Um Breve Relato da História de Vida de Dona Divina
As águas do rio Maracá, no sul do Amapá, não correm apenas pelo mapa; elas correm pelas veias de um povo que aprendeu a ler o tempo no cair das castanhas e a curar as dores com o que a floresta oferece. Foi ali, em 1932, sob a copa das árvores centenárias e no seio de uma tradição viva, que nasceu Maria Divina Videira de Jesus. O mundo a conheceria, respeitaria e amaria como Dona Divina.
Dona Divina nasceu em um território esculpido pelo extrativismo ancestral. A coleta da castanha-da-Amazônia era o sustento do corpo e da alma de sua gente, uma herança transmitida de pais para filhos que resistia ao tempo e às injustiças históricas do regime de aviamento. Ela era fruto da família Videira, uma linhagem que fincou suas raízes naquela região há mais de dois séculos, erguendo um legado de preservação ambiental, fé e profunda ligação com a terra.
A Força do Quilombo e a Voz da Luta
Por décadas, o lar de Dona Divina foi a Comunidade Quilombola Conceição do Maracá, localizada a cerca de 160 quilômetros da capital Macapá. A comunidade não estava só: caminhava de mãos dadas com suas quatro irmãs — Mari, Joaquina, Fortaleza e Laranjal do Maracá — formando o complexo do Igarapé do Lago do Maracá.
Mulher de passos firmes e olhar adiante, Dona Divina não aceitou o silêncio como destino. Tornou-se uma liderança feminina aguerrida, transformando a resistência em organização. Ela fundou a Associação Quilombola das Comunidades do Igarapé do Lago do Maracá e liderou seu povo para que Conceição do Maracá se tornasse o primeiro grupo do município de Mazagão a receber a certificação oficial como comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares. Sua voz era o escudo dos povos ribeiros e da agricultura familiar.
Fé, Raízes e o Calor do Acolhimento
Dentro de casa, a vida de Dona Divina multiplicava-se em amor. Ao lado de seu companheiro de...
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Um Breve Relato da História de Vida de Dona Divina
As águas do rio Maracá, no sul do Amapá, não correm apenas pelo mapa; elas correm pelas veias de um povo que aprendeu a ler o tempo no cair das castanhas e a curar as dores com o que a floresta oferece. Foi ali, em 1932, sob a copa das árvores centenárias e no seio de uma tradição viva, que nasceu Maria Divina Videira de Jesus. O mundo a conheceria, respeitaria e amaria como Dona Divina.
Dona Divina nasceu em um território esculpido pelo extrativismo ancestral. A coleta da castanha-da-Amazônia era o sustento do corpo e da alma de sua gente, uma herança transmitida de pais para filhos que resistia ao tempo e às injustiças históricas do regime de aviamento. Ela era fruto da família Videira, uma linhagem que fincou suas raízes naquela região há mais de dois séculos, erguendo um legado de preservação ambiental, fé e profunda ligação com a terra.
A Força do Quilombo e a Voz da Luta
Por décadas, o lar de Dona Divina foi a Comunidade Quilombola Conceição do Maracá, localizada a cerca de 160 quilômetros da capital Macapá. A comunidade não estava só: caminhava de mãos dadas com suas quatro irmãs — Mari, Joaquina, Fortaleza e Laranjal do Maracá — formando o complexo do Igarapé do Lago do Maracá.
Mulher de passos firmes e olhar adiante, Dona Divina não aceitou o silêncio como destino. Tornou-se uma liderança feminina aguerrida, transformando a resistência em organização. Ela fundou a Associação Quilombola das Comunidades do Igarapé do Lago do Maracá e liderou seu povo para que Conceição do Maracá se tornasse o primeiro grupo do município de Mazagão a receber a certificação oficial como comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares. Sua voz era o escudo dos povos ribeiros e da agricultura familiar.
Fé, Raízes e o Calor do Acolhimento
Dentro de casa, a vida de Dona Divina multiplicava-se em amor. Ao lado de seu companheiro de vida, José Arlindo — que caminhou com ela até falecer em Março de 2000 —, ela gerou dez filhos, dos quais nove continuam a honrar sua história, e abriu o coração para adotar mais três filhos de coração. Ao longo dos anos, viu sua árvore familiar dar frutos e ramificar-se em netos, bisnetos e tataranetos.
Mulher temente a Deus e cheia de ancestralidade, Dona Divina era a própria comunidade em forma de gente:
• Mãos que traziam a vida: Atuava como parteira tradicional da região.
• Mãos que curavam: Era benzedeira e curandeira, conhecedora dos segredos das plantas.
• Mãos que erguiam a fé: Por décadas, liderou a maior manifestação religiosa e cultural do Maracá, os Festejos em Honra à Imaculada Conceição — uma devoção que já passa de 18 décadas nas mãos da família Videira.
Dona Divina não conhecia a palavra exclusão. Incrivelmente amorosa e receptiva, tratava a todos com absoluta igualdade. Em sua casa e em seu coração, ninguém era menor; todos eram acolhidos.
O Legado Eterno e a Imortalidade
Em 30 de setembro de 2020, aos 88 anos, Dona Divina despediu-se da floresta e de seu povo após travar uma batalha contra o câncer. Ela partiu, mas não sumiu. Deixou um território demarcado pelo orgulho, uma comunidade consciente de seus direitos e uma história viva de pertencimento.
O reconhecimento de sua grandeza atravessou os rios e chegou à capital.
No dia 29 de maio de 2026, o Governo do Estado do Amapá prestou uma justa e emocionante homenagem à sua memória. Hoje, quem caminha pelo Parque Residência, em Macapá, depara-se com uma obra de arte: uma escultura que a eterniza para sempre.
Batizada como "A Castanheira Maria Divina", a obra funde a imagem da mulher com a árvore que ela tanto defendeu. Assim como a castanheira-da-Amazônia, Dona Divina permanece imponente, com as raízes profundamente fincadas na identidade do Amapá e os galhos acolhendo o futuro de seu povo.
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