DIA DOS NAMORADOS
Ah, se eu fosse o teu namorado...
Tantos anos já passados e, agora, me vem à cabeça o meu primeiro e virginal encanto; a boca seca, um indefectível frio no estômago... jamais um beijo, jamais um inocente roçar de pele, essa coisa de adulto ou daqueles solene e formalmente comprometidos. A minha primeira e definitiva paixão platônica morava na minha rua e era bom sabê-la sempre ali. De longe. Permitia-nos somente a vida um cruzar de olhos e um sorriso desconsertado e pálido, como desconsertado e lívido ficava o rosto apaixonado daquele caipira com um amor burro e comprido de menino lírico. Foi-se a minha Mariazinha, perdida para sempre no tempo e no espaço, mas embalsamada nas câmaras ardentes do coração.
Ah, se eu fosse o teu namorado...
Ainda mais tolo, saí de um seminário católico carregando comigo a avidez das descobertas e os medos crônicos dos confrontos...
Um estojo para barbear, a primeira comemoração abstraída do dia dos namorados sob a gritaria infernal dos Beatles que me custava entendê-los e esse alheamento caminhou comigo, grudado a mim, sem a mínima vontade de me abandonar. Dia dos Namorados não é, para mim, apenas uma data comercial; é, sim, a oportunidade da troca, das juras, da exposição honesta de sentimentos. É uma comemoração verdadeira para quem é verdadeiro, e os amantes são, via de regra, bons e puros de coração. Invejo os amantes. Invejo os corações apaixonados que sorriem com alegria e sofrem com prazer. Não, a vida não me outorgou esses sentimentos tolos e eu sinto falta de ser um tolo. Sinto falta do dia dos namorados que poucas vezes tive...
Ah, se eu fosse o teu namorado, hoje, eu seria o melhor dos homens, o mais carinhoso. Falaria menos e ouviria mais e, com certeza eu sorriria de teus gracejos banais e te acompanharia em tuas lágrimas ainda que desnecessárias e verdadeiramente improcedentes. O tempo frio deste outono frio nos convidaria a um fondue no “Era...
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DIA DOS NAMORADOS
Ah, se eu fosse o teu namorado...
Tantos anos já passados e, agora, me vem à cabeça o meu primeiro e virginal encanto; a boca seca, um indefectível frio no estômago... jamais um beijo, jamais um inocente roçar de pele, essa coisa de adulto ou daqueles solene e formalmente comprometidos. A minha primeira e definitiva paixão platônica morava na minha rua e era bom sabê-la sempre ali. De longe. Permitia-nos somente a vida um cruzar de olhos e um sorriso desconsertado e pálido, como desconsertado e lívido ficava o rosto apaixonado daquele caipira com um amor burro e comprido de menino lírico. Foi-se a minha Mariazinha, perdida para sempre no tempo e no espaço, mas embalsamada nas câmaras ardentes do coração.
Ah, se eu fosse o teu namorado...
Ainda mais tolo, saí de um seminário católico carregando comigo a avidez das descobertas e os medos crônicos dos confrontos...
Um estojo para barbear, a primeira comemoração abstraída do dia dos namorados sob a gritaria infernal dos Beatles que me custava entendê-los e esse alheamento caminhou comigo, grudado a mim, sem a mínima vontade de me abandonar. Dia dos Namorados não é, para mim, apenas uma data comercial; é, sim, a oportunidade da troca, das juras, da exposição honesta de sentimentos. É uma comemoração verdadeira para quem é verdadeiro, e os amantes são, via de regra, bons e puros de coração. Invejo os amantes. Invejo os corações apaixonados que sorriem com alegria e sofrem com prazer. Não, a vida não me outorgou esses sentimentos tolos e eu sinto falta de ser um tolo. Sinto falta do dia dos namorados que poucas vezes tive...
Ah, se eu fosse o teu namorado, hoje, eu seria o melhor dos homens, o mais carinhoso. Falaria menos e ouviria mais e, com certeza eu sorriria de teus gracejos banais e te acompanharia em tuas lágrimas ainda que desnecessárias e verdadeiramente improcedentes. O tempo frio deste outono frio nos convidaria a um fondue no “Era uma vez um Chalezinho” e, lá, eu admiraria, perplexo, a tua beleza e a tua maneira doce de ser.
Mas, eu não tenho a graça de ser o teu namorado e, neste dia, estarei avaliando os meus descaminhos e as minhas desventuras e, lá no fundo, bem no fundo do coração, uma pontada enorme de ciúme e despeito me levará à inveja de tua noite...
Ah, se eu fosse o teu namorado...
Darci Freire/Belo Horizonte
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