Entrevista de Dayana Gomes de Melo
Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 30 de janeiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV004
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Rafael Guerche
Revisada por Nataniel Torres
00:00:27
P1 - Pra começar, eu queria que você dissesse seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R - Certo. Dayana Gomes de Melo. 24 do três de 1988, São Paulo, capital.
00:00:38
P1 - E qual é o nome dos seus pais?
R - Antônio Damião de Mello e Maria Jucélia Gomes.
00:00:45
P1 - E como é que você descreveria eles?
R - Meu pai, um paraibano, padeiro, que ama música, são paulino, muito quietinho, na dele, um jeitinho peculiar dele. Minha mãe, pernambucana, cozinheira, ariana, esquentada. E do jeitinho dela também, quietinha, muito talentosa, artista. Eu costumo falar que eles aprenderam as profissões deles na escola da vida. Então, principalmente a minha mãe tem muito essa questão de ligação com arte, de pegar coisas e inventar coisas. Então, cresci acompanhando esse inventar de coisas, criar de coisas.
00:01:55
P1 - Certo. Eu queria saber como eles se conheceram. Você sabe?
R - Sei, a minha mãe, meu pai veio para São Paulo, chegou em 77, veio para cá trabalhar, morar com os irmãos e a minha mãe veio para cá também trabalhar, cuidar de sobrinhos do meu pai, então eles se conheceram neste ambiente.
00:02:21
P1 - Mas eles não se conheciam antes?
R - Não, se conheceram aqui em São Paulo.
00:02:26
P1 - E como é que foi esse momento da vinda de cada um, você sabe?
R - Não. O meu pai, sei que veio pra trabalhar nesse período, morava com muitos irmãos ali, um lugar compartilhado também. E a minha mãe também, exclusivamente para trabalhar. Vieram em busca de uma vida melhor. E aí se conheceram nesse contexto. Não sei se para eles era um sonho, um desejo, acabou sendo uma oportunidade em busca desse algo melhor, vida melhor. Eles...
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Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 30 de janeiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV004
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Rafael Guerche
Revisada por Nataniel Torres
00:00:27
P1 - Pra começar, eu queria que você dissesse seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R - Certo. Dayana Gomes de Melo. 24 do três de 1988, São Paulo, capital.
00:00:38
P1 - E qual é o nome dos seus pais?
R - Antônio Damião de Mello e Maria Jucélia Gomes.
00:00:45
P1 - E como é que você descreveria eles?
R - Meu pai, um paraibano, padeiro, que ama música, são paulino, muito quietinho, na dele, um jeitinho peculiar dele. Minha mãe, pernambucana, cozinheira, ariana, esquentada. E do jeitinho dela também, quietinha, muito talentosa, artista. Eu costumo falar que eles aprenderam as profissões deles na escola da vida. Então, principalmente a minha mãe tem muito essa questão de ligação com arte, de pegar coisas e inventar coisas. Então, cresci acompanhando esse inventar de coisas, criar de coisas.
00:01:55
P1 - Certo. Eu queria saber como eles se conheceram. Você sabe?
R - Sei, a minha mãe, meu pai veio para São Paulo, chegou em 77, veio para cá trabalhar, morar com os irmãos e a minha mãe veio para cá também trabalhar, cuidar de sobrinhos do meu pai, então eles se conheceram neste ambiente.
00:02:21
P1 - Mas eles não se conheciam antes?
R - Não, se conheceram aqui em São Paulo.
00:02:26
P1 - E como é que foi esse momento da vinda de cada um, você sabe?
R - Não. O meu pai, sei que veio pra trabalhar nesse período, morava com muitos irmãos ali, um lugar compartilhado também. E a minha mãe também, exclusivamente para trabalhar. Vieram em busca de uma vida melhor. E aí se conheceram nesse contexto. Não sei se para eles era um sonho, um desejo, acabou sendo uma oportunidade em busca desse algo melhor, vida melhor. Eles eram do interior, cada um ali do seu estado. Então, chegaram aqui com esse sonho de viver experiências diferentes ali das localidades que eles viviam.
00:03:22
P1 - E que bairro eles chegaram quando eles vieram?
R - Eles vieram aqui pra Zona Sul, né? Aqui o Distrito Capão Redondo é muito grande e tem muitos bairros. Então eles conheceram um bairro aqui próximo, né? Eu não lembro o nome, mas era a região. E aí sei que moraram em alguns bairros. E eu, depois que nasci também, moramos em alguns bairros, mas sempre aqui na região do Capão Redondo, aqui na Zona Sul.
00:03:54
P1 - E você estava contando que seu pai é padeiro, sua mãe é cozinheira, eles exerciam essas profissões?
R - Aprenderam aqui. Foram as oportunidades que apareceram ali para início de carreira e de trabalhos, foram aprendendo e se firmaram, se desenvolveram nessas profissões.
00:04:17
P1 - E eu queria saber se você tem irmãos.
R - Tenho. Tenho a Daniele. Eu já vou começar a chorar, gente.
00:04:24
P1 - Não tem problema.
R - Nem separei o lencinho, ó. Psicóloga e não deixei lencinho aqui. Tenho a Daniele, que ela mora hoje na Espanha. Que eu nunca sabia se eu conheceria uma saudade como eu conheço hoje por ela morar longe. E tenho mais dois irmãos por parte de pai, o Lucas e o Richard. Mas a Daniele, por ter crescido comigo, a gente compartilhou muitas coisas. E a diferença de idade é só de um ano e oito meses. Então, vivemos muitas coisas desde a infância, adolescência. E hoje compartilhamos coisas mais distantes.
00:05:16
P1 - Você estava falando da sua irmã, eu queria saber quem que é a mais velha e como que foi a relação de vocês na infância.
R - Sou eu, eu inaugurei a lojinha. Daí a diferença de idade é de um ano e oito meses. Eu me lembro na infância a gente sempre, assim, muito juntas, por essa proximidade de idade. Claro que com a minha irmã, as tretas de irmãos, mas me lembro da gente compartilhando ali os momentos de refeição, de lazer, as idas e vindas de escola, as brincadeiras com os primos, teve um período que nós morávamos em um quintal com primos ali bem próximos, então as brincadeiras com esses primos, a expectativa sobre o futuro de adulto, então a gente compartilhava esse dia a dia.
00:06:23
P1 - E me conta se você chegou a conhecer os seus avós?
R - Olha, por parte de mãe, a minha avó materna, que ela é viva, dona Socorro, meu avô eu não conheci, ele faleceu, a minha mãe estava grávida. Por parte de pai, avó também paterna, dona Luzia, conheci. E o meu avô paterno também não conheci.
00:06:51
P1 - E eles moravam aqui em São Paulo, você ia visitar eles, como é que era? As duas avós?
R - As duas avós? Não, a minha avó materna mora no Pernambuco e a paterna lá na Paraíba. A minha avó materna, ela vem de vez em quando, já fui também pra lá, teve um período, deve ter uns três anos que ela fraturou a mão, e aí tinha terminado a faculdade, não tava trabalhando, fui pra ficar com ela um período. E aí a minha avó paterna, ela vem pra cá, mas também menos. E eu nunca fui na Paraíba, não conheço a terra do meu pai, infelizmente. Espero poder realizar essa experiência, esse sonho, ter um pedaço de mim.
00:07:42
P1 - E você estava contando que você vivia num determinado momento, você vivia num quintal cheio de primos, né? E eu queria saber se tem algum cheiro ou alguma comida ou alguma festa que lembre essa parte da sua infância, assim.
R - Cheiro, comida... Eu acho que o cheiro de café da minha tia. café assim mais fraquinho e adoçado é um cheiro que eu lembro, eu lembro muito das brincadeiras, a gente brincava de Rádio. Ah, eu lembrei de cheiro, comida. A minha mãe, nessa época, ela fazia sorvete pra vender, né? Então, a gente volta e meia ali, se aproveitava que tinha sorvete, comia sorvete, acompanhava ela fazendo também. Os artesanatos também ali do período, a gente acompanhava, então, eram momentos que se mesclavam com as nossas brincadeiras, né? Então, a gente gostava muito de brincar de rádio, locução, brincar de casinha, fazer comidinha, pegava coisa no armário, fazer aquelas melecas, brincar balanço na rede, de cantar. Então, lembro que era esse ambiente.
00:09:14
P1 - E você sabe onde você morava nessa época?
R - Nessa época que tinha esse quintal, que compartilhava com meus primos, um bairro que chama Santo Eduardo, que é aqui próximo.
00:09:30
P1 - E como é que era Santo Eduardo na época da sua infância?
R - Nos anos 90, eu lembro de ouvir falar que era o chamado barra pesada, que tinha atritos sociais, tiroteio. Como criança, é claro que eu não entendia aquela atmosfera, mas era o que eu escutava dos adultos, que era um ambiente de atritos sociais. A gente, enquanto criança, levava a vida igual esse meme que tá rolando aí, fazendo as nossas coisinhas de criança. Na nossa pele, na minha pele, não mergulhava tanto nessas questões que hoje eu entendo que rolava.
