CAPÍTULO 1 — O ALTO
A casa ficava no ponto mais alto do morro, como se tivesse sido empurrada para lá pelo tempo. Não era grande, mas tinha um peso que não vinha do concreto. Vinha das mãos que a levantaram, tijolo por tijolo, em anos diferentes, sempre com a mesma intenção: ficar.
Morávamos em um ponto muito bom, podíamos apreciar a vista da cidade, do alto apreciamos as pessoas subindo e descendo o morro, as crianças alegres e felizes. Os fortes e saudáveis em passos ligeiros e firmes, as grávidas cautelosas, os velhos arqueados pelo tempo.
Este ponto privilegiado havia sido escolhido pelo avô que fora um dos primeiros a chegar no local e tivera a visão de escolher muito bem aquele local. Morara ali por muitos anos, casou-se e constituiu a família e gerou muitos filhos.
A casa construída ao longo de anos foi aumentada em várias direções inclusive para um segundo piso nas mãos fortes e calejadas do patriarca da família, no princípio ajudado pela minha vó, depois pelos filhos e netos. Ali estava reunido todo o esforço de gerações com muitos natais, festas e aniversários, muito trabalho e sonhos.
No coração vibrante e cheio de vida de uma favela, ainda com poucas casas, mas com muita fé e colaboração Seu Afonso e Dona Lourdes decidiram construir um lar. Não seria somente uma casa, mas um ninho onde pudessem acolher a família que estavam construindo.
Erguido com suor, esperança e visão para um futuro melhor. Eles procuraram o lugar mais alto, de onde se podia ver o Sol nascer pintando o céu de cores vibrantes e, à noite, as luzes da cidade cintilando como estrelas caídas.
Daquele ponto poderiam ver todos que entram e saem da comunidade, os telhados das casas lá embaixo em cores vermelhas emolduravam e limitavam a passagem.
Seu Afonso era mestre em transformar sonho de concreto em realidade, experiente ergueu paredes, assentou tijolos para construir aquilo que seria o lar da filha que D. Lourdes já esperava em seu...
Continuar leituraCAPÍTULO 1 — O ALTO
A casa ficava no ponto mais alto do morro, como se tivesse sido empurrada para lá pelo tempo. Não era grande, mas tinha um peso que não vinha do concreto. Vinha das mãos que a levantaram, tijolo por tijolo, em anos diferentes, sempre com a mesma intenção: ficar.
Morávamos em um ponto muito bom, podíamos apreciar a vista da cidade, do alto apreciamos as pessoas subindo e descendo o morro, as crianças alegres e felizes. Os fortes e saudáveis em passos ligeiros e firmes, as grávidas cautelosas, os velhos arqueados pelo tempo.
Este ponto privilegiado havia sido escolhido pelo avô que fora um dos primeiros a chegar no local e tivera a visão de escolher muito bem aquele local. Morara ali por muitos anos, casou-se e constituiu a família e gerou muitos filhos.
A casa construída ao longo de anos foi aumentada em várias direções inclusive para um segundo piso nas mãos fortes e calejadas do patriarca da família, no princípio ajudado pela minha vó, depois pelos filhos e netos. Ali estava reunido todo o esforço de gerações com muitos natais, festas e aniversários, muito trabalho e sonhos.
No coração vibrante e cheio de vida de uma favela, ainda com poucas casas, mas com muita fé e colaboração Seu Afonso e Dona Lourdes decidiram construir um lar. Não seria somente uma casa, mas um ninho onde pudessem acolher a família que estavam construindo.
Erguido com suor, esperança e visão para um futuro melhor. Eles procuraram o lugar mais alto, de onde se podia ver o Sol nascer pintando o céu de cores vibrantes e, à noite, as luzes da cidade cintilando como estrelas caídas.
Daquele ponto poderiam ver todos que entram e saem da comunidade, os telhados das casas lá embaixo em cores vermelhas emolduravam e limitavam a passagem.
Seu Afonso era mestre em transformar sonho de concreto em realidade, experiente ergueu paredes, assentou tijolos para construir aquilo que seria o lar da filha que D. Lourdes já esperava em seu ventre.
Eles tinham uma grande fé que seria uma menina, fruto do amor e das esperanças de dias melhores da família e da comunidade. Ela já tinha um nome escolhido, Elza, o nome escolhido para a menina poderia ao amanhecer, nas primeiras horas do dia ver o despontar das luzes do Sol tingindo de alaranjado, rosados e dourados toda a cidade. A neblina matinal, que no verão era constante se dissipavam lentamente revelando aquele mar de telhados e lajes que se estendiam até onde a vista podia alcançar.
A favela vista de cima, ganhava uma perspectiva diferente, as casas, que no nível da rua pareciam um emaranhado confuso. De longe se organizavam em padrão único, um testemunho da resiliência de seus moradores e da família em evolução.
Era possível distinguir os caminhos, as vielas e principalmente a escadaria que serpenteava a encosta. Pessoas que saiam para trabalhar, escolares e um cheiro de café fresco pairava no ar.
O avô dizia que aquela casa não caía. Podia rachar, podia queimar, mas cair, não. Angélica acreditava.
Nós gostávamos de sentar no degrau da porta e observar o morro. Dali, tudo parecia menor. As brigas, os gritos, os estampidos que às vezes cortavam o ar. O alto dava uma falsa sensação de domínio, como se enxergar mais longe fosse o mesmo que estar protegida.
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CAPÍTULO 2 — A ROTINA
Minha mãe acordava antes do sol. O barulho do fogão vinha junto com o cheiro de café ralo e pão amanhecido. Meu pai saía cedo, voltava cansado e falava pouco. Não era silêncio de raiva, era silêncio de quem aprende a engolir.
Ela preparava um café simples, porém forte e nutritivo para que todos pudessem aguentar o dia, preparava a criançada para a escola e depois ia para a janela assistir a descida dos filhos pela escadaria até o asfalto.
Quando não estávamos estudando ou fazendo as tarefas diárias, nossa maior diversão era observar as pessoas que iam e vinham entrando e saindo da favela, agora segundo falava meu pai comunidade. Era engraçado e ao mesmo tempo bonito dizer essa palavra nova cujo significado não entendia direito mais que dava um certo élan ao ser pronunciada.
Depois descobri que comunidade era uma palavra criada pelos abastados para introduzir o favelado no meio produtivo e nos serviços prestados. Ali compartilhava-se de tudo, desde a geografia do lugar, espaço ocupado como também valores, crenças, estórias e até etnias. Teoricamente ela se forma pela necessidade de apoio e solidariedade. Forma o senso de pertencimento. Todos se sentem parcela de algo maior.
A televisão tinha sua importância para divertir as crianças e informar os adultos, porém tinha a sua hora, sempre após o lanche das quatros da tarde.
Pela manhã estudar e depois até o Sol esconder-se trás de nossa casa, ficávamos na janela da sala apreciando o vaivém. Aquilo era, para nós, a maior diversão.
CAPÍTULO 3 - A FAMÍLIA
Todos ajudavam no que podiam. A casa funcionava como um corpo só — ninguém mandava, todo mundo sabia o que fazer.
O morro acordava junto. Vendedores, crianças, rádios ligados alto demais. O cotidiano não tinha nada de extraordinário, e isso era bom. Normalidade era luxo.
Nossa família era minha mãe, uma negra forte de corpo e temperamento, meu pai, um homem preocupado com as coisas da comunidade e com seu trabalho que lhe tomava todos os dias de sol. Ele costumava sair de casa assim que o sol nascia, bem cedinho e voltava sempre que o sol se escondia.
Acho até hoje que eles não tinham muitas afinidades. Aos finais de semana quando ele poderia curtir melhor a família, quase sempre chovia ou nublava, o que impossibilitava a dupla, sol e meu pai desta convivência.
Naqueles fins de semana que juntava sol e tempo bom, ele, meu pai sempre tinha algo para fazer que de tão importante jamais podia ser adiado.
Meu pai era um negro alto e forte parecia ser aqueles frequentadores de academia acostumados a puxar ferro. Mas, pelo menos dentro de casa era um cara doce e carinhoso. Fazia todas as nossas vontades e, sempre alegre, costumava fazer minha mãe sorrir.
Ele trabalhava, ao que eu entendia com segurança de lojas em shoppings. Estava sempre de terno escuro e minha mãe esmerava-se em manter limpo e bem cuidado aquilo que parecia ser o uniforme de trabalho.
Ele garantia a tranquilidade daqueles que frequentavam o local, observava atitudes suspeitas, fazia a segurança e criava um sentido próprio aos clientes. Isso moldava as atitudes e o caráter de meu pai.
Eu tinha dois irmãos mais velhos, o Lucas de seis anos, era muito chorão, não podia ser contrariado que abria o berreiro e apelava pela atenção de minha mãe chamando-a insistentemente de modo engraçado:
- Mãe Elza! Como se houvesse outra.
Meu outro irmão, mais velho, tinha doze anos e era o xodó da nossa família, era sem dúvida o orgulho do nosso paizão conhecido por todos como Senhor Orlando, um nome que a mim sempre pareceu pomposo.
Meu irmão era muito estudioso e sempre estava às voltas com deveres escolares e gostava de jogar futebol no campinho que ficava próximo a nossa casa. Neste local os meninos estavam sempre juntos ao longo do dia e invariavelmente jogando bola, o que a mim parecia ser a única coisa que sabiam fazer.
Neste pequeno campo onde ele ia sempre encontrar os amigos, galera como ele chamava, que os pais haviam nivelado e colocando traves de bambu transformado em um espaço para o jogo símbolo daqueles que se não podem ter brinquedos muito caro, podem com certeza comprar uma bola que ainda que desgastada faz a alegria dos meninos até a idade adulta e ajuda na escolha do time de coração.
Seu nome de batismo eu nunca soube, os amigos o chamavam de Telha acho que era porque o cabelo dele era muito ondulado, que minha mãe tentava alisar com pranchas quentes, como os dela.
E por fim, eu! Pequena criança de quatro anos chamada Angélica, conhecida por Licka, alcunha que carregaria para sempre. Gordinha para minha idade, era bonita e cheirosa e meus pais sempre me carregavam nos braços chamando-me de docinho, eu não sabia exatamente o que isso significava, mas que com certeza era algo muito bom ser, tendo em vista o olhar carinhoso que eles mostravam ao pronunciar isso.
Íamos vivendo cada dia de uma vez, sem muitos sonhos e da forma que Deus permitia. Contratempos sempre existiram, mas nós, os filhos, jamais saberíamos avaliar.
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CAPÍTULO 4 — OS HOMENS
De tempos em tempos surgiam propostas de compra para a casa, porém minha mãe sempre conseguia convencer papai a rejeitá-las. Não era teimosia. Era pertencimento. A vista, a história da família, os laços criados ali pesavam mais que qualquer conforto em outro lugar. Com certeza poderíamos ter ido morar em lugares até mais bonitos, porém havia um desejo sincero de ficar para sempre naquele lugar construído com amor.
A vista espetacular como descrita, tem agora uma aparente nova utilidade. Ser um ponto de vigia e observação para contenção de inimigos e da polícia. A visão panorâmica é crucial para o tráfico, permitindo monitorar a chegada da polícia, a movimentação de rivais, a entrada e saída de drogas.
Oferecem muito dinheiro em troca da casa, valores tentadores, mas de uma natureza assustadora. Um ponto estratégico daquele tamanho reforça o controle territorial
Ali estavam todos os seus amigos, irmãos e parentes. Cada um dono de seu espaço e moradia. Poderia jurar que todos estavam bem segundo o ponto de vista de uma criança bem cuidada como eu. Aquele seria também o meu futuro junto com minha gente.
Nossa casa pelo tamanho e localização se tornara deste o tempo de meus avós um ponto de encontro e de festas. Em dias de Sol, amigos e parentes se cotizavam para trazer muita alegria e o cheiro de churrasco se espalhava no ar sendo nosso quintal o centro de atenção.
Conversadas animadas, risadas e estórias e minha mãe supervisionando tudo e atendendo a todos. Nos aniversários e outras datas especiais a música se espalhava fazendo todo mundo dançar e cantar.
