Projeto Memória das Águas, Rios e Ruas
Entrevista de Quintino José Viana
Entrevistado por Bruna Oliveira (P/1) e Levi Andrade (P/2)
São Paulo, 3 de junho de 2026.
Entrevista RIO HV010
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Adyel Beatriz
Revisada por Levi Andrade
[00:22] P/1 – Para começar, peço que você se apresente, falando seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R – Meu nome é Quintino José Viana. Nasci em 1944, em Minas Gerais, numa localidade chamada Derrubadinha, no município de Governador Valadares. Mas meus documentos saíram de Resplendor, Minas Gerais, porque a gente morava lá, e naquela época era difícil tirar documento — a gente tirava onde dava.
[01:00] P/1 – Resplendor era perto?
R – Não, é bem longe — três horas de viagem de trem. Não tinha ônibus, só aquele trem a vapor, a Maria Fumaça [trem movido a lenha, cuja fumaça lembrava o cachimbo de uma personagem chamada Maria Fumaça]. A lenha gerava o vapor que conduzia o trem.
[01:29] P/1 – Me conta o nome dos seus pais.
R – Hoje eu trabalho com meio ambiente. Antes eu trabalhava com obras, mas sempre tive esse lado do meio ambiente — foi a mensagem que recebi quando tinha 7 anos, e nunca esqueci. Desde então sigo esse trabalho de defesa do meio ambiente, ensinando as crianças o que é defender a natureza. A maioria das crianças, até hoje, não sabe o que é um pé de árvore, o que é uma fruta de qualidade — às vezes pegam até uma fruta envenenada. Então a gente dá palestras para elas. Fiz uma agora na Fábrica de Cultura, domingo passado, e foi um sucesso. Muitas crianças não conheciam aquilo. Eu segui a mensagem que recebi e nunca esqueci. As crianças adoram — batem palma, a gente faz perguntas para elas, ficam todas contentes. A gente dá uns presentinhos, dá mudinhas: "Você vai plantar essa muda aqui, vai colocar seu nome e vai cuidar dela." E elas cuidam. Aqui mesmo, na Macedo, fiz um trabalho com as crianças, dei umas mudas de ipê-branco para elas. Plantaram no Parque Linear e na escola Macedo 1, colocaram o nome delas na muda — cada uma sabia que aquela árvore era dela. Mesmo quando a escola está fechada, elas pulam o muro para ir lá cuidar da arvinha. A gente sempre incentiva: tem que continuar, tem que colocar isso na cabeça das crianças, que as escolas têm que fazer essa parte de educação ambiental. Há pouco tempo fui pedir autorização para levar crianças da escola para uma caminhada na Serra da Cantareira, para ensinar os tipos de árvore — conheço muitas. Mas a escola não autorizou. Falei: "Mas isso é a educação ambiental que vocês estão dando para as crianças." Tem que levar as crianças para verem como aquilo é importante, para que elas mesmas chamem a atenção de quem está fazendo o errado.
[05:39] P/1 – Me conta como era o nome da sua mãe.
R – Minha mãe se chamava Maria de Moura. Ela era de nação espanhola — meu pai era português. Ela falava um pouquinho misturado, mas dava para entender. Era muito caridosa.
[05:41] P/1 – E o seu pai, como se chamava?
R – Meu pai se chamava Quintino José Viana — por isso ele colocou meu nome assim. Ele tinha problema de hérnia e começou a fazer tratamento, mas tinha vergonha e ia adiando: "Vou primeiro limpar o lugar, fazer o plantio das roças, depois vou cuidar do tratamento." Foi adiando até que o problema piorou. Quando finalmente fez a operação, não resistiu. Faleceu quando eu tinha dois meses. Antes de morrer, ele disse: "Vou deixar meu nome registrado no meu filho." Por isso meu nome é o mesmo do meu pai.
[05:44] P/1 – Você tinha outros irmãos?
R – Tinha duas irmãs e mais um irmão, que mora no Mato Grosso — está com 84 anos, vive lá quieto. Minhas duas irmãs já faleceram: uma foi atropelada em Belo Horizonte, o carro bateu na cabeça dela e não teve salvamento. A outra teve uma doença e não resistiu. Meu irmão se chama Osmar José Viana, a irmã mais velha era Maria Joseliana e a mais nova, Emília Joseliana.
P/1 – Sua mãe criou vocês até que idade?
R – Minha mãe me criou desde os 2 meses. Depois ela se casou de novo, e fiquei com ela até os 7 anos. Foi quando aconteceu a história da mensagem que recebi.
[09:52] P/1 – Conta essa história da mensagem.
