Sou neto de um sobrevivente do Holocausto. Meu avô, Charles Kramer (z’l), foi um homem com uma história repleta de lacunas. Diferente de outros sobreviventes que decidiram divulgar os horrores de um genocidio, o Sr. Charles contou pouco sobre sua vivência. Eu comparo meu avô ao campo de extermínio de Treblinka que foi deliberadamente destruído, como um apagamento de evidências. Atualmente no local do campo, há um monumento com rochas que simbolizam as comunidades perseguidas e exterminadas no local. Outros sobreviventes como Primo Levi ou Elie Wiesel que comparo com Auschwitz-Birkenau e Majdanek estão impecavelmente conservados, necessitam pouco esforço da memória para perceber o que acontecia lá. Em Treblinka, é necessário investigar o passado, buscar fontes que contam indiretamente os fatos, olhar a floresta em volta e não se render à beleza bucólica da natureza polonesa. É preciso imaginar o que acontecia lá. É preciso erguer um monumento para não se esquecer, preencher o vazio do Indizível com algo. As memórias do meu avô acabam se parecendo com isso, pela forma de lidar que ele escolheu, ou que foi capaz. Silenciando aspectos de sua história, talvez tentando esquecer, talvez tentando guardar, tentando conter algo dentro de si, ou tentando perder esse mesmo algo em si mesmo.
O Trauma
O evento traumático que meu avô viveu durou alguns anos, e começou aproximadamente quando tinha 9 anos de idade. Seu nome de nascença é Szyja, que por sua vez remete ao seu nome em hebraico: Yehoshua. Filho caçula de Yisrael Yitzchak e Tzippa, Nasceu em 30/10/1930 no Shtetl chamado Ostrowiec. Esse Shtetl era de tamanho mediano (16 mil judeus). Em 1940, O Shtetl se tornou gueto de Ostrowiec, e nessa época a irmã mais velha comprou documentos adulterados para Szyja, forjando uma idade maior do que a realidade. Em 1942 foi deportado para o campo de Bergen-Belsen, e lá trabalhou como escravo nas minas de carvão. De Bergen-Belsen, foi...
Continuar leituraSou neto de um sobrevivente do Holocausto. Meu avô, Charles Kramer (z’l), foi um homem com uma história repleta de lacunas. Diferente de outros sobreviventes que decidiram divulgar os horrores de um genocidio, o Sr. Charles contou pouco sobre sua vivência. Eu comparo meu avô ao campo de extermínio de Treblinka que foi deliberadamente destruído, como um apagamento de evidências. Atualmente no local do campo, há um monumento com rochas que simbolizam as comunidades perseguidas e exterminadas no local. Outros sobreviventes como Primo Levi ou Elie Wiesel que comparo com Auschwitz-Birkenau e Majdanek estão impecavelmente conservados, necessitam pouco esforço da memória para perceber o que acontecia lá. Em Treblinka, é necessário investigar o passado, buscar fontes que contam indiretamente os fatos, olhar a floresta em volta e não se render à beleza bucólica da natureza polonesa. É preciso imaginar o que acontecia lá. É preciso erguer um monumento para não se esquecer, preencher o vazio do Indizível com algo. As memórias do meu avô acabam se parecendo com isso, pela forma de lidar que ele escolheu, ou que foi capaz. Silenciando aspectos de sua história, talvez tentando esquecer, talvez tentando guardar, tentando conter algo dentro de si, ou tentando perder esse mesmo algo em si mesmo.
O Trauma
O evento traumático que meu avô viveu durou alguns anos, e começou aproximadamente quando tinha 9 anos de idade. Seu nome de nascença é Szyja, que por sua vez remete ao seu nome em hebraico: Yehoshua. Filho caçula de Yisrael Yitzchak e Tzippa, Nasceu em 30/10/1930 no Shtetl chamado Ostrowiec. Esse Shtetl era de tamanho mediano (16 mil judeus). Em 1940, O Shtetl se tornou gueto de Ostrowiec, e nessa época a irmã mais velha comprou documentos adulterados para Szyja, forjando uma idade maior do que a realidade. Em 1942 foi deportado para o campo de Bergen-Belsen, e lá trabalhou como escravo nas minas de carvão. De Bergen-Belsen, foi encaminhado para Auschwitz-Birkenau. Fugiu duas vezes do campo, e surpreendentemente voltou (uma vez por sobrevivência, outro capturado). Seguiu trabalhando nas minas de carvão. Só saiu definitivamente quando todos os prisioneiros foram libertados em 1945. Como dito na introdução, pouco se sabe sobre sua vivência nesse período entre 1942 até 1945. Sabe-se que ele apanhou injustamente por ser acusado de roubar sopa quando trabalhava nas minas de carvão a ponto de não conseguir andar no dia seguinte, e também sabe-se que foi mordido por um pastor alemão quando capturado de sua segunda fuga, deixando uma cicatriz em sua perna. Ao longo de sua vida, não relatou além disso para seus filhos. Talvez haja algo do trauma que jamais poderá ser completamente narrado. Nesse primeiro momento cabe delimitar o período traumático de aproximadamente 5 anos (Entre 1940, quando o Shtetl se tornou gueto, seguido de sua deportação para campos de concentração até sua libertação em 1945). Dos 10 aos 15 anos de idade, Szyja ficou desamparado de sua família e foi submetido a uma desumanização e desindividualização. Tomaram sua família, seu shtetl, suas roupas, seu cabelo, inclusive seu nome. Szyja agora era um número que carregava em seu braço. Talvez precisamente por essa desumanização e desindividualização que meu avô não tenha tantas memórias. Pode ter havido algo de uma cisão com seu Eu para suportar uma vivência dessa magnitude.
Essa experiência vivida pelo meu avô e por milhões de vitimas é sem dúvida traumática. Estima-se que aproximadamente 3,5 a 4 milhões de judeus tenham sobrevivido ao Holocausto por diferentes meios, incluindo o refúgio em outros países, a ocultação em territórios ocupados e a libertação dos campos de concentração nazistas. Dentre esses, cerca de 200 a 300 mil judeus foram libertados diretamente dos campos ao final da Segunda Guerra Mundial. Além dos 6 milhões de judeus que foram sistematicamente mortos pelo regime nazista, estima-se que outras populações vitimadas somem aproximadamente mais 8 milhões de vitimas. É uma estimativa difícil de calcular, dada o tamanho do evento e a tentativa deliberada de apagar os registros a respeito, além da estimativa depender da metodologia utilizada.
O Total aproximado de mortes é de aproximadamente 14 milhões de pessoas assassinadas sistematicamente pelo regime nazista. Diante da magnitude estarrecedora desse evento, fica clara a dificuldade em dizer algo, mesmo sendo um evento passado de mais de 80 anos.
Sobre-viver: Entre silêncios, sintomas e deslocamentos
A partir dos relatos colhidos, sei muito mais sobre a vivência pós traumática do que o trauma em si. Meu avô teve que aprender a viver apesar do horror genocidário, sendo que invariavelmente carregaria marcas desse episódio. Nessa parte do texto pretendo apresentar brevemente como sua história se desenvolveu, entre dados biográficos, pequenos causos e alguns traços de personalidade. Na parte seguinte a esses relatos, pretendo relacionar os conceitos freudianos de recalque e sublimação, além de reflexões de Laub e Felman sobre o testemunho e o silêncio.
Szyja Kramer, sobrevivente dos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau, acompanhado de um irmão de consideração chamado Moshe, é libertado dos campos. Com 15 anos, Szyja atravessou grande parte da Polônia de bicicleta. Um dos relatos que meu avô fazia com maior tranquilidade a respeito dessa época foi ter roubado duas bicicletas de padres que deixaram na frente de uma igreja. Szyja e Moshe pedalaram uma grande distância e se livraram das bicicletas em um lago. Minha tia relata que ele inclusive contava essa história rindo, com um tom de vingança.
Chegaram até a Alemanha, e de lá, a Joint Organization encaminhou esses dois jovens para um orfanato na Bélgica. Permaneceu por pouco tempo no orfanato. Dizia meu avô que nessa época, um menino mais velho costumava irritar e perseguir outros garotos. Em alguma dessas irritações, o jovem Szyja decidiu dar uma um golpe na cabeça desse menino com uma raquete de tênis de mesa.
Já fora do orfanato, virou aprendiz de joalheiro em troca de um quarto e comida na residência do seu novo patrão. Lá conheceu um pouco mais de cultura, como seu interesse por piano, a língua francesa, moda e joalheria, ofício que viria a se tornar sua ocupação profissional até o fim da vida.
Nos anos 50, ainda em movimento, Szyja decide embarcar em um navio, e muda-se inicialmente para a Venezuela junto de Moshe. Finalmente, da Venezuela, parte para o Rio de Janeiro sozinho. Não se sabe exatamente quando Szyja assumiu-se como Charles, mas já chegou no Brasil com esse nome. Encanta-se com a cidade maravilhosa, que vivia anos dourados. Foi apresentado a paulistana Berta Tajtelbaum (z’l) que viria a se tornar sua esposa e futuramente minha avó. Mudou-se para São Paulo na segunda metade da década de 50. São Paulo foi a cidade onde o Sr. Charles definitivamente se instalou e teve 3 filhos, Meu pai Márcio, meu tio Jorge e minha tia Tzipy. Alguns relatos sobre essa época me parecem pertinentes. O Sr. Charles era extremamente pontual, vestia-se sempre com trajes formais, e nunca deixava seus números tatuados no braço aparentes. Quando meu pai e meu tio brigavam na infância meu avô apartava as brigas gritando “Rauf!” (fora, em alemão) de forma colérica e raivosa. Disse meu tio que o Sr. Charles parecia um soldado alemão gritando. Os dois imediatamente cessavam a confusão.
