Projeto Diversidade Cultural Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Jucileia Barboza
Entrevistado por Sofia Tapajos e Jéssica Campos
Vitória 23/02/26
Código: DCC_HV006
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Jucileia, obrigada pelo seu tempo, mais uma vez, pela sua disponibilidade. Você pode falar seu nome completo, local e data de nascimento?
R: Meu nome é Jucileia Barbosa, trabalho aqui na Associação das Paneleiras. Data de nascimento 13 de maio de 1972.
P/1 – E onde você nasceu?
R: Aqui em Vitória mesmo, sou capixaba.
P/1 – Qual é o nome dos seus pais?
R: Meu pai se chamava Jucelen Barboza, a minha mãe, Maria Conceição Gomes Barboza.
P/1 – E que lembrança você tem deles?
R: Do meu pai? Do meu pai, assim, meu pai era muito fechado, muito sério, né? Então, a lembrança que eu tenho dele é ele indo trabalhar de bicicleta, porque ele trabalhava na Ufes [Universidade Federal do Espírito Santo], né? Trabalhava pela Federal, então, eu tenho essa lembrança, até porque quando eu saí de casa, saí assim, pra ir... Eu vou falar morar junto, mas casada, porque eu fiquei 20 anos casada. Eu estava com 17 anos. Já a minha mãe eu tive mais contato, porque eu vou falar da fase da minha... Vou falar criança, porque pra mim 9 até 10 anos, até mais um pouquinho é criança pra mim. Mas eu vou falar nessa época, porque a minha mãe, eu era uma pessoa que não parava, uma criança que não parava. Então, eu gostava muito de brincar. Era amarelinha, era pique-esconde, era polícia ladrão. Eu parecia que eu era um menino, porque eu não podia ver uma brincadeira na rua que eu estava no meio. Era jogar bola, era queimada, era tudo. Adorava subir em muro, pular quintal pra arrancar frutas, esses negócios assim, e o povo reclamava pra minha mãe, ia lá reclamar. Eu acho que minha mãe, assim, para tentar me segurar: “Senta aqui, vem aqui, faz aqui, mexe no barro aqui. Eu mexia ali”, mas eu...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Jucileia Barboza
Entrevistado por Sofia Tapajos e Jéssica Campos
Vitória 23/02/26
Código: DCC_HV006
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Jucileia, obrigada pelo seu tempo, mais uma vez, pela sua disponibilidade. Você pode falar seu nome completo, local e data de nascimento?
R: Meu nome é Jucileia Barbosa, trabalho aqui na Associação das Paneleiras. Data de nascimento 13 de maio de 1972.
P/1 – E onde você nasceu?
R: Aqui em Vitória mesmo, sou capixaba.
P/1 – Qual é o nome dos seus pais?
R: Meu pai se chamava Jucelen Barboza, a minha mãe, Maria Conceição Gomes Barboza.
P/1 – E que lembrança você tem deles?
R: Do meu pai? Do meu pai, assim, meu pai era muito fechado, muito sério, né? Então, a lembrança que eu tenho dele é ele indo trabalhar de bicicleta, porque ele trabalhava na Ufes [Universidade Federal do Espírito Santo], né? Trabalhava pela Federal, então, eu tenho essa lembrança, até porque quando eu saí de casa, saí assim, pra ir... Eu vou falar morar junto, mas casada, porque eu fiquei 20 anos casada. Eu estava com 17 anos. Já a minha mãe eu tive mais contato, porque eu vou falar da fase da minha... Vou falar criança, porque pra mim 9 até 10 anos, até mais um pouquinho é criança pra mim. Mas eu vou falar nessa época, porque a minha mãe, eu era uma pessoa que não parava, uma criança que não parava. Então, eu gostava muito de brincar. Era amarelinha, era pique-esconde, era polícia ladrão. Eu parecia que eu era um menino, porque eu não podia ver uma brincadeira na rua que eu estava no meio. Era jogar bola, era queimada, era tudo. Adorava subir em muro, pular quintal pra arrancar frutas, esses negócios assim, e o povo reclamava pra minha mãe, ia lá reclamar. Eu acho que minha mãe, assim, para tentar me segurar: “Senta aqui, vem aqui, faz aqui, mexe no barro aqui. Eu mexia ali”, mas eu escapulia. Continuava, brincava, fazia tudo quanto é coisa de brincadeira. Os outros sempre reclamando muito com ela. Ela pegava: “Senta aqui, vai fazendo assim que eu vou terminando, vai puxando a panelinha que eu vou terminando”. Eu fazia, mas eu era criança, né, eu fui crescendo, não sabia fazer nenhum tipo de panela, assim, tamanhos diferentes. Só fazia aqueles negocinhos pequenininhos, minha mãe ia e terminava. Tinha uns dois rapazes, que eram de Guarapari. Todo final de semana eles vinham buscar panela de caminhão. Então, tudo quanto era tipo de panela, tamanho, não sei o que, ele levava. Minha mãe queimava na sexta-feira e meu irmão… Porque quem fazia panela lá na minha casa era meu irmão, minha mãe, minha outra irmã, Jucileida, e eu. Só nós que, assim, tivemos a vontade de aprender, porque as outras pessoas não quiseram. Eu fui ali fazendo, mas eu ainda não me empolgava naquilo ali, porque eu queria ir pra rua brincar, eu queria ir pular, eu queria ir pular o muro, eu queria arrancar frutas do pé dos outros. Sei que eu era daquele jeito agitada. E o tempo foi se passando, os anos também. Eu já fui fazendo ela maiorzinha, mas não sabia fazer elas de tamanhos diferentes, né? O tempo passou, eu conheci o meu atual marido, a gente conviveu, assim, de namoros, aí, eu engravidei do meu primeiro filho, com 16, 15 para 16 anos eu tive ele. Foi a hora que eu tive que parar. Não existe mais brincadeira, acabou. Peguei firme nas panelas. Fui fazendo, mas a minha mãe… Ela me ensinou, porém, ao mesmo tempo, ela dizia, assim, que não queria que eu tivesse aprendido. Ela queria mais que eu trabalhasse de outra forma. Não pela panela de barro, mas sim pelo cansaço, pelo esforço, é um trabalho pesado. Aqui, a gente… Como vocês já viram como é que se queima, é um trabalho, assim, que a gente se machuca. Ontem mesmo, eu estava queimando panela, me furei com um prego sem ver, pisei em cima, ainda estou puxando um pouquinho do pé, porque ______ da perna, né? Então, a gente se queima também. Eu tenho duas marcas de queimadura, porque a vara tem uma ponta de prego, ela estava quente, escorregou e ficou pregada em mim e me queimou. A gente não tem benefícios para isso. Então, eu acho que a minha mãe pensava era nessa parte, é um serviço muito pesado, muito cansativo, muito puxado. Eu já trabalhei fora, sabe, gente? Em outras empresas. E eu falo para todo mundo que o pior serviço que tem é o das paneleiras! O pior serviço que tem é o das paneleiras! Eu ainda continuo levando essa profissão por quê? Meu irmão faleceu, ele teve aneurisma, e ele fazia muita panela. Muita