Me chamo Andreza, nasci no Sudeste do Brasil. Ser a filha mais velha sempre foi tranquilo, nunca tive problemas, a minha irmã abaixo de mim tem diferença de um ano só, ela que se comportava como a mais velha, porque eu sempre fui muito mais ligada a ajudar o meu pai, a trabalhar com ele, porque antes de montar o centro automotivo ele era mecânico, como eu era a filha mais velha eu tinha que ajudá-lo nessa oficina, e minha irmã acabava tomando conta dos irmãos menores, ajudando em casa, porque a minha mãe ajudava o meu pai no escritório da oficina. Eu fiquei mais com essa parte, trabalhando com ele. Aprendi a dirigir muito cedo e também querendo estudar para ajudar a administrar o que ele tinha. A postura de irmã mais velha acabou ficando para ela. A nossa infância foi muito tranquila, muito legal, muito gostosa, muito divertida, em um local bacana também, eu morava em um bairro que tinha pouquíssimas casas, brincava muito, foi muito divertido, muito bom. A diferença é pouca entre eu e a minha irmã, é de um ano, e dos outros dois a diferença é maior. Eu não vi muito a infância deles, porque eu me casei muito nova, perdi um pouquinho dessa parte, eu só assisti a distância.
Trabalhar na mecânica ajudando o meu pai, sendo menina era constrangedor. Quando meus amigos passavam na rua me escondia, eu não gostava, depois que eu comecei a compreender que trabalhar com meu pai era bom e que eu estava ajudando, era legal, mas depois de muito tempo que compreendi, já estava com dezesseis anos, entendi que eu não precisava ficar com vergonha, que era uma profissão e que se um dia eu quisesse seguir seria bom também, mas no início foi difícil, os meus amigos aproveitavam para caçoar.
Quando eu era menina eu sempre tive um sonho, eu tenho esse sonho até hoje porque eu ainda não realizei, eu sempre quis estudar Direito, só que fui por outros caminhos por conta do meu pai, porque ele queria que eu fizesse Administração. Entrei na faculdade...
Continuar leituraMe chamo Andreza, nasci no Sudeste do Brasil. Ser a filha mais velha sempre foi tranquilo, nunca tive problemas, a minha irmã abaixo de mim tem diferença de um ano só, ela que se comportava como a mais velha, porque eu sempre fui muito mais ligada a ajudar o meu pai, a trabalhar com ele, porque antes de montar o centro automotivo ele era mecânico, como eu era a filha mais velha eu tinha que ajudá-lo nessa oficina, e minha irmã acabava tomando conta dos irmãos menores, ajudando em casa, porque a minha mãe ajudava o meu pai no escritório da oficina. Eu fiquei mais com essa parte, trabalhando com ele. Aprendi a dirigir muito cedo e também querendo estudar para ajudar a administrar o que ele tinha. A postura de irmã mais velha acabou ficando para ela. A nossa infância foi muito tranquila, muito legal, muito gostosa, muito divertida, em um local bacana também, eu morava em um bairro que tinha pouquíssimas casas, brincava muito, foi muito divertido, muito bom. A diferença é pouca entre eu e a minha irmã, é de um ano, e dos outros dois a diferença é maior. Eu não vi muito a infância deles, porque eu me casei muito nova, perdi um pouquinho dessa parte, eu só assisti a distância.
Trabalhar na mecânica ajudando o meu pai, sendo menina era constrangedor. Quando meus amigos passavam na rua me escondia, eu não gostava, depois que eu comecei a compreender que trabalhar com meu pai era bom e que eu estava ajudando, era legal, mas depois de muito tempo que compreendi, já estava com dezesseis anos, entendi que eu não precisava ficar com vergonha, que era uma profissão e que se um dia eu quisesse seguir seria bom também, mas no início foi difícil, os meus amigos aproveitavam para caçoar.
