PCSH_HV1390_ Aloísio-Paraguassú
Entrevista de Aloísio Paraguassú
Entrevistado por Lucas Lara
Mucugê, 19 de agosto de 2023
Projeto Conte Sua História
Entrevista número PCSH_HV1390
Transcrita via Transkriptor
Revisada por Natália Santiago
00:00:00
Entrevista de Lói, Aloísio Paraguassu, entrevistado por Lucas Lara, Mucugê, 19 de agosto de 2023. Bom Seu Lói, primeiramente, muito obrigado por ter separado um tempo para conversar com a gente no museu.
P/1: Eu queria que o senhor começasse falando o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.
R/1: Olha, o meu nome completo é Aluizio Paraguassu, meu pai era Nésio Pina Paraguassu e minha mãe, Maria Júlia de Jesus. Eu ia nascer um tempo depois. Mas meu irmão, um menino de 14 anos, já queria ser homem e tava brigando. E pegou um facão para cortar, para brigar com uma mulher. E aí o cara ainda falou “Soe, você vai fazer a sua mãe perder a cria, viu?”, porque cria é de animais assim, de gado e coisa aí. Aí mãe ficou nervosa com aquele negócio e chamou a menina que ajudava lá em casa. Falou “Pixuta, vamos comigo lá na biquinha pra pegar água lá da biquinha”. Ela pegava sempre água do Lapão, que a gente só bebia água da Serra, né? Nas Minas da Serra, que tinha Lapão, Cacimba da Póvoa, Cacimba do Queima, Canalzinho, Biquinha e Cacimba… e Céu. Era várias Cacimbas que tinha. Então, como a água do Rio era vermelha, nas cacimbas, nos quintais todos tinha Cacimba, mas a água não era potável, a água era insalubre, só servia mesmo pra molhar planta, pra lavar prato, lavar as coisas, até lavar roupa. Mas a gente bebia água da Serra, que era cristalina. Então, Pixuta pegou a lata, mãe falou “pega uma lata pra mim também” e levaram duas latas lá pra biqueira. Mas mãe, tava era nervosa. Ela sentiu que dentro dela tava mexendo, acho que eu tava atacado lá dentro. Aí vai lá pra biquinha pegar água. Quando chega lá, aí quando melhorou um pouco, ela pegou...
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Entrevista de Aloísio Paraguassú
Entrevistado por Lucas Lara
Mucugê, 19 de agosto de 2023
Projeto Conte Sua História
Entrevista número PCSH_HV1390
Transcrita via Transkriptor
Revisada por Natália Santiago
00:00:00
Entrevista de Lói, Aloísio Paraguassu, entrevistado por Lucas Lara, Mucugê, 19 de agosto de 2023. Bom Seu Lói, primeiramente, muito obrigado por ter separado um tempo para conversar com a gente no museu.
P/1: Eu queria que o senhor começasse falando o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.
R/1: Olha, o meu nome completo é Aluizio Paraguassu, meu pai era Nésio Pina Paraguassu e minha mãe, Maria Júlia de Jesus. Eu ia nascer um tempo depois. Mas meu irmão, um menino de 14 anos, já queria ser homem e tava brigando. E pegou um facão para cortar, para brigar com uma mulher. E aí o cara ainda falou “Soe, você vai fazer a sua mãe perder a cria, viu?”, porque cria é de animais assim, de gado e coisa aí. Aí mãe ficou nervosa com aquele negócio e chamou a menina que ajudava lá em casa. Falou “Pixuta, vamos comigo lá na biquinha pra pegar água lá da biquinha”. Ela pegava sempre água do Lapão, que a gente só bebia água da Serra, né? Nas Minas da Serra, que tinha Lapão, Cacimba da Póvoa, Cacimba do Queima, Canalzinho, Biquinha e Cacimba… e Céu. Era várias Cacimbas que tinha. Então, como a água do Rio era vermelha, nas cacimbas, nos quintais todos tinha Cacimba, mas a água não era potável, a água era insalubre, só servia mesmo pra molhar planta, pra lavar prato, lavar as coisas, até lavar roupa. Mas a gente bebia água da Serra, que era cristalina. Então, Pixuta pegou a lata, mãe falou “pega uma lata pra mim também” e levaram duas latas lá pra biqueira. Mas mãe, tava era nervosa. Ela sentiu que dentro dela tava mexendo, acho que eu tava atacado lá dentro. Aí vai lá pra biquinha pegar água. Quando chega lá, aí quando melhorou um pouco, ela pegou a lata e foi levantar a lata pra botar na cabeça. Eu nasci. Então, aí o menino Pixuto falou “oh dona Julinha, deita aí”, me botou em cima do peito dela e veio correndo para chamar a parteira e avisar lá em casa que a mãe tinha parido. Então, por isso eu digo “eu nasci no cemitério”, porque quando o Pixuta chegou, passou na casa da parteira, Sá Maria Vitória e falou “Sá Maria, dona Julinha foi pegar água na biquinha e pariu lá, lá junto do cemitério. Vai lá pra terminar o parto, porque ela ficou sozinha.” Sá Maria Vitória pegou as coisas dela, que era acostumada a fazer o parto, e foi lá pra biquinha e ela veio para cá. Chegou lá em casa, “cadê seu Anésio?”, “tá no escritório”. Ela foi lá pro escritório e falou “seu Anésio, dona Julinha pariu lá no cemitério”. Então, por isso eu digo, eu nasci no cemitério, né? Aí Sá Maria já estava lá, já teve parto, anunciaram. E aí, o pai estava comprando nessa casa daqui e aí fechou o negócio. Falou” fechado ou aberto o negócio, porque eu vou cuidar da coisa mais importante”. Então eu achei que eu sou importante, né? Ele foi cuidar de mim. E aí foi falar e eu nasci aí, desse jeito. Aí cheguei em casa, aí foi cuidado. Tinha acontecido uma coisa interessante. É que tinha um primo meu, Joaquim Paraguassu, ele trabalhava no garimpo e falou “Sá Julinha, tia Julinha, se esse menino que nascer for uma pessoa boa, eu vou pegar um diamante. E se eu pegar um diamante, eu vou dar um presente ele e vou batizar ele”. E saiu. Aí pronto, aí ele foi pro garimpo, né? No dia que que eu nasci, ele chegou lá em casa. (fala do padrinho) “Sá Julinha, o menino vai ser gente boa. Eu peguei o diamante. Cadê tio Anésio?”. Aí, “Anésio tá lá no escritório” e ele foi lá vender o Diamante a pai por 80 mil réis e me deu a moeda de dois (réis) e a moeda tinha a data da Batalha de Riachuelo. E que exatamente aquele dia estava fazendo 77 anos da Batalha de Riachuelo e a medalha tem a data de Riachuelo. Medalha não, é a moeda. Essa moeda tenho até hoje guardada, né? Aí, por isso eu digo pra todo mundo “nunca fiquei um dia sem dinheiro”. Então [risos], eu nasci com dinheiro e nunca fiquei um dia sem dinheiro
(00:04:24) P/1: E que dia foi esse Seu Lói?
