Projeto Memórias de Vila Nova Esperança
Entrevista de Alfredo de Sousa Silva (Cabeça)
entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 28 de outubro de 2025
Entrevista MV_HV0010
Transcrito por: Miriam Allodi
Revisado por: Nataniel Torres
R - Meu nome é Alfredo de Sousa Silva, nascido em João Alfredo, Pernambuco. Nasci dia 05 do doze de 1969.
P/1 - Qual é a cidade?
R - João Alfredo Pernambuco.
P/1 - E de onde vem teu apelido “Cabeça”?
R - Cabeça já foi aqui. Depois de um tempo que cheguei, em cada bairro onde morei eu ganhei um apelido. Quando morei na Vila Natal, era “Capacete”, porque eu trabalhava na área industrial e o pessoal falava que eu era um menino da cabeça meio... (risos). Aí pegaram esse nome. Depois vim pra Vila Esperança, montei o bar e fiquei procurando um nome melhor. Achei que “Cabeças Bar” seria um nome bem decente - e aí pegou.
P/1 - E quando você era pequenininho, você tinha algum apelido?
R - Na infância, não lembro, não. Era sempre criado pelos pais ali com as crianças junto, era Alfredo mesmo, sempre Alfredo. Aqui, pouca gente me conhece como Alfredo. Só vieram saber depois do comércio, porque na máquina de cartão aparece o nome Alfredo. Aí vieram os entregadores, perguntando pelo Bar do Alfredo - porque que sai na nota fiscal, As pessoas “Alfredo?!” Pouca gente entende quem é Alfredo, agora, o “Cabeças” todo mundo sabe o é o Cabeças Bar.
P/1 - O seu nome Alfredo é em homenagem à cidade em que você nasceu?
R - Olha, meu avô era Alfredo e a cidade de João Alfredo. Eu acho que juntou isso aí. Veio já de lá de baixo, né? Dos velhos, do meu avô...
P/1 - Contaram quando você nasceu, como estava a vida dos seus pais? Como foi o parto da sua mãe?
R - Sempre contaram, porque graças a Deus são 10 irmãos, eram 14 e tem 10 vivos. Aqui em Cubatão moram 7, na Vila Esperança moram 6, e 1 mora lá no 31 de março mais no centro da cidade, mas...
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Entrevista de Alfredo de Sousa Silva (Cabeça)
entrevistado por Lígia Scalise (P/1) e Nataniel Torres (P/2)
Cubatão, 28 de outubro de 2025
Entrevista MV_HV0010
Transcrito por: Miriam Allodi
Revisado por: Nataniel Torres
R - Meu nome é Alfredo de Sousa Silva, nascido em João Alfredo, Pernambuco. Nasci dia 05 do doze de 1969.
P/1 - Qual é a cidade?
R - João Alfredo Pernambuco.
P/1 - E de onde vem teu apelido “Cabeça”?
R - Cabeça já foi aqui. Depois de um tempo que cheguei, em cada bairro onde morei eu ganhei um apelido. Quando morei na Vila Natal, era “Capacete”, porque eu trabalhava na área industrial e o pessoal falava que eu era um menino da cabeça meio... (risos). Aí pegaram esse nome. Depois vim pra Vila Esperança, montei o bar e fiquei procurando um nome melhor. Achei que “Cabeças Bar” seria um nome bem decente - e aí pegou.
P/1 - E quando você era pequenininho, você tinha algum apelido?
R - Na infância, não lembro, não. Era sempre criado pelos pais ali com as crianças junto, era Alfredo mesmo, sempre Alfredo. Aqui, pouca gente me conhece como Alfredo. Só vieram saber depois do comércio, porque na máquina de cartão aparece o nome Alfredo. Aí vieram os entregadores, perguntando pelo Bar do Alfredo - porque que sai na nota fiscal, As pessoas “Alfredo?!” Pouca gente entende quem é Alfredo, agora, o “Cabeças” todo mundo sabe o é o Cabeças Bar.
P/1 - O seu nome Alfredo é em homenagem à cidade em que você nasceu?
R - Olha, meu avô era Alfredo e a cidade de João Alfredo. Eu acho que juntou isso aí. Veio já de lá de baixo, né? Dos velhos, do meu avô...
P/1 - Contaram quando você nasceu, como estava a vida dos seus pais? Como foi o parto da sua mãe?
R - Sempre contaram, porque graças a Deus são 10 irmãos, eram 14 e tem 10 vivos. Aqui em Cubatão moram 7, na Vila Esperança moram 6, e 1 mora lá no 31 de março mais no centro da cidade, mas morávamos aqui. Hoje é dez irmãos, vivos aí batalhando, trabalhando muito na vida.
P/1 - E desses 10 irmãos, qual é a tua posição? O primeiro é o mais velho?
R - Eu sou o segundo. Tenho o meu irmão mais velho e eu. E para vir para aqui, a vinda para cá foi legal.
P/1 - Antes de vir para cá, volta lá na infância. Como era a casa que você cresceu?
R - A nossa casa era uma casinha de taipa, feita de tijolinho e barro, bem humilde. Meu pai ali com a gente... A gente, sendo os mais velhos, trabalhava para ajudar (a criar) os outros irmãos. A vida, a gente não passava fome, mas era uma vida sofrida, porque passar fome é quando não tem o que comer; mas tinha arroz, um feijão, uma farofa...
Eu falo pra você e pra o Brasil todo, “não foi fácil, não”, era muita criança numa casa - 10 pessoas juntas ali, fora o pai e mãe, era dividindo: - o mais novo ia comendo e os mais velhos esperando... Não era fácil não, nossa vida era assim.
P/1 - Como que era a casa? Tinha quarto para todos os irmãos, o quarto dos pais?
R - Não, não era... era rede, pouca caminha e muita rede, no Nordeste, naquela época, era rede no quarto, cada quartinho daqueles tinha 4, 5 pessoas ali dentro, na rede armada e amarrada na madeira mesmo. Por exemplo, hoje, aquilo que eu vejo aqui atrás, nos barracos: - tem barraco que mora uma família com 5, 6 pessoas, sabe o que é a dificuldade? Eu sei o que é isso, porque eu já passei lá atrás, na minha infância, a seus 40 a 50 anos atrás, eu passei isso aí, e eu vejo (a mesma coisa) hoje aqui, morando em São Paulo uma situação que eu já passei lá atrás.
P/1 - Era Sertão lá em Pernambuco?
R - Isso era sertão, sertão, sertão. A gente fala João Alfredo, a cidade que você nasceu, mas nós morava no sítio, no interior, até o nome do sítio que eu morava. Olho d'Água Cercado, é o nome do sítio onde minha mãe até hoje mora, no mesmo local, tá lá, lá tem 3 irmãos e minha mãe. Minha mãe fez agora 81 anos, foi agora, em julho, dia 7 de julho, 81 anos. E eu sou um filho assim, a gente está aqui, mas estou sempre assim: - Pega um voo, vai e volta, vai lá visitar ela...
P/1- Como ela chama?
R - Josefa Barbosa de Souza
P/1 - Como é? Dona Josefa?
R - Dona Josefa é uma mãezona, (quando) a gente chega lá, e o sonho dela é ver os filhos. E sempre está um ou outro filho com ela. Agora, fim de ano mesmo, o mais velho, - que é o cacique da família, a gente fala o cacique porque é o que manda em tudo, mas um respeitando o outro. Nós somos 7 irmãos unidos, os de lá, cuidando da véia (velha) lá é nóis daqui, cuidando, fazendo aquela...
P/1 - Que é a dona Josefa, a cara dela.
R - Vixe Maria. É top, é mãezona. Me arrepio todinho quando eu vou lá. Quando eu vou lá, eu tenho uma vida corrida, eu vou lá, fico 3 dias, vou lá, fico 4 dias, aí o pessoal reclama: “mas tu vem para aqui fazer 4 dias? Eu falo: “a melhor viagem que eu vi foi essa, fiquei na minha mãe, visitei minha mãe…”
O ano passado eu fui no aniversário dela, eu cheguei lá véspera do aniversário dela, já tinha festa, aquele monte de neto, filho, e eu peguei um voo aqui, eu fui e voltei, e tinha (gente) da própria família que descobriu que eu estava lá na festa, (depois) ela viu as fotos, “Oxe! o Alfredo tá lá?” Os próprios irmãos: ”Alfredo tá lá?“
P/1 - Ela é baixinha, é alta?
R - Ela é altona e preparada, minha mãe é preparada! Grandona e top, mãezona mesmo.
P/1 - E ela, quando você era criança, ela era uma mãe brava?
R - Sempre brava, sempre brava. Mamãe sempre braba, mas mãezona, hein? Não era muito de bater, não era puxar foi ordem. E a gente voltando da minha mãe, meu pai. Perdi meu pai muito novo num acidente de carro. Quando eu vim de lá pra cá, eu vim para aqui em julho de 1988, eu estava aqui e menos de um ano já estava aqui, meu pai faleceu num acidente de carro.
P/1 - Chamado.
R - José Severino da Silva. Ele foi, a gente plantava o plantio de tomate, pimentão, apanhava um carro, uma Toyota, daquela que é mais ferro e lona, aí eles saem do interior, foi para Recife, e quando estava voltando porque vendeu as coisas, ele faleceu num acidente de carro.
P/1 - Ele tava dirigindo?
R - Não o Carro fretado, vinha ele e mais outro pessoal... morreram, acho que foram 3, e 1 perdeu um braço, perdeu porque esses carros é só lona e ferro, ele deu uma capotada lá... E eu aqui, e aquela tristeza... quando a gente soube foi um susto, eu já estava trabalhando na empresa, nem telefone (a gente tinha). A empresa que pegou (recebeu) a ligação (de um) familiar, que ligou para a empresa, e o (setor) administrativo, (como) se chama hoje, antigamente era apontador, aqueles caras que trabalham na obra e que saem para pegar o nome, me procurou e me chamou, me levaram lá pro escritório. - Eu até pensei - “será que eu vão me mandar embora, uma segunda ficha” que eu tinha fichado já.
Aí foi para contar uma história triste: - “Ó, chegou no telefone (a notícia de) que seu pai morreu”. O que é que nós faz? Naquela época, ninguém viajava de avião, não sabia nem o que era isso, a gente era novo, moleque novo... Perdi meu pai, foi uma tristeza, muito... Aí ficou 10 irmãos, e tem meu irmão mais velho, aí me liberaram, eu juntei com outro meu irmão, só estávamos eu e ele aqui nessa época, o mais velho.
Aí como é que nós fazemos para ir? Não tem como ir, porque de ônibus, ia chegar lá já tinha... (depois do enterro), de avião nós não tinha nem (possibilidade)... Você sabe, há 50 anos atrás, 40 e poucos anos atrás, 30 anos.
P/1 - Quando foi que ele morreu?
R - Rapaz, foi em 88, eu vim para aqui em 1988, 89. Foi 1989, tinha quase 1 ano, menos de 1 ano que eu tinha chegado. Ele faleceu nesse acidente, foi uma perda bem grande,
P/1 - Como ele era Cabeça?
R - Meu pai grandão, magrelão... Era a base, você perder seu pai... Esse meu irmão que veio para cá, ele estava aqui há 2 anos. Ai, ele falou: “não, tu vai vir para aqui, já estou arrumando um emprego”. Um irmão vem aí e vai trazendo os outros. Esse mais velho veio e aí me trouxe. Aí eu fico aqui; aí depois, os que iam ficando “de maior”, nós íamos trazendo. Aí hoje, estão tudo morando em Cubatão, 7 aqui, e é uma sequência, - O mais velho veio e vai trazendo, vai trazendo os irmãos. Eu fico pensando assim, a vida de lá para cá é complicada, é sofrida.
P/1 - Quando você era criança? Como você era? Você era uma criança de que jeito?
R - Bem presepeiro, gostava de trabalhar, tu acredita? Eu comecei a trabalhar, eu lembro a idade, eu acho que eu com 5 anos, já pegava a enxada, ia trabalhar mais meu pai, eu fui um cara que eu sempre tive meu objetivo de correr atrás do que eu quero, é trabalhar mesmo.
Hoje eu não paro. Os meus amigos falam para mim “Ô Cabeça, tu não para!” - Às 2h eu estou na rua, fecho aqui... tem dia que eu fecho 2h ou 3h da manhã e no outro dia, 9h eu já estou aqui, minha vida é trabalho...
P/1- Gosta de trabalhar?
R - Minha vida é trabalho, não para.
P/1 - Então quando você era criança você queria ajudar seu pai lá na roça?
R - Roça. Na roça. E chegou a época que lá... eu não sei nem que palavra é essa: - Trabalhar alugado, alugado é você trabalhar para o próximo ganhar o dinheiro. E de tanto o pessoal ver...
Tem o preguiçoso e o mais trabalhador, e eu sei, para aquele cara eu nunca parei de trabalhar na vida, aí ia trabalhar para os outros, ganhar um dinheiro. E aí você vai crescendo seus 14, 15 anos e na roça, trabalhando na roça, trabalhando com o pessoal. Aí o cara contratava - “vai trabalhar um dia lá para mim”, eu ia, até que chegou a hora que eu trabalhava fixo para um cara só, ele não deixava eu trabalhar pro outro. Ele pagava um pouquinho a mais do que o outro pagava e eu estava lá, com o cara, sempre trabalhando nesse plantio de tomate, pimentão, alface a gente plantava, colhia e saía de lá nesses carros que eu falei... que coisa... Saía de lá para ir vender na Ceasa em Recife, no centro de Recife.
Aí chegou a época que esse dono levava mercadoria e eu ficava lá vendendo, eu na quarta-feira e voltava na sexta à noite, ficava lá. E olha como a vida era, nós dormia no meio das caixas, a gente levava as coisas para vender, fazia aquele plantio lá e ficava lá, dormindo no meio das caixas. Porque toda Ceasa tem um banheiro, você pode tomar um banho, você pode ficar ali. Aí fazia muito isso, nós dormíamos no meio das caixas.
P/1 - Não era problema?
R - Não. Até hoje se tu vê nessas Ceasa, os caras vêm, você chega, o cara tá lá, não é dormir... Você dá aquele cochilo, um olho no gato e outro no rato pro cara não pegar...
P/1 - Por que você era uma criança presepeira?
R - Porque assim, briguento com o velho... brigava, tem essa não!... Até hoje eu sou o cara, que (outro) cara não desafia não! Mas com respeito! Sem... né? Mas eu falo pro cara: - “O cara estando certo, ele sempre tem a razão.” Eu sempre tento fazer o máximo de não errar, dizer que não erra... Todo mundo erra, mas eu tento fazer o máximo, mas quando a gente conversa, tem uma conversa.
Eu digo presepeiro, porque a gente era aquela molecada na roça, ali, brincando, correndo. Eu vejo os vídeos no YouTube, é mó engraçado, eu lembro da minha infância: pulando naquelas poças d'água que vai brincar naquele monte... Era um monte de primo, rapaz. Na minha casa era 10 e uns grandes e uns pequenos. A outra casa da minha tia era vizinha, era mais uns 10... A vizinha de lá, que até hoje eu vou lá é que nem aquele ditado: “é que nem rato, é criança...”
Quando eu vou lá que faz uma festinha que nem que foi aniversário da minha mãe na casa, é aquele monte de criança... Por isso que eu peguei gosto de criança, eu adoro criança e puxo na orelha! “Tem de estudar. Tem de estudar. Tu estudando tu vai ser alguém na vida.”
Eu pego, aqui mesmo essa semana, no domingo que eu fiz à festa, eu falo: - “educação em primeiro lugar”, aqueles que está muito coisa... Eu chamo eles, se você visse eles me abraçando, me puxando.
(Se) eles começam a brigar lá, vêm me chamar. Até veio uma menina aqui que é da Rumo, veio aqui, eu estava conversando com eles, ela não tinha sossego, ela perguntou ficou ali e disse “Porque essa veio te buscar?” Porque todos me conhecem...
P/1 - E quando você era criança, você foi pra escola e.
R - É que a gente ia pra escola e não estudava. O moleque meio presepeiro é assim: - ele vai, faz aquele... Estuda pouco, estuda pouco. Se não pegar no pé, não tiver aquela pessoa pra pegar no pé, levar...
