo, e eu acho que é isso!
E as pessoas não estão acostumadas a ver isso, sabe? Ver o pessoal do poder público aqui, no bairro, na cidade, conversando com a gente, sentando na mesma mesa que a gente. Tempos atrás, eu chegava num boteco e diziam: - “Nossa, tu fica em boteco?” Meu irmão, eu moro aqui. O pessoal falava isso pra mim, num tempo de sindicato, de comissões de empregados, eu moro aqui. O pessoal não entendia, porque via, pensava que a gente estava, como eles viam você como referência, como pessoas que estavam ali, pensavam que a gente era uma estrela, um popstar, um político. Eu moro aqui, eu morava no Beco, minha casa, a metade estava na palafita e a metade estava fora, e a metade estava fora. Então eu tinha essa situação, eu morava na palafita e estava lá lutando pelos outros.
Mas eu estava resolvendo a vida dos outros e estava esquecendo da minha, tem muito líder que é assim. Tem muitos que não viveu, que não conseguem ter nada deles ainda, não conseguiu viver nada ainda, não viveu um terço da vida deles ainda. Então é uma das coisas que eu acho que ficou de aprendizado é esse, a gente tem que pensar na gente também. Não pensar.
P/1 - E isso me leva para o começo da nossa conversa, acho que não estava nem gravando ainda quando você disse. É muito tranquilo para mim falar bem dos outros, do trabalho dos outros, mas é difícil reconhecer o meu, falar de mim mesmo. E aí, depois de duas horas falando sobre o seu trabalho?
R - A gente, quando fala da vida dos outros, eu acho que reconhecer o trabalho dos outros é muito mais fácil, né? Mas depois que a gente vê essa trajetória de conversa, a gente vê que é diferente também, que a nossa também é bonita. A gente não vê muito... A gente não veio do nada também.
Acho que reconhecer um pouco da nossa história é bacana. Acho que mudei um pouco da minha concepção do começo para agora, porque às vezes a gente elogia gente que não sofreu nenhum terço do que a gente passou, sabe? E a gente começa a reconhecer agora que a nossa também vale a pena, valeu a pena a gente chegar onde a gente tá chegando, a gente ainda vai chegar, que ainda tem uma lenha pra queimar ainda.
Porque eu vejo o Zumbi com quase 60 anos aí, lutando ainda, fazendo a parte dele, e eu com 35, eu vou desistir agora, por quê? Pra gente dar uma... esperar o melhor momento, e as coisas tão caminhando, tá acontecendo.
O Andinho lá de trás já não é o mesmo de hoje, e não vou ser o mesmo amanhã também, acho que as coisas, tudo é um processo, tudo vai mudando e reconhecer um pouco do que a gente faz é importante. Eu acho que isso é muito importante.
P/1 - Tem alguma história que você não contou, que você gostaria de contar para deixar documentado?
R - Acho que a história da comissão, foi uma que eu queria passar, ela é muito importante para mim, foi um lugar de reconhecimento. Foi um tempo muito bom, um tempo de luta, tempo de sofrimento também.
A dor da minha infância lá... ajudando as senhorinhas a dar com água dentro da comunidade, acho que foi uma passagem que a gente passou, é lindo também, as festinhas das crianças, Natal, incêndios também, que a gente viu diversos aqui dentro, acho que foi uma das dificuldades que a gente passou muito, aqui foi com incêndios também.
Os incêndios, só eu aqui participei de muitos e é muito louco também quando a gente participa de enfrentamento de incêndio aqui dentro da comunidade. Porque você vê a grande importância da união das pessoas, você vê gente saindo do nada. do nada, tu olha assim, o incêndio começou, tu tá vendo assim do nada, tá sozinho ali, só você e a família ali, tu olha pro lado, já tem todo mundo chegando, e o cara vai puxando a mangueira ali, o outro vai pegando um balde e vai jogando, e aí vai.
O último que teve, eu fui subir no telhado, tomei um capote do telhado, caí no chão pra ajudar as pessoas, tem essas coisas, mas dizer o que? É o instinto na hora da... na hora da pressão, e eu gosto de usar um pouco desse termo do incêndio, porque o incêndio mostra a força de uma comunidade.
O incêndio mostra muito do que é realmente uma comunidade, às vezes as pessoas falam que os vizinhos se odeiam, mas manda pegar fogo no barraco ali, que pode pegar no barraco dele e passar pro outro, passar pro outro pra você ver se rapidinho não começam a se ajudar ali, porque tem o objetivo também de não chegar no dele, de não chegar no dele, né? E aí naquele momento a pessoa guarda as coisas do outro no barraco vazio, cara, é bem triste, mas essa força que eles mostram durante esse processo do incêndio é incrível, é incrível, e aí foi onde a gente começou a liderança comunitária minha aqui dentro da Vida de Esperança, que foi através de incêndios mesmo.
