De repente, o Alzheimer
Não sei dizer exatamente quando começou.
O Alzheimer não chega com aviso. Ele atropela o tempo, passa como um rolo compressor sobre a vida e, cruelmente, leva até a lembrança do instante em que tudo começou.
Meu nome é Geni Guedes, e esta é a minha história.
Nasci em uma família de cinco irmãos. Sou a caçula e a única mulher. Não fui mimada, mas fui cuidada — e isso é muito mais valioso. Vivi uma infância simples: quase nada no bolso, mas abundância no afeto. Era um tempo em que se aprendia cedo a diferença entre preço e valor. Éramos pobres de coisas, ricos de sentido. Éramos felizes.
Minha mãe foi a terceira esposa do meu pai, viúvo duas vezes. Ainda assim, ele conseguiu algo raro: manter unidos todos os filhos dos três casamentos. Minha mãe, generosa como sempre, ainda cuidou de alguns enteados por um tempo. Essa união durou enquanto ele viveu.
Perdi meu pai aos 19 anos.
E com ele, perdi também o eixo que mantinha todos juntos.
Mesmo assim, minha mãe resistiu. Tentou manter os filhos dela e alguns dos filhos dele unidos, até onde foi possível. O tempo, no entanto, foi levando irmãos, histórias, pedaços da nossa estrutura.
Minha mãe — analfabeta, mas sábia — trabalhou por muitos anos como doméstica. Não sabia ler letras, mas lia pessoas. Não escrevia palavras, mas escrevia destinos. Trabalhou até se aposentar, ajudando meu pai a sustentar a casa e, sem saber, nos ensinando sobre dignidade.
Comecei a trabalhar aos 15 anos, em uma fábrica de bolsas. Permaneci nessa área por muito tempo. Sempre gostei da independência financeira. Gostava de sair, de me divertir, de paquerar, de comprar roupas. Trabalhando, eu pagava meus próprios desejos — e isso me fazia sentir livre.
Após a morte do meu pai, um dos meus irmãos se aproximou mais de mim. Assumiu, silenciosamente, o papel de protetor da irmã mais nova. Foi presença, foi apoio, foi cuidado.
Aproveitei a vida. Passeios, festas,...
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De repente, o Alzheimer
Não sei dizer exatamente quando começou.
O Alzheimer não chega com aviso. Ele atropela o tempo, passa como um rolo compressor sobre a vida e, cruelmente, leva até a lembrança do instante em que tudo começou.
Meu nome é Geni Guedes, e esta é a minha história.
Nasci em uma família de cinco irmãos. Sou a caçula e a única mulher. Não fui mimada, mas fui cuidada — e isso é muito mais valioso. Vivi uma infância simples: quase nada no bolso, mas abundância no afeto. Era um tempo em que se aprendia cedo a diferença entre preço e valor. Éramos pobres de coisas, ricos de sentido. Éramos felizes.
Minha mãe foi a terceira esposa do meu pai, viúvo duas vezes. Ainda assim, ele conseguiu algo raro: manter unidos todos os filhos dos três casamentos. Minha mãe, generosa como sempre, ainda cuidou de alguns enteados por um tempo. Essa união durou enquanto ele viveu.
Perdi meu pai aos 19 anos.
E com ele, perdi também o eixo que mantinha todos juntos.
Mesmo assim, minha mãe resistiu. Tentou manter os filhos dela e alguns dos filhos dele unidos, até onde foi possível. O tempo, no entanto, foi levando irmãos, histórias, pedaços da nossa estrutura.
Minha mãe — analfabeta, mas sábia — trabalhou por muitos anos como doméstica. Não sabia ler letras, mas lia pessoas. Não escrevia palavras, mas escrevia destinos. Trabalhou até se aposentar, ajudando meu pai a sustentar a casa e, sem saber, nos ensinando sobre dignidade.
Comecei a trabalhar aos 15 anos, em uma fábrica de bolsas. Permaneci nessa área por muito tempo. Sempre gostei da independência financeira. Gostava de sair, de me divertir, de paquerar, de comprar roupas. Trabalhando, eu pagava meus próprios desejos — e isso me fazia sentir livre.
Após a morte do meu pai, um dos meus irmãos se aproximou mais de mim. Assumiu, silenciosamente, o papel de protetor da irmã mais nova. Foi presença, foi apoio, foi cuidado.
Aproveitei a vida. Passeios, festas, encontros. Vivi. Mas hoje reconheço: poderia ter feito mais por mim. Quando comecei a trabalhar, abandonei os estudos. Se tivesse insistido, se tivesse acreditado mais em mim, talvez alguns caminhos fossem outros.
Aos 26 anos, me casei. Levei comigo uma condição: não queria filhos. Ele aceitou.
Construímos juntos uma casa — e muito mais do que paredes. Fomos engenheiros sem diploma, pedreiros improvisados, decoradores de sonhos. Sonhadores. E aprendi ali que sonho sonhado a dois tem chance real de virar chão firme.