R/1: 11 de junho de 1940.
(00:04:28) P/1: Aqui em Mucugê mesmo?
R/1: Aqui em Mucugê.
(00:04:30) P/1: E fala um pouquinho pra mim sobre os seus pais.
R/1: Meu pai era comprador de diamante e minha mãe era doméstica, né? Aí vivia pai, vivia, era no escritório, é comprando diamante. Meu pai era filho de Joaquim Antônio da Silva Paraguassu e era descendente de Catarina Paraguassu. É gente, meu tio Anísio tinha árvore genealógica da família, mas depois que ele morreu, os papéis dele desfizeram dos papéis e aí perdeu toda essa documentação de, como é que diz, de ascendência, né? Então, a gente diz, eu sou descendente, mas não tenho prova de mostrar. Mas quando as pessoas me procura (pergunta) “é, mas você conhece alguma coisa sobre Catarina?”. Aí eu falo, não, a história que eu ouvia contar é que o pai dela era Tibirú e eu nunca mais vi em outro lugar. O pai de Catarina era Tibirú, porque hoje é Itaparica, né. O pai dela é o Itaparica, então, mas é o mesmo. Só que mudou alguma coisa assim, eu não sei a história, na genealogia da gente tinha Tibeirú, que era o cacique, não sei se é Tupi Guarani ou não sei qual é a descendência dele.
(00:05:48) P/1: E o senhor comentou do seu irmão antes de nascer, quantos irmãos são?
R/1: Meus irmãos são, eram 13. Quatro mulheres e nove homens. Hoje só tem três homens e uma mulher, os outros já se foram.
(00:06:04) P/1: E como é que era o senhor nessa escadinha? Eram mais velho, mais caçula?
R/1: Não, eu tava no décimo lugar. Depois de mim, nasceu mais três [risos].
(00:06:14) P/1: E como é que era essa casa onde o senhor cresceu? O senhor falou desse espaço aqui que foi comprado no dia que o senhor nasceu.
R/1: É essa casa aqui foi comprado no dia que eu nasci, mas meu pai tinha uma outra casa onde morava, que o quintal não era tão grande quanto esse, mas era também grande, aonde plantava feijão, plantava milho. Era, devia dar mais ou menos uma tarefa e meia, não chegava talvez um hectare. Mas lá no quintal tinha lima, tinha laranja, goiaba. Mãe fazia latada de chuchu, tinha muita coisa no quintal. Criava galinha.
(00:06:48) P/1: E o que que o senhor gostava de brincar quando era criança?
R/1: Ah, eu brincava muito era com beca, matando passarinho. Eu gostava muito de matar passarinho e jogar bola. Tanto que a bola de meia, aqui a rua é muito irregular, que tem pedra de 10 centímetros diferente da outra. De vez em quando, no grupo da gente, jogando bola de meia, um arrancava a cabeça do dedo [risos]. Você conhece bola de meia? De vez em quando eu faço alguma, mas eu fazia para vender, né? Uma vez, eu fiz 30 bolas de meia e 30 peteca. Vendi tudo para Minas Gerais, para Pernambuco. Vem uma excursão da escola, era de Pernambuco e eles disseram que peteca tinha acabado, a tradição. Aí levaram peteca para poder lá voltar na, como é, educação física lá no colégio? Aí, botaram peteca na educação física. Falou “eu vou querer fazer botar seu nome lá. Produzida por Lói, Aloísio, lá do Mucugê” [risos]. Mas eu também, eu com 9 anos, eu já tocava na Filarmônica. Eu aprendi música, entrei na escola de música eu tinha 8 anos e 6 meses. Com 9 anos eu já tocava na Filarmônica. Com 13 anos, eu já tocava em festa, mas também aprendi sapateiro, que meu irmão era sapateiro.
(00:08:17) P/1: Mas conta para mim como é que foi essa entrada na Filarmônica. O senhor que quis, o pai pediu para você aprender um instrumento, como foi?
00:08:22
Não, não. Eu mesmo que quis. Eu via na, o professor passava na porta lá de casa. Eu digo, a banda passava, eu acompanhava a banda fazendo sinal, como se eu estivesse tocando. Aí, o professor falou comigo “você quer estudar música?”, eu falei “quero", “então, pronto, vamo lá em casa”. Eu me lembro, chamava artinha, o abc musical era artinha. Tanto que quando eu fui estudar, no dia que ele me deu artinha, no outro dia eu fui lá dar a lição. Aí, ele “já aprendeu?”, falei “a primeira parte”. Ele “é o que a música?”, eu “a música é a arte de combinar o som de elevação com elevação e sua sucessão combinados, formam cantos que ele chama de melodia e por meio de uma reunião simultânea, forma a harmonia”. Aí, pronto, aí fomos, eu fui estudando e aí entrei tocando o tronco, depois passei pra trompete. E aqui na Mucugê tinha rivalidade das ruas, tinha rua de cima, rua de baixo. Menino da rua de cima, não podia na rua de baixo, igual a de lá também não podia vir para a rua de cima e só podia vir porque a escola era nesse prédio aqui, onde é aqui de frente para o Brasil, aí era liberada pros meninos vim. Mas como eu estudava música e o professor era lá embaixo, o prefeito foi na escola chamar todos, avisar os professores para avisar os alunos da rua de baixo que não podia correr comigo. Então, eu era imune [risos]. Eu podia ir para qualquer lugar que não tinha medo de ninguém.
