Eu chamo-me chamo Ana Rui, eu nasci em Mirandela, mas vivi a minha vida inteira aqui em Vila Flor, e nasci dia 5 de novembro de 2002.
E significa que tem?
Tenho 23 anos.
E os seus pais, como é que se chamam?
O meu pai chama-se Rui Machado. O meu pai é daqui de uma terra ao lado, pertence a Carrazeda de Ansiães. E a minha mãe chama-se Carla Rochas e é natural daqui de Vila Flor.
Daqui de Vila Flor, do centro, alguma aldeia?
A minha avó era mesmo de cá de Vila Flor, no centro. Eles tinham até a Pensão Roças, ali mesmo no centro da vila. E o meu avô é que era do Seixo de Manhoses, que é uma aldeia daqui de Vila Flor.
E os seus pais já viveram sempre aqui no centro?
O meu pai, quando conheceu a minha mãe, é que veio para cá, para Vila Flor.
E os seus pais, o que é que fizeram ou fazem profissionalmente?
O meu pai é técnico de feixe, trabalha na Altice, e a minha mãe iniciou a sua carreira a ser professora de ensino especial. Entretanto, a vida não lhe sorriu da melhor forma e ela emigrou para a França. E neste momento está lá a trabalhar. Está a fazer as limpezas, o trabalho mais normal de alguém que vai de Portugal para fora. E está feliz, é o que importa.
E há quanto tempo é que ela está lá?
Está há dois anos, vai fazer três anos agora.
E tem irmãos?
Tenho um irmão mais velho, que também está emigrado, que também está em França. Em início, o meu irmão fez o percurso dele escolar todo cá em Vila Flor, também. Ainda foi para a faculdade, depois viu que não era muito a coisa dele, estava mais para as festas do que para os estudos. Acabou por tirar um curso de hospedeiro de bordo. Conheceu a namorada nesse curso. Nenhum dos dois exerceu, porque não dava para fazer família. E depois emigraram.
Mas a mãe e o irmão estão em França, mas…
Estão em sítios diferentes.
E a casa onde vive? Não sei se é a casa onde sempre viveu.
Atualmente não, porque os meus pais estão divorciados, e vivi durante a...
Continuar leituraEu chamo-me chamo Ana Rui, eu nasci em Mirandela, mas vivi a minha vida inteira aqui em Vila Flor, e nasci dia 5 de novembro de 2002.
E significa que tem?
Tenho 23 anos.
E os seus pais, como é que se chamam?
O meu pai chama-se Rui Machado. O meu pai é daqui de uma terra ao lado, pertence a Carrazeda de Ansiães. E a minha mãe chama-se Carla Rochas e é natural daqui de Vila Flor.
Daqui de Vila Flor, do centro, alguma aldeia?
A minha avó era mesmo de cá de Vila Flor, no centro. Eles tinham até a Pensão Roças, ali mesmo no centro da vila. E o meu avô é que era do Seixo de Manhoses, que é uma aldeia daqui de Vila Flor.
E os seus pais já viveram sempre aqui no centro?
O meu pai, quando conheceu a minha mãe, é que veio para cá, para Vila Flor.
E os seus pais, o que é que fizeram ou fazem profissionalmente?
O meu pai é técnico de feixe, trabalha na Altice, e a minha mãe iniciou a sua carreira a ser professora de ensino especial. Entretanto, a vida não lhe sorriu da melhor forma e ela emigrou para a França. E neste momento está lá a trabalhar. Está a fazer as limpezas, o trabalho mais normal de alguém que vai de Portugal para fora. E está feliz, é o que importa.
E há quanto tempo é que ela está lá?
Está há dois anos, vai fazer três anos agora.
E tem irmãos?
Tenho um irmão mais velho, que também está emigrado, que também está em França. Em início, o meu irmão fez o percurso dele escolar todo cá em Vila Flor, também. Ainda foi para a faculdade, depois viu que não era muito a coisa dele, estava mais para as festas do que para os estudos. Acabou por tirar um curso de hospedeiro de bordo. Conheceu a namorada nesse curso. Nenhum dos dois exerceu, porque não dava para fazer família. E depois emigraram.
Mas a mãe e o irmão estão em França, mas…
Estão em sítios diferentes.
E a casa onde vive? Não sei se é a casa onde sempre viveu.
Atualmente não, porque os meus pais estão divorciados, e vivi durante a minha vida inteira na nossa casa de família. Entretanto, os meus pais divorciaram-se. O meu pai é que saiu e continuei a viver lá. Agora, quando a minha mãe emigrou, eu vim para a casa do meu pai.
Vamos à infância, à casa da infância. Lembra-se da casa?
Perfeitamente.
Como é que era a casa?
É muito engraçado, porque a minha casa é o menos um, neste caso. O rés-do-chão é a casa do meu avô, e por cima era a casa da minha madrinha. Foram os meus avós que construíram as três casas e que fizeram a divisão depois pelas duas filhas, que era a minha mãe e a minha madrinha. Eu lembro-me como se fosse hoje o jardim, cá fora, as horas que passávamos a jogar à bola, eu e o meu irmão. Tenho muito boas memórias daquela casa, muito boas memórias.
Isso realmente é especial, porque estavam todos, a família estava toda junta.
Sempre. E nas festas, nos batizados, nas primeiras comunhões, toda a gente se juntava ali naquela casa. Era uma família muito grande, éramos muitos. E toda a gente estava ali. Era mesmo uma festa.
Que giro. E, então, para além de jogar à bola com o irmão, o que é que gostava de fazer quando era criança?
Andava de bicicleta. Eu lembro-me que o meu irmão obrigava-me a não ficar em casa. Na altura, já queria, o meu pai trabalhava na Altice, fomos os primeiros a ter o Disney Channel, e não sei o quê. Eu queria passar horas a ver televisão. Não queria fazer mais nada, só queria ver bonecos. O meu irmão obrigava-me a não ficar em casa. Vamos jogar à bola, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo. Depois tínhamos a sorte que a rua por baixo da minha casa é só um quarteirão, é a rua das garagens, não passam carros. Então nós podíamos ir para lá com as bicicletas, com as bolas, jogar raquetes, tudo e mais alguma coisa. Passávamos o nosso tempo assim.
