“Entre escombros e auroras”
Ela tinha apenas dezesseis anos quando o mundo desabou e renasceu dentro dela ao mesmo tempo.
Entre o medo e o milagre, descobriu que carregava uma vida pequena, frágil, dependente em um corpo ainda aprendendo o que era crescer (meu Leozinho).
Mas o amor que sentiu ao ouvir o primeiro choro foi maior que qualquer abandono.
O pai da criança virou sombra.
Dele vieram palavras duras, gestos frios, marcas que o tempo tenta apagar.
E quando a dor se tornou insuportável, ela fugiu — só ela e o filho, envoltos num cobertor de coragem.
Encontraram abrigo em uma casa velha, esquecida, com paredes que sussurravam histórias e medos.
Mesmo ali, entre o pó e o silêncio, ela sonhava.
Dizia ao filho que um dia ele teria um lar de verdade, com janelas abertas e cheiro de pão.
Mas a casa se foi, e a amiga que a acolhera virou distância.
De novo, ela ficou sem chão — e foi o amor pelo filho que a manteve de pé.
Trabalhou como doméstica, mãos pequenas cuidando de casas alheias, enquanto o bebê dormia num canto do quarto, vigiado por seus olhos cansados e cheios de ternura.
Foi então que o destino lhe mostrou um respiro.
Um rapaz surgiu, não com promessas, mas com presença.
Ajudou-a a carregar o menino, a dividir o peso e a esperança.
Deu ao filho o nome que o outro negou, e a ela a sensação, pela primeira vez, de não estar sozinha.
Hoje, quando olha para trás, ela vê a menina que foi e a mulher que se tornou.
Sabe que a dor deixou cicatrizes, mas também raízes profundas.
Aprendeu que amor de mãe é abrigo mesmo quando o teto cai,
e que há auroras que nascem de noites inteiras de escuridão.