Vinha a época assim que faltava sal na cidade, sal era muito difícil, então chovia aqui, não tinha sal, só tinha uma loja que vendia sal, chamava Armazém Novo Oriente, de Antônio Almeida e era na rua de baixo. Então, único menino da rua de cima que podia comprar sal era eu. Então, pra rua toda…aí, “ô Elói, anda comer um torresminho”. Aí, ia lá comer torresmo, já era tratar de me mandar comprar sal. Então, toda a casa da minha rua, chamava Rua Direita do Comércio, a rua de cima. Então, toda a casa eu tenho torreiro às 10h, porque o costume era assim, como era dividido a despesa, o toucinho partia tantas parte fosse as refeições, tanto a carne também, então na hora de 10 horas do dia tinha que fritar um pedaço de toucinho pra temperar, porque naquele tempo não tinha geladeira, né? E o toucinho ficava no fumeiro. Então, na hora, 10 horas, se eu quisesse torresmo, em qualquer casa que eu entrasse, tava disponível [risos]. Porque você vê, eles precisavam de mim.
(00:11: 10) O/1: E o senhor lembra das músicas? Quais músicas vocês tocavam? Como é que eram as apresentações?
R/1: Não, as apresentações era sempre na Alvorada, era na igreja. A gente tocava uns dobrados escrito aqui por Júlio César. Não tenho assim na cabeça e tem 12 anos que eu não toco mais na banda, né? Às vezes me foge assim as músicas. ________ e depois, quando foi 55, eu estava com 15 anos, o pessoal daqui migrou todo mundo para São Paulo e a Filarmônica quase acabou. Aí foram bocados para (Itanagé?) trabalhar, Cristal e saiu para todo canto, certo? E ficou só eu que era o músico da Filarmônica. Então eu levantava na semana, na festa de São João, eu levantava todo dia 5 horas da manhã e fazia Alvorada como se fosse a Filarmônica inteira. Só que eu pegava um instrumento, chama bombardino, que é um tubo pequeno que faz (contracampo ?), aí eu tocava o bombardino que o som é grosso e enchia o espaço, né? Aí, um dia eu vinha tocando, um dia 20 de junho, me parece 57 mais ou menos, deixaram uma mulher na janela, olhou para mim e começou a chorar. [Vídeo sem imagem, só som]. Passei tocando e voltei. Quando eu voltei, ela disse “Lói, você me faz chorar. A gente lembra a Filarmônica de 30 músicos, tanta gente acompanhando na Alvorada e hoje você sozinho”.
Eu falei “é Sá Maria, mas é isso mesmo. Mas não se preocupa não que bom que Mucugê torna a voltar”. Ela disse “ô Lói, mas eu não posso esperar não, eu tenho que sair”. E essa aí foi embora para São Paulo, né? E lá viveu muito tempo ainda, mas pelo menos ela chorou lembrando de Mucugê, o auge de Mucugê e ali vendo a decadência de Mucugê, que não tinha quase ninguém. Aí quando foi em 60, era prefeito (Lealbina?) Azevedo, o maestro daqui tinha ido para a Barra da Estiva para ensinar música em Barra da Estiva. Mas em 60 o prefeito mandou pedir para ele vir de volta e abriu a escola de música. Aí 60, isso no princípio, no mês de junho, a Filarmônica se ergueu, já tocou o dia de São João, com 20, com 9 músicos, e aí foi crescendo a Filarmônica. [Volta a imagem do vídeo].
(00:13:42) P/1: Então seu Lói, o senhor tava falando da Filarmônica, e eu queria saber um pouco mais dessas festas que aconteciam em Mucugê. O senhor falou de um tempo com muitas festas, depois quase nada. Como é que era Mucugê?
R/1: Mucugê, a gente tinha assim, uma organização livre. A festa, por exemplo, a festa de São João aqui não tinha concentração. Embora, nesse tempo que eu estou contando, já existia o clube Mucugê Lítero Social Recreativo. Mas tinha uma pressão, preto não entrava no clube. Então, São João livre era o feito o seguinte, a gente conseguia um sanfoneiro, juntava um grupo e saía na rua fazendo forró. Quando a casa tava de porta aberta, se o dono tivesse ou não, adentrava do mesmo jeito, ia tocando a sanfona e dançando. E o que tinha na mesma gente ia comendo, biscoito. Quem bebia licor, tinha licor, ia bebendo e o dono chegava e abraçava todo mundo, aí dançava ali, saia e ia, para outra casa. E grupo ia, ixi, aumentando, ao passo de não caber mais nas casa e o forró ficar sendo feito nas portas das casas e passava a noite assim. Então, nas fogueiras, a tradição da fogueira da gente era assar batata. Então, toda a fogueira depois das 12 horas da noite, (cê pegava um montezinho?) de cinzas, podia ver que tinha uma batata para lá dentro. A gente criava, preparava logo um espeto, porque sabia que ia ter batata em alguma fogueira, né? A gente vinha com espeto escondido, aí chegava no lugar que estava um monte assim e quando sentia o peso que ela tinha cravado na batata, que puxava aqui, já ia o dono, levantava e corria atrás, né? Tinha hora que o dono e os outros corria todo mundo atrás, onde pegasse a batata, tomava e todo mundo que acompanhou comia, né? Mas isso era uma tradição ________. Eu era que já fazia, trazia da roça, logo uns 10 espetos, porque eu já deixava pronto pra não ter que ir no dia tá fazendo, né? Então, _________ passeava na rua toda aonde tinha as fogueiras depois que as fogueiras já tinha queimado a lenha, já tava só a cinza, a brasa.
(00:16:01) P/1:E seu Lói, falando de tradição, é, tinha muita contação de história aqui na região? São os pais, contavam histórias pra vocês?
R/1: Meu pai não, mas meu pai ai sempre para a roça e os trabalhadores dele ia com a gente para a roça e lá contava muitas histórias, né. História de lobisomem, história de mula sem cabeça, muitas histórias interessantes. Me lembro de uma história, essa era a mãe que contava, que tinha uma mulher muito curiosa e que ficava olhando a… meia-noite, ela ficava olhando a as coisas da rua, o que acontecia, pra no outro dia fuxicar, né? Aí, disse que ela viu um Terno das Almas, sabe o que é Terno das Almas, né? Terno das Almas é uma apresentação que as Almas faz na Semana Santa, nos dias pares, sai encomendando as Almas, rezando nas encruzilhadas, na porta do cemitério e na porta da igreja. Então isso é uma tradição da região aqui, da Lavras Diamantinas. Então, essa mulher ficava espiando as outras pra poder contar, e daí veio as Almas passando. Aí chegou, empurrou a janela e falou “guarda essa vela aí pra mim”. Aí deu ela a vela pra guardar “amanhã eu volto para pegar ". Pegou a vela, ficou ali, guardou a vela. Quando foi no outro dia que ela foi ver era uma canela de defunto [risos].