Seu Orlando, sente uma profunda gratidão por aquela união e lembra com carinho de seus sogros que construíram aquele refúgio e fortaleza.
Lembro dos churrascos no quintal, das festas cheias de risos, primos espalhados pela casa, e Dona Elza correndo de um lado para o outro para que tudo desse certo. Quando nos cansávamos das brincadeiras e os adultos já demonstravam pouca paciência, íamos para a janela do quarto dos meus pais observar a vida subindo e descendo as escadarias da comunidade.
Olha lá! “Seu” Agenor, alguém identificara o Senhor que alquebrado pelo tempo e apoiado em sua bengala subia com dificuldade.
Outro apontara: - vejam “Dona” Florinda identificada pela bunda enorme que carregava além das trouxas de roupa que conseguira captar na cidade e trouxera para lavar garantido o sustento de sua família.
Graças a Deus e a meu pai, minha mãe não precisava fazer esse sacrifício que parecia interminável para aquela Senhora.
Aquele feioso que descia de olhar duro, ninguém conhecia, mas nós o apelidamos de “prego” porque ele era alto, magro e tinha um chapéu que parecia uma cabeça boa para dar umas marteladas. Ríamos muito e cada um tentava imitar o jeito das pessoas que estávamos nomeando inocentemente. Não tínhamos noção para entender que observar também pode ser uma forma de vigilância.
Eles começaram a aparecer como quem não quer nada. Primeiro, um cumprimento mais longo. Depois, conversas encostadas no portão. Nunca entravam. Falavam baixo. Sorriam pouco e permaneciam o tempo necessário para deixar algo no ar, como fatos ou atos violentos acontecidos que haviam participado.
Angélica não entendia as palavras, mas sentia o peso. O corpo dela enrijecia quando via aqueles homens. Era um aviso que ninguém havia explicado.
Um certo dia começaram a aparecer em nossa porta alguns homens mal-encarados, que me causavam arrepio de medo, procurando por meu pai e tentando intimidar minha mãe com palavreado grosseiro que nunca havíamos ouvido em nossa casa. Ela os atendia, porém, jamais falava com meu pai sobre aquela conversa a porta da casa.
Ela temia preocupá-lo e achava que poderia contornar a situação. Mais tarde soube que eles queriam comprar a nossa casa e que ofereciam muito mais do que ela valia para conseguir fechar o que chamavam ser um bom negócio.
Vários meses se passaram e o assédio estava sempre aumentando, as vezes de forma limpa e correta, mas, quase sempre de forma intimatória e mal-educada.
A recusa constante começou a levar a ameaças veladas, mas buscar ajuda da polícia pode ser arriscado em uma comunidade abalada pelo tráfico, começa a ceder espaço aos marginais.
As ameaças começam a ficar mais diretas, a tensão aumenta e os fatos começam a preocupar a família.
Teve uma vez que meu pai chegou em casa muito nervoso e preocupado, havia sido cercado por muitos homens na entrada da comunidade e ofendido sem nenhuma razão aparente. Os agressores não tocaram nele, não bateram fisicamente, mas o ofenderam chamando-o de “corno manso”, de “viado” e outros nomes feios que depois eu saberia amargamente o significado.
As agressões não ocorreram porque ele, meu pai, não havia reagido, tal era o número de ofensores que participaram do que mais tarde soubemos ter sido uma emboscada programada para que houvesse uma reação que justificasse os meios de agressões a serem empregadas.
E convenhamos que ninguém em sã consciência queria ser o primeiro a se aproximar daquele homem enorme para dar o primeiro soco arriscando-se a levar a primeira “bordoada”. Tinha que ser muito macho, coisa que ali naquela hora não tinha.
As conversas na porta de nossa casa não surtiam efeitos e eles estavam ficando nervosos e agitados com a recusa de minha mãe em levar adiante o assunto que para eles parecia ser Super urgente resolver.
Naquela noite meus pais tiveram uma conversa muito séria sobre tudo que estava ocorrendo, que as omissões de minha mãe foram questionadas, ela jurou que isso jamais voltaria a ocorrer para evitar esse tipo de surpresa dolorosa que “Seu” Orlando havia passado.
Mas nesta noite também combinaram que houvesse o que houvesse jamais venderiam a casa para estes marginais, que fechariam a questão e notificariam a polícia qualquer nova sugestão de ameaça ou intimidação.
Que pena! Assim resolvendo assinavam suas próprias sentenças de morte, de seus filhos e nossa desgraça.
Depois disso, a casa continuou igual, mas respirava diferente. A mãe rezava mais. O pai quase não falava.
CAPÍTULO 5 — O PRESSENTIMENTO
Os dias seguiram com uma calma estranha. Calma demais. Como se o morro prendesse a respiração.
Uma semana após o fato ocorrido com meu pai começamos a assistir o fechamento da passagem através de um portão de ferro colocado no início da escadaria. Meus pais questionaram os dois moradores que em casas paralelas permitiram tal colocação para a entrada e a saída dos moradores deste lado do morro. Ambos declararam que o portão tinha a intenção de melhorar o acesso selecionando e permitindo apenas que os moradores fizessem uso evitando a entrada de pessoas indesejáveis, que os mecenas desta obra não queriam ter seus nomes divulgados.
O portão de ferro foi finalmente concluído em uma manhã quente. O barulho da solda ecoou pelo morro como se alguém estivesse fechando uma porta maior do que aquela que fora construída.
A partir daí a família começou a observar movimentações cada vez mais próximas e barulhentas em torno da nossa casa. Motos e carros com escapamento aberto passavam de um lado para o outro durante todo o dia e principalmente à noite. As vielas de barro e as ruas de pedra deixavam de ser seguras e pareciam amedrontar as pessoas, principalmente as mais velhas que já falavam com saudade dos tempos em que se podia sentar a porta para um papo de fim de tarde.
Passos parando na rua, vozes que cessavam quando minha mãe passava, olhares rápidos demais para serem curiosos. A casa no alto já não parecia proteção. Parecia vitrine.
Sentíamos que a marginalidade acompanhada pela covardia da vagabundagem começava a tomar conta do lugar.
Mas como o mal começa pela acomodação das pessoas de bem, todos achavam que era uma espécie de modismo dos novos tempos e que em breve as coisas voltariam ao lugar certo. Acomodação disfarçada de esperança, essa era a verdade.
Meu pai começava a achar que estava sendo seguido e quando estava no serviço alguns tipos mal-encarados passavam por ele rindo, debochando ou encarando-o de forma ostensiva, era com certeza uma situação de constrangimento.
Na cabeça de meu pai ficava uma dúvida de qual caminho tomar. Se procurasse o Chefe imediato para falar sobre o que estava ocorrendo duas coisas poderiam ocorrer:
Na primeira hipótese ser aconselhado a procurar a polícia e relatar o que estava ocorrendo, mas sem provas e baseado apenas em seus sentimentos e premonições dificilmente alguma atitude poderia ser tomada.
Na segunda, que o Superior em questão preocupado em afastar qualquer tipo de arruaça nas dependências e envolvimento involuntário do cliente e consequentemente denegrir a imagem da empresa de segurança, tudo por causa de um só funcionário, pudesse demiti-lo ou transferi-lo para outro local muito mais distante de casa do que ele gostaria de trabalhar o que fatalmente o levaria a ficar desempregado.
Resolveu então ignorar os fatos e deixar que os acontecimentos falassem por si só. Apenas ficar atento para que se provocado pudesse reagir dentro dos padrões aceitáveis e tomar as medidas corretas que o caso viesse a requerer.
Mas o corpo já sabia o que a razão evitava admitir: quando o mal se organiza, o silencio deixa ser proteção.
CAPÍTULO 6 — A PROPOSTA
Um certo dia, meu foi procurado por alguém que se dizendo “amigo” e policial civil responsável pela área onde nós morávamos, sem apresentar qualquer identificação, porém, deixando propositalmente a amostra a arma que carregava na cintura, como quem lembra a origem silenciosamente de onde vinha a autoridade. Falou com calma dizendo que estava ali para ajudar.
Começou uma conversa de que o melhor a fazer seria procurar um novo local para nossa família mesmo que fosse dentro da comunidade deixando que a ciência aos interessados fosse feita quando tudo estivesse acertado e aceito entre ele e meu pai, momento em que todos se identificariam.
Meu pai disse que voltaria a conversar com a esposa e que na proxima semana eles voltariam ao assunto desta vez em uma conversa definitiva.
E assim meu pai o fez, conversou mais uma vez com a minha mãe sobre o assunto sair da casa que era o mimo da família e procurar outro ponto dentro da própria comunidade para morar com os filhos.
Todavia, chegaram à conclusão que não haveria local adequado estando toda a favela completamente utilizada em suas infinitas direções. Na necessidade de desocupar o imóvel em que moraram a cresceram, onde criaram seus filhos e amigos a única alternativa seria procurarem dentro do bairro um outro local para viver.
E assim resolvido deixaram passar o tempo para comunicar ao policial que o havia procurado que realmente não tinham interesse em sair daquela casa da qual tanto gostavam e que se acostumaram a viver.
O “amigo” que se chamava Raul, na verdade deixou passar duas semanas inteiras e voltou a procurá-lo de uma forma agora nem tanto amistosa exigindo uma resposta afirmativa de que nossa família deixaria o local brevemente.
Meu pai com certeza considerava um tremendo absurdo ser despejado de sua própria casa para satisfazer desejos obscuros da marginalidade. Os caminhos começavam a tornar sinuosas as intenções daqueles interessados.
Tiveram então uma conversa em que meu pai deixou claro que não queria deixar a casa e o diálogo entre ambos ficou ríspido.
- Bom dia! “Seu” Orlando, como passou a semana? Vamos conversar?
- ‘Dia! Raul. Vamos, mas gostaria de adiantar que pesquisamos dentro da nossa área e não encontramos nenhum lugar que nos agradasse e que tendo em vista a necessidade de manter as crianças no colégio aqui perto não temos nenhum interesse em sair da casa e tão pouco vende-la para quem quer que fosse.
- Orlando, pense bem em sua decisão. As pessoas querem aquele local com muita vontade e não hesitarão em tomar medidas extremas para conseguir os objetivos.
- Sua cabeça, sua sentença, não vamos sair principalmente sob ameaça, temos toda a documentação necessária, é nossa propriedade e vai continuar assim.
- Bom! Você escolheu e terá que arcar com as consequências e eu fiz a minha parte. Tentei avisa-lo, eles estão dispostos a dar uma grande oferta em homenagem ao seu velho pai, fundador da Associação de Moradores.
- Entendo que você deveria demove-los dessa ideia. Essa seria a atuação correta para um homem da lei que se diz meu amigo. Não enxergo a importância de minha casa para eles. Com o dinheiro que estão dispostos a gastar poderiam comprar qualquer casa na nossa comunidade e até reforma-la colocando piscina e outras modernidades. Talvez desistindo da minha casa fossem embora para outra favela nos deixassem em paz.
- Se essa é realmente a sua última palavra, um velho ditado se faz presente “sua alma, sua palma” Sinto apenas que sua família, mulher e filhos poderão sofrer por essa decisão.
Deixara de ser aviso, agora era uma ameaça.
Na cabeça de meus pais o mundo voltava ao normal e não se voltaria a falar no assunto vender a casa. O assunto estava encerrado. Acreditavam que tudo terminaria ali.
Não havia terminado.
CAPÍTULO 7 - O ATAQUE
Mais alguns dias se passaram e o portão finalmente estava no lugar, pronto e funcionando, oferecendo a falsa impressão de segurança dentro do morro.
A bandidagem parecia sob controle. Reinava a obediência cega ao tráfico. Mais uma vez, por omissão ou covardia, os homens de bem falhavam. As vendas, as transações, as chegadas e saídas de mercadorias aconteciam longe de nossas vistas. O que sabíamos vinha em fragmentos: recados de correio de voz, cochichos entre comadres, boatos espalhados pelos frouxos de ocasião.