E era mais só com o irmão ou com primos, vizinhos?
Tínhamos os vizinhos, também. Os nossos vizinhos, juntávamo-nos todos ali em baixo na rua. Saíamos de casa, íamos bater à porta do outro. Ah, não sei quem está em casa, vamos brincar todos ali para baixo. Às vezes as mães ficavam assim: “Bem, não era suposto. Pois, mas agora já estamos cá, tem de ser. Vamos brincar todos um bocadinho”.
Então, agradecemos ao irmão.
Exatamente, sem dúvida alguma.
Para além dessas brincadeiras, fazia mais alguma coisa com os pais ou assim? Da infância, o que é que se lembra mais? Para além das brincadeiras e da família?
Lembro-me da barragem. Tenho muitas memórias de irmos para o complexo turístico, passear, brincar, andar de bicicleta. Mesmo os meus pais levavam as bicicletas deles. Ficávamos lá a dar voltinhas à barragem. Era muito agradável. E na altura juntava-se lá muita gente. Então, os nossos amigos que nós costumávamos encontrar sempre na escola durante a semana, ao fim de semana juntava-se toda a gente ali também. Depois era a catequese, íamos à catequese, já íamos meios combinados, que depois da catequese encontrávamos em X sítio. É, foi assim, aqui foi mais isso.
Esse sorriso não engana!
É verdade.
E nessa altura, quando era criança, ainda, ou se calhar já tinha começado a escola ou não, mas pensava no que é que gostava de estudar ou fazer no futuro, de trabalho?
Eu queria ser cantora. Era o meu sonho, o que eu queria ser. Eu queria que a minha vida fosse uma festa, porque foi um bocado aquilo que eu fui habituada sempre. Os momentos bons, os momentos felizes, aproveitarmos os poucos momentos que na minha vida de criança eram imensos. Eu era super feliz. Mas sabia que com o crescer, com o passar da vida, que eventualmente não ia haver assim tanto tempo para nós aproveitarmos. Eu achava que os cantores aproveitavam sempre tudo. Estavam sempre felizes e sempre em festa. E era isso que eu queria ser por essa mesma razão.
Sim, que giro. E ainda ficando na infância, havia algum costume ou alguma tradição da família?
Eu acho que era mais, assim, os Natais, o dia da festa da vila, da festa do padroeiro, daqui de Vila Flor. Toda a gente se juntava depois da procissão. Era Natais, passava-se sempre na casa dos meus avós e ia família toda. Chegava a meia-noite, alguém se vestia de pai natal, as crianças vinham para a rua. Muitas prendas. É muito essas memórias que eu tenho assim em família, de tradição. É mesmo as épocas vestidas.
E eu não sei se lhe contavam histórias sobre a família, ou os avós, ou assim, ou os pais?
Eu tive a sorte de conhecer os meus bisavós, e de passar muito tempo com eles. Porque quando eu era miúda não fui para o infantário, nem nada dessas coisas. Eu estava na família. Se não era com a avó, era com a bisavó. Se não era com a tia, estávamos sempre, eu e o meu irmão, com uns ou com outros. E é essas histórias que eu lembro. Eu lembro-me que toda a gente diz que o meu bisavô Roças construiu um império, que tinha os táxis, tinha a pensão, tinha o restaurante a funcionar na pensão. Tinha uma oficina. Tudo ali no centro da vila, que era quase impossível as pessoas não pararem. Eu não me lembro. Eu não olhava para o meu bisavó como alguém que construiu um império. Eu olhava para o meu bisavó como alguém que pegava em mim e me levava para a serra, para os terrenos, para eu ir ver os cãezinhos todos que ele tinha lá para ir à caça, que para mim eram cãezinhos de estimação. Não eram para ir à caça. Era uma ideia muito diferente. Agora com a idade também, com a maturidade, comecei a olhar para as coisas e realmente percebo que a vida também não foi fácil para eles, mas eles conseguiram vingar de uma forma muito boa. E sem passarem por cima de ninguém. Acho que isso é muito importante. E levar isso comigo daqui para a frente também, como exemplo.
E como é que começou a ter essa noção? Que as coisas não tinham sido fáceis? São conversas entre a família?
São. Sim, sem dúvida. E ver agora que se calhar há alguns irmãos que não se dão tão bem com outros. As relações se calhar não se mantêm as mesmas que eram quando eu era criança. Não tem nada a ver. Eu própria se calhar já não tenho relação com essas pessoas como tinha antigamente. Mas parece que é algo que vem de dentro de nós. Que nos dá vontade de vingar, de vencer, de, realmente, não ficar com os braços cruzados à espera. E eu acho que para além de terem contado a história, que ajuda muito a meter a ideia dentro da nossa cabeça, a história repetir-se e repetir-se e repetir-se, mas depois chega uma altura que eu acho que já parte mesmo de dentro de mim. De eu olhar para as coisas e pensar, não, mas se eles conseguiram, eu acho que também vou conseguir. Acho que isso é muito uma ideia que foi passada dentro da família por todos nós.
Então, não precisou de ir para o infantário, tinha ali a família, o irmão, também. E quando entrou? Como é que foi a experiência de andar na escola?
Eu entrei primeiro na pré, estive um ano na pré para conhecer os meninos. Antes de entrar para o primeiro ano. E na pré foi incrível. Eu adorava as professoras, adorava as colegas, adorava tudo. Foi muito bom. No primeiro ano correu tudo super bem. Eu estudei ainda na escola velha aqui em Vila Flor. E só depois é que essa escola fechou e juntaram os meninos todos na escola nova. E quando eu fui para a escola nova a adaptação foi péssima. Eu não andava com as minhas colegas. Elas não se davam comigo, não gostavam de mim. Eu vinha da escola dos pobres, que era a escola de baixo. E havia assim um bocado uma barreira entre quem vinha da escola de baixo e quem já estava na escola de cima. E durante uns anos foi assim um bocado complicado. Se calhar, o meu terceiro ano escolar foi muito complicado a nível de bullying. Os miúdos são um bocado maus nas coisas que dizem. Nós também não temos noção daquilo que fazemos sentir nos outros. E foi um bocado complicado. Se bem que a partir do quarto ano, quando fui para o liceu, quinto ano, sexto, já foi muito melhor. Foi uma experiência muito boa no nível escolar.