00:10:27
P1 - E você estava contando que seus pais eram quietinhos, mas eles contavam algumas histórias pra você e pra sua irmã nessa infância? Seja de onde eles vieram, ou eles tinham o costume de contar histórias pra vocês, ou não era?
R - Por nossos questionamentos, né? Eu lembro o quanto criança que tinha. Muitos também por estímulo da escola, né? Que tinha aquela coisa de “contar a vida dos pais”, né? Tinha. Meu pai falava da infância, da ida pra escola, que era uma vida cheia de obstáculos, aventuras, que andava muito, que a questão da comida era escassa, muitos irmãos, eu lembro dele falar também quando veio, quando veio não, quando era adolescente já tinha irmãos que moravam aqui e que levavam os primeiros discos e fitas e ele foi tomando gosto ali por música. Minha mãe, a família menor, seis irmãos, também mais velha, contava ali dos cuidados que ela tinha com os mais novos, de viajar com o meu avô, algumas viagens de caminhão, porque ele era caminhoneiro, de brincar também de comidinha, eram as histórias que eu lembro que eles traziam.
00:12:01
P1 - E você estava contando que seu pai é muito apaixonado por música. Nessa época, o que ele ouvia na sua casa? O que tocava na sua casa?
R - Meu pai gosta de Luiz Gonzaga a Beatles. Sempre muito eclético. Ele gostava muito de discos. Então, Jovem Guarda, ali música dos anos 70, 80. Eu lembro que ele tinha... Anos 90 era muito comum gravar em fitas, né? Eu lembro que ele tinha uma caixa de sapato, devia até umas 20, 30 fitas. E eu olhava aquilo, parecia um acervo, sabe? Uma musicoteca, pra mim era uma coisa grandiosa. E quando perguntavam na escola sobre personalidade, coisas que o pai gosta, pra mim remetia a isso, a questão dele, do acervo dele de música. E nas folgas dele era o que ele gostava de fazer. Tinha aqueles sons grandes. Ele deitava lá, hoje já de outra forma, né? Deitava, fechava o olho, colocava um som dele, fechava o olho e ficava lá, curtindo a música dele.
00:13:14
P1 - E sabe por que você chama Dayana?
R - A minha mãe fala que foi ela que escolheu o nome, né? “Ah, por quê?” “Porque sim”. “Não, não. Porque sim não existe”. Ela: “porque era o nome da moda”. “Ah, então era por conta da princesa, né? Eu fui sua princesa”. Eu faço aniversário três semanas antes dela, né? Eu: “ah, cheguei pra ser sua princesa, seu presente”. Ela:”tá, não sei nada disso”. “Já que você não sabe, eu defino, então, o porquê do meu nome, né?”
00:13:50
P1 - E quando você era pequena, que você morava nesse bairro que você estava contando, eu queria saber como era o entorno do bairro. Ele era mais urbano? Ele era mais rural? Você brincava na rua? Como é que era?
R - Eu lembro que a Rua Bristol, ali na verdade, já fazia parte de Embu das Artes, essa rua tinha essa divisão, mas era um bairro urbano. Eu lembro que logo quando nós mudamos pra lá era de terra, aí depois que asfaltaram. Lembro, inclusive, quando foi asfaltado que tem aquele piche, e era uma questão a gente ir caminhando assim no cantinho pra não sujar o sapato, pra ir pra escola. E lembro que em torno tinha feira, não em torno ali na rua, mas no bairro. E era uma diversão, estava lembrando disso esses dias que eu vi uma entrevista do Nando Reis falando sobre o aniversário de São Paulo e ele falando sobre o bairro que ele viveu, e aí eu lembrei disso, que todo domingo pra mim era uma expectativa ali de ir na feira com o meu pai. A gente comprava pastel, esses pasteizinhos de evento, né? Levava pra comer em casa e ele comprava ou uma fita, né? Pra mim, já fazendo meu pequeno acervo, né? Músicas de criança: Xuxa, Angélica, Eliana. Ou então gibis, na banca de revista. Então, era o meu momento de lazer, né? Ali da semana, inspirava por esse momento. E aí o bairro era constituído, né? De... Era residencial, mas urbano. Sempre tive contato com essa questão urbana. Nasci e cresci em São Paulo, morei em algum período fora daqui, mas inserida sempre nessa movimentação de muita gente, muito carro, muito ônibus, muito tudo.
00:16:04
P1 - E as brincadeiras eram mais dentro de casa?
R - Sim, mais dentro de casa. Brincava na rua com supervisão. Nesse período eu andei, aprendi a andar de patins. Andei mais ou menos, aprendi mais ou menos de bicicleta. Mas a maior parte das brincadeiras eram em casa.
00:16:27
P1 - E você estava contando que você e sua irmã compartilhavam como ia ser a vida adulta, pensando como ia ser a vida adulta. Tinha alguma profissão que você tinha vontade de ser quando você era pequena? Ou isso não passava pela sua cabeça ainda?
R - Passava. É uma coisa que eu questiono às vezes em profissão, em atendimento, que é algo, parece que socialmente imposto que é uma das primeiras perguntas que se faz para criança, o que é que você vai ser quando crescer. Eu queria primeiro ser astronauta, depois cantora, cientista, bióloga, veterinária, o que mais? É, parei ali no veterinária, cientista. Acho que no cientista hoje, o pezinho na ciência tem um pouquinho, mais… Ah, turismo, quis no período trabalhar com turismo, relações Internacionais e parei na psicologia.
00:17:42
P1 - E você, você estava contando dessa infância, como é que era na escola, como é que você ia pra escola nessa época?
R - A pé, era uma escola próxima, perto de casa, ia a pé. Eu lembro que no prézinho tinha uma parte que a gente passava que não era asfaltado e era... Barrancos quando fazem os degraus com barranco e aí tinham casas também e tinha um córrego e tinha uma ponte de madeira, uma ponte velha que a gente chamava “Ponte do Rio que Cai” que era uma ponte que tinha. Uma brincadeira do programa do Faustão. E era essa ponte do rio que cai e a gente tinha um medo de, porque volta e meia (de) madeira saía, tinha medo de prender pé, sabe? De cair ali naquele córrego. Então era sempre uma tensão na hora de passar nessa ponte do rio que cai. Mas nós íamos até porque era perto de casa.
00:18:48
P1 - Iam sozinhos?
R - Não, sempre com a minha mãe ia buscar ou meu pai ia levar ou ia buscar sempre com o adulto. Ou essa tia que morava no quintal, sempre com o adulto ali acompanhando.
00:19:01
P1 - E tinha animais de estimação na sua infância?
R - Não, na infância não. Eu sempre quis, mas não tinha. Animal em casa veio aparecer já era pré-adolescente, mas sempre foi um desejo.
00:19:18
P1 - E eu queria que você me contasse como que foi essa primeira infância na escola? Como é que foi? O que você gostava de fazer na escola? Você gostava da escola?
R - Eu gostava. Era o chamado CDF, sentava na frente. Tinha uma amiguinha, duas. Eu lembro que nessa época, já no primeiro ano, de ser aplicada envolta mesmo, com as questões da escola, ser elogiada na reunião, não ser a criança apontada com alguma questão. Era algo que a minha mãe trazia, que ela trazia quando ia nas reuniões, trazia e era algo imposto também, então tinha que andar na linha. Brincava nos parques ali, naqueles parques da escola. Eu lembro de uma atividade que me marcou muito na primeira série, que era para criar uma história. E aí eu lembro que eu criei uma história de uma galinha, que ela era ladra, e aí depois mudava ali a postura dela, encontrava um grupo de amigos e começava a fazer outras coisas. E a professora chamou uma outra professora para mostrar, e aí depois em reunião foi mostrado isso para a minha mãe, para investir nessa questão de criar histórias. Eu lembro que depois eu fiquei muito empolgada, que eu separei um caderno para poder criar, mas não levei adiante. Mas foi uma faísca de criação. Um período depois, na época da faculdade, teve a oportunidade de, dentre as atividades de graduação, uma professora reunir histórias que foram criadas para esse trabalho e criar um livro, e aí criei uma história e entrou para esse livro. E aí, na época, eu lembrei dessa atividade lá atrás. Talvez fosse algo a ser mais estimulado ali, pelos adultos, os responsáveis, mas depois da vida adulta apareceu em algum momento da minha vida.
00:21:55
P1 - E você tava falando da escola, né? Eu queria saber se tinha alguma matéria ou alguma professora, professor que tenha sido importante pra você.
R - Olha, eu gostava de artes, desenho, gostava de português. Na escola, tem professores um, outro, mas interessante é que uma professora que marcou muito e foi fora da escola, e aí já ali pré-adolescente, nós começamos, minha irmã e eu, começamos a fazer espanhol numa associação de bairro, até aqui próximo. Nós conhecemos a professora Juana, que era uma professora chilena e começou a ministrar espanhol pra gente. E para além do idioma, ela trazia muita experiência dela como imigrante, das experiências, dos desafios que ela teve ao chegar no Brasil. Então, era muito rica essa interação. Acho que a gente deve ter estudado uns dois anos. Depois de adulta, eu voltei a fazer aula com essa professora, mais um período. E foi mais um período de troca, de aprendizado. Tenho saudades dela, inclusive, porque era muito legal essa questão dessa visão diferente, cultural. Era algo que enchia os olhos e os ouvidos.