Hoje está melhor, mas antigamente a gente não tinha nem... Eu vim estudar um pouco aqui em São Paulo, mas vim de lá quase cru.
P/1 - Mas lá você aprendeu a ler e escrever?
R - Aprendi a ler e escrever lá, aí chegou aqui para pegar mais, aí fui para o colégio aqui, trabalhando na área industrial e saindo, porque você vai vendo a vida, você tem de acompanhar o tempo também, né? Hoje em dia, a internet, se você não acompanhar, você vai ficando para trás. Você tem que ir progredindo na vida, não pode parar.
P/1 - Você queria ser o quê?
R - Rapaz, nem sei o quê.
P/1 - Você tinha algum sonho?
R - Meu sonho era ganhar dinheiro. Eu tenho um trabalho para ganhar dinheiro e eu, tu entendeu? Aí agora chegou uma hora que você pensa... Quando eu vim para cá, eu acompanhava os comércios dos outros, eu pegava, aí eu cismei de ser comerciante, montar um negócio pra mim. E eu acho que lá atrás, a gente puxando na memória, era isso que eu queria, porque eu sempre trabalhei com negócios, que nem eu te falei no começo da entrevista: - Eu ia lá vender, ficava lá 2, 3 dias dormindo, porque o dono da mercadoria já confiava em mim, a gente trabalhando na roça ali, ele me punha para ficar lá, tomando de conta das coisas e vendendo, porque tudo tem um preço, A Caixa disso é (custa) isso, a Caixa daquilo é (custa) aquilo.
P/1 - Você está realizando, né?
R - Não entendi.
P/1 - Você tá realizando o que você gostava de fazer!
R - Isso, desde pequeno eu trabalhava na roça, plantando, colhendo e vendendo. Era isso aí, acho que o sonho era esse mesmo... risos
P/1 - Como foi o movimento do seu irmão mais velho vir primeiro, quem convidou ele?
R - Assim, ó. Lá no Nordeste os mais velhos, assim: um compadre do pai, um amigo do pai tá aqui: - “Seu filho, vamos lá para São Paulo para nós ter uma vida melhor, trabalhar e ajudar a sua mãe”. O objetivo do “de lá, pra cá “(ter vindo) é isso aí.
Tem um amigo nosso lá, dos mais velhos, que era (amigo) do meu pai lá, que pegou e trouxe meu irmão mais velho. Aí ele veio para aqui, os outros de menor lá trabalhando, e ele aqui ajudando, ajudando lá (mandando dinheiro).
Aí chegou uma hora, (a comunicação era) era a carta, não tinha negócio de telefone, não, era aquela cartinha. Aí mandava carta, quando ligava, era um orelhãozinho. Nós tínhamos de ir para a cidade, para ligar, para conversar com ele. Aí ele foi me convidando, fiquei de maior, falamos com a minha mãe, aí falamos com meu pai: “vamos trazer o Alfredo para cá”. E aí a minha vinda foi mó legal, legal assim: Vim num ônibus lá, tinha um ônibus clandestino.
P/1 - Você veio com quem?
R - Esse mesmo cara que trouxe meu irmão, o nome dele toda vez que eu vou lá, vou visitar ele, é seu eu Leco de Deca, ele falou: “Não, o filho da comadre aí, eu vou levar, vou levar”, aí para vir para cá, (eu trouxe) aquela mochilinha, uma sacola parecendo um saco, anda meia hora para chegar na pista para pegar o ônibus clandestino do seu Cazuza, era um cara que ele pegava 3 ou 4 ônibus, trazia pra cá, e levava (gente) daqui para lá.
Ele fazia que nem hoje faz daqui para ir para a praia, ele trabalhava só com isso, carregando o pessoal daqui para lá. Hoje, se pegar um ônibus desse, (a fiscalização) até para na pista, mas naquela época era liberado aquele “pau de arara” que nós fala. Teve uma vez que eu saí daqui para ir para casa, fiquei 5 dias de viagem, ele quebrava, arrumava e ia embora, 5 dias na viagem, que é.
P/1 - Mas na vinda foi como?
R - Na vinda foi top! A gente entrava no ônibus e tinha até medo de descer, que esses ônibus que vinha de lá para cá na época, eles não paravam na parada dos ônibus da Itapemirim, São Geraldo, não, tem a rodoviária e ele parava no posto, parava no posto para abastecer, eram dois motoristas, um dormindo na mala e outro dirigindo, mudando, e de lá para cá foi a viagem...
Chegou aqui, dia de chuva, lembro até hoje, dia 5 de julho, cheguei aqui, lá no centro de Cubatão, que esse ônibus vinha pro centro, meu irmão me esperando, quando o ônibus chegou, eu olhei e só estava meu irmão lá, meu irmão não, uma multidão de gente! Porque esse homem aí, ele fazia essa excursão e ele trazia, ele era responsável por aquela pessoa que vinha.
E o meu amigo que veio comigo eu já veio com acompanhante, que me trouxe, que já era daqui, já tinha ido e voltado.
P/1 - E você tinha quantos anos?
R - Na época 18 anos e 3 meses mais ou menos.
P/1 - Estava com documento?
R - É, porque a gente, quando vem de lá pra cá... Hoje as crianças vêm até de menor. Naquela época o cara só vinha para aqui já com 18 anos atrás de serviço, já vinha para trabalhar. Não era você pegar e vir de menor, para a casa de parente, não.
P/1 - E para dar tchau pra essa mãe?
R - E a tristeza era esta, abraçava, até hoje, quando a gente vai lá, que vem embora, é uma tristeza, é uma choradeira, uma choradeira enorme.
P/1 - Você não sabia quando que ia voltar, né?
R - E a volta que é difícil, a gente sai de casa, não sabe a volta. Nesses ônibus aí, nessa vida, porque acontece cada acidente, e o pessoal todo mundo fala, que acidente de ônibus é mais... fala que avião é perigoso... mas perigoso é terra, você sabe, todo mundo sabe, (viajar por) terra é complicado.
P/1 - Como estava seu coração quando você chegou e viu seu irmão?
R - Visse... Aí vi meu irmão, aí você, você chega apagado, não sabe onde está. - Você olha para um lado, olha pro outro, vixe, mas aonde vai? Com aquela bolsa... Aí o irmão já pega a bolsa e vê que o cara chega cansado, (depois de) 3 dias dentro de um busão daquele. Tem medo até de descer pra ir no banheiro, usando aquele banheiro do ônibus que é lavado de.... A gente vem de lá para cá em 3 dias, e o banheiro é lavado 2, 3 vezes só, quando para numa rodoviária, vai lá e o motorista daquela época ia lá, jogava água, ia no posto, já, já conhece o posto que ele parou, ia lá, jogava uma água. Aí você chega, chega para morar num barraquinho. Quantos? Eu e mais 3. A gente entrava assim, e tinha de sair assim, num barraquinho pequeno: 2 beliches, meu irmão, outro amigo aqui e outro aqui, e a minha cama esperando em cima. Barraquinho pequeno, era um beliche assim, um assim, um fogão e uma mesinha para pôr as coisas, só... E o fogão para fazer aquele arroz e aquele feijão quando chegava do serviço.
P/1 - E o banheiro?
R - O banheiro era o barraquinho num beco com um monte de barracos e não era um banheiro para cada barraco, era uma fila de barraco aqui, outra aqui, outra aqui e um banheiro só. E você aluga, que nem o meu irmão, ele alugou o barraco e apanhava os outros colegas para dividir o aluguel para todos, para ficar o precinho suave.
P/1 - E era onde esse barraco?
R - No centro de Cubatão ainda, lá no centro, na rua São Paulo.
P/1 - Na rua São Paulo?
R - A Rua São Paulo, ali do lado Extra (Supermercado), morei ali um monte de tempo.
P/1 - E quando você chegou, você já tinha trabalho?
R - Tinha, eu não fiquei, não fiquei 15 dias... só acertei ali, tirar alguma coisinha que falta (documento) e já fichei e fui trabalhar. Graças a Deus que nem que diz: - nós já vem, já agregado, que já vem com gente, é ruim quando você vem sozinho que não tem ninguém, e vai correr. Mas era uma época boa, era uma época boa, não ficava parado, saía de um emprego, entrava em outro, aqui era muito... Quem fundou São Paulo foi o pessoal de lá, os nordestinos que veio para cá, graças a Deus trabalhamos até hoje, graças a Deus, nunca fui de ficar parado.
P/1 - Você trabalhou com o quê? Quando você chegou?
R - Ajudante de servente, tem ajudante? Porque tem uma ajudante mais agregado e aquele ajudante que tá começando, né? Na época era assim ó, tu vê como é que era o ajudante que já tava velho, ele ia fazer massa pra um pedreiro, fazia outro ajudante que chegava novo, ele ia cavar a vala, que antigamente não era retroescavadeira. Hoje ninguém faz nada. Hoje a escavadeira faz tudo. Naquela época era a enxada e nós ia naquelas madeiras e cavando o buraco. Vamos supor um buraco de dez metros, nós tínhamos de cavar na madeira para depois fazer a base de concreto. Aí já vem o carpinteiro, ali fazendo. Era uma vida mais sofrida também. Aí trabalhei um tempo, mas sempre trabalhando aqui, olhando ali. “Rapaz, eu acho que eu vou correr atrás de uma coisinha melhor”. Aí quando eu vi outra vaguinha de um trabalho melhor, eu mudava e fui trabalhando, aí depois saí fora, fui para o que todo mundo, até hoje o pessoal que trabalha nessa indústria toda por aí, esse pensa muito de trabalhar onde? Na Petrobras, na RPDC, porque a Petrobras, a gente já pensa logo em 30% no salário aumentar, o melhor é isso. Aí, eu fui indo, fui, aí migrei, consegui um amigo: “não vou arrumar vaga para tu lá de ajudante de montagem”. Aí a montagem é bem, já sai da vara e passei para montagem, fui trabalhando de ajudante de solda.
P/1 - Na Petrobras?
R - Na contratada dentro da Petrobras, que não é direto na fábrica é nas contratadas, que faz a manutenção. Aí fui para lá e comecei de ajudante, ali... ajudante de soldador. Pensei em ir pra solda, ser soldador, mas não deu muito na... (porque) batia a hora do almoço, eu ia almoçar, comia rápido, e ia para lá, dar um pingo de solda fazer uma coisa, mas não adaptei na solda não. risos E a solda é bem...
Aí eu fui indo, procurei uma solução e migrei para andaimes, montar andaimes, trabalhar de ajudante, fui para o andaime e rapidinho, o cara viu meu interesse, lá atrás e hoje, você (se você) tem interesse, você dá o passo pra frente, onde quiser.
Com pouco tempo eu no andaime, o cara (falou) “vou te classificar de montador, de andaime.” Eu “Oxe”? Ele: “Ah, de boa.” Dei aquele susto:” será que é mesmo? Encarregado gente boa... até hoje tá vivo, tá com uns probleminhas, de vez em quando eu vou dar uma visitada nele.
Aí o cara falou “vou te por de montador de andaime” e aí me colocou de montador. Fiquei uns 15 anos trabalhando, não só na firma, a gente saindo fichado dentro nas paradas, a parada e aquela firma que vem fazer manutenção, 46 aqui, 5 ali... aí não parei mais, só trabalhando, Deus abençoando.
P/1 - E tô aqui pensando que você chegou num dia de chuva nordestino, numa cidade toda diferente, e aí?
R - Perdido, você chega perdido, você chega... Olha assim (e pergunta) “onde é que eu tô?” Descendo essa serra eu olhava assim... olhando pra serra... até hoje tem gente que vem, tem parente meu visitar aqui, passear e diz “Rapaz, que serra!” Quem vem a primeira vez, assusta. Você não tinha essa (Rodovia) Imigrantes aqui, ali era aquelas curvinhas assim, a gente olhava, e era um susto! E demorei a me adaptar aquilo ali, quando subia (a serra), quando ia nesses ônibus que eu vim, eu voltei várias vezes para lá, fretado, que era um custo bem melhor do que você pegar uma (Viação) São Geraldo, Itapemirim, você tinha de ir para Recife, tinha uma (viação) que passava lá, mas tinha horário... Nós pegávamos esse ônibus fretado e ia.
P/1 - Então ficava indo e voltando pra visitar. Você fez isso? Bastante.
R - Eu fiz. Eu sempre lembro da minha mãe, sempre vou lá visitar minha mãe. Hoje mesmo eu tô aqui, ó, e se der na cabeça até Natal, ano novo, pego o avião e vou. Hoje é fácil, hoje é fácil. Hoje é fácil, hoje é fácil, mas lá (no passado), que nem aquela história que eu falei - meu pai faleceu, não tive como ver o sepultamento porque não tinha condição de pegar um avião. Tinha o voo, tinha tudo, mas quem tinha condição de comprar? Aquela época quem chegou aqui, trabalhando de ajudante... risos
P/1 - Você queria São Paulo?
R - Olha, aí eu depois que eu vim para aqui, me adaptei aqui, nunca me arrependi. Isso aí, nunca me arrependi daqui, sempre trabalhando. Sempre lembrando minha origem lá, minha família, minha mãe, meus irmãos, que nem eu falo - era meu irmão para ajudar todos... perder meu pai... Era a escadinha mesmo, escadinha mesmo. Perdi meu pai, aí eu já estava aqui.
Aí eu mais meu irmão foi se virando, trabalhando e ajudando minha mãe para aposentar, naquela época, era uma dificuldade... demorou, o homem (meu pai) já tinha acabado, até os ossos e a velha querendo... e a velha correndo atrás daquela pensão... porque ele trabalhava, meu pai não tinha carteira fichada, não tinha nada era... eu esqueço até o nome que era aquela época lá, tinha um nome lá: ”o sindicato de não sei de quem...” foi correndo atrás, até que chegou a hora que aposentou. Mas não deu uma aliviada não, a gente os filhos e irmãos sempre cuidando ali, sempre ajudando. Aí a gente falava para os (irmãos) que iam completando a idade dos 18, (a gente dizia) “ó vem”.
P/1 - E ia colocando no barraco?
R - E aí já foi, quando começava a trabalhar, começava a dar, tudo é ter aquele objetivo, vai dando aquela melhorada...
Já arrumamos um barraco, aqueles amigos que saíam (do barraco) já não ponhava outro, já ia ficando...
Aí chegou a hora que já foi pro barraco melhor, meu irmão, tinha aquele gravador que (quando as pessoas) chegavam aqui compravam o gravador? É aquele som, era chamado gravador, comprou uma bicicleta...
Aí foi trabalhando, trabalhando, depois ele achou um camarada na Vila Natal que tinha um barraco e a Vila Natal ali era uma buraqueira danada e o cara tinha um barraco lá, cismou de vender para ele e pegar a bicicleta, o gravador e tipo, na troca e fornecer o resto. Aí meu irmão foi, conversou e (falou) “o cara tava vendendo um barraco lá e eu tô pensando de pegar.” Eu Falei - “a gente tá pagando aluguel, faz isso.” Ele foi e trocou o barraquinho nos fundos, na Rua três, na Vila Natal. Aí pegou o barraquinho no fundo, aí foi eu e ele morar lá.
P/1 - Você foi junto?
R - Junto. Eram 2 irmãos que tinha aqui.
P/1 - Como é o nome do seu irmão?
R - Adeildo, é o mais velho é.
P/1 - E o apelido dele.
R - É Déu.
P/1 - E você e o Déu foram pra Vila Natal?
R - Aí saímos lá do centro e fomos pra Vila morar num barraquinho e olha, a gente saindo do aluguel, as coisas ó (melhoraram). Mas teve outra história, aí que vai virar melhor aí. Viemos pra lá... aí ele ia lá no Nordeste, começou a namorar lá, aí ele foi se casar. Aí chegou uma hora que ele foi para lá se casar.
P/1 - Com uma mulher de lá?
R - E aí arrumou o barraco, já era sala, cozinha, quarto, tudo arrumadinho. Ele - “não, mas tu vai ficar aqui.” Aí eu naquela: “meu irmão vai casar vim de lá, e eu ficar com ele? Não!” e voltei para o aluguel, falei: - porque a vida privada é outra coisa, ficar eu e ele é uma coisa, com a família...