O Sr. Charles não foi um homem muito religioso, e poderia ser visto como um judeu de costumes tradicionalistas. sua judeidade refletia-se na educação passada aos filhos, na participação comunitária, e evidentemente em sua memória. Tinha apreço pela cultura idish, sendo que esse idioma era falado em casa com sua esposa. Os filhos entendem razoavelmente e sabem falar algumas frases, ditos populares e expressões.
Meu pai e meus tios lembram que meu avô sofria de muita insônia, e por vezes, tocava piano de madrugada. Também tocava piano de dia. Gostava de música clássica, e tinha uma coleção de discos de LP. Entendo aqui meu avô rompia o silêncio. Falava pelas teclas, fazia os sons possíveis frente a insônia.
O Sr. Charles tinha alguma afeição pela arte. Há inclusive uma gravação caseira em que minha tia experimenta filmar meu avô tocando piano na sala de casa. Ela parece passear pela sala, dando a impressão de filmá-lo, mas também filmar o ambiente preenchido por um som melancólico e suave. Falando sobre Arte, Charles era um ávido leitor, desde literatura até textos teóricos. Seu consumo de filmes era em grande parte voltado à filmes de guerra. Gostava muito de ver a Alemanha perdendo.
Seu ofício de joalheiro era parte integral de sua personalidade. Comercializava suas joias para conhecidos judeus e não-judeus. Costumeiramente, modelava artefatos judaicos como estrelas de David, Hamsas, o símbolo Chai, entre outros. Um de seus parceiros comerciais chamava-se Romano. Ele tinha seu ateliê no centro da cidade e era assim chamado por conta de sua origem. Entendo que meu avô fazia uma elaboração silenciosa sobre sua vida no seu ofício de joalheiro: Lapidava uma pedra bruta em uma joia. Talvez, estivesse lapidando a si mesmo. Da brutalidade que presenciou, tentava embelezar o mundo.
Minha tia era quem mais tinha proximidade com meu avô, e conta que ele não gostava de ambientes muito cheios ou apertados. Em apresentações escolares de fim de ano ou de alguma comemoração, meu avô sempre ficava perto da porta de saída, mesmo com minha tia insistindo para ele se aproximar do palco. Minha tia conta que costumava dançar com ele na sala de casa, e inclusive esse era um momento que meu avô aceitava conversar mais.
Não é consenso entre os filhos se meu avô esqueceu a língua polonesa ou se nunca aprendeu muito mais que algumas palavras, já que no Shtetl a língua oficial era o Idish. Mas é notório que meu avô renunciou a identidade polonesa. Não aceitou a indenização que a Alemanha ofereceu aos sobreviventes, nem nunca permitiu aos seus filhos obterem passaporte e cidadania europeia. De fato, uma vez que meu pai visitou a Polônia em um congresso sobre educação em homenagem a Janusz Korczak, o Sr. Charles ficou verdadeiramente contrariado e ofendido. Essa briga se estendeu por alguns meses em forma de silêncio.
Meu tio contou que um valor muito importante para meu avô era relacionado ao não-desperdício de comida. Tudo aquilo que fosse colocado no prato deveria ser comido sem nenhuma possibilidade de negociação. Quando uma vez meu tio não quis comer tudo, meu avô o repreendeu rigidamente, e contou sobre a situação de fome que passava nos campos de concentração. Disse que por muito menos comida faria qualquer coisa na época.
Quando perguntado pelos filhos sobre suas histórias durante o Holocausto, meu avô dizia que preferia não lembrar nem falar por não conseguir dormir nas noites seguintes ao relato. Ficava nervoso, e mudava de assunto. Dada a reação, os filhos não insistiam. Não se sabe o quanto minha avó Berta sabia das histórias.
Meu avô teve 18 netos, mas não chegou a conhecer todos em vida. Meu tio Jorge e minha Tzipy tornaram-se mais observantes da ortodoxia judaica na juventude, e tiveram 9 e 7 filhos respectivamente. Meu pai continuou judeu tradicionalista e teve somente dois filhos, mas sempre teve intensa conexão com Israel, mudando-se para lá em 2011. O Sr. Charles faleceu em 1998, devido a complicações de um segundo derrame.
Legado
O legado de Charles Kramer não está apenas nos gestos visíveis de um sobrevivente — o ofício de joalheiro, o apreço pela arte, a pontualidade rigorosa ou o cuidado com os filhos — mas sobretudo em sua maneira singular de dar forma ao indizível. Sua história, marcada pelo trauma e pelo silêncio, transformou-se em memória viva ao atravessar as gerações não como relato direto, mas como presença simbólica, como afeto condensado e repetido em traços, sintomas e escolhas. Ao tocar piano, ao lapidar suas joias, ao reinventar-se com um novo nome e uma nova língua, Charles construiu com o silêncio uma linguagem própria, feita de contenção e sublimação. Seu silêncio foi gesto de sobrevivência, mas também de transmissão: uma herança invisível que cabe às gerações seguintes escutar, elaborar e, quem sabe, transformar em palavra, em testemunho e, como neste texto, em ato de amor.
Recolher