00:23:36
P1 - Você lembra de alguma coisa que ela contava nessa época da pré-adolescência que você ficava inspirada?
R - Eu lembro dos... Eu não sei se mergulhar tanto na experiência que ela trazia, como são experiências dela, não sei se seria interessante expor, até por conta de autorização, mas os desafios enquanto a vivência ali no Chile, de desenvolvimento dela, períodos sociais que eram muito desafiadores, período de chegada no Brasil, esse choque cultural, então eram coisas que chamavam atenção, deixavam ali abismadas, e eu sempre fiquei muito admirada da disponibilidade e vontade dela em aprender. Ela trazia que sabia inglês, a própria língua pátria, a língua natal, e ela falava que gostaria de aprender japonês, que o básico era seis meses, mas era algo que ela queria. E aí ela falava também que o português, quando ela chegou, era tão desafiador que ela achava o japonês mais fácil do que o português. E lembro que ela gostava do Roberto Carlos também. Era uma das coisas que a fizeram chegar a vir para o Brasil.
00:25:19
P1 - E me conta o que você fazia pra se divertir na adolescência. Como é que era sua adolescência?
R - Música. Música. Eu queria tocar violão. Tenho meu violão aqui que deve ter uns 20 e poucos anos. Gostava muito, muito de música por intermédio do meu pai. E aquilo, sou a geração MTV. Então, fui tendo contato ali com música, também muita música na TV, era uma questão de sair para comprar as mídias físicas, CD. Na minha época de adolescência já era CD, então era uma diversão sair para comprar CD. Meu primeiro CD, já adolescente, é Nevermind, do Nirvana, e uma coletânea da Madonna. E a minha mãe deu um CD das Chiquititas, eu ali, já pré-adolescente. Então, era assim, o que enchia os meus olhos e ouvidos. Já adolescente aquela questão de gostar de boy band, fui para a boy band brasileira, gostava do KLB, então ia no show, os programas de TV, o quarto era forrado de pôster, foto, aquela coisa de correr atrás, né? E a mãe ali também limitando, permitindo coisas, barrando outras porque era pré-adolescente. E aí também me socializando por conta desse gosto, então conhecendo meninas com o mesmo gosto ali em comum. Já começando a sair pra shows também com a minha irmã, dividindo ali alguns gostos musicais. A gente tinha, cada uma gostava de coisas. Nessa época, por exemplo, ela gostava do Backstreet Boys. Mas era algo que, ao mesmo tempo, a gente compartilhava desse gosto em comum. Mas a adolescência era primordialmente música.
00:27:34
P1 - E quando você estava na adolescência, você ficava mais próxima do bairro onde você morou a vida inteira ou você ia para outros bairros? Como é que era esse deslocamento em São Paulo?
R - Maior parte dentro ali do bairro, mas chegou ali um período, já adolescente, comecei a andar em bairros mais próximos. Aqui tem o bairro de Santo Amaro, que tem o Largo 13, que é um centro de compras, um centro comercial. Então, ia para comprar CDs. Ia para o centro da cidade, que é ali pequena, gostava de ir com a minha mãe na (rua) 25 de março. Então, já fui conhecendo alguns lugares. Então, maior eu ia para também conhecer. Eu sempre amei ir para o centro da cidade. Então, falava assim: “ah, nós vamos estar o dia no centro”. Já era uma expectativa. Era um período que eu ficava esperando.
00:28:39
P1 - E você estava falando que sua mãe é artesã, né? O que ela faz?
R - Ela hoje trabalha exclusivamente com a cozinha, né? Cozinheira, primordialmente. Mas, lembro mais nova, ela fazia vela aromatizada, ela pintava em panos, esses panos de prato. Ela fazia, era uma técnica que chamava jateado de vidro. Esses vidros que a gente usa pra conceba, tinha uma técnica que se colocava vidro moído e ele ficava fosco. E aí pintava esses vidros. Fazia sabonete. Fazia... Eu lembro de (comemoração) Natal, né? Tem essas pinhas da rua, ela pegava e aí decorava essas pinhas e fazia ali a árvore de Natal. Nossa, o que mais? Fazia... Teve uma época... Ah, essa época é importante na infância, eu não trouxe. Quando eu tinha oito anos, meus pais se separaram. E daí, nós mudamos para a cidade de Natal da minha mãe, que é Trindade, Pernambuco. Que é lá no sertão, né? Do Pernambuco, interior. Não, é assim, sítio, zona rural. É o centro da cidade, mas é uma cidade pequena. Então lá ela fazia também esses artesanatos. Quando tinha eventos na igreja, batizado, algum tipo de celebração, tinha uma roupa especial. E eu lembro que tinha umas coroas que as meninas usavam e eu até participei nessa época de apresentação. Ela fazia umas coroas com flores, flores de tecido. E aí pediam também encomenda, dobraduras, coisas com jornal. E essa época acabava sendo também mais uma fonte de renda. Mas eram essas coisas. Tudo que ela pegava para fazer e se dedicar, saía a algo. Ela nunca estudou, fez curso. Depois, ela mais velha, ela continuou aprimorando. Mas, nessa época, ela gostava de assistir... Era um programa da Ana Maria Braga, na Record, que chamava Note e Anote. E outros programas, TV Gazeta, esses programas... chamados de “atividades femininas”, mas era algo que ela assistia, via e reproduzia com muita facilidade.
00:31:28
P1 - E como é que foi essa ida para Trindade?
R - Olha, foi... Lembrando esses dias também, eu lembro que quando ela falou que nós iríamos, estava tomando banho, ela lavando meu cabelo. A gente criança tinha um cabelo muito comprido, então ela sempre lavava. E ela falando que a gente ia morar lá. Aquilo, “mamãe e papai não estarão mais juntos, mas serão sempre… Os pais, nós vamos morar lá”. E aí eu lembro que na época a questão do receio era deixar a escola, que é meus primos, que eu era muito ligada aqui. Eu vou chorar de novo. E aí quando a gente chegou lá, que as pessoas perguntavam: “ah, vocês vieram a passeio, vieram pra morar, quando é que vocês vão voltar pra São Paulo?” E eu falava: “ah não, a gente não vai voltar nunca mais”. É interessante como isso nunca mais na cabeça de uma criança ficou registrado naquela época. E eu lembro de ser difícil, porque aquilo nasci e fui criada até os oito anos aqui, uma grande metrópole. E aí eu me lembro de um dia me dar conta assim de olhar a rua. “Gente, mas não tem ônibus passando? Como que as pessoas vão de um lugar pro outro?” “Ah, mas não tem camelô na rua como tinha” - por exemplo, Largo 13, que era uma referência pra mim - “Não tem gente vendendo coisas na rua? Como que as pessoas fazem esse tipo de compra?”. E eu lembro que eu tinha muita saudade dessa movimentação. Nós moramos lá um ano e meio, hoje eu vejo que foi pouco tempo, mas naquele período para uma criança era muito tempo. E aí foi difícil porque eu não me via, eu não tinha identificação com aquele espaço, né? Apesar de ser o espaço que a minha mãe nasceu, cresceu. Que saiu de lá também muito cedo. Mas eu não via mesmo, né? Não me sentia identificada. E aí eu chorava de saudade muitas vezes. E aí eu lembro... Engraçado, você falou de cheiro naquela hora. Lembro quando a gente voltou pra cá. Meu pai está esperando lá no Tietê, três dias de viagem, de ônibus. Ele tá esperando com o tio meu. Esse tio meu já é falecido, o tio Zé. E descer ali na rodoviária, aquele cheiro forte de urina, aquela movimentação, fumaça. E não esqueci o dia que eu voltei.
00:35:03
P1 - Como foi voltar?
R - Eu lembro que não tinha tanta expectativa de como seria. Eu lembro de estar feliz em voltar. Em rever meu pai, rever meus primos, (meus) tios. Mas não tinha muita expectativa de como seria ou depois. Fui vivendo.
00:35:34
P1 - E me conta na adolescência que você contou que foi a primeira vez que você teve um animal de estimação. Como é que foi isso?
R - Eu sempre quis ter bicho. E aí nós sempre morávamos em lugares pequenos, então para ter animal era mais difícil. Sempre quis. E aí você já tinha uns 17 anos, né? A minha mãe tinha uma amiga que tinha uma cachorrinha e aí por questões não continuariam com os cuidados dessa cachorrinha. Era uma poodle, ela já tinha um ano e meio, né? Nesse dia eu estava na casa de uns amigos, né? E aí a minha mãe ligava: “Ah, que horas você vai chegar?” “Ah, não sei, vou daqui a pouco”. “Ah, tá bom então”. Nisso eu tava sozinha, minha irmã tava em casa. E aí, sei que ela ligou algumas vezes, né? “Ah, vem pra casa, não sei o quê”. “O que que ela deve estar aprontando?”. Aí eu cheguei em casa, né? Olhei no quarto, assim, em cima do tapete, aquela coisinha, uma poodle ou peludinha, né? Eu, “gente, quem é essa?” E aí foi a saga para batizá-la, arrumar um nome. Eu lembro que no início foi difícil ali a adaptação, porque pra ela era um lugar novo, lá tinha a noite toda, e ela não tinha nome, a gente... “Cachorra! Fica quieta, cachorra!” “Mas cachorra, não sei o quê”. E aí fomos em busca do nome. E aí... a música, né? Período. Eu ali ouvindo muito rock, né? Descobrindo coisas. Tava em dúvida em alguns nomes e aí ela foi batizada de uma banda que eu estava ouvindo muito na época, que era o Faith no More, e aí chamamos ela de abrasileirando Faith (lê-se ‘feite’), era “Fefe”. “Fé, né? Em inglês e... Calhou muito bem esse nome pra ela, posteriormente. E aí, a Fefe ficou comigo 14 anos. Foi minha companheirinha.
