Capitulo 1 - A Travessia e a Fuga da Madrugada
De onde vieram
A história da nossa família no Brasil começa do outro lado do Atlântico, na Espanha, no início do século XX. De um lado, a família Pérez: Juan Pérez Lopéz, coronel, e sua esposa Josefa Pérez. Do outro, a família Navarro: José Navarro e Dolores Navarro.
Juan Pérez nunca deixou a Espanha. Sua esposa, Josefa, chegou a atravessar o oceano rumo ao Brasil, mas passou mal e precisou voltar. Morreu em solo espanhol aos 54 anos, sem nunca mais rever quem havia partido.
Foi o filho deles, José Pérez Lopéz, quem cruzou o Atlântico. Tinha apenas 19 anos. Não veio direto para o Brasil — sua rota passou primeiro pela Argentina, e só depois seguiu para terras brasileiras, sozinho, ainda quase um menino, carregando a coragem (ou a necessidade) de quem sai de casa sem saber exatamente o que vai encontrar do outro lado.
A família Navarro veio de outro jeito. Vieram todos juntos — pai, mãe e filhos —, entre eles uma menina de apenas 6 anos: Antonia Navarro Virués. Chegaram ao Brasil pelo porto de Santos, por volta de 1906, como tantas outras famílias espanholas daquela época, atraídas pela promessa de trabalho nas lavouras de café que dominavam o interior paulista. Vieram com contrato de trabalho — um contrato que, como a família descobriria mais tarde, valia menos do que a palavra escrita nele.
O encontro na fazenda
Foi numa dessas fazendas de café, nas terras que hoje conhecemos pelas regiões de Catanduva, Araras e Granada, que os destinos de José Pérez e Antonia Navarro Virués se cruzaram. Ele, o rapaz que tinha vindo sozinho da Espanha via Argentina. Ela, a menina que havia chegado ainda criança com toda a família, crescendo ali, entre os pés de café, até se tornar moça.
Casaram-se quando Antonia tinha pouco mais de vinte anos. E ali, no meio da lavoura, começaram a construir a própria família — os primeiros dos onze filhos que viriam a ter...
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De onde vieram
A história da nossa família no Brasil começa do outro lado do Atlântico, na Espanha, no início do século XX. De um lado, a família Pérez: Juan Pérez Lopéz, coronel, e sua esposa Josefa Pérez. Do outro, a família Navarro: José Navarro e Dolores Navarro.
Juan Pérez nunca deixou a Espanha. Sua esposa, Josefa, chegou a atravessar o oceano rumo ao Brasil, mas passou mal e precisou voltar. Morreu em solo espanhol aos 54 anos, sem nunca mais rever quem havia partido.
Foi o filho deles, José Pérez Lopéz, quem cruzou o Atlântico. Tinha apenas 19 anos. Não veio direto para o Brasil — sua rota passou primeiro pela Argentina, e só depois seguiu para terras brasileiras, sozinho, ainda quase um menino, carregando a coragem (ou a necessidade) de quem sai de casa sem saber exatamente o que vai encontrar do outro lado.
A família Navarro veio de outro jeito. Vieram todos juntos — pai, mãe e filhos —, entre eles uma menina de apenas 6 anos: Antonia Navarro Virués. Chegaram ao Brasil pelo porto de Santos, por volta de 1906, como tantas outras famílias espanholas daquela época, atraídas pela promessa de trabalho nas lavouras de café que dominavam o interior paulista. Vieram com contrato de trabalho — um contrato que, como a família descobriria mais tarde, valia menos do que a palavra escrita nele.
O encontro na fazenda
Foi numa dessas fazendas de café, nas terras que hoje conhecemos pelas regiões de Catanduva, Araras e Granada, que os destinos de José Pérez e Antonia Navarro Virués se cruzaram. Ele, o rapaz que tinha vindo sozinho da Espanha via Argentina. Ela, a menina que havia chegado ainda criança com toda a família, crescendo ali, entre os pés de café, até se tornar moça.
Casaram-se quando Antonia tinha pouco mais de vinte anos. E ali, no meio da lavoura, começaram a construir a própria família — os primeiros dos onze filhos que viriam a ter juntos.
A dívida que nunca diminuía
Mas a vida na fazenda escondia uma armadilha comum a tantos imigrantes daquela época. O administrador responsável por eles não pagava o que devia. Em vez disso, cada saco de arroz, cada pedaço de carne, cada necessidade básica que a família precisava tirar do armazém da fazenda virava dívida. Uma dívida que só crescia — nunca diminuía, por mais que trabalhassem. Era o sistema que prendia famílias inteiras à terra não pelas correntes, mas pelos números de um livro-caixa que ninguém além do administrador tinha o poder de mexer.
José via a armadilha se fechando. Trabalhar cada vez mais e dever cada vez mais. Não havia saída dentro das regras daquele jogo.
A fuga
Então, numa madrugada, José tomou a decisão que mudaria a história de toda a nossa família.
Arrumou uma carroça. Reuniu Antonia e os quatro filhos que já tinham naquela época. E, no escuro da madrugada, longe dos olhos do administrador e de qualquer possibilidade de serem impedidos, partiram.
Deixaram para trás a fazenda, a dívida que nunca teria fim, e a vida que outros haviam desenhado para eles. Foram para o meio do mato — sem plano além do de sobreviver, sem garantia além da própria força de vontade — e começaram tudo do zero. Plantaram para a própria subsistência, criaram os filhos com o que a terra dava, e reconstruíram, com as próprias mãos, o que a fazenda de café havia tentado tomar deles: a liberdade de decidir o próprio destino.