R – Essa é uma história muito bonita, e não invento nada. Eu tinha completado 7 anos e sentia que dependia muito da minha mãe, porque meu padrasto brigava com ela por causa de nós. Ele tinha filhos dele também e não gostava que minha mãe brigasse com eles, mas ele brigava com a gente. Achei aquilo errado. Falei para minha mãe: "Vou embora, vou cuidar da minha vida." Ela disse: "Não vai não, o que você vai fazer no mundo? Você ainda é pequeno." Eu falei: "Sou pequeno, mas sei me virar." Naquela época não tinha sacola, então peguei uma trouxinha de roupa e saí estrada afora. Andando, escutei uma voz muito linda que falou: "Menino, olhe para o céu." Olhei para um lado, para o outro, não vi nada. A voz repetiu: "Menino, olhe para o céu." Olhei de novo, e o céu se abriu — vi um formato de pedra, a coisa mais linda, um mundo de água, um mundo de mata verde, árvores lindas e cheias de flores, beija-flores, tudo numa alegria. A voz falou: "Siga seu caminho, que você vai ser feliz." Segui, e quando cheguei na frente, achei um fazendeiro chamado Armeda — esse fazendeiro morreu com uns 130 anos, foi a primeira pessoa que vi morrer com essa idade. Pedi emprego a ele. Ele brincou: "Mas como vou dar emprego a um menino desse tamanho? Você sabe andar a cavalo?" Eu disse: "Estou acostumado." Ele disse que o trabalho era cuidar dos animais, das vacas, tirar leite de manhã, prender os bezerros à tarde — e que tinha que levantar às 3 horas da manhã para juntar as vacas. Fiquei trabalhando com ele três anos. Ele não queria nem que eu saísse — tinha só uma filha, e eu fazia companhia, ajudava a buscar o gado e trazer os bezerros. Depois falei: "Agora vou embora, vou estudar." Ele disse: "Não vai, menino." Mas fui, para Governador Valadares. Lá comecei tirando areia do Rio Doce para ganhar a vida. Depois consegui trabalho num prédio que se transformou no Príncipe Hotel — foi onde conheci o cantor Roberto Carlos, que fez a inauguração do hotel. Fiquei trabalhando lá um bom tempo. Depois entrou um administrador muito chato. Os outros funcionários não queriam que eu saísse — "Você foi mandado para nós" —, mas saí e voltei a trabalhar com areia no Rio Doce. Comprei um barco e um porto — um ponto onde se carregava areia para vender. Depois fui trabalhar numa mineradora, onde formou uma greve muito grande. Tinha alojamento de solteiro e de casado. Começaram a atacar o alojamento dos solteiros, botaram fogo. Os operários pegavam os fura-greve que atacavam os outros e jogavam no escritório da empresa. Veio a cavalaria, prenderam gente, e a greve foi contida. Depois fui para Juiz de Fora, servi o Exército, e fui para o Rio de Janeiro. Comecei a trabalhar na construção da Ponte Rio-Niterói. Cheguei lá sem conhecer ninguém, foi difícil achar emprego. Vi uma placa: precisava-se de mergulhador — pagavam cinco cruzeiros por dia, contra dois de um pedreiro, mas o trabalho era debaixo d"água, perigoso. Os outros candidatos desistiram. Eu falei: "Se for para morrer, morre aqui ou morre lá fora — vou me arriscar." No escritório me avisaram que era perigoso, que se trabalhava a até 20 metros de profundidade, fazendo sondagem para a base dos pilares da ponte. Eu descia num guincho, com ar comprimido nas costas, e ficava meia hora cavando lá no fundo — depois subia para o café, enquanto entrava outra turma. Trabalhei três meses nisso e nunca tive medo. Um dia, um operador de máquina me convidou para ser ajudante dele — abastecer a máquina, completar o nível de água no radiador. Em vinte dias já estava bom no guincho. O encarregado não gostava que ajudante operasse máquina, mas o operador, que gostava de uma cachaça, confiava em mim e me deixava trabalhar. Um dia o encarregado chegou e me viu operando — pensei: "Agora vou ser despedido." Mas não aconteceu nada. Pouco depois compraram uma máquina japonesa nova e me chamaram: "Você vai trabalhar nela." Aí me deram a carteira de operador. Já não entrava mais na água — ajudava a descer os materiais e vigas com guindaste, um trabalho mais leve. Graças a Deus, nunca aconteceu nada comigo, mas vi engenheiros morrerem ali. Uma vez alugaram uma máquina para uma obra de outra ponte. Cheguei de manhã e vi que a ponte estava com estalos. Avisei o engenheiro: "Essa ponte está caindo." Ele disse: "Você está ficando louco?" Avisei de novo às 9 horas. Ele me chamou de bêbado. Quando deu 11h30, um caminhão de concreto subiu na ponte, e ela caiu de uma vez — amassou vários carros e morreram três pessoas. Depois trabalhei na Petrobras, em Campos Elíseos, no Rio. Voltei para São Paulo e entrei na construção da primeira linha do metrô, Santana–Jabaquara, onde trabalhei quase 4 anos. Depois fui trabalhar na barragem de Santa Inês, lidando com água — e foi aí que comecei meu trabalho com meio ambiente. Comecei a dar instrução para as crianças, levando para plantar árvores e mostrando a qualidade da água. Até hoje falo com elas: têm que defender as nossas águas, porque não pode continuar o que acontece — cobram caro pela água e jogam água fora. Aqui no pé da Serra da Cantareira temos 25 nascentes de água. Na Vitória Régia tem mais oito nascentes, e no Córrego do Onça tem 23 nascentes — eu fiz a pesquisa de todas. Toda essa água poderia ser aproveitada, mas o que fazem? Juntam tudo no riacho e jogam esgoto dentro. Isso é crime ambiental. Mas o nosso país não tinha lei para isso — agora estão acordando. O volume de água que temos aqui no pé da Cantareira daria para abastecer quase metade de São Paulo. Há um tempo fiz a denúncia de uma obra de tubulação mal feita — colocaram o cano em cima e prenderam com pouco cimento. Falei: "Que serviço malfeito, quando vier a enchente isso vai ser levado." Disseram que não, que a água não tinha força para isso. Depois, numa reunião do conselho de habitação, encontrei o responsável e disse: "Eu não falei que isso ia cair?" Ele admitiu que sim, e aí começaram a fazer um reforço, colocando os pilares e tubos.
[25:00] P/1 – E como é essa área onde tem a bomba de gás?