(00:17:30) P/1: E como é que era aqui na região a questão, o senhor estudava por aqui? Tinha que ir para outra região para estudar?
R/1: A base daqui mesmo, aqui só era escola primária. Agora, o pessoal que desenvolvia mais aqui ia pra Ponte Nova, que hoje é (Wagner?). E chamava antigamente Ponte Nova e lá tinha um colégio de ginásio. Meu pai, no tempo de meu pai, ia para Rio de Contas, era escola normal. Eu não entendo qual é a classificação da escola normal. Sei que meu pai estudou até 1910, quando meu avô morreu. Não me lembro bem, acho que foi isso. Sei que meu pai falava francês, não estudou nada, mas não é conversar francês, mas as coisas básicas de francês, ele sabia falar, né? Responder as perguntas, essas coisas assim. Mas o pessoal daqui de meu tempo, queria pra Fonte Nova, que hoje é (Wagner?).
00:18:38) P/1: E como é que era o seu Lói na escola?
R/1: Eu na escola era o seguinte, eu era, como se diz assim. Quando inaugurou a escola Doutor Rodrigues Lima no prédio, lá que eu chamo prédio Doutor Rodrigues Lima, quem escolheu minha sala fui eu. Juraci Magalhães veio inaugurar o prédio. E aí, na outra semana, começava a aula no prédio. A hora que abriu o prédio eu entrei e sentei na cadeira. Tinha a banca da professora na frente, eu sentei na primeira de frente da professora, onde seria a professora. Quando chegou as professoras, cada um escolhendo a sala. Aí uma entrou e disse “a minha sala é essa”. Eu falei “você não é minha professora?” Ai _____ “minha sala é essa aqui”, eu falei “não, quem chegou aqui primeiro foi eu”. Aí a diretora chegou, disse assim “ele tem direito, ele chegou primeiro. Porque eu tinha avisado que quem chegasse primeiro bebia água limpa, então cada um escolhe o que quer”. “Ah, mas ele não é professor?” “Ah, mas ele é estudante, uai”. Então, minha sala quem escolheu foi eu. A professora, quando ela chegou, foi a minha sala. Eu falei “aqui, professora”.
(00:19:53) P/1: Seu Lói, o senhor comentou que aprendeu ali o ofício de sapateiro. Isso foi mais para frente, foi quando ainda era menino? Como é que se deu isso?
R/1: Olha aqui, era muito difícil o pessoal usar sapato fechado, chamava sapato fechado, usava uma percata. E aí eu conversei, meu irmão foi embora para São Paulo e eu fiquei cuidando da sapataria e aí fui fazendo até conseguir fazer esse sapato.
(00:20:20) P/1: Com quantos anos isso?
R/1: 13, com 13 anos, aí eu depois eu tinha já uns 17 anos, não, já uns 18, papai chegou para mim e disse assim “Lói, eu nunca calcei um sapato e quero comprar um sapato, mas não tenho dinheiro”. Eu falei “não, a gente faz o sapato e você vai me pagando”. Ele falou “então faz meu sapato”. Aí até hoje ele ainda é vivo, hoje tem 63 anos. “O primeiro sapato que eu calcei foi Lói que fez". Aí ______ já depois mais tempo, eu já tava velho, já tinha 29 anos. Cara falou “moço, eu tô indo pra São Paulo e como é que eu vou para São Paulo sem sapato?”. Porque não achava pra comprar. Quer dizer, esse tempo aqui já tava, era, já era decadência, né? Ainda tava em decadência, não tinha loja de sapato. Aí ele falou “mas vou depois de manhã”, eu falei “tá bom, eu vou fazer um sapato”. “E pra lhe pagar?” Eu falei “você me paga e quando você voltar de São Paulo, você traz meu dinheiro”. Aí, eu fiz um sapato pra ele e ele foi.
(00:21:20) P/1: E como é que era esse processo de fazer o sapato? O sapato era de couro, como é que era?
Não, porque eu sempre tenho material, né? Quando eu eu comprava cromo, sola. Naquele tempo tinha chuliadeira, que é a tacha pra pregar o couro de sapato, tinha cola, tinha agulha e tinha ferramenta e as formas. As formas tem alguma até hoje. Então, cortou, tem o molde já de sapato, que meu irmão já tinha deixado, por exemplo, o sapato é 38, já tem um molde 38. Cortava ali, costurava na posição, encaixava ali, pagava a palmilha na forma e formava e depois botava o solado.
(00:22:00) P/1: Quanto tempo demorava esse processo todo aí?
R/1: Gastava meio dia.
[Corte no vídeo]
(00:22:11)
Seu Lói, o senhor estava falando aí do ofício de sapateiro. Eu sei que o senhor tem uma história até de uma forma que virou santo. Queria que o senhor contasse essa história.