P/1 - Aí você voltou pro aluguel aonde? na Vila Natal.?
R - Não voltei para o aluguel no centro de novo. Voltei para lá porque do lado de cá não tinha assim, aluguel, era o pessoal que tinha seu barraco, era mais seu barraco.
Hoje tem um monte de casa para alugar, os caras faz barraco para alugar e tudo. Antigamente tinha não, isso aqui não tinha nada não. Isso aqui era um barraco aqui, outro lá longe.
Aí eu peguei e voltei pro aluguel, voltei pro aluguel morando sozinho, aí trouxe os outros irmãos, veio mais um pro barraco que eu tava. Aí já aluguei um barraco de 2 quartos, com quarto, sala, cozinha e banheiro, mas banheiro assim, vamos supor, não era mais aquele monte, tinha 4 casinhas pequena e já aluguei lá. Fui trazendo os outros irmãos. Aí uma irmã, completou a idade, aí veio morar, mas esse (irmão) que é casado, veio para a casa dele lá. E nós continuamos a vida desse jeito, sempre trazendo que ia ficando de maior ia trazendo. Aí hoje se formou os 7 aqui, minha mãe já veio aqui, veio passar um tempo aí hoje ela tá, tá até com problema na visão que perdeu a visão, agora tá se recuperando, fazendo uma bateria de exame. Aí esses tempos ela foi fazer a cirurgia, mas chegou lá, a pressão tava muito alta, aí teve de voltar.
P/1 - Você foi trazendo os irmãos e a cultura de vocês? A comida, a música, ela foi ficando, ou vocês foram perdendo?
R - Não a cultura... Por isso que eu digo hoje é a comida nordestina, é o meu foco, é o que Deus me abençoou e eu tá sempre... de lá. É toda a comida que nós comemos lá, que nós comemos a mesma coisa, porque nós pegamos o ritmo de lá a gente come de tudo, que nem diz a história, a gente nordestina com de tudo, não tem esse negócio de ficar escolhendo, o que tem nós vamos comendo, não perdemos aquela...
P/1 - E você que cozinhava?
R - A gente mesmo, que fazia o rango mesmo. E eu sempre desenrolei, a minha mulher hoje briga, porque quando eu conheci ela, eu morava num barraquinho lá, aonde eu voltei, né? Que eu saí da casa do meu irmão que ele se casou, e eu voltei e ela me conheceu lá.
P/1 - Como é que vocês se conheceram?
R - Ela morava lá no bairro também, minha irmã morava de barraco de aluguel também e ela me conheceu lá. A gente se conheceu lá. Mas aí ela ia pra lá, eu fazia, eu fazia o rango e ela ia comer, ela estudando, trabalhava no ____, ia para lá, passava, era para ir lá comer, aí eu fazia umas cocadas, aí fui conquistando, comendo cocada. risos.
P/1 - Como é que ela chama?
R - Maria Valdete.
P/1 - A Maria Valdete é de onde?
R - Maria Valdete é do Paraná, do interior de Curitiba.
P/1 - Um nordestino conheceu uma paranaense em Cubatão?
R - Em Cubatão. Então, se conhecemos aqui e deu certo aqui, estamos junto aqui até hoje, 26 anos.
P/1 - E aí como que chegou aqui na Vila Esperança?
R - Aí essa história, foi engraçada. Esse meu irmão que veio para Vila Natal, aí tinha um outro que chegou mais novo do que eu, que tinha uma parentada aqui. Aí fez um barraco num beco, aí esse meu irmão mais velho já comprou um barraco aqui na Vila, ele tinha o barraco de lá e comprou outro aqui. Foi trabalhando e conquistou outro barraco. Depois ele saiu lá da vila, vendeu lá e veio para aqui, que era um barraco grande, um espaço todo de bloco. Aí ele veio e foi trazendo os irmãos pra vila, tirando do centro pra aqui, e eu meio bruto, trabalhando, meio brutão falando, “disse”: “Não vou morar na favela”, porque isso era uma lameira aqui, essa pista era terra, um lameiro.
(intervenção)
P/1 - O Déu que falou - “Vamos para a Vila Esperança”?
R - E ele veio, aí fez um barraco grande com a área da frente área atrás, todo bonitão, aí ele veio e ficou, aí foi trazendo os outros pra Vila.
P/1 - Mas você queria vir?
R - Não, eu não vim, eu sou aquele que fiquei lá em Cubatão pagando aluguel... E os outros foi vindo, veio o Déu, veio o outro mais novo, veio o outro chegou, minhas irmãs, a que já tava aqui veio, e eu lá, pagando aluguel.
Aí ele sabe o que ele fez? Ele fez um barraco para mim, ele montou um barraco no beco, o último barraco do beco, 2m de altura, meu barraco era 2m, ele, fez o assoalho todo, montou o barraco, aí ele mandou o recado; “Ó” que eu estava sempre trabalhando, e eu sempre viajava nas firmas para o interior, voltava....
Mas ele deixou o recado com meu vizinho aqui, “O Déu veio aqui e falou para tu ir lá.” Aí eu cheguei à boquinha da noite, cheguei e ele me chamou, descemos, passamos dentro do mangue, tinha umas tábuas lá, e o barraco lá.
Aí ele brutão, - desculpa a palavra - “Ô seu porra, aqui “ó”, - bem bruto, que ele é, meu irmão de coração, é o mais velho, mas ó... ele disso: “isso aqui ó, é para tu, para largar de ser besta, você fica lá pagando aluguel e todo mundo aqui...”
Ele xavecou, que aqui tinha os guardas que ‘coisavam’ (impediam a construção), né? Ele chegou aí, lidou com os caras, fez o assoalho, fez o barraco e deixou lá. Aí mandou me chamar e falou: “É teu aí ó” - Por quê? O pessoal aqui era assim, cada um fazia um barraco e fazia o cercado, ele conversou com o vizinho, o vizinho falou: “ó, daqui para lá tu pode fazer”, aí o vizinho deu um espaço, ele fez o barraco e falou “é teu!” Aí eu olhei para o barraco, e falei: ”vim pra aqui?”, a passarela ia o que? Tinha uns 20m de passarela para chegar no barraco, e ele não fez a passarela, ele fez dois cabos e deixou para mim completar.
Aí eu fui lá, olhei o barraco feitinho, arrumado, coberto. Eu comecei. Aí eu falei “ah, deixa aí”. Aí fui embora. Aí voltava para lá e ele perguntava: ”aí, vai vir arrumar o barraco? Não”. Aí eu comecei a arrumar o barraco, eu vinha fim de semana, apanhava uma madeira, arrumava, aí deixei o barraco arrumadinho. Comprei aquele maderite naval, deixei ele todo bonitinho e não vinha, não tinha jeito, não dava aquele pique de vir, era muita lama, muita poeira mesmo, aqui na época, 25 anos atrás, era lama, poeira...
Aí eu peguei, cheguei uma hora que eu falei: “eu vou para lá, vou mudar.” E peguei o meu primo, ele tinha uma perua com carroceria, né? Aí ele tava até num barzinho que tinha aqui do lado o Bar do Jacaré, Bar do Jacaré. Era um barzinho aqui do lado, aí eu peguei, cheguei e ele tava lá. Falei “hoje eu vou buscar minha mudança.” Aí ele falou “até que enfim, né?” - Meio brabo. “Até que enfim tu vai buscar.” Aí eu peguei um primo meu, o Zezinho Bodão, falei “dá a chave aí”, nem dirigia nem nada, peguei a chave, peguei meu primo, que já era motorista, falei “vamos buscar minha mudança, a perua”.
A mudança era o quê? Imagina, era muita coisa, era muita coisa: Uma caminha de solteiro, um fogão e o bujão? E as panelas no saco. Aí vim de lá, fui no barracão. A benção de Deus, até hoje a vida só promete, eu falo para todo mundo, “trabalha, mas dá um jeitinho de sair do aluguel.” - Todo mundo que eu vejo lá, que é meu amigo, eu falo “gente, paguei muito aluguel.”- A vida é sofrida, você paga hoje, continua devendo, paga e continua devendo.
P/1 - A esposa veio junto?
R - Não, não tinha esposa não.
R - Então nós tava namorando, namorando. Aí ela começou a vir olhar o barraco, ela vinha. Aí, quando eu vim morar, já fiz a passarela todinha. Aí fui lá e vinha para o meu barraco. Aí eu trabalhava no Guarujá, era uma vida sofrida, eu trabalhava no Guarujá e morava lá no Centro, e pegava o ônibus de lá pra ir pro Guarujá. Quando eu vim morar aqui, eu tinha de acordar às 05h da manhã, pegar o ônibus para a rodoviária, para pegar o ônibus para o Guarujá e na volta, eu chegava às 06h, 06h30, aí ia estudar lá no Anchieta. Aí eu saía de casa às 05h e chegava à meia noite, para acordar às 05h, porque quando eu via, eu tinha de descer, eu tinha, eu estava estudando lá onde eu morava, próximo. Aí eu pegava de lá, ficava esperando, porque se eu viesse para casa, não dava tempo de voltar.
Aí já levava a camisa, eu andava com a mochila nas costas, com duas parelhas de roupa, porque você ia para vir para o colégio, aí trocava, tomava banho na empresa, aí vinha direto para o colégio. Aí saía de lá, pegava o ônibus de lá para vir para aqui de manhã, era um cochilo... Por isso que os meninos falam “Tu não dorme, não?” Aí eu aprendi lá cedo que eu não fui muito de dormir, não. Eu costumo de falar “quando nós morrer, nós descansa à vontade, vamos vivendo a vida“.
P/1 - Quando você veio para cá, tinha documento, esses lugares? Como que era “seu” o barraco?
R - O barraco? Não. Antigamente nós comprávamos o material e fazia o barraco. E já era.
P/1 - Ninguém derrubava também?
R - O barraco aqui já derrubaram muito, tinha os guardas que eram chamados de “Amendoim”, que é a roupa deles, era da cor de um amendoim e tinha isso aí que os guardas chegavam, vinha e derrubava, não deixava fazer, e tinha outra, quando você fazia um barraco...nesse meu, já foi uma época mais de boa, já tinha muda de prefeito, daquele já mais de boa. Mas tinha uma época que para você fazer o barraco aqui, você fazia o barraco e tinha de pôr um fogão, uma cama e uma criança com uma mulher lá. Você pegava até a vizinha ali, “olha, o guarda tá vindo, fica lá dentro.” A vizinha que tava no melhor, pegava uma irmã se passando como a esposa com as crianças derrubava! Não todos, porque tinha um joguinho, tinha uma lá na frente, tinha uma entrada, tinha os horários de que dava aquela troca de turno, que entrava, o material, as casas de material, muitas tinham aquele controle e ali na hora, fazia aquele joguinho e dava para ir passando.
P/1 - Aí derrubava e fazia de novo?
R - Quando derrubava, que não podia fazer. Mas quando o cara caçava uma brechinha, ia atrás de um de um cara para dar um jeitinho ali, e tinha uns cara profissional, tinha cara que fazia um barraco aqui dentro de 1h, já deixava os painel feito, trocadinho e quando o cara dava um perdido, chegava pum, já era.
Aí, sempre foi, sempre sabe. Quando tem uma criança, tem uma mulher dentro,(a polícia) não pode chegar e...
Mas não era muito difícil não, (tanto) que ficou essa imensidão de barraco aí, gente demais aqui, foi, chegou uma hora que passaram a cerca lá no fundo, uma cerca de arame lá, passaram a cerca para não invadir mais, (não) adiantou nada.
P/1 - Quando você chegou seu barraco é na avenida principal, ou mais pra dentro?
R - Meu barraco é lá embaixo, ainda tem ele, hoje é de uma cunhada minha. Mas agora é aterrado, feito de bloco e tudo, porque, eu mesmo, morando lá, que que eu fiz? Eu trabalhando e comprando aterro e fui aterrando lá.
P/1 - Na (Avenida) Principal?
R - Não, no beco, num beco desse, a Principal é aqui, mas era lá nos fundos, lá no fundo, não é na Principal. A Principal é a que chegou pros becos, era lá nos fundos do barraco. Aí fui aterrando, aterrando com os caminhões de aterro, eu fazia o quê? Eu trabalhando fora, pagava para o cara aterrar, e fim de semana eu fazia o mutirão. Chamava os amigos que eu tinha um monte de amigo da Vila Natal. Minhas amizades foram mais na Vila Natal. Hoje eu tenho amizade na cidade toda, mas na época era Vila Natal, muita gente boa lá, até hoje um parceiro lá, o Barrigas Bar, o Edilson na rua, tem vários, vários, que era aquele pessoal que eu cheguei, as famílias que estavam ali e me acolheu, quando nós viemos no Nordeste, que pega jeito, que nasceu, o pessoal daqui mesmo é bom demais e eu sou muito grato a esse pessoal aí que...
P/1 - Aí fazia mutirão?
R - Aí eu trazia esse fim de semana, aí vem no sábado, domingo, fazia aquele mutirão carregando aterro para aterrar o barraco do Capacete, era Capacete, na época. Mas olha o apelido do homem “Capacete”. Até hoje o ex-prefeito da cidade, ele só me chama de “Capa”. Ele quando ele me vê, lá na prefeitura, ele fala “e aí Capa? e aí Capa?”
P/1 - Quando você chegou, tinha água encanada, luz elétrica, esgoto?
R - Nada, esgoto? Barraco, 2 metros, e o esgoto era ali mesmo, era só o vaso, tinha não a água, a gente... era uma mangueirinha, um rabicho, puxava ali para ir a água, a luz: “Ô, opa, ajuda aí, dá um fio aí”, aí puxava daquele que fez ali, o fio, ia puxando, ia descendo.
P/1 - Todo mundo tinha que fazer isso, né?
R - Todo mundo, e sempre um ajudando o outro aqui, o (pessoal crítica) é “aqui é Vila “aqui, é muita gente boa aqui, é muita gente boa. Eu vejo as vezes, gente falar coisas da Vila Esperança, não só da Vila... “ah mora na Vila Esperança, mora na Vila dos Pescadores...” Lugar top, lugar igual Gonzaga, Casqueiro ou qualquer lugar, aqui é lugar abençoado, lugar bom, quem vem trabalhar, quem quer progredir na vida, quem tem honestidade, em qualquer lugar, se dá bem e vai se embora sem problemas.
P/1 - O pessoal que ia chegando era mais do Nordeste? De onde vinha essa gente?
R - Não... do Brasil todo. Aqui tem... o Brasil todo está aqui dentro de Cubatão; que ninguém vem (dizendo): “Vou morar em Santos” depois que passa por aqui é Santos, Guarujá, outro lugar, mas todo mundo, é as indústrias é Cubatão, Cubatão é o Polo Industrial da Baixada. Para aqui veio os nordestinos, paraibano, para todo lugar do Nordeste são dentro de Cubatão, quando tem essas paradas, essa manutenção que vai fazer na indústria, aqui vem gente de todo lugar. Isso aqui ó, o reduto, de comer a comida nordestina tem poucos lugares aqui, os que tem, é top, vende bem e trabalha bem, porque aqui, te falo, vem gente da área industrial durante a semana almoçar, das firmas, trabalhando; fim de semana tem gente que vem do Guarujá com a família, de São Vicente, Praia Grande, “Cabeça” que veio, pegando o nome daqui e diz ”Cabeça, e aí, hoje o que tem? Eu estou levando minha família”, outro dia veio do Guarujá, o cara que estava lá, falou tudo bem, correto e o chefão lá com a família. Cheguei aqui, montei uma mesa, nesse meu comerciozinho aqui já passou, várias autoridades aí do São Paulo de tudo, meu saudoso Bruno Covas já comeu aqui, já almoçou, que foi embora, ali, guerreiro trabalhei para ele, já ajudei político que era para a doença, foi levando ele um pouco, né?
P/1 - Que ano você chegou na Vila Esperança, então?
R - 25 anos não foi? Nem eu nem fiz a matemática, mas estou com 24, vou fazer 25 anos que eu tô aqui na Vila Esperança eu já, eu não morava aqui, mas eu vim morar. Mas quando eu cheguei aqui, meu primo, aquele primo antigo primo mesmo, de sangue que tinha aqui, tinha o seu Porfírio, que faleceu já, no lugar do mercado, aqui de lado, era a borracharia e bicicletaria dele; A gente já vinha pra cá, morava lá em Cubatão, mas vinha com os primos aqui, os parentes, tinha a Adega do Dedé ali, que hoje, é a adega mas com outro nome, tinha o Seu Siqueira lá embaixo, que tinha o forró, nós vinha de lá pra lá, seu Siqueira faleceu agora recente, os caras das antigas, tudo faleceu, seu finado Hélio, que era o Bacurau ali, no início, era muita e muito tempo aqui dentro 35.
P/1 - Não consigo imaginar a 25 anos atrás, como era isso aqui?
R - A pista já estava acabando, mas eu falo bem lá atrás. Vamos supor a 33 anos que eu estava aqui. Aí a gente vinha de bicicleta para chegar, era aquele buraco, de vez em quando a máquina passava, jogava uma água. Mas isso aqui era um paredão assim, ó, esse barraco aqui era lá embaixo, era um buraco, era um buraco aqui, bem fundo, aí, meu irmão, quando meu irmão pegou, né? Aí meu irmão foi, até porque esse aqui já tem, eu tô com 14 anos, meu irmão uns 30 anos, que meu irmão tinha esse barraco aqui.
P/1 - Já tinha o trem?
R - Tinha, era uma linha só, ali era uma linha só, a linha de lá. E depois fizeram outra linha e isso aí, foi agora, que eu estou aqui 10 anos para cá aí ‘ponharam’ outra linha, apertou, aí ponharam esse muro para dar uma separada.
P/1 - Não tinha esse muro?
R - Não tinha!
R - Era legal, quando eu comecei aqui que não tinha esse muro, você chegava de carro, tinha uma fila de carro, aí o movimento era até mais top, porque o cara tinha espaço. O que perde muito aqui pro comércio, no meu caso, que trabalho com o povo, eu tenho de atender o público aqui. Eu tenho a entrega, que é os motoboys, mas aqui é que é o forte, aí eu ‘perdo’ muita venda, (por causa) da falta de espaço. Vocês chegaram agora vocês viram como é de carro? Não tem estacionamento, que fala. A gente compra rum terreno de lado, hoje, um terreno aqui é um absurdo, não tem como... E não vende aqui, quem tem seu espaço na frente não vai desfazer de jeito nenhum.
P/1 - E aqui é asfaltado, né?
R - É, asfaltado. Hoje fizeram outro depois desse muro. Aí foi que deu aquela apertada, né? E agora com essa ciclovia que tá fazendo aí, aperta mesmo. E tem que ter a ciclovia, porque é muita criança aqui pra andar no meio de carro, de moto, de tudo. É tudo, é moto, é carro, é cavalo, é tudo, a Vila aqui têm de tudo um pouco, tem hora, que isso aqui para de um jeito que de bicicleta não se consegue andar.
Tem gente que passa (gritando) “Cabeça, Cabeça” e eu falo “você quer que eu faça o quê? Eu vou fazer um viaduto”. Aí eu falo pro menino, eu brinco “olha, eu vou parar, eu vou acabar com esse trânsito” Aí tem um que se assusta e diz “mas como tu vai acabar?” digo “Eu vou fechar lá e lá para não entrar carro, só pedestre e bicicleta, porque não tem, bate horário do colégio, horário das empresas, 5h da tarde, 7h da manhã, é ao meio dia, meio dia e meia, que tá voltando muito ônibus do colégio, porque tem as escolas aqui, mas não é o suficiente, tem que levar lá para fora,... que aqui já cresceu tanto.
Com essa obra que tá vindo aí, com fé em Deus, que tá avançando, essa obra que vai abrir uma pista aqui nos fundos, para sair no morro, aí vai ter mais colégio, vai ter muita coisa boa aí, a Vila Natal lá tem um monte de prédio lá, vai ter muita, vai ter escola, vai ter creche, vai ter colégio, vai ter posto de saúde mais adequado ali, tá trabalhando o homem aí.
P/1 - E o projeto pra cá também?
R - E esse projeto é para aqui, porque essa pista que vai sair aqui nos fundos para sair no morro, vai dar uma aliviada nisso aqui, vai ficar bom, porque aqui é frente e aqui atrás de nós. No fundo, vai ser uma pista, vão dar uma arrumada, vai ser uma antiga vila São José que era desse jeito. Aí fizeram aquela abrir rua, tem uma rua meia estreita, vai ter outra meia larga. Isso aqui nós tá. Pode ser que chegue num prédio desse. A prefeitura chega e abre a rua para emendar com a outra lá para ficar rotatória, né? Fazer a rotatória é uma rua, não vai ter. Não é muito fácil. Não tem muitos anos, mas tá avançando porque na Vila Natal a gente pensava que o site e aquele mundaréu de prédio. Essa semana mesmo foi segunda-feira passada lá no Costa e Silva tiraram um o pessoal que morava numa área bem difícil ali indo para o Guarujá, que é a Mantiqueira, ali do lado da antiga Cosipa, no morro, e entregaram, o governo do Estado estava aí Os deputados da Baixada trouxeram coisa boa para aqui. Não é fácil. Desde 2015 que estão batalhando para o de 2015, quase dez anos, mas saiu, graças a Deus. Saiu um spread bem legal.
P/1 - Aconteceu com a Vila Esperança? Ela foi crescendo...
R - Foi crescendo, foi crescendo, crescendo. A Vila Esperança era só a principal e Ilha Bela era uma ilha mesmo, para chegar na Ilha Bela, quando a maré enchia, passava, tipo um rio, atravessando, aí o pessoal foi aterrando, foi aterrando e foi desse jeito que eu te falei. Eu fui um fundador que ajudei a crescer a Ilha, fiz um barraco dentro do mangue, que na época, era até meio ilegal fazer isso, mas todo mundo estava fazendo. Esse meu irmão me deu essa oportunidade de me dar um barraco quase feito, aí fui crescendo e o outros que ia fazendo, ia trazendo e fazendo, e foi crescendo. Cresceu de um jeito, hoje nós tá aqui na principal. Aqui atrás tem 6 bairros, tu começa a (contar) Sítio Novo, Ilha Bela, Caminho da Benção, Caminho Imigrantes e Ponto Final, ali quando tu tá no ponto final, tu desce lá para baixo e é grande demais,
P/1 - É uma cidade.
R - Aqui é uma cidade, tu vê lá, é o bairro maior da Baixada Santista, aqui a Vila Esperança da Baixada, o bairro Vila Esperança.
P/1 - É a maior favela da Baixada?
R - É, na contagem do Matemática, disse que é a favela maior da Baixada, aqui.
P/1 - Qual é o número de pessoas que eles calculam,
R - Eles calculam o número de pessoa aqui, fizeram um estudo aí esses tempos, com o pessoal aí falaram que tinha 33, eu acho, 27 mil, por aí. Mas aqui, essa contagem não bate, porque é muita gente, teve ou fizeram e disseram que era de 35 a 40 mil, agora refizeram e caiu, como caiu? se aumentou um monte de bairro, disse eu, “fizeram? Parabéns.” Não sei como foi essa contagem, mas ficou meio no ar, a gente não tem um número específico para falar, tá ligado? Aqui, mas se for contar mesmo, cabeça por cabeça, que passa de 40.000 pessoas aqui dentro, você.
P/1 - Você conhece muita gente?
R - Aqui ou aqui, o bairro todo, qualquer bairro desses, eu vou de bicicleta, de carro, de pé, andando. Todo lugar eu tenho gente conhecida, tenho parente, aqui a família é grande demais, parente demais, fosse juntar os parentes todinhos, não cabe dentro do espaço, só parentada e muito amigo. Graças a Deus vim para aqui, fiz muita amizade, muita amizade boa.
P/1 - Aqui tudo era mangue?
R - Tudo era mangue, isso aqui era mangue, isso aqui, a água chegava quase aqui. Aqui que era mais alta, até hoje, até hoje o pessoal vem, e para sair do barraco tem espaço que é cheio de água, onde tem os barracos no alto e aqui ficou baixo, aí fica aquela a maré quando enche é complicado. O que aconteceu? Muito aterro, muito. Você tem um barraquinho, tem a condição de aterrar, você vai aterrar e fazer de bloco. Você aterra aqui, já tomou um espaço, o outro vai ali, quer melhorar o dele, e vai aterrando e vai chegando, vai chegando, vai chegando.
P/1 - Aterrou o mangue, então?
R - Aterrando, o mangue aqui é tudo aterrado.
P/1 - E quando tem enchente, chuva?
R - É isso que eu te falo, enche o próprio barraco, tem barraco que enche, eu além desse barraco que eu morava aqui, desde que eu tive uma condição melhor, desde que eu falei, aí peguei, vendi esse, peguei um carrinho que eu tinha e comprei outro (barraco) ali, melhor, já comprei um barraquinho melhor, fui morar lá, tinha um terreno grande, fiz, no fundo eu tinha um comercinho lá.
Eu comecei um comércio bem pequenininho lá em casa, trabalhando na indústria e com o comércio em casa. Era a maior da hora, eu fazia, aí eu tinha vida porque eu trabalhava, vinha com os amigos, fazia aquela festa lá no bar. E aí foi onde eu fui pegando o gosto mesmo pelo negócio.
Eu ia no bar comer aqui, a gente que trabalha na ____, todo mundo passa o fim de semana, uma tarde. “Ah, não, hoje vamos fazer um galo de barro, vamos fazer uma, um mocotó.” Aí aqueles que trabalham com comida nordestina e os que têm preferência, aí minha mulher começou a fazer lá, e minha mulher trabalhou um bom tempo no Grêmio Cubatão com uma baiana Dona Luzia lá, uma baiana e aprendeu a cozinhar, na época que nós namorava, ela saía do restaurante, foi quando viemos morar juntos. Aí nesse barzinho que eu tinha lá, eu começava, “faz um negocinho que hoje eu os meninos vão vir, a galerinha vai vir, aí nós vínhamos, fomos trabalhando, trabalhando, aí eu peguei gosto, aí decidi abrir aqui, fechar lá.
P/1 - Esse primeiro comércio era na sua casa?
R - Era na minha casa.
P/1 - Era no quintal?
R - Era, não era? Era, já era um comecinho, uma portinha, né? Uma portinha que fala, aí tinha um espaço para pôr o freezer, as mesinhas, aí quando vinha, um monte de colega, eu vinha no mercado, tinha um amigo aqui do mercado, hoje ele não tá aqui, ele deixou com os parentes, foi viver a vida lá na Paraíba, lá estabilizou o homem.
Aí eu vinha pegar as mesas dele, pegava as mesas, apanhava na carreirinha e minhas bebidas, era mó engraçado, batia dia de sábado de manhã, imagina sair daqui lá para a avenida, pro antigo Barateiro (supermercado), enchia a bicicleta na frente, umas 10, 15 caixas de latinha, um pacote de refrigerante, um monte de carga, chegava vinha assim, ó aqui, ó, na carreira, na cargueira, na época, para trazer e para deixar lá, para ir trabalhando no dia a dia, para aumentar a renda do trabalho, do comércio ali, mas era assim, rapaz, quando eu estava em casa, fim de semana, chapado (de gente).
P/1 - Era comida nordestina e bebida?
R - Era, a mulher, fazia aquelas comidas, a mulher manjava e fazia, o pessoal foi pegando gosto, chegou uma hora que saía lá do trabalho, (o pessoal dizia:) “não, nós vamos lá”... Eu dizia: “Hoje não tem nada. Só fizemos isso.” - eles “Oxi, nóis bebe! E a mulher faz alguma coisa.” Aí chega lá, a mulher se virava na cozinha, o fogão de casa, o fogão. normal, né? Para fazer uma comida, demora, e era um sufoco, chegava o cara e comia.
Uma vez eu olhei assim, eu falei “mas o cara trabalhar certinho, é bom demais!” A chefia, porque a gente que tá num lugarzinho, chefia falou, “não, hoje eu vou“, o supervisor lá da empresa, o encarregado administrativo, foi tudo para lá, chegaram lá não tinha mesa, não tinha nada, as que tinha, já tinham um pessoal comendo não põe aqui em cima da mesa de snooker, comendo, na mesa em pé e sem nada e bebendo e comendo.
P/1 - Tinha nome, esse comércio?
R - Não tinha
P/1 - E era na casa mesmo?
R - Era no bar do Alfredo lá, vamos lá no Alfredo, aqui na área era Alfredo ou Capacete, os meninos da Vila Natal que apanharam o meu nome de Capacete, e na área foi pegando, o pessoal da área, “Oxé Capacete, vamos lá no Capa? vamos lá no Capa.” Aí vinha tudo, enchia aquela... fazia a festa ali, e não tinha espaço para comer não, era em pé mesmo, e o beco: passando, moto passando carro, tudo. E o pessoal quando vinha sair, o carro passava sempre vida complicada mesmo, trabalhada e era gostoso. Era gostoso.
P/1 - Começou a ter energia elétrica, água encanada, tudo direitinho? Quando você chegou, não tinha. Quando é que isso aconteceu?
R - Até hoje, até hoje é muito... É no jeitinho, aqui na Vila tem, o pessoal, todo mundo tem uma água encanada, tem luz, mas é daquele jeitinho de amigo. Aí põe, depois faz um cadastro, aí a CPFL vem para pôr um relógio, a água vem e põe um reloginho, porque aqui tem relógio até aqueles barracos em cima, os barracos da passarela, que a gente fala, a palavra certa, é a passarela, ali, tudo tem relógio.
As empresas quando veem o barraco, já se interessa ali, agora viu a rua da Benção? Que tá chegando a água encanada legal lá, que não tinha, era desse jeito, quando foi feita a rua da Benção, e a água era tipo clandestino, agora vê a obra que tá lá, estão pondo água com o relógio e tudo, para pagar.
P/1 - Isso é luta de vocês, moradores?
R - É luta dos moradores, dos líderes de bairro com as autoridades que tá lá, os vereadores tudo, é interesse dos prefeitos que tá aqui, graças a Deus. A vila já foi pior, hoje tem muito recurso vindo para Vila, graças a Deus não falta, nós lá batalhando, correndo atrás, na luta, aí vai chegando, aí devagarzinho.
P/1 - E a segurança, como é que é?
R - Dar risada, a gente, a segurança é nossa, e nós mesmo, é aquele homem lá em cima, é nós trabalhando, todo mundo, cada um no seu espaço, cada um fazendo seu trabalho de boa. Aí não tem o que reclamar de nada disso aí, cada um procura o seu espaço e faz o seu trabalho, entendeu?
P/1 - Tem um convívio bom?
R - Graças a Deus, com todas as partes, convivo todas as partes, estou aqui, ó, se ficar aqui, se eu for ficar aqui até de manhã, com a porta aberta qualquer hora, nunca fui lesado, nada. Porque tem gente que fala “já passei por isso, passei por aquilo”. Não tenho essa para falar que fui, que não fui, porque se fosse, tem de falar, passar sempre na humildade e no trabalho sério, com honestidade e pé no chão.
P/1 - Mas a gente escuta dizer que antigamente mais, tinha umas questões aqui, né? Tinham guerras, conflitos…
R - Não, isso aí, depende da ocasião, que sempre tem, né? Sempre tem, aí acontece de ter briga aí, polícia com pessoal aí. Mas coisa que a gente tem, cada um faz o seu trabalho, cada um vive a sua vida, é o que eu faço aqui. O meu convívio é 1.000 aqui, geral, modo em geral, em todos os bairros, eu conheço todos os bairros da cidade, eu prestei, parei depois que fui para o lado político, mas eu fazia um serviço aí para o pessoal lá de São Paulo que vinha por umas placas aí, de enchente o cara me procurava. O cara chegou aqui, viu ‘Cabeça’s Bar’, me procurava, aí eu saía passando e pondo placa, o cara, era prestador de serviço da Defesa Civil e ele chegava, não tinha o conhecimento, aí ele procurou quem tinha o conhecimento. Aí eu pegava o serviço, pegava 2 amigos meu, em Santos, ali fui em bairro lá, favela que eu nunca tinha ouvido, não sabia. “Tal bairro tem de por 10 placas”, eu ia lá e punha, eu no ano, fazia 4 vez, 3 vezes esse serviço para ele, as placas de enchentes, é aquilo que eu falo, quando tem uma brechinha eu vou para cima, para trabalhar.