00:37:53
P1 - E como é que foi a vida com ela?
R - Nossa. Ai, nem sei. São tantas coisas. Tem uma bagunça aqui de palavras e sentimentos. Mas ter contato com o animal, é claro que foi uma parte do que eu esperava, do que eu imaginava, mas na experiência é essa coisa sublime de conceber que o animal, na minha visão, é algo, sabe, em evolução superior, que é uma disponibilidade, sabe? Parece que (é) infinita. De uma coisa genuína, gratuita. Fefe ensinou isso. Foi muito difícil quando ela faleceu. Porque o que eu escutava, de... Ah, um bichinho quando se vai... E que se tem esse contato que tinha com ela, esse amor, esse envolvimento. Parece que…parece não, era parte da família e o luto, muitas vezes invisibilizado socialmente, de fato se deu. Não falo que foi perda, porque não se perde 14 anos, mas foi difícil porque quando eu chegava, depois que ela partiu, eu chegava em casa e não tinha ninguém, não tinha ela esperando com aquela disponibilidade, aquele amor que ela tinha. Me ensinou a ser responsável. Um período que eu morei sozinha, os pais se separaram de novo, minha irmã casou, ficamos eu e ela, ela era minha companheira. Alguns desafios, de muitas celebrações. Então, é um ser que viveu esses 14 anos. Não foram 14 dias, foram lindos 14 anos.
00:41:04
P1 - Me conta o que você estava fazendo aos 17 anos. Você estava estudando? Você já tinha perspectiva de fazer um curso superior? Você trabalhava? Como é que estava a sua vida?
R - Eu, aos 17, eu estava no meu primeiro trabalho como recepcionista. Eu, até hoje, eu não entendo essa experiência. Foi uma experiência na minha vida, mas aquilo, ouvindo muita música envolvida ali, com o rock, eu conheci umas pessoas que tocavam e aí eu tava me arriscando a cantar também em banda. Assim, cover, eu não era cantora, né? Era uma brincadeira de adolescente, mas que eu me divertia muito. E tinha a expectativa ali desse caminhar para a vida adulta. Esse caminhar e essa pressão também que se tem de “terminei o ensino médio, o que é que eu vou fazer? Não consigo entrar na faculdade agora. Meus pais não podem suprir aqui uma faculdade neste momento. Vou trabalhar”. E aí comecei a trabalhar como recepcionista. Nesse período, para graduação, como não tinha esse caminho, já que se avizinhava, o plano era iniciar aí no mercado de trabalho.
00:42:39
P1 - E daí como que seguiu a sua vida nesse momento depois do primeiro emprego?
R - Eu trabalhei nesse lugar como recepcionista um ano, um ano e pouquinho, um ano e meio talvez, e daí depois eu fui trabalhar lá na Praça da República como operadora de telemarketing. Fiquei nessa empresa (por) cinco anos e meio. Depois fui migrando ali de posições. E pra mim que amava o centro da cidade, trabalhar na República, mesmo morando no Capão Redondo, era algo que eu gostava, gostava muito. E aí era desafiador porque ter contato ali com esse universo corporativo, as responsabilidades em questão de trabalho, continuaram chegando, agora só que em um outro momento, mas tinha esse espaço também de estar ali trabalhando em um lugar que eu gostava. De almoçar, se deparar com prédios históricos, de conhecer pessoas que até hoje eu tenho amizades, amizades sólidas. Então foi esse momento de sair do meu bairro, porque a primeira oportunidade lá como recepcionista era no meu bairro, e de fato expandir, sair ali da zona de conforto e os locais que eu já conhecia.
00:44:13
P1 - E como era essa experiência com as bandas que você estava contando? Como é que foi? Era isso que você fazia para se divertir no seu tempo livre?
R - Era. Era, mas eu sentia também que era preciso muita dedicação, né? Um desenvolvimento e um conhecimento que eu não tinha naquele período. Nessa época eu lembro que eu arriscava também compor... Eu tenho as pastas, né? Aí até hoje. Foi um período que eu conheci a Pitty, eu me inspirava muito nessa questão dela. Além de cantar, ela compor, e ter essa identificação das coisas que ela escrevia. Então era algo que eu me via de certa maneira. Mas por mais que em um momento sonhasse, “ah, isso pode ser uma profissão”, mas não se deu como em muitos momentos se desejava. Mas foi diversão por muito tempo. E aí depois ficou como o lazer, consumindo a arte e os artistas.
00:45:26
P1 - E você estava contando que teve uma época que você morou sozinha, aí eu queria entender, a Fefe ficou com você, como que foi esse momento de morar sozinha?
R - Foi. Meus pais se separaram de novo, casaram, ficou minha irmã e eu durante um tempo, depois minha irmã também casou e ficou a Fefe e eu em casa. Olha, foi... Eu diria que... É claro que ter o espaço em muitos momentos é interessante, mas pra mim foi um momento muito desafiador porque eu saí ali da adolescência, sentia essa pressão por estar hoje no trabalho, mas como que eu vou, por exemplo, fazer uma graduação? Como que eu vou investir aqui profissionalmente de outras formas? Eu diria assim desafiador, lembrando entre ter a liberdade e os benefícios de morar sozinha, foi um período desafiador porque eu saía justamente da adolescência para essa vida adulta com muitas questões.
00:46:56
P1 - Com quantos anos você estava nessa época?
R - Que eu morava sozinha, já devia ter assim uns 19, 20 anos.
00:47:06
P1 - E daí você continuou morando sozinha depois?
R - Eu fiquei morando sozinha uns dois anos e meio. Aí depois o meu pai se separou e aí ele voltou pra casa. Aí ficamos nós, nós três. E... Depois a minha mãe ficou doente, né? E aí... na investigação, de saber o que ela tinha, tinha a suspeita de câncer ali no colo do útero. A minha avó já tinha tratado um câncer, tinha curado, então tinha essa suspeita. E aí nesse período, e aí a casa que a gente morava já era uma casa muito antiga, e aí teve o consenso de vender essa casa e aí eu voltei a morar com a minha mãe porque tinha esse momento delicado de saúde dela, se avizinhando. No final era só uma questão só, foi um período difícil, mas não, era o câncer, era um mioma, que também tinha debilitado ela por um período, mas foi um período ali também mais curto de recuperação, pós-cirurgia e que se encaminhou depois para que ela ficasse bem. Mas aí foi um período que voltei a morar com ela, pensando em cuidados nesse período, mas se encaminhou para que ela continuasse tocando as coisas dela e eu as minhas também.
00:48:46
P1 - E você, nessa época, você trabalhava com telemarketing ainda?
R - Nessa época, eu já trabalhava como analista de back-office, que era uma parte administrativa. Lembro que eu fazia cursos, eu tava fazendo curso no Senac, ali pra secretariado, que era muito forte, ficava cada vez mais forte essa questão de “o que é que eu vou fazer para me graduar, o que é que eu vou fazer de faculdade?” Eu vi algumas pessoas com vinte e poucos anos, vinte e três, vinte e quatro anos, fazendo faculdade, colegas mesmo de trabalho, aí pensando, isso como meus vinte, vinte e um. Eu, “ai, chegar nessa idade eu já quero, né, tá formada”. Nem sabia da vida, né? “Ah, já quero estar formada”. Eu entrei na faculdade, tinha 28 anos. É aquilo, né? Fazendo o meu caminho, na experiência, vi que não é só o desejo, né? Se aquelas pessoas iniciaram, estavam na faculdade naquele período, é porque pra elas foi possível naquele momento. Mas esse período tinha essa questão de trabalhar na área administrativa, mas já pensar “o que é que eu vou fazer aqui como uma profissão?” Eu me sentia muito cobrada. Os meus pais nunca chegaram assim… diretamente de um diploma, uma faculdade, mas eu me cobrava por ter essa possibilidade de fazer outras coisas profissionalmente.
00:50:36
P1 - E em que momento você decide pela Psicologia?