Sim, marcou negativamente essa transição e essa relação com os colegas. Mas nesse primeiro ano pré-escolar, essa primeira lembrança de entrar na escola foi boa? Como estava muito ligada à família? Como é que foi?
Não, no primeiro ano foi muito bom. Eu estava muito ligada à família, mas a minha avó dizia-me... eu acho que fazia parte, ela ia-me buscar à cama de manhã quando eu era pequenina, andava comigo sempre nos braços a fazer tudo e sempre comigo ao colo. E estava-me sempre a dizer, não vejo a hora de tu ires para a escola, não vejo a hora de vais para a escola. Então, acho que na minha cabeça já estava pronta para ir para a escola, que eu já sabia que aquilo ia acabar eventualmente [risos].
Agora agradecemos à avó [risos].
Eu acho que ela ainda chorou mais do que eu, quando foi o meu primeiro dia de escola.
Eu acho que ela também se calhar estava a dizer aquilo a si própria, não é?
É, estava a mentalizar [risos].
E pronto, então essa primeira transição foi boa, depois aconteceram esses anos mais complicados. Mas houve alguma coisa que a tenha marcado para além disso? Positiva? Ou por exemplo, algum professor ou professora que a tenha marcado?
Havia ali um professor, que eu acho que acabou por marcar toda uma geração. Toda a gente, como quem eu falo, os meus amigos ainda agora toda a gente lembra daquele professor, da mesma forma. Que ele era muito rígido e brincava connosco de uma forma que nós não conseguíamos perceber. Nós éramos muito crianças. Eu lembro-me perfeitamente de uma altura que a minha avó me vestiu umas calças de flanela com umas rosas. Eu fui para a escola e o professor veio ao pé de mim e disse: “hoje vieste o pijama para a escola?”. Ficou tão marcado. Eu chorei tanto, tanto, tanto. Eu cheguei à escola e a minha avó dizia: “pronto, vamos lá falar com o professor, porque isto não pode ser assim”. “Não, não podes ir falar com o professor. Se vais falar com o professor, ele vai gozar comigo para sempre”. Depois acabou por se resolver. Eu até tinha uma boa relação com ele. Há muita gente que não tem. Há muitos jovens da minha idade que ainda hoje sentem que não tinham uma boa relação. Até pode ter mudado o olhar deles em relação à escola. Mas eu até tinha uma boa relação com ele. Foi mais isso que ficou mesmo marcado, que eu ainda me lembro como se fosse hoje, estar a subir as casas da escola e ele estar lá em cima a dizer-me isso. Ainda me lembro mesmo como se fosse hoje.
Curioso. E alguém que a tenha marcado assim mais positivamente? Que tenha influenciado a forma como vê a escola ou até o futuro?
Eu acho que foi a minha avó. A minha avó materna. Porque na altura a minha mãe, como era professora, ela não dava aulas cá em Vila Flor, estava a trabalhar em Mogadouro. Então ela ficava lá durante a semana, só vinha ao fim-de-semana para cá. E o meu pai trabalhava na Altice e fazia muitas prevenções. Ou seja, sempre que fosse preciso ele ir trabalhar, ligavam e ele tinha de estar disposto a trabalhar. Eu e o meu irmão passamos uns bons 4 ou 5 anos que vivíamos só para os meus avós. E eu acho que a minha avó foi assim a pessoa que marcou mais a minha infância. Sem dúvida alguma. A minha avó e o meu avô. Depois quando a minha avó acabou por falecer muito nova, o meu avô teve de ficar a fazer o papel dela. E acho que eles foram assim as personagens mais importantes durante a minha infância.
E depois do primeiro ciclo, o segundo, terceiro, o secundário. O que é que pode partilhar sobre esse período da escola?
Eu acho que nenhum jovem, nenhum adolescente gosta de ir à escola. Eu gostava de ir à escola porque estavam lá os meus amigos, não era porque ia para a escola estudar. Eu gostava porque estava com os meus amigos. E o que eu tenho assim mais que me recordo mais da escola é mesmo os momentos todos que eu passava com os meus amigos. De sairmos dos intervalos da escola. Irmos para o parque. Voltarmos. Irmos ao café buscar gomas. Voltarmos para a escola. É um bocado isso que tenho de recordações daqui da escola até ao décimo segundo ano.
E durante esse período na escola, a dada altura, começou a pensar que, se calhar, cantora não ia ser [risos].
Não era [risos].
Quando é que começou a pensar outra vez sobre isso? Sobre o que é que podia ser o futuro?
Eu acho que foi ali, se calhar no 6º ou 7º ano, quando eu comecei a ver o meu irmão a ter de pensar sobre isso. E eu tinha de pensar também o que é que eu ia querer ser um dia mais tarde. Foi uma lista imensa de coisas. Médica, enfermeira. Acho que enfermeira foi a que durou assim mais tempo. Era o que eu queria ser, assim, mais, era enfermeira. Entretanto cheguei ao décimo, tinha de fazer a escolha, e matemática e física química não era o meu forte. E virei-me para as humanidades. E descobri o mundo social, que eu não tinha noção do que era, e que me apaixonou muito, desde sempre. E acho que, a partir daí, eu já sabia que fosse o que fosse que eu iria fazer, tinha de estar ligada a isso. Era algo que me motivava muito.
Alguma disciplina em particular, nessa altura?
Psicologia. A disciplina e o professor. O professor fazia muita diferença, porque não era só alguém que estava ali para nos ensinar matéria. Ele queria nos ensinar também como é que nós poderíamos olhar para a vida. E acho que fez uma diferença muito grande porque era um professor que não queria impor. Ele queria nos guiar, só. E acho que vai ser também, provavelmente, um dos únicos professores aqui na escola que me vai marcar para sempre.
Para além da psicologia, não sei se havia sociologia, não há em todas as escolas.
Não.
Então como é que entra aí a opção de sociologia?
A sociologia não entra como opção. No fundo, quando me candidatei para a faculdade, eu lembro-me de estar sentada em casa com a minha madrinha, e ela dizia: “o que é que tu queres seguir, então?”. Eu gostava muito de psicologia. Era aquilo que eu gostava mais. Portanto, psicologia era na Covilhã, Vila Real, que são aqui as zonas aqui mais perto. Eu não queria ir para o Porto, nem para Lisboa, porque sentia que isso ia trazer muita dificuldade para a vida dos meus pais, porque são cidades mais caras, o custo de vida é muito mais caro. E eu sabia que se fosse estudar para uma cidade mais pequena, que ia ser muito melhor para todos. E eu escolhi isso, na altura. Eu lembro-me que ela disse: “Pronto, temos aqui com Covilhã, Vila Real, então e as próximas opções?”. “Não há próximas opções. Se não for isto, eu não vou. Eu simplesmente não vou. Fico em casa e não quero tirar nada”. “Não, pelo amor de Deus, vamos procurar outra coisa”. Terceira opção, sociologia na Covilhã, e foi onde eu entrei. Eu lembro-me que cheguei lá, no primeiro ano de faculdade, passei o primeiro ano inteiro assim, eu ligava para a minha madrinha, que era quem me estava a acompanhar mais a nível dos estudos e académico, e dizia: “Eu não sei como é que eu vou acabar este curso, eu acho que isto não tem nada a ver comigo. Eu estou aqui, parece-me tudo cultura geral. Eu já devia saber isto antes de vir para cá”. E ela dizia-me: “Ana, olha, se tudo correr mal ao fim do primeiro ano, sempre podes tentar trocar de curso, e vês o que é que dá”. Ao fim do primeiro ano, quando chegou a altura de trocar de curso, eu disse que não queria.
Hum, hum.
Já me tinha afeiçoado muito àquele curso. Já estava a começar a gostar daquilo que estava a dar. Já estava a começar a ser mais específico. E eu disse: “Não, eu acho que vou ficar. Vou ficar por aqui. Se realmente gostar disto, vamos ver o que é que dá para fazer”. E ainda bem que fiquei.
E a transição do ensino secundário para a universidade significou assim muitas mudanças? Por exemplo, em métodos de estudo, não sei…
Sim, sim. Foi muito diferente. Eu sinto que os professores aqui gostavam que nós tivéssemos boas notas, e faziam pressão para nós estudarmos, para estarmos atentos nas aulas, para não estarmos a conversar. E quando saímos daqui para a faculdade, isso não acontece. O professor está lá para dar a aula e tu vais para casa e, se quiseres, aprendes.
É contigo.
Exato. E acho que foi uma diferença muito grande. Eu tive que aprender a ganhar métodos de estudo. Eu já tinha alguns aqui, mas era muito pouco, porque era para os exames, era para as provas de aferição, era para os exames do 9º ano, para os exames do 12º. Era para isso que eu estudava. Durante o ano acho que não sentia necessidade de estudar. Acabava por conseguir fazer tudo. E foi uma diferença muito grande na faculdade. Mas tudo foi uma diferença muito grande sair daqui para ir para a faculdade.
Então?
Eu acho que o que menos me fez alguma diferença foram as pessoas que eu conheci na Covilhã, porque sentia que a população lá é muito calorosa, como aqui. Recebem-nos bem, sabem receber, e acho que já tinha um bocado isso daqui de Vila Flor. Mas é tudo muito diferente. Sair de um sítio aqui onde eu podia sair às 10 da noite ou às 10 da manhã, qualquer coisa que me acontecesse na rua, mais rápido sabia a minha mãe por alguém do que ser eu contar. E eu estava na Covilhã e sentia necessidade de dizer aos meus pais: “Olha, eu vou sair hoje à noite, porque se me acontecer alguma coisa eu quero que vocês saibam onde é que eu estou”. Porque eu sabia que em Vila Flor eu não precisava de avisar. Havia sempre alguém que ia saber quem eu era, quem eram os meus pais e onde é que eu estava. E isso é um sentimento de segurança que nós temos aqui, que é muito diferente quando vamos para uma cidade. Ainda por cima naquela altura, aos 18 anos, onde é tudo novo, no fundo. Acho que a minha sorte foi ter apanhado essa transição na altura da COVID, quando não estava tudo tão liberto. Não havia tantas festas, não havia tanta noite, não podíamos ficar tanto tempo no café. E acho que isso ajudou um bocado a que eu conseguisse ganhar, realmente, métodos de estudo. Perceber que, ok, a faculdade é muito boa para fazeres amigos e para teres uma vida social, mas tu não estás aqui só para isso. E acho que foi o crucial para conseguir fazer essa distinção, porque eu sinto que olhava para os miúdos, caloiros, que entravam nos anos a seguir, eles não conseguiam ter essa distinção. Passaram tanto tempo fechados que, quando chegaram ali, abertos, num mundo novo, eles queriam viver tudo. Eu olhava para eles e sentia inveja. Eu também queria ter vivido assim, tudo. E eu não tive essa oportunidade, sequer [risos].
[risos] Quando entrou já estávamos em confinamento?
Fim do confinamento, já estávamos com os certificados.
Então ficou sempre lá, não teve que voltar para cá?
Não, não. A universidade ainda fechou, ainda voltamos para cá, ainda estivemos em casa a ter aulas online. Foi uma experiência péssima. Se já foi muito mau no 12º., ter aulas online, no primeiro ano de faculdade ainda foi pior. E que também não ajudou muito ao nível de motivação, de querer voltar depois para lá.
Claro.
Chegou a um momento que eu já estava a pensar, se calhar eu já não ia para a faculdade, agora já passei aqui tanto tempo em casa, isto até dá para fazer pelo computador. Mas ainda bem que fui. Para ganhar outras vivências, outra maturidade. Há muitos amigos meus que estão aqui em Vila Flor que não se saíram para estudar para fora, ou alguma coisa assim, e eu sinto que eles olham muito reto, aquilo que é dito aqui, feito aqui, para eles é certo, e é a única forma que toda a gente vive. Acho que me fez uma diferença enorme ter saído daqui e ter estado com gente de Portugal inteiro e até internacional, os meus amigos Erasmus, e assim. Fez-me ter uma visão muito diferente, se calhar a vida não é só o que se passa ali em Vila Flor, não é?