P/1 - Aqui do viaduto, quando é que aconteceu isso aqui, fizeram um viaduto, para segurança das pessoas?
R - A passarela, não, ali, ali, do outro lado, era o Sítio Queiroz, ali era um bairro, um bairro mesmo, gente demais ali morando, e nessa passagem para cá, eu já presenciei cada cena ali, de moto, de senhora, de mulher, gente atropelada, que não tinha essa passarela. Aí fizeram a passarela, com pouco tempo já tinha o processo de tirar o pessoal, mas era muito acidente, eu já trabalhava aqui, muito acidente.
Ali era uma rotatória, aí veio um motoboy, vinha e não prestava atenção, carro, criança passando, né?
Ali morava, não tenho ideia, mas era bastante barraco, com bastante gente. Aí fizeram a primeira passarela, fizeram passarela só da rodovia, ali da rodovia, a ferrovia deixou aqui, o trem vem para ali, eu já vi gente passando com criança debaixo da roda do trem. Ali, se você for uma pessoa que tenha um _____ melhor ele passa por cima, a pessoa vem, está do outro lado, que é um ponto de ônibus, né? Aí passa ali passando por debaixo, eu presenciei cada coisa ali, olhava assim, e a gente cobrando, cobrando para eles emendar, mas ficava aquela guerrinha, né, que isso aí é guerrinha da Ecovia e Rodovia, ficou aquela guerrinha e demorou.
Vieram a fazer agora, no final de ano que emendaram, aí veio a reclamação, veio por quê? fizeram a saída só para lá, não fizeram para cá e quem mora lá embaixo? Porque você sair daqui você vem do lado de lá, você vem lá de Santos, do trabalho, você descer do lado de lá, e ela é gigante, né? Você vai lá e embaixo para você voltar e ir para a rua da Benção, ou lá na Ilha Bela. Eu sei que tem gente que passa aqui todo dia, que mora lá no final da Ilha Bela, é uma caminhada boa.
Aí o pessoal começou a reclamar porque foi para lá, aí tentamos conversar, mas até agora não deu certo. Aí eu brinco com o pessoal que reclama, eu falo “é para fazer caminhada, você não fica pagando academia e tudo, então faz caminhada aí.” A passarela da caminhada, aí deu certo. Mas já teve muito acidente aqui, aqui mesmo, através dessa passarela, tem um campinho aqui de frente… (intervenção)
Então eu estava falando através dessa passarela aqui, que as crianças passando, adulto passando ali por debaixo. Eu já vi cena de a pessoa agarrado e o trem sair, ele dá aquele tranco, ele dá uma buzinada, mas a máquina está lá longe, ele dá uma buzinada, a pessoa agarrada, aquele consegue pular. Aconteceu uma cena com a mulher, e sabe quem foi a mulher? Minha irmã, a minha irmã, ela foi o trem foi. Ela foi, um trem passou, e o outro vem, e ela ficou no meio, ali, e ela no meio, parada, esperando passar. Que susto!
Agora a pior cena que eu vi, me arrepio todinho, eu fui a segunda pessoa a chegar, eu e meus amigo, tem uns campinhos ali no meio, vocês veem que tem um ali, tem um ali. Aqui tinha um esforço meu com outros meninos aí nós compramos os negócios, eu fiz uma tela bem grande lá, para a bola não cair para a pista, mais cuidado para fazer a coisa melhor para as crianças. é muita criança que sobe para jogar aqui, aí no dia, o dia mais triste da vida, no dia domingo, os meninos jogando lá; E esse trem está passando e um monte de menino para passar para cá, e esse trem está passando, quando esse trem passou, o outro estava aqui, é muita coincidência o outro estava aqui, a criança “pum! Essa, a barriga arrepiou todinha… ó, a criança, 9 anos, filho de um amigão meu, estava aqui direto, mora aqui do lado, aqui, bem na frente. Cortou, quando eu corri, que eu vi, eu voltei e peguei um pano com a bandeira do Brasil, que era época de jogar no Panamá e corri, para o colega que pulou, que estava mais perto. Quando ele viu, pulou e o trem passando, o trem passando e nós olhando, gelamos na hora, aí corri, com o pano assim, o pano em cima, aí já foi chegando gente, chegando gente, aí chamaram a mãe, Ich...
A gente tem hora que passa por cada cena aqui que é... Aí foi triste, aquela foi a pior que eu vi aqui, vejo na pista, vejo tudo, mas ver uma criança ali, ser a segunda pessoa chegar e ver assim.... É triste, a gente passa por cada coisa aqui, o campinho tá isolado até hoje, até hoje, tem um tempinho, acho que tem uns 5 anos. Aí parou o campinho, aí fizeram lá, fizeram ali, aqui, mas deixou.
P/1 - Muito triste mesmo.
R - Ainda essa semana eu passei ali e vi o irmãozinho dele, que era gêmeo, um menininho já grande, eu lembro todo dia que eu vejo a família, porque nós que batalhou pra ajudar, né? Mas chegou uma hora que... é complicado. Aqui a gente acha que é fácil, mas tem a dificuldade também, e tem muita, tem muita aqui pra trás tem as vezes quem tá lá vendo, não sabe, aqui atrás que eu falo é a Vila; a gente tá aqui, tá bom, tá lindo, mas tem de olhar lá atrás, lá atrás, tem coisa, a coisa não é fácil não.
P/1 - E Cabeça você tem filhos?
R - Tem um filho de 21 anos, fez agora, dia 13 de outubro, 21 anos. O Artur, meu filhão, com essa mulher mesmo, só tenho esse, molecão da hora, só trabalha e estuda.
P/1 - Ele é nascido aqui na Vila Esperança?
R - Nascido na Vila Esperança, nasceu na Vila, no barraquinho, ali embaixo, onde eu morava, que tinha um barzinho, a mulher veio morar, começamos a criar e daqui fomos pra lá e esse filhão aí, 21 anos, fez agora.
P/1 - Como é que foi criar um filho aqui na vila?
R - Olha, não é fácil não, mas graças a Deus fui abençoado, viu? Dá pena de ter só 1, mas foi bem, hoje é só trabalho e estudo, eu e a mãe trabalhando demais, demos o que nós não tivemos, principalmente eu, não tive estudo, trabalhar, batalhar, faculdade. Tá terminando uma, já ingressando em outra.
P/1 - É, e ele foi estudar o quê?
R - Ele tá terminando agora, eu acho que o ano que vem é, até saiu... risos Arturzão, sai todo dia, tem dia que sai de casa 9h, chega meia noite, 11h da noite.
P/1 - O que ele estuda na faculdade?
R - Faculdade, ele hoje está fazendo analista de sistemas, estuda. Não é porque é meu filho, não, mas o moleque, até a gente, tem dia que é difícil até de ver ele, que eu chego tarde e saio cedo, o arsenal dele lá, um filhão só, né? A mãe ralando, a mãe ralando, a gente ralando, trabalhando muito, mas dando o melhor.
P/1 - Quais tipo de conselho você foi dando para ele enquanto ele crescia?
R - Olha, eu sempre falei para ele em primeiro lugar respeito e estude para ser alguém na vida. Seu pai foi trabalhar e trabalho muito, vida sofrida, você está aí, que nem que eu disse, a criança quando ela tá começando, ela quer o quê? Aqui é ir para o CAMP. O CAMP é um lugar de aprendiz, é tudo. Nem isso ele não precisou, porque nós se esforçando, trabalhando para ele estudar, porque lá no CAMP, as crianças que vai é bem atendida, pega uma formação boa, mas ele foi batalhando, não tivemos dor de cabeça, até hoje, 21 anos, não tem dor de cabeça nenhuma.
P/1 - Ele anda por tudo aqui?
R - Agora você perguntou uma pergunta, não anda nada, conhece tudo, mas não acompanha. O pai e a mãe, vamos falar o português correto, dono de bar, gosta de festa toda segunda e bar. Não vai numa festa nossa!
P/1 - Não vai?
R - Não vai. Ia, quando era mais pequeno, depois que chegou aos seus 16 anos, de lá pra cá é casa e estudo. E os passeios dele com aquela turminha dele, ele tem muito amigo bom, muito menino bom, não é rueiro de nada. Não é nada contra quem vai, cada um vai aonde quer, cada um faz o que quer, mas é um meninão de 21 anos, ainda do lado de pai e mãe.
Aí, essa é mó engraçado onde eu moro, ali embaixo é a igreja, e a casa, só que eu dividi, é uma casa maior, pra isso, - só o filho, a mulher na casa grande e uma casinha do lado, pra se um aparentado, um familiar que precisar? Sabe o que é que ele fez? Um dia ele falou, “eu vou mudar”, quando ele completou 18 anos, -“eu vou mudar”, o mais engraçado é, eu disse “o Arthur vai embora, graças a Deus, oxe, vamos ficar de boa aí, Deus sabe o que que ele faz. “Tirou, só pegou, comprou as coisas dele mesmo e foi lá: aqui, ó, só a porta que mudou, foi para aqui e foi para cá, que mudança ele fez, né? Não, é só sair da porta e entrar, só sai, e disse “Não fui para ali eu ficar, minha vida ali.”
Ali fiquei falando “Tu tá aqui, rapaz, só mudou daqui pra ali.” Mas é engraçado, fala pouco, conversa pouco. A vida é muito trabalho, ele mais a mãe é mais, o pai, filho tu sabe né? Filho, puxa a sardinha para o lado da mãe e fica ali do lado de mãe, mas não tem, não tem o que falar. Nada, filhão mesmo.
P/1 - Não deu trabalho, não se envolveu com coisa errada?
R - Graças a Deus. Nem gosta de rua, de nada, de vez em quando sai. É academia, é capoeirista, ficou da capoeira desde os 5 anos, parou esses tempos, aí parou, é muito estudo, muito, parou um pouco a capoeira agora, academia para fazer.
P/1 - Projetos sociais aqui na Vila?
R - Não. Ele trabalha o negócio dele hoje, o trabalho e a faculdade dele, é tudo em São Vicente, ele partiu mais para essa área logística foi para lá. Tá lá, tá bem. Ele não participou, que nem eu te falo, ele conhece tudo, sabe onde é e tudo, mas pra sair de corre, ele não sai, não faz essa coisa de estar “Ah, vou lá no bar de fulano e voltar” , até negócio de bebida, de tudo, não é envolvido, não, graças a Deus, ele é bem suave mesmo.
P/1 - E você, participou de projetos sociais aqui da Vila?
R - Eu faço tipo liderança aqui tem muitos anos, essas festas das crianças que nem eu fiz domingo agora, 14 anos. Quando eu vim pra Vila eu comecei já trabalhar, ajudando os outros, participando, colaborando. Isso aí, é uma coisa que eu não sei, é negar, quem me chama.... Lá bem atrás, eu ajudando, tem a dona Neusa, que é lá no Morro do Índio, a gente fazia umas festas lá bem top mesmo, e eu sempre junto a eles, no dia da festa, ali, participando, ajudando e tudo que é.
Eu cheguei aqui, aí já me envolvi no meio político, eu já vinha de lá do meio político. Aí tinha um amigo meu, que é o Neguinho aqui, que mora do lado, tem a lanchonete da Tia Lita, aí ele tinha esse projeto de ajudar lá, fazer a festa das crianças, fazia muitas festas, né? Aniversário de fulano, de ciclano, essa mulher, essa dona Neusa lá, ela é bem... Tem a pracinha de frente, nós fazíamos uma festona lá, deu uma parada porque dividiu, ficou um do lado, outro do outro, mas sempre ajudando, nunca fui de parar de participar não, tô sempre participando.
P/1 - E dos mutirões que as pessoas fazem ou fechar a pista quando vai reivindicar alguma coisa. Você participou também?
R - Não. Nunca fui não, gosto de ficar na lateral. Não sou muito de me envolver, porque é melhor ir conversar no dia, do que você ir fazer baderna, né? Aí eu nunca fui, nunca fui, até incrível. Eu vejo os caras assim, eu até aconselho, “mas vai adiantar nada tu prejudicar um cara que está descendo de São Paulo, vem uma ambulância, vem um bombeiro, vem tudo aí,” - eu sempre fui desse lado de puxar a pessoa, dar uma recuada, entendeu? Porque, eu sou contra esse negócio, porque, vamos para uma conversa, vamos conversar.
Eu já vim aqui, de pegar liderança, pegar o pessoal, eu mais um conhecimento, “vamos pegar aí um pessoal, vamos lá na prefeitura, vamos lá cobrar isso de fulano”, e dá certo! Fiz outra vez, e deu certo, o prefeito atendeu nós de boa e disse “não, nós vamos, nós vamos fazer, nós vai arrumar, nós vai fazer... “ - que a gente vê, aquela hora que a gente vê que não tá certo, nós moramos no bairro há muito tempo. Não é quem vem de lá, só chegar aqui, e falar “isso aqui, tá certo.”
A gente que tá aqui, que tá vendo, que as coisas não são do jeito que a pessoa quer chegar, e graças a Deus, bem atendido, o tempo que eu tô aí nessa vida política aí, bem atendido.
P/1 - Então tem boa relação com os moradores, nesses diálogos?
R - Isso
P/1 - Com a prefeitura e com outras empresas?
R - As empresas, os vereadores, isso aí é bom. É que às vezes a pessoa fica aqui reclamando e não vai procurar o recurso, tu vai lá que tu é atendido. Porque se você ficar aqui, só reclamando, não for lá, “ah, mas lá não tem acesso” - Tem acesso lá, é direito de todos, tudo é agenda, tudo certinho, dá certo para tudo isso aí.
P/1 - E tem que ter paciência, né?
R - Tem que ter paciência, às vezes a pessoa, e quer a coisa muito rápido, e não é assim. Tudo tem a hora certa e o dia certo de você conseguir, Entendeu?
P/1 - Me conta deste lugar que estamos. Quando é que começou? Quando é que isso aqui começou?
R - E agora vou começar a vida do bar? O bar foi uma coisa que eu comecei lá embaixo, que eu comecei a falar do bar no Caminho Santa Rita de Cássia, que era ali em casa. Devagarzinho, comecei lá, a fazer aquelas comidinhas, o pessoal foi e o pessoal falava tá na hora, e eu já dizia “uma hora eu vou sair desse trampo, vou montar meu negócio.” Eu falava para os amigos, eu ia no comércio dos amigos lá em Cubatão, comia aquelas paneladas, mais os colegas.
Aí ajuntou a fome com a vontade de comer, essa benção que veio para mim, que é minha esposa a Maria Valdete, cozinheira, cozinhava com a mulher, lá no Grêmio, aí se juntemos, começamos a fazer. Aí eu decidi, meu irmão tinha um bar aqui, parou o bar, aí ele alugou pra um pessoal aí, acho que de farmácia, não deu certo.
E eu olhando o ponto, disse “meu irmão, vamos tocar esse bar aí, vamos? A gente tá fazendo lá, não tem mais espaço.” - E eu, no sufoco, carregando numa cargueira as caixa que ele tinha daqui para lá, chegava o cara, tomava uma caixa de cerveja, tomava meia caixa, não tinha mais, eu tinha de correr atrás, levar para vir buscar. Era engraçado, mas era uma vida sofrida, mas ‘lucratosa’ também, época boa. Aí eu fui, conversei com ele, “vamos fazer aqui“- e ele disse, “Então vamos fazer uma sociedade,
aí, tu trabalha, e não paga o aluguel” eu: “Oxi, tá bom”. Aí vim para aqui, aí comecei a trabalhar mais a mulher, rapaz, no dia que eu inaugurei isso aqui, e para eu sair da empresa, para tu ver, eu não era nó cego não, os menino falou que eu era meio nó cego, mas não era não.
A empresa foi uma dificuldade para me mandar embora e a empresa foi uma dificuldade, e eu falei “rapaz, eu montei meu bar, e eu vou inaugurar tal dia” e a chefe, a administrativa, né? “Não, não pode mandar o senhor embora.”