Naquela noite, depois de um dia sufocante em que a temperatura beirara os quarenta graus, o portão de ferro assumia uma aparência ameaçadora. Grande demais, alto demais, parecia dividir dois mundos: de um lado, o mundo pobre, suas urgências e medos; do outro, o mundo dos que tinham poder, dinheiro e passagem livre.
A iluminação fraca vinha apenas do lado de dentro, da nossa comunidade. Quem observasse de fora sentiria o aviso silencioso: não atravesse. Algo ruim pode acontecer.
Visto de cima, da nossa casa, o asfalto lá fora parecia distante, morto, irreal.
Meus irmãos haviam terminado os deveres da escola. Eu já tinha esgotado meu passatempo preferido: observar o sobe e desce das vielas e da escadaria. Minha mãe ligara a televisão. Esperávamos meu pai chegar para o jantar e para a oração de agradecimento por mais um dia vencido.
Meu pai subiu as escadas como sempre, trazendo uma sacola na mão. Nunca chegava de mãos vazias. Quase sempre vinha com um doce — um sonho da padaria, um agrado simples que nos fazia apostar no que seria daquela vez.
Rezamos. Agradecemos. Renovamos a esperança de dias melhores.
Jantávamos felizes, ouvindo as histórias do dia de meu pai, quando, sem aviso algum, a primeira sacola de líquido incolor atravessou a janela e explodiu no centro da mesa.
Mais tarde eu aprenderia o nome daquilo: coquetel de álcool, um veneno em forma de festa, que transformou nossas vidas em um pesadelo
Não houve tempo para reação. Apenas assistimos, imóveis, como estatuas de pedra, a uma chuva de sacos explodindo pela sala. Em questão de segundos, labaredas ferozes surgiram de todos os lados, consumindo o ar fresco transformando aquele espaço de paz num inferno vivo, onde o calor se tornava insuportável.
As roupas de minha mãe ficaram vermelhas. O sangue fluía como se a própria dor tivesse decidido pintar a pele. Ela gritava sem parar. Meu pai, atingido em cheio, tentou se afastar da mesa, mas caiu, envolto em chamas. Meus irmãos conseguiram se levantar, mas também gritavam, se contorciam como se estivessem nas garras do demônio. Queimavam — como nas descrições aterradoras do inferno pregado pelo padre Nestor quando falava de tormentos e chamas eternas.
Em poucos minutos, a casa inteira ardia, devorando memórias e sonhos.
Garrafas e plásticos incendiários caíam como chuva do céu sobre móveis, mesa, televisão, um dilúvio de destruição. Tudo que era familiar se tornava irreconhecível.
Eu era pequena miúda, perdida em meio ao caos que se instalava. Minha mãe, em desespero, empurrou minha cadeira em um gesto instintivo de proteção. Fui lançada para baixo da mesa, berrando como um animal acuado. Sobre mim caíam restos de comida, garrafas de suco e água.
O fim do mundo anunciado pelo padre Nestor tinha chegado, e a realidade se transformava em pesadelo que ninguém pode em sã consciência imaginar.
De repente, como se uma mão invisível me puxasse, abriu-se à minha frente um corredor sem fogo. Um espaço de esperança! Corri sem saber para onde, tonta e desorientada, sem direção em desespero total. Foi aí que enxerguei o tanque de roupas, cheio de água — o mesmo onde minha mãe tantas vezes me banhara nos dias quentes de verão, um refúgio refrescante agora uma promessa de salvação
Tentei pular para dentro, mas minha altura não permitiu. As bombas de fogo continuavam a explodir ecoando como trovões em um céu de tempestade de fogo. Encolhi-me, buscando abrigo e entrei embaixo do tanque. Minha cabeça bateu em algo plástico, ainda inteiro e frio, a agua me abraçou, um consolo em meio ao horror.
Horas depois, acordei em um hospital público, o cheiro de desinfetante misturando-se com memorias de dor. Para minha surpresa, não tinha queimaduras pelo corpo. Estava completamente molhada, como se tanque de roupas ainda estivesse ao meu redor, protegendo-me das chamas. O sifão plástico do tanque derretera com o calor e grudara em minha cabeça como um capacete improvisado. Uma armadura bizarra que me salvara, aquela água constante me salvara.
Os médicos haviam cortado meu couro cabeludo, deixando uma área circular sem cabelo. Lembrava as imagens de São Francisco de Assis ou do próprio padre Nestor — com a diferença brutal do preto da carne queimada e das veias secas visíveis, um contraste doloroso entre a santidade e a tragédia que se desenrolava em minha mente infantil.
Quando recebi alta hospitalar fui levada para a casa de estranhos. Soube depois que eu estava jurada de morte. Meus tios e tias tinham medo de me acolher. Temiam que o mesmo destino os alcançasse.
Fui esquecida pelos parentes. A família que me recebeu também tinha medo. Faziam questão de deixar claro que ali não havia afeto, apenas tolerância. Ainda assim, eu era grata: um teto, uma tigela de comida, um lugar onde dormir já eram um alento depois do inferno.
Mas aqueles homens — animais travestidos de gente — não tinham mais motivo para se preocupar comigo. Uma criança pequena, amedrontada, sem memória organizada do ocorrido, jamais pediria justiça.
A polícia encerrou rapidamente qualquer investigação. Atribuiu o incêndio a um suposto descuido de meus pais. Disse que o portão fechado fora mera coincidência. Negou a presença de homens armados impedindo o socorro.
Tudo, segundo eles, aconteceu rápido demais.
Rápido demais para a verdade existir.
CAPÍTULO 8 – ANGÉLICA
Angélica havia morrido no incêndio, em seu lugar surgia agora “Licka Careca” uma pequena criança criada por pessoas de parcos recursos e menos ainda de educação moral. Sua lembrança resumia-se em um teto branco e um cheiro forte de remédio e éter.
Angélica não volta do hospital, quem sai dali é um corpo pequeno demais para carregar um passado inteiro.
Vestida de trapos e com aparência de abandonada, alimentava-se de sobras de outros adultos, trabalhava para sobreviver a maus tratos e seus serviços nunca reconhecidos não incluíam tempo para estar com outras crianças. Considerada uma pária dentro do morro, subia e descia milhares de vezes a escadaria.
Ela está em uma casa onde não pertence, trabalha muito, come pouco, dorme mal. Aprende rápido que perguntar custa caro e o silencio vira defesa.
A cabeça agora raspada não foi escolha, foi ruptura. Quando o cabelo cai, o nome cai junto. Ninguém quer saber de onde ela veio. Alguém apenas chama: - Licka Careca.
A sociedade é mesmo que não queira encarregada de desumanizar aqueles que estão em situação vulneráveis, transformando dor em um novo nome que carrega desprezo e abandono.
Licka não tem planos. Tem rotinas de sobrevivência. Subir e descer escadas, carregar peso, receber ordens. Sumir quando mandam e aparecer quando chamam. O corpo cresce antes da alma.
O crime ronda todo o tempo, observa como fez antes com sua família, não chama, a diferença é que agora ela não tem proteção. É ela por ela, a rua nada promete e não exige memória.
O nome Angélica morreu naquela noite. Diversas vezes hostilizada por quem nem sabia do que ocorrera, chamada de nomes e apelidos que jamais saberia o significado. Em cada ida e vinda, em cada subida e descida nas escadas da favela foi conhecendo novas pessoas, o nome e sobrenome passou a ser “ Licka Careca ”.
CAPÍTULO 9 – LICKA CARECA
O nome Angélica não foi enterrado, não teve reza nem vela. Apenas deixou de ser chamado. Quando alguém perguntava quem ela era, a resposta vinha antes que eu abrisse a boca: - É a Licka… a careca.
O apelido não era maldade no começo. Era descrição. Depois virou sentença.
Começou a conhecer pessoas e a esquecer de outras e em sua passagem pelas vielas e escadaria surgiram amigos que de nada sabiam e outros que preferiam esquecer o que ocorrera.
A luta em vida no morro, marcada pelo trabalho desde tenra idade e a falta de afeto que estava acostumada demonstra a fragilidade da infância diante das adversidades e mostra como as memórias de um passado feliz vão se apagando.
As pessoas trabalhadeiras que saiam de casa bem cedo e somente retornavam a noite pouco a conheciam. Os vagabundos, os desocupados, ou seja, a ralé aprendeu a gostar da menina que sempre sorrindo passava sem culpa ou remorso. O Morro sim tinha uma dívida para com aquela ser cujo nome se perdera.
O tempo passava e por baixo daqueles panos fedorentos um corpo de menina se transformava e ninguém percebia.
A cabeça nua brilhava sob o sol do morro, marcada por cicatrizes que ninguém tinha coragem de tocar. As crianças olhavam primeiro, cochichavam depois. Algumas riam. Outras tinham medo. Os adultos desviavam o olhar — não por respeito, mas por incômodo. Eu era o lembrete vivo de algo que todos fingiam não ter acontecido.
A casa onde eu dormia não era minha. Nunca foi. Era um lugar de passagem que acabou virando permanência por falta de opção. Dormia num colchão fino, jogado num canto, perto da porta como se fosse um cão. Acordava cedo, sempre antes de todo mundo, porque não me era permitido atrapalhar.
Aprendeu rápido a ser pequena. Não ocupar espaço. Não fazer barulho. Não pedir nada.
Comia depois. Sempre depois. O que sobrava. Às vezes nada. E mesmo assim agradecia, porque aprendeu cedo que reclamar era perigoso.
À noite, quando o silêncio vinha — aquele silêncio que não era paz, mas cansaço — ela fechava os olhos e tentava lembrar do cheiro do café da minha mãe, das risadas do meu pai, da voz dele chamando “docinho”. Mas as lembranças começaram a falhar. O rosto deles foi ficando borrado. A culpa disso ainda hoje lhe acompanha. Esquecer é outra forma de morrer.
Dona Clotilde a mulher que acolhera aquele ser abatido pelo fogo, assim o fizera porque vendo o abandono dos demais membros da família, ela trabalhando no Hospital como servente se compadeceu daquela criança em respeito à memória de Dona Elza que quando soube da chegada daquela família vinda do Norte sem nenhum amparo trazendo somente a roupa do corpo a ajudou a se estabelecer com a família inclusive tendo conseguido o emprego que agora possuía.
Havia então uma gratidão, porém, as agruras da vida pobre não permitem grandes arroubos e consequentes atos de benemerência. Era preciso viver e desde cedo a menina sem a infância que até os quatro anos se avizinhava precisava trabalhar para manter-se e fazer justiça a acolhida.
Mais uma vez subia aquele morro cheia de sacolas que mal podia carregar, muito pesadas para aquele corpo pequeno e em formação. Então era obrigada a parar de vez em quando para descansar e aproveitava para cumprimentar e conversar com as pessoas que com ela cruzava.
CAPÍTULO 10 — A ESCADARIA
A escadaria virou minha escola.
Subia e descia dezenas de vezes por dia. Levava recado, buscava água, varria quintal alheio, lavava prato que ela não sujava. Seu corpo pequeno aprendeu a resistência antes de aprender a brincar.
Aquela escadaria era seu espaço de aprendizado. A luta diária leva sua infância pela necessidade de se adaptar ao ambiente.
Os degraus conheciam meus pés descalços melhor do que qualquer chão. Sabiam quando eu chorava em silêncio e quando estava cansada
Às vezes, sentava no meio da escada e ficava olhando para baixo, para o portão de ferro que continuava lá, firme, como um monumento a covardia. Eu não entendia política, tráfico, poder. Mas entendia que aquele portão tinha fechado algo dentro dela também.
Alguns homens a olhavam com atenção demais. Outros com desprezo. Aprendeu a andar rápido, cabeça baixa, olhar duro. Criança não devia aprender isso, mas aprende.
A escadaria, então se torna um microcosmo da favela, onde crianças são forçadas a amadurecer rapidamente, onde cada degrau representa não apenas uma subida física, mas também uma ascensão emocional e social em um mundo que não oferece muitas oportunidades.
. Ela está presa entre a infância que perdeu e a realidade dura que enfrenta.
Na favela, ninguém é só criança por muito tempo.