Quando eu era menina eu sempre tive um sonho, eu tenho esse sonho até hoje porque eu ainda não realizei, eu sempre quis estudar Direito, só que fui por outros caminhos por conta do meu pai, porque ele queria que eu fizesse Administração. Entrei na faculdade para fazer Administração, depois eu parei, já estava casada, já tinha a minha filha, eu não quis mais esse curso. “Não, depois eu volto para fazer o curso que eu quero”, já estava independente, e acabei não voltando, esse é o sonho que eu ainda tenho, e que eu ainda vou realizar.
Eu comecei a trabalhar em uma empresa como recepcionista, e eu tive a oportunidade de trabalhar posteriormente no departamento pessoal dessa empresa que ainda não tinha Recursos Humanos, era um novo desafio, e optei por fazer esse curso de Administração, depois de muito anos trabalhando nessa empresa eu resolvi fazer o curso de Gestão de RH e vi que precisava complementar os meus estudos, fiz o curso de Ciências Contábeis e eu nunca retomei Administração que era o meu curso de início, porque esse foi o meu pai que queria que eu fizesse, mas agora eu quero fazer Direito do Trabalho, porque também é da minha área, eu dou aula dessa matéria, como já é o meu sonho eu vou aproveitar e vou concretizar nos próximos quatro anos porque eu ainda tenho que terminar um.
Essa empresa que eu trabalhava não tinha Recursos Humanos, eu, junto a uma equipe, fizemos a implantação, foi muito interessante porque era como se a empresa fosse um laboratório porque eu via a teoria, e a equipe que estava se formando montava na prática na empresa, e a faculdade nesse momento foi uma grande parceira porque eles me davam tudo o que eu precisava, como algum material, sempre falava alguma coisa. “Eu estou pensando em fazer um Departamento de Benefícios, separar do Departamento Pessoal, o que vocês acham?”. “Ótimo, é assim que monta, vocês vão fazer dessa forma”. Davam estratégias para que eu montasse lá na empresa e a empresa foi muito receptiva, eu tive muita sorte, uma experiência única, foi fantástico.
A história de como eu entrei no SENAC é legal, na verdade eu fui fazer um curso no SENAC de prática de Departamento Pessoal e durante o desempenho desse curso o meu professor me questionava: “Essa matéria você já sabe e você veio fazer esse curso para reciclagem, não é?!” e eu: “É” e ele sempre falando isso, ele foi conversando comigo durante o curso todo, foram dez dias de curso, ao final do curso ele falou assim: “Você não quer trabalhar aqui no SENAC? Você tem o perfil, você tem o conhecimento, nós estamos precisando de um professor porque eu estou saindo, eu vou para outra área”, eu falei: “Olha, eu não tenho essa capacidade, eu acho que eu não posso, eu acho que eu não consigo, nunca dei aula, eu acho um mundo muito distante do meu”. “Não, vem fazer um teste”. Eu falei: “Ah, não quero” e ele continuou insistindo, cheguei na empresa e comentei isso: “Olha que absurdo, o professor me chamando para dar aula”. O dono dessa empresa disse: “Não, você vai dar aula sim, você tem que fazer o teste, como você fala que você não consegue antes de tentar?”. Fiz os testes e durante o processo de seleção que demorou alguns dias, fui passando teste por teste até chegar ao final e fazer uma aula expositiva, me surpreendi porque eu descobri uma nova capacidade, porque eu já fazia isso no dia a dia, só que eu nunca tinha visto que eu estava ensinando. A essa altura eu já era gerente dessa empresa, eu preferia pessoas sem experiência, porque eu dava o treinamento e ia moldando a pessoa, dava oportunidade para quem estava entrando no mercado, eu já fazia esses treinamentos só que era de forma pessoal. A partir desse momento eu descobri uma nova profissão, depois eu recapitulei na memória que quando eu era pequena eu sempre falava isso com a minha mãe: “Mãe, eu quero ser professora”, mas depois eu cresci e isso passou e acabou que se concretizou, o mundo conspirou para que eu voltasse a esse caminho e eu já estou há sete anos dando aula.