R - Não decidi. Na época, eu falo hoje que eu não escolhi, fui escolhida, mas em algum momento direcionei para esse caminho. Na época eu estava em dúvida entre Turismo e Psicologia, porque as questões ali envolvidas de psicologia já chamavam atenção, em alguma medida. Eu prestei o Enem, fiz o Enem, fiz o ProUni, e eu lembro que ali as vagas disponíveis, os cursos que tinham mais vagas eram Psicologia, tinha Relações Internacionais, e o próprio Turismo. E aí, no período, fiz ali o processo para poder prestar o PROUNI, e aí saiu a vaga pra Psicologia. Então, vamos lá. E aí, eu só concebi que eu fui escolhida depois que eu me formei, que eu fui, coloquei os pés na clínica.
00:51:51
P1 - Como foi esse período da faculdade? Que faculdade você entrou? Onde era? Como você se deslocava?
R - A faculdade era UNIP, aqui na Chácara de Santo Antônio. Eu morava em um outro bairro, que era mais afastado. Trabalhava também nesse período. E aí, pra entrar, eu lembro que entrar via ProUni, tinha umas questões burocráticas ali, tem comprovações, documentos, e teve alguma questão com a inscrição que eu fiz e essa documentação a comprovar. Teve algum problema entre o que estava em sistema e as comprovações. E aí eu lembro de ficar muito aflita, de pensar, “nossa, minha única chance”. Eu tinha muito essa cobrança de... E acho que era algo que eu cresci ouvindo da geração dos meus pais, por isso eu me cobrava tanto, “de ser alguém na vida”. Eu colocava essa pressão, sabe, muita pressão? “Eu tenho que ter um diploma, eu tenho que ter uma profissão”. E aí quando apareceu essa questão do ProUni, que teve essa problemática, eu, “nossa, eu tenho que conseguir, eu tenho que passar”. E aí deu certo. Eu lembro de, eu tinha uma entrevista antes, que a gente ia, levava a documentação ali com a pessoa que ia fazer a entrevista, a triagem. E eu lembro assim de ir no ônibus e pensando, “não”, eu lembro é... Na minha cabeça, assim, tocar, andar com fé do Gilberto e Gil. Nossa, essa entrevista vai ser... Chorona. Chorona chorona. De... caminhar, pensar mesmo. Por mais que não tivesse uma ligação ali religiosa, tinha questão de acreditar que eu poderia. E foi muito significativo, pela pressão ali que eu tinha de entrar na faculdade e ter uma profissão.
00:54:26
P1 - Nessa época da faculdade, como é que foi? Você continuava trabalhando em outras áreas ou aí você começou a fazer estágio? Como é que foi esse momento?
R - Eu continuei trabalhando nessa área administrativa, ali até o terceiro ano e conciliar os dois, o que é muito desafiador. E não só a faculdade de Psicologia, a universidade, a graduação é máquina de moer, gente. E principalmente chamava atenção por eu estar numa graduação que tinha proposta de acolher, de cuidar de pessoas. Eu não sentia isso e também não via com os colegas essa questão de cuidado, porque aquilo, era grande parte, trabalhava e estudava e se dividia nessa rotina de muitas atividades mesmo, de provas e que entra estágio. Então, foi muito desafiador, muito. Até o terceiro ano, eu segui trabalhando e estudando. Para o quarto ano, eu adoeci. Eu ali, desde de adolescente, hoje eu sei, que eu tinha os sintomas do transtorno depressivo. E aí, nessa época, eu adoeci mesmo. E aí, a minha mãe falou, “não, fique na faculdade que eu seguro as pontas”. E aí, continuei me dedicando à faculdade. No quinto ano, veio a pandemia. Então, o último ano todo foi fazendo as atividades, período de estágio que foi ali, parte online também, à distância, e foi muito desafiador. Aí chega aquele período de... Já vinha na preparação de TCC, mas seria apresentado mesmo online, e muitas brigas, muitas discussões, eu lembro de ter atritos, assim, horrorosos, de (estar) faltando um mês para apresentar o trabalho. Eu saí do grupo porque aconteceram coisas muito sérias. Outro grupo me acolheu. Nesse período eu quis parar a faculdade. Eu tinha seis meses. Esse período dos atritos já era antes. Tinha seis meses para parar a faculdade. Eu queria ali dar uma pausa. E eu lembro falando com um grande amigo, ele “não, você não vai parar não, esses seis meses pode virar um ano, pode virar um ano e meio, né? Você vai encarar aí todo esse redemoinho de brigas e atritos e você vai se formar sim”. E aí, aos trancos e barrancos, foi. Consegui. Conseguimos, né? Porque eu não fui sozinha.
00:58:04
P1 - Por que você não foi sozinha?
R - Porque eu tinha essas pessoas. A rede de apoio, minha mãe ali segurando as pontas em casa, os próprios colegas de faculdade, esse outro grupo que me acolheu em meio a esse período, os próprios professores, os amigos, os bichinhos. Nesse período já era, já tinha a Bibi e o Bento, a Fefê, ela pegou ali o início da faculdade. Então, não teria conseguido se eu não tivesse esse suporte, porque é muito desafiador. Tanto entrar na faculdade, quem tem outros contextos, desde vestibular e se preparar. Eu entrei como bolsista pelo ProUni. Então, quem trabalha e tem de pagar a sua faculdade já é um desafio a mais. Então, foi um período muito desafiador. Mas, tô aqui pra contar a história.
00:59:31
P1 - E teve alguma disciplina, algum professor na época da faculdade que tenha sido importante pra você?
R - Ai, tiveram alguns. Era sempre um bálsamo chegar em algumas aulas e ouvir a experiência deles. E a expectativa que tinha mesmo ali para o futuro. Mas já no estágio, tinha uma professora que acompanhava a gente em estágio e que dentro da Psicologia tem as abordagens e aí, ali no final da faculdade, ao decorrer também, a pessoa vai escolher a abordagem, as escolas. Eu costumo falar de uma forma dinâmica, a psicologia, o futebol e essas abordagens dos times, e aí cada um vai escolher o time, mas que elas se encontram e se falam em prol da ciência. Mas teve a professora, a professora... Gente, agora me fugiu o nome da mulher. Olha, é aquilo, tão especial. Parece aquilo. “Ah, eu sou muito fã de fulano de tal”. “Ah, então canta aí uma música de fulano”. “Ah, esqueci”. Eu lembro do segundo nome dela, gente. É... Fátima de Fátima. Como era, gente? Ai, desculpa, professora. Se você ver isso um dia, me desculpe, mas eu esqueci o seu nome. Mas o segundo nome dela era de Fátima e tinha um sobrenome, assim, diferente. E a forma com que ela levava ali as aulas, as intervenções, ou como ela dava bronca na gente de um modo tão, sabe, singular e sensível e humano me fez optar pela abordagem que ela seguia. Eu não tô conformada que eu esqueci o nome da professora, acho que é porque eu tô nervosa e vem tantas coisas, tantas histórias. Enfim, vou lembrar.
01:02:07
P1 - Tem alguma história específica que você lembra desse momento ou não?
R - Da professora? Ah, eu lembro que teve um período que eu me ausentei porque era um período que veio o diagnóstico da depressão, eu tive que me ausentar de algumas aulas e eu lembro de regressar e ela perguntar da ausência e eu me abrir ali pra ela e ela ter me acolhido. Sim, outros momentos da faculdade questionava por esse acolhimento. Veio naquele momento, né? Claro que de forma individual. Estava falando ali de um contexto meu. Mas é... A forma como ela conduzia ali as intervenções, trazer ali a expectativa de, “nossa, é com isso que eu vou trabalhar? Nossa, que bom que eu tô aqui, que eu escolhi trilhar esse caminho”. Lembrei, a Rosana, a professora Rosana. Rosana de Fátima.
01:03:31
P1 - E qual era a abordagem dela?
R - Fenomenologia, a abordagem que ela segue. Que tem uma visão de mundo justamente de que cada experiência é uma experiência. E que somos responsáveis por nossas vidas, nossas decisões, nossas consequências, mas que a vida tem muitas possibilidades. E de que é humano viver angústia, viver dor, chorar igual eu tô chorando aqui, que não é um sinônimo de fraqueza, mas hoje aqui é de celebração, de ter trilhado muita coisa e estar trilhando e ter conhecido tanta gente que auxiliou nesse período, nesse caminho.
01:04:47
P1 - Você me contou que você descobre porque você escolheu e foi escolhida pela psicologia na clínica. O que aconteceu?
R - Olha, é claro que o meu exercício profissional é um exercício profissional. Envolve muita responsabilidade, envolve o meu ganho financeiro, como muitas outras profissões, muitos outros fazeres. Mas eu vejo como um privilégio ter, ou pessoalmente, ou hoje como é muito comum, depois da pandemia, online, um privilégio pessoas abrirem, eu falo “gavetinhas”, “janelas”, questões da vida, celebrações, dores, medos pra uma outra pessoa. Eu já acompanhei pessoas que eu nunca vi pessoalmente, que eu nunca toquei, mas que eu pude me aproximar de outras formas, sabe? Na relação, no acompanhar, no refletir sobre essas questões. E eu não sei se é todo fazer profissional que se tem esse privilégio. É muito desafiador. Muito. Mas é um privilégio.
01:06:37
P1 - Eu queria que você me contasse como foi o encontro com o Bento.