Seu parceiro de conversa mais comum era um menino franzino mais de forte personalidade de nome Teodoro ou ‘Téo”. Ele era um “olheiro” do pessoal do tráfico, sua missão era vigiar a entrada ou o portão de ferro observando quem entrava ou saía incumbido de dar tiros para o alto em caso de avistar pessoas em atitudes suspeitas que pudessem pôr em risco a quadrilha da qual era parte ou soltar uma “pipa” vermelha quando os avistados fossem policiais.
Com certeza ele era o maior e melhor achado da bandidagem, ele estava sempre atento as suas funções e por diversas vezes seus avisos deram chance a retiradas estratégicas ou a ações fortes dos chefões do crime.
“Olheiros” anteriores haviam posto em risco o poderio daquele bando pela falta de atenção e todos agora estavam muito satisfeitos com o Téo. Ele possuía uns dois anos a mais do que Licka, nada sabia sobre o que havia acontecido realmente naquela noite de horror, e a chamava de “Licka Careca” apenas por imitação.
Ele sempre entregava para ela alguns trocados e pedia que que trouxesse algum tipo de pão doce, sonho ou o que o dinheiro desse para que os dois pudessem comer juntos enquanto ela descansava da subida.
Ele franzino parecia não aguentar o peso da arma que carregava e ela brincando dizia que soltar pipa já era um esforço e dar tiro para o alto era impossível para aquele menino. Mas ele tinha suas convicções e queria um dia poder ostentar aquelas roupas de grife que ele assistia os meninos maiores e mais fortes usarem.
Sobrevivente reconhece sobrevivente, ouvir era o que ele fazia melhor, ficar atento a tudo e a todos era seu trabalho, quando tudo parecia estar muito mal, ficar quieto e permanecer no degrau da escada que era seu ponto de observação fazia com que dividissem o silêncio e desta forma de uma maneira estranha cultivavam aquela amizade.
CAPÍTULO 11 — O FAVOR
Foi um menino mais velho que me chamou pela primeira vez para “ajudar”.
— Ô, carequinha… quer ganhar um trocado?
O apelido já vinha com naturalidade. Doeu menos do que devia.
A dor de ouvir o apelido ainda mais ofensivo é um reflexo da aceitação de sua nova identidade, mesmo que carregada de dor e perda. A dor de ouvir é atenuada pela urgência da fome.
Era só levar um pacote pequeno até a esquina de baixo. Não abrir. Não perguntar. Só entregar. Em troca, eu teria comida. Talvez um refrigerante.
Aceitou.
Não por ambição. Por fome.
A mão suava enquanto segurava o pacote. O coração batia forte, não por medo do que carregava, mas por medo de errar. Errar sempre custava caro para quem não tinha nada.
Entregou. Voltou e ganhou pão com mortadela e um copo de guaraná quente.
Foi o melhor jantar da semana. Dormiu com o estomago cheio e a cabeça acordada.
Ninguém explicou o que era aquilo. Também não perguntei. O silêncio era a moeda mais segura.
CAPÍTULO 12 — A SEMENTE
Com o tempo, ela se tornou útil.
Ser útil garantia permanência. E permanência, na favela, era uma forma de sobreviver.
Chamavam-na com mais frequência. Um recado aqui. Um pacote ali. Sempre pequenas coisas. Sempre invisível.
Os homens do morro sabiam meu nome. Não o de batismo — esse já não importava — mas o apelido. E sabiam da minha história. Usavam isso como quem segura uma coleira invisível.
— Coitada… não tem ninguém por ela.
Tinham razão.
A família que me acolheu nunca me abraçou. Apenas me tolerava. E isso bastava para eles. Para mim, era o mundo possível.
Às vezes, à noite, encarava o teto e perguntava se os pais sentiam vergonha dela. Se, de algum lugar, a viam fazendo aquilo. Pensava se sobreviver daquele jeito era uma traição à memória deles.
Nunca chegou a uma resposta.
Foi assim que o crime entrou em sua vida: não pela violência direta, mas pela gentileza calculada. Não por armas, mas por migalhas.
Ela não usava drogas. Não bebia. Não fumava. Mas já estava cercada. O cheiro, as risadas soltas demais, os olhos vermelhos, a euforia falsa — tudo fazia parte do cenário.
O morro não perguntava se ela queria. Apenas empurrava.
Sobreviver era necessário, nós nem sabemos por que vivemos. Nossas escolhas forçadas pela vida que nos concedem na prática buscam um espaço a ser ocupado. Para que? Mesmo o menor e mais nojento dos insetos não deseja a morte. Aponte um chinelo para uma barata e vai vê-la correr pela vida. O instinto move a vida, o conhecimento torna a vida mais fácil de ser tolerada.
E, mesmo assim, algo dentro dela resistia. Um resto de Angélica. Uma memória fraca, mas teimosa, sussurrando que aquilo não era tudo. Essa voz ainda era pequena. Mas estava viva.
Aos nove anos sua primeira menstruação. O susto de quem já espera é grande, imagine para uma menina para quem nada se disse e que nada espera. Viu-se apavorada achando que estava seriamente doente e que iria morrer. Escondeu de todos e de todas as formas e até que as “regras” se estabilizassem naquele corpo frágil que rumava para a puberdade, viveu então momentos de medo e terror.
De uma forma transversa, errada e muito dura foi descobrindo e se moldando as lutas que a vida lhe dera. As vezes podia jurar ouvir a voz de sua mãe ou sentir as fortes mãos de seu pai. Nestes momentos se enchia de força e continuava a viver. Esse talvez fosse a sua missão. Viver para alegrar aqueles que não a viram renascer literalmente das cinzas.
Foi descobrindo aos poucos o significado de ser feminina, de ser de um gênero diferenciado daquele que julgava ser, dos encantos de ser mulher.
Os meninos que jogavam bola já não pareciam tão bobos assim. No subir e descer as escadarias já conhecia todo mundo e todos a conheciam. Alguns se dispunham a ajudar dando roupas e alguma comida, doces não faltavam e soube depois que alguns conversando com a mulher que a criava convenceu-a a colocar em um colégio público aquele “bichinho” mal-ajambrado que vivia na comunidade.
No Colégio, descobriu que a leitura era seu maior presente, aprendeu a viajar para lugares distantes, lugares mágicos. Fez amizades com bichos que falavam e com piratas de terras distantes. Conheceu histórias e estórias de gente de cor branca e da sua cor negra, aprendeu coisas que muita gente grande não sabia. Fazia contas e aprendeu a orar.
Falava com todos, e sempre sorrindo, não se considerava feia, apenas maltratada pela vida. Carregava um medo antigo de fogo e do incêndio que na sua pequena memória ainda morava. Tinha um pavor monumental de fogo e nas festas juninas e de final de ano vivia seu maior terror.
Não sabia explicar mais aquilo a afetava de tal maneira que ela se transformava em um casulo e encolhida ficava horas e horas esperando tudo passar.
Seu amigo Téo cresce e agora é líder do bando, aquele período de observação e ordens lhe dera o poder e ele constrói um império rápido, organizado e violento mesmo sem excesso. Licka era seu símbolo e única família.
Ela é uma forte presença, respeitada, está em tudo e em todos, tocar nela era assinar sentença de morte. O morro todo entende isso.
Aquela casa queimada havia sido parcialmente reformada e muito mal pintada ainda exalava o cheiro de madeira queimada e Licka não chegava nem perto porque tinha sensações terríveis e um medo enorme só de olhar para aquelas paredes sujas de fuligem.
A Fortaleza do Churrasco como era conhecida passou a dar nome a Comunidade que passou a ser conhecida e até constava nos mapas da cidade como “Favela do Forte”. Na prática, ela, a Fortaleza, se transformara no maior e melhor ponto de observação da bandidagem. Os traficantes haviam conquistado sua maior pretensão que era poder observar do alto a chegada de bando rivais e da própria polícia dando tempo para reações e até fugas estratégicas evitando o confronto direto.
Naquele lugar, palco no passado de muita felicidade e alegrias transformara-se em um local de difícil acesso onde somente os “parças” entravam, os inimigos quando entravam era apenas para morrer.
Mas o tempo é um santo remédio, mesmo quando não cura, ele cicatriza e os Chefões daquela época já não são mais os mesmos. Ninguém morreu de velho, sempre de forma violenta, tal qual haviam praticado contra nossa família, eles morreram de tiro, queimados ou mesmo apunhalados por rivais. Não existe lugar para idoso no meio da violência. Jovens morrem e deixam os mais jovens, seus filhos, para pasto da miséria.
Aqueles que anos atrás comemoraram a morte de uma família, hoje pagam no inferno da existência eterna pelos crimes que cometeram ou que ajudaram a cometer.
E ela continuava crescendo, transformando-se em uma linda garota, com um bonito corpo e um rosto digno de seu nome, olhos pretos, boca torneada. A natureza parecia querer compensa-la pelos horrores que havia passado. Mas para que jamais esquecesse dos acontecimentos vividos aquela “careca” a obrigava a utilizar um boné da qual ela fez sua marca registrada. Sua inteligência a destacava no colégio e no meio dos de sua classe.
Já não era mais o bichinho fedido da favela, todos acreditavam que ela um dia seria alguém de peso e destaque. A vida miserável do início da vida sem os pais a ensinaram de maneira dura a necessidade e a forma de viver.
Subir e descer lhe dera pernas grossas e torneadas, carregar embrulhos e compras lhe dera força e vontade para terminar uma tarefa.
Todos a conheciam e gostavam dela, muitos daqueles que tinham a mesma idade ou que chegaram depois dos acontecimentos, os antigos moradores da mesma idade não tinham noção do que acontecera e tudo virou lenda.
Os olheiros do tráfico, os “soldados” de confiança da Chefia, os próprios Chefes que atualmente comandavam eram na época garotos que jogavam bola com seu irmão mais velho e nunca tiveram a noção exata do que havia acontecido.
Para eles os antigos comandantes haviam conquistado aquela Fortaleza e isso bastava. Era todo o conhecimento que se fazia necessário.
Mas havia ali algo que observava. Uma fera silenciosa, ainda inconsciente. Ela estava crescendo.
É uma força interior que, embora inconsciente, está se preparando para emergir. Em qualquer ambiente mesmo opressivo existe espaço para a esperança e o desafio constante de melhorar, mesmo quando tudo parece conspirar contra essa possibilidade.
CAPÍTULO 13 – A SANTA
Um dia de verão onde a luz do Sol fazia brilhar cada pedra daquela escada e secava a garganta dos homens obrigados a permanecer no front das lutas pela eterna posse daquilo que fora conquistado.
O portão de ferro pintado de preto agora não metia medo em mais ninguém e que fora esquecido aberto para sempre desde o dia da tragédia, tendo cumprido seu papel conforme fora programado pela marginalidade da época.
Licka Careca descia mais uma vez aquelas escadas em busca de algo para aqueles que a criavam, quando inesperadamente viu-se frente a uma mulher de vestido em véus azuis carregada de pulseiras douradas e brilhantes adornada por vidros lapidados que refletiam a luz com brincos enormes que pesavam em sua orelha deformando o feitio, o que para ela mulher, parecia bem natural.
A mulher parecia cansada e apoiando no chão o embrulho enorme que carregava disse: ‘Dia, linda menina, pode por favor me ajudar?
A menina respondeu: - Com certeza, diga o que precisa, alguma informação? Conheço todo mundo neste lugar!
A Senhora então falou: - Procuro a casa de Dona Bela, preciso entregar a ela essa imagem de Maria do Cruzeiro das Almas. Você conhece?
- Dona Bela? Com certeza. Ela mora um pouco mais acima. Posso ajudar a Senhora?
Esse embrulho parece grande e pesado? Como é seu nome?
- Meu nome é Maria, e o seu?
- Todos me chamam de Likca. Muito prazer! Vamos subir?
E sem esperar resposta a menina pegou o embrulho no chão e pôs-se a começar a caminhada na escadaria íngreme ajudando a Senhora.