Vieram dificuldades financeiras. Foi então que encontrei o salão de beleza — um lugar onde minhas mãos criavam, cuidavam, transformavam. Me especializei, cresci, conquistei estabilidade.
Aos 30 anos, mudei de ideia.
Quis um filho.
Ainda bem que a vida permite mudanças. Ainda bem que não somos obrigados a sustentar para sempre as mesmas certezas. A vida muda — e mudar com ela é sinal de maturidade.
Engravidei.
Carregar um ser dentro de si é uma experiência que não cabe em palavras. Fiquei enorme, cansada, mas feliz. Trabalhei até o nono mês, com passos lentos e coração cheio.
Então ele nasceu.
Meu “tudo”.
Veio de uma gestação tranquila, de um parto tranquilo, e me apresentou uma felicidade que eu não conhecia. Um amor que reorganiza tudo.
Nada, porém, é completamente simples. Vieram problemas de saúde. Depois de sofrimento e investigação, descobri a intolerância à lactose. Tirei o leite da alimentação, segui firme na amamentação, e vencemos mais essa etapa.
Dezessete anos de casamento se passaram.
Houve conquistas, alegrias, dificuldades. Houve a alegria do meu filho — e a insegurança crescente do pai dele. Houve ciúme, controle, sufocamento. E decidi não me diminuir para caber em um lugar que não me fazia feliz!
Eu precisava respirar.
E aquilo não era viver.
Quando decidi me separar, meus irmãos acharam o fim do mundo. Mas a vida era minha. Nunca vivi pela opinião dos outros — e não começaria ali.
Saí de casa apenas com minhas roupas e meu filho. Nunca fui apegada a coisas. O que importa, eu carregava nos braços.
Minha mãe me acolheu.
Como só uma mãe sabe fazer.
Vieram julgamentos. Vieram críticas. Vieram silêncios dolorosos de quem eu esperava apoio. Meu filho, ainda menino, foi alvo de previsões cruéis: “filho sem pai não dá certo”.
Mas Deus esteve conosco.
E meu filho sempre foi mais orgulho do que preocupação.
Hoje aos 24 anos ,quase formado em Educação Física,e trabalhando no que escolheu! E teve que buscar tudo sozinho! Eu quase sempre estava ocupada com o alzheimer!
Hoje o pai é muito presente pra ele e o ajuda muito!
Algum tempo depois, o irmão que morava com minha mãe se casou. Ficamos apenas nós três. Para alguns, éramos peso.
Separada, voltei a respirar. Foi como emergir depois de quase me afogar. Quis viver com fome, com sede, com pressa. Talvez demais. Talvez, em alguns momentos, eu tenha falhado com meu filho. Vivi intensamente — e fui julgada por isso.
Mas nunca vi alegria nos olhos de quem me julgava.
Mais tarde, conheci alguém pela internet. Um amor improvável, desacreditado. Um ano depois, descobrimos que éramos primos de segundo grau. Hoje, são dez anos de uma união feita de amor, parceria e verdade. Não só rosas — mas espinhos que fortalecem. Muito grata por ele(Irineu) na minha vida!
Então veio ela.
A doença.
Minha mãe — mulher forte, organizada, cuidadora, presente — começou a se perder em pequenos silêncios. No início, quase imperceptíveis. Depois, inegáveis.
Alzheimer.
A doença que a gente acha que só acontece na casa dos outros. Até acontecer na nossa.
Fechei meu salão. Abandonei minha profissão. Me tornei cuidadora. E, pouco a pouco, mãe da minha própria mãe.
O Alzheimer não estaciona. Ele avança. Exige mais, rouba mais, esgota mais. Como em tantas histórias, afastou irmãos, silenciou amigos, sobrecarregou poucos.
Durante oito anos, cuidei quase sozinha. Vieram conflitos familiares, dificuldades financeiras, ausência de tempo para meu filho, para meu companheiro, para mim.
O cuidador aprende na dor. Sem manual. Sem preparo. Aprende errando, caindo, levantando — porque não há alternativa.
Hoje, meus irmãos dividem os fins de semana, e um deles ajuda com os medicamentos. Hoje entendo: não preciso carregar tudo sozinha. Não sou obrigada a dar conta de tudo. Posso pedir ajuda. E não posso falar em ajuda sem citar minha cunhada Cecília,que sempre foi muito presente,e empática! Mais que cunhada,uma grande amiga!
Antes do Alzheimer, eu tinha planos.
Depois do Alzheimer, precisei abrir mão de muitos deles.
Mas somando o antes e o depois, algo permaneceu intacto:
a minha alegria de viver.
Nada me arrancou o sorriso.
Porque eu não sorrio como quem sempre vence,
mas como quem nunca desiste de ser feliz!
Deus esteve, está,e sempre estará cuidando de tudo!
Geni Guedes
54 anos
Matozinhos – MG
Sete Lagoas – MG
Signo peixes
Minha mãe
Candida Guedes
92 anos
#cuidademim
Alguém que eu Amo tem Alzheimer
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