Sim, sim. Estava agora aqui a lembrar-me do que falou em termos de segurança. Quando se mudou para lá sentiu essa necessidade de avisar onde estava, porque sempre tinha sentido essa rede, nunca tinha estado num sítio onde ninguém sabia onde estava. Por outro lado, também sentiu isso, o contacto com outras pessoas. Estamos aqui a tentar fazer um paralelismo, da sua vida aqui e a vida lá. E também pode ter sentido, talvez, a primeira sensação de liberdade lá?
Mais ou menos. Acho que os meus pais nunca me prenderam muito aqui. Foi uma sorte que eu tive, porque tudo aquilo que levei para a faculdade, para alguns colegas meus era uma novidade. Eu já sabia mais ou menos o que era, porque os meus pais já me deixavam sair aqui. Já havia amigos com carta que nos levavam para as semanas académicas de Bragança, e assim. Eu já tinha um bocado a noção do que era. Acho que aquilo que me custou mais era que eu aqui saía durante a semana para ir tomar um cafezinho com os meus amigos e voltava para casa às 10 da noite, mas as eu saia e não precisava ligar a ninguém a dizer, porque eu chegava ao café e se não tivesse lá nenhum amigo meu, o dono do café era meu amigo. Eu conhecia, conversava. Podia-me sentar lá ao balcão, tomar o meu café e está tudo bem. E um dos maiores medos que eu tive era chegar à Covilhã e não chegar a ter isso. Ou então até fazer amigos que não tivessem esse mesmo hábito que eu. Por exemplo, ir tomar café depois de jantar. E eu pensava, agora vou ter de ir até ao café sozinha. Chego lá e o dono do café não me conhece. E eu não o conheço. É tomar o café e vir embora. Isso nem é fixe.
[Risos]
Não é o ato de ir tomar o café. Não é pelo café.
Ainda na faculdade. Viver com outras pessoas, aí foi a primeira vez.
Foi.
Como é que isso correu? Foi algo que tenha marcado?
Inicialmente, no meu primeiro ano, eu vivia com três raparigas, que eram as três do norte. E nós sentíamos muito essa ligação, de estarmos deslocadas de casa, sermos as três da mesma zona. E eram viagens longas, imensas, tanto as minhas como as delas. E apoiámo-nos muito umas nas outras em relação a isso. Jantávamos sempre juntas. Sempre que dava para almoçarmos juntas, almoçávamos juntas. Criámos ali meio que uma irmandade durante o primeiro ano. Entretanto, eu conheci os meus amigos, conheci a minha madrinha de faculdade. E, a partir daí, fui viver com ela. Vivíamos eu, ela e partilhávamos casa com mais uma pessoa, e foi uma experiência incrível. Foi incrível, nós dávamo-nos muito bem. Conseguíamos gerir tudo lá dentro de casa sem problemas nenhuns. A senhoria era 5 estrelas connosco, era quase como se fosse nossa mãe. Ela já ia lá durante a semana só para ver se estava tudo bem connosco. Em relação a partilhar casa, acho que foi uma experiência muito boa, não tenho razão de queixa.
E o que é que podemos dizer que tenha marcado em termos mais do curso, da sociologia em si, durante o período em que estudou?
Foi um professor, que é atualmente o meu orientador da tese de mestrado, e eu lembro-me de ter esta conversa com ele e de dizer que provavelmente ao fim do primeiro ano eu ia trocar de curso. Que gostava muito da cadeira dele e gostava da forma como ele lecionava, mas provavelmente eu ia trocar de curso porque não me imaginava a ser socióloga. E ele disse-me: “Eu também não. Nunca me imaginei. E olha onde é que estamos agora”. E acho que isso deixou-me a pensar, que às vezes aquilo que eu tenho traçado na minha vida, ou que eu acho na minha cabeça que é o mais certo para mim, poderá às vezes nem ser o mais indicado. E foi só isso. Não foi nada no curso em si. Eu acho que eu só comecei a gostar do curso quando comecei o terceiro ano. Eu até fazia as coisas, interessava-me pela matéria porque, é a tal coisa, a parte do social que sempre me puxou um bocadinho. Antes não havia ali assim nada em específico que eu dissesse: “é isto que eu quero fazer, quero me agarrar a esta parte e trabalhar isso daqui para a frente”. Só no terceiro ano é que eu senti isso.
E agora o mestrado, é integrado, não?
Não.
Porque é que decidiu fazer o mestrado e qual é o tema?
No meu terceiro ano de faculdade tive essa tal cadeira que me prendeu muito e que realmente eu vi que, se houvesse alguma forma em que eu pudesse agir dentro da Sociologia, poderia ser isso, que é a cadeira de Sociologia da Juventude, que me puxou sempre muito. E o meu mestrado é exclusões e políticas sociais, jovens excluídos, políticas sociais para jovens. Acho que é aquilo que eu mais gosto, que tenho mesmo interesse e que sinto que faz falta, porque os jovens são os adultos da manhã, não é? São eles que vão fazer o mundo. E se nós não olharmos também para eles na altura em que temos de olhar para eles, eventualmente vão nos dizer “olha os adultos que nós temos atualmente”. Pois, mas quando eles eram jovens ninguém pensou neles. E acho que foi isso que realmente me prendeu mais, que me fez gostar da Sociologia, que me fez continuar o mestrado. E a minha tese vai ser um bocado relacionada com isso, com o papel dos jovens na sociedade, principalmente aqui em Vila Flor.
E como é que está a correr?
Está a correr bem. Está um bocado complicado agora que o meu orientador teve um ano de sabática. Vai demorar um bocado até ele estar a 100% de volta, mas quero começar a aplicar os inquéritos aqui na escola. Acho que vai ser uma mais-valia não só para mim, para o meu percurso académico, eventualmente se puder apresentar os resultados ao município, daquilo que retirei do estudo. Acho que poderá fazer alguma diferença também na vida dos jovens daqui de Vila Flor, se puder ajudar de alguma forma.
E então, essa relação com essa disciplina e com essa temática, também está a fazê-la pensar em termos profissionais.