Dona Maria então começou a subida e ia explicando a menina: - Essa imagem tem muito a ver com você, não foi por acaso que nos encontramos. Ela traz um drama muito grande acontecido neste lugar e espera poder ajudar a superar todos os medos e dar-te o lugar merecido. Quatro almas nos ajudam agora e elas parecem felizes em reencontra-la.
- Você sempre foi muito boa menina e suas agruras em vida te levarão a vitória e ao descanso daqueles que te amam. Estão todos aqui a serviço da caridade, da luz, do amor e da vontade do Criador.
Licka, sem entender muito bem o que a cigana falava, reparava que a Senhora muito bem vestida em roupas azuis parecia brilhar na luz do Sol irradiando uma aura de bondade e pureza. E Licka pensava: - Quero ser assim! Linda, Maravilhosa!
E como se ouvisse seus pensamentos a cigana respondeu: - E será!
Mais alguns metros de subida passaram pela Fortaleza e o embrulho se desfez revelando a imagem carregada pela menina. Era de uma cigana com as mesmas roupas da Senhora Maria e trazia no semblante a tranquilidade daquela mulher.
Nervosa, Licka se preocupava em não deixar cair no chão a mulher de louça porque se espatifaria em mil cacos se assim acontecesse.
Quando conseguiu se reequilibrar salvando a imagem procurou a Cigana para pedir desculpas pelo susto passado e não viu mais ninguém.
Estava só naquela caminhada carregando algo que não sabia explicar.
Ficou muito nervosa mais agarrada na figura em seus braços, pensou: - Sei a quem entregar e vou leva-la talvez Dona Maria já esteja lá e não viu o que aconteceu.
Esse encontro nunca foi explicado, na verdade não precisa. A cigana vê em Licka algo que ninguém vê: - uma sobrevivente sem nome.
Dona Maria falou pouco, entregou a imagem, sua frase não disse nada, mas também não mentiu. Não é fé, é possibilidade. E Dona Maria desaparece.
Subiu mais um pouco a na terceira viela e chegou em uma casa amarela onde na porta uma vela apoiada em uma base de cimento tendo ao meio um castiçal de ferro ardia levemente tocada pelo vento.
- Dona Bela! Gritou a menina...
Colocando a imagem no chão próximo a base, bateu palmas gritando mais uma vez:
- Dona Bela!
Surgiu então saindo da casa uma Senhora toda de branco com colares coloridos sorridente dizendo: - Eu sabia que você vinha trazer a imagem de Maria do Cruzeiro das Almas. A muitos anos espero por esse momento. Fui avisada, não quis acreditar que receberia essa honra. Mas enfim o dia chegou e fico muito feliz em receber e poder ajudar.
Dona Bela abraçou a menina dizendo: - Liberada a sua hora, daqui para frente, o caminho se abre. Licka não entendeu, mas sentiu.
A menina perguntou: Você viu Dona Maria, a cigana? Ela vinha uns passos na minha frente quando de repente ela sumiu...passei um susto quando a imagem que ela me pediu para carregar quase caiu e quando me virei para explicar não pude mais vê-la.
Dona Bela retrucou: - ela não veio na sua frente, você a trouxe consigo. Quando ela balançou em seus braços foi apenas para abençoa-la. Que Deus nos ilumine e guarde.
Passados dois dias Dona Bela foi procurar aquela família acolhedora de Licka Careca e ofereceu um emprego de doméstica e faxineira no Centro de Umbanda para a menina. O local que era frequentado por muitas pessoas, inclusive por aquela que fizera o bem ao dar-lhe um teto.
Ofereceu trabalho, não esmola nem favor. Ofereceu dignidade.
A família representada por Clotilde, mulher forte e boa de briga que tinha fama de haver até desarmado bandido que ousara desafiá-la tinha também suas crenças e julgava ter um lugar reservado no céu por haver ajudado aquele ser e querendo garantir ainda mais a feliz morada concordou que a menina fosse trabalhar conquanto ela tivesse lá também sua nova morada, haja visto que ela e seus parcos recursos e muita gente para morar no barraco já reivindicavam o local onde a menina podia dormir.
Dona Bela: - E aí Clotilde, como vai? Precisamos de você mais vezes em nosso terreiro. Sua força parece impedir que os garotos do mal estejam em nossa Casa. Eles só vão lá quando estão com medo de algo ou quando estão a fim de perturbar o ambiente. Nessa hora você faz muita falta.
Clotilde: - Aqui tudo dentro dos conformes, esses “melequinhas” que vi nascer não tiram onda comigo não. Dou uma palmada bem forte e eles voltam chorando para o colinho da mamãe. E a mãe de cada um deles me conhece e sabe que se fui grossa algum motivo eles deram. Mas o que te traz em nossa casa? Tempo para um cafezinho com bolo de milho que eu mesma fiz?
Oba! Com bolo ralado em casa, não posso perder!
Quanta energia boa se pode esperar desta gente, Meu Deus!
Vamos entrando! As pessoas que eu amo sempre são benvindas. E entrando e sentando para o café as duas conversam.
Dona Bela: - A menina Licka foi lá em casa me entregar uma imagem de Dona Maria do Cruzeiro das Almas. Para falar a verdade, eu já esperava a muito tempo esse dia, mas como assinalou o meu “caboclo” eu tinha que esperar para que isso somente acontecesse no caminho correto determinado pelo “Pai de Todos” - estou eu aqui pedindo então para que você permita que a menina trabalhe conosco não só no campo espiritual como tenha uma acolhida de emprego e trabalho remunerado em nossa casa de caridade.
- Bem! Disse Clotilde, fico feliz que ela possa caminhar com suas pernas para seu próprio futuro. Aqui em casa você sabe as coisas estão ficando mais difíceis. Os meninos estão crescendo e ocupando cada vez mais espaços. Trazem até namoradas! Já querem me empurrar noras e genros goela abaixo. Eu acho muito engraçado! E dá uma boa risada.
- Se você me der sua palavra que ela terá um salariozinho que permita ter uma vidinha própria e um cantinho para descansar e dormir melhor do que ela já tem aqui, me sentirei feliz e quites com a mãe dela que me acolheu juntamente com meus filhos pequenos em tempos lá atrás.
- Muito triste o que aconteceu com a Elza, seu marido e filhos. Muita covardia! Ela não sabe nem a metade do que passou. Aqueles espíritos maus ainda caminham nesta terra procurando redenção, mas só encontrarão se puder salvar e devolver tudo a essa criança.
Dona Bela embevecida por aqueles sentimentos disse: - Pode ficar descansada, para mim será como ter uma nova filha. Tudo será feito para que ela consiga trilhar o melhor caminho. E assim as duas amigas selaram o futuro daquela criança.
Elas então arrumaram as poucas coisas de Licka e levaram as tralhas que não eram muitas para a nova casa. Quando a menina voltasse em mais uma das subidas da escadaria conheceria sua nova morada e as tratativas entre as duas vizinhas e amigas.
Era Deus escrevendo a nova estória daquela garota. No coração da pequena ficaria a eterna gratidão da vida conquistada pelo acolhimento, embora a duras penas suportada, tendo todas as mazelas servido de lição e alerta para a nova vida.
Essa nova vida seria marcada por uma profunda conexão espiritual e comunitária. O Centro, como era conhecido, aceitava todas as religiões e tradições, principalmente as africanas.
Ali realizavam as giras, que são cerimonias onde médiuns incorporavam espíritos, guias ou entidades, ali se trocavam energias e conhecimentos. Toda a comunidade, mesmo os descrentes nutrem respeito ou mesmo temor pelo que se desconhece.
O Centro sempre estava envolvido em atividades sociais refletindo os valores da caridade e do valor ao próximo.
Agora com doze anos completos comemorados em data incerta tendo em vista o total desaparecimento de sua certidão ou documentação naquele fatídico incêndio provocado pelos marginais ansiosos em possuir o local como posto de observação da bandidagem ela possuía novas funções e procurava sempre fazer o melhor e dentro do possível visitar aquela que a amparara no início tirando-a da rua que seria seu fim trágico.
Sua mente era repleta de sentimentos complexos e intensos. A insegurança passava pela falta de bem-estar e a preocupação diária com o básico, como alimentação, abrigo e saúde.
Ainda movida por desesperança, lutava para modificar aquela situação, sempre à procura de oportunidades que a ajudasse a sair daquele presente desesperador. Com certeza tinha sonhos e aspirações sendo a principal delas a libertação da alma frente as mazelas até aqui contempladas.
O perigo estava em envolver-se em atividades ilícitas ou negativas em busca de aceitação e pertencimento em busca de validação no meio em que vivia.
Dona Bela utilizando-se da frequência sempre alta do Centro Espirita e a boa vontade daqueles que eram os frequentadores em busca de paz de espirito e conselhos das entidades começou a pedir ajuda para regularizar a situação e a documentação daquela criança. Ideias começaram a surgir e um velho advogado prontificou-se a tomar todas as providencias necessárias ao bom e fiel cumprimento das ações que se fizessem necessárias.
Pela primeira vez, alguém tentava devolver a Licka algo que o fogo levara: existência oficial.
O caminho à frente pode ser desafiador, mas o apoio que ela recebe e sua determinação em buscar um futuro melhor são sinais claros de que sua jornada está apenas começando. Essa trajetória de autoafirmação e esperança ressoa como um testemunho da luta por uma vida mais plena e significativa.
CAPÍTULO 14 – CRISTINA FORTALEZA
Dona Bela queria em principio apagar de vez aquela imagem e o nome de Licka – Careca.
Apelido nascido da crueldade e da sobrevivência, que sendo pejorativo jamais permitiria aquela criança avançar no mundo comum e cheio de preconceitos materiais que cobra aparência, passado e origem. Não se trata de negar estória, mas de impedir que ela fosse usada como uma corrente.
Chama-la de Licka Careca era na verdade o cúmulo da ação de ridicularização de um ser, se por um lado a protegia de assédios ou má intenções, por outro agia negativamente em sua autoestima e em sua saúde mental. Era um perpetuo bullying que em horas de desespero a fazia chorar.
Não se importava sobre herança do casarão queimado já que os marginais jamais permitiriam que alguém pudesse abalar seus postos de observação conquistados no passado, havia deixado de ser casa há muito tempo. Era uma trincheira.
Assim uma das providencias foi fazer uma “vaquinha” para arrecadar dinheiro para a compra de uma peruca própria para pessoas de cor que ela pudesse usar sem receio de pedirem que retirasse o boné como algumas vezes foi obrigada a fazer atendendo a pedido do Padre, do Diretor da Escola ou por pura “zoação” dos agora donos do morro.
O advogado entrou com a papelada junto aos órgãos públicos, reuniu provas dos acontecimentos e comprovou que a única sobrevivente sem documentos e sem familiares havia dado entrada no pronto socorro local e que tendo recebido alta com nome desconhecido havia sido retirada não se sabe como por desconhecidos tomando rumo ignorado. Agora encontrada precisava receber um nome e ter como certa uma data de nascimento.
Dr. Hugo como era conhecido o velho advogado, esmerou-se na obtenção da documentação e consequente regularização da vida daquela menina e chegou no impasse da escolha do nome. Sabia-se que Licka não deveria ser e se o objetivo era apagar vez o passado criando uma nova pessoa livre das terríveis mazelas do passado seria necessário um novo nome. Assim nasceu Cristina Fortaleza.
Seu sobrenome deixava de ser um abrigo para ser sua defesa, o passado estaria guardado onde ninguém teria coragem de perguntar.
Cristina, adolescente de grande beleza e olhos brilhantes, de inteligência e cultura acima da média destacava-se naquele meio de necessitados de amparo e de boa vontade.
Cristina Fortaleza poderá se erguer e construir um futuro melhor, livre das amarras do passado.
Sem o velho e surrado boné, agora ostentando uma bonita cabeleira afro crescido de forma diferente, brincos e colares coloridos a outrora menina feia se transformara por completo, seu olhar não pedia mais, era firme e contundente como das águias.