R - Ó, o Bento... Já tinha a Fefê ali, idosinha. Esse dia eu tinha dormido na casa de uma amiga, era feriado, a gente tinha ido num show, dormi lá na casa dela e aí fui à tarde pra casa. Quando eu cheguei em casa, estava a cachorra e o quarto da minha mãe e a porta fechada. Cheguei e falei com a Fefê e comecei a escutar um miado. “Minha mãe deve estar vendo alguma coisa, alguma coisa de gatinho, algum vídeo, alguma coisa”, um lazer nela. Aí (foi) aumentando, aumentando, eu: “Mãe? Minha mãe tá boba, brincando de coisa de gatinho?” Aí eu abri a porta dela, aí saiu um gato desse tamanhozinho. Tinha uma caixinha com areia. Eu: “Gente, por onde esse gato entrou? A janela tá fechada, a porta tá fechada” - Ela não estava, minha mãe - “Ahn, será que ele entrou e ela não viu?” Ele veio miando, filhotinho. “Será que eu deixei a porta aberta pra ele sair? Porque ele entrou aqui e ela não viu”. Foi isso. Fiquei aqui naquilo, mas eu não abri a porta. A cachorra não estranhou também. Fiquei ali. Bom, aí logo ela chegou. Ela, “você viu o que eu encontrei? Eu encontrei ontem na escada da academia. Todo mundo passando, que bonitinho, que bonitinho, mas ninguém pegou e eu peguei”. Eu, “ah tá, então é você que vai cuidar, porque já tem a Fefê”. Aí foi, começou-se a jornada para escolher o nome. Até aí pensávamos que era uma gata, né? E aí minha mãe que tinha encontrado, ela é eu que vou escolher o nome, né? Rejeitou todas as sugestões que eu dei. “É Mel”. “Ah tá, então a gata é Mel agora”. Então tá bom. E aí fomos ali, né? Desenvolvendo a nossa relação. Nunca tive vontade de ter gato, porque eu tinha a impressão de gato, aquela coisa do controle humano. “Ah, o cachorro tá sempre disponível. O cachorro e o gato vêm em você quando ele quer”. É, quando ele quer, né? Deveria ser todo mundo, né? E aí nunca tive vontade, por mais que eu tivesse sempre apreço por bicho. E aí, então o Mel foi esse desenvolvimento, né? E aí foi crescendo e tal. Um dia cheguei em casa, já trabalhava, estudava, minha mãe: “Dayana, você não sabe o que aconteceu. Eu descobri que essa gata é gato. Ele estava tomando banho lá, lambendo o pipi. Vamos ter que mudar o nome de novo”. Mais uma jornada para escolher o nome. E aí eu sei que eu dei várias sugestões, isso porque eu gosto de dar os nomes diferentes. “Não, vai ser Bento”. “Então tá bom”. E aí ficou Bento. E aí conviveu um período com a outra cachorrinha, a Fefê, se davam muito bem. E aí Fefê se foi e ficou ele durante um tempo, um ano e meio. E aí depois chegou uma outra irmãzinha pra ele, a Bibi (apelido para Beyoncé). E aí com o gato, com ele foi justamente essa coisa de conceber que ele tem o jeitinho dele, a personalidade dele e é de fato quando se tem vontade, de carinho, de um afago, de ter os momentos de individualidade. Foi essa construção muito bonita.
01:10:46
P1 - Você estava contando que ele era seu sócio, por quê?
R - Porque ele chegou, eu estava no primeiro semestre da faculdade, então tem as fotos eu estudando ali para as primeiras provas e ele juntinho, lembro que era junho e ele querendo ficar quentinho, perto, de acompanhar o notebook do lado, fazendo os trabalhos. Época de TCC, de virar a noite e ele junto. E aí eu me deparo hoje, olhando as imagens, revisitando a memória, e hoje quando eu vou atender online, que vou para o meu espaço e ele vem, eu sento na cadeira, ele já vem pro colo e aí tanto que eu falo, né? “Pessoal, dependendo do horário eu vou atender num espaço em que eu vou dividir com uma cachorra e um gato, então eles vão aparecer”. E aí eu me pego lembrando, dessa minha trajetória profissional, de que ele foi participando, no período que eu era estudante e hoje acompanhando quando eu estou ali na atuação, no exercer da profissão. Por isso que eu chamo ele de sócio.
01:12:19
P1 - E você estava contando quando você se inscreveu que... Agora, na verdade, o sócio foi quando você se inscreveu. Mas estava contando que era no começo Mel, né? Como que foi o primeiro dia de Bento-Mel? Você lembra como foi?
R - Eu não lembro. Não lembro, mas ele era pequenininho, filhotinho, então essa... Associação dele de um nome para o outro aconteceu, né? Mas acredito que tenha sido gradativo, né? Mas...
01:13:01
P1 - Mas o primeiro dia na casa?
R - Ao primeiro dia dele como Mel, que ele chegou? Pra mim foi aquela estranheza de se deparar com... pensei que a minha mãe estava vendo algum conteúdo de gato e era um gato miando, né? Ali com um cachorro e aí eu tinha esse receio de como seria o entrosamento, a adaptação deles, mas rolou, e foi mesmo um dia após dia. Para mim, que sempre, que grande parte da minha vida convivi com cachorro, se deparar ali, como era viver com um gato, essas peculiaridades de um gato. Não foi um dia, acho que foi uma construção mesmo. Deu para eu conhecê-lo.
01:14:02
P1 - E eu estava pensando exatamente nessa palavra de construção de um amor. Parece que foi isso que aconteceu.
R - É, é. Porque até então não me chamava atenção, gatos e de me deparar com esse amor mesmo extraordinário que é, né? De hoje, por exemplo, essa ideia que se tem do gato, “o gato só vem quando precisa”, e não, é quando de fato ele quer. E tá fazendo alguma atividade, alguma coisa e ele vem e passa os pelinhos, o corpo vem e vem e quer atenção e vem e se faz presente ali do modo dele, enquanto, por exemplo, eu estou trabalhando, foi essa construção mesmo de aceitar o diferente, aceitar o que era desconhecido pra mim.
01:15:12
P1 - Me conta um pouco como é o Bento, o humor dele, como é que ele se comporta e como ele é fisicamente também.
R - O Bento é, como se diz, de trás pra frente, aliás, de frente pra trás, né? Do final para o começo. Ele é um sialata, esbeltinho, sempre foi, magrinho, os olhos bem azuis, azul assim, azul turquesa, a pelagem marrom com as extremidades marrom escuro. E o Bento, ele é muito carinhoso, ele é muito vocal, comunicativo, ele tem os momentos apocalípticos dele, que mia muito, que sobe nas coisas, que tira a terra das plantas, que derruba os objetos, é um ser vivo, tem os momentos de euforia e os momentos que ele tá na dele, quer ficar deitadinho, quer descansar. A gente tem uma comunicação, que dependendo do local da casa que eu tô, eu assobio uma música do Scorpions que chama Winds of Change. Não sou boa na inglês, mas que começa com um assovio e aí eu faço esse som e ele vem me encontrar. É a forma da gente se aproximar. Tentei ensinar Patience do Guns N' Roses, mas é mais difícil, eu não consegui. Mas é a nossa forma de interação.
01:17:16
P1 - E eu imagino que tem um... Há havido muitos momentos marcantes na vida de vocês em conjunto, mas eu queria saber um momento que você se lembra muito da sua vida a partir da chegada do Bento.
R - Um momento marcante foi o dia que ele fugiu. Eu morava em uma outra casa e que o vitro, assim, a janela do banheiro não tinha tela e ele, bagunceiro como era, mais jovem, pulou e fugiu por ali. Um domingo, assim, chuvoso, frio. E aí eu saí pelas ruas, avenidas, assim, próximas, procurando ele, chamando ele e nada. E me acabei depois de chorar, né? “O gato foi embora, foi embora”. E assim, onze horas da noite na rua, eu lembro que tinha os carros estacionados, ficavam alguns gatos, eu saí de pijama, olhei, “ah, vou ver lá se ele tá embaixo do carro”. E saía atrás. E de passar o dia, né, ali chorando de que, se… ele tinha se machucado, tinha sido maltratado. E aí, no domingo. Na segunda-feira, às sete da manhã, eu me arrumando, ali pra trabalhar, com a cara inchada de chorar, triste. Na outra casa que eu morava, tinha uma laje muito grande, né? E aí, o primeiro miado que eu escutei, eu sabia que era ele. E aí, eu já dei um grito, né? “Bento!” E aí, saí correndo lá pra porta da sala. E aí, abri, era ele. Não tava machucado, não tava, sabe? Estava do jeitinho que ele é, mas cansado. Aí eu, “seu vagabundo, por onde foi que você andou?” Aí eu sei que ele deitou assim no tapete e ficou lá. Deve ter essa foto por aí. Foi um dia de muito aflito, né? Porque eu fiquei muito aflita. Não viver mais, essa possibilidade de não viver mais com ele. Ah, os momentos de celebração, sabe? O dia a dia, as coisas simples. Esse churu que ele ama, que eu pego a embalagem e ele já sabe o que é e ele mia, mia e já sobe ali no espaço dele pra poder comer. E o fato, de conversar com ele e ele mia, mia e parece que tá, né, ali. Parece não, tá falando da forma dele. E eu me surpreendi até hoje com isso, né? com essa forma de interação. Um momento que me impactou de fato, sem dúvida, foi o ano passado que veio o diagnóstico dele de insuficiência renal. Uma questão que é muito comum pra gato. É comum, mas não é fácil quando chega. E ali a série de cuidados que se precisa ter com ele hoje. Incentivar a tomar água, que é um grande desafio, incentivar gato a tomar água. Mas me deparar com a finitude de tudo que é vivo. Mas muito maior que isso é o que a gente construiu durante esses dez anos, e de que pensar a possibilidade da partida dele não é perda, porque não se perde um período desse de amor. E como eu já usei aqui de privilégio, falando em relação ao exercício profissional, que além da condição de exercer a profissão me trouxe outras coisas, que foi um divisor também de águas na minha vida, de consciência de classe, de ter um olhar mais crítico sobre o mundo, sobre eu mesma, sobre a sociedade. Viver com o Bento é esse privilégio diário. Mesmo se deparando com essa questão de finito. Ela começou a chorar, desculpa.