Eu fui e falei com o supervisor, ele “fala com o engenheiro”, falei com engenheiro, falei com o outro e aquela enrolada, ela deixou pra me mandar no dia de eu abrir o bar, mas eu arrumando, no mesmo dia ela me mandou embora. Ela foi tocar, ela mandou embora, ela não veio no dia da inauguração, mas depois ela veio, mas me deu o maior elogio, falou “Tu tá de parabéns, que tu não mentiu” - porque tem muitos que, na firma, ele quer ir para outra empresa, ele dá aquela mentirinha para sair, para ir para outra. Eu falava para ela “o menino sabe, fulano sabe, eu montei meu comércio, eu quero tocar a frente, se não der, eu volto para área”.
P/1 - Quando foi?
R - Dia 5 de... Caramba, eu esqueci a data, mas eu acho que foi de... Eu esqueci a data, mas há 14 anos, 14 anos, que fez 14 anos, que agora em julho, acho que foi dia 7 ou 8 de julho. Aí ela me mandou embora no dia, aí eu vim pra aqui, e nesse dia, como era a inauguração, mandei a mulher fazer um monte de galo, o galo na faixa, só paga a bebida ichi, foi... aí a área, os meus amigos que trabalhava comigo, veio tudo. Aquela galera toda, se encheu desse dia, Deus abençoou, não parei. Foi só esse dia mesmo, depois era só encomenda de galo, de buchada, de tudo, e a mulher na cozinha, nós começou com funcionário trabalhando ali, batalhando. Aí meu irmão, desistiu, não queria bar mais não” Tu toca o bar aí, tu põe um aluguel para mim” - até hoje o prédio é dele, desse meu irmão mais velho, ele mora, ele mora lá na no 31 de março e eu estou aqui há 14 anos aqui.
P/1 - Já era Cabeça’s Bar, o nome?
R - Não. Essa história, é que, aí vem os caras da revenda e ponhava um nome estranho: “Boteco do Cabeça”, aí os cara ficava tirando onda, “o boteco do cabeça?”, aí do Nordeste, né: Boteco do Cabeça... aí chegou outro cara, aí eu fui usando o nome Cabeça’s Bar, Cabeça’s Bar eu falei “vamos fazer uma placa: Cabeça’s Bar”. Aí a outra empresa se interessou, aí já veio dizendo, “aí nós faz um contratinho, para tu ser exclusivo nosso”, a empresa de bebidas ser exclusiva, e ela me bancava, disse que ia bancar meu aluguel durante 1 ano, eu “Opa! venha aí” fez uma placona “Cabeça’s Bar”. O outro cara que veio falou, e eu falei “eu fechei com fulano agora é Cabeça’s Bar e sou exclusivo da bebida”, naquela época boa, quando eu comecei aqui, aí fui trabalhando, trabalhando e morando lá no mesmo lugar, e a vida, só quem trabalha, Deus ajuda, e trabalhando, trabalhando.
Aí fui. Já comprei um terreninho lá embaixo, na frente. Aí, porque assim, a gente trabalha pagando o aluguel e tudo aquilo que eu te falo, o aluguel é complicado, e eu pensando “eu tenho de montar o meu, no dia que o cara pedir aqui, eu vou pra onde?” Caçar alugar em outro lugar é difícil... Aí eu fui trabalhando aqui, eu e a guerreira do lado, aí já veio mais funcionário, fomos aumentando a venda e o trabalho, porque a comida nordestina nós, muita, graças a Deus, abençoa todo mundo.
P/1 - E você oferece almoço e janta?
R - A gente começa das 11h até umas 9 da noite, não para, porque tem lugar que dá 3h, 4h para né? Nós começamos a fazer a comida, é fogo industrial e vai fazendo, não faz quantidade, quando vai fazendo, vai servindo, vai fazendo, vai servindo. Aí você chega uma hora, tá pronto, você dentro de 5 minutinhos, tem uma hora, com fogo industrial que a comida já tá preparada, e você rapidinho você ali e faz uma rabada, um galo. Aí eu trabalhava só com a comida nordestina mesmo, galo, rabada, buchada. Aí a coisa foi... Aí eu fui para o filé de frango, uma carne seca para todos os gostos, entendeu? A pessoa chega, quer comer a salada, tem, mas o foco mesmo, o cara vem aqui, ele come uma comidinha, um franguinho, um negócio ali, e fica olhando outro, comendo rabada, ele pega um pedacinho, come, quando dá fé e ele vem e quer rabada.
P/1 - Qual é o prato principal, qual é o prato que mais sai?
R - O prato hoje, é rabada, rabada, galo, carne seca, essa aí nós detona, essa aí nós detona, tem semana aí de 150 a 200 quilos, só rabada, a rabada aqui as minha fica doida, mas que é rabada, tem tudo. Aí eu tenho o dia do prato, na quarta eu começo com feijoada, o prato é feijoada, mas tem mais 4 opções na quinta é costela, mas tem mais umas 3 ou 4 opções pra o cara escolher.
P/1 - E no final de semana?
R - Final de semana tem o sábado que vem, rabada, galo, mocotó, sarapatel, o sarapatel também nós detona aqui. Aí tem o prato de domingo, é a dobradinha, detona a dobradinha, é o prato do dia, dobradinha, mas tem várias opções que nós fazemos e não atendo só por aqui, nós atende a cidade toda. Hoje eu tenho 2 motoboy aí, que roda a cidade toda, e a Vila aqui, eu agradeço esse pessoal maravilhoso, que quem mais compra aqui é a Vila.
P/1 - Vem, senta, come e fica?
R - Vem, senta, come, fica ou come, vai embora ou quer ir em casa? O motoboy leva... vem retirar no local - “ou tô indo aí, quero uma marmita disso” - que tem o contato direto do bar lá na placa, o pessoal pergunta “tem o quê?” Aí, nós já ‘ponhou’ o cardápio na rede social, aí o pessoal vem buscar também. Vêm muitos tirar.
Tem hora que tá aí cheia, hoje eu trabalho, dia de domingo, trabalho com 6, 7 pessoas fora eu e a mulher, 2 motoboys, graças a Deus, a casa cheia, trabalhando honestamente, pé no chão.
Aí foi que eu te falei, aí consegui comprar um terreno na frente. Fiz o meu lar, graças a Deus. A bênção de Deus, aluguei por igreja. Aí eu falo “eu pago aluguel aqui, mas tenho o meu reduto também” porque aqui não é meu, uma hora meu irmão, fala” eu quero isso. Tenho meus filhos”, vou fazer isso de boa, aí penso vou lá, aí morar lá com meu filho, minha mulher.
P/1 - Tem música aqui?
R - Que eu fazia, e outra, durante esse período que eu comecei, eu fazia todo domingo, quando acabava a comida, depois das 7 da noite, uma música ao vivo, um sertanejo, forró. Ai, agora eu tinha uns colegas fazendo na mesma data, eu falei “não, tu faz em um domingo, eu faço outro”, aí eu faço um domingo sim, outro não, a música ao vivo.
P/1 - Então tem ainda?
R - Tem, de 15 em 15 dias, é um forrozinho, até que chegou, o cara mandou uma mensagem “Eu posso fazer ____ para domingo? “ - eu disse “Manda ver.”
P/1 - O forró pega fogo?
R - O forró pega fogo, tira a metade dessas cadeiras, joga ali fora, deixa a rua, aquele espaço e detona. Aí é a vida, aí, daqui o nome Cabeça’s Bar que surgiu, muita autoridade vinha aqui, que eu te falei do finado...
P/1 - Além do Bruno Covas, quem já veio?
R - Aqui veio deputado Paulo Corrêa, veio um monte, Raul Cristiano de Santos, esses caras aí. Aqui tem muita gente assim de fora, esses caras de nome, outro dia veio um deputado lá de São Paulo que eu nem lembro o nome, veio aqui, senta e começa a comer a comida e depois diz “eu vou voltar” e volta!
Esses dias veio um cara aí que é de São Paulo, aí o cara não_______ aí sentou aí, comeu, que esses caras gostam do que a gente faz, a mulher faz a carne seca, que carne seca com abóbora, que detona, e essa rabada também detona aqui.
A comida aqui é toda top, aí o nome Cabeça’s Bar foi crescendo, foi pesando, aí veio a política.
Desses participantes que veio aqui agregando, aí foram vendo meu trabalho, meu conhecimento, aí fui entrando no lado político, mas já apoiando, né?
Ajudando os candidatos a vereador, ajudando, trabalhando de cabo eleitoral, e fui trabalhando, trabalhando. Chegou uma hora, que eu juntei um time, sentado bem no cantinho, o bar era pequenininho, hoje está grande, bem ali no cantinho e em 2019 eu cismei de sair candidato, cismei de sair candidato a vereador, aí falei, se juntamos e a gente conversando, eu era cabo eleitoral, eu era cabo eleitoral dela, e ele dele, ele dele. Aí se juntamos, e trabalhamos pra um cara, tinha uns 3 que trabalhavam para o cara e não deu certo. Aí falei “vou sair candidato”, a intenção, bem real mesmo, era sair candidato para ver se aquele cara fica e um de nós entra... aí vamos sair candidato, saí candidato em 2020, meti a cara e fui para a rua, rapaz, o nome de Cabeça ficou bom, “Cabeça, Cabeça”, primeira vez, eu lá, na rua, corri atrás de patrocínio, arrumei meio na mira, veio todo mundo meio cismado, mas o nome tava bom.
A eleição chegou, Cabeça top, mas aí deu aquela derrapada, mas ainda fiquei primeiro suplente do partido, ainda no PSD, fizemos no partido que não tinha ninguém, não tinha nenhum vereador na cidade, fizemos 3 vereadores e eu fiquei o primeiro suplente. Olha que benção, essa primeira vez?
P/1 - Começou a trabalhar?
R - Aí comecei a trabalhar, aí tinha uma vereadora, teve licença maternidade, ela engravidou. Aí eu assumi na Câmara Municipal, 4 meses de vereador, parabéns, Cabeças, com o Bar lá na Câmara, junto dos outros, dos outros 2, que era do partido que nós aqui, decidimos sair, fui lá, fiquei 4 meses de vereador, graças a Deus trabalhei. Não deu para fazer muita coisa porque o suplente ele está ali para tirar férias, né? Não dá, não dá nem tempo de trabalhar muito, mas fica um trabalho lindo na Câmara, com todo mundo, com todos os vereadores. Sou bem-visto lá, todos, tanto prefeito que tava, e o que tá hoje, não tem o que reclamar. Graças a Deus, aí vim agora de novo candidato.
P/1 - Vai ser candidato?
R - Eu vim candidato, o ano passado vim, saí, fui trabalhando e fiquei 4 meses, saí. Aí fui fazendo o trabalho, aí que eu me envolvi mesmo na liderança da favela, trabalhando. Aí saí candidato de novo agora, aí foi difícil, foi difícil, que trabalhando, mas aqui é muita cobrança, é muita cobrança, aqui, daquela Vila Natal prá cá, é muita cobrança, é muita gente carente aqui dentro, e a gente tenta fazer o máximo, mas tem uma hora que a gente cassa a terra ali, e não acha.
E eu só comecinho aqui, não deu pra suprir, o que os que tava lá, já no poder, está bem mais avançado. Mas não fui, pela minha honestidade, meu trabalho, eu não me arrependo. Fui mal votado, eu tenho 533 votos numa eleição, não tem muita palavra, não, mas meio conturbada, meio conturbada, sem recurso, eu, sem recurso, tenho 533 votos. Na hora me deu aquele estresse, fiquei um dia, aí depois fui vendo, aí eu comecei a fazer a matemática: “Eu vou fazer uma festa, vou chamar esse pessoal que votou em mim para ir para festa, quantos ônibus eu vou pegar para levar esse pessoal? Cara, eu tenho de pegar no mínimo aí um, uns 10 ônibus” é uma fila de ônibus, aquele monte de gente confiou em mim, sem eu fazer nada, só na minha palavra, na minha honestidade, o cara me ajudou 536 pessoas, aí eu me acalmei, fiquei de boa, acalmei, fiquei de boa, fazer o que? Perdi, aí sou o terceiro suplente do Brasil, tô de suplente ali ainda fiquei em terceiro, né?
P/1 - Esse envolvimento com a política, de certa forma, ajuda a Vila Esperança? Você consegue coisas, por exemplo?
R - O acesso de eu chegar, eu vou conversar, e o pessoal, “Ah, o ex-vereador Cabeça”, que nem eu lhe falei lá atrás, peguei um respeito por essa pessoa, trabalhando honestamente, com poucas palavras, mas correta, peguei o conhecimento, o respeito por toda e qualquer secretaria, qualquer órgão público que eu chego, eu sou bem atendido. Que nem eu te falei, chego lá, consigo tudo com o pessoal.
P/1 - Me dá um exemplo, de tudo o que você já conseguiu.
R - Tudo assim, “entre aspas”. Se eu vou lá e peço “ô gente, vamos dar uma arrumada naquele acesso ali, aquela buraqueira que tá ali.” Pô, eu gosto de ir naquele, o acesso que tem na pessoa certa ali, pego o próprio vereador, “ô vereador, dá uma moralzinha lá para nós”, que ele sabe que eu sou vereador e quando ele estava lá, eu estava lá com ele, com o respeito e a honestidade, ele vai lá. Eu conversei com um vereador, aqui vem todos os vereador, bate dia de quarta aqui, amanhã é 1 é 2 é 3, e secretarias, essa semana mesmo, o gabinete do prefeito, o gabinete, só não veio o prefeito, aqui, todo mundo comendo, mas ele é outro que participa, tá tudo.
P/1 - Quando você faz uma festa das crianças, você consegue apoio?
R - Consigo apoio, não muito, tem hora que não, dá uma esfarrapada, dá uma esfarrapada. Mas eu consigo, essas festas que nem eu mesmo falo, pego o microfone, meio enroladinho, que eu falo meio enrolado, vocês perceberam? Mas é assim mesmo. Eu pego e falo do meu jeito. Eu sou aquele cara que eu tenho que falar o que eu sinto. Aí assim, a eleição foi boa, foi uma experiência boa. Conhecimento lá dentro é bom. Quando eu chego na secretaria, os cara me atende bem, Graças a Deus. O respeito, eu não tenho o que reclamar, não tem o que reclamar da minha vida política, onde que eu tô, onde eu quero chegar.
P/1 - Quer continuar a vida política?
R - É agora que eu estou trabalhando para a próxima, eu já comecei. Eu perdi ontem, é que nem escola de samba. Acabou, o carnaval já está trabalhando para o próximo. Eu estou trabalhando, eu não paro, fazendo o que eu posso e vou trabalhando.
P/1 - Qual o seu objetivo?
R - Chegar na Câmara Municipal e ser o vereador, e vou trabalhar para isso. Estou trabalhando para isso, vou trabalhar, trabalhando, e a gente nunca pode desistir do sonho do cara, tem de ir para cima.
Eu vir da onde eu vim, eu vir de lá para cá, e chegar aqui, sentar naquela cadeira, e é legal porque você tem muito, tem muita coisa que dá para dar uma arrumadinha no bairro. A gente está num bairro desse, agora eu lhe pergunto o bairro desse não tem um vereador? Não é que o vereador é do bairro, o vereador, ele é da cidade, ele é da população, mas ele sendo do bairro tem mais, tem a Vila dos Pescadores, tem três vereadores.
P/1 - E a Vila Esperança?
R - Nenhuma. Eu fico assim, eu aqui mesmo, que eu sei que uma hora o pessoal faz isso. Pensa um pouco, analisa e vê a diferença que faz o vereador, ele não é do bairro, ele é da cidade, mas um vereador no bairro tem um peso.
P/1 - E o que que a Vila Esperança merece receber de ajuda, de apoio do pessoal?
R - A Vila Esperança precisa, precisa muito mais, mas tem, tem, mas precisa de mais apoio. De lá pra cá, a prefeitura da limpeza urbana, de muita coisa, aqui, a Vila Esperança hoje ela tem, tá tendo, tá vindo. Essas obras aí tem, mas ela precisa de mais essa Vila Esperança aqui, quem tá aqui tá bom.