R – É numa área da Macedo onde existe um lixão com mais de 60 anos. Ninguém resolve, porque o lixo está ali e a qualquer hora pode explodir o gás acumulado. Vieram conversar na unidade básica de saúde, dizendo que não existe gás — mas só colocaram dois tubos de saída no começo da ocupação e nunca deram manutenção. Quando o pessoal começou a fazer horta ali, retiraram os tubos, e o gás continua saindo. Aqui no pé da Cantareira já houve um lixão onde alguém, indo retirar cobre, botou fogo. Encheu a Macedo de poluição. O Corpo de Bombeiros veio três vezes e não conseguiu apagar. A Defesa Ambiental também não conseguiu. Disseram que só apagaria quando acabasse o gás — levou 30 dias. Essa área corre um perigo tremendo. Às vezes vêm fazer vistorias superficiais, mas não falam comigo — falam com a gestora da unidade básica, que não entende do assunto. Falei com ela: "Os técnicos têm que falar comigo, vocês não entendem disso." Faço pesquisa e tenho fotos do lixo gravadas, provando o que existe ali — está contaminando nossas águas, está soterrando o riacho.
[31:02] P/1 – Como o senhor faz essas pesquisas? O que motiva o senhor a pesquisar?
R – Eu pesquiso no Google — dou o endereço de onde está o problema e o Google vai me orientando. Mas eu já conheço a área: fui um dos fundadores da maior parte dos projetos que existem aqui. Quando cheguei, montaram umas casinhas de madeira, depois construíram a escola estadual Genésio de Almeida, depois as creches, porque não havia onde as mães deixarem os filhos para trabalhar. Trabalhei em todas essas obras — fui eletricista em algumas, pedreiro em outras. Por isso conheço onde tem lixão, onde tem gás. Onde tem gás, sai aquela linha de fogo. Um amigo meu mora de frente para um desses focos e vê o fogo saindo de cima. Isso é da época da administração do Maluf [Paulo Maluf, ex-prefeito de São Paulo], quando o pessoal começou a ocupar a área. Ele mandou tirar três vezes; o prefeito seguinte deixou o pessoal ficar. Foram morando, foram construindo. Tenho um amigo que fez um barraco lá. Falei: "Vocês não têm medo? Aqui tem gás debaixo." Ele disse que não. Peguei um cano de ferro, bati com uma marreta, e saiu uma chama de fogo. Falei: "Isso é gás saindo, evaporando e pegando fogo. Se eu acender aqui, a explosão pode matar todo mundo lá embaixo." Com o tempo, levei essa denúncia ao conselho de segurança — uma amiga minha mandou o documento para a Sabesp [Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo]. Vieram, fizeram sondagem, colocaram um respiro de ferro e nunca mais voltaram. Depois o pessoal que ocupou a área arrancou os canos e construiu casas por cima. Há uma quebrada nivelada que vai afundando, porque o lixo apodrece e desce, e o gás vai ficando abafado, esperando o dia de explodir. Na Vila Gavião, no lixão de lá, não pode entrar ninguém — nem com isqueiro ou celular, é proibido, porque pode explodir a qualquer momento. Tem gás queimando há mais de um ano numa tubulação ali, e o gás não acaba. E aqui na Macedo também tem um barracão construído sobre 8 metros de lixo — as paredes já racharam, o prédio caiu. A associação que usava o local teve que tirar um projeto com crianças por causa do risco. Há poucos meses me chamaram numa reunião, com pessoal da saúde e de associações, e perguntaram sobre um documento que enviei dizendo que havia foco de gás ali. Mostrei as provas. Um coordenador da saúde disse: "Seu Quintino está certo — ele entende do trabalho dele, sabe o que pode acontecer."
[38:50] P/1 – Como começou esse seu interesse pelas águas, pelas nascentes daqui?
R – A água é o que mais precisamos — sem ela não se bebe, ninguém aguenta três dias com calor sem água. Onde existe nascente, têm que fazer o tratamento dela e não deixar contaminar — o povo tem água em volta. A maior parte de São Paulo tomava água daqui da Serra da Cantareira. Temos as caixas d"água lá — inclusive fizemos uma reportagem com a Globo, porque sou conselheiro do PEC [Parque Estadual da Cantareira]. O coordenador achou ruim que eu levasse a Globo lá, mas o problema das caixas abandonadas precisava ser mostrado. São seis caixas d"água que mandavam água para nossos bairros, e hoje estão abandonadas — jogaram esgoto dentro delas. É a mensagem que passo para as crianças: vocês têm que proteger nossas águas — não são minhas, são de vocês. Eu tenho um pé de aroeira nativa aqui, perto da minha casa. Sou contra cortar uma árvore nativa, e foi o que fizeram comigo: recolhi setenta litros de semente dessa árvore e levei para plantar na Serra da Cantareira. Em três meses ela já dá frutos. Um dia a prefeitura veio com uma equipe para cortar essa árvore por uma denúncia de que estaria prejudicando algo. Eu disse: "Como vão cortar uma árvore nativa, que está conservando o nosso planeta? Ela não cresce muito, normalmente até 5 metros." Sem árvore nativa, a água também seca — como aconteceu numa grande seca no Nordeste, que matou a natureza. Eucalipto não é o que se deve plantar — espécies nativas como ipê, peroba, gabiroba, braúna e pau-jacaré [árvore cuja casca lembra a de um jacaré] são as que conservam nossas águas. Tem que ter bastante árvore nativa na beira das águas, porque ela conserva a terra. Quando a terra seca demais, a água seca também. Foi o que aconteceu em algumas regiões: tentaram colocar bombas para puxar água e não conseguiram, porque cortaram a mata. Quando o presidente Lula assumiu pela primeira vez, conseguiu trazer água para alguns lugares assim — mas é por causa do desmatamento que muitas regiões secam.
[44:37] P/1 – E na Serra da Cantareira, como você descobriu que tinha um monte de nascente lá?
R – Foi quando trabalhei na barragem de Santa Inês, fazendo manutenção das caixas d"água — a cada oito dias subíamos até lá. Foi assim que fomos descobrindo onde estavam as nascentes. Tem uma nascente lá de onde o pessoal leva tambores para buscar água — é muito melhor que a água tratada da Sabesp, sai gelada de debaixo de uma pedra.