A primeira impressão que tive do Projeto ViraVida é da necessidade de acontecer a capacitação profissional dessas pessoas, de recuperação da autoestima, de inserção no mercado de trabalho, a primeira impressão que eu tive é que, além de ser um trabalho que faz parte da minha obrigação, seria um prazer fazer isso também, a equipe falando na mesma linguagem, vários parceiros determinados a trabalhar, tudo isso me encantou pelo projeto, a primeira impressão que eu tive foi essa, acho que vai ser algo grandioso, com muito trabalho, mas que vai ter uma recompensa muito legal.
Nós somos muito bem preparados, porque nós tivemos esse primeiro momento, esse primeiro contato direto com o ViraVida, nós viemos aqui no auditório do SESI e fizemos essa apresentação de proposta de curso, eles escolheram e ali mesmo já houve o primeiro contato, na sequência a equipe técnica do ViraVida marcou o nosso treinamento e nós fizemos reuniões junto com os parceiros e eles nos prepararam, nos orientaram, nos falaram do projeto, apresentaram o projeto de novo, mas de uma forma mais detalhada, nós tivemos dois dias de treinamento, isso foi uma capacitação para trabalhar com esse projeto, fora isso ainda tivemos a capacitação dentro do SENAC que foi uma preparação também, eles montaram realmente uma pasta, um portfólio do projeto, nós assistimos vídeos, depois nós lemos sobre o projeto, eu e a equipe pedagógica do projeto, foi tranquila essa preparação.
Os primeiros objetivos para o estabelecimento dessa parceria entre ViraVida e o SENAC foram objetivos básicos, a capacitação profissional, a parceria foi montada foi para isso. Depois que nós conhecemos, que eu vim para a sala de aula mesmo é que nós percebemos, por exemplo, que eu não poderia inserir a capacitação profissional imediatamente porque eu estaria falando de um mundo muito diferente do que eles estavam acostumados, eu acabaria assustando, fizemos a competência básica para o trabalho, fomos trabalhando e ensinando para eles sobre comunicação, como que ela deveria ser, postura profissional, postura pessoal, o que é ser um profissional no contexto geral, não só no promotor de vendas, nós fizemos essa análise no primeiro momento e fizemos essa capacitação e foi muito interessante, eles gostaram muito e deu uma diferença enorme na postura deles.
No primeiro contato com esses jovens, o que eu percebi deles era um medo muito grande, medo de falar, medo de errar e às vezes uma postura muito agressiva, a defesa deles era agredindo, no primeiro momento foi muito difícil conseguir atingir esses jovens, qualquer lado que você tentava na parte de prática normal, de passar atividade, exercício, escrever no quadro, você não conseguia tocar essas pessoas, a partir de então eu troquei algumas ideias com alguns colegas do SENAC e eles me falaram: “Vamos fazer mais dinâmicas, vamos tentar sensibilizar esses jovens de outra forma”. Começamos a inserir alguns filmes, algumas dinâmicas, fazendo com que eles pensem, fomos elevando a auto-estima deles porque eles são artistas, desenham muito bem, escrevem algumas coisas muito legais, começamos a mostrar para eles as qualidades que eles tinham e a postura deles mudou, eles começaram a ter carinho sem achar que queríamos alguma coisa em troca, os filmes estavam fazendo efeito, ainda que eles ficassem meio durões na sala, depois ficávamos sabendo que eles comentaram a respeito do assunto, isso foi fazendo com que eles se movessem. Eu achei interessante quando foram dar aula de comunicação, eu fiz uma pergunta para eles, se eles sabiam se comunicar e eles falaram: “Não, sabemos nos comunicar muito bem, nos comunicamos, falamos”. A equipe foi fazendo algumas dinâmicas e eles: “Não, eu não sei fazer isso não. Não, eu não sei comunicar” eles foram percebendo que precisavam trabalhar esse lado, o respeito, o relacionamento interpessoal, isso foi modificando, hoje eles já estão muito diferentes do primeiro momento. Eu me lembro que no primeiro dia eu fiz uma dinâmica com eles que eu fiquei até surpresa porque eu trouxe uma dinâmica que eles tinham que tirar um papelzinho e lá estava escrito uma frase assim: “Se você fosse um objeto, qual você seria? Se você fosse um animal, qual você seria?” e eles foram passando para se apresentar e uma aluna tirou justamente essa pergunta: “Se você fosse um objeto, qual você seria?” ela falou assim: “Eu seria uma faca” eu perguntei logo em seguida: “Uma faca?”. A estudante: “É”, eu perguntei: “Por quê?” “Porque eu iria matar todo mundo que me irrita e me estressa”. Eu falei: “Mas se você matar todo mundo que te irrita e te estressa você vai ter que matar muita gente, como é que vai ser, você vai ficar sozinha no mundo?” e ela: “É, eu não tinha pensado nisso”. Eu falei: “Pois é, você pensa e depois você me fala qual outro objeto você gostaria de ser”, passado um tempo ela: “Ah, agora eu já sei o que eu quero ser, eu quero ser uma flor porque uma flor é delicada, todos a respeitam” foi falando as características dela, aí eu falei: “Pessoal, eles precisam ser questionados do porque daquele pensamento”. Eu não quero saber dos detalhes da vida, eu quero saber por que você pensa assim de uma forma fria, e para que eles pudessem analisar o pensamento e refletir sobre tudo aquilo que eles falam sem pensar, porque ela não falou pensando, ela falou por falar, ela falou qualquer coisa porque ela estava com raiva, depois ela refletiu e me deu uma resposta que era a resposta que ela queria dar e não a outra para assustar, porque ela queria assustar as pessoas. Isso hoje em dia já não existe, fazemos uma dinâmica, todo mundo participa, dá a sua opinião, isso é muito legal, é muito bacana, a postura mudou completamente.
Hoje eles se reconhecem, sabem que são capazes de serem profissionais, sabem do seu potencial, a auto-estima deles está bem melhor, é lógico que tem muito trabalho pela frente, sem dúvida, nós temos muita coisa para ensinar, para aprender também com eles, mas eles estão muito mais confiantes, sabem que o esforço depende só deles, essa turma mudou bastante, a postura dela também está muito melhor, sabem se comportar e a agressividade que existia antes diminuiu bastante, o relacionamento interpessoal melhorou, eles não se respeitavam, eles se tratavam, às vezes, de forma muito grosseira, agora não, eles estão bem melhor, estão conseguindo se relacionar de uma forma bem melhor.