Os meninos queriam estar perto dela, queriam sua atenção e “Téo” agora elevado a Chefe do bando era aquele que melhor desfrutava das atenções da menina. Frequentavam juntos as aulas sobre temas africanos e de umbanda, sabiam todos os pontos cantados em rodas e na mesma escola do bairro estudavam na intenção de obter meios e conhecimento suficiente para sair da favela e da vida de lutas que viviam.
Téo desempenhava um papel central e estratégico nas operações de tráfico de drogas, seu tempo de olheiro e observador dos caminhos, aguçados pela inteligência e desejo de melhorar de vida lhe deu a oportunidade de em forma organizada e eficiente galgar postos e confiança.
Na Escola, na presença dela, ele era uma pessoa calma educada e extremamente gentil, um menino como deveria ser. Ela mal notava a presença de seguranças do tráfico em volta do rapaz. Ele fazia questão de andar desarmado, embora para ele fosse uma temeridade, precisava que para ela, ele fosse a imagem de um menino bom.
Ele era acompanhado sempre por um séquito de moleques que aguardavam sempre um olhar ou gesto de simpatia que poderia significar a ascensão dentro do grupo. Mas ele aparentemente não via ou não os ouvia. A escola da vida nas escadas da observação construíra uma pessoa de coração duro que não pedia somente mandava.
Na presença de Cristina ele era outro. Ela não compactuava muito com aquelas presenças, lhe dava uma sensação de estar cercada e que a qualquer momento bolas de fogo apareceriam voando no ar.
CAPÍTULO 15 – A ERA DE OURO
O menino do degrau agora era um nome respeitado que exercia o controle sobre parte significativa da comunidade, usava seu poder para amedrontar e assim manter lealdade e obediência.
Téo: - Ninguém desafia a a Fortaleza. Aqui, quem não respeita paga o preço.
Armas, dinheiro e vidas giravam ao redor dele. Para o casal o antes era uma dívida muda, a cobrar quando chegasse a hora, não era preciso ficar remoendo passado, se assim fizessem traria fraqueza e consideração com quem não merecia.
Cristina: - Téo, precisamos mostrar que somos mais do que o passado. Nossos atos devem falar por nós.
Mas a molecada era fiel e em busca de um gesto amigo andavam ao redor do casal até a porta da Escola. Ela sabia e via que mesmo dentro da sala de vez em quando um daqueles garotos passava na porta da classe e olhando para dentro onde a professora ministrava os conhecimentos e se certificava que tudo estava sob controle.
Garoto segurança: - Olha lá, a Cristina. Ela é firme, gente boa! E muito nossa.
Eles tinham livre acesso ao Colégio e suas dependências, pareciam e eram os donos do ambiente. Assim o tempo passava e consolidava a posição de Chefia de Téo e seu amor por Cristina.
A velha casa da família era a muito tempo um ponto estratégico com visão ampla e controle sobre toda a comunidade. Denominada deste aquele fatídico dia de Fortaleza, dera nome ao morro e agora dava sobrenome a mulher: Cristina Fortaleza.
Téo: - Cristina, você é a alma desse lugar. Sem você, nada disso faria sentido.
Ela era a imagem, a presença, o respeito imposto, tinha acesso ao morro e a cidade. Sabia sorrir quando necessário, mas também sabia endurecer quando fosse exigida.
O poder não grita, o poder aguarda para agir.
Cristina: - o poder não grita Téo. O poder aguarda. E nós estamos aqui para mostrar isso.
Os “boyzinhos” da cidade subiam o morro sempre vigiados pelos “olheiros” para comprar a droga e pequenos distribuidores completavam seus negócios sob a supervisão de Téo. A polícia parecia ignorar as atividades dos garotos e a comunidade dentro do possível se julgava segura.
O olheiro avisava sempre: - se vacilar, já sabe...desce na madeira!
Um deslize de qualquer dos comparsas era punido com a morte ninguém tinha coragem para desafiar o líder, sendo o envolvimento carregado de consequências significativas onde perdia-se o pudor, o caráter e submetia-se o vaposeiro a qualquer vexame por um punhado de crack ou pedra.
Nos finais de ano a festa da praia de Copacabana era o ponto alto do tráfico para os adolescentes, era quando mais se trabalhava na distribuição das drogas e no atendimento aos “riquinhos” da Cidade. Todos se empenhavam a fundo para fazer a festa dos envolvidos quer seja financeiramente ou mesmo no atendimento as necessidades dos viciados.
Cristina: - Vamos garantir que todos saiam satisfeitos. O dinheiro não é tudo, mas traz poder.
As boates estavam cheias de turistas e a mulherada vinha de fora para ganhar dinheiro na esperança de voltarem ricas para suas cidades de origem. Na madrugada as viaturas da Policia Militar tinham sempre prostitutas circulando de um lado para o outro pagando “boquetes” no banco de trás dos carros. Assim era o grito do povo contente e esperançoso de fazer um grande final de ano.
Prostituta: Feliz Ano Novo, amor! Vem cá, que te faço esquecer do mundo.
Se a droga circulava livremente, o dinheiro em vários tipos de moeda era seu maior impulsor, vendia-se a alma neste período, em nome do nascimento do Salvador tudo era permitido e tolerado. Beijavam-se bocas e chupavam-se “paus” não necessariamente nesta ordem.
As orgias se acumulavam e neste fervor iam sempre até o Carnaval, onde o morro se vestia colorido e se preparava para a festa maior. Téo no comando da favela financiava desde o samba enredo até a última fantasia.
Téo: - Aqui não vai faltar nada! Ninguém fica de fora das festas. Se é morador da comunidade, seu ingresso está garantido.
Os brancos vinham comprar de tudo, de drogas a roupas tema das alas da Escola de Samba.
Era sempre um verão de fartura, Téo não queria ninguém fora das festas e do ganhar dinheiro neste período. Se você é morador e quer participar, seu ingresso está garantido.
O morro fervilhava de atenção. O serviço, a distribuição e tudo estava dentro das melhores pretensões. Cargos eram criados e sabia-se exatamente a quem prestar contas. Neste período, todos queriam estar próximos a Téo que deixava abertamente de ser malvadeza para ser o bom rapaz.
Cristina: - Téo, é hora de mostrarmos que nosso poder é diferente, vams fazer o bem enquanto fazemos o dinheiro girar.
No período entre o Natal e até o Carnaval o morro fervilhava, a grande escadaria virava um caminhar sem fim de embrulhos de panos e roupas coloridas acompanhada por um ir e vir de pacotes de “ervas” e drogas. Foi com certeza a era de ouro dos meninos da Fortaleza.
Téo tinha o maior cuidado com a sua bela morena, ela era intocável e qualquer abuso ou má intenção de seus comandados poderia ser punido com a pena máxima.
Téo: - Cristina, você não precisa se preocupar. Eu cuido de você. Aqui, você é rainha.
Ela não pedia proteção. Ela era proteção.
CAPÍTULO 16 – O NEGÓCIO
Linda, segura, glamorosa e muito sexy circulava nas noites como uma espécie de símbolo. Acompanhada pela tropa, era quase uma deusa dentro do bando e nem os policiais tinham coragem de expor pensamentos ou ações que desagradassem o terrível Téo.
Cristina: - Vamos, meninos! A noite é nossa! E quem não se divertir, vai se arrepender!
Ela circulava dentro das residências e mansões com a desenvoltura digna das mais lindas e ricas mulheres. Sua chegada avisava a todos que as drogas estavam liberadas e a disposição de quem pudesse pagar.
Téo era também um rapaz bonito. De pele morena e cabelos pretos, alto e magro como sempre foi despertava nas meninas um desejo de ser a musa de cada verão. Sua fama de apaixonado pela bela Cristina e as lendas que circulavam sobre seu espirito mau é que freavam as mais ousadas pretensões
Garoto: Você viu o Téo? Dizem que ele não hesita em proteger a Cristina...melhor ficar na sua.
A outrora menina feia e careca a muito tempo deixara de existir, em seu lugar reinando nos salões da Sociedade Carioca brilhava Cristina.
Agora respeitada, temida e intocável. O nome de seu protetor pairava como aviso silencioso.
Cristina: - Com Téo ao meu lado, ninguém me toca. Essa é a nossa era.
Cristina voltara a pisar na Sala de Estar e Jantar da casa que conhecera como sua residência de seus pais, porém ao lado de Téo vencera o medo, as lembranças de uma pequena menina e ganhara a força que precisava para ir em frente.
Passaram-se dezesseis anos daquele maldito dia e hoje aquela “gata” não tinha nada dos tempos e das mazelas que havia experimentado. Diziam até que quem comandava tudo na verdade era ela com mãos de ferro e a aquiescência do seu amado Téo.
Os mortos não falam e aqueles que haviam tomado tudo de sua família, já não estavam mais no morro. De uma forma ou de outra já haviam deixado o espaço para a ascensão daquele jovem casal.
Naquele ano ela descobriria o amor em sua plenitude. Estreava um vestido muito mini de lantejoulas prata. Olhada e invejada por todas as meninas circulava exibindo o corpo bem tratado e com as curvas desejadas por todos.
Menina: - Olha a Cristina! Ela está impossível hoje! Linda!
A festa no Hotel, um réveillon de alto estilo patrocinado pelo despejar constante altas drogas e muito “fumo” fazia com que a gringalhada, os boys e as garotas brancas se deliciassem em orgia pelo abandono do corpo e da alma nas mãos do Criador.
A polícia garantia a segurança do local revistando as pessoas que entravam, era proibido entrar com qualquer tipo de bebida, droga ou arma. Tudo que você precisasse já estava lá dentro. Aqueles que ousaram trazer algo comprado fora tiveram seus bolsos revirados e materiais apreendidos. Aqueles que reclamaram foram presos e enquadrados conforme manda a lei.
Policial: - Se você não quer problemas, é melhor deixar tudo na porta. Aqui, a festa é garantida.
Quem pacientemente se deixou na mão dos “tiras” - jamais se arrependeria de estar dentro da festa.
O casal reservou uma suíte especial para aquela noite com uma ceia Padrão Diamante para depois dos fogos e nas primeiras horas do ano seguinte. Para os dois, aquela tinha que ser a primeira e verdadeira noite de amor.
Cristina: - Téo, essa noite é nossa. Temos que aproveitar cada momento.
Nenhum deles tinha a experiência falada pelo cinema e pela televisão. Ele com a vivência das trocas de carícias dos adolescentes e ela sem qualquer visão do sexo, embora sabendo de tudo que fosse possível acontecer. Orai a Deus Pai pela inocência dos jovens e da vida.
A festa nos salões do Hotel transcorria às mil maravilhas, as drogas, os entorpecentes e a maconha faziam sucesso no meio dos jovens. Meninas lindas e esculturais ofereciam produtos e espaços para discreto consumo e os mais afoitos nem esperavam a sua vez. Consumiam ali mesmo nos salões sem nenhum pudor.
Vendedora: - vem cá, você já experimentou isso? É incrível!
E assim todos ganhavam dinheiro, e assim seria até o Carnaval se tudo fosse neste mesmo ritmo. Vários quartos estavam reservados para oferecer conforto, discrição e prazer aos frequentadores naquela noite. O lema era “seu pedido é uma ordem” desde que bem remunerada.
Cristina: - Vamos fazer desta noite algo inesquecível! Aqui, tudo se pode!
A queima de fogos já havia terminado quando os dois pombinhos resolveram oficializar entre eles a conjunção dos corpos e das almas. Um simples olhar e estavam prontos para abandonar a festa e começar uma vida a dois no melhor estilo vamos viver e deixar viver.
Entraram no elevador rumo ao andar da suíte já se atropelando em “pegações” que revelavam anos de desejos e de paixões contidas.
Téo: - Finalmente, é só nós dois. Eu esperei por este momento a vida inteira.
Ao chegar a porta, ele cavalheirescamente a segurou no colo e empurrou suavemente a porta com os pés deixando exalar um clima do que seria aquela noite entre os amantes.
- Quando nos demos conta notamos que nossos corpos estavam arrepiados e que o brilho dos em nossos olhos era a expressão pura de nossos sorrisos e da nossa alegria. Nos abraçamos e nos beijamos de forma intensa aquecendo nossos corpos para o que estava por vir.