Enchentes foram muitas também, mas de incêndio a gente pega muito que é mais pelas vidas, né? Muitas pessoas que também se foram nesse processo, nesse mundo, e a gente respeita toda a história de qualquer líder antigo, mas a gente quer fazer a nossa parte também, né? A gente não chegou agora também.
P/1 - Você quer, né?
R - Eu quero fazer a minha história também, a minha história eu vou ter. Eu não tenho essa. Respeito todas as histórias, respeito todas as pessoas, mas tu vai respeitar a minha também, irmão, vai respeitar a minha também, que eu não cheguei…
E quando a gente faz um documentário desse, a gente começa a ver de tantas coisas que a gente fez também! de tantas pessoas que a gente ajudou, de tanto processo que a gente passou, então eu respeito a história de qualquer um, mas tu vai respeitar a minha, meu, vai respeitar a minha porque eu não cheguei agora, não…
Enquanto muitos estavam dormindo na sua casa, estavam vivendo a sua vida normal, a gente estava bagunçando um pouco a vida de muita gente também pra chegar nesse momento de agora, para chegar às pessoas estando empregadas, para chegar nessa comunidade, (e ter) as pessoas (que) vêm aqui toda semana recolher um lixo, tampar um buraco, por eles em si, por si, as pessoas passam aqui, vão lá, e agora eles mesmo fazem valer o poder deles.
É dificultoso? Claro que é! O poder público nunca vai fechar, a conta nunca vai fechar, vai continuar faltando médico, vai continuar faltando professor, vai continuar a criança fora da creche. Vai ter sempre isso aí, porque, infelizmente, o poder público é assim, é horroroso, em qualquer lugar, isso em qualquer lugar, nunca fecha essa conta.
Então sempre vai ter alguém ali pra estar brigando, sempre vai ter um líder ali, uma liderança ali, de referência, pra você estar constando. E não precisa ser presidente do bairro, precisa ser o Nem, que pegava as crianças, batia na porta, chamava as crianças, aí vamos dar uma volta aqui, vamos todo mundo pro campo de futebol jogar bola lá, quem perder vai ficar de fora, então já bota você pra ganhar, já faz você ganhar, já é o “bico seco”, então é bem assim. É isso que a gente começa a ver no processo de uma entrevista dessa, a gente vê pessoas que forjou a nossa vida e em nenhum momento se falava que era liderança. Só que pra mim era uma referência e era uma liderança também, e era uma liderança também.
A gente vê pessoas que faziam um pouco, igual a tia Sandra, que toda vez pegava uma mesinha, colocava lá, fazia um bolo e dava pras pessoas na rua, e a gente estava junto com ela, ajudando ela, varrendo o chão, colocando a bexiga o em volta, e numa festinha de criança. Então, tinha pessoas que a gente leva como referência, porque queria fazer, tinha a vida dela, tinha tudo para ficar só na dela ali, a família deles, mas não.
P/1 - E hoje você é uma pessoa que deixa referência para outras.
R - E para outras pessoas, e eu acho mó bacana, porque a gente vê, quando a gente vê o jovem vindo conversar com a gente, perguntando sobre cursos, sobre faculdade. A gente vê uma criança perguntando: - Tio, quando vai ser a próxima festa das crianças?
Eu falo: -”Tá estudando? Fala pra mim que tá estudando que eu converso com você.” - “Não, tô, tô”
- “Como tá na escola?”
Então você começa a ter um vínculo, sabe? Quando você vê uma mãe vindo te dar parabéns, vindo falar: - “vocês são muito bons”.
Então esse é o tipo de reconhecimento que a gente leva em qualquer evento. Qualquer evento, a gente faz evento aqui pra cobrar água da Sabesp, a gente faz evento aqui pra cobrar explicação da CDHU, porque até agora não fizeram reunião com a comunidade ainda?
A gente faz evento aqui só de cobrança também, é muitos, a gente faz evento pra saber como que tá o processo de urbanização, a gente faz evento pra saber como que tá a prestação. A gente quer saber de tudo, só que é bem dificultoso, mas é aquele negócio, né? Você vai vai jogando água na pedra, vai chegar uma hora que vai passar, eles abriram para a gente, não vai abrir agora por quê?
P/1 - Posso fazer a minha última pergunta e a gente acaba?
R - Pode.
P/1 - Eu sei que o seu sonho, como líder comunitário, é um sonho coletivo, mas eu sei que você é um sujeito. Qual é o teu sonho?
R - O meu sonho é ver o meu filho formado, o meu filho bem, construir algo com a família, [sobreposição] Cara, eu conquistei tantas coisas, tipo assim, de onde eu saí, sabe? Eu tô vivendo um dia de cada vez, para não embaralhar as coisas, né? Porque eu acho que quando a gente faz muita coisa, eu percebi isso lá atrás, quando eu sonhei em ser advogado, fazer alguma coisa... E aí a vida veio, trouxe o João pra mim, eu entendi que não era o momento. Aí eu fui fazer as Comissões de Empregados, depois eu fui ser aqui, depois eu estava no sindicato, depois eu fui parar na prefeitura do nada lá, fui parar na prefeitura. Então a gente vai embaralhando muitas coisas, a gente não consegue focar numa coisa só, numa coisa só.
Mas o meu sonho é mais ser essa referência mesmo, continuar sendo essa referência, continuar sendo eu, conquistar algumas coisas ainda que faltam na nossa vida ainda, né? Pra mim, uma casa pra minha mãe, uns negócios legais assim, é mais essas... tirar minha mãe daqui, eu acho que minha mãe já tá na hora de sair, logo, logo eu já tô fazendo isso, tá?
Então eu tô vivendo um pouco mais desse lado meu que eu sonhei lá atrás, que era dar uma vida melhor pra minha mãe, então eu tô nessa... nessa realização um pouco ainda, então conquistar algumas coisas, né?
Pô... Depois que a gente consegue aprender a importância do CNPJ, a gente consegue já andar de outras formas, a gente vai fazer outros cursos, a gente vai caminhar, não adianta a gente pensar que... E o que eu acho legal é que as pessoas às vezes não sabem disso, né? Do processo que a gente passou lá atrás, só vê o teu carro que tu tá andando hoje, só vê a tua moto que tu tá andando, onde você tá morando, mas não sabe do processo, não sabe da vida, né?
Por exemplo, vocês foram entrevistar o Luciano lá agora, numa casa de piscina dele, meu irmão, aquilo era a realização do cara, cara. E eu acho da hora aquilo ali, porque eu vi o cara do zero, com a mesma idade que eu, criado junto, nós fomos criados juntos, então eu acho que isso é bacana, acho que isso é uma realização da vida da gente, sabe? Saber de onde nós saiu, onde a gente tá e onde a gente quer chegar. A gente quer chegar em algum lugar ainda, não importa que seja aqui ou que seja em outro lugar, mas a gente quer chegar em algum ponto.
E não é questão de... nem é questão... A pessoa pensa que o líder comunitário quer ser político… nem um pouco, nem um pouco, a gente quer continuar ajudando pessoas, quer ajudar fazendo as coisas, e o legal de você não querer ser político é que você consegue navegar em todos os barcos.
O vereador tal tá falando mal e eu: “Eu tô contigo também, cara”.
O Vereador daqui tá falando mal, eu: - “E eu tô contigo também”.
E você consegue navegar em todos os territórios, tranquilo, tranquilo, porque pra mim o importante é ajudar a comunidade, o líder tem que pensar na comunidade, eu não vou ficar pensando em mim. Se o vereador tal tá chegando, o que eu fico vendo aqui na comunidade, eu acho que é um processo que tem que evoluir muito, acho que é essa briga de questões políticas, sabe? Eu acho que é uma coisa que eles têm que evoluir muito, as pessoas têm que evoluir muito, tem que entender que uma pessoa só, não vai alcançar todos os objetivos aqui sozinho… Não vai alcançar, é impossível, é impossível de tudo o que eu vivi até hoje, eu tenho certeza, e mato: - Uma pessoa (só) não vai fazer nada…
P/1 - Você tem certeza da força do coletivo?
R - Do coletivo
R - …Não vai fazer diferença em nada, então não adianta você estar arrumando confusão com um, arrumando confusão com outro, com outro, com outro, que não vai sair nada, vai nenhum, a comunidade vai perder. As pessoas vão perder. As oportunidades que podem vir, vocês vão perder.
A empresa RUMO, pra mim, é uma prova disso, estavam aqui, parados, do nada, do nada, eles tinham se afastado da gente e eu botei na minha cabeça que ia atrás deles, botei na minha cabeça que ia atrás deles.
Tinha uma oportunidade de dar na prefeitura e “trombei” com eles lá, do nada, meia hora conversando com o rapaz, consegui trazer ele pra dentro da comunidade comigo, há 5 anos atrás, olha o que estão vivendo aqui agora? olha o tanto de coisa aqui dentro dessa comunidade, cara.
Eu posso bater no meu peito e falar que isso fui eu. Porque eu participei desse processo. Eu tava lá, quando ninguém queria chegar perto, eu falei: “Eu vou estar com vocês, vem comigo”.[falha no áudio] ajudou pro Luciano.