P1 - Desconcentrei. Não tem problema.
R - Mas é isso, é privilégio. É um privilégio diário viver com ele, com as peripécias dele.
01:22:24
P1 - E tem algum momento engraçado que você se recorde do Bento.
R - Ele era mais novo, ele gostava de trazer barata, ele colocava barata assim, estava estudando, barata no caderno, no material assim, impresso. Hoje não mais. Lagartixinha, pequenininho, lembro que ele trouxe. Ai, quando a Bibi chegou, a Bibi é grandona, quase 20 quilos e o Bento tem 3 e pouquinho. E aí, uma cachorra com energia e que quer brincar, ele vem, pá, na cara dela e ela chorava. E sabe, ele pequenininho colocava ela... Aquilo, é o meu momento também, espere. Eles brincam, mas ele também quer ter o momentinho dele. Ai, essas coisas diárias, né? O que faz rir quando ele vem e tem uma planta em cima da mesa e a mesa tá cheia de terra. (intervenção)
01:22:56
P1 - Eu queria saber em que momento que a Bibi entra na história de vocês?
R - Mais uma vez ela entra de surpresa. Pandemia, abril de 2020, eu estava em aula online, no celular, e a minha mãe me ligando. E eu, rejeitando a ligação. Aí ela mandou mensagem, “ai atende que é urgente”. “Não, atende que é um presente que eu mandei aí pra entregar”. Aí saí da aula da sala online e aí liguei. “Ah, eu tô em aula, você tá me ligando?” “Ah, então é que eu pedi pra entregarem um presente aí pra você, o fulano…” - um amigo dela - “vai lá pegar”. Isso já tava à noite e tal. E aí eu lembro que tinha uma varanda, uma área, estava escura. E aí eu só coloquei a cabeça e eu vi esse amigo dela negócio ele segurando assim ó, aí fui lá pegar, aí cheguei lá: “oi, fulano, tudo bem?” “Ah, foi aqui que pediram essa cachorra?” “Não, não pediram não, mas se ela chegou aqui ela vai ficar”. Tinha dois meses, fedida quase que eu caí pra trás, o fedor que ela tava. E aí recebi ela e entrei em casa com o tal do presente. E aí, Bento já ficou de olho, né? Olhando de longe que o espaço ia ser compartilhado. E aí, a saga também para nomes. E aí, depois a minha mãe ligou: “E aí, recebeu o presente?” “Aham, recebi”. Ela sempre boazinha, quietinha, ali tentando se orientar. Ela sempre foi uma cachorrinha muito meiga e desde o primeiro dia, essa questão carinhosa, porque eu vivi com a Fefê que era apocalíptica até os últimos dias. E aí Bibi chegou assim em casa, de surpresa também.
01:26:16
P1 - E sempre pelas mãos da sua mãe?
R - É, de surpresa. Ela era a que falava, “não, porque a casa é pequena, aqui não tem espaço, não sei o que”, aí em algum momento ela chega com essas surpresas.
01:26:34
P1 - E eu queria que você me contasse, você estava falando que o Bento fica doidinho quando vê o churu, aí eu queria saber como que é a alimentação dele, como é que é esse momento da alimentação?
R - É, hoje ele tem esse petisco, porque por conta das questões renais, é de vez em quando. Alimentação, ração seca, né, adrenal também, desde o ano passado. Sachê, pouquinho também por questões renais, ele nunca foi aquele gato que comesse muito sachê, sempre foi de pouquinho. Comia petisco antes, mas hoje, por conta da questão renal, não come, mas ele ama um stickzinho. Qualquer momento, pegar, ele come, mas hoje é com mais cautela.
01:27:32
P1 - E esses cuidados que envolvem um gato que tem uma condição renal, como que tem sido essa adaptação?
R - Quando eu percebi, porque ele emagreceu. Sempre foi magrinho, mas ficou mais magrinho. Dos ossinhos aqui aparecerem. Aí eu comentava com algumas pessoas. “Ah, não, você não acha que…” Porque eu lembro que tinha voltado de viagem. “Ah, você ficou alguns dias sem vê-lo?” Eu: “não, eu tô com ele todo dia. Eu pego esse gato todos os dias”. E aí, fiquei com essa preocupação, levei no veterinário, fez uma série de exames, exames de sangue, ultrassom, e aí já foi identificada por algumas medições que o rim já estava funcionando de uma maneira diferente. Aí vem a mudança na alimentação, a questão da ingestão de água, que é um desafio. E aí essas mudanças em prol mesmo de uma qualidade, melhor qualidade de vida. Um acompanhamento maior com o veterinário, pra que ele possa prolongar a vida, mas claro prolongar vivendo bem. Por mais que seja muito dolorido para a cultura essa questão da ausência dele, quero que ele esteja comigo bem, saudável, um bichinho feliz.
01:29:13
P1 - E a Bibi, como é o momento de alimentação dela? O que ela gosta de comer?
R - A Bibi também, ração seca, petisco de vez em quando porque a Bibi ela ali com os três anos ela apresentou questões também gastrointestinais tinha algum componente na ração antiga que ela tinha alergia, aí né se fez a mudança. E aí veio também a questão de tirar sachê, poder incentivar mesmo a alimentação só com a comidinha de cachorro. Eu não dou outras coisas, é a comidinha dela. E aí os bolachinhas que eu falo de vez em quando, muita água, mas primordialmente mesmo é a alimentação. Hoje, sanada essa questão gastrointestinal mudou a ração. Um período recente, ela teve uma alergia de pele e aí mudou a ração também para uma hipoalergênica, que é a que ela consome hoje. E ela come bem. Assim, de vez em quando ela faz um charme, ela vê que eu coloco um negocinho diferente pro gato, aí eu coloco uma raspinha ali só pra ela ver um saborzinho diferente, vai e come. Mas, de modo geral, é alimentação mesmo voltada para cães.
01:30:44
P1 - E muitos tutores, a gente tem visto que esse momento da alimentação às vezes é um momento de relação mais próxima com o animal. Eu queria saber como que é aqui, se é um momento, você estava contando que o Bento tem o lugar dele para comer. Como é que é essa relação dele se alimentando mesmo em relação a você? Se eles pedem, como é esse momento?
R - O Bento sim, ele azucrina. Ele pede, mia, ele tem ali o espaço dele como é mais alto para a cachorra não comer. Mesmo com pote com ração, ele pede mais, coloca mais um pouquinho. A questão do sachê, sei quando é que ele quer. O churu também. Então, ele tem essa proximidade e eu percebi que ele quer comer mesmo. Com o churu como é um stickzinho, tem essa questão de eu poder dar pra ele. Outra questão também próxima, que agora com o consumo dele maior de água, eu volto e meio dou a água na seringa, então coloco a água na boca dele, é o momento da gente ficar mais próximo. Não gosta muito, mas é um momento de proximidade para o descuidado. E também os momentos de medicação, que ele toma algumas vezes por dia, o spray, que também não gosta muito. Mas é ali um momento de cuidado. A Bibi tem esse cuidado mais próximo na hora da bolacha. “E aí, você quer uma bolacha?” Ela pode estar deitada ali quietinha. “Quer?” Já sobe a orelha. “Quer? Então, vamos lá”. Vem da rua, faz a limpeza das patinhas em algum momento que ela faça algo colaborativo, tem a bolachinha ali que vem para premiá-la. E fora disso também, que não é só essa “faz que eu te dou”. Tem outros momentos que ela consome a bolachinha dela.
01:33:05
P1 - E você estava contando um pouco, mas eu queria saber como foi esse momento de morar sozinha com eles. É recente? Em que momento você sai da casa da sua mãe?
R - Não, hoje eu moro com ela.
P1 - Ah, você mora com ela?
R - Aham, moramos juntas, mas ela é uma parte do tempo, como eu trabalho parte do tempo em casa e tem eles, fora o meu viver pessoal e lazer, estou a maior parte da semana, dos dias com eles. Então, por isso que eu falo que são sócios, porque andam juntas as questões pessoais, profissionais, de lazer e sociais, eles acompanham muito.