Foi dali — dessa fuga na escuridão, dessa coragem de recomeçar no meio do nada — que nasceu tudo o que viria depois: os onze filhos, José, João, Henrique, Miguel, Carlos, Paulo, Roberto, Mercedes, Conceição, Antónia e a pequena Vera, adotada pela família. E de cada um deles, gerações inteiras que hoje carregam, sem talvez perceber, o mesmo instinto que levou José Pérez a atrelar os cavalos numa madrugada de 1906 (ou pouco depois) e escolher a liberdade, mesmo sem saber para onde ela levava.
Capítulo 2 - O Preço da Prosperidade
Diferente de tantos outros que chegavam à lavoura sem saber ler nem escrever, José Pérez era letrado. Tinha estudado ainda na Espanha, e essa diferença — pequena aos olhos de hoje, enorme naquela época — seria, com o tempo, parte do que o distinguiria dos demais.
Foi em Catanduva que a família ficou por alguns anos depois da fuga da madrugada. E foi lá que novos filhos vieram ao mundo, entre eles Mercedes, que nasceu de um jeito que ninguém esquece: Antonia tropeçou num buraco de tatu, e o parto começou ali mesmo, sem tempo de esperar por ninguém. Como em praticamente todos os partos daquela família, foi o próprio José quem trouxe a filha ao mundo — não havia médico, não havia parteira, havia apenas um pai que aprendera, na necessidade, a fazer o que fosse preciso.
Uma prosperidade que incomodava
Da pequena produção de subsistência que plantavam para sobreviver, sobrava um excedente. E o que sobrava, vendiam no armazém. Aos poucos, aquilo que começara como sobrevivência foi virando prosperidade — pouca, se comparada aos padrões de hoje, mas visível o suficiente para chamar a atenção da região. E a atenção, naquele tempo e naquele lugar, não era gentil. Um estrangeiro prosperando, por conta própria, fora das regras que prendiam os outros imigrantes à terra e à dívida, era motivo de desconforto.
Não era desconforto isolado, nem coisa da cabeça da família. Era o retrato de uma época inteira. Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX — especialmente nos anos 1930, no auge do sistema de parceria e do colonato no Brasil —, a chegada de imigrantes europeus havia sido vendida, lá na Europa, como a promessa de "fazer a América": riqueza rápida, terra farta, vida nova. Na prática, o que a maioria encontrava era isolamento, o controle rígido dos fazendeiros e salários que mal cobriam o que se devia no armazém. O descontentamento gerado por essa distância entre promessa e realidade levou a greves nas fazendas de café, e chegou a provocar, em 1902, o Decreto Prinetti, pelo qual o governo italiano proibiu a imigração subsidiada de seus cidadãos para o Brasil, diante dos maus-tratos e da falta de condições reais de prosperar.
O pano de fundo de tudo isso vinha de mais longe ainda: com o fim gradual do tráfico de escravos e, depois, da própria escravidão, faltava mão de obra para as lavouras de café, e o governo brasileiro passou a estimular ativamente a vinda de europeus — não só para substituir o trabalho escravo, mas também para povoar o sul do país e mudar a composição racial da população. Entre 1880 e 1930, o Brasil viveu o que se chama de Grande Imigração Europeia e Asiática: mais de 3,5 milhões de estrangeiros vieram para cá nesse período. Os espanhóis, como José e a família de Antonia, chegaram em grande número justamente para as lavouras de café paulistas. Os japoneses começariam a chegar pouco depois, em 1908, pelo navio Kasato Maru, fixando-se também na agricultura do estado — mas essa é uma história que este livro ainda vai contar, porque, muitos anos depois, uma descendente desta mesma família encontraria um herdeiro de uma trajetória semelhante à dessa outra imigração.
Foi dentro desse cenário — de imigrante que prospera, incomodando quem esperava vê-lo fracassar — que a vida de José Pérez em Catanduva tomou um rumo perigoso.
A denúncia
Um padre da cidade denunciou José Pérez como comunista.
Não se sabe ao certo o que pesou mais nessa denúncia: se alguma convicção real, se a prosperidade que incomodava, ou simplesmente o fato de ser estrangeiro, letrado e independente demais para os padrões esperados de um imigrante da lavoura. O resultado, de qualquer forma, veio rápido e duro: de madrugada, oficiais chegaram para levá-lo preso.
Antonia ficou sozinha. E foi ela quem foi até a delegacia de Catanduva, sozinha, conversar para que soltassem o marido.
Depois de solto, José tomou a decisão de deixar Catanduva. Venderam tudo o que tinham e foram para São Paulo, para morar no porão da casa dos pais de Antonia — a família Navarro —, no bairro do Brás, na Rua Rio Bonito. Foi um recomeço dentro de outro recomeço: da fazenda para o mato, do mato para Catanduva, e de Catanduva para o porão de uma casa emprestada. Antonia, mais uma vez, precisou se virar: foi procurar trabalho para ajudar a sustentar a família.
O espelho e o hospital
Naquela época, o casal já tinha os filhos José, João, Henrique, Antónia, Conceição e Mercedes, ainda bebê de poucos meses.
Foi nesse período, morando no porão do Brás, que Mercedes adoeceu de uma doença chamada simioto. A menina piorou tanto, tão rápido, que a avó Dolores já havia começado a costurar a mortalha — o pano em que se envolvem os mortos para o velório. Foi nesse momento que José Pérez chegou. Viu o que estava acontecendo e perguntou: "O que vocês estão fazendo?" Pegou um espelho e aproximou da boquinha de Mercedes. O vidro embaçou. Ela ainda respirava.
Antonia, com a ajuda de uma vizinha portuguesa, levou a filha correndo até a Santa Casa de Misericórdia, no Largo do Arouche. Mercedes ficou internada ali por dois anos inteiros. Antonia ia visitá-la todos os dias, sem falhar — uma rotina tão constante que, quando a menina foi crescendo dentro daