Sou candango. Nasci em Brasília ainda em construção, mesmo após dois meses de sua inauguração. Foi num canteiro de obras. Meus pais foram para lá ajudar na construção da capital federal, se conheceram, casaram-se e eu fui o segundo filho. Minha irmã, Fátima, nasceu dois anos antes, em 58. Meus pais se conheceram um ano antes, logo que lá chegaram.
Minha mãe veio da Bahia junto com meu avô e meus tios. Vovô era sapateiro. Fazia sapatos, botinas e "precatas" para a peãozada. Minha mãe tinha 18 anos naquela época e foi trabalhar de cozinheira no acampamento da Coenge, uma das empreiteiras que construíram Brasília. Meu pai era funcionário da Coenge, responsável pelo "melosa", o caminhão que abastecia e lubrificava as máquinas e equipamentos de terraplanagem.
Muito bonita, minha mãe foi disputada pelos operários, mas meu pai era muito galante e conquistou o coração da baiana. Fiquei em Brasília até os dois anos de idade. Meu pai foi transferido para Minas Gerais. Passamos por Teófi lo Otoni, Governador Valadares, Araxá, Betim, Araxá de novo, Contagem, Belo Horizonte e Juiz de Fora.
Depois meu pai foi transferido para Goiás. Nos estabelecemos em Pontalina, cidade no sul do Estado. Lá a Coenge construiu a rodovia que liga a cidade à BR-153. Vivemos em Pontalina até quando eu tinha quase dez anos. Isso foi início de 1970. Naquele ano meu pai e mais todos os colegas daquele "trecho" entraram no "facão", quer dizer, foram demitidos. Com o dinheiro da indenização meu pai comprou uma casa em Goiânia e uma Kombi. Começou a trabalhar de freteiro e feirante. Ele comprava frutas e aves na zona rural e vendíamos nas feiras livres de Goiânia. Ainda neste ano meu pai capotou a Kombi, perdeu tudo e ficou doente. Conseguiu se aposentar e minha mãe foi trabalhar de porteira e servente na Escola Estadual Bárbara Souza de Moares, no bairro Jardim Novo Mundo, onde morávamos. Nessa escola eu conclui o primeiro grau e tive minha...
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Sou candango. Nasci em Brasília ainda em construção, mesmo após dois meses de sua inauguração. Foi num canteiro de obras. Meus pais foram para lá ajudar na construção da capital federal, se conheceram, casaram-se e eu fui o segundo filho. Minha irmã, Fátima, nasceu dois anos antes, em 58. Meus pais se conheceram um ano antes, logo que lá chegaram.
Minha mãe veio da Bahia junto com meu avô e meus tios. Vovô era sapateiro. Fazia sapatos, botinas e "precatas" para a peãozada. Minha mãe tinha 18 anos naquela época e foi trabalhar de cozinheira no acampamento da Coenge, uma das empreiteiras que construíram Brasília. Meu pai era funcionário da Coenge, responsável pelo "melosa", o caminhão que abastecia e lubrificava as máquinas e equipamentos de terraplanagem.
Muito bonita, minha mãe foi disputada pelos operários, mas meu pai era muito galante e conquistou o coração da baiana. Fiquei em Brasília até os dois anos de idade. Meu pai foi transferido para Minas Gerais. Passamos por Teófi lo Otoni, Governador Valadares, Araxá, Betim, Araxá de novo, Contagem, Belo Horizonte e Juiz de Fora.
Depois meu pai foi transferido para Goiás. Nos estabelecemos em Pontalina, cidade no sul do Estado. Lá a Coenge construiu a rodovia que liga a cidade à BR-153. Vivemos em Pontalina até quando eu tinha quase dez anos. Isso foi início de 1970. Naquele ano meu pai e mais todos os colegas daquele "trecho" entraram no "facão", quer dizer, foram demitidos. Com o dinheiro da indenização meu pai comprou uma casa em Goiânia e uma Kombi. Começou a trabalhar de freteiro e feirante. Ele comprava frutas e aves na zona rural e vendíamos nas feiras livres de Goiânia. Ainda neste ano meu pai capotou a Kombi, perdeu tudo e ficou doente. Conseguiu se aposentar e minha mãe foi trabalhar de porteira e servente na Escola Estadual Bárbara Souza de Moares, no bairro Jardim Novo Mundo, onde morávamos. Nessa escola eu conclui o primeiro grau e tive minha primeira namorada, a Raquel. Tínhamos 12 anos. Logo minha mãe também adoeceu e teve que se aposentar.
Os anos de 73 e 74 foram os mais amargos de nossas vidas. Meu pai e minha mãe doentes e logo meu avô, pai de minha mãe, morreu. Seis meses depois morre a minha irmã Angélica e quatro meses após, perdemos meu irmão, Carlos, ambos vítimas da meningite. Dois anos depois foi a minha vez de pegar meningite e quase morrer. Eu tinha 16 anos e passei 23 dias, inclusive meu aniversário, na ala de isolamento do Hospital Osvaldo Cruz, em Goiânia.