Sim.
O que é que se imagina a fazer?
Eu gostava mesmo de trabalhar com jovens em situação de exclusão. Numa CPCJ, por exemplo, outras instituições. Acho que era assim o meu trabalho de sonho. Se eu acho que vou ter oportunidade de fazer isso, eu acho que não, mas quero muito.
Então, porquê?
Não sei. Sinto que nestas zonas pequenas os lugares já são muito destinados às pessoas. Não há um concurso que abra sem se saber já quem é que vai trabalhar para lá, por exemplo. Não sei se é uma ideia errada que me passa aqui, mas a realidade é que toda a gente pensa a mesma coisa e acaba por realmente acontecer. Eu gostava muito de trabalhar na minha área, mas sinto que já estou a lutar contra o sistema.
Mas há alguma instituição em particular aqui que gostava de ficar? Aqui em Vila Flor?
Não. Já não sinto tanto essa… a sensação de ter de estar aqui presa, de ficar aqui. Acho que o facto de ter ido estudar para fora ajudou-me muito. É pensar que, realmente, a minha zona de conforto às vezes pode não ser a melhor coisa para o meu futuro. E já não penso que assim, pronto, olha agora voltei para Vila Flor tenho de ficar por aqui. Não.
Estava a falar então que pode haver alguns entraves relacionados com o número de oportunidades e às vezes as oportunidades já poderem estar de alguma forma direcionadas para alguém.
Parece que quando lá uma vaga ou um posto de trabalho, já tem um bocado garantido quem é a pessoa que vai para lá. Eu não gosto muito de pensar nessa ideia, dessa forma, porque revolta mesmo. Nós já estamos num sítio onde as oportunidades são poucas são, como nós dizemos aqui, 50 cães a um osso. E, mesmo assim, torna-se difícil porque eu sendo jovem, no auge dos meus 23 anos, licenciada há 3 anos, tenho a certeza que qualquer pessoa vai entrar na minha frente, principalmente aqui, porque descredibilizam um bocado o facto de nós sermos jovens e não termos experiência. Mas nós temos muita vontade de aprender e eu acho que é isso que falta um bocado nas autarquias, principalmente nestas zonas pequenas de Vila Flor, é dar-nos oportunidade, dar um bocado de voz aos jovens, porque às vezes aquilo que nós dizemos não é assim tão descabido.
E na eventualidade não conseguimos iniciar o teu percurso profissional aqui, ponderas ir para fora? Para um sítio em particular?
Sim, foi um bocado a ajuda que me deu a faculdade, de descobrir realmente que a minha zona de conforto não é só aquilo que eu conheço, e que é muito mais desafiador, às vezes, viver o inesperado, o que nós não conhecemos. Então, já não sinto que tenha de ficar aqui em Vila Flor. Gostava muito, gostava muito, sinto-me muito bem aqui, sinto-me em casa, mas santos da casa não fazem milagres, é o que também dizem aqui. Então, se calhar até é uma melhor opção, muito melhor opção procurar fora ou ir trabalhar para fora, do que realmente ficar à espera que haja uma oportunidade para mim aqui, que eu crie uma oportunidade para mim aqui, porque não é assim tão fácil.
Claro. Mas para algum sítio em particular? O sítio onde estudaste ou alguma terra aqui mais perto?
Eu gosto muito da cidade onde estudei, não me importava nada de ir para lá, mas acho que não tenho nenhuma preferência. Teria de ser um sítio mais pequeno, estou habituada a esta calma, gosto muito desta calma. Algo que me fez muito bem quando fui para a faculdade, foi que o meu polo era quase como uma vila à parte da cidade, eu sentia esta calma que tenho aqui e é um hábito muito bom que eu tenho e que não queria perder. Não me imagino numa cidade grande, por exemplo, Porto, Coimbra ou Lisboa acho que já não seria o meu primeiro foco.
Muito bem. Quanto tempo falta para terminar mestrado?
Agora já só é o tempo de entregar a tese, é ver se isso demora ou se não demora, espero bem que não [risos], mas só falta mesmo entregar a tese.
Então em breve, se calhar, vai começar a pensar em concorrer a alguma coisa.
Sim. Eu já tenho concorrido, com a parte da licenciatura, mesmo que não seja para abrir uma porta, mas até para eu própria saber o que é que é, como é que funcionam os concursos e tudo. Mais vale começar já do que estar à espera de ter o mestrado para poder me candidatar para algum trabalho.
E é assim em zonas mais perto e mais pequenas?
É, tem sido sempre aqui à volta.
E experiência profissional, já teve alguma, mesmo que tenha sido um trabalho de verão ou ajudar algum familiar em algum sítio?
Na minha área?
Não precisa de ser na sua área. Qualquer coisa que tenha feito.
Já. Nos meus primeiros anos de faculdade aproveitava os verões para estar aqui no ATL com os miúdos. Era monitora no ATL e gostava muito. Também me ajudou muito a ligar aos jovens, porque gosto de passar tempo com as crianças e perceber o que é que eles dizem. Gosto de estar dentro disso. Fora isso, neste momento tenho uma sociedade com o meu pai, temos o bar das piscinas aqui em Vila Flor, que também é restaurante, estamos a explorar e acho que está a correr muito bem. Eu estou lá a trabalhar agora a tempo inteiro e está a correr muito bem. Não é se calhar aquilo que eu me imaginava fazer para sempre, mas não desgosto e acho que também é muito importante nós estarmos felizes naquilo que estamos a fazer.
Nos tempos livres, o que é que costuma fazer? O que é que gosta de fazer?
O ginásio. Acho que é o meu maior vício, atualmente. E gosto mesmo muito de passar tempo com os meus amigos. Quando vim embora da Covilhã pensei que ia ficar com muita falta disso, de passar tempo com os meus amigos que tinha lá, e continuo a ter muitas saudades deles, mas gosto mesmo de passar tempo de qualidade com as pessoas, às vezes só estarmos numa esplanada, num sítio qualquer a ver uma vista bonita, estarmos à conversa… sempre que tenho uma oportunidade para poder estar com eles, é tudo bom.
E agora fez-me lembrar aquilo que estava a dizer que os momentos das festas, a festa do verão, que eram momentos muito importantes na infância e imagino também quando era jovem, para os amigos. E mantém-se?
Mantém-se. Eu acho que é sempre. Por exemplo, o meu irmão está em emigrado, está em França e ele escolhe as férias dele de forma a conseguir apanhar a festa da vila. Não é nada por aí além, a festa, não tem nada por aí além. É o convívio, é estar cá toda a gente. Por exemplo, as pessoas dizem que o melhor fim-de-semana para sair aqui, a melhor noite que há em Vila Flor é a noite do fim-de-semana da Páscoa, ou o sábado antes do domingo de Páscoa, porque toda a gente vem passar a Páscoa com a família, o pessoal que está fora, e toda a gente se junta normalmente no sábado à noite, num cafezinho ou no outro. E acho que as pessoas aqui têm muito esse… pertencemos todos ao mesmo e esses momentos em que podemos estar pela nossa terra, toda a gente, está principalmente nas festas.
E o grupo de amigos? Raparigas, rapazes…
Rapazes, essencialmente. Durante muito tempo tive um grupo na escola, até para aí ao quinto e sexto ano tinha um grupo de amigas, continuo a ter contacto com elas e continuamos a darmo-nos muito bem. Só que eu sinto que muitas das raparigas da minha idade, quando tiveram a oportunidade de sair daqui para ir para a faculdade, nunca mais pensaram em voltar. Não é de toda a primeira opção, enquanto que os rapazes até vão ficando, já nem vão para a faculdade, outros vão e voltam. Eu acabei por ir e voltar também e foi uma sorte, que eu sempre me dei com os rapazes e o meu grupo de amigos é maioritariamente rapazes.
A mãe emigrou, não é? Eu não sei se alguma vez passou pela cabeça fazer o mesmo.
Sim. Não tanto por causa da minha mãe, porque a minha mãe emigrou quase por obrigação, ela não queria mesmo fazê-lo, mas um bocado pelo meu irmão e pela experiência que ele mostra, de um jovem que consegue ter um estilo de vida totalmente diferente do que aquele que ele tinha aqui, e acho que isso me dá um bichinho maior, do tipo, até podia estar lá a viver um bocadinho melhor, receber um bocadinho mais, ter outro à-vontade, ter outra qualidade de vida. Mas isso implicaria estar lá.
Hum, hum.
E sair daqui é sempre complicado. É mesmo. As pessoas pensam: “agora não podes ir embora, vais deixar aqui o teu pai sozinho”. O meu pai não ficaria sozinho, nunca seria pelo meu pai estar sozinho, seria por eu estar a sair daqui e sentir, mais uma vez, que ia abandonar as minhas raízes. Eu já tive essa sensação, depois daquela altura da COVID, em que tivemos de regressar à faculdade, eu já pensava: “mas o que é que eu vou para lá fazer outra vez? eu sou é de cá”. Acho que já é um bocado a sensação que tenho agora em relação a emigrar. Eu já penso, se eu for, vou ser mais uma a abandonar isto. Se nós formos todas com esse pensamento, Vila Flor daqui uns dias vai ser um deserto.
Sim. Mas ainda assim está aí, não é?
Acaba por estar sempre, é sempre uma opção porque, realmente, me dá uma outra qualidade de vida que aqui não consigo ter, por mais que tenha muita qualidade de vida aqui em Vila Flor.
Mas pensa, por exemplo, em condições de trabalho? A remuneração?
Essencialmente, a remuneração. Eu gosto do meu trabalho. Não é a minha área, aquilo que estou a fazer agora, mas eu gosto do que estou a fazer. E acho que mesmo que fosse para fora, ia continuar a não conseguir ter tanta facilidade em ter trabalho na minha área. Mas, mesmo assim, a remuneração vai sempre fazer uma diferença, quando a vida está cara para toda a gente.
Claro. É uma balança difícil não é?
É.
E, se calhar, também o medo do desemprego ou de ficar muito à procura, não sei se isso também pesa, se isso já é uma coisa que está a preocupá-la ou não.
Já é porque, se eu não tenho quase despesas nenhumas, vivo em casa do meu pai, o meu ordenado para chegar ao fim do mês, já tem que ser muito apertadinho, imagino se eu tivesse que sair daqui, com o pouco dinheiro que tenho junto, e tentar pensar em arranjar trabalhos dentro dessas condições… assusta.
Claro, o mercado de habitação está assustador em todo o lado, não é?
Exato.
Pegando agora um bocadinho no nome do projeto, que é a Vila Flor no Feminino, pensando no seu percurso de vida, naquilo que mais tem significado para si… o que é que tem significado para si ser mulher? Ou que significados é que atribui ao facto de ser mulher?
45 Resiliência, essencialmente, e garra. Parece um bocado cliché, toda a gente diz que as mulheres são força, as mulheres são garra, as mulheres são símbolo de coragem. Nós somos, mesmo. Não é mentira, não é cliché, é mesma a realidade. É difícil ser mulher, é difícil ser mulher em Portugal. Se calhar não é tão difícil ser mulher em Vila Flor e no interior, mas é difícil ser mulher em Portugal e na sociedade e no mundo que nós vivemos atualmente. Acho que aqui em Vila Flor temos muitos bons exemplos de mulheres resilientes e com muita garra e que nos mostraram que realmente ser mulher, e ser mulher vilaflorense, vai ter um peso diferente. Sei lá, na nossa vida, carregar o nome da minha terra, sendo eu mulher, um dia mais tarde, lá fora, acho que é algo que me iria dar muito orgulho. E não querendo desvalorizar, mas normalmente os homens é que estão nesses lugares de poder, nesses lugares de foco, em que toda a gente olha para eles. É mais difícil ser uma mulher. Então ser uma mulher, ser do interior, numa terra pequena onde há poucas oportunidades e conseguir vingar, é uma forma de resiliência que eu acho que é muito incomparável… Se calhar nas cidades grandes, não sei, não tenho essa noção, não vivi lá, não consigo ter essa perspetiva, mas sinto que uma mulher de Vila Flor é muito diferente de uma mulher da Covilhã, por exemplo.
Em quê?