panela! Cada panela grandona, linda! Então, ele teve aneurisma. Só que nós que vivemos dessa profissão, né, não tem como falar assim “Eu vou parar”, porque a gente não tem outro benefício a não ser o das panelas de barro. E mesmo assim, ele com aneurisma, ele não podia mais pegar quentura, mas como é que ele ia sobreviver? Ele saía do hospital, não fazia repouso, com dois dias ele voltava a fazer panela e queimar as panelas. Aí, dava crise, tinha que correr com ele para o hospital. Até que aconteceu a última crise que ele teve e ele veio a óbito. Então, a minha mãe ficou muito mal, que ela já tinha perdido um filho, e aí depois perdeu ele, meu irmão. O tempo foi se passando… E aí, veio a minha mãe. Minha mãe com 90, com 86 anos, ela teve… Como se fala, gente? Sumiu da minha mente [silêncio]. Alzheimer! E quem notou aos 86, 85 para 86 anos… Quem observou que ela estava com Alzheimer foi eu. Eu tenho uma irmã que também faz panela, é essa quem convivia com ela dentro de casa, na casa da minha mãe. Eu já moro separado. É um quintal só, mas eu moro em casa separada. Eu mesma descobri que minha mãe estava tendo Alzheimer. Um dia eu saí com ela, ela estava muito fixada para um certo lugar, a pessoa estava falando com ela e ela estava se sentindo distraída. Não distraída igual a nós, estava assim, focada em uma direção e a pessoa falando com ela. Eu peguei nela e falei: “Mãe, está ouvindo o que ela está falando?”, “Estou, estou”, mas não estava. Cheguei na minha casa e conversei com minha irmã, a que mora dentro da casa da minha mãe: “Minha mãe já está com Alzheimer”, “Não, ela não está, não está não! Pra saber se ela está com Alzheimer ou não, o médico tem que dar o diagnóstico, mas isso aí (diagnóstico) não existe. Não existe diagnóstico para isso”. Eu falei: “Tá bom, mas ela já está começando”, “Não, não está, não está começando, não está”. O tempo foi se passando, ela foi ficando pior da cabeça. Eu comecei a andar com ela de manhã, porque ela já estava parando até a movimentação. Eu fazia o quê? Vinha pra cá pra o galpão de manhã. A noite passava, eu chegava em casa, dava de tarde, eu pegava ela, dava o café, conversava com ela, levava dentro da minha casa. No outro dia de manhã, eu pegava ela de manhã, penteava o cabelo, dava o café, pegava ela, andava. Não sei se vocês viram ali na pracinha, que tem uma área de lazer ali, próximo a Multivix, andava com ela, para não deixá-la atrofiar as pernas. Nesse meio tempo, ela esqueceu como se fazia panela, como se andava. O pior é que eu tinha que ver isso tudo e ficar firme. Porque senão eu não podia ajudar ela. Porque minha mãe para mim não é igual a sua mãe, assim. Eu, você ou outra pessoa. Desculpa, gente. A minha mãe foi mais do que uma mãe. Não é igual você olhar para um filho, olhar para a mãe e falar: “Você é minha rainha. Minha mãe, eu te amo”. Minha mãe foi mais do que isso pra mim. A minha mãe foi a que mais me ajudou quando eu tive meu primeiro filho. Passei por muita dificuldade, mas minha mãe me ajudou [chora]. E minha mãe trabalhou muito. A minha mãe não foi só paneleira. A minha mãe foi lavadeira de roupa, a minha mãe foi a costureira de Goiabeiras. Tudo isso ela fazia ao mesmo tempo. Para ajudar... Para ajudar não, para criar os filhos dela. Teve 13 filhos. Por mais que eu tivesse meu pai presente, mas eu falo que ela foi pai e mãe. Tinha um pai presente, mas ela foi pai e mãe, para não deixar os filhos dela passarem necessidade, passar fome. Foi lavadeira de roupa, foi costureira e paneleira. Então, minha mãe foi muita coisa pra mim. Foi com ela que eu aprendi a fazer panela. Quando ela ficou internada… Enquanto ela estava passando por essa situação do Alzheimer, porque esquece de tudo. Esquece como se mastiga, esquece até como engolir. A médica tinha explicado isso para mim. Eu estava normal, porque eu sabia que tinha isso, mas eu via o sofrimento dela. Porque, como eu te falei, a casa é um quintal só, tem quatro casas. E a minha irmã morou dentro da casa da minha mãe, até na idade que ela está agora. Então, nesse processo do Alzheimer, da minha mãe, ela não teve paciência. Eu chegava daqui do galpão, tão cansada, cansada, mas eu ainda tinha força para pegar a minha mãe e cuidar dela. O pouco que eu pude fazer para a minha mãe, pela minha mãe, não foi suficiente, porque eu tinha que trabalhar ao mesmo tempo. Mas, pelo menos, eu fiz alguma coisa pela minha mãe. Quando ela foi internada, o médico me chamou e falou: “Como é o seu nome?”, “Jucileia”, “O que você acha da situação da sua mãe?”. Eu falei: “Olha, em que sentido?” Porque a minha mãe já não falava mais. A minha mãe já não se mexia mais. Eu estava vendo o sofrimento dela. Mas algo dentro de mim estava dizendo que era para eu não sofrer, porque a minha mãe trabalhou muito na vida com panela de barro, muito, muito! A minha mãe trabalhou muito com panela de barro e, nem na parte final da vida dela, ela teve um pingo de sossego. Isso eu lembro até hoje. E aí, a doutora perguntou a mim o que eu achava. Eu via o sofrimento da minha mãe, eu falei com ela: “Eu estou vendo a minha mãe, eu sei que ela não vai voltar, mas hoje eu prefiro que Deus leve a minha mãe”, foi essa a resposta que eu dei a ela. Pelo sofrimento que ela estava passando, eu estava ali acompanhando e estava vendo. “Sim, a sua mãe está muito debilitada. Se ela voltar, ela vai ter que ficar em aparelhos na sua casa”. Eu falei: “Pois é, mas agora eu peço que leve a minha mãe. Peço a Deus que leve a minha mãe. Minha mãe está sofrendo muito”, e comecei a chorar. Aí ela falou: “Chora mesmo, chorar é bom”. Eu falei: “Essa luta todinha da minha mãe que eu estou acompanhando… Hoje, é a primeira vez que você está me vendo chorar”, falei com a doutora. “Você não me conhece, mas hoje é a primeira vez que eu estou chorando, porque pelo menos por um dia alguém me perguntou o que eu estava sentindo pela situação da minha mãe, e foi a doutora”. Passou menos de uma semana e minha mãe faleceu. Você acha que eu fiquei triste? Eu perdi minha mãe. Ela foi a minha base. Mas em uma parte eu fiquei com o coração aliviado, porque eu vi o sofrimento da minha mãe aqui na terra, mas enfim. Foi a minha mãe que me ensinou a fazer panelas de barro. Hoje, eu tenho ela como mais do que... Eu não tenho nem palavras pra descrever a minha mãe. Minha mãe foi tudo pra mim. Tudo.
P/1 – E quando você era criança, sua mãe te contava histórias?
R: Minha mãe... Não, ela falava assim, das pessoas que eram conhecidas dela, que já não estavam mais ali: “Ah! Naquele tempo, antigamente… Para a gente… Hoje, as paneleiras estão... Tipo assim... As paneleiras estão com tudo na mão. Por quê? Porque antigamente, para pegar lenha, a gente tinha que pegar canoa pra ir lá em tal lugar assim”, falava o nome, mas agora eu não lembro. “E pegar canoa, ir com canoa. Tinha que cortar lenha. Ir com machado, não sei o quê. Trazia na canoa. Barro, mesma coisa, tinha que ir de canoa. Fazer as bolas de barro. Botar na canoa. E trazer para cá para poder fazer as panelas de barro. Era uma luta”. Realmente, eu acho que era uma luta. Porque, há uns anos atrás, a gente para deixar o barro no ponto para fazer a panela, era com a mão também. Então, a gente amassava muito barro na mão. Era a época que minha mãe fazia. Tudo isso a minha mãe fazia. É cansativo. Tão cansativo que a gente não conseguia... A gente fala “escolher”. “Escolheu” tanto, que hoje a gente “escolhe” fazendo no pé. No pé já é mais fácil do que na mão. Então, minha mãe ainda tinha a fase de “escolher” o barro na mão e as panelas que ela fazia.. À noite ela sentava lá, porque ela fazia em quantidade muito grande. Ela polia. Falar polir, porque tudo isso agora chama de polir, mas a gente falava alisar a panela. Ela alisava a panela à noite. De manhã, quando eu acordava, ela já estava acordada desde às 5 horas da manhã [silêncio]. Então eu acho que não teve um minuto de suspiro, suspirar. Mas não é que ela reclamava. Ela gostava. Ela me contou que, quando ela era criança, ela perdeu a mãe dela com 8 anos de idade. Ela falou que foi morar com a minha avó, mãe do meu pai: “E foi aí que eu fui vendo sua avó fazer panela e fui aprendendo com a sua avó”. Nem é a mãe dela, é a mãe do meu pai. “A sua avó não gostava. Ficava brigando comigo que não era para mim aprender, não queria deixar eu aprender. Falava que fazer panela não é bom, é muito cansativo. É bom, é bom você estar fazendo ali, mas o processo é muito árduo. Ela brigava comigo. Dizia que não queria que eu aprendesse, mas eu aprendi assim mesmo. Mesmo ela não querendo deixar, mas eu aprendi. E aí, eu fui fazendo panela”. Eu só esqueci de perguntar a ela a parte que ela chegou até meu pai [risos]. Porque, se ela foi morar com a minha avó com 8 anos, qual foi a parte, a fase, que ela conheceu meu pai? Ela já estava fazendo a casa da minha avó. Mas, assim, quantos anos ela estava quando ela se relacionou com meu pai? Porque ela foi com 8 anos para dentro da casa, com 9 anos, parece que ela perdeu a mãe com 8. Com 9 ela foi para dentro da casa da minha avó. Minha avó, não sei o porquê também ela foi. Mas eu acho que assim, a convivência aqui do bairro se torna tão… Assim… Grande que, com o tempo, a gente passa a ter eles como parentes. Entende? Eu falo, aqui é um povoado. Porque esse bairro aqui é um bairro muito pequeno. Tem aborrecimento, porque fulano fala de fulano, mas, na hora da ajuda, todo mundo aqui ajuda um ou outro. Aí, ela foi morar com a minha avó. Ali, ela aprendeu a fazer a panela. Depois que ela casou com o meu pai, ela foi tendo filho. Aí, a luta estava grande, como sempre. Começou a ir para o mangue também com meus irmãos. Ela arrancava sururu, arrancava ostra. Meus irmãos vinham... Ela cozinhava, ensinava eles como abrir. Eles saiam para vender. Tinha muito time, agora que não tem em Goiabeira, mas tinha um campo ali, onde eles todo final de semana jogavam. Então, ela pegava as roupas deles, pediam para ela lavar. Ela lavava e eles pagavam a ela. Também tinham pessoas, famílias que levavam roupa para ela lavar, ela lavava. Então, ela fazia isso tudo e ela veio a falecer com 92 anos. 92 anos! Não é pouco. É muito ano, sabe? Sei lá, parecia que ela era mágica. Ela fazia muita coisa para uma pessoa só. E assim, ela conseguiu criar. Ela falava que conseguiu a nós todos. Hoje, ela fala assim... Quando ela estava com o Alzheimer, a Beatriz foi lá entrevistar ela, e ela já estava com o Alzheimer. A parte que eu achei incrível foi como conseguiram tirar alguma coisa dela, porque, quando a pessoa está com o Alzheimer, ela não fala. Ela fala, mas não normal, assim, igual a nós. Então, ela perde as palavras. E ela conseguiu filmar ela falando e ela já estava com um grau avançado de Alzheimer. Aí, quando ela fala assim “Eu criei meus 13 filhos com panela de barro”. Não, ela não criou os 13 filhos dela com panela de barro. Criou porque ela foi uma pessoa que trabalhou com muita coisa. Não foi só com a panela de barro. Dona Lizete também fala a mesma coisa: “É, panela de barro me deu tudo”. Não, não deu, porque essa senhora também ia para mangue, ela ia para o barreiro, ela tirava ostra, sururu e vendia. Então, não foi só panela de barro que deu isso a ela. E minha mãe também foi uma das benzedeiras, né? Qualquer coisinha que sumisse dentro da casa da pessoa: “Dona Conceição, sumiu isso aqui. Será que sumiu mesmo ou tá dentro de casa? Será que eu perdi em tal lugar?”. “Vai pra casa. Fica lá quietinha, que eu vou fazer minhas orações aqui”. Mais tarde, ela vinha: “Dona Conceição, a senhora viu alguma coisa?”, “Pode procurar dentro da sua casa, que está dentro da sua casa. Você vai achar”, e achava. Pior que achava! No outro dia vinha aqui, tinha achado. E tinha também pessoas, assim, com a perna enferma, machucado, que não sarava. Ia para o médico, não sarava de jeito nenhum, passava tudo quanto era remédio, e não sarava. Ela ia lá. A pessoa mostrava ela. Aí mamãe, “Ah.. Essa perna… Se não cuidava da coisa ruim.” Benzia a perna, o lugar. No outro dia seguinte, a pessoa estava normal, o que estava inflamado saía, sabe? “Dona Conceição, quanto é que eu pago à senhora?”, “Não paga, não, minha filha. Não paga não”. Depois também teve um senhor… Teve um senhor que ele tava mancando, muito ruim da perna, muito ruim mesmo. Parecia que tinha nascido um caroço embaixo do pé. Ele não estava conseguindo nem andar. E aí, ele foi na casa da minha mãe. Minha mãe já estava com a idade avançadinha. Até então, eu não falava nada, e ela fazia aquilo com prazer, para ajudar as pessoas. Se era um chá que a pessoa estava gripada, que a pessoa estava assim… Ela fazia esse xarope e levava até a porta da pessoa. Não pedia nada, sabe? Ia lá, levava. Com uma semana a pessoa estava curada, né? E aí, esse senhor foi lá, ela falou assim... Ela nunca mexia no lugar que estava enfermo com agulha, com pontadinhos. Ela sempre ia no pé de laranjeira, que agora que nós fomos descobrir que não era laranjeira. Depois que ela faleceu que veio dar mexerica. Era um pé de mexerica. Nós só descobrimos porque nasceu agora. Pegava um espinho do pé da mexerica, benzia primeiro, fazia os processos dela lá. Ela só dava… Deu um pique. Tudo que tinha dentro saiu. No outro dia, o homem estava andando normalmente. Eu acho incrível. Eu achava incrível, porque não é por ser minha mãe. Como ela aprendeu? Como é que ela aprendeu? Eu não sei. Eu não sei nem explicar. E quando a pessoa perdia alguma coisa, documentos, esses negócios assim ia lá: “Dona Conceição”, “Pode ir pra casa que eu vou orar”. E assim ela fazia. No outro dia, “Ó, você não vai achar mais não. Você não perdeu dentro de casa. Você perdeu longe. Você não vai achar mais não”, e era assim. Ou quando alguém pegava alguma coisa de alguém dentro de casa, ela pedia para saber se perdeu mesmo. Ou se alguém pegou, minha mãe falava “Não. Alguém pegou”. Uma colega da gente aqui conhecida. Ela tem um problema nas pernas, né? Isso minha mãe ainda estava assim… Logo no começo, começo do Alzheimer. Ela nunca sarou dessa perna. Ela andando nessas motinhas elétricas aí. Nunca sarou dessa perna, nunca, e olha que tem muitos anos. Não. E um dia ela chegou, já mancando, gritando de dor: “Minha perna está doendo tanto”. Então, toda vez que acontece isso, ela tem que ir para o médico fazer raspagem. A gente nem vê mais o pé dela, porque ela só anda de meia, a gente não sabe nem se tem pé mais. Eu virei para ela e falei: “Simone, eu vou te falar uma coisa”, “O quê?”. Eu falei: “Vai lá em casa, pede para mamãe benzer suas pernas”, “Ah, mas eu não acredito nesses negócios, eu acredito em Deus”. Eu falei: “Mas você acha que a minha mãe benze por quem? Para quem?”, “Ah, mas eu acho assim, eu confio no meu Deus”. Eu falei: “Filha, então a sua fé é muito pouca”. Mas tá bom, aí já era com ela, porque se ela tivesse feito isso quando eu falei, eu tenho certeza absoluta que minha mãe teria curado esses dois pés dela. Hoje, ela continua na luta, sem poder andar. Quando desce da motinha, ela não… Sabe? Eu dei um caminho, ela não pegou, vive no sofrimento. Se tivesse feito isso antes, com certeza hoje ela não precisava estar dentro de um hospital, mas enfim. E aí, eu até tinha conversado com minha mãe, na época: “Mamãe, manda ela vir aqui”. Você foi? E não foi. Vive na luta até hoje, aí puxando a perna. Pessoas assim, eu acho que a fé é muito pouca. Não tem fé. Não tem fé. É isso aí.
P/2 – Qual a lembrança que você tem, assim, do lugar que você cresceu?
R: Lembrança de todas as crianças. Lembrança de momentos de criança. Bom, porque, como eu falei, parecia que eu tinha algum bichinho carpinteiro, eu não parava. Brinquei muito. Se eu falar que eu não brinquei, eu estou mentindo, né? Pulei muito muro. Peguei muita fruta dos outros. Então, minha infância, pra mim, foi muito boa. Só que a minha infância foi rápida. Foi boa, mas foi rápida. Eu tive que aprender a ser adulta, até mesmo porque, das consequências que a gente faz. Não escutar mãe, não escutar pai. E aí, eu tive que virar adulta rápido. Como eu falei, eu fiquei grávida com 15 pra 16 anos. Então, eu tive que virar adulta, nem que fosse a força. Mas a minha infância foi boa.
P/2 – E quais as brincadeiras que vocês faziam? Você contou que a sua mãe era benzedeira. O que lembra esse conhecimento que você conviveu ali com a sua mãe produzindo? Você tem uma lembrança desse saber acontecendo?
R: Como eu falei. Eu não sei como ela aprendeu, nem com quem ela aprendeu. Eu vi ela benzendo, né? Nos momentos de brincadeira ou fazendo panela ao lado dela, junto com ela. Eu via… Ela parava, alguém sempre chegava ou então, alguém ia lá [barulho com as mãos]. Vinha gente lá de não sei nem de onde: “Onde mora Dona Conceição? Estou com a filha assim, assado, passando muito mal. Me indicaram ela, ela é uma benzedeira muito boa”. E foi assim.
P/1 – E qual é o sentimento que você tem de ter participado desse saber da sua mãe, desse território?
R: Eu só tenho a agradecer a ela, porque foi uma fase muito boa, eu pude ver. Eu só não consegui aprender a ter o hábito de orar igual a ela, né? Ajudar as pessoas em oração igual a ela, mas ela me ensinou muito. Hoje, eu também dou minhas cacetadas na costura, porque tudo que ela fazia, eu ficava de olho. Eu aprendi muita coisa com ela também. Tudo que ela fez… Eu falo assim, que eu acho que a que mais puxou a minha mãe em matéria de “madeira de dar em doido” sou eu, de tudo eu aprendi. Eu só não consegui aprender a fazer essa parte que é benzer. E aí, quando ela ficou… O processo do Alzheimer foi evoluindo. Estavam indo muitas pessoas lá. Parecia que era… Explodiu de pessoas indo lá para ela benzer. Só que eu sou espaventada e tudo, mas eu noto tudo. Quem viu a minha mãe começando no Alzheimer fui eu. Um belo dia, eu cheguei do galpão, estava em casa, na porta de frente, onde ela tem um galpãozinho que vivia ali sentada. E aí eu vi que já chegou uma pessoa e pediu que ela benzesse: “Porque a Ana Rosa me indicou a senhora”, não sei o que, só que eu vi que ela também estava lenta. O processo do Alzheimer vai fazendo a pessoa ficar lenta. E aí, “Senta aí, minha filha, pega uns galhinhos ali”, eu estou falando normal, mas a fala dela não estava mais assim, estava devagar. “Pega três galhinhos ali”, assim a mulher fez. Quando ela saiu, quando ela foi embora, eu senti que minha mãe ficou mais fraca. Cheguei para minha irmã e avisei: “A partir de hoje em diante, nem se vier morrendo aqui na porta, não deixa a mamãe benzer”. Não sei, parece que é um dom que eu tenho. Eu não sei se é mesmo isso, mas eu acho que eu tenho um dom de ver as coisas e saber o que vai acontecer antes, igual ao Alzheimer da minha mãe. Todo mundo lá achava que o médico tinha que fazer o exame, que não sei o quê. Gente, ela já está com Alzheimer! Até a doutora falou que o Alzheimer é difícil dar positivo em um exame, sabe? Só vai dar positivo quando a pessoa já está ali, quase próximo do caixão. “Não deixa”. “Por causa de quê?” Eu falei, “Porque mamãe agora está benzendo os outros, parece que alguma coisa dos outros está passando para ela e está fazendo ela ficar mais fraca ainda”. “Será?” “Será não! Eu estou de lá vendo ela benzendo, e estou vendo que ela está fraca”. Quando a pessoa vai embora, parece que o que ela benze, sai da pessoa e passa para ela. Então, ela está morrendo mais rápido, vai morrer mais rápido. Muito boa minha era, sabe. Fiquei muito triste, porque… A moça, a colega da gente, como ela disse “Não acreditava”. Talvez se tivesse ido, hoje ela estaria em pé, andando com as suas próprias pernas.
P/2 – Você falou que foi mãe cedo, aos 15 anos. Quantos filhos você tem?
R: Do meu casamento, eu tive quatro. Meu marido faleceu. Quando eu casei, eu parei de fazer panela por um tempo. Não parar, assim, parar de vez. Eu não vinha mais fazer panela, mas quando eu vinha visitar minha mãe, sem o meu marido ver, porque ele não gostava, ele dizia que era… Era não, é um serviço muito, muito pesado, principalmente na hora da queima. Sem ele ver, quando eu vinha na casa da minha mãe, minha mãe: “Vai lá puxar umas panelinhas para mim”. Ela puxava aquele monte de panelinha, deixava lá. Ele vinha me buscar, nós íamos embora. Minha irmã, a mesma coisa, quando eu chegava: “Puxa umas panelas de seis lá pra mim?”. Eu puxava aquelas panelas de seis e ia embora. Nunca larguei de fazer totalmente, mas não era como agora, né, porque eu necessito disso. E aí, veio o dia que ele veio a óbito. E aí? Eu não sabia fazer tampa de panela, só sabia fazer as panelas. Então, quando ele faleceu, meu filho mais velho… Meu filho mais velho foi criado pela minha mãe, porque, quando eu tive ele, eu tive lá junto com a minha mãe, quando eu fui embora, minha mãe não quis deixar eu levar. Eu fiquei tranquila porque ele estava com a minha mãe. Não tranquila nem em paz, porque eu chorava dia e noite, né? Aí, eu fiquei entre a cruz e a espada, que era a minha mãe e o meu filho. Mas, enfim, ele veio a óbito. Ele estava com 12 pra 13 anos, o abaixo dele estava com 9 pra 10, aí, tinha a minha filha que estava com 7 pra 8 anos e o meu mais novo, que é do casamento, 4 anos ele estava. Hoje o meu filho mais novo está com 27, é um excelente mecânico, graças a Deus. Minha filha [chora]. É uma excelente manicure. Tenho muito orgulho dela. Todos os meus filhos, todos! Principalmente os que sofreram junto comigo [chora]. Meu filho Rodrigo trabalha em um supermercado. É um menino muito bom, carinhoso, respeitador. E meu filho Vinícius, eu não tive a convivência de estar 24 horas com ele dentro da minha casa, porque quem criou foi a minha mãe. Então, a criação a ele quem deu foi a minha mãe. A minha mãe deu tudo para o meu filho. Hoje, ele está com 35 anos e o meu filho, depois da Richele, 32. E eu tenho orgulho dos meus filhos, mas tenho mais de mim, porque eu criei sozinha, sem a ajuda da minha família e sem a ajuda da família dos avós deles, do pai dele. Eu me orgulho, porque, hoje em dia, para criar um filho, criar com comida, arroz, feijão, é fácil, mas o ensino e a educação é difícil. Eu vejo que muito pai, muita mãe, criam um filho com muito amor. E mais tarde, eles não são o que o pai e a mãe queriam que eles fossem. Esses meus três filhos que eu criei, foi na luta. Então, hoje eu só tenho orgulho deles. Aí, quando meu marido faleceu, eu tive meus filhos, eu criei, Deus e eu… Eu tive um outro relacionamento, e eu tive a minha filha Mariana. Na época, eu achei que a Mariana… Eu trouxe ela pra cá com quatro anos de idade comigo. Você foi lá, ficou de frente a mim, mas você não viu um banco que tinha lá no meu canto. Esse banco, todo dia eu vinha para cá, ela vinha pra cá. Era ali que ela ficava deitada, até dar hora dela ir para a escola, e assim foi me acompanhando. Um belo dia, ela saiu de perto de mim. Eu fui procurar por ela… Que era assim… Era ela sair… É por isso que hoje o Ronaldo, quando vê ela, fica “Marianaaa!”, porque era assim que eu ficava. Passava o dia todinho caçando ela, mas ela não era uma menina de sair. Ela ficava ali no celular até dar hora de ir para a escola. Nesse dia, ela saiu, aí ela falou: “Mãe, posso pegar um pouquinho de barro?”. Eu falei: “Para que, Mariana? Você vai se sujar, não vou embora agora”, “Não, mãe, eu quero um pouquinho de barro”. Eu dei, para me deixar quieta. Aí, ela pegou o barro… Ela tinha vindo olhar, olhar o menino ali que é filho do Ailson, que faz tatura, faz tartaruga, esses negócios assim. E nesse dia ele estava fazendo um anjinho. Ela foi lá perto dele e ficou, ficou, ficou. Aí, eu comecei a chamar por ela, eu vim assim, olhei e vi que ela estava lá perto dele. Não tirei dali, porque poderia falar assim: “Ela tirou a menina daqui, não sei por quê. Não sei por que tirou a menina daqui, a menina está aqui”. Deixei ela lá, ela veio sozinha e pediu barro. E aí, eu estou vendo ela fazendo. Não é que ela fez três anjinhos?! Não saiu perfeito, está lá dentro até hoje. Estou guardando para quando ela estiver uma moça, eu pegar e falar assim: “Aqui, Mariana, você está lembrada disso aqui?”. Ela fez três. Não saiu assim, você vê que é um anjinho, mas, para ela com quatro, cinco anos… Para mim foi incrível. Ela fez os cabelinhos de bolinha, foi pregando um por um, na paciência. Chegaram uns clientes aqui, de São Paulo, viram secando, queria porque queria levar um de qualquer jeito: “Mas tá cru, se você levar vai quebrar. Qualquer barro daqui vai quebrar”, “Não, mas eu quero! Não, eu vou levar. Eu vou levar”. Dei um jeito, peguei um papel de folha de jornal. Só dei uma meia amassada nele pra não encostar muito. Fiz assim, preguei um negócio em cima, botei em uma sacola e falei: “Vai levando assim até lá em São Paulo, porque se encostar vai quebrar”. Ela pegou, pagou ela, deu um dinheiro a ela: “Olha, mamãe. Queimei. Está lá dentro do armário os dois”. Até ela ficar uma moça. E aí está lá. Mas eu pergunto a ela hoje: “Mariana”, hoje não, já uns tempo atrás perguntei, “Você vai querer fazer panela?”, “Deus me livre” [silêncio].Não querem. Não querem, porque eles veem o processo do começo ao fim, é muito pesado, mas eu também concordo com eles. Eu prefiro que os meus filhos não façam panela, procurem um trabalho fora daqui. É um serviço muito árduo. Não é bom conviver assim, porque você se aborrece, você se aborrece em casa, você se aborrece aqui. Não é bom… Para os meus filhos não passarem por isso, eu prefiro que eles tomem o caminho deles em outra direção. Muitas vezes, eu já pensei em parar, parar, porque aqui é um lugar onde suga a sua mente, suga a sua alma. Mas sai lá naquele portão lá da frente, logo de frente, eu vejo quem? Minha mãe. A imagem dela lá naquele murão e eu sou a última paneleira. Então, como é que eu vou largar? Não posso. Quando estiver assim... É bom dar um tempo, ficar um pouco em casa, deixar passar, renovar o corpo e tentar renovar o corpo e a mente, e continuar.
P/1 – Você disse que você é a última paneleira nessa família. E qual a mensagem que você deixaria para os mais jovens ou para as outras pessoas que vão conhecer essa cultura depois de você?
R: Como eu já falei, por mim, eu, meus filhos, bom que eles não quiseram e porque também penso do mesmo jeito. Eu não quis, mas eu acho assim [silêncio]. Que, no meu pensar, eu não sei de vocês, mas eu acho assim, para fazer, fazer, a panela, eu acho que não querem. Eu acho, assim, eu acho que eles querem mais a mesma coisa que você, estudar, falar, divulgar, né, porque eles vão ver. No começo, eles vão tentar, mas depois eles vão fraquejar, sabe? Porque eu falo que para trabalhar aqui tem que ser guerreira, muito, mas é muito! Não é pouco não, é muito, sabe? Tem gente que vem aqui, paga para os outros fazerem, fica parada até quando a pessoa termina. Mas eu, a mãe dela, minhas primas, o outro lá, a gente é muito ágil, a gente não para. Se você pegar, a gente não para, a gente não, tipo assim: “Eu vou te dar uma encomenda agora, Jucileia”. Se eu achar que eu não dou conta e a quantidade é muita, eu vou pegar aquele tanto meu que eu tenho, eu vou dividir, ou eu falo com a mãe dela para ela fazer um tanto, ou vou na minha prima, pega um tanto, né? Mas é aquele negócio ali, a gente vai até o final. Por quê? Porque é o compromisso que a gente tem com o cliente, mas já tem outros que perdem o tempo ali dentro, de canto em canto, vivendo de conversa, vivendo de intriga, de confusão, sabe? E eu não, porque eu já me conheço. Eu não sou uma pessoa que leva desaforo pra casa. Você sendo meu amigo ou não, se eu ver que você está fazendo errado, eu vou gritar. Eu vou falar com você doa a quem doer. Para mim, tanto faz, sabe? Porque a gente já passa uma luta aqui dentro, a gente deveria, igual os outros falam: “Não, aqui tem que se unir”, não tem como, não tem como. Mas, quando não tem como, cada um tem seu espaço, fica ali dentro: “Fica ali, ó. Trabalha ali dentro, ali quieta”, pronto, sabe? Mas tem povo que não consegue.
P/2 – E como era aqui o bairro, a região de Goiabeiras?
R: Olha, eu não vou te falar bem atrás, não, que eu também nem sei, mas minha mãe falou que aqui era água pura. Essas casas que estavam aqui, era tudo mangue. Isso foi aterrado, né? Eu cheguei para pegar a parte ainda… Que eu me lembro, eu era bem pequenininha, mas meus irmãos me traziam aqui para... Eles iam pegar caranguejo, pescar, me traziam junto, né? Eu lembro que não tinha nada aqui, e a maré mesmo ia até lá em cima. O galpão era de madeira. Não era de madeira. Na época atrás, o Hermes Laranja, creio que é esse, foi esse o candidato, fez um galpãozinho, mini galpão, um colado no outro. Prioridade de quem ia ser favorecido eram as mais velhas, as paneleiras mais velhas. Então, foi minha mãe, a dona Merquide, né, a dona Lisete, que foram as privilegiadas, e os outros, que eu não lembro o nome. E era aqui assim, mais ou menos aqui assim, esse galpão. Minha mãe não vinha fazer aqui, porque no quintal da minha casa existe um galpãozinho também que meu pai fez para ela. Na época, meu pai fez mais por esse motivo assim mesmo, pra evitar perturbação, agonia, fofoca, conversa, esse negócio assim. Preferi que ela fizesse em casa, como aqui tem muitas paneleiras ainda que ainda fazem em casa. Muitas não, muitas faleceram, mas faziam em casa. Tem algumas ainda fazem em quintal, né? Minha mãe ficou, e esse galpãozinho ficou fechado por um bom tempo. Depois, o meu irmão cedeu pra Berenice e Marinete, elas vieram fazer panela, né? Como meu irmão trabalhava com minha mãe no quintal, lá em casa, ficou lá. Depois, fizeram de madeira. Ficaram um bom tempo fazendo, e eu fazia lá com minha mãe. O tempo se passou, fizeram esse aí. A obrigação da presidente… Quem era presidente, era devolver o espaço da minha mãe. Porque na época minha mãe passou o galpão que foi ganhado, a minha mãe deixou bem claro: “Esse galpão não está sendo dado para vocês, está sendo emprestado, porque um dia lá na frente eu vou vir a precisar. E quando eu precisar, eu vou querer de volta”. Derrubaram o galpãozinho e fizeram aqueles galpão. Deram parte para quem não era paneleira, para quem não fazia panela, para quem trabalhava para os outros fazendo panela, e a minha mãe ficou pra trás. Quando o meu marido faleceu, foi a parte que ela precisou, eu que ia vir pra cá. Teve muito aborrecimento, teve muita discussão, mas hoje eu tô aqui. Mas, paneleira mesmo, eu tenho 44 anos de panela de barro. Chegou um cliente ali: “Quantos anos você faz?”, “Só 43 anos”, “Caraca, nem parece! É sério, você tem 43 anos de paneleira?” Falei: “Comecei com meus 8 anos de idade”, “Nossa, nem parece!”.
P/1 – Você pode descrever um pouco como você faz a panela?
R: Olha só. O barro, ele chega em bolas, duras, né? E aqui, cada um de nós compra em quantidade e, depois de comprada, é separada a quantidade de cada um que comprou o barro. Depois, a gente tem a parte ainda de pagar para pisar, para deixar no ponto no qual você consegue fazer a panela. Quando esse barro tá lá, você pega esse barro… Falar é um pouquinho difícil, porque na prática, né, vocês não vão entender. Mas a gente pega o barro, pega uma tauba individual e vai botando de pouca em pouca quantidade de barro em cima dessa tauba. Depois, a gente vai pegar a mão direita e vai abrir, abrir bem redondo e deixar no espaço redondo. Aí, a gente vai acabar de arredondar com a mão esquerda. E depois que tiver feito isso, você pega a cuia, que é um cuiter, que é de moringa, que põe a cuia dentro, e é com isso aí que a gente vai fazendo. Com a mão esquerda você segura, com a mão direita você vai abrindo e vai deixando ela redondinha. Dali, acabou de fazer isso, você faz a roda dela ou você faz com couro… Antigamente era com uma faca. Só com a faca. Só que é o conhecimento… É tanto que vai alongando, então fazem com couro. Com couro você pega, você roda e ela sai perfeita. Por isso que tem gente que pergunta se tem forma. Não tem forma. É normal mesmo. E dali vai os procedimentos, os processos da secagem. Depois, a gente pega ela de novo, faz o contorno, embaixo, em cima, prega cabo, passa a faca e vai indo.
P/1 – E além dessa questão da faca, do couro, teve alguma outra coisa que mudou ao longo do tempo?
R: Não, o que mudou mesmo foi o couro, porque antes era a faca. Hoje, é mais o couro.
P/1 – Tem alguma coisa, assim, que você acha que o barro te ensinou?
R: O que o Barro me ensinou foi fazer a panela, ser paneleira.
P/1 – Tem alguma coisa que o mangue te ensinou?
R: A casca do tronco da árvore do mangue é ela que dá a cor na panela. Não só dá a cor, como ela serve pra ervas medicinais, ela serve para a pessoa que está enferma, um chá, né? Pessoa que sofre de hemorroida… Também… Fazer o chá, o banho, sentar dentro, né? Tem gente que faz licor da casca, põe na cachaça. Eles mesmos dizem que é ótimo, né? E ela dá a cor na panela, a firmeza na panela. Por isso, tem muitos clientes que chegam aqui e falam: “Por que a panela não é só queimada para deixar naquela cor? Não é só a cor do queimado?”, porque a tinta sela muita coisa, enquanto você está queimando, se tiver um defeitinho na panela, no qual não vai danificá-la toda, ali mesmo você pode consertar, com o barro cru e com a tinta para fazer a tapagem. Entendeu?
P/2 – Além da casca da árvore do mangue, o mangue te traz outras lembranças?
R: Sim. Porque eu, como minha mãe falou, ela criou 13 filhos, e nesse meio dos 13 filhos, uma sou eu. Eu estou aqui. O marisco, a pesca, o mangue ajudou minha mãe a criar a gente. Então, deu a vida a nós também, né, do Mangue.
P/1 – Voltando um pouco para você. Você falou do seu marido. Como você conheceu ele?
R: Nós éramos crianças. E aqui nesse bairro tinha dois clubes, no qual eu não podia entrar… Eu tinha dois irmãos… Não tinha só dois irmãos… Mas esses dois também gostavam de ir no clube. Eu era proibida, sou a caçula da família. Então, nós ficávamos lá fora, na frente do clube. Era mais para jovens, para nós jovens. E foi aí que eu conheci ele, nos conhecemos. A mãe dele, a minha sogra, mora no Mário Ortiz, não sei se vocês conhecem ali, é um bairro próximo daqui. Os anos foram se passando, fomos virando adultos, de adolescente viramos adultos, de adultos viramos homens e mulheres. E foi indo. Ele faleceu. Hoje, eu posso ter outro relacionamento, mas a minha sogra continua sendo a minha sogra. Tem muita gente que não gosta da sogra, mas eu gosto muito dessa minha sogra, que foi uma pessoa que sofreu muito com os filhos, foi pra outro rumo, tomou outro caminho. Outro caminho que machuca, que destrói. Então, eu tenho muito amor por essa minha sogra. Não vou lá diariamente… Não vou lá, fico tempo sem ela, às vezes, eu fico anos e moro aqui, mas ela me considera como a nora dela. Minhas cunhadas também. Então, foi indo assim. Enquanto minha outra filha, que é de outro relacionamento, essa parte eu pulei, que é a minha Mariana. O pai dela mora ali, no mesmo bairro que a minha sogra mora. Só que eu sou desse tipo de pessoa, eu não sou de ter um filho e implorar e nem correr atrás. Eu falo, hoje em dia, se as mulheres que jogam o homem na justiça, não que eles não tenham obrigação de ajudar, ah, pra mim são fracas. Fracas porque eu jamais iria estar me humilhando, nem de engano a um homem, porque eu falo isso. Eu falo assim que na vida o filho é da mulher, não é do homem, não é do pai, é da mulher, sabe? Pelo menos eu… Não deu certo, não deu certo. Ficou para lá e eu estou para cá. Hoje, a minha filha vai fazer 15 anos criada por mim. Eu preciso de alguém? Será que, eu falo assim, uma mulher que caminha com sua própria perna, vive do seu suor, do seu cansaço, da sua luta, você vai precisar de um homem para quê? E é assim.
P/1 – Você falou dos clubes daqui…
R: Então, eu conheci ele lá. Meus irmãos iam lá na minha mãe e falavam: “Olha, mãe, se eu ver “Ciléia” entrando naquele clube lá, eu vou trazê-la de volta batendo nela”, “Vai! Vai bater nela que você vai ver” [risos]. E foi assim que minha mãe não gostava deles me baterem, eles falavam assim, mas não batiam. Era só pra encher a cabeça da minha mãe. Foi falar isso com minha mãe um dia, e no outro dia eu entrei. Na outra semana nós entramos, eu e as meninas, nossas colegas. Entramos tudo, porque nós éramos de menor. Nós não podíamos. Então, tinha um pai de uma conhecida da gente aí dentro, que ele gostava de sair. Josias, pai de Merinha, ele gostava de sair. E nós não podíamos entrar. Nesse dia, ele vinha, chegou: “Vamos embora, criança. Vamos comigo” [inaudível] [risos]. O nome do dono do clube era Sr. Alcineu, pai de uma das que já foi presidente aqui… [corrige]. Marido de uma que já foi presidente aqui, dona Merquide. Ele que era o dono. Ele ficava na portaria. Ele chegou. O pai dessa conhecida disse: “Vamos embora. Vai entrar todo mundo comigo”. Aí, ele chamava o dono de lá, chamava: “Sr. Alcineu, pode botar as crianças pra dentro”, “Não. Não, que elas são de menor. Não. Não pode. Depois, eu vou tomar prejuízo. O pai e a mãe vão vir para cá”, “Ih, eu respondo por todas elas. Vamos embora. Vamos embora”. Botou nós todos para dentro. Foi só alegria! Para nós entrarmos no outro final de semana, nós ficávamos lá fora do clube esperando ele aparecer, torcendo que ele aparecesse para botar nós para dentro [risos]. E assim ele fazia. Era muito bom.