R/1: Não, a forma não é que virou santo. Era o seguinte, a história do Santo, aquele tempo, esse tempo do santo era sapateiro e, mas antes do sapateiro, quando criança, eu ficava numa casa brincando com um menino, chamava João de Carlinda. E aí toda queixa ou agradecimento de Carlinda era com São Badoré. Ela falava “ô meu, São Badoré”. Se Arthur pegava diamante “graças a São Badoré.”. Arthur chegava e diz “como foi Arthur?”. “Essa semana não deu nada”. “Ô meu São Badoré, como é que faz isso com Arthur?”. Quer dizer, São Badoré. recebia as queixa, e como é que diz, os elogios e os agradecimentos. Então, ela sempre falava isso. Um dia eu tava lá brincando e entrou uma menina e falou “dona Carlinha, eu vim trazer uma vela para acender em São Badoré”, que a menina também ouvia falar a mesma coisa. E ela ficou assim, que ela não tinha o santo né? Falou “ô Olga, essa vela, deixa aí que eu vou acender lá pra São Badoré, que no quarto de São Badoré tá desarrumado, só quem entra lá é eu e Arthur. Então depois, pode só, a promessa está paga, eu vou acender a vela pra São Badoré”. Ai, ela saiu, chegou no quintal, acendeu a vela e falou “o Santo que que salvou Olga, da promessa dela, do que ela fez, receba a vela em sufrágio em nome de São Badoré”. E o tempo passou, _____ dia encontro com Olga e lembrei “ ô Olga, como porque que você mandou acender a vela pra São Badoré?” Ela disse “olha, mãe, tem um fedor de cachimbo, toda hora que chegava era fumando cachimbo e eu tinha uma raiva daquele fedor. Eu ia comer e ficava com nojo do cachimbo e falei com ela um dia que eu jogava o cachimbo dela fora. Aí um dia varrendo a cozinha, as coisas, eu não prestei atenção e o cachimbo dela foi no caco. Caco é aquela folha que ela bota o lixo para jogar fora, não é? E quando a mãe chegou, que jogou o feixe de lenha no chão e levou a mão na janela para pegar o cachimbo e a mão no fogão, que era um perto da outra, cozinha pequena, pegar o tição para acender o cachimbo. Achou o tição, mas não achou o cachimbo. “Ô desgraçada, você jogou meu cachimbo fora, agora eu vou lhe queimar com tição no lugar do cachimbo, agora você me paga”. Que ela tinha prometido de jogar o cachimbo fora, né? Olga saiu correndo, tropeçou numa raiz da limeira e caiu no lugar onde jogava o lixo, quando ela bateu a mão, em cima do cachimbo. “Ô mãe, não me bate não, não foi porque eu quis, olha o cachimbo da senhora aqui” [risos]. Aí ela, quando ela saiu correndo, diz “ó meu salvador, me livra pra mãe não me queimar”. Aí achou o cachimbo, entregou. Aí passou o tempo, eu lembrei da história e falei, vou fazer São Badoré. Aí eu trabalhava de sapateiro e tem um grupo bom de meus amigos assim de caçada, de jogar bola e tal. Falei “olha, agora tem a reza São Badoré aí, viu”. Passou São João, ainda tem muita bomba lá em casa, ele vai fazer uma reza pra São Badoré. Aí peguei armei o alto e botei as formas e botei uma forma no lugar do do Santo, né? E aí, nós rezamos a vontade e tal e fez a festa, mas todo mundo do outro ano queria a festa de São Badoré e eu fui fazendo. Mas aí um dia, no mês de agosto, eu fui na Lapa do Seu Bom Jesus. Eu falei, lembrei, falei, agora eu digo, é, conseguiu São Badoré, né? Aí fui nas barracas de santo procurando “não tem não tem, não tem”, aí quando eu cheguei em uma casa de santo, falei “O senhor tem São Badoré dos ovos quentes?”, disse “acho que eu tenho”. Aí foi lá, olhou, olhou e falou “aqui ô”. Pronto, aí comprei São Badoré, né?
(00:26:31) P/1: E como é que era o Santo?
00:26:32
Eu tenho ele lá fora, depois você vai ver. Aí, eu cheguei e falei “agora tem o santo, a gente já vai fazer a festa”. Aí comecei fazer a festa de São Badoré e foi trazendo gente e gente foi vindo ao ponto, aí a última festa eu fiz aqui, mas não tem essas casas aí ainda não. Essa aí é aberta. Soltava bomba para cá e para lá. Nesse ano eu tava sem dinheiro, vendi cinco vaca para comprar fogos pro São Badoré. Então tem uma bomba, chama bateria, é uma bomba que você joga e ela dá 12 tiros. Conhece, né? Pois é. Eu peguei, eu tinha um bar ali, nesse sobradão ali onde hoje está movimentando ________ também. Eu tinha um bar ali e o cara veio aqui vender fogos no mês de maio pro São Jorge. Vendia e depois vinha entregar, ele não vinha trazendo para vender não. Aí eu falei “olha, eu tô querendo umas bombas, mas desse jeito”. Aí eu amarrei 12 bombas, a gente chamava bomba chilena, que as outras bomba era com o canicho de pólvora de terra, que faz “vixe” [som], não era isso, que esse fogo de hoje é fogo de fósforo, né? Que é do Chile. Então, aí foi quando saiu essas bombas, aí eu amarrei 12 bombas, peguei o canicho de uma, desmanchei uma, botei a pólvora em cima e botei o canicho de uma fez o pacotezinho, amarrei embaixo e em cima, e aí falei “eu quero desse aí”, joguei e fez [sons de explosão com a boca]. E disse “mas essa não tem lá não”. Eu falei “não, eu vou fazer uma”, _________ é Santo Antônio do Monte, é Minas Gerais. Falei “eu vou fazer uma e você leva lá o modelo, se uma fábrica lá disser que faz, aí eu compro”. Ele levou. Naquele tempo, a gente não tinha, a que tinha era (Pelé Bahia ?), o posto telefônico. Nas casa não tinha telefone não, mas era bem de frente. Aí, o telefone chamou e a menina falou “Lói, Lói, vem aqui, um telefonema para você”. Ai eu cheguei, fui atender e perguntei. Ele disse “olha, eu trouxe a modelo aqui, a fábrica faz, mas para levar aí, só se você comprar 500 caixas”. Eu falo “eu quero 3000”. Ele falou “então eu vou levar essa semana”, na semana trouxe as caixas das baterias prontas. Aí eu botei naquele morro ali, o cara levou umas 200 caixa, pro outro lá levou 200, para cá, e cada um cruzeiro, né? E cada Cruzeiro subiu três pessoas pra soltar bomba e aí a gente ia soltar aqui. Falei “ a hora que soltar a primeira bomba, vocês começam lá até acabar, não vai parar não”. Ai, quando começou [sons de bomba] foi de 8 haras até umas 12 horas e aqui a gente, aqui já fazia a reza e depois a gente vinha pra fogueira. Porque na fogueira aí tinha, quentão, tinha canjica, tinha caldo, essas coisas assim. Só o quentão mesmo, não tinha outros tipo de bebida. Aí ficava e quando acabava o movimento a gente voltava para o clube para ir dançar a festa. O clube é onde hoje é o banco. A gente voltava pro clube e virava uma festa comum.
(00:30:12) P/1: E como é que era, o padre da região não implicava com a questão do Santo? As pessoas faziam promessa para o São Badoré, como é que era?
R/1: Não, algumas promessas foram feitas, __________, a gente está substituindo Santo Antônio nas férias, ele faz casamento, aí as pessoas vinham pedir para fazer casamento, e muita gente casou, né? _________ [risos].
00:30:37 P/1: Seu Lói, o senhor tava comentando que depois de sapateiro, o senhor foi muita outras coisas aí na vida. Fala um pouquinho pra a gente.
R/1: Não, eu trabalhei como mecânico, eu fui eletricista, eu trabalhei para (Coelba?). Eh, eu fiz o curso de detective e não trabalhei não, mas fiz só uma passagem assim. Eu gosto até de contar ao meu trabalho como detetive, a razão, o que é que eu fiz? Minha filha era, aí já é esse tempo de agora, né? Minha filha era gerente da Cesta do Povo. Ela, minha filha, era gerente da Cesta do Povo. Ela foi pra trabalhar quando chegou lá, que abriu a porta, viu a parede arrombada, do fundo. Ela voltou, me chamou, eu falei “não entra, vamo chamar a polícia aí”. Ela chamou a polícia, a polícia veio e averiguou, e tinham levado o cofre. Aí levou o cofre e a gente, eu fui investigar onde encontrar o cofre. Aí, o pessoal tirava areia no rio, eu tinha que fazer a passagem. Aí pelo fundo, aonde o cofre saiu tinha umas _________ e eu fui ver que as _________ tava quebrada, então levaram-lhe o carro. Aí, eu descobri, mais ou menos, o carro, só não era o dono do carro. E aí, eu segui, mais ou menos, peguei a pista, o carro foi pro rio. Aí, eu chamo a polícia, vamos pro rio. Chegamos no rio, achamos o cofre. Já era umas 8 horas da noite. A polícia foi comigo, minha filha, tanto que era gerente, foi acompanhando todo o movimento. Achamos o cofre, acho que jogaram, o Rio estava cheio, jogaram o cofre dentro. Achamos o cofre, depois _______ arrancaram a tampa, a tampa tava lá no fundo. Tinha um rapaz, chama Luiz Carlos, que entrou pra pegar a tampa lá no fundo. Então, tinha um bocado, uns vale que _______ emitia, as pessoas dava o vale para receber depois, não sei como era não. Sei que tinha um bocado de coisa jogado por lá. Pegamos o cofre, a polícia trouxe cofre, levou para a delegacia, aí eu fui investigar a história. Como eu descobri, mais ou menos, o rasto do carro, descobri também o motorista e fui fazendo pergunta. Tinha tido uma festa em Cascavel, no dia de sábado, isso ela descobriu de segunda-feira foi que descobriu que a sexta tinha sido assaltada. Então, tinha havido uma festa de sábado e eu fui ver o pessoal que foram para a festa, aqueles rapazinho que foram pra festa, eu chamei um, perguntei “você esteve na festa em Cascavel?”. “Tive”. “Fulano teve, teve”. “Você foi como carro?". “Fui com meu carro”. “Quem foi você?”. “Foi fulano, fulano, fulano”. Eu perguntei a outro “você estava na festa?” __________ foi mais, fulano. “Mas você voltou com ele?” “Não, ele me chamou para vir embora 12 horas da noite, falei a festa tinha nem começado”. Eu falei “então, ele veio embora?”. “Ele veio". Aí, eu perguntei o outro “fulano tava na festa?”. “Tava”. “Que horas você viu ele lá?”. “De manhã, de manhã ele tava lá. A hora que que eu saí, deixei ele lá ainda”. Aí, eu fui colando, né? Se ele vem, foi pra festa, veio de noite e amanheceu lá, ele veio, praticou o ato e voltou para a festa para não dar sentido. Aí, de manhã eu fui, levantei de madrugada e fui filmar o carro, que eu tinha certeza que foi o carro, que ali o carro ficava na garagem, mas não era a porta, era uma grade. Falei “pelo menos eu posso achar tinta do cofre para poder ter uma certeza”. Mas aí eu fiz a passagem e quando eu tava filmando o dono da do carro saiu lá, me viu, eu disse que não estava filmando o carro, sai. Mas não tinha tinta do carro do cofre não, pelo carro não achamos. Mas aí eu fui lá no rio, eu fui pra meu irmão que tirava areia de mar. “Você foi tirar a areia ontem?”. “Fui, mas não tirei não. Quando cheguei lá, eu vi um cofre lá, eu voltei.” ________ “quem tava lá?”. “Nego. Nego também foi lá tirar a areia, _______ até trouxe uma marreta e uma cunha que ele achou lá”. Bom, Ademar já disse que viu o cofre lá. Aí, eu procurei Nego, “__________ Ademar tava lá no rio, você viu?”. “Foi, eu vi, ó, e eu trouxe uma marreta e um pau, se precisar”. Eu falei “não, eu não sou autoridade para isso não, eu quero é que se você trouxe leva, você tá com ela, você guarda. Pode ser necessário, mas não precisa cê se preocupar não. Mas aí, eu tinha desconfiança de uns que eu andava sempre acompanhando. Tinha um que ia pra São Paulo levar 2 moça. Ele ia pra São Paulo e ia ficar lá, mas ia levar uma irmã, uma prima dele e uma outra, uma outra menina que o pai dela tava em São Paulo. Eu falei “ô gordo”, eu sabia que o pai da menina tinha deixado pra ele levar a menina pra São Paulo. Eu perguntei “gordo, fulano vai para São Paulo amanhã?” Ele disse “não Lói, ele foi segunda-feira”. Falei pera aí, “mas se um não ficou de mandar o dinheiro pra ele, pra ele ir?”. “Não, ele mandou falar com ele, ligar pra Sílvio e falar com ele que ele não precisasse mandar o dinheiro não, que ele arranjou.” O dinheiro _________ pra ele dar o dinheiro é quando ele chegar lá. Pronto, o cara não tem dinheiro, já tem dinheiro para viajar, né? Aí, eu trabalhava na estação meteorológica, não, já não era mais a estação, eu fui meteorologista, mas já não trabalhava mais na estação. Mas eu ia ver a régua do rio, que vou até hoje ainda, que faz parte daí, desse fluviometro aí. Aí, eu tô indo pra a usina, passou um carro por mim, o (Justu ?), cheio de gente. Quando chego na usina, eles chegaram, tirando o caldeirão de feijoada desse tamanho, uísque, cerveja e coisa tirando. Aí pegaram, “ô Lói, vamo comer feijoada”. Eu falei, “Ah, não hora ainda não, é de manhã”. “A gente vai lá pra Goiabeira, se você resolver?". Eu falei “quem tá, é sociedade?” “Não, foi fulano que custeou". Aí já é o outro o motorista do carro. Ele veio embora, quando eu tô voltando, ele já ia de novo carregar de gente para feijoada. Eu já notei, quer dizer, tá tendo dinheiro, né. De noite, nesse mesmo dia, eu tô sentado no jardim, tem um rapaz sentado, ele passa pelo rapaz “vamo embora, Zé, comer a (galinhada aí?)”