Cristina: - Téo, eu não consigo acreditar que estamos aqui. Tudo é tão perfeito.
Nossos corpos não podiam e não queriam desgrudar-se estávamos inebriados entre risos abraços e beijos. Este momento parece que jamais chegará ao fim, ele é magico.
Nosso nervosismo era latente e nós dois queríamos a mesma coisa, pertencer um ao outro. Tentávamos em meio ao turbilhão nos acalmar para poder transformar aquela nossa primeira noite em algo inesquecível. Era um misto de amor, paixão contida e enfim uma explosão de desejos.
Téo: - Vamos aproveitar cada segundo. Não há pressa.
Fomos aos poucos nos livrando das roupas do casório que se lindas a minutos atrás, agora era um estorvo e a certeza temporária de que jamais a vestiríamos outra vez.
Trocávamos caricias contornando todas as partes do corpo que conseguíamos desnudar. Estávamos nos explorando e nos conhecendo por inteiro.
Cristina: - Sinto como se estivéssemos nos encontrando pela primeira vez, como se tudo que vivemos nos trouxesse até aqui.
Começamos a nos tocar nas partes mais íntimas e a respiração foi ficando cada vez mais ofegante desejando-nos por inteiro. Nos livrávamos das roupas e em cada momento nossos corpos mais se juntavam procurando não se sabe como um ao outro de maneira tremula fundir-se como se um só ali houvesse.
Téo: Cristina, você é tudo que eu sempre quis. Não posso acreditar que estamos juntos assim.
Ali não houve pressa, nem espetáculo. Houve descoberta.
Cristina: - Vamos nos perder um no outro, como se o mundo lá fora nem existisse.
A noite avançava, e cada toque, cada beijo, fosse uma revelação de um amor que finalmente se libertava.
Assim se fez amiga, parceira, mulher e amante.
Ficamos calmos e descansamos. Estávamos exaustos e felizes ao mesmo tempo. Nos servimos das comidas, frutas e bebidas que estava sobre a mesa do lindo quarto que havíamos reservado, namorávamos olhando um para o outro, admirando o corpo nu do parceiro que juramos ser para sempre donos e de quem jamais haveríamos de nos separar.
Mais uma vez pulsávamos de tesão e estávamos prestes a recomeçar. Queríamos estar ali, estávamos ali e só nos restava aproveitar cada momento obrigando-nos a fazer um ao outro feliz e completo.
Muita coisa ainda poderíamos fazer juntos, muito poderíamos descobrir em parceria e a disposição própria da juventude nos levaria a isso.
E mais uma vez nos completávamos e um cheiro de sexo pairava no ar. Estávamos arfando em uma noite louca de desejo.
Acabados fisicamente porem satisfeitos e apaixonados um pelo outro. O dia pedia permissão para chegar. Um novo ano e um novo ciclo de vida se iniciaria. O café da manhã no quarto era o que queríamos e precisávamos.
Não eram donos um do outro. Eram iguais. A noite não for perfeita. Foi verdadeira.
Reverenciada na favela, amada por seus súditos ela reinava.
17 – O COMANDO
A Fortaleza foi limpa e repintada. Um arquiteto cuidou para que tudo ficasse dentro dos caprichos de Cristina e ela reconquistava o bem que sempre fora seu e de sua família. Não era herança, era posse definitiva.
Cristina: - Finalmente, esse lugar está como conheci e sempre sonhei rever. É aqui que nossa história realmente começa.
Eles saiam semanalmente para desfrutar das coisas boas da cidade. Viviam em Hotéis, viajavam para outros Estados e Países retornando sempre que necessário fosse manter o comando das atividades conquistadas.
Ela queria mandar retirar o portão que lhe trazia más recordações e uma sensação estranha de abandono e tristeza. Mas, Téo não concordava porque via naquele traste a proteção necessária a manutenção do comando.
Téo: - Cristina, esse portão é nosso escudo. Ele nos protege do que possa vir de fora.
Habituado a isso promovia sempre que ela insistia no assunto demolir o “Monstro” como ela o chamava, uma verdadeira limpeza restaurando e trocando a cor de forma a faze-la esquecer dos maus momentos vividos.
Mas o Carnaval agora era a prioridade do bando e estavam se preparando para o fim daquela temporada. Era necessário uma freada na moçada, impor algumas condições de trabalho e “molhar” a mãos de muita gente para que os trabalhos não enveredassem para a desorganização. Havia muita euforia e era preciso impor limites.
Cristina: - Precisamos ter o controle, Téo. Não podemos deixar a festa se transformar em caos.
Téo então teve a ideia de promover uma caçada aos antigos chefes e comparsas, aqueles que tivessem participado diretamente do incêndio da residência dos pais de Cristina. Embora tivesse se beneficiado dos fatos e ascendido dentro da Organização, ele precisava dar exemplos de autoridade.
E como sempre disse, Téo repetiu: - é preciso fazer mãe chorar para que a comunidade saiba quem manda nessa porra toda.
Mais de cinquenta por cento das pessoas daquela época já não estavam no morro, quer seja por desistência pontual e mudança de vida enquanto foi possível e consequentemente fora das ações e do local, ou por morte em brigas de facções, brigas por acessos ou comandos dentro do próprio grupo ou na pior das hipóteses em confronto direto com a polícia quando a coisa esquentava de vez.
Cristina: - Precisamos agir rápido, Téo. Eles não podem nos achar fracos.
Existia ainda aqueles que presos “cismavam” em dar ordens através de bilhetes e advogados pagos como se ainda tivessem algum tipo de poder. Sendo então imperativo silencia-los para não perder o comando.
Utilizando então as estórias contadas pelos antigos moradores e por parentes de Cristina que haviam sido silenciados pelo medo. Téo começou uma carnificina justificada pela vingança, mas que tinha como objetivo real a manutenção do poder dentro do morro.
Téo: - Não é vingança, é mensagem. Quem não se alinha, paga o preço.
Em semanas que antecederam a festa do Carnaval as mortes se sucederam de uma forma veloz e violenta fazendo do luto na comunidade uma constante e transmitindo terror e obrigando muitas mães a enterrarem seus filhos e calando um número muito grande de pais.
Como sempre os homens de bem se escondiam sob diversos argumentos para não reagir e assim permitir a mudança de comando no mundo que a miséria reinava.
Nova ordem se agiganta estabelecendo funções e comandos sujeitos aos caprichos do agora conhecido por Téo-terrível.
Alguns nomes começaram a desaparecer, antigos comandantes, escondidos comandantes.
Cristina: - Eu não quero saber quem faz isso. Para mim, é justiça.
Cristina não perguntou quem fazia, apenas tomava uma taça de champanhe por cada nome riscado. Ela sabia por quê. Justiça e vingança quase sempre tem o mesmo rosto e ela não queria saber para qual estava olhando naquele momento.
Cristina não pediu perdão, não prometeu nada, respirou fundo e parada na frente da Fortaleza lembrou do tempo em que acreditava ser a altura a sua proteção e que novos ventos subiam o morro trazendo tudo que havia deixado para trás.
A Fortaleza não fora construída por seus pais, era na verdade o que ainda permanecia de pé. Ela não tinha mais medo e não precisava passar olhando para outro lado. Ela não virou as costas e encarou seu maior medo de frente sem tremer. Não tinha mais medo, sem promessa de perdão. O passado não tinha mais nenhum poder.
Enumerados os cargos, Téo-Terrível falou para que todos soubessem onde estavam e o que carregavam nas costas.
Ali não havia títulos. Havia responsabilidades — e consequências.
O GG ocupava o posto mais próximo da chefia. Homem de confiança direta, administrava a Boca. Nada entrava ou saía sem passar por ele. Errar era falhar com Téo. Falhar com Téo não admitia repetição.
O GB comandava a venda da cocaína. Terceiro escalão, mas com olhos atentos sobre si. Era ali que o dinheiro corria mais rápido — e onde a desconfiança nunca dormia.
O GP cuidava da maconha. Volume constante, giro alto, risco menor — mas apenas para quem acreditava nisso. O erro continuava sendo pago da mesma forma.
Outros cargos completavam a engrenagem.
O RA cuidava das armas. Comprava, mantinha, alugava para grupos parceiros. Sabia o valor de cada peça e o peso de cada bala. Um desvio ali significava guerra.
O SL fazia a segurança. Era quem enfrentava os rivais, quem segurava a linha quando o confronto estourava. Seu recrutamento vinha dos maiores, muitos com passagem pelo Exército. Não bastava coragem. Era preciso frieza.
O VP, conhecido como avião, fazia a entrega. Dentro da Boca ou até os clientes indicados pelos gerentes. Meninos entre doze e dezessete anos. Leves, rápidos, descartáveis — embora ninguém usasse essa palavra em voz alta.
O Olheiro, cargo antigo de Téo, ficava nas entradas. Alertava sobre estranhos ou policiais. Também chamado de Zé-Fogueteiro. Não participava da vida fora do morro. Sua sobrevivência dependia exclusivamente da fidelidade demonstrada à chefia.
Ali não existia moleza.
A manutenção vinha junto da obediência. Inspirar confiança era tão importante quanto inspirar medo. Ninguém podia ter receio da morte. Tampouco pressa demais para subir. Ambição mal calculada era sentença antecipada.
A inveja circulava silenciosa. O castigo era público.
O temor, permanente.
E assim a ordem se mantinha — não pela lealdade, mas pela certeza de que tudo ali tinha um preço.
CAPÍTULO 18 – A VINGANÇA
Mesmo Téo-terrível tem suas limitações uma vez que para manter-se em condições de “dono do morro” deve sua vida hierárquica ao Comando que o designou e aqueles que o protegem em todas as situações. Nada é absoluto. Tudo tem cobrança.
Assim se pode entender as necessidades de limpeza impostas, disfarçadas pela falsa vingança que se faz em nome de Cristina.
A polícia começa a ficar impaciente e pede o fim das caçadas, é impossível manter-se longe dos noticiários quando os jornais querem dar ênfase a cada assunto e a cada morte.
Raul liga por celular e fala com Téo: - As coisas estão se complicando, a pressão é enorme. Precisamos parar com isso de matança antes que seja tarde.
O já velho Raul hoje policial aposentado e vivendo em Rio das Ostras em uma belíssima casa comprada a custas de muitas mortes e tendo os filhos criados, vivendo em relativo luxo é convocado para em nome de uma antiga amizade com o pessoal da comunidade pedir e fazer cessar as operações desencadeadas pela ala jovem do Morro do Fortaleza.
É apalavrado um encontro entre o Dono do Morro e seu pretenso padrinho para elaboração de um acordo de convivência selando a paz pondo fim ao tema e fim das mortes. Ficando o encontro marcado para as 21 horas na terça feira proxima.
Raul: - Seja como for, precisamos de um acordo. A paz é o único caminho.
Raul então vai procurar a Chefia para uma conversa e esse encontro se dá no bairro do Leme em um antigo Bar e Restaurante conhecido por EL CID onde cercado por seguranças armados que discretamente passaram a circular no local desde o cair da tarde verificando todos os cantos e portarias de prédios certificando-se de que não haveria nenhum tipo de crocodilagem (o mesmo que armadilha) – armada para prender ou matar Téo.
A polícia então também cumpre a sua parte nas negociações afastando naquele dia as investidas das viaturas e a revista de possíveis suspeitos no bairro garantindo a calmaria que se faria necessária para que fosse “costurado” o tal acordo para a paz.
Ao saber da existência do encontro, Cristina exige estar presente.
Cristina: - Eu quero ver o rosto do homem que acabou com minha família. É meu direito!
Em princípio resistente a ideia Téo cedeu aos pedidos de sua amada desde que ela jurasse não falar nada durante o encontro e não deixar transparecer quem realmente era, o que poderia agravar a situação tensa que estaria no ar.
Téo: - Cristina, você sabe que isso é perigoso. Se algo sair errado, pode ser o fim de nós dois.
Cristina: - Eu não tenho medo! Eu preciso fazer isso. Para mim, e para todos os meus que sofreram.