Sem dúvida o Projeto contribuiu muito para mim. Eu tenho uma filha adolescente, ela tem dezesseis anos, o meu jeito de olhar para ela mudou, eu observo que eu cobrava muitas coisas dela e ela já me dava esse retorno e também descobri que algumas coisas eu também preciso cobrar dela, eu digo em relação a comportamento enquanto adolescente e orientações também que são importantes, que são as que eu passo para os alunos hoje em relação a saúde física, a cuidar do corpo, porque falamos também desses assuntos com eles, apesar de não ser da nossa grade, mas acabamos tendo um relacionamento com eles. Esses problemas sociais estavam tão perto e não víamos, eu nunca imaginei que aqui por perto aconteceria essas situações tão graves de abuso e outras coisas mais. Eu passei a ter um olhar diferente com as pessoas, eu acho que você vai passando todo dia no mesmo lugar e você não olha mais aquele lugar com o primeiro olhar que você teve na primeira vez, passei a observar um pouco mais, eu passei a ser mais delicada com os adolescente porque no SENAC eu sempre falei que eu não tinha perfil para dar aula para adolescente porque lá tem aprendizagem comercial que é o Jovem Aprendiz, eu achava eles muito bagunceiros, gritavam e eu sempre tive alunos adolescente, mas eram poucos na sala, a maioria dos alunos eram mais velhos, passei a ser mais delicada com eles e entendê-los melhor, apesar de ter uma filha adolescente porque a minha é diferente, em casa você tem um tratamento diferenciado, isso tudo me sensibilizou e eu passei a ter uma visão diferente, passei a pesquisar mais sobre o assunto porque a equipe fala sobre esse assunto, vê esse assunto, mas não toca, não fala, eu passei a falar com a minha filha sobre abuso e exploração sexual de uma forma mais clara, tudo que mudou no meu dia a dia, levei para a minha família também esses assuntos para que eles tivessem conhecimento de que tudo isso acontece ao nosso lado, aos nossos olhos, isso mudou, muitas vezes eu saí daqui chorando sem que elas vissem, entrava no carro, chorava e pensava como isso tudo era possível, como eu estava tão perto e nunca vi nada disso acontecer e o que eu podia fazer para melhorar, o projeto me deu essa consciência que eu já tinha, é uma consciência que todo mundo tem, mas que ninguém faz nada, me modificou tanto que as aulas que eu tinha que ministrar nesse curso e as que eu não precisava ministrar, que outra pessoa viria, eu falei: “Não, eu gostaria de participar de todas” e o pessoal do SENAC: “Não, então tá bom, você quer?” “Quero” “Então você tem livre acesso ao projeto”, acabou que eu fiquei como referência no projeto para todos os assuntos, junto com a supervisão pedagógica, representando, às vezes, quando eles não puderam vir. Mudou realmente o meu pensamento em muitas coisas, foi um crescimento pessoal de extrema importância, tenho muito que agradecer à essas meninas, as coisas que elas me contaram e poder ajudá-las, falar: “Não, olha, faz assim. Olha, não seja rebelde, não briga com o seu pai” – “Não por que ele vai ter que deixar” aquelas coisas assim de adolescente, poder aconselhar, eu acho que isso faz uma grande diferença na minha vida.
Entendo o papel transformador do professor no ViraVida, como uma peça de extrema importância, de extrema responsabilidade, porque é ele que realmente está de frente com o aluno, ele é referência. As meninas chegam e querem saber da sua vida, se você tem filho, como você é com a sua filha, como a sua filha é com você, perguntam, não tem nada a ver com a sua matéria e eles querem essa referência pessoal. Eu acho que o professor tem condição de transformar muitas coisas na vida desses alunos, com exemplos pessoais e também na vida profissional ensinando: “Olha, o caminho é esse, você vai por esse caminho que vai dar certo. Aprende isso que estamos passando aqui porque vai ser de extrema importância ainda que você não seja um vendedor, mas você tem que conhecer as técnicas de negociação porque tudo na vida é negociação”. O papel do professor é fundamental, ele que vai fazer o aluno querer continuar ou desistir, porque para eles também não é fácil, eles tinham uma vida mais solta, mais “livre”, eles tem que vir ao projeto e ficar aqui o dia todo, eles abriram mão de várias coisas que na opinião deles, às vezes, é muito importante. Faz muita diferença eles ficarem aqui, na primeira semana em que eles ficavam o dia todo, manhã e tarde, foi muito difícil prender a atenção, se o professor não tivesse um jogo de cintura interessante, assuntos interessantes, despertasse neles a vontade de estar aqui, muitos já teriam desistido porque eles queriam dormir de tarde, eles queriam outras coisas, menos estudar.
P/1 – Andressa, um pouquinho antes você falou de como esse projeto afetou a sua vida pessoal e profissional, eu queria que você falasse para gente dos lugares que você passou a ter outro olhar ou onde é que ficavam esses meninos e meninas, o que você via e como você enxerga todo esse problema agora?