. Falei “Zé, tá tendo dinheiro ?”, “não sei onde é que achou não, moço, porque que o serviço, o serviço que eu tenho é só para meus meninos. Não tá tendo serviço, eu vou dar para os outros?”. Eu falei “mas ele tá tendo dinheiro?”, “ah, arranjou um dinheiro bom, porque foi para Cascavel nesse instante, comer _______, já agora já está indo para andar aí comer ________”. Falei, então tá tendo muito dinheiro, o cara fez feijoada, já estava comendo água, viajando, né. Aí tinha um outro que quis me comprar uma espingarda para matar o menino. Falei moço, eu tenho espingarda, mas não tem munição não, eu acho que munição eu não quero não. “Mas você vai matar ele mesmo?”, “vou”, “tá me devendo 600 reais. Depois a gente dá um jeito de você mata ele, vou arranjar um jeito aí de como você mata ele”. “Está bom”. Aí encontrei ele, falei “vem cá, rapaz. Oh, tô com esse espingarda aí lá, tô com 3 carga, dá 2 tiros nele, pronto, ele é miudinho, né? “Não rapaz, aí ele é gente de boa. Ele não me pagava porque não tinha dinheiro, mas agora me deu 600, me deu mais 50 de juro, não precisei mais de buscar dinheiro em canto nenhum”. Aí eu fiz o relatório, falei com a polícia “não tô no meio aqui, eu tô fazendo isso porque é minha filha que é, tá no trabalho”. Mas foram preso.
00:39:21 P/1: E eram eles mesmo?
R/1: Foram presos, mas só e aí não tem, não tem testemunha de vista. Mas quando tá fazendo averiguação, um falou “só pode ter sido o Naldinho que falou”. O delegado disse “então o Naldinho, né?”. Mas procurando Naldinho, Naldinho não viu, né? Naldinho não notou que era, nem falou nada. Perguntou Naldinho, Naldinho “eu não tô sabendo não”, aí faltaram os homens. Foi esse o meu trabalho na prova, de detetive foi assim [risos].
00:39:55 P/1: E como é que foi esse curso que o senhor fez?
R/1: Hã?
00:39:57 P/1: Como foi o curso que o senhor fez?
R/1: Não, é a distância, é no Rio Grande do Sul, chama Padre Réus, é um curso que você faz. Não, esse é de Minas, Padre Réus, eu fiz o quarto, segundo grau. É um curso mineiro, aí ele dá a, é detetive profissional, tu pode ser contratado pra trabalhar na delegacia. Mas eu não fiz querendo trabalhar, não, fiz pra poder ter só [risos].
00:40:28 P/1: E que fim teve esse cofre aí, seu Lói?
R/1: Hã.
00:40:31 P/1:Que fim teve o cofre?
R/1: Não, não sei. Daí pra cá, esses cofre também não presta mais, antigamente ficava na delegacia e deve ter jogado é fora, não tinha, não vale mais, né? Mas os cofres, como você diz, 200 kg, acho que não tem.
00:40:45 P/1: O senhor comentou da sua filha, o senhor tem é só ela, outros filhos?
R/1: Não, eu tenho quatro, dois filhos e duas filhas: (Hitler?), Jaqueline, (Belcique?) e (Isacloni?). Jaqueline mora em Natal, ela é casada com o engenheiro da The Nietzsche. (Belcique?), que trabalha na, ah, não sei não. Trabalha em Salvador na, ora, esqueci o nome, deixa pra lá. (Biquidi?) trabalha no fórum, é escrevente e Cloni trabalha na fazenda Dois Irmão. Ele e Cloni mora aqui, Delcy que mora em Salvador e Jaqueline mora em Natal, Rio Grande do Norte.
00:41:35 P/1: E o senhor tem netos?
R/1: Tenho, tenho Ayumi, Macol, Aysla, Matayos e Aloísio. Interessante, eu não gosto que bota meu nome neto, né? Entrei na justiça pra tirar o nome, que ele botou meu nome no filho dele. Aí o juiz falou, ia processar a queixa, a promotora chegou aí, não, não deixou eu tirar o nome.
00:42:07 P/1: E por que isso?
R/1: Eu não sei, mas eu não tenho assim, eu acho que não pode repetir o nome de uma pessoa boa. Eu não gosto, tanto que meus filhos, é só gente ruim. Hitler, ninguém precisa falar nada. Jaqueline é outra de coisa que se falar nego corre. Delcique era um cara muito ruim que tinha fama. Agora. Isacloni não, não aí não tinha ruim porque eu fiz a miscelânea da avó, a bisavó e o tio. Isabel era a avó dela, Clovis, clo é o começo de Clovis e ni o fim de Arani, que era minha sogra.
A coisa mais interessante que tem, é que eu fiquei noivo com 8 anos e minha noiva ficou noiva com 8 dias. Primeiro dia que eu vi, eu escolhi pra casar comigo.
00:43:14 P/1: Qual o nome dela?
R/1: Maria Zuleide. Aconteceu assim: era menino, eu tinha 8 anos, gostava de ver, saber que as mulher pariu, porque fazia pirão de arruda. E as visitas sempre ganhavam um pedacinho da galinha com pouco de pirão da arruda, né? E eu de manhã, eu estava no pé, né? Aí falaram “dona Arani pariu”. Naquele tempo, não era teve criança, era pariu mesmo, né? Aí mãe falou “moço, deu 8 dias que comadre Arani pariu e eu não fui lá ver a menina”. Comadre Arani, porque ela era minha madrinha a que pariu, né? Fale “mãe, deixa pra ir perto de meio-dia por causa do pirão” [risos]. Ai, quando foi, preparou pra ir, então vamos pra casa dela. Chegou lá, tá conversando, aí mãe diz assim, ainda não sabia nem se era homem ou mulher, né? “Eu não vi a criança ainda, deixa eu ver?”. Quando ela viu que era menina, falou “mas é bonitinha”. Aí mãe disse que eu falei assim “Ah, então vou esperar ela crescer pra casar com ela”.
