Projeto: Memória da Petrobras
Depoimento de Franklin Santana
Entrevistado por Eliana Santos
Cubatão - SP
Cubatão, 22/09/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB657
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Boa tarde.
R – Boa tarde companheira.
P/1 – Eu gostaria de iniciar essa entrevista pedindo que o senhor nos fornecesse o seu nome completo, data e local de nascimento.
R – Meu nome completo é Franklin Santana, eu nasci em cinco de agosto de 1947, numa cidade do interior de São Paulo chamado Mirassol, portanto eu sou caipira!(riso)
P/1 – Senhor Franklin, o senhor pode contar para a gente como é que foi o seu ingresso na Petrobras e quando foi?
R – O meu ingresso na Petrobras, foi um ingresso, assim, estranho, né? Eu entrei na Petrobras enganado. Na época era processamento de dados, hoje se fala informática. Então, o sistema de computação estava começando a se desenvolver no mundo e já surgia em Santos vários cursos de processamento de dados. Eu estava a fim de fazer um curso desses de processamento de dados. E quando eu peguei o jornal Tribuna ou o Jornal da Cidade, um jornal local, havia um anúncio da Petrobras selecionando pessoas para trabalhar de operador de processamento. Olha só! E eu era professor primário, quer dizer, não tinha nada a ver com indústria, dava aula para criança. Na minha cabeça, nesse momento, passou processamento de dados. Então, peguei o jornal, vim aqui, fiz inscrição, fiz a prova escrita, né? Eles deram o manual, que nem a Fuvest dava na época, com aquilo que ia cair na prova. Eu como era professor já via os livros, que eram livros que eu já tinha estudado. Aí vim, fiz o concurso, passei no concurso, fiz os exames médicos, passei nos exames médicos. Quando chegou na apresentação inicial aqui no Sert, que era o Serviço de Relações e de Trabalho, nós éramos em torno de 40 jovens, né – era tudo cabeludo, era o pessoal da jovem guarda, os anos 70, tudo solteiro –...
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Depoimento de Franklin Santana
Entrevistado por Eliana Santos
Cubatão - SP
Cubatão, 22/09/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB657
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Boa tarde.
R – Boa tarde companheira.
P/1 – Eu gostaria de iniciar essa entrevista pedindo que o senhor nos fornecesse o seu nome completo, data e local de nascimento.
R – Meu nome completo é Franklin Santana, eu nasci em cinco de agosto de 1947, numa cidade do interior de São Paulo chamado Mirassol, portanto eu sou caipira!(riso)
P/1 – Senhor Franklin, o senhor pode contar para a gente como é que foi o seu ingresso na Petrobras e quando foi?
R – O meu ingresso na Petrobras, foi um ingresso, assim, estranho, né? Eu entrei na Petrobras enganado. Na época era processamento de dados, hoje se fala informática. Então, o sistema de computação estava começando a se desenvolver no mundo e já surgia em Santos vários cursos de processamento de dados. Eu estava a fim de fazer um curso desses de processamento de dados. E quando eu peguei o jornal Tribuna ou o Jornal da Cidade, um jornal local, havia um anúncio da Petrobras selecionando pessoas para trabalhar de operador de processamento. Olha só! E eu era professor primário, quer dizer, não tinha nada a ver com indústria, dava aula para criança. Na minha cabeça, nesse momento, passou processamento de dados. Então, peguei o jornal, vim aqui, fiz inscrição, fiz a prova escrita, né? Eles deram o manual, que nem a Fuvest dava na época, com aquilo que ia cair na prova. Eu como era professor já via os livros, que eram livros que eu já tinha estudado. Aí vim, fiz o concurso, passei no concurso, fiz os exames médicos, passei nos exames médicos. Quando chegou na apresentação inicial aqui no Sert, que era o Serviço de Relações e de Trabalho, nós éramos em torno de 40 jovens, né – era tudo cabeludo, era o pessoal da jovem guarda, os anos 70, tudo solteiro – veio o pessoal da casa, fez uma apresentação para a gente dizendo que eram 13 matérias que compunham o curso. A gente teria que ficar com uma média de sete em cada matéria, só