Téo, percebendo a determinação dela, concorda, mas com cautela.
Téo: - Está bem, mas você precisa me prometer que não vai fazer nada impulsivo. A nossa segurança vem em primeiro lugar.
O clima de tensão pairava no ar enquanto se aproximava a hora do encontro. Cristina olhava para Téo, reconhecendo a luta que ele enfrentava entre proteger a amada e manter o controle sobre o morro.
Cristina: - Eu sei que você faz por nós. Téo, mas eu também sou parte disso. Não posso ficar à sombra.
. Este bar costumava ficar aberto sempre até as 6 horas da manhã servindo na ida o pessoal animado para as festas e na volta aqueles que nada arrumaram para terminar a madrugada. Cristina e Téo sentam nas mesas de canto, no bico de um balcão em “L” serve a moçada que vai para balada.
A vantagem era que uma vez dentro do espaço do bar a entrada e a saída eram uma só dificultando qualquer tentativa de fuga ou de surpresa bélica.
Ao chegar Raul cumprimenta Téo:
Raul: - E aí garoto, muitos anos se passaram, hein!
Téo retruca: - Garoto?! Maluco?! Já não sou mais o mesmo. Eu dito as ordens.
- O que você queria conversar?
Raul: - Ei! Calma! Quem é a gata?
- Muito respeito camarada, essa manda no meu coração.
- Que beleza gente boa! E beijando a mão de Cristina completa: - Criei esse menino e sempre achei que ele tinha futuro. Por favor não estrague ele.
Cristina diz: - Sempre cheguei para somar. Quero ver meu homem bem!
Todos riram da piadinha e pediram ao garçom uma cerveja e uma porção de filezinho para alegrar a conversa.
Raul: - É bom ver que você tem alguém que te apoia, Téo. Mas vamos ao que interessa. A Delegacia da área está pressionando e precisamos agir rápido para dar fim a essas coisas.
Téo: - acena com a cabeça, entendendo a gravidade da situação.
Téo: - Eu sei. Por isso quero garantir que esse encontro com você e a comunidade seja pacifico.
Cristina: - E se não for? Não podemos confiar.
Raul: - Eu entendo suas preocupações, mas precisamos ter fé. A paz é o que todos querem, mesmo que pareça distante.
Cristina observa Téo, que parece ponderar as palavras de Raul.
Téo: - Se a paz é o que todos querem, então precisamos fazer isso acontecer.
Cristina: - Que plano é esse? Não quero que a estória se repita.
Raul, percebendo a tensão, tenta acalmar os ânimos.
Raul: -Vamos discutir os detalhes, mas lembrem-se, a segurança de vocês é prioridade. Não podemos deixar que o passado nos defina.
As luzes do bar piscavam enquanto a música ambiente criava um clima de expectativa. Cristina olhava para Téo, determinada a não deixar que o medo a dominasse novamente.
Cristina: - Estamos prontos para enfrentar o que vier. Juntos.
Téo pergunta: - Veio só? – Não gosto de fardas camufladas por perto, me sinto mal e fico ansioso. Tem arma contigo?
Nada disso, seus meninos já viram e eu já passei desse tempo, agora quero somente viver em paz e criar os netos.
A rapaziada pede para que você pare de dar tiro na velha guarda e ganhe sua vida sem muito alarde. A chefia da cidade fica em cima porque acham que você está muito nervoso. Espalhando carne por aí.
É tanta morte que não cabe mais fazer relatório e processos, eles entendem que não são mortes espetaculares mais que a imprensa fica tentando explicar e não consegue, cada manchete provoca mais barulho e percebesse que a ala jovem estava executando memórias. A polícia sempre soube que houve um passado que você precisa enterrar.
Cristina está muito insegura e ver frente a frente o homem que ameaçou seu pai lhe causa ânsia de vômito. Faz lembrar de muitas coisas ruins. Fica rubra com o rosto em brasa, mas Raul não percebe. A cor da pele ajuda a disfarçar mais não pode durar muito tempo.
Tomam suas cervejas riem de coisas do passado e o velho policial lembra das vezes que viu aquele garoto no frio e na chuva guardando posição. Pergunta quando ela chegou na favela e de onde veio, eles disfarçam contam outra estória para que ele não perceba nada e a conversa caminha para as despedidas. Eles nada tinham mais em comum e as diferenças eram muito grande não permitindo grandes arroubos.
Enquanto conversavam naquela mesa, a meninada do Téo, que haviam cercado muito bem a área já havia descoberto o carro em que o velho policial havia utilizado para chegar até ali.
A velha raposa havia deixado o carro umas duas quadras a frente e vindo a pé para evitar surpresas e também poder estudar bem o local antes de se encontrar com o menino que vira crescer no crime, mas que hoje liderava o morro da Fortaleza.
O tenente do bando abaixou-se na lateral do carro e prendeu com cabos e um imã um grande artefato para explodir aquela geringonça velha assim que fosse ordenado. Estava preparada a última vingança de Cristina.
Na despedida Téo fez questão de telefonar para a atual chefia do velho “cana” e diz com a calma que lhe era peculiar: Gente boa, prometo que do velho caso da Fortaleza apenas um mais será expurgado e que daí para frente nunca mais falaremos sobre o assunto. Acalme seu coração que prometo que nada mais acontecerá sem a sua aprovação.
O velho policial ouviu a promessa e satisfeito apertou a mão de Téo e de sua amada ouvindo dela apenas uma frase que achou sem sentido, mas que para ele era irrelevante já que não lembrava do nome do homem que havia condenado a morte, nem de sua família e muito menos da única sobrevivente: - com os cumprimentos e a lembrança de “Seu” Orlando e sua filha Licka – Careca.
Despediram-se e o velho policial saiu em busca do carro olhando sempre em volta fez um caminho mais longo para evitar ser seguido, um velho hábito de policial esperto e bem vivido. Ligou o carro e saiu daquele lugar com a certeza de que havia pago sua última dívida com as pessoas que o sucederam.
Saiu em direção a ponte Rio-Niterói, passou pelo pedágio, pegou e BR 101 e ia para casa para descansar para sempre aquele espirito corroído desde a morte daquela família de pessoas boas, mas que atrapalhavam os negócios.
Nunca mais precisaria pensar naquele que ele sabia ter sido seu maior crime e participação em assassinatos de sua vida. Na sua cabeça, o portão, a tranca, os bombeiros e a casa em chamas.
Nem percebeu que estava sendo seguido e que no carro uns cinquenta metros atrás dois jovens o observavam. Eles falavam constantemente ao telefone celular informando os locais onde estavam ou que haviam passado. No final da Estrada do Contorno depois de passar pelo Posto Ipiranga Informaram a Téo a localização e ouviram a ordem.
- Chefia, passamos agora pelo posto de gás natural. Estamos na BR
Ouviram então uma voz feminina dizer: - Detonem e digam adeus a esse merda! – Que Exu o receba e guarde.
Eles assim o fizeram, uma grande explosão iluminou o céu negro da noite e pedaços de carro voaram em todas as direções. Uma bola de fogo ainda se arrastou por alguns metros e tudo parou.
Os marginais ainda passaram pelo carro em chamas virão que pessoas paravam para socorrer ou para saber o que estava acontecendo e no primeiro retorno entraram para dá outra pista agora muito engarrafada pudessem testificar o que haviam realizado.
- Missão cumprida e não se fala mais nisso. Né? Chefe!
Ali com a adrenalina a mil por hora, Téo e Cristina se abraçaram e nervosamente riram. Ninguém os culparia, um policial aposentado e cheio de processos pendentes na justiça não seria motivo de grandes investigações.
As caçadas terminariam ali naquela noite, não para atender pedido da polícia, mas porque a memória já estava cobrada.
Vida que segue, precisamos agora demonstrar que queremos a paz e negociar nossos produtos sem grandes pressões. A ordem será distribuição farta de “agrados” e “arregos” de modo a conter ideias de retaliações.
Ficamos segundos imóveis, não havia condenação nem absolvição, apenas o fim de uma trágica estória.
Saímos dali sem muito alarde e fomos pegar o carro na Avenida Princesa Isabel que estava guardado por dois dos “soldados” do tráfico. Nosso pessoal se desmobilizava de maneira vagarosa para evitar surpresas, mas nada aconteceu, o que nos deu a certeza de que nada seria feito e poderíamos dar por encerrado aquele assunto.
Não houve absolvição. Nem condenação. Apenas o fim do pesadelo de Angélica, de Licka Careca e de Cristina Fortaleza.
CAPÍTULO 19 — CARNAVAL
O sol se levanta todas as manhãs anunciando um novo dia e, com ele, a ilusão de um recomeço. A comunidade desperta para os trabalhos diários, corpos em movimento, destinos repetidos.
Na Fortaleza, o casal acorda consciente: a vida continua — e o comando também.
O Carnaval se aproxima.
Os salões exigirão presença. O Sambódromo cobrará resultado. No ano anterior houve tropeços, mas a Escola se manteve firme no grupo. Agora a ordem era clara: ir para a cabeça. Não havia espaço para erro.
Téo: - É hora de mostrarmos a nossa força, Cristina. O Carnaval é mais do que uma festa. É nossa chance de brilhar e ganhar muito dinheiro.
A comunidade fervilhava. Alas, fantasias, ensaios, convidados. Tudo precisava funcionar como engrenagem bem ajustada. O Carnaval não era apenas festa — era poder em movimento.
O recrutamento tornava-se fácil. Todos queriam participar. Precisávamos de braços, olhos, vozes, silêncio. Em várias frentes. Não se podia perder o comando. Nem esquecer os protetores. Cada um queria garantir o seu antes do último tambor. Mas cabia a nós decidir quanto, como e quando.
Cristina: - Olha como todos estão animados! A energia aqui é contagiante.
O portão já não metia medo.
Pintado com as cores da Escola, parecia uma alegoria à espera do desfile. Um dia — ela tinha certeza — aquele portão seria o Abre-Alas, anunciando vitória, não proteção.
A pressão era enorme, mas o trabalho constante mantinha a comunidade ocupada e engajada. Dali sairiam novos colaboradores, novos fiéis, novos nomes.
Téo: A cada ensaio, sinto que estamos mais fortes e perto do objetivo. Precisamos que todos estejam unidos e participando.
Cristina: - Sim, e não podemos esquecer daqueles que se foram. Eles, estão conosco, de alguma forma.
O poder nunca dorme — apenas descansa.
Téo: - Vamos mostrar a todos que a Fortaleza é sinônimo de força e resiliência.
Ficamos mais um tempo deitados, sentindo cada centímetro do corpo recuperar-se, entregues a uma soneca breve e necessária. Não era descanso. Era preparação.
Mais uma vez, o verão carioca havia sido maravilhoso. A brisa leve trazia consigo o cheiro do mar e da festa que se aproximava, misturando esperança e determinação da comunidade.
E o morro seguia de pé, pronto para enfrentar desafios que o Carnaval prometia. A música já ecoava nas ruas, os negócios iam de vento em popa, a batida do coração da Fortaleza soava cada vez mais forte.
Morro de luz –
(Am F G)
Am G
O sol nasceu lá na fortaleza
F G
Iluminando nosso chão
Am G
No alto do morro nasce a
Certeza
F G
Que a fé é mais forte que a escuridão
Cristina é nome que vira
Bandeira
É força viva no coração
Fortaleza não é só trincheira
É amor virando proteção
Mesmo quando a noite pesa
A esperança vem lembrar
Que quem tem raiz na vida
Nunca deixa de lutar
REFRÃO
Am F
Eu sou, morro, sou raiz, sou
Resistencia
G G
Sou a voz que ninguém calou
Am F
Fortaleza é nossa essência
G G
É o amor que nunca acabou
Am F
Se o mundo fecha o portão de
Nossa estória
G G
A gente escreve com coração
Am F
Cristina é força, é vitória
G G
É luz guiando a direção
PONTE
Am G
Levanta a mão, sente essa emoção
F G
Canta forte essa união
Am G
Se a vida tenta derrubar
F G
Fortaleza vai nos levantar
Recolher