R – Na horta que eu tinha, fiz o levantamento e encontrei seis nascentes de água natural. Falei para o pessoal: "Vocês são loucos — uma nascente dessas, eu não colocaria esgoto nela de jeito nenhum, eu aproveitaria." Nossas águas têm valor, mas a gente é obrigado a pagar pela água da Sabesp mesmo assim. Por isso digo que as nascentes, as águas e as florestas têm que ser respeitadas — e as autoridades têm a obrigação de respeitar e de ensinar a plantar as árvores certas. Outro dia tive uma discussão com um gerente da prefeitura: fiz uma denúncia de que um eucalipto estava caindo no meio dos carros — foi quando cortaram minha árvore. Falei para ele: "O senhor acha certo esse eucalipto ficar aqui? Ele está secando a terra — olhe como está seca. O eucalipto puxa toda a água da terra: corte um pé, deixe um toco dessa altura, coloque um balde de 20 litros embaixo, e ele enche de água sozinho, porque já puxou tudo da terra. Eucalipto não é planta para essa área." Falei: "Vocês precisam plantar árvores baixas, dessas que eu levo para as escolas — todas com o nome da espécie, espécies que podem ser plantadas dentro da capital, que atingem no máximo de 3 a 5 metros." Em áreas estreitas, árvores grandes não trazem ventilação de verdade — trazem dano: caem na rede elétrica, em carros, em pessoas. Um eucalipto já caiu em cima do carro de um amigo meu. Eu disse para ele reclamar na prefeitura, porque já tinha sido denunciado antes.
[49:15] P/1 – Quem contou ao senhor que o eucalipto puxa a água da terra, que as plantas nativas são boas para conservar a água? Onde o senhor descobriu isso?
R – Acompanho conferências e uso muito o Google — é o nosso melhor guia. Quando um engenheiro discorda, eu mostro que a informação procede. Já fiz desenhos dos riachos daqui propondo acabar com as enchentes: juntar todo o volume de água num piscinão. Disse a eles: "Em vez de fazer esse piscinão aqui, façam a galeria que falta na travessia da Cantareira-Sampaio, para a água correr livre e se juntar com o Córrego do Canivete, o Córrego do Ananás e o Córrego do Onça — cada um tem seu nome. Façam um piscinão grande lá embaixo, perto da ponte que vai para o Jardim Paraná, com um peneirão na entrada: toda a sujeira para ali, e uma máquina faz a manutenção, retirando o lixo."Quando dá tempestade forte aqui, ficamos três horas presos, porque não tem vazão. A Macedo só tem uma saída — agora abriram outra pelo Jardim Paraná, mas não dá para todo o tráfego.
[51:51] P/1 – Como começou a Ousadia Popular?
R – Quando havia a ideia de trazer um parque para cá — o Parque Ecológico —, eu olhava daqui de cima da minha laje aquela área com muita água e mata e pensava: "Tinha que se formar um parque, vamos criar uma associação." Formamos a associação eu, mais um amigo e uma vizinha. Falei: "Vamos ser ousados — Movimento Ousadia Popular." O movimento nasceu no ano 2000, e fomos divulgando, criando ideias. Na época eu também fazia um trabalho com o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] numa ocupação em Porto Velho. Cadastrei 150 famílias daqui do Córrego do Canivete para irem para lá; ficaram 97 lutando pela terra, e a posse foi aprovada — hoje trabalham em três hectares cada, com documento. Eu não fiquei lá, porque já tinha o movimento aqui. Antes eu tinha ouvido falar que o MST era "ladrão de terra", e falei: "Vou ver se é verdade." Entrei, conheci o pessoal e vi que conseguimos posse de três fazendas — uma em Porto Velho, uma na Irmã Berta e outra. Tem até o registro. A gente ocupava, chegava com firmeza, e eles não podiam bater nos ocupantes — tinham que respeitar. Depois os advogados entravam com o processo, faziam o levantamento da terra e mostravam que o proprietário não fazia nada com ela. Inclusive um ministro atual, cujo avô tinha uma das fazendas que o MST ocupou, reconheceu: "Essa terra tem que ser do povo para trabalhar" — e deu apoio à ocupação. Lá tinha cachoeiras fora de série, com pitu [camarão de água doce] enorme — cada um quase meio quilo, tudo água doce.
[55:00] P/1 – E aqui no Córrego do Canivete, como era?
R – O Córrego do Canivete era um riacho de água nativa — o pessoal usava a água, ninguém jogava esgoto. Depois, com a ocupação de moradia, o córrego começou a represar e aumentar. A gente lutou para trazer um projeto para resolver o problema dessas famílias, e isso entrou num projeto de lei — feito em parceria com um vereador, na época. O projeto foi aprovado para construir o parque e arrumar moradia para o povo. Mas, na hora de aprovar a parte da moradia, disseram que não havia lugar para colocar os moradores. Fizemos um manifesto. Eu falei para o coordenador: "O senhor está dizendo que não tem terra, mas tem — a Cohab [Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo] tem 45 mil apartamentos em Cidade Tiradentes. Por que não reformam e colocam essas famílias lá?" Ele disse que não sabia disso. Depois ele fez uma vistoria, chamou os moradores na prefeitura, aprovou as moradias, reformou os apartamentos, e algumas famílias foram para lá. Outras receberam R$ 3 mil de indenização — quem não precisava de moradia ficou com o dinheiro, mas quem precisava acabou indo morar e hoje está ameaçado de remoção de novo, porque a área é considerada de preservação. Essa área é um mundo de água — recebe o Riacho do Peru, o córrego da Vitória Régia, o do Jaraguá, o do Jardim Paulista, e a água que vem da região onde era o Clube Da Vó Rada. Tudo desce para esse córrego. Quando dá enchente, vem até tronco de árvore descendo. Esse riacho passa dentro de um tubo — é onde eu digo que, em vez de fazer um piscinão, deveriam fazer a galeria que já estava prevista desde a administração do Maluf, que chegou a ceder a galeria mas deixou provisório. A Cantareira-Sampaio já tem projeto de quatro mãos, porque na hora do pico é um sufoco para passar nessa avenida. Um dia vi um engenheiro com a planta na mão e falei: "Vocês vão gastar dinheiro fazendo esse piscinão? O mesmo dinheiro dá para fazer a galeria aqui e o piscinão lá embaixo — resolve o problema das enchentes aqui em cima e lá embaixo também. Desse jeito, vocês vão represar aqui e matar o povo lá embaixo, porque já não tem vazão." Cansei de falar isso numa conferência: "Vocês não vão resolver o problema da enchente assim — quando chover, a Cantareira-Sampaio já fica cheia." Vai chover, hoje a Cantareira-Sampaio já fica cheia. Antes mesmo de chover, começa a descer aquele volume de água com madeira e lixo — o povo joga muito lixo dentro dos córregos, por preguiça de levar até o lixeiro. Vai juntando tudo, e a prefeitura, quando vem a enchente, carrega aquilo para dentro do riacho.