P/2: Você lembra o nome do clube?
R - Esporte, um era o esporte, o outro era o 3 de maio.
P/1 – E o que tinha dentro do clube que vocês fazia vocês quererm entrar?
R: Música, dança. A gente se acabava de dançar até o dia amanhecer. Chegava em casa escondida. Na época, a casa era de madeira, era tempo de tramela. Aí, antes da gente sair, pelo menos eu… A porta, durante o dia estava fazendo barulho. A dobradiça fazia aquele barulho. Então, eu pensava assim: “Vou acordar meu pai na hora que eu chegar”. Minha mãe era costureira, costureira tem óleo de máquina. O que eu fazia? Ia lá, pegava o óleo de máquina, pegava, passava nas dobradiças: É lógico, fazia para lá e para cá, para lá e, pronto, o barulho acabava. “Opa, é hoje que eu vou chegar duas horas da manhã”! E assim eu fazia. Gente, foi isso.
P/1 – E que tipo de música você dançava?
R: Todas. Não existiam… Anos atrás, as músicas que hoje falam “funk”. Eram músicas assim… Não tinha… Não tinha isso que tem hoje. Era um funk, mas era um funk saudável, de palavras, sem xingamentos, sem agressões, sem isso. Tinha as músicas lentas, tinha axé, a gente gostava muito. É isso aí. Hoje não, hoje os funks são palavras que não dá nem para engolir. Às vezes, a minha Mariana está lá no coisa lá, eu estou no quarto de cá, eu estou escutando uma música: “Vem cá, essa música aí é boa?”, mas é para ela se tocar. “Claro, você não vê que eu estou dançando?”, isso é de deboche. “Pois pode tirar agora”, ela vai lá e tira.
P/1 – E além dos clubes, tinham outras festas aqui no bairro?
R: Não, às vezes tinha quadrilha… Tinha festa de quadrilha, a gente ia, mas a nossa preferência era mais ficar pelo bairro. Assim… Igual hoje, tem gente que: “Eu vou pegar Uber, vou lá não sei aonde, porque tem um, não sei o que lá, não sei o que, nos bairros vizinhos, próximos, mas não é tão próximo”. A gente não era assim. A gente tinha a hora de se reunir na rua, de noite, que era sábado e domingo. Acho que era o dia de sábado só… Não, sábado e domingo, e a gente ia para esses clubes, que é aqui, era aqui no bairro mesmo. A gente não saía para ir para outro lugar, a não ser quando tinha uma festa de quadrilha, vamos supor, lá no Juscelino, que é lá no final do Mario Ortiz, “Ah, lá tá tendo som”, a gente se reunia daqui e ia para lá. Mas, para sair, para pegar um ônibus, ou um carro, um Uber, para ir para outro lugar, a gente não iria, a gente não ia, porque a gente tinha muito medo, e olha que era tranquilo nessas épocas, imagine hoje.
P/2 – E você disse que saia com as suas amigas, você se lembra das amigas iam curtir nessa época, nos clubes?
R: Eu falo amiga… Amiga [pensa]. Vou botar um… Um ponto aqui: eu falo conhecidas hoje. Porque amiga é aquela que quando você mais precisa, ela vai te dar uma mão. Então, aquilo lá foram tempos de adolescência, hoje nós somos mulheres, e hoje em dia a gente vê que amigas… Amigas… Amigas, algumas delas não foram, que já machucou, já judiou, já prejudicou. Então, eu falo assim: amiga hoje que eu tenho, minha amiga, eu tinha duas, uma Deus levou com 42, 43 anos, que é a Ednalva, apelido de Toquinha. A outra é a Mônica. Desde criança, nós somos amigas, amigas, de amigas, de amigas, de amigas mesmo, a amiga não precisa estar junto 24 horas, mas sim na hora que você está mais precisando, e assim a gente é. No clube que a gente saía, as conhecidas eram Merinha, Heloísa, Eliane, Mônica, só essas aí que foram as conhecidas, do qual a gente sempre saía junto, da adolescência, até quando a gente parou de sair. Mas amiga, amiga mesmo, que eu tive essas duas, Ednalva e Mônica.
P/1 – E hoje, o que você faz no seu tempo livre?
R: O difícil é ser livre, porque eu trabalho aqui, vou para a minha casa, faço as minhas coisas, tenho o meu cachorro, que eu falo que ele é o meu sexto filho, trato ele como filho também. E à noite, assim, eu pego a minha bicicleta e vou andar lá pelo Maria Ortiz afora [atende o telefone].
P/1 – Você estava contando que pega essa bicicleta…
R: E saio… Vou lá no Maria Ortiz, eu tenho conhecidos lá, né? Pronto, dou aquele horáriozinho assim, dá vontade de vir embora para casa. Vou no barzinho, tomo uma cerveja, venho embora para casa, e outro dia a mesma rotina. Galpão, casa, saio à noite, dou umas voltas de bicicleta, e é assim.
P/1 – E você acha que… Você falou um pouco daqui, mas outras regiões de Vitória mudaram muito?
R: Outras regiões de Vitória, eu não sei, né, porque não saio pra outros lugares, só se eu tiver alguma coisa pra resolver em outro lugar. Mas, assim, de sair para ir para fora, como eu te falei, não vou. Mudar, a gente vê que mudou pela televisão, né, porque agora, em época de eleição, então. Se eles pudessem passar só o que eles, como é que o bairro tá, eles passam. Depois das eleições, esquece tudo.
P/1 – Quais seus sonhos para o futuro?
R: Quando eu tive os meus meninos, o meu sonho, o meu sonho, né, era ter uma casa, um lugar onde eu pudesse botar eles dentro, para que eles pudessem dormir em paz, viver em paz, acordar, levantar e saber que tinha uma casa. Porque, na maioria do tempo, eu morei de aluguel. Meu marido estava construindo uma casa em Feu Rosa e antes de acabar a casa, ele morreu. Então, para mim, não deu, tive que vender ela, né, porque ainda faltava pagar a outra parte ao dono dela, o dono antigo. Ele faleceu, e aí eu tive que pagar. O que é que acontece? O que eu tinha, o dinheiro que eu tinha, eu fiz a minha casa ali, no quintal da minha mãe. Meu sonho era esse. Hoje em dia, meu sonho é ver meus filhos em paz, trabalhando, tendo sucesso. Para mim, já é o bastante, porque se eles estiverem bem, eu estou bem. Eles estando, nada pra mim interessa, nada, nada fora eles. Meus filhos estando, vivendo bem, para mim já é o suficiente. Já é a minha alegria, é o meu desejo, sabe? E é isso.
P/1 – E o futuro das panelas? O que você gostaria que fosse?