Ai, ficou naquela conversa e passou. Quando ela tinha 18 anos que eu pedi casamento, mãe me falou “você pediu casamento ela a primeira vez você viu” [risos]. Outra coisa é que quando eu fui pedir casamento, eu falei com ela “eu vou, é uma surpresa, não vai ser para você, porque isso também não pode. Eu vou pedir casamento do dia primeiro, mas ninguém pode saber”. Mas eu ia na casa dela todo dia. Tô vendo uma arrumação danada, diferente, porque sempre arrumava para o dia primeiro do ano, mas arrumava naturalmente as coisas. Eu vi que a arrumação não tava do jeito que eu sempre via, né? Falei “ela deve ter fuxicado”. Aí, quando foi no dia 30, eu viajei para Salvador, passou o dia de pedir o casamento e eu não apareci. Se ela fuxicou, passou mal, né [risos].
00:45:32 P/1: E quanto tempo vocês ficaram casados, seu Lói?
R/1:Até a morte levou, 52 anos. Mas aí veio, tinha um outro pedido de casamento, mas esse daí precisava um tempo pra dar resposta. Então, pra dar a resposta, prepararam um almoço, pra poder convidar as pessoas que era chegado à família, era o almoço, pra daí falar com a pessoa “aceito o seu pedido e tal”, que era a irmã mais velha dela. Aí eu fui convidado pro almoço também, né. Esse dia ela era cozinheira, a outra era anfitriã, né, a dândi da festa, toda enfeitada, e ela tá lá vestida de cozinheira, preparando a mesa e tal. Aí serviu a mesa e eu sentei. Aí, acabou o almoço, daí deram a resposta do casamento, do pedido, terminou o almoço, serviram a sobremesa. Quando tavam servindo a sobremesa, eu levantei e falei “está contido grandes verdades que a providência coloca em nosso caminho, que há de participar das alegrias e tristezas da nossa vida. Eu peço a mão de Zuleide.
00: 46: 57 P/1: E aí?
R/1: [risos]. Não tinha _______ padre. Aí, a resposta do outro demorou um tempo pra responder a minha, fez assim “ a gente já esperava isso”. Não, não, deixou para o outro dia, né? Bom, aí o tempo passou, um dia, minha futura sogra disse “já tá há mais de um ano que você é noivo, quando é que vai marcar o casamento”, eu falei “a hora que tiver uma casa, tô preparando para poder casar”, “Não precisa, eu lhe dou a casa. Aí a casa de minha mãe, você pode cuidar, arrumar, é sua”. Pronto, me deu a casa. Aí eu arrumei a casa toda, né? Porque ela ficou boa, mas aí acabou o dinheiro. “Agora a casa está pronta para ir”, mas eu falei “casar sem dinheiro, não dá, eu tô trabalhando, mas pra mim, casal tem que ter pelo menos 6 meses de garantia, que não vai faltar, não vai ter necessidade, né?”. Falo “não precisa, um ano cê é convidado de casa”. Falei tá bom, aí agora tem que marcar mesmo. Aí marcou e casamos, vivemos feliz para sempre.
00:48:09 P/1:E o senhor lembra do dia do casamento?
R/1: 20, é 24 de junho de 68.
00:48:15 P/1: E foi aqui em Mucugê mesmo?
R/1: Aqui na igreja Santa Isabel.
00:48:18 P/1: Como foi, o senhor lembra?
R/1: Me lembro que veio um outro, um outro de São Paulo, que não era nem namorado, pediu casamento a irmã dela e casou junto, com 30 dias dele de noivo, uma celebração foi uma só para os dois. Foi muito bonito [risos].
00:48:38 P/1: E seu Lói, eu queria que o senhor falasse um pouquinho agora sobre o seu dia a dia de hoje, como é que é, o que o senhor faz? O senhor acorda, vai fazer o quê hoje em dia? Como é que é a sua vida?
R/1: Ah, eu acordo e levanto para descansar, porque a cama me cansa. Levanto, sai logo pra poder descansar, né? Porque deitado eu fico cansado, então o dia todo eu não tenho nada para fazer, eu sei que não paro, mas é sem obrigação, não tenho nada mais para fazer. Hoje ali, levei de manhã até meio-dia para desentupir o cano dos ralos dos banheiros ali, que estava cheio de raiz, de terra, mas sem obrigação, né, o que era necessário. Mas todo dia levanto e vou dormir satisfeito.
00:49:22 P/1: E o senhor tem algum sonho para o futuro?
R/1: O meu futuro é viver como eu estou, é não mudar nada. Não espero nada como todo mundo, muita gente acha assim, vão trabalhar pra deixar pros filhos e pra neto, eu não trabalho pra deixar pra filho nem pra neto. Eu vou gastando tudo que tô ganhando e o que sobrar é deles. Faço tudo que quero, não sou assim de ir pra lugar, viajar. Quando eu quero me divertir eu vou pro mato, ficar sozinho, com um amigo só, assim esse negócio de vai lá pra Salvador vai pra São Paulo? Não, não tenho interesse. Mas o que é necessário, o que eu gosto. Também tem uma coisa comigo, não compro nada que eu não como, se eu não comer, quem quiser comer, que compre, tá entendendo? Em casa já compra tomate, eu não compro não, eu não compro. Compra carne fresca, não compro, porque eu não como eu compro carne seca, carne de sal, porque eu gosto de carne cozida. Ah, mas a carne boa é frita, não como. Aí então as coisas que eu não como, quem quiser comer, que compre [risos].
00:50:42 P/1: Seu Lói, para terminar tem alguma coisa que eu não tenha perguntado que o senhor queira falar, alguma história, alguma coisa?
R/1: Não, acho que não. Acho que a gente já falou quase tudo.
00:50:52 P/1: Então tá bom seu Lói, em nome do Museu da Pessoa eu agradeço muito a sua participação, viu?
R/1: Às suas ordens, do que precisar, tamo aqui. O prazer foi meu, viu?
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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