R – Eu enxergo esse problema de onde ficavam esses meninos e meninas como sendo um problema nosso, principalmente de nós educadores porque temos um contato direto com essas pessoas todos os dias. No SENAC nós temos o programa Jovem Aprendiz, eu vejo vários adolescente todos os dias e eu nunca procurei saber, como o meu colega que dá aula ao meu lado, como era essa situação porque lá isso não é o foco, aqui também não é o foco, mas como é um projeto e que veio por esse motivo, ele aconteceu para acabar com esse tipo de coisas também. No SENAC nós temos alunos com esse mesmo problema e eu nunca olhei para eles com essa preocupação, eu sempre os vi como alunos comuns ali e hoje não, se alguém comenta comigo que tem aluno na sala que já passou ou passa por alguma situação, eu falo: “Eu tenho um assunto para te dar, podemos montar uma palestra, pode-se falar desse e desse tema, não precisa trazer”. Nós tivemos problemas lá com uso de drogas e normalmente quando tem problemas com drogas na escola você chama a polícia para dar uma palestra, falar sobre drogas e eu falei: “Olha, eu acho que não há necessidade de ser um policial, eu acho que a equipe pode tratar desse assunto de outra forma, nós podemos montar um jogral, um teatro, podemos falar com eles, podemos trazer filmes, podemos falar de outra forma, uma menos invasiva, não é agressiva, porque quando vem um policial, dá impressão de que: “Olha, eu estou aqui para fazer valer a lei” e não precisa disso porque aí eles vêem como afronta, isso foi legal. Depois o SENAC partindo desse princípio, montou uma cartilha anti-drogas, mudou o jeito de tratar desses problemas e a minha visão também.
Tiveram vários momentos marcantes com esses jovens. Tiveram dois que me deixaram mais emocionada que foi uma jovem que veio me contar o grande segredo da vida dela, e pensei: “Nossa, o que será esse grande segredo?” ela falou: “Olha, eu vou te contar, mas você não vai poder contar isso nunca para ninguém, eu não sei escrever, eu não sei ler”, e eu passei nesse dia um filme que era legendado, observei que a postura dela dentro da sala, ela deitava na carteira, mas eu achei que ela estava incomodada, que ela não estava gostando do filme, e várias vezes eu falei com essa menina para parar: “Vamos prestar atenção, você fica levantando e saindo, você está atrapalhando, senta mais aqui perto da porta porque a hora que você quiser ir ao banheiro você não atrapalha” depois desse dia eu fiquei muito comovida porque ela já passou por várias escolas, ela já concluiu o ensino fundamental, que é onde a gente aprende a escrever e a ler e como que isso tudo foi acontecer, como que ela conseguiu sobreviver sem saber, ela sabe ler e escrever, mas assim, ela não consegue montar palavras, ela teve aquela alfabetização básica. E eu percebi a importância desse projeto na vida dela, fiquei muito emocionada quando eu fui embora e o quanto eu fui infeliz nesse dia de passar um filme legendando por que eu não pensei nisso, e eu aprendi mais uma lição de que eu tenho que conversar mais com eles também, é lógico que era a primeira semana e não tinha jeito de eu conseguir esse primeiro segredo dela e ela me contou, ou seja, estabeleceu ali uma relação de confiança muito grande e agora eu já tenho o feedback disso, eu estou feliz demais, o caderno dela está lindo, ela já consegue escrever, ela já consegue ler e ela vai escrever uma carta para mim. No dia foi muito triste, mas agora eu já estou feliz porque ela já está conseguindo colher os frutos desse sonho da vida dela de escrever, uma coisa assim, tão simples. Foi muito chocante.