01:33:55
P1 - E como é que é a rotina? A sua rotina de trabalho, depois sua rotina de lazer?
R - A rotina, eu costumo concentrar os atendimentos ali em parte da semana, atendimentos e estudos, tenho a supervisão ali com outros colegas, a minha própria terapia, sair para estudar fora, palestras, congresso. Na medida do possível, eu costumo concentrar em parte do dia, aliás, parte da semana, mas no final de semana também acaba tendo questões de trabalho, mas eu trabalho para ter o final de semana para poder fazer outras coisas. Nem sempre é possível, mas acho muito importante até visando a qualidade do trabalho para que eu possa descansar, poder buscar outros… continuar me desenvolvendo, outros meios de conhecimento, ter esses momentos também que eu tô fora daqui. E aí, lazer, eu gosto de música, entre a questão música, viagem, que eu gosto muito, eu gostaria de fazer mais do que hoje é possível. Continuo amando ir ao centro da cidade, fazendo coisas lá. Gosto muito de história, então se tem essa junção de poder conhecer mais do lugar que eu vivo, conhecer mais sobre quem habitou, os ancestrais ali, habitou este lugar, acho importante. Quando envolve comida também, gosto de sair para comer, de shows, na medida do possível também, algo que me alimenta a arte. Essa troca com artistas, com pessoas que de repente eu não conheço pessoalmente mais que tem essa união a partir de uma visão de mundo, de uma concepção de vida. Então, shows é algo que eu gosto muito de fazer, locais que eu gosto de frequentar. E, claro, tá com eles, né? Um passeio, com o Bento menos, porque gato, essa questão de mexer na rotina já é... ele não curte muito, né? Mas a Bi, poder sair com ela, também é um momento fora, que a gente tem que poder compartilhar o tempo.
01:36:59
P1 - E aonde que vocês vão quando vocês estão juntas?
R - Ela, parque, tem um parque aqui dentro no condomínio, tem um parque aqui próximo que ela gosta, aqui a avenida. Ela, quando a gente sai, já fica ali apreensiva por conta do barulho, a gente mora num lugar muito movimentado. Mas ela gosta, tem um parque, quando a gente chega no parque, é um momento que ela vê outros cachorrinhos, outras pessoas. Ela gosta de interagir com crianças, outras pessoas. Ela é muito carinhosa, sempre foi muito carinhosa, muito entregue mesmo, né? Muito doce. E aí são esses momentos que compartilhamos.
01:37:50
P1 - E eu queria saber o que é importante pra você hoje na sua vida?
R - Lembrar que eu tenho uma trajetória. Eu vivi muito tempo com a cobrança de que eu deveria estar em lugares, ser de um modo, funcionar de um modo, me relacionar de uma maneira, esquecendo que eu tenho uma trajetória e que eu continuo essa trajetória, que eu não tô parada, que eu estou fazendo coisas, que eu estou me relacionando com pessoas, que eu estou me desenvolvendo, conhecendo tantas outras. Claro, almejando, planejando coisas para um futuro que se avizinha, mas não esquecer que eu tenho uma trajetória e que eu continuo nessa caminhada. Uma caminhada mais leve. Por muito tempo, eu tive essa cobrança externa e essa auto cobrança que me paralisou de que eu não era o suficiente para fazer algumas coisas, que eu não era o suficiente para me relacionar de certo modo, e esquecendo que eu venho colocando na minha mochilinha muitas experiências que eu tenho que compartilhar, que eu tenho que trocar com as outras pessoas. E isso veio muito posterior. Claro, é um exercício na clínica como psicóloga, mas é claro de olhar minha trajetória como pessoa, como meus pais que vieram, chegaram nessa terra também com coisas a construir, desejos a realizar, com muito medo, com angústia, com as ramificações que esse encontro foi construindo, eu, minha irmã, meu pai, com os meus dois outros irmãos, as ramificações dessa família e que se estendem à multiespécies, que são os nossos companheirinhos aqui hoje, as relações que se mantêm da caminhada que eu iniciei que são esses amigos de trabalho, amigos de tantas outras oportunidades que foi possível o encontro, de outras pessoas que eu fui conhecendo no caminho e que vivemos hoje aí uma jornada. Hoje pra mim isso é importante, me conceber como humana. Com as celebrações e os desafios que se tem nessa caminhada.
01:41:19
P1 - Eu queria saber qual é a importância que o Bento, o Bibi e a Fefê tiveram na sua vida.
R - Tiveram e tem, né? A importância que somos mortais. Conceber que por mais que se viva com... distraída da finitude, distraída da morte, eles me trazem esse pensamento de que finitude não está atrelada a perder, mas justamente essa trajetória, essa costura que nós seguimos juntos. Nessa leveza. Em abrir a porta depois de um dia de atividades e a cachorra está em polvorosa. Do gato chegar com aqueles olhinhos brilhando e passar pelas minhas pernas. De começar um papo ali que, de repente, pra quem tá fora é difícil. Estou concebendo uma dificuldade no olhar do outro, mas antes deles eu não conhecia essa simplicidade de falar com eles e eu entender através de um gesto, de uma forma que eles se põem, de um latido, de um miado, que eles estão ali em construção, em relação comigo.
01:43:32
P1 - Você tem sonhos?
R - Tenho. Como eu falei, por muito tempo eu me via uma pessoa incapaz e não merecedora de viver algumas coisas, algumas experiências. Isso vem mudando ao longo do tempo, mas eu sonho em continuar me desenvolvendo enquanto profissional, poder compartilhar, continuar compartilhando do acolhimento, do cuidado de saúde mental. Com as pessoas que escolherem que eu siga com elas nessa jornada. Uma profissional melhor, que fale melhor, que escute melhor, que leia melhor. Uma pessoa que se relacione melhor com os meus entes queridos, que me relacione melhor comigo mesma, porque aquilo “às vezes se visa se relacionar com o mundo de uma melhor forma e se esquece de si”, que começa primeiro. Sonho em visitar minha irmã, que eu ainda não tive a oportunidade de visitá-la na Espanha. Como falei, não conheço a terra do meu pai. Sonho em conhecer histórias de gente que estão por aqui, as que já tiveram e que pavimentaram esse lugar, povoaram o caminho, me chama muito a atenção viajar e poder fazer passeios, conversar com pessoas que contam vivências, histórias de quem construiu coisas para que eu estivesse aqui. Meu sonho é esse, continuar sendo gente digna e vendo outras pessoas também vivendo com dignidade.
01:46:12
P1 - Queria saber se tem alguma coisa que eu não te perguntei que você queira contar.
R - Acho que você abrangeu tudo. Fui trazendo as questões primordiais. É uma vida, é uma trajetória, então vem as pinceladas. Mas é isso, poder me permitir de celebrar esse momento. Como eu falei, gosto de história, vou a museus. Então, museu de gente, Museu da Pessoa. É algo a celebrar. Da pessoa e desse projeto com interações com esses seres, esses bichinhos maravilhosos que eu tenho o privilégio de ter convivido e conviver. É agradecer mesmo esse momento de partilha.
01:47:21
P1 - Tem alguma mensagem que você queira deixar para as pessoas que vão ver essa história, que estão assistindo?
R - Que continuem, não esqueçam que elas têm trajetória, que o caminho se dá na caminhada.
01:47:50
P1 - E como é que foi contar um pouquinho? Eu sei que é um recorte de 37 anos, mas como é que foi contar um pouquinho dessa história hoje aqui para o Museu da Pessoa?
R - Emocionante. Aquilo, né? A gente não tinha... A gente pensa que controla as coisas, né? Me maquiei, eu pensei, “vou contar tais coisas, vou seguir tais passos”, e aí vem a experiência e surpreende. E aí surpreende tomando espaço pra eu ser quem eu sou. Essa pessoa que lembra da minha trajetória, de quem me acompanhou, da minha caminhada hoje, de quem está comigo, das coisas que eu vivi, das coisas que me emocionam. Então, é poder celebrar a minha história, as coisas que eu gosto, o meu jeito de ser, quem eu amo. Espaço para essa celebração.
01:49:17
P1 - Dayana, então, em nome do meu nome, em nome do Mayo, do Natan, do Ali e do Museu da Pessoa, a gente agradece muito por esse momento. Muito obrigada.
R - Eu que agradeço a vocês. Vou dar um abraço apertado.
P1 - Sim.
R - Obrigada.
P1 - E eu achei muito bonito porque quando eu estava passando pela mesma situação de entrar na faculdade, a minha mãe falava pra eu lembrar da música do Gil.
R - É?
P1 - É.
R - Sim.
P1 - Muito marcante.
R - É, Gil... Eu tenho os períodos, que tem pessoas que eu vou acompanhando e vão me tocando e, algum tempo, ele... Tatuei... Eu amo o Rio de Janeiro, então, tatuei “aquele abraço”, né? Que é a música...
P2 - Tatuou? Que legal!
R - E aí ele, com a obra dele, a arte dele, vem me acompanhando aí em alguns momentos da minha vida.
P1 - Que bonito!
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