podia tirar cinco em algumas, nas outras tinha que compensar com nove para manter a média. O pessoal da casa mostrou lá no quadro, o que seria o curso e as matérias. Aí eu vejo lá trocadores de calor, bombas, petróleo, fornos, destilação, torres, vasos, tudo que fazia parte do curso. Eu olhei para o colega do lado e falei: “Mas pera lá, e os computadores aqui, o processamento de dados aí, como que entra?” Ele falou: “Não, não fala nada, não fala alto que se o pessoal escutar, vão te tirar o maior sarro com a tua cara. Você vai trabalhar na área industrial, você vai destilar petróleo.” Eu falei: “Ih, meu Deus do céu! E agora?” Aí eu levei aquele choque inicial, né? Aí, eu olhei para turma toda assim e falei: Bom, vou ter que manter agora, né, afinal de contas eu trabalho numa atividade lá fora, que é muito parecida com essa indústria aqui dentro, que é dar aula para a molecada. Eu era professor primário, estava já tentando entrar para a faculdade para ser professor de ginásio. Então, ter uma carreira assim, de professorado: Bom, vamos encarar esse bicho, já que eu estou aqui. Eu comecei a fazer o curso. Fiz o curso e consegui obter as médias. Iniciei em 1974, na área de processo. Eu fui trabalhar numa unidade de destilação atmosférica, numa unidade que foi a primeira da Petrobras a operar aqui no Brasil, né? Ela não era original daquela época, ela tinha sofrido uma série de transformações, inclusive para aumentar a capacidade de refino, porque a unidade era pequena. Como até hoje, até nos tempos atuais, ela sofreu outros processos, porque aumentou mais a capacidade dela. Então, eu entrei assim, por engano. Dentro da área do processo que comecei a gostar, né, pelo tamanho dos equipamentos, pelos desafios que tinham, diversas atividades que existiam, eram normas do procedimento, que a indústria petrolífera ela é cheia de normas, de técnicas, né, inclusive essas normas não são nossas, isso daí é padrão no mundo, né, pelas próprias seguradoras que estão envolvidas nessas unidades, no caso de fogo e de incêndio, né, então você tem que seguir aquelas normas, aqueles procedimentos. Eu acabei gostando, abandonei o magistério e me dediquei a Refinaria e vim me aposentar dentro da mesma função que eu entrei. Foi assim: entrei enganado aqui.
P/1 – E o senhor poderia contar para a gente um pouquinho da sua participação nos movimentos sindicais? Uma história marcante.
R – Quando nós entrávamos aqui a gente já se filiava ao sindicato. Eu nunca, assim, participei de, vamos dizer assim, de diretoria de sindicato, né, fazer parte do sindicato. Mas, como funcionário aqui dentro, a gente teve uma visão nacionalista, seria a defesa do patrimônio público, que sempre teve, tem até hoje isso em mente, que a Petrobras ela é uma empresa pública, ela é um patrimônio do povo brasileiro. É lógico, todo povo brasileiro não vai poder trabalhar na Petrobras, que num cabe, mas no mínimo ela ter assim, concursos, como era feito que nem na minha época e que desse para a sociedade, né, de uma maneira transparente e clara, vamos dizer, benefícios, né? Porque? Ela é um patrimônio de toda uma sociedade. Mas a gente sempre ajudava ao sindicato. Às vezes, aqueles companheiros que ficavam com medo dos movimentos a gente incentivava eles que tem que ser assim, que nós éramos trabalhadores, que nós tínhamos que ter a solidariedade de luta. E a gente sempre não deixava, por exemplo, certas discussões polêmicas na área, a gente falava: “- Não, a gente que levar lá para o sindicato, que lá é o fórum de debate, lá nós temos que tratar essas questões, aqui dentro da empresa, não.” E depois sim, quando eu me aposentei, eu entrei para o sindicato. Tentei entrar antes, mas minha chapa foi derrotada, né, nós perdemos a eleição, mas, faz parte do processo a gente perder eleições, né, mas eu agora entrei no sindicato assim, como diretor, mas após eu ter me aposentado. Na ativa eu não consegui entrar porque; fazia parte, mas nós fomos derrotados.
P/1 – Tem alguma história marcante que o senhor tenha vivido, em alguma luta sindical ou durante o seu período na própria empresa?