Essa foi uma delas e a outra foi que essa adolescente foi estuprada e ela era muito nova, eu nem sei se isso foi verdade porque eu não perguntei, eu não procurei saber, mas isso me chocou muito ao saber que isso tinha acontecido com ela quando ela era criança, saí daqui muito deprimida com esse caso, depois disso não falamos mais nesse assunto e eu vejo o esforço dela em sala, a postura dela e eu fico pensando como o ser humano consegue ir passando por cima dos problemas de qualquer maneira e o que isso reflete naquele ser humano, às vezes sem noção de nada, lá na frente, porque ele vai atropelando, ele não consegue resolver um problema, ele passa por cima dele, vai deixando aquilo de qualquer maneira fazer parte da vida dele, depois ele fica sem estabilidade emocional nenhuma e que ainda assim depois de tudo isso ela ainda se comportava ali e que tinha afinidade comigo para estar me contando essa situação.
As expectativas que espero desse curso são as melhores. A equipe trabalha para que todas elas tenham uma chance de inserção no mercado de trabalho, que eles consigam concluir os seus estudos e, que acima de tudo, consigam ser seres humanos melhores e que tenham superado todas essas adversidades que eles vivenciaram antes e que ainda vivenciam, porque ainda estão lá no meio em que eles vivem, mas as expectativas são as melhores. Tenho esperanças de que tudo de bom aconteça com elas, não sabe como vai ser o caminho daqui até lá porque ainda temos muito trabalho pela frente, mas que são as melhores sem dúvidas. Vamos trabalhar para que tudo dê certo com elas.
Vejo que hoje o projeto está tomando uma dimensão enorme, ele vai fazer uma diferença muito grande na vida dessas meninas, realmente o nome não poderia ser diferente ViraVida, fantástico, vejo que essa primeira turma vai servir de agente multiplicador para as próximas que virão, são essas meninas que vão servir de referência na comunidade delas para que o projeto cresça cada vez mais e se expanda nessas regiões e para outras tantas que precisam também, eu vejo o projeto como algo que vai fazer a diferença, que vai ser grande, maior do que ele já é hoje.
Eu tenho um orgulho imenso de fazer parte do projeto, eu sou extremamente grata ao SENAC, ao ViraVida por me proporcionar essa oportunidade de trabalhar esse crescimento nesses adolescentes, nesses jovens e me melhorar, me fazer um ser humano melhor. Eu estou gostando muito de trabalhar nesse projeto, eu quero continuar para as outras turmas também, enquanto tiver essa parceria, espero durar muito tempo entre o SENAC e o projeto.
Nesse começo de projeto aprendi que eu não posso ficar na mesma, que eu tenho que melhorar a minha didática profissional, pesquisar mais, procurar mais, saber mais sobre os meus alunos, mais que eu quero dizer na vida pessoal deles para poder conseguir atingi-los de uma forma melhor, ser uma educadora mais presente, eu não estou falando assim de ser melhor amigo, não é isso, é aprender a ver o aluno com outros olhos que não aqueles de todos os dias. “Vem que eu vou te ensinar, que você vai aprender”, mas é ser um professor que trabalha essa parte do ser humano, de saber que hoje ele está com um problema pessoal e que eu tenho que mudar um pouquinho, dar uma atenção melhor para ele ou repetir alguma coisa no dia seguinte, ser um pouco mais humano, do que sempre aquele professor: “A matéria é essa, vamos estudar e vamos falar sobre esse assunto”, isso me mudou, não que eu fosse todos os dias, mas tinha dia que, por exemplo, um curso de Auxiliar de Pessoal que eu tenho que dar Matemática Financeira, você não tem muita coisa para mudar, mas você consegue entender que um dia o aluno aprende mais e no outro dia ele aprende um pouco menos porque ele está com um problema, ver com olhos um pouco diferente do que eu estava acostumada a ver, o projeto mudou essa minha postura.
Quero continuar participando do projeto também porque eu já falei que isso faz parte do meu sonho hoje, porque esse assunto é um assunto que incomoda a todos, mas ficamos de braços cruzados, e poder fazer algo é um sonho, participar disso de uma forma mais presente, ainda que não fosse pelo SENAC, mas que fosse fazendo a minha parte de forma efetiva.
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