Eu tava lá nesse processo. E é gratificante quando você vê os jovens aqui fazendo sua qualificação, quando você vê as crianças jogando futebol, quando você vê o pessoal da (Organização) Gerando Falcões aqui no bairro, trabalhando, andando pra tudo que é lado, fazendo um monte de coisa, conversando com a população.
É gratificante, você pega uma Elos (Instituto Elos) que tá ali: - “Vamos reformar essa pracinha todo mundo junto”, e a gente sabe que tudo isso veio do projeto da gente, pessoal, eu posso falar que isso é uma luta minha mesmo, eu não tenho nenhum tipo de ego para quem falar isso não. E não é ego não, porque eu participei das reuniões, enquanto tinha gente correndo, eu estava lá e quando eu disse, posso andar, eu vou estar com vocês, vamos lá. Eu estava lá, meu.
E quando eu vejo essas pessoas aí hoje, todo mundo, acontecendo dentro da comunidade, esse mix de pessoas andando, de projeto social, de pessoas sendo realmente impactadas com esses projetos, como uma criancinha que estava em casa, só no telefone, hoje está aqui jogando futebol. Ou uma pessoa que ninguém, que nenhum agente de saúde batia na porta, bate lá, e tem alguém do Decolagem (Projeto da organização Gerando Falcões) batendo na porta das pessoas lá, conversando com a gente, conversando com a família. Pô, isso é muito importante, meu, isso é muito importante, porque eles se sentem abraçados. Porque às vezes não vai ninguém lá na porta dessa palafita.
Os caras estão lá na palafita, batendo na palafita, conversando com as pessoas, meu. E eu não consigo estar em todas as portas de palafita batendo, mas eles conseguem, com todo mundo junto, nós consegue. Eles estão lá, então, quando eu vejo esse pessoal se reunindo e falando : “pô, vamos melhorar, vamos melhorar essa praça aqui”. Eu acho legal isso, cara, isso é bacana. E eu participei de um por um, então, eu posso contar a história de tudo aqui, porque eu participei.
E como eu vejo vocês aqui hoje também aqui, entrevistando a gente, para contar um pouco dessas histórias, a gente vê que isso valeu a pena, isso é um objetivo. Acho que é um passo de cada vez.
A questão do sonho, eu não gosto de falar muito de sonho, porque sonho é objetivo. Daqui a pouco tu realiza e acaba, aí tu fica jogado: - Pô, eu tô sem expectativa de vida! Então eu prefiro estar conquistando uma coisinha, depois eu vou conquistar outra, depois eu vou conquistar outra, porque o sonho fica muito... Eu tinha o sonho de ter uma faculdade, do nada eu tenho duas agora, eu vou fazer o quê? Eu vou parar de sonhar? Então vou continuar evoluindo, vou continuar fazendo as coisas caminharem da minha forma que eu acho que está certa também.
Mas é claro, respeitando as pessoas, respeitando a história de vida das pessoas, porque respeitar a história das pessoas para mim é primordial, eu acho que esse projeto de vocês é fantástico, porque respeitar, você saber da história, você não sabe talvez do processo, você vê a pessoa só hoje pelo cargo que ela exerce, pela função que ela é, mas você não sabe do processo que ela passou.
P/1 - É interessante pensar que essa história que a gente teve aqui agora, vai ficar documentada, as pessoas vão ter acesso a isso.
R - Isso é bacana.
P/1 - Seu filho vai ter acesso a isso, de repente um neto no futuro.
R - Isso eu acho muito primordial, e tenho pena de pessoas que não querem participar de um projeto desse. De verdade, eu tenho pena. Porque a gente contar um pouco da história da gente, até mesmo de uma forma ou de outra, tenta impactar um pouco a vida de outras pessoas aí. Você pode ser espelho pra muita gente ainda, você querendo ou não querendo, você vai ser um espelho pra muita gente ainda, porque na hora que eu estou em um palco ali na parede das crianças, com mais de 1.000 crianças me olhando, a mãe, pai, todo mundo ali me esperando, meu irmão, eu não consigo ver todo mundo, mas todo mundo está me vendo, todo mundo está me vendo, e eu acho que isso que é muito bacana, porque de uma forma ou de outra as pessoas vão lembrar de você, e você tem poder, você vai para o lado bom ou para o lado ruim, graças a Deus, eu estou escolhendo o lado bom, mesmo sabendo que é difícil, que é árduo, que não é legal, que vai ser julgado por muita gente, que as pessoas apontam o dedo, tentam destruir a tua história a qualquer momento. Mesmo sabendo tudo isso, a gente ainda acha muito importante e eu acho legal.
P/1 - Eu te agradeço muito, viu Andinho.
R - Obrigado por contar essa história.
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