R – Não, nós tivemos assim, dentro da empresa, nós tivemos como empregados, como pessoas nacionalistas, pessoas honestas, solidárias, sem más intenções, então, o que ocorria na empresa, principalmente depois que acabou o regime militar, é coisa estranha também, você ir para uma democracia e ficar pior as relações de trabalho. As relações de trabalho na época do regime militar, era melhor que hoje, quer dizer: “Então seria que os trabalhadores teria que voltar ao militarismo?” Eu acredito que não, mas os caras deviam de ter um pouco de vergonha na cara de não deixar uma coisa tão ruim que foi lá trás, ser melhor que eles agora, era só isso. Mas, aqui na unidade, nós tivemos uma época que o Cenpes ele fez um projeto de... era uma época que a sociedade, os meios de transporte estava muito assim, exigindo da Petrobras; que seria o transporte pesado de caminhão, então a unidade, ela sofreu um processo, o Cenpes veio com um estudo de fazer umas pequenas modificações no fundo da torre para você ter uma maior retirada de diesel, que era o que interessava para o mercado. Então, você teria menos retirada de óleo combustível no fundo da torre, teria uma maior flexibilização da torre e tirando diesel, né, um maior ______ de diesel. Então foi feito esse estudo, o Cenpes lá do Rio que trabalhou em cima desse estudo, foi uma coisa assim, que a engenharia “esquentou a pestana”, porque sempre tinha aquela turma que achava que não ia dar certo, né, tem a turma do contra, né, a turma do “quanto pior, melhor”. Então, foi feito isso daí. E eu acompanhei, como era operador, como operador eu fui chefe dessa parada, dessa torre que estava... tocou para mim pelo meu corpo franzino, magro, que você tem que entrar dentro das torres, passar entre as bandejas e o espaço é muito pequeno e dá uma sensação terrível também na pessoa, de sufocamento, sei lá, de fechar a torre e ele ficar lá dentro. É uma coisa assim terrível. E quando terminou essa parada desse projeto do Cenpes então, veio o fechamento da torre. Então, o fechamento da torre, ela é fechada de acordo com a ordem do chefe que está na parada, que seria meu caso. Então, o que a gente faz: a gente entra no topo da torre pela boca de visita, vistoria todos os pratos, vê se tem alguma baiano lá dentro dormindo, tá coisa, que daqui a pouco vai fechar a torre, é feito uma comunicação lá avisando o pessoal para não entrar mais ninguém, entendeu? Então é feito todo esse procedimento, se ficou algum capacete, luva, macacão, porque isso daí pode entrar dentro dos coletores de produtos que vai para as bombas e obstruir as linhas ou se chegar até nas bombas, danificar as bombas, os (empelidores?) das bombas. Então, quando nós fizemos essa vistoria, quando nós chegamos numa determinada região da torre, faltava é, que seria na retirada de querosene, faltava alguns borbulhadores nesse prato de retirada de querosene. Então, seria a mesma coisa que fizesse uns furos numas bacia com prego grosso e colocasse água e falar: “Oh, você tem 10 litros de água aqui você leva até lá, vai chegar lá.” Não, você vai perder no caminho. Então, o que você ia ter? Dessa parte do querosene você já ia ter uma degradação do querosene que deveria sair no prato dele de querosene, para o diesel, que o prato seguinte. Então, nós já notamos ali quantos borbulhadores faltavam, aí é uma questão de estudo para ver pelo diâmetro, o quanto que você ia ter de degradação. Isso daí já é outros estudos técnicos, porque a gente não tem idéia de conta, né, pelo diâmetro ali a gente nunca fez cálculo, porque nós só lidamos com a parte operacional, não nessa parte de cálculos de vazão, né? Bom, aí continuando descer a torre, quando nós chegamos no prato de diesel leve, que era... de diesel leve que a gente já tirava antes, também faltavam borbulhadores, quer dizer, então você ia ter o querosene degradando para o prato de diesel leve e do diesel leve, agora sim, ele ia atingir o estudo do Cenpes, que era o diesel pesado, a gente não tinha retirado nenhuma, mas tinha uma bomba lá que ligava ela de vez em quando, ela puxava um pouco de diesel pesado, ela cavitava aí parava. Você não tinha vazão suficiente para manter essa bomba, devido a essas deficiências que havia na torre, de espaçamento entre um prato e o outro. Aí, que ia acontecer? A gente ia ter um fluxo grande de querosene, de diesel leve caindo no diesel pesado, ia resfriar aquela região da torre, conclusão: a gente ia continuar, talvez, até com menos retirada, eu não fiz esses cálculos porque isso daí já é um cálculo de engenharia, do que a torre era antes, quer dizer, o Cenpes fez um estudo, uma modificação e