Na garra. As mulheres aqui vão à luta, as mulheres aqui trabalham como os homens trabalham, aqui não há uma diferença. Por exemplo, continuam a ver as jeiras, continua um homem a receber uma jeira de homem e uma mulher a receber uma jeira de mulher, mas há muitas mulheres a trabalharem mais no campo do que trabalham os homens. As mulheres não têm trabalhos de peso, mas têm trabalhos repetitivos, onde estão sempre na mesma posição, sempre amarradas e elas vão! E continuam a ir não há “ai, que este trabalho não é para mim, devia ser outra pessoa a fazer isto”. Elas vão na mesma e elas fazem. E se for preciso fazer o trabalho do homem, também fazem o trabalho do homem. É um bocado a ideia que eu tenho das mulheres, principalmente aqui nesta zona no interior de Trás-os-Montes.
É curioso quando eu lhe perguntei esta pergunta, focou-se na mulher, não é só na mulher em geral, mas na mulher daqui, e começou a dizer que era mais fácil ser mulher aqui, ou eu percebi mal?
Eu acho que sim, porque eu nunca me senti… nunca me senti assediada em Vila Flor e já me senti assediada fora daqui. Há, se calhar, comentários que são com segundas intenções, mas eu nunca ouvi nenhum comentário feito diretamente a mim que eu tenha sentido que foi com outra intenção do que aquilo que foi propriamente dito. Eu acho que aqui há um respeito muito grande dos homens pelas mulheres, ainda. E se isso se mantiver para as crianças, para os jovens e mesmo para a malta da minha geração, era muito bom porque o homem aqui continua a ter um certo respeito pela mulher. Claro que há de tudo, não é? Como em todos os sítios, mas sinto que culturalmente e geralmente ainda há um respeito muito grande do homem pela mulher aqui. Aqui em Vila Flor eu sinto muito isso.
Nesse aspeto é uma coisa boa.
É uma mais-valia, sem dúvida.
Então, se eu percebi bem, parece que há uma espécie de um traço de personalidade, que é essa força que traz daqui desta zona? É?
Sim, eu acho que é, sem dúvida. Está intrínseco, exatamente. É a história, é algo que nos vão contando, é as histórias que nós ouvimos, é os exemplos de umas mulheres e os exemplos de outras mulheres, e nós vemos que ser mulher é difícil e temos noção disso por tudo aquilo que nos chega, todas as notícias, toda a informação que já conseguimos reunir neste momento, sabemos que ser mulher é difícil. Mas também sabemos que as mulheres do Norte não se deixam ir abaixo tão facilmente. Sei lá, não queria estar a fazer um termo de comparação, mas pelo menos essa força, esse traço de personalidade, como você tinha dito, eu acho que é mesmo real, está mesmo dentro de nós, é intrínseco e não dá para explicar.
Pensando agora no futuro - sem ser o profissional, já falamos aqui um bocadinho - que outros sonhos é que tem?
49Quero muito conhecer o mundo. Os meus pais sempre me disseram desde criança que o saber não ocupa lugar e eu durante muito tempo achava que estudar era mesmo chato, e conhecer era tão chato, e agora não, acho que é mesmo real. Se há alguma coisa que não ocupa lugar, não ocupa espaço e nunca é demais, é o conhecimento. Nós podermos chegar a um sítio e dizer sei o que está a acontecer aqui, eu sei porque é que está feito desta forma, acho que é muito importante. E… conhecer o mundo, ter outras expectativas, outras realidades, conseguir ver o que as outras pessoas fazem, a forma como eles vivem, muda muito a forma como nós vamos viver daí para a frente. Acho que sonho, um maior sonho é mesmo poder viajar o mundo e ter muita noção das culturas dos outros países.
E também só recuando um bocadinho estávamos a falar da questão da personalidade, e uma ideia, uma pergunta, que me surgiu, foi se acha que há alguma ideia preconcebida, como viveu fora, preconcebida das pessoas aqui desta zona…se se deparou com isso. Por exemplo, na altura da faculdade.
Sim, principalmente quando nós chegávamos e dizíamos “sou de Vila Flor”, ninguém sabia onde era Vila Flor, e eu recusava-me a dizer que era de Bragança. “Sou de Vila Flor, não sou de Bragança, sou de Vila Flor no distrito de Bragança”. “Ah, essa malta aí, vocês ainda andam a cavalo”, ou “a internet já chegou lá?”. Sim, nós vivemos normal como as outras pessoas. Mas depois também dou por mim, às vezes, lembro-me que fiz uma viagem há pouco tempo com a minha madrinha até Beja, estávamos a passar no Alentejo, eu olhava à volta e pensava como é que essas pessoas vivem aqui nessas terras tão pequenas, eles não estão ligados a nada, parece que estão aqui presos, longe de tudo. Em Vila Flor é igual, no fundo acaba por ser igual, e se nós conseguimos ter essas ligações tão fortes aqui dentro, acredito que seja igual nos outros sítios, só que acho que é isso, as pessoas vão ter sempre essa ideia preconcebida de que os de Trás-os-Montes dizem muitas asneiras, são brutos, é… gente assim que não pensa duas vezes antes de falar. Acho que não é bem assim. Acho que já foi assim, agora já não é, conseguirmos evoluir como todos os outros sítios.
Claro, todos nós temos ideias preconcebidas, seja de Lisboa, do Porto, mas pronto, se teria sentido alguma coisa mais na pele.
Eu acho que brutos nós somos, brutos nós somos, nós dizemos muitos palavrões, sim senhora, mas eu acho que isso se trata de genuinidade. É um povo aqui que nós não estamos preocupados… estamos sempre, mas muito menos com o que com aquilo que as outras pessoas vão pensar sobre nós. Acho que se eu estou no café, e eu tenho de dizer no café que isto me está a irritar, eu vou dizer no café que isto me está a irritar, não vou levar o desaforo para casa, e acho que isso é muito traço da personalidade daqui, sem dúvida.
Como é que foi contar a sua história?
Foi bom, foi agradável. Foi… foi uma viagem. Havia certas coisas que eu já não me lembrava sequer de falar, passarem pela minha cabeça as memórias, as imagens, a cara das pessoas foi muito agradável.
Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
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