[01:02:18] P/1 – Como foi essa criação do Parque Linear? Como foi esse momento?
R – Foi quando a gente pedia para resolver o problema das famílias — entrou no projeto de lei, e aprovaram esse parque linear, que já estava meio dedicado naquele projeto, para salvar as famílias e salvar o riacho, o Córrego do Canivete. Construíram o trecho do Córrego do Canivete, e tinha o seguimento para o Cabo Sul, que é o Córrego do Bananal — cada córrego tem seu nome: Bananal, Onça, Canivete. Eles fizeram só o do Canivete e deixaram o do Bananal. Agora foi aprovado o do Bananal também, que vai seguir até o Cabo Sul, com saída para o Rodoanel na Vista Alegre — vai ligar até a Cantareira-Sampaio. Algumas famílias não estão achando bom, porque vão precisar saí da área, mas o projeto está aprovado e, mais devagar ou mais rápido, vai sair…
P/1 – Os parques ajudam a cuidar dos córregos, ou não?
R – …sim. Com o parque linear construído, a prefeitura coloca funcionários para cuidar — é um tratamento muito importante onde já está pronto.
[01:02:56] P/1 – Me conta uma coisa: quando o senhor chegou, por que decidiu vir para o Jardim da Macedo?
R – Eu tinha uma casa no Jardim Peri. Minha mãe veio para São Paulo primeiro, morava no Jaçanã, depois mudou para Tucuruvi, e foi quando eu cheguei do Rio para cá. Um tio que morava no Jardim Peri disse que estavam vendendo um terreno ali. Comprei, fiz uma casinha, mas enchia quase dois metros de água dentro de casa. Vendi para um companheiro. Vim para esta região e aluguei uma casa. Depois saiu o loteamento aqui e decidi comprar um terreno. Escolhi um terreno mais baixo, sem morro, porque já tinha vivido o problema da enchente no outro lugar. Achei o terreno ruim, mas comprei porque não acumulava água. Fiquei brigando com alguns líderes daqui que negociavam mal, lutando para trazer melhorias. Fizemos manifestos pela água e pela luz, na época do Maluf — foi uma luta muito grande, mas conseguimos. Hoje as comunidades estão mais devagar, não lutam tanto. Já temos um terreno contemplado para construir nossa unidade básica de saúde definitiva. Aqui temos 38 mil famílias na região — pela lei, com 20 a 22 mil famílias, já temos direito a uma unidade. Mas não temos a definitiva ainda. Numa reunião falei: "Se essa área crescer mais, onde vão colocar a unidade? Vocês não vão lutar pelo terreno já contemplado? Ficam dando ponto para político ganhar voto e deixando o povo sofrer."
[01:06:45] P/1 – Quando o senhor veio para o Jardim da Macedo, faz quanto tempo? Como era o bairro quando você chegou?
R – O Jardim da Macedo só tinha duas casas, no final desta rua. Comprei um terreno na frente, mas era uma área contaminada, com aterro — quando fui construir, não dava a fundação. Fui à imobiliária e disse: "Não quero esse terreno, está condenado — quero trocar." Trocaram por este aqui, na área rural, que já estava à venda. Dei três cruzeiros de entrada — o valor total era 40 cruzeiros. Mas entramos numa briga com o corretor, porque ele vendeu a mesma área para vários compradores, sem ter o direito sobre ela. Entramos com processo. Um padre, que era liderança aqui, nos ajudou a organizar a área — hoje quase todo mundo tem escritura. Tem uns que ainda não têm, mas estamos na luta. Um advogado está negociando, porque o cartório está cobrando um valor absurdo de honorários, quase o preço do terreno. Estou aqui há 46 anos. Vi tudo acontecer: casas e terrenos desabando, barrancos descendo o morro depois que a administração do Maluf terminou — foi um período de muitos desabamentos, e começaram a fazer paredões para conter os barrancos. Recentemente fiquei sabendo que numa pesquisa identificaram que essa área tem um tipo de solo que, quando corta, sai como um ladrilho — vai escorregando com a chuva, e o muro não segura. Já tinha avisado isso. Agora a prefeitura vai ter que fazer muros de arrimo para segurar as casas.
[01:11:08] P/1 – Quando você contou da sua infância, falou que tirava areia do Rio Doce. Como era o Rio Doce naquela época?
R – Naquela época a água do Rio Doce dava para tomar banho e até beber. Hoje não dá mais — a usina de mineração contaminou o riacho todo, de Governador Valadares até o Espírito Santo. Jogaram esgoto e produtos químicos ali dentro, matando todos os peixes. Na época tinha muito peixe — vi cada peixe boiando, alguns de quase 6 quilos, todos mortos. Acabaram com o Rio Doce. Hoje dá muita enchente, como aconteceu na rompimento da barragem em Mariana, que afetou Governador Valadares — todas as águas que caem por ali vão desaguar no Espírito Santo.