não ia resolver esse problema aí. Bom, aí eu peguei, chamei lá o encarregado da manutenção que era um empreiteira e falei para ele: “Olha, não vai fechar a torre. Está tendo essas deficiências assim, assim, eu estou sentindo que, talvez, até uma sabotagem no projeto e não vai fechar.” Então, ele veio aqui na frente, comunicou o engenheiro deles, que era um chefe da empreiteira, que deveria ser até o filho do dono e ele foi reclamar para o superintendente, talvez, ele tinha razão esse moço, que tinha um operador lá na unidade, que não estava deixando fechar a torre, porque ele queria receber dinheiro. Tipo assim, oh: “ Eu facilito para você, mas você tem que me dar tanto.”, tipo assim, propina. E, ele fez essa afirmação efusiva aqui com o gerente geral, superintendente, o superintendente chamou o engenheiro chefe da unidade, que era o meu chefe, que se chamava Joel, na época e ele chegou lá na unidade pálido, branco, que nem uma cera, porque era uma coisa grave. E esse engenheiro também chegou lá, brabo, se gesticulando, falando um monte de besteira, de coisa, aí deixei ele acalmar, eu falei: “Olha, companheiro, você faz o seguinte, você se acalma, o seguinte: é o pensamento baseado na experimentação; então vamos fazer o seguinte: não vamos ficar batendo boca aqui fora, vamos entrar lá dentro da torre.” Aí, subimos para lá, para entrar dentro da torre. Quando chegou; aí é que foi a coisa, ele não quis entrar na torre, esse engenheiro. Aí eu tive que; eu fui um delicado com ele, com uma certa delicadeza eu fiz ele entrar dentro da torre. Aí, fomos lá, fizemos essa vistoria, realmente estava faltando isso e isso daí veio depois aqui para frente, né, eu não fui atrás porque a gente tratava da área mais operacional da unidade. Segundo eu fiquei sabendo depois de alguns dias aí, que esse, o superintendente daqui, deu uma ordem em toda Petrobras, proibindo esse engenheiro a entrar em qualquer área da Petrobras, que fez essa afirmação aí.
P/1 - Então, na verdade, foi uma contribuição para o estudo do Cenpes?
R –Do Cenpes? Tanto é que, o Cenpes; essas águas profundas, esse know-how que foi desenvolvido, eles sempre participaram e fez presença nisso daí.
P/1 – Entendo.
P/1 – Outro segundo estudo que veio do Cenpes também é... nós antes trabalhávamos aqui com petróleo importado, não tinha petróleo nacional. O petróleo nacional que nós tínhamos era do Recôncavo Baiano que é um petróleo parafínico; ele é um petróleo, para você tem uma idéia, as linhas tem que ter aquecimento, tipo de uma serpentina de aquecimento, porque senão ele endurece dentro das linhas, porque ele é de base parafinica. Então, é um petróleo até duro de você processar e te dá uma vantagem, porque ele tem um baixo teor de enxofre e ele é um petróleo bom assim, melhor petróleo que existe no mundo para fabricar lubrificantes e graxas, principalmente, para motores que trabalham com alta temperatura. Inclusive a Nasa, ela usa esses lubrificantes derivado do petróleo baiano, que ele serve para isso, porque ele tem baixo teor de enxofre, porque enxofre alta temperatura ele é altamente corrosivo.
P/1 – Entendo, senhor Franklin.
R - Entendeu? Então, ele dá essas vantagens. Então a nossa unidade aí, por exemplo, para trabalhar, quando começou as descobertas da Bacia de Campos, a unidade todinha, foi o Cenpes que fez isso tudo, ela foi reformulada para processar aquele petróleo da Bacia de Campos. Então, por exemplo, certos trechos de linha que era de aço carbono, teve que ser aço inox, porque? Porque ele é um petróleo mais corrosivo, mas quem fez esse estudo foi lá, o Cenpes.
P/1 – Sofreu várias mudanças, né?
R –Isso, ele é que veio, vamos dizer, com esse know-how, ele criou know-how, inclusive registrou isso para destilar petróleo de base ácida.
P/1 – Senhor Franklin, o senhor poderia falar para a gente o que o senhor achou de ter participado dessa entrevista, contribuindo para o projeto Memória Petrobras?
R – Foi assim, uma alegria, né, a gente estar aqui dando a participação da gente, dando o depoimento da gente, para que isso, talvez, fique até para as gerações futuras, servir de algum exemplo, de alguma... de algum estudo ou de uma análise para alguém, alguém se aproveitar disso como experiência de vida, como... sei lá.
P/1 – Eu gostaria muito de agradecer a sua entrevista, senhor Franklin. Muito obrigada.
R – Tá ok, foi um prazer grande estar aqui com vocês, tá, espero... a gente tem mais coisa, outras coisas aí, mas fica para a próxima que tem muita gente, pouquinho de cada um.
(Fim da fita Mpet/RPBC 009)
(Serto?) / (Sert?) / (empelidores?)
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