BARALHO — O GRITO
Disseram-me, certa vez, em meio ao ruído de um estádio:
— Quem é, hoje, o maior jogador brasileiro?
A pergunta atravessou o ar como uma flecha simples, mas carregada de expectativas. Pensei no passado, como todos pensam, e o nome de Pelé surgiu naturalmente, como um eco da eternidade. Mas o tempo não aceita respostas antigas para perguntas presentes.
Era preciso olhar o agora.
E foi no agora que ouvi, pela primeira vez, o nome que não se via.
- Baralho.
Não o encontrei nos uniformes. Não o vi nos telões. Nenhum número o representava. Nenhuma câmera o capturava.
Mas ele estava em toda parte.
Era chamado na urgência do ataque e na aflição da defesa. Era invocado no erro e celebrado no acerto. Não havia momento em que não fosse necessário.
— Vai, baralho!
— Volta, baralho !
— Assim não, baralho !
— Boa, baralho !
E eu me perguntava: quem é este que todos chamam, mas ninguém aponta?
Em um lance da partida que culminou com gol feito pelo este jogador incansável, a arquibancada gritava seu nome e os companheiros o abraçavam felizes. Naquele mesmo momento os adversários falavam seu nome de uma forma contrariada culpando-se pelo desfecho da jogada.
A frase na saída do estádio explicava a atuação do famoso futebolista:
- Esse jogo foi do baralho!
Com o tempo, compreendi que sua força não estava no corpo, mas na presença.
Baralho não corre — ele impulsiona.
Não joga — ele atravessa o jogo.
Não pertence — ele acontece.
Ele é o grito que nasce antes do pensamento.
É a palavra que escapa quando o controle falha.
É o instante em que o humano se revela sem máscaras.
No campo, ele é, Todos.
E, por isso mesmo, não é ninguém.
Dias depois, longe do estádio, parei diante de um sinal vermelho. O mundo, ali, era outro — ou talvez fosse o mesmo, apenas disfarçado.
Quando a luz mudou, hesitei.
Foi então que ouvi, atrás de mim, a ordem crua, sem cerimônia:
—...
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BARALHO — O GRITO
Disseram-me, certa vez, em meio ao ruído de um estádio:
— Quem é, hoje, o maior jogador brasileiro?
A pergunta atravessou o ar como uma flecha simples, mas carregada de expectativas. Pensei no passado, como todos pensam, e o nome de Pelé surgiu naturalmente, como um eco da eternidade. Mas o tempo não aceita respostas antigas para perguntas presentes.
Era preciso olhar o agora.
E foi no agora que ouvi, pela primeira vez, o nome que não se via.
- Baralho.
Não o encontrei nos uniformes. Não o vi nos telões. Nenhum número o representava. Nenhuma câmera o capturava.
Mas ele estava em toda parte.
Era chamado na urgência do ataque e na aflição da defesa. Era invocado no erro e celebrado no acerto. Não havia momento em que não fosse necessário.
— Vai, baralho!
— Volta, baralho !
— Assim não, baralho !
— Boa, baralho !
E eu me perguntava: quem é este que todos chamam, mas ninguém aponta?
Em um lance da partida que culminou com gol feito pelo este jogador incansável, a arquibancada gritava seu nome e os companheiros o abraçavam felizes. Naquele mesmo momento os adversários falavam seu nome de uma forma contrariada culpando-se pelo desfecho da jogada.
A frase na saída do estádio explicava a atuação do famoso futebolista:
- Esse jogo foi do baralho!
Com o tempo, compreendi que sua força não estava no corpo, mas na presença.
Baralho não corre — ele impulsiona.
Não joga — ele atravessa o jogo.
Não pertence — ele acontece.
Ele é o grito que nasce antes do pensamento.
É a palavra que escapa quando o controle falha.
É o instante em que o humano se revela sem máscaras.
No campo, ele é, Todos.
E, por isso mesmo, não é ninguém.
Dias depois, longe do estádio, parei diante de um sinal vermelho. O mundo, ali, era outro — ou talvez fosse o mesmo, apenas disfarçado.
Quando a luz mudou, hesitei.
Foi então que ouvi, atrás de mim, a ordem crua, sem cerimônia:
— Anda, Baralho!
Não havia arquibancada.
Não havia jogo.
Não havia multidão.
Havia apenas eu.
E, ainda assim, o chamado era o mesmo, havendo apenas um agente de transito olhando para mim de cara feia. Por um momento fiquei orgulhoso de ser confundido com o craque, mas imediatamente entendi...
Segui em frente, não por obediência, mas por compreensão.
Naquele instante, percebi o que antes me escapava:
Baralho não é um nome. É um estado.
É quando a vida nos empurra. Quando o mundo nos exige resposta. Quando já não há tempo para pensar — apenas para ser.
Ele não habita os estádios. Habita o homem.
E surge sempre que somos arrancados da inércia e lançados ao movimento inevitável da existência.
Por isso, talvez, seja o maior de todos.
Não porque vença jogos… Mas porque nos joga dentro deles.
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