Em 12 de março de 2022 celebrei meu casamento. Eu e meu esposo estávamos tão felizes e empolgados, havíamos esperado tanto por essa data! Foram meses de planejamento e preparação. Realizamos trabalhos free lance como extra, toda receita era bem-vinda para nos mudarmos para nosso cantinho. Eu me recordo de ter em vista várias conquistas, tinha o ano em alta conta, como o mais importante da minha vida, até se tornar o pior.
Três dias após a celebração no cartório, descobrimos a gravidez, e ali perdi meu chão. Eu nunca quis ser mãe! Desde os 20 anos, quando conheci o Vitor, tínhamos combinado que não engravidaríamos, e tão logo alcançássemos a idade de 25 anos para esterilização, assim faríamos. Tão perto...
Eu não fiquei feliz com o positivo. Agora tudo fazia sentido: o inchaço, as roupas apertadas, o atraso menstrual, dores no corpo e um cansaço inexplicável. Primeira ideia que tive foi abortar. Eu temia clínicas clandestinas, e sabia do difícil acesso a medicamentos abortivos. Tomei tanto chá ruim, e de nada valeu. Me conformei que teria que seguir com a gravidez até o fim, mas eu nunca aceitei.
Eu me achava louca. Tanta gente que sonha com esse momento, que vive e morre por isso, que tenta todo dia há anos, que não engravida por problemas de saúde. Gente que gasta rios de dinheiro com tratamentos para uma simples fecundação. Eu que não queria viver uma gestação de maneira alguma, tive que carregar uma criança por exatas 40 semanas por obrigação.
Quando com 20 semanas, eu procurei o Conselho Tutelar da minha cidade e abri um processo de entrega voluntária. Enquanto aquele bebê era de minha responsabilidade, eu deveria ao menos garantir um bom destino a ele. Eu sempre soube que tinha o direito de entregar o bebê, independente da minha motivação. Também sabia que bebês são adotados rapidamente. Dessa forma, quando a criança nasceu, já havia uma família que a aguardava.
Tive depressão gestacional,...
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Em 12 de março de 2022 celebrei meu casamento. Eu e meu esposo estávamos tão felizes e empolgados, havíamos esperado tanto por essa data! Foram meses de planejamento e preparação. Realizamos trabalhos free lance como extra, toda receita era bem-vinda para nos mudarmos para nosso cantinho. Eu me recordo de ter em vista várias conquistas, tinha o ano em alta conta, como o mais importante da minha vida, até se tornar o pior.
Três dias após a celebração no cartório, descobrimos a gravidez, e ali perdi meu chão. Eu nunca quis ser mãe! Desde os 20 anos, quando conheci o Vitor, tínhamos combinado que não engravidaríamos, e tão logo alcançássemos a idade de 25 anos para esterilização, assim faríamos. Tão perto...
Eu não fiquei feliz com o positivo. Agora tudo fazia sentido: o inchaço, as roupas apertadas, o atraso menstrual, dores no corpo e um cansaço inexplicável. Primeira ideia que tive foi abortar. Eu temia clínicas clandestinas, e sabia do difícil acesso a medicamentos abortivos. Tomei tanto chá ruim, e de nada valeu. Me conformei que teria que seguir com a gravidez até o fim, mas eu nunca aceitei.
Eu me achava louca. Tanta gente que sonha com esse momento, que vive e morre por isso, que tenta todo dia há anos, que não engravida por problemas de saúde. Gente que gasta rios de dinheiro com tratamentos para uma simples fecundação. Eu que não queria viver uma gestação de maneira alguma, tive que carregar uma criança por exatas 40 semanas por obrigação.
Quando com 20 semanas, eu procurei o Conselho Tutelar da minha cidade e abri um processo de entrega voluntária. Enquanto aquele bebê era de minha responsabilidade, eu deveria ao menos garantir um bom destino a ele. Eu sempre soube que tinha o direito de entregar o bebê, independente da minha motivação. Também sabia que bebês são adotados rapidamente. Dessa forma, quando a criança nasceu, já havia uma família que a aguardava.
Tive depressão gestacional, porque não aceitava a realidade. Nunca pensei tanto em morrer como naquela fase que eu considerava o vale da sombra da morte. Meu marido, minha família e meus amigos foram fundamentais para que eu não ficasse sozinha. Todos os dias acordava desejando não estar grávida. Eu detestava sentir os chutes (doloridos e muito incômodos). Eu me sentia parasitada e não conseguia ver vantagem nenhuma em gerar uma vida. Passei a odiar meu próprio útero: só me fazia sangrar, provocar cólicas abomináveis, e ainda gerar um bebê que eu não queria!
Tantos sentimentos e pensamentos me habitavam e me possuíam, e me exauriam de uma forma, que sumir seria a melhor solução. Eu só fazia chorar. As estrias miraram na minha autoestima. Eu me sentia horrorosa. Redonda. Infeliz. Sugada. Fraca. Doente.
Eu odiei gestar. Eu odiei com todas as minhas forças. As contrações eram como dor de morte, eu só queria meu corpo para mim de volta, como sempre foi.
Eu entendia que a criança merecia ser amada e bem criada. É por isso que ela foi adotada, e ela não precisa saber o contexto de como foi gerada. Ela merece pessoas para chamar de pais, que a protejam, que a amem. Espero que ela seja feliz.
Gostaria de provar com minha história que nem todas as mulheres serão mães, e não são menos completas por causa das suas escolhas. Quem inventou essa falácia de "mulher completa" mesmo? Minha gestação foi um inferno, só eu sei o que passei. Então eu não entendia o dito de que essa é a melhor e mais bela fase na vida de toda mulher. Toda quem? Eu me senti um fardo durante toda a gravidez. Isso ninguém explana. Ninguém fala que você vira um obstáculo na sociedade, ainda que ela te cobre reproduzir-se. Eu tive que abrir mão de um estágio numa empresa que eu adorava, do curso dos meus sonhos e da minha viagem de lua de mel porque eu estava grávida.
Quando ouvirem que uma mulher não quer nunca, jamais, em hipótese alguma ser mãe, acredite, ela sabe a escolha que fez. Somos passíveis de mudança, as ideias podem alterar. Ou não. Sou muito feliz com a minha escolha de seguir sendo uma mulher não-mãe. A maternidade é uma escolha, e eu não a desejo. Respeito e admiro todas as mães, mas acho a maternidade uma loucura total. Só é possível exercê-la com amor e sabendo que haverá muita dificuldade e ingratidão. Com todo o respeito, mas eu prefiro dormir.
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