MUDANÇA DE VIDA
Minha vida estava indo mais ou menos dentro daquilo que eu esperava: casado, empreendedor em hamburgueria artesanal, filhos, netos. Muita correria no dia a dia, muitos planos para o futuro. Filhos criados, netos crescendo, hamburgueria se mantendo bem há seis anos e com clientela fixa. Até que veio março de 2020 e o mundo começou a mudar com a chegada da pandemia da Covid.
Como sempre segui recomendações médicas, tive todo o cuidado usando máscara, fazendo a higienização das mãos corretamente. Eu não queria de forma alguma ser contaminado por aquele vírus temido e assustador. Mas como muitas pessoas não tiveram a mesma preocupação, acabei, apesar de todos os cuidados, sendo contaminado pelo vírus da Covid, por volta do dia 10 de julho de 2020. Uns quatro dias depois estava tossindo muito e procurei ajuda médica. Fui tratado como se estivesse com rinite alérgica. Passaram-se mais dois dias e estava só piorando. Voltei ao médico novamente e mais uma vez, antibiótico e antialérgico foi prescrito, numa sexta-feira. Na segunda-feira seguinte, estava bem pior e mais uma vez fui a outro médico, que deu o mesmo diagnóstico anterior. Mas deu uma orientação: "Se dentro de dois dias não melhorar, vá para a UPA".
Na quarta-feira, dia 22 de julho fui até a UPA já em estado grave. Estava com 75% dos pulmões comprometidos por uma grande pneumonia viral. Prontamente acolhido e recebendo oxigênio, poucas horas depois fui transferido para o Hospital Municipal de Ipatinga-MG. No dia seguinte, pouco depois de 24h de internação, o médico me questiona: "Você piorou demais de ontem para hoje e preciso fazer a intubação e não dá tempo de falar com sua família. Você está de acordo?". Quase sem conseguir falar de tanta dor e falta de ar mesmo recebendo 15 litros de oxigênio por hora, só consegui pronunciar um "faça o que julgar necessário".
E assim, foram nove dias entubado, com a família sofrendo muito nos...
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MUDANÇA DE VIDA
Minha vida estava indo mais ou menos dentro daquilo que eu esperava: casado, empreendedor em hamburgueria artesanal, filhos, netos. Muita correria no dia a dia, muitos planos para o futuro. Filhos criados, netos crescendo, hamburgueria se mantendo bem há seis anos e com clientela fixa. Até que veio março de 2020 e o mundo começou a mudar com a chegada da pandemia da Covid.
Como sempre segui recomendações médicas, tive todo o cuidado usando máscara, fazendo a higienização das mãos corretamente. Eu não queria de forma alguma ser contaminado por aquele vírus temido e assustador. Mas como muitas pessoas não tiveram a mesma preocupação, acabei, apesar de todos os cuidados, sendo contaminado pelo vírus da Covid, por volta do dia 10 de julho de 2020. Uns quatro dias depois estava tossindo muito e procurei ajuda médica. Fui tratado como se estivesse com rinite alérgica. Passaram-se mais dois dias e estava só piorando. Voltei ao médico novamente e mais uma vez, antibiótico e antialérgico foi prescrito, numa sexta-feira. Na segunda-feira seguinte, estava bem pior e mais uma vez fui a outro médico, que deu o mesmo diagnóstico anterior. Mas deu uma orientação: "Se dentro de dois dias não melhorar, vá para a UPA".
Na quarta-feira, dia 22 de julho fui até a UPA já em estado grave. Estava com 75% dos pulmões comprometidos por uma grande pneumonia viral. Prontamente acolhido e recebendo oxigênio, poucas horas depois fui transferido para o Hospital Municipal de Ipatinga-MG. No dia seguinte, pouco depois de 24h de internação, o médico me questiona: "Você piorou demais de ontem para hoje e preciso fazer a intubação e não dá tempo de falar com sua família. Você está de acordo?". Quase sem conseguir falar de tanta dor e falta de ar mesmo recebendo 15 litros de oxigênio por hora, só consegui pronunciar um "faça o que julgar necessário".
E assim, foram nove dias entubado, com a família sofrendo muito nos primeiros quatro dias já que só estava vivo apenas porque havia um respirador mecânico fazendo a função do meu pulmão, que naquele momento estava muito perto da falência respiratória. Depois de sair da entubação, fiquei ainda por dois dias na UTI e fui transferido, numa segunda-feira, para a enfermaria destinada a pacientes em recuperação pós-Covid. Na terça-feira à tarde, outra batalha: havia contraído bactéria durante meus dias na UTI e fui transferido para o isolamento, onde por mais cinco dias fui colocado à prova novamente.
Ao final de 28 dias, enfim, recebi alta hospitalar e pude voltar para minha casa e o convívio com minha família. Hoje, em 22 de maio de 2026, um mês antes de completar seis anos da primeira internação, sigo com sequelas da Covid. Neste período, já passei pela UPA por 48 vezes, sempre com os mesmos sintomas: muita tosse, falta de ar, fraqueza muscular. Dessas idas à UPA, em oito delas passei por novas internações, sendo cinco por pneumonia bacteriana, duas por derrame pleural e uma por piora geral em meu quadro.
Atualmente faço acompanhamento no Núcleo de Doenças Pulmonares do Hospital das Clínicas da UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Até hoje tenho ao menos cinco a seis crises de tosse crônica todos os dias, durante quase seis anos. Aprendi a conviver com as limitações de ter perdido 40% dos pulmões por fibrose.
Apesar de tudo o que passei, sigo vivendo cada dia com alegria e gratidão, afinal, diante de toda a gravidade do meu quadro, estou vivo e respirando. Me tornei uma pessoa mais calma, mais comovido e sensível. A Covid mudou minha vida e o meu jeito de ver o mundo e de viver.
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