Lá assisti a morte de três pessoas internadas na mesma enfermaria que eu estava. Já havia assistido a agonia de meus irmãos, mas a morte é sempre uma coisa horrível. Antes disso, em 1975, meus pais resolvem tutelar sete primos nossos cujos pais morreram e eles não tinha outros parentes. Zé Antonio, de 14 anos, Maria Geralda, de 11, Iraci, de dez, Joelice, de oito, Selma, de cinco anos, Gilmar, de três, e Gilberto, de um ano e meio. Foram todos morar em nossa casa, de apenas dois quartos. Depois meu pai construiu um barracão ao lado, onde eles ficaram até se casarem, alguns, ou irem morar sozinhos, outros. Éramos 11 crianças e adolescentes todos sob o mesmo teto. Brigávamos muito, mas nos gostávamos. É lógico que meus pais tratavam-nos, os filhos legítimos, de forma mais carinhosa. Os meus irmãos adotivos sentiam isso, mas sem revolta.
Comecei a trabalhar bem cedo. Tinha 12 anos e já entregava marmitas nas construções em Goiânia. Com 14 anos entrei para um tal de Círculo dos Amigos do Menor Patrolheiro de Goiânia, uma entidade que treinava meninos para atividades de oficce boy, mas era meio "militarizada". Lá tínhamos até ordem unida. Concluído o curso do Senac pelo Círculo, consegui meu primeiro emprego com expediente e tudo mais no Banco Itaú. Fiquei lá um ano, que era o período do contrato entre o banco e o Círculo.
Depois fui trabalhar numa empresa de planejamento, a Método, do Rio de Janeiro, contrata para fazer o cadastramento técnico de Goiânia. Lá cumpri o contrato com o Círculo e depois fui contratado pela própria empresa. Fiquei como oficce boy até os 17 anos.
Depois fui promovido para auxiliar de cadastradores e, em seguida, passei a ser cadastrador e desenhista técnico. A esta altura, influenciado pelo ambiente de trabalho decide que seria engenheiro agrimensor. Entrei para o curso de agrimensura (nível médio) da Escola Técnica Federal de Goiás. A aprovação no exame de seleção coincidiu com o alistamento no Exército. Fui convocado e comecei a servir. Ao mesmo tempo tentei estudar.
Naquela época, 1979, o meio estudantil começava a viver uma efervescência política muito grande. Estávamos no auge da campanha pela anistia, que acabou acontecendo com o presidente Figueiredo. Participei da campanha pela anistia em 78 de forma meio desorganizada. Era convidado para as reuniões e pichações e ia. Não pertencia a nenhum partido de esquerda até então. A Escola Técnica Federal de Goiás era a única secundarista na época que possui grêmio estudantil. As outras só tinham centros cívicos, criados pela MEC da ditadura. Na ETFGo comecei os contatos com os partidos de esquerda militando na Fremes (Frente de Reorganização do Movimento Estudantil Secundaria) de Goiás.
Primeiro conheci o PCB, depois os trotkistas da Libelu (Liberdade e Luta), mas me engajei mesmo foi no PC do B. Isso no final de 79 e eu ainda servindo no 42º Batalhão de Infantaria Motorizada, em Goiânia. No quartel o PC do B, que organizou a guerrilha do Araguaia, era o maior inimigo. Foi quando percebi o perigo que corria e resolvi me afastar das agitações dentro da Escola Técnica. Fiquei só no núcleo, dominado pelos pecebistas, que fazia o jornal "O Buzinador", órgão oficial do grêmio estudantil. Dando baixa do Exército voltei mais ativamente à militância estudantil.
Como era morador de um bairro periférico e o partido orientava para uma atuação mais "entre as massas", fui deslocado para uma célula que atuava nos bairros da região leste de Goiânia. Atuava no meu bairro, o Novo Mundo, na Vila Pedroso, Palmito e outros. Depois fui deslocado para atuar na célula que cuidava do jornal Tribuna da Luta Operária.
Juntando a experiência com o "Buzinador" e na TLO passei a gostar do jornalismo. Decidi que não seria mais engenheiro agrimensor e sim jornalista. Até que, obrigado pela necessidade de manter a sobrevivência, aceitei um emprego em Rondonópolis, para implantar o cadastro técnico da cidade. Lá havia uma grande efervescência política, já que o prefeito eleito, isso em 83, era Carlos Bezerra, do PMDB, então um político bastante comprometido com as causas populares.
Ele tinha um programa de organização comunitária e sindical. Participei dessa equipe e criei um jornal, "Mutirão", e fui trabalhar num jornal da cidade, o "Novo Tempo". Em Rondonópolis me casei com a Flor e tivemos a nossa primeira filha, Joana. A Nara nasceu em Goiânia, na casa de meus pais. No início de 91 mudamos para Cuiabá. Vim trabalhar no jornal "A Gazeta", criado seis meses antes. Em Rondonópolis organizei e chefiei a sua sucursal. Em 92 comecei o curso de jornalismo na UFMT (ainda não concluído). Atualmente continuo trabalhando no jornal A Gazeta e na GMA Propaganda.
Aliás, a publicidade está sendo a minha atual paixão. Em 93 perdi o meu pai. Em 94 ganhamos o Samuel, um cuiabaninho que veio alegrar em muito as nossas vidas. Hoje, com quatro anos, José Samuel da Silva Negrão é a alegria da escola Xarayés, do Jardim Imperial e de todos os lugares por onde ele passa. Sou editor-assistente do jornal "A Gazeta", responsável pelas edições das segundas-feiras. Na GMA cuido dos house organs do Supermercado Modelo e da Univag, além de produzir release para outros clientes da agência.
Continuo a militância no PC do B, mas não com o mesmo fervor de antes. Acho que estou em outro estágio, mas não fujo das tarefas que me são possíveis realizar. Continuo mantendo a utopia de uma nova sociedade.
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