R: Futuro das panelas? Não vou dizer da parte para os meus filhos, como eu já falei, eles não vivem disso aqui, mas o futuro das panelas… Eu brigo muito aí dentro, sabe? [pensa]. A Jéssica sabe, porque eu vejo e não consigo ver o erro. Eu sou daquele tipo que eu vejo o erro e eu falo. Eu não consigo ver uma pessoa ajudando a outra que amanhã ela está te espinhando pelas costas. E tem muito disso ali dentro. O futuro das panelas, eu desejo que aqueles próximos, que pensam em vir ou querem vir, não façam igual a eles. Não se deixem serem vencidos pela ganância, porque, mais tarde, ela vai te derrubar, e sejam mais compreensíveis um com o outro. Eu quero, eu desejo que um respeite o outro, não passe por cima do outro, não queira ser maior do que o outro, porque você não é. O futuro, eu penso assim disso aqui. E é por isso que eu falo que eu brigo muito, eu brigo muito por isso, por isso aí, porque é muito fácil umas pessoas virem aqui, olhar, ver: “Nossa, aqui é bom, aqui é bonito, vocês parecem ser unidos”. Eu falo: “Só passar dois dias aqui, dois só. Não ser uma semana, só dois dias. Ganância é o que mais tem aí dentro”. Você acredita que se eu tiver… Eu tiver o arroz e o feijão dentro da minha casa, para mim eu tenho tudo, eu tenho tudo, mas muitos não enxergam assim ali dentro. Às vezes, tem um mais necessitado do que o outro. Eu vou te dar um exemplo. Esses dias, até uns dias atrás, estava chegando o ABAS [Associação Beneficente e Amparo Social], é ABAS, né? Estavam trazendo verdura, caixa de verdura, deve ser da Ceasa [Central de Abastecimento do Espírito Santo], eu não sei… Eu acho são eles, porque o ABAS… Você conhece o ABAS? Instituto (na verdade é uma Associação) ABAS? Então, ajudam crianças, adolescentes, negócios assim. Eles estavam trazendo para cá as verduras. Muita caixa, muita caixa. Muitas dão para se aproveitar, outras não. Aí, quem escolhe é a pessoa. Então, eles estavam trazendo para cá. Nesse dia, eu tive que voltar aqui à noite, eu queimei panela de tarde, a minha cliente só ia chegar aqui às 18 horas. Nesse meio tempo, eu fui em casa, eram 16 horas da tarde. Eu almocei e, [pausa e pensa]. Não deu tempo nem de descansar o corpo, tomei um banho e voltei para atender a cliente. A Berenice, a presidente, tinha me dado, falado, me dado um recado para passar para todos eles. No meu pensar, se tem um grupo, você não precisa me pedir para dar a mensagem… Joga no grupo, porque se tem um grupo do APG [Associação das Paneleiras de Goiabeiras], meu pensar é assim. Então, nesse meio de campo, você está indo, vindo, indo, eu esqueci. Mas ela tinha me informado, depois eu fui conversar com ela, que foi naquele mesmo horário que ela me deu, me falou para passar para eles, que eles ligaram para ela, que era só até às 16 horas. Então, não dava para ninguém ir lá buscar, porque ia ficar lá, não ia trazer mais para cá. Eu já estava achando injusto eles trazerem para cá. Então, começou eu e uma outra pessoa ali, a debater. Quando eu fui dar o recado, “Ah, meu Deus, eu esqueci. Berenice pediu que eu desse um recado, que o ABAS falou que quem quisesse verdura fosse lá até às 16 horas, mas eu tô correndo para lá e para cá”. Uma das pessoas virou e falou: “O quê?”, e é uma que nem precisa, “O quê?”. Eu falei assim: “Por causa de quê?”, “Por que não trouxe pra cá? Não é para as paneleiras?”. Eu falei: “Quem falou que as verduras eram para as paneleiras só?”, “Porquê? É para comunidade?”. Eu falei: “Por causa de quê? Não pode ser para comunidade, não?! Olha, eu vou dizer o que eu penso. Na verdade, essas verduras não eram nem para vir para cá, porque eu não acredito em toda a minha vida que uma paneleira não vai ter um real, dois reais, três reais, sei de lá quanto é que for o preço da verdura para comprar uma verdura que os carros passam aqui na porta. Tem precisão de estar trazendo de lá para cá? Não, não tem. E eu vou lá e vou falar sobre isso. Eles podem levar para um asilo que precisa, para esses lugares que eles resgatam crianças inocentes, pode levar, porque eu vejo na televisão passando fome. Tem pessoas que pegam a criança para ajudar as mães, famílias assim, de rua, os filhos, para ficar ensinando eles a fazer dar aulinha, brincadeira, até passar as horas porque vê que a criança é carente. Pega e leva para lá, porque paneleira não precisa disso. Paneleira pode comprar verdura. Tá tirando da boca de quem tá precisando e trazendo para lugar que não tem necessidade de trazer”. É isso que eu tô falando, que eu debato pelo certo. Eu brigo por isso. Eu brigo muito por isso, sabe? É isso aí, ali dentro, é a ganância, sabe? É a ganância, é o querer passar por cima de A, achando que você é a mais. Não, não é. Você não é. Você não é. E é por isso que eu brigo. E, enquanto eu estiver viva, eu vou continuar brigando. Pode falar quem quiser, pode se queixar quem quiser, pode... Vou continuar, sabe? E, no outro dia, eu comuniquei a aquela que eu acho que tinha que ter um pulso firme, mas não tem, a presidente das paneleiras Berenice, comuniquei a ela e deixei claro: “O meu pensar é o seguinte: “A Rede ABAS não tem que trazer mais isso aqui para cá. Tem que levar para quem está precisando, porque aqui ninguém precisa, não. O carro de verdura passa aqui todo dia. Poderemos comprar? Sim! Não precisa deles trazerem nada para cá. Procura uma instituição e doa para lá, que vai ser bem-vindo”. Eu acredito nisso.
P/1 – Pensando na sua história, qual é o seu legado?
R: De quê? Porque eu falei de muita coisa, né? Falei de muita coisa.
P/2 – Da sua história, o que você gostaria que ficasse registrado da sua história?
R: Eu já acabei de falar isso. Meu legado é não ser ganancioso, não tentar passar por cima dos outros, não querer tirar da boca dos que necessitam, porque aqui ninguém tem a necessidade disso aí, né? Eu acabei de falar aqui, porque, para mim, eu luto pelo certo, eu vou pelo certo. Dizem que uma andorinha só não faz verão, mas, fazendo verão ou não, eu vou continuar sendo do jeito que eu sou. Então, o meu final é isso. O que eu prezo mais é isso aí. Eu não quero você falando comigo na falsidade. Eu sou o tipo da pessoa sabe como? Se eu estiver te ajudando, eu estiver com você “Vamos ali?”, “Vamos”, “Você faz isso?”, “Faço”. Eu acabei de falar para a Jéssica que ela se sinta uma pessoa privilegiada, porque eu não faço isso aqui que eu estou fazendo hoje para ninguém. Ela ainda quis fazer e não foi nem pelo dinheiro, foi porque eu conheço a Jéssica há muitos anos. A Jéssica praticamente conviveu dentro da minha casa com a gente. Então, foi mais por esse motivo, que eu quis fazer isso por ela, por ela, porque já me ofereceram valores maiores para dar esse mesmo depoimento que eu estou dando aqui a vocês, e eu não aceitei. Então que ela se sinta privilegiada, porque não foi nem pelo dinheiro, foi mais pela… Não sei se eu estou ajudando, não sei, mas é por isso.
P/2 – O que você achou de dar esse depoimento, contar sua história?
R: Eu achei bom. Às vezes a gente está tão assim, tão assim, que às vezes você falar, tocar no assunto, falar alguma coisa, esse negócio assim… Você talvez… É um desabafo, porque, às vezes, você quer gritar, porque tem pessoas que não entendem, não põem na cabeça. A cabeça deles aqui é assim: “Vender. Eu quero vender. Eu vou vender. Eu vou passar por cima de você, se precisar”. É esse tipo que é aqui, tá? Eu não estou falando brincando. É esse tipo que é aqui. E o meu não é assim, não é assim.
P/2 – Você quer falar mais alguma coisa?
R: Não, eu quero agradecer a vocês. Desculpa se eu me... Que falar na minha mãe, falar na minha mãe, nos meus filhos, é tudo, como vocês já viram. E agradecer por eu poder ter ajudado um pouco, não sei se foi o suficiente, mas...
P/2 – A gente agradece.
R: Muito obrigada.
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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