Eu quero ver lá atrás, passar na principal via Vila Esperança, é bom. Entra lá atrás, vamos dar uma volta lá atrás, vamos ver as autoridades que estão lá. Tem de vir aqui ver a realidade, porque eu sei, não todos, mas tem gente que conhece da Vila Esperança, só a principal.
E vou falar uma coisa para você, até uma coisa eu posso falar, tenho nenhum problema de falar aqui não precisa ter discriminação não, aqui tem vida e tem gente boa, gente ruim tem em todo lugar, mas aqui é Vila Esperança, tem humildade e pé no chão, quem está lá, se espelhe um pouco e vem pra cá, aqui tem família, tem gente boa.
P/1 - E a relação com as empresas que circulam por aqui, vocês têm boa relação também? Eles ajudam? Eles oferecem algum apoio para os moradores.
R - Aí as empresas mesmo que vêm aqui, é poucas que tem, que é trabalho agregado com a prefeitura. Eu mesmo nesse ponto de vista eu não tenho muito a ver, eu cobro e eles viram as costas, porque eu não estou sentado lá, com aquela caneta para dar um visto na licitação dele, no negócio dele, para quem está lá, por isso que eu lhe falei, estando de vereador as coisas é mais..., mas no meu ponto de vista, eu já fui negado demais, já fui negado pelas próprias empresa, ou falando o português correto, aquele secretário que fala “vai lá que fulano vai lhe atender”, o cara olhar pra mim, “ah fala com o fulano” e ele não sabendo, quem eu sou da base e quem mandou eu ir lá foi o chefe dele e o cara vira as costas para mim. Não vou citar nomes que é falta de ética, mas é um desrespeito, se você quiser eu posso mandar uma seleção de fotos, já passei por tudo aqui dentro do tempo que eu fiquei de vereador, muita inauguração top aí que tem minha assinatura lá tem tudo, e eu chegar, o cara virar as costas para mim, que nem que eu não fosse ninguém? Não é desfazendo dos outros, mas tudo tem que ter o respeito, e esperar você falar e se explicar o que está pedindo, o que tem de ver o cara olhar se baixar a cabeça, olhou, viu que não era a pessoa que ele conhece, e não é assim, tem que ter respeito e humildade, quem está lá, isso aí eu cobro, eu cobro mesmo, eu cobro, converso, eu chego. Mas consigo muita coisa, puxo de um lado, puxo do outro.
P/1 - O poder público tem que estar aqui, né?
R - Tem que estar e tá, ele tá, mas não tá suficiente. É assim, que é grande aqui, é grande, mas tem lá, tem recurso lá, tem recurso mais pra vir. Isso que eu lhe falei, falta gente para puxar. A população tem de saber, não é só naquele dia ir lá e dar para fulano e sicrano, e 4 anos ficar esperando.
P/1 - Imagino que tem muito trabalho de líder comunitário aqui na Vila Esperança.
R - Muito trabalho tem, tem “entre aspas” uns trabalhinhos, uns trabalhinhos, uns trabalhinhos.
P/2 - Falar que, aproveitando que a gente tá falando disso? Que ela chamou, a gente ia marcar entrevista na semana passada, não deu pra marcar que você ia usar seu espaço porque ia ter uma ação da saúde. Conta pra gente, que isso é importante falar sobre isso.
R - É importante, aqui o meu espaço, aqui, o dia de segunda e terça que nem eu falo, aí eu libero para tudo, o cara quer fazer uma ação da Saúde, as meninas do PAMA aqui do Morro do Caic, às vezes vem para aqui, fica liberado, como está hoje, abre a gente abre as portas ali, a gente põe umas cadeiras, a gente não atende ninguém na segunda e na terça, é liberado para todos, já tem aí uns 3 anos que eu libero para fazer, que nem tem outro pessoal aí que vem para montar a barraca, que é o plano de saúde, o plano de vender os carros dele, moto, põe as barracas aqui na frente. Eu sempre estou ajudando do meu jeito, né? O meu espaço, o meu espaço eu deixo liberado para quem precisa, para a comunidade, porque é bom para a comunidade. O postinho lá, nas vezes não tem um espaço, vão marcando as consultas e falam com o prefeito e manda, “ó, vai ser no bar do Cabeça“ quando dá fé, aqui tá cheio de gente.
P/1 - O que já aconteceu aqui, então? que é legal esse ponto de encontro, de apoio, né? O que já aconteceu de ação aqui dentro?
R - É do plano, que veio fazer pesagem de criança, as consultas aqui, tá? Quando tá muito tumultuado lá no posto, aí eles marcam, tudinho, porque o posto aqui, nessa vila aqui, nós só temos 1 posto de saúde aqui e é muita gente. Aí chega uma hora que fica muito. Aí pega aquela, o mutirão, né, que ele fala, o mutirão aí vem para aqui, aí faz aquela ação de saúde, é bastante gente pra ser atendido, para querer, agora estão fazendo lá embaixo, no ponto final, porque, ficar só no lugar ali, plantado sabe que é meio difícil.
Aí, a saúde aqui estão sendo bem, nesse mutirão que estou fazendo, ele vai lá no ponto final, vai lá no Leco, vai lá dentro da Ilha Bela, tem um bar do grande amigo meu lá, o Guimarães, que ele tem um espaço grande, aí sempre faz esse Saúde lá.
Essa semana eles fizeram na entrada da Vila lá, liberou um espaço, lá, fizeram as barracas, fizeram lá porque os postinhos são pequenos.
É que nesse trabalho que tá saindo aí, essa obra que tá saindo na Vila Natal vai ter um posto mais adequado, porque a população aqui aumentou muito rápido, foi aumentando, aumentando e ficou parado. O postinho de saúde daqui já fechou sexta feira às 16h, vai abrir sabe quando? Quarta, porque tem esse feriado aí vai acumulando as consultas e tudo. Aí a gente libera o espaço e vai fazendo aí.
P/1 - É um apoio, né?
R - É um apoio, é um apoio, a gente fechou apoio para pessoa e outros que quer fazer alguma coisa assim, favorecendo a população, eu estou disposto a liberar o espaço.
P/1 - Por que que a música que você põe aqui, a comida nordestina é importante para a população? O que que é? O que isso representa? Também?
R - Isso aí eu me espelhei no Nordeste, e aqui o que mais tem é gente que vem de todo lugar do Nordeste, vem para a cidade trabalhar nas indústrias. Porque eu já me espelhei nos outros, a gente sempre olhando o trabalho do próximo para fazer o seu e tentar fazer o melhor, cada um se fortalecendo, eu vi que muita gente aqui, veio para as parada, para as obra e fica procurando e vai no restaurante, tem muita salada, e pensa, “mas lá tem uma comida nordestina” Aí fim de semana pede para fazer aquele galo, aquela rabada, aquele mocotó, aquela mocofava. Aí eu vou e falo com a chefe, a chefe vai e faz aquela comida. É o reduto que o pessoal que tem, aí vem a comida nordestina, por causa disso que eu lhe falei. Não é só a comida nordestina, tem outra. Era só nordestina, aí eu agreguei às outras comidas, porque ouvi que vem gente que quer comer uma comidinha mais leve, aí nós agrega, a comida.
P/1 - Lazer e diversão são importantes na vida, né
R - Importante, importante essa coisa que eu faço no domingo, esse forrozinho, o pessoal, tá de boa, no domingo começa cedo e termina cedo, meia noite. Tá parando tudo porque eu penso na molecadinha que vai estudar, o barulho. Querendo ou não, tem vizinho do lado de dentro, eu não avanço à noite, eu tenho horário, né? Começa cedo, aquele sonzinho, sem ser um som estourado, é um som caseiro, é um forró ao vivo. Não é caseiro, mas é um som bem suave. Aí, graças a Deus, é só. Só abençoando.
P/1 - Porque Cabeça, a vida é difícil pra muita gente, né? E não tem um lugar pra se divertir.
R - E aqui a dificuldade é essa que eu te falei, do que eu falei, o campinho ali, o que aconteceu? Tiramos. Aqui a molecada pega a bola, um monte de bicicleta, vai lá para baixo, vai lá para Cubatão, onde tem umas quadras, um campinho, mas não tem a diversão, o que vai ter é um campo lá embaixo, que vocês, eu sei que você passou, passou lá embaixo, tem um campo lá, tem mais nada, numa multidão de criança, quando a gente faz qualquer evento para criança aqui é tanta da criança, rapaz! E o que eles pedem? Bola, Bola, o que eu dei na festa das crianças? Se tiver bola e boneca, foi a festa, vai lá, compra só bola e boneca, eles não pedem nada.
P/1 - Fala da festa da criança que você faz.
R - É 14 anos, todo ano eu faço, chega o mês de outubro, eu faço essa festa, já fiz festa aqui, bato meio, faço a festa, é o meu forte aqui é dar alimento, refrigerante, bolo, bala e comprar os brinquedos. Eu já fiz aqui festa de eu doar para criança que tem, é tanta da criança agora que nós pegamos e fazemos o sorteio. Sorteio bicicleta, sorteei um monte de coisa, no sorteio e eu achei engraçado que as crianças não olham o preço, eles querem ganhar, um ganhou uma bicicleta, eles brigando com o coleguinha, “ganhei uma bicicleta.” Ele vai ganhar uma boneca, a menina ganha uma boneca, o menino ganha uma bola. Ele fica o maior, feliz! Carente, as crianças, carente demais, carente. (intervenção)
P/1 - Você começou a me falar então, da festa das crianças. Quantas crianças você junta?
R - Olha, não tem quantidade, que é muita... assim, a festa começa devagarzinho, dá aquela multidão aí é quando acaba as outras festas que tá no mesmo dia que a gente, sempre no meio das crianças. Todo sábado, domingo tem festa, principalmente no domingo, aí a tarde chegou, uma hora que eu olhei e passava de 200 a 200 e poucas crianças.
Se você ver o vídeo das crianças aplaudindo, brincando, a gente põe os brinquedos, não reclama de nada. Eu acho engraçado que tá lá os pula-pula tudo, começa a briguinha e eles vem me puxar “Ô Cabeça, olha ali, Cabeça, a menina tá errada.” E eu fico, vou lá, agrado um, agrado o outro, aí não vai, quando vai começar aquele… Eu falo “venha aqui, vamos ali, vai tomar um refrigerante, vai comer um lanche.”
A gente faz uns bolão, uns patrocínio ajuda, né? Ninguém faz nada só, converso com meus amigos aí do mercado, um ajuda com o pão, o outro ajuda com o bolo e eu vou e faço aquela, é 14 anos que eu faço essa festa, bate no mês de outubro eu faço, pode ter festa, não, eu tiro um domingo e faço o meu. Ele saí e foi uma coisa que eu pedi de mês de outubro, fazer para ajudar as crianças. Já tive muito patrocínio, já fiz festa boa aqui, de dar um monte de brinde e tudo. Tem ano que dá aquela apertada, nós faz mais suave, porque é aquele patrocínio, a gente não tem um, mas tem uns projetos, agora, melhor que eu tô trabalhando, eu passei lá na Câmara, já vi como é que é, peguei os projetos. Tem associação que eu faço parte, agora que a Associação Cultural Nordestina em Cubatão já tem CNPJ e tudo para mim chegar no patrocínio, mais porque tudo é isso, você vai, você vai, é o dia a gente aprende no dia a dia, ninguém nasce aprendido, aí vou trabalhando e puxando, ajudando, aí vou fazendo minha parte.
P/1 - Por que você teve essa iniciativa?
R - De ver as crianças assim, até meio carente, aí eu comecei. Eu lembro que o primeiro ano que eu cheguei aqui, eu cheguei, eu abri junho, foi julho, assim, quando foi Dia das Crianças, aí rapaz, aí eu abri o bar e aquele monte de gente, e sempre umas crianças, sempre as crianças. Eu ia no mercado, eu, a iniciativa veio assim de mim, eu falei, outubro, dia 12 de outubro, eu lá vendendo rango, aquele monte de criança. Aí eu no mercado, comprei aquele monte de bala, de doce, de tudo, aí vim, fiz os pacotes, a mulher falou “tudo vai dar pras crianças”, eu disse “Vou fazer uma brincadeira para as crianças”. Eu aluguei um pula-pula, bem pequenininho e fui ali na frente. O pessoal chegava para comer tudo, aí as crianças iam lá, ficava pulando, vinha, comia, saia, dava um pacote de bala. Aí aquilo pegou. No outro ano eu já ”Opa, a festa foi boinha, eu vou fazer outra melhor.”
Hoje, quando chego, quando as crianças que os grandinhos vão, o moleque que comia meu coisa aqui, hoje é casado, tem filho, tem um, que nessa agora, que ele comia a minha bala e o filho dele, nessa agora, ganhou uma bicicleta no sorteio, a criança ficou tão feliz. Foi pouco brinde, mas o é o que deu, ou é pouco brinde, assim mais suave, é muito brinde pequeno, eu pego umas coisinhas num precinho... umas coisinhas, mas as crianças recebem com o maior amor.
Criança é que nem criança nós da bala, né? E no final eu começo dando refrigerante, aquele lanchinho, um pão com salsicha, aí depois vem um bolo, recheado ali para cortar para todo mundo e no final eu faço o sorteio, eu falei lá atrás, a gente pegava, dava, comprava um monte, que eu falo na vaca gorda, na época dava para todo mundo, hoje eu faço sorteio, um ganhou uma bicicleta, outro uma ___ o outro ganhou uma fralda. Aí nessa hora, eu faço sorteio tudo, aí na reta final eu dou um saquinho de balas, o saquinho de bala é o fechamento, para ele já pegar e... aquela fila, era uma fila enorme, aqui na festa passada, que era uma fila e todo mundo saiu satisfeito.
P/1 - Como é que você se sente?
R - Ah, eu me sinto tão feliz no meio daquelas crianças, é uma emoção tão grande. Aí eu acho engraçado, um abraça, outro bate palma, porque tem um vídeo aí rodando na rede social e todo mundo gritando “é Cabeça, é Cabeça”, e eu no meio deles, ali, eles gritando e tem um bem pequenininho no colo, nas costinhas do outro, batendo palma ali, gritando, eu me arrepio todo, e fico assim.
P/1 - Por que isso te emociona?
R - Me emociona é uma coisa que eu não tive lá atrás, eu não tive e hoje eu tenho como ajudar essas crianças, eu pegando meus amigos, meu patrocínio, eu correndo atrás, batalhando, ajudando. Eu me sinto assim, nem tenho nem palavras, e faço cada dia mais, eu sempre falei “um copo d'água, um prato de comida e uma ida no banheiro, não se nega para ninguém”.
P/1 - Você já mostrou pra sua mãe esses vídeos?
R - Mas eles veem na rede social, hoje os irmãos, família, tudo a gente posta, vê tudo. É gratificante demais. Fico até me emociono porque minha vida não foi fácil lá atrás. Falei no começo, nunca passei fome, porque ter o que comer você pode ter ali aquela comidinha, porque passar fome, é quando você não tem o que comer, quem veio da roça, quem trabalha na roça não passa fome, passa uma dificuldade mais fome nós não passamos. Aí eu vejo aí que eu tenho que trabalhar, eu faço tudo, trabalho muito tentando ajudar, o que eu posso, o próximo. O que eu puder ajudar, eu vou trabalhar para isso.
P/1 - E é importante ajudar as crianças da Vila Esperança?
R - Da vila em geral, eu, a Vila Esperança, eu trabalho cada dia mais para fortalecer, a Vila Esperança em geral e os outros bairros quem me chama para ajudar no olhar. Vamos um pouquinho de cada, você não pode dar uma quantidade da cesta, um pacote de balas é bem-vindo. Eu vejo gente aqui que às vezes vem com um pacote de bala, e eu pego com o maior amor, porque eu sei que ele tá dando um pacote de coração. Não adianta trazer um caminhão e jogar, não adianta, para mim, o que vem para mim é bem-vindo. E do mesmo jeito eu vejo, tem gente que me ajudou aqui, que não é nem do bairro, mas “não Cabeça vou te ajudar lá,” e simples, é pequena, mas é com humildade e amor.