[01:13:00] P/1 – E quando você chegou aqui, como era o Córrego do Canivete?
R – Era um riacho de água nativa, e o pessoal usava aquela água para tomar — não tinha nada de contaminação, ninguém jogava esgoto, as casas tinham fossa. Quando construíram a Cohab, começaram a jogar esgoto direto no riacho. O povo viu e disse: "Se eles fazem isso, a gente também faz" — e todo mundo começou a jogar esgoto. Acabou contaminando o Canivete, o Onça, o Bananal e os outros córregos, o que não devia ter acontecido. A fiscalização ambiental era fraca naquela época; hoje está mais presente, mas vai dar muito trabalho para resolver. É a mesma coisa com o lixo — se tivessem pesquisado há tempos, veriam que dá para gerar emprego com ele, porque é todo aproveitável. Tem maquinário que aproveita o entulho, a madeira, a sujeira do rio, e transforma em adubo para plantas e florestas. A garrafa PET, por exemplo, não tinha valor — ninguém queria. Começaram a dar valor a ela, e a entrada da Macedo enchia de garrafa PET. Mostrei isso a uma jornalista que veio aqui — ficou impressionada, falou até de Brasília. Aí conversei com um companheiro e propusemos uma denúncia ao órgão ambiental federal sobre como deveriam funcionar os sistemas de retorno de embalagem das empresas que vendem refrigerante.
[01:16:03] P/1 – Me conta como a Ousadia Popular trabalha, no dia a dia.
R – Nossa instituição trabalha com moradia, com meio ambiente — damos educação ambiental para as crianças, fazemos caminhadas pela floresta. Sempre ligo para o Parque da Cantareira, peço autorização para levar a equipe e conhecer o local. Também levamos grupos ao Pico do Jaraguá. Uma vez a igreja pediu para fazer uma caminhada até o Pico do Jaraguá. Falei: "A gente vai ter que ir a pé desde aqui da Cantareira-Sampaio, do começo da Macedo até o Pico." Fomos a pé. O pessoal reclamava de cansaço, mas falei: "Vocês vieram fazer caminhada, então vamos caminhar." Lá em cima mostrei o projeto do teleférico: "Vejam, o nível está certo — do Pico do Jaraguá até a borda da Cantareira não vai dar muito trabalho de liberação. Vai ser um teleférico lindo." Do Jaraguá ele seguiria para o centro, descendo o nível, sem muita queda — pensado para fazer o transporte entre os parques.
[01:18:29] P/1 – Como você teve essa ideia do teleférico?
R – Sou meio curioso. Quando era jovem, conheci o teleférico do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro — uma vez até fiquei preso lá dentro quando cortou a energia. Pensei: "Aqui dá para construir uma coisa assim." Já tínhamos a ideia do parque municipal da Brasilândia, e pensei: podemos juntar todos os parques por meio do teleférico. A ideia era fazer uma base aqui na Capadócia, seguindo o Córrego do Canivete, subindo a Serra da Cantareira e distribuindo para o Jaraguá, para o PEC [Parque Estadual da Cantareira] e outros — Parque Vila Suzana, Parque do Arapuá. Ficaria muito linda, seria um sucesso. Mas, na época, falaram que era loucura, que não ia funcionar. Foi mais difícil aceitarem o metrô do que essa ideia — e hoje o metrô já está chegando aqui perto, no Morro Grande.
[01:20:31] P/1 – O senhor leva o pessoal sempre na Cantareira e no Jaraguá — você que guia, conhece como?
R – Sou guia, conheço toda essa área — Pico do Jaraguá, Morro do Japi e outras regiões mais distantes. Já fizemos caminhadas de quase 10 dias acampados, andando um pouco, descansando, montando acampamento, avançando, explorando o que tinha lá dentro. Tinha um amigo americano que adorava essas caminhadas — sempre que queria, me chamava e íamos...
P/1 – E aquela história de ficar preso no bondinho do Pão de Açúcar?
R – …estávamos subindo quando a energia falhou. A turma ficou com medo, parados a uma altura enorme, mas em meia hora deram um jeito de ligar o gerador e o bondinho seguiu. Falei: "Está vendo? Não é tão perigoso assim — só precisa de coragem." Eu tinha 18 anos na época. Hoje tenho 81, e vou fazer 82 em 29 de novembro. Depois de chegar aqui, pensei melhor: "Vou levar essa ideia do parque para frente, ver se interessa a alguns parceiros." Primeiro veio a ONG Uspall, gostaram da ideia, fizeram a maquete que eu desenhei. Foram levando a ideia adiante.
[01:23:41] P/1 – Conta sobre esse desenho — o parque na borda da Serra da Cantareira.
R – Esse aqui é a borda da Serra da Cantareira — a área municipal já foi aprovada para ter um parque do Peri até o Tucuruvi, com construção prevista. O projeto do Córrego do Bananal também já foi aprovado, é só uma questão de tempo até começarem. Por isso lançamos essa ideia de um parque municipal na Brasilândia, na borda da Cantareira — para não dar continuidade à ocupação. O Rodoanel está passando ali em cima; tem uma represa grande feita por um morador que fez um pesqueiro, usando máquinas para represar a terra, sem cimento — fez uma saída de água por cima para quando enche demais. Muita gente teme que ela rompa, mas foi bem feita, com vertedouro. Esse aqui é o parque da Cantareira, já aprovado. Este outro foi uma luta nossa também: acabar com o esgoto a céu aberto dos córregos — aqui junta todo o esgoto da Macedo e das ocupações, vai para uma coletora e depois para a estação de tratamento, para recuperar essa água. Sempre digo nas reuniões com a Sabesp: "Por favor, se recuperar essa água, não mandem para o povo beber — joguem nas plantas mesmo." Essa parte aqui já está toda coletada, não cai mais esgoto direto no Córrego do Bananal. Este é o Parque Linear — começamos lutando por um projeto para salvar a vida das famílias que ficavam nas margens. Tinha vez que dava enchente e eu saía de madrugada para socorrer famílias, chamar os bombeiros, ajudar a tirar gente dos barracos que estavam sendo levados pela água. E este aqui é o desenho que fiz para a unidade básica definitiva — mas não usaram, porque classificaram o terreno como área verde. Fiz uma apresentação mostrando o que poderia ser construído ali. Ficou parado.