P/1 - Tem alguma história que já aconteceu aqui dentro desse bar que é muito importante pra você?
R - Rapaz, que eu vejo aqui tanta história de vida, é muita, né? Mas eu penso assim qual foi a mais que eu...
P/1 - Um dia que você nunca vai esquecer?
R - Olha, eu vou, eu vou falar da política, falar da política uma coisa boa, o respeito que eu tenho de todos virem aqui. E na época que eu tirei uma foto com meu bar, o maior pequenininho aqui, e chegar uma comitiva lá de São Paulo, o pessoal, os deputados, tudinho aqui dentro. Primeira vez que quando eu comecei o bar assim, que eu comecei, até hoje eu tenho a foto. Eu olho assim, vejo aquele cara fortão e eu vi a vida dele... e é o saudoso Bruno Covas, chegou ali, tirou uma foto abraçado comigo, maior gordão. Aí eu falo “a vida é rápida, curte e cuida dela. E pensa no próximo”, porque você vê, eu vejo, tanta coisa que eu vejo aí, e o respeito que eu tenho aqui por muita gente lá fora, é muito próximo, não, não tem isso, entendeu?
P/1 - Que significa a Vila Esperança para você?
R - Hoje a Vila Esperança hoje para mim é meu ponto, criando meu filho, vivendo aqui dentro, a Vila Esperança para mim é um reduto que eu vou trabalhar e batalhar para ver ela cada dia melhor. É trabalhar para ajudar o próximo, e trabalhar para puxar recursos de lá e trazer para aqui e cobrar das autoridades aqui, é fazer lá todos, sem exceção, vêm para a Vila e respeita a Vila. Não é que não respeita, ver que a Vila é nossa, aqui tem de tudo, e tem gente boa. Tem gente maravilhosa aqui e trabalhador.
P/1 - O que você quer para sua vida daqui pra frente?
R - Eu trabalhar mais, trabalhar, muito sucesso. Todo dia tenho sucesso. Minha vida é um sucesso. Fale o que quiser, o que quiser. Mas para mim minha vida tá linda, trabalhando muito e não paro. Falo para Vila Esperança, para os amigos aí da Vila, vem com o Cabeça, o Cabeça tá aqui, guerreiro trabalhando.
P/1 - Você quer continuar aqui?
R - Sim, continuo aqui, moro aqui, vivo bem aqui e vou continuar na Vila Esperança. Não penso em sair da Vila. Tô aqui, tô de boa. Aquela do Nordestino “Tô de boa na Vila Esperança, para cima é trabalhar, trabalhar.”
P/1 - E algum sonho?
R - Sonho? Vocação, sonho. Tenho... a minha vida, tá? Graças a Deus. Meu sonho é trabalhar e trabalhar para chegar naquele nível, sentar naquela cadeira de vereador, trabalhar para isso. Tô trabalhando já pra cima, com fé em Deus.
P/1 - Tô imaginando que você saiu lá de Pernambuco e você continua indo visitar sua mãe?
R - Ano passado mesmo fui, e vou voltar lá agora. Quando dá aquela dor de cabeça aqui, eu falo “Vou visitar minha mãe” compro a passagem, que hoje a facilidade é bem melhor. Aí compra passagem, vou, vou lá, fico 2, 3 dias lá na minha mãe, que tem gente que nem percebe. Eu vou lá e volto.
P/1 - Mas onde é sua casa? Onde é sua casa?
R - Hoje aqui eu moro aqui, né não?
P/1 - Onde você se sente em casa?
R - Na casa da minha mãe.
P/1 - Lá?
R - Não, não, eu me sinto bem na minha casa, mas da minha casa aqui e na casa da minha mãe, eu me sinto muito bem.
P/1 - Eu sua mãe nunca pensei em vir para cá?
R - Ela já veio, para morar não, passear ela já veio, veio passear. Aí tem uns bons anos, a idade, né? 80, 81 anos já, a idade ela não quer vir, tá lá de boa, grandona. Dona Zefa é conhecida como Dona Zefa lá, cuida de casa, tem um irmão maravilhoso lá que cuida da minha mãe. Lá tem duas irmãs e um irmão, aí um irmão que mora com ela, é casado e mora em casa com ela, cuidando da velha, é uma bênção de Deus.
E a gente sempre está se falando, conversando, qualquer problema, estamos ligando com a família, as irmãs aí e todo dia ligando. Aí eu fico meio ausente de tá ligando porque as minhas irmãs tá todo dia ligando, mora tudo aqui, é 6 irmãos aqui na Vila, tudo, que mora ali mais pertinho. Aí eu me sinto eu daqui, e é o que eu falo, dá uma dorzinha de cabeça eu visitar minha mãe, minha mãe é meu chão, minha vida, tudo, e aqui, é minha esposa do meu lado me ajudando. Esse trabalho aí é, 26 anos, 14 no começo aqui, com mais 3 lá embaixo, dá 17 anos, só no comércio, trabalhando, não tem o que reclamar.
P/1 - Cabeça seus irmãos, eles também moram aqui na Vila Esperança, trabalham por aqui, cada um tem seu barraquinho próprio?
R - Cada um tem o seu barraco, cada um vive sua vida, tudo trabalha. Só tem um que afastado, do acidente de perna, mas estava até ali passeando, fica só passeando, é aposentado, leva a vida dele, isso tudo trabalha, trabalha, vive bem, vai tudo na paz de Deus. Graças a Deus a gente tem dor de cabeça, não.
P/1 - Todo mundo vem almoçar aqui de domingo?
R - Aparece todo mundo, família de fora que mora em outros bairros, ah, vou no Cabeça, de São Paulo desce, o ponto é o Bar do Cabeça se vai para a casa do outro irmão, mas tem que passar por aqui. “Ah, vamos no bar, aqui no bar, que o Cabeça fala onde é, leva, onde é…” É a família que nem eu falei, a família é grande, muito amigo, amigo que veio de lá mesmo, do nosso Nordeste para cá, chega aqui, vem conhecer aqui, porque veio de lá e quer comer a comida da nordestina, deixou a mãe lá, e vem no Bar da Cabeça que tem.
P/1 - A sua diversão aqui também, a sua diversão?
R - É aqui, que eu vejo todo mundo, ocupa todo mundo, mas eu vou em tudo e todos os comércio da vila, que me conhece, porque além de eu ter o meu bar, eu visito o bar dos amigos e nessa, nesse trabalho que eu faço na segunda feira, o “encontro dos botequeiros” é um projeto meu, um trabalho meu, eu que inventei isso aí há uns anos atrás. Aí tem 2 anos que eu vou num bar diferente, num bar diferente, com a comida nordestina na segunda feira e as bandas de forró e tem 5 bandas de forró tocando naquele bar, 5 bandas que um toca e o outro vai, um faz participação, um outro, o som e toca e o outro faz participação. Aí hoje uma banda ganha, na outra, segunda a outra ganha e vai rolando.
P/1 - Como é que chama o projeto?
R - “O Encontro dos Botequeiros em Cubatão”.
P/1 - Por que você inventou isso?
R - Que nem a minha, eu falei, dia de segunda-feira, o que é que nós faz? Nada. Aí montamos, comecemos lá no viaduto. Tu sabe onde foi o primeiro dia? Debaixo daquele viaduto que tem na praça, a Vanessa, uma amiga nossa que é botequeira, ontem eu fui na casa, no barzinho dela. Ela tinha uma barraca, aquela barraquinha, fazia um lanche, fazia tudo, aí nós conversando, mais outros meninos aqui, “vamos fazer um, aquele “Encontro do Boteco”, aquele lá na Vanessa, vamos começar lá? ” - o quê? Falei “Vamos pedir pra ela fazer uma galinha e nós vai lá comer.” A Vanessa pegou um tachão grandão, pegou uma galinha, cozinhou, mas rapaz, eu nunca vi aquilo não, comida boa demais, comer debaixo do viaduto, nós enchendo (o prato), comendo, um arroz branco ali, um negócio ali, comida Top.
E dali saiu o “Encontro do Botequeiro", hoje foi aqui, “vamos fazer no outro menino no Costa e Silva?” - “Vamos”. Aí eu fui chamando os amigos, começou em 5, aí uns começou e foi entrando no outro, teve uns que foi saindo, hoje nós fechamos um grupo, tava em 12, aí fechou em 10, porque teve, o que teve uns problemas no trabalho, não dava para participar, hoje é 10, e roda a cidade toda, Encontro dos Botequeiros em Cubatão.
Vem gente de tudo, banda de forró de outro lugar. E agregou o quê? Dono de bar que nem conhecia o Bar do Cabeça, não conhecia ninguém, ele começou aí, começou a gostar. Hoje está lá, com os outros, já entrou no projeto, virou aquela tradição de Cubatão, que não tinha nada na segunda, e hoje, no começo, vamos falar o português correto: a polícia, a polícia passava, via aquele tumulto e ia lá para saber o que é, a gente foi conversando, explicando: “Não, é os meninos do Botequeiro”, porque é o dono dos comércio, o dono do Comércio, quando ele vai comércio do outro, ele quer pagar para aquele amigo dele, que é cliente dele, isso que agregou muito e chamou muita gente, porque é muito dono de bar junto, além dos caras do projeto, vêm outros donos de bar. Aí essa menina que era o barzinho lá, e tirou, aí já montou um ponto, já voltou para um ponto melhor, o ponto dela é top, nós fez na festa agora lá, top, Encontro dos Botequeiros. Aí na próxima segunda já é lá no Poção, depois volta para o centro, depois volta para aqui, e a gente fica girando a cidade.
P/1 - Aí, um vai ajudando o outro, né? Um vai ajudando o outro.
R - E um vai ajudando o outro. As bandas de forró, tu vê, que era cada um com sua banda, hoje as bandas agregou, é aquela união top, as bandas tudo eles começa a tocar, depois as mulheres começam, só as mulheres tocando, os homem tocando, virou uma união ali entre as bandas de forró e os botequeiro, agregou o pessoal que ficava meio cada um do seu lado, entendeu? Puxou, ficou bem legal isso aí.
Aí,nós fizemos um aniversário de 2 anos em setembro, agora, dia 10 de setembro, foi aniversário de 2 anos, foi total a festa, que nós não tínhamos espaço, eu conversando com meu prefeito César Nascimento, ele pegou, liberou o espaço da quermesse lá no Píer do Casqueiro. O espaço Top, eu falei, ele liberou 3 dias, mas desceu e foi lá, e o pessoal deu aquela, aí liberou o domingo, nós põe um boi no ‘rolê’, sabe o que é pôr um boi no rolê na cidade? Pô, na faixa, boi no rolê com a comida, um feijão tropeiro, um vinagrete, uma farofa, contratei um pessoal lá do interior de São Paulo para vir assar o boi. Fui no frigorífico, pedi o boi, o frigorífico comprou o boi matou, e entregou no carro de frigorífico. Lá, na hora que os caras chegaram, deu o ponto de referência, os caras vieram para aqui no dia. O cara chegou no sábado ao meio-dia, põe o boi pra assar às 16h, no outro dia às 14h que foi liberado pra comer, é bastante hora, quase 18h assando um boi, entendeu?
P/1 - Então foi um festão?
R - Um festão, umas 11 bandas de forró tocando, começou das 15h até a meia noite. E o palco? aquele palco da quermesse, tinha banda que nunca tinha subido num palco tão lindo daquele, e nós pegou as festas, que a gente tem na festa, tem o um menino que é DJ e tem o fotógrafo, o fotógrafo, pra fazer a festa todinha, que ele nos acompanha, filmar tudo e fazer aquele coletivo na hora. E a festa? As bandas entravam e saiu a programação todinha, um entrava e saía outra entrava; Aquela multidão de gente e as barracas, nós agregou os botequeiros, era tão pouco que nós agregou mais 18 barracas da feira criativa que tinha lá. O pessoal que fazia comida, fazia lanche, fazia tudo lá. Falaram comigo, eu, “não vamos agregar aí”, porque eu não tenho ambição de nada, eu quero ver a coisa acontecer e quero ver a população de bem.
“Ah, fez lá no Casqueiro? Por quê? Por que não foi na Vila?” Podia fazer na vila, mas um aniversário de 2 anos eu já sabia que era uma multidão, o de 1 ano, nós aqui na Vila Natal, fechou a rua. Uma multidão de gente, nós pegamos um cantorzinho melhor, põe ali, nós faz um rateio ali, entre os botequeiro e faz aquela festa. A festa acontece. Você querer fazer, é ter humildade de agregar gente, ninguém faz nada sozinho. Com a equipe dessa botequeiro no Encontro do Botequeiro? É quando for lá no YouTube, vai lá e conta do botequeiro que bateu com o vetor da página na Chapada.
P/1 - A sua maior realização, seu maior orgulho?
R - É de ser. Como é que eu posso falar? De trabalhar e ver tanta gente boa do meu lado, quer dizer que não tem mais para mim, o meu maior orgulho é fazer, para mim mesmo, que eu faço, que eu me sinto bem, e eu me arrepio todinho, é essa festa das crianças, é quando eu vou numa festa, que tem criança, que eu participo, que eu gosto de ajudar e ver o que está acontecendo.
Porque não adianta eu só fazer e não ver o que está realizando com essa festa das crianças. Para mim, que eu faço todo ano, para mim é orgulho, o que eu vi de criança chamar meu nome aqui? Eu durmo tão leve, parece que eu só estou vendo aquelas crianças me chamando toda hora.
Tinha gente que tava aqui de fora, que viu e disse “Mas, Cabeça vai ter essas crianças toda hora lá, estão lá”, vou estar lá, um entrou no pula- pula, demorou um pouco, a outra quer tirar, e vai e me chamar, falo “calma, vem aqui.” Aí puxo ele, dou refrigerante, brinco ali e trago de volta para brincar.
O meu maior orgulho é porque eu já trabalho, já vivo minha vida, o que eu faço para o próximo, para mim, é meu maior orgulho e principalmente a festa das crianças todo ano e cada dia fortalecendo para ser melhor. Eu tirei daqui outra vez e fiz numa rua ali numa rua top demais também. Eu pretendo crescer mais, para aumentar mais, levar para um espaço melhor e levantar o público. (intervenção)
P/1 - Uma reflexão sua, aquele menininho que gostava de pegar a enxada e ajudar o pai que hoje é dono desse bar, que junta tanta gente, que traz tanta alegria para essa comunidade. E aí, o que que passa na sua cabeça quando você lembra disso tudo?
R - E eu passa na minha cabeça, é um filme pra mim é um filme. Eu vejo minha infância lá, eu trabalhando, que nem eu falei aqui e você trabalhar, você prestar serviço lá. Ah, vai trabalhar para o gado, pros outros. Eu vim da roça, quando eu saí daqui para lá, eu tenho o maior orgulho de vir de lá trabalhar, lutar porque eu lutei, chegar, a ser, hoje sou um ex-vereador considerado, registrado ali, o meu orgulho é trabalhar com esse pessoal.
Eu vim montar meu comércio dentro da Vila Esperança, nunca tive comércio fora. Meu comércio foi aqui dentro da Vila Esperança. Eu não tenho palavras, só agradeço a Deus todo dia. Agradeço a Deus todo dia, e não tenho o que reclamar de nada na minha vida, porque a vida não é fácil, quem veio de lá que eu vim num carro, num pau de arara, batalhando de lá até aqui e chegar aqui, morar que nem eu falei. Eu já morei em local em que eu entrava de frente e saía de costas, não tinha espaço. Hoje eu tenho minha casa para morar, tenho minha vida, meu filho trabalhando e estudando, com essa mulher que eu estou, a Maria Valdete, que é uma guerreira, me ajuda muito, me fortalece muito. Tem as horas difíceis? Tem. Todo mundo tem, mas ninguém é perfeito. Mas graças a Deus não tenho nem palavra, tô aí, vivendo, trabalhando e cada dia mais e passar a ser um vereador vindo de lá para cá na condição que estava e hoje tá aqui dando entrevista para vocês. Eu não tenho nem palavra, mesmo porque é muito gratificante isso aí. Só tenho a agradecer a Deus e a todos. É isso que eu tenho a falar para vocês.
P/1 - A gente agradece.
R - É bom demais.
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