[01:28:33] P/1 – Por que se chama Córrego do Canivete?
R – Tinha um morador, conhecido como João do Canivete, que tinha fama de andar com canivete — daí o nome do córrego. O Córrego do Onça veio porque ali era onde as onças bebiam água, antigamente havia muitas onças que se juntavam ali. O Córrego do Cantagalo, num cruzamento que cai no Córrego do Onça, tem esse nome porque ali havia uma rinha de galo, numa época em que isso não era proibido. E o Córrego do Bananal recebeu esse nome porque ali tinha muita bananeira plantada — até hoje, na cabeceira do Córrego do Onça, ainda nasce banana espontaneamente conforme a água desce.
[01:30:51] P/1 – O senhor foi casado? Teve filhos?
R – Fui casado uma vez, com 17 anos — não deu certo, separamos, e até hoje não casei de novo, sempre na luta e no trabalho. Tenho um filho que mora comigo até hoje. A mãe dele foi embora quando ele tinha 1 ano e 6 meses, e minha mãe acabou de criá-lo. Ele continuou morando comigo — fiz uma casa para ele aqui mesmo, num terreno com frente para duas ruas.
[01:32:13] P/1 – Você falou de um manifesto na Cantareira-Sampaio. Como foi?
R – Numa reunião, o pessoal falou: "Temos que lutar pela unidade básica definitiva." Organizei um manifesto na Cantareira-Sampaio, mas só apareceu o pessoal da tribo indígena. Fechamos a avenida às 7 da noite, e a polícia chegou disparando — não passamos, mas dissemos: "Como vocês ficam disparando contra os moradores de uma comunidade que precisa de saúde?" O policial disse que era dever dele não deixar fechar a via. Falei: "E o povo pode morrer? Se a gente não fizer barulho, estamos perdidos." Encerramos o manifesto, mas depois falei na reunião: "De que adianta chamar vocês, se na hora ninguém aparece?" É difícil mobilizar o povo aqui da Macedo.
[01:33:36] P/1 – Como é o nome do seu filho?
R – Rogério, com 28 anos. Ele ajuda às vezes, quando dá um tempo, mas não está muito ligado no movimento — gosta de trabalhar e curtir o esporte dele, é são-paulino. Falo para ele: "Você está errado, tem que se envolver no movimento social também." Mas ele não é corajoso como eu — não vai enfrentar de cara, prefere marcar agenda e voltar depois. Ele mesmo diz: "Meu pai é muito corajoso, eu não faria isso. "Uma vez, num acampamento, chegou um batalhão de choque para tirar os sem-terra da ocupação. Os coordenadores tomavam conta do portão. Quando vimos a polícia chegando, baixamos a porteira e mostramos a faixa do movimento. Disseram: "Vamos tirar todo mundo daqui." Respondi: "Não é assim — tem criança, tem idoso, tem jovem morando aqui. Vocês têm que conversar com as famílias primeiro, não podem chegar arrancando ninguém." Deram um tempo para sairmos; saímos, e depois de 30 dias voltamos. A polícia voltou para tirar de novo — saímos novamente. Na quinta vez, nosso advogado entrou com um processo e veio a ordem para o pessoal ficar — ganhamos a posse de uma terra dos Matarazzo, que não fazia nada com ela além de plantar eucalipto para vender. Hoje o povo trabalha lá, contente, com um mundo de água — uma cachoeira linda. Há pouco tempo fizemos um evento de três dias lá, com as famílias, muita cultura. Foi muito bom.
[01:39:16] P/1 – Quem ajuda você aqui na associação?
R – Tenho três militantes: a Simone, a Natália, e o Dinei — esse último é mais o cinegrafista, não entende muito de contabilidade, mas é muito interessado na melhoria da região. Também tive a Talita, que morava aqui, ajudava sem cobrar nada, mas teve problema com os filhos e o conselho tutelar levou as crianças. Fez muita falta — era uma alegria para a gente. Já ajudei muita gente a conseguir terra e moradia. Trabalhei como parceiro de outra associação, que já não existe mais. Esse menino que estava aqui na entrada, o Dinei, conseguiu apartamento através do nosso trabalho — conseguimos 220 apartamentos prontos, em Vitória, Franco da Rocha, Jaraguá, Barra dos Pimentas, Osasco e Cotia. Em 40 dias, várias famílias já estavam com a chave na mão.
[01:40:55] P/1 – Que mensagem você deixaria para as pessoas sobre o meio ambiente e os rios?
R – Em todas as palestras que dou, para crianças ou jovens, digo que eles têm que continuar lutando pelo meio ambiente, sem parar — porque não é o futuro para mim, é o futuro deles. Muita gente me pergunta: "Você luta por tanta coisa, acha que vai resolver?" E eu respondo: "Não estou fazendo isso para mim, estou fazendo para vocês. Vocês têm que apoiar essas ideias." Tenho certeza de que os administradores não vão cumprir tudo enquanto eu estiver vivo, mas tem que continuar. Domingo mesmo, conversei com idosos que ficaram emocionados, batendo palma, querendo conhecer a associação e fazer caminhada comigo. No Dia da Árvore, em setembro, vamos fazer um plantio de árvores nativas no parque — pedi para a secretaria do verde, porque sou conselheiro do CADES [Conselho de Administração e Defesa do Espaço Físico do Município] da Freguesia/Brasilândia, oitenta pés de ipê para esse plantio.
[01:43:36] P/1 – O senhor tem um grupo que posta sobre seu trabalho?
R – Tenho o grupo do Quintino e o grupo da comunidade. Meu trabalho é conhecido quase mundialmente — tenho uma parceira, que tinha uma associação chamada Transição Brasilense, e era minha companheira aqui. Ela leva meu trabalho para o Canadá, onde mora hoje, e publica num jornal dela — divulga mundialmente. A reportagem que fiz com a Globo, ela mandou para fora também, e parentes meus no Mato Grosso me viram sentado numa pedra na cachoeira do Córrego do Onça.
[01:45:00] P/1 – E o senhor tem sonhos?
R – Meu sonho era ganhar na loteria — jogo, mas nunca ganho. Se ganhasse, meu sonho seria construir uma cooperativa de educação, porque gosto muito de fazer educação para as pessoas. Onde passa a Cantareira-Sampaio, doei serviços de educação para mais de 200 famílias — até hoje me cobram, mas explico que um dia acaba. A gente corre atrás de projetos sempre. Recentemente mandei documentação de projetos, mas a associação está com pendência no CNPJ — antes éramos isentos de imposto, agora estão cobrando. Já demos entrada e vamos pagar, para conseguir os projetos para ajudar o povo. É o que eu fazia também na horta: doava alface, couve, cebola, coentro, abóbora para as famílias — e ficavam todas contentes.
[01:47:24] P/1 – Como a comunidade aqui em volta recebe o seu trabalho?
R – Hoje em dia tem pouca associação que realmente conversa comigo — várias só querem pegar recurso para elas próprias. Mas tenho um parceiro aqui do lado que ajuda muito: quando ele chegou de Belém do Pará, eu o acolhi, ajudei com política, ele aprendeu e foi desenvolvendo uma creche que se tornou uma associação grande, com vários projetos. Ajudei ele a comprar um imóvel legalizado, e ele foi expandindo. Hoje é um parceiro que ajuda muita gente — atende o dia inteiro. Tenho uma parceria com a Rádio Cantareira, onde divulgo meu trabalho, além dos grupos nas redes. Quando falo de meio ambiente, o pessoal adora. Já fui cinco vezes a Brasília e divulguei muito o trabalho — ganhei reconhecimento. O tema do meio ambiente está fazendo cada vez mais sucesso, e se não cuidarmos, quem vai sofrer é todo mundo. Quando contei essa mensagem que recebi pela primeira vez, numa conferência na sede de saúde do Parque do Canivete, o pessoal bateu palma, fez perguntas — queriam saber como recebi aquela mensagem. Até hoje me ligam perguntando como está o trabalho do movimento. Gosto muito de participar de conselhos — faço parte de oito: saúde, secretaria do verde, conselho do verde do estado, do outro florestal, do Parque da Cantareira, do Córrego do Canivete, de habitação e da unidade básica de saúde mais antiga da Macedo, além da unidade provisória que chegou agora.
[01:53:57] P/1 – Como foi conversar com a gente hoje? O senhor gostou?
R – Foi ótimo. Gostei de receber vocês aqui e o momento foi muito bom.
P/1 – E de contar sua história?
R – Gostei demais. Para mim é bom que as pessoas tenham conhecimento dessa história — uma vez que aconteceu, a gente tem que mostrar. Esse desenho que fiz para mostrar às crianças mostra o mundo da água. Essa água pode-se tomar banho? Não — está contaminada. Quando a água bate nas pedras e solta aquela espuma, é sinal de que não é uma água natural; senão não espumaria desse jeito. Era assim no cruzamento dos córregos Canivete e Onça: descia uma espuma enorme, e as crianças que moravam ali andavam com a pele queimada, com feridas nas pernas e nos braços onde a espuma batia. Vi a mesma coisa em Pirapora [município mineiro às margens do Rio São Francisco] — fiquei horrorizado. Lá também tem um teleférico que percorre a cidade, muito bonito; fizemos um piquenique na área verde e visitamos o teleférico.
P/1 – O senhor autoriza a gravação e a publicação deste vídeo?
R – Com certeza, autorizo. Deixa eu mostrar mais um desenho — o volume de lixo que existe nessa área, que vocês vão ficar impressionados. Este aqui é o desenho que fiz mostrando como resolver o problema das enchentes: todos esses pontos são nascentes de água, que vêm da Serra da Cantareira e desaguam, juntando-se neste cruzamento — aqui é o Bananal, este outro é o Canivete. O Canivete vem da Cantareira pegando a Vitória Régia, e aqui encontra o Córrego do Bananal. Aqui eu propus um piscinão, com saída de água em cima e contenção embaixo — conforme a enchente aumenta, a água extra é despejada por cima, diminuindo o volume que desce. Já mandei esse projeto para a Sabesp, que veio olhar e conversou comigo. Este aqui é o lixo enterrado debaixo do chão na baixada — a bomba de gás que venho denunciando na entrada da Macedo. Já protocolei o documento no poder público, mas estão muito devagar. Falei com a coordenadora: "Quando esse processo chegar, vocês não opinem, porque não entendem do assunto — esse processo é meu." Ali ficaram 8 metros de lixo retirados debaixo do chão, na entrada da Macedo, justamente onde está a unidade básica de saúde — construída em cima do lixão. Eu queria saber como o administrador vai justificar uma unidade de saúde construída sobre um lixo contaminado. É por isso que continuamos cobrando deles.
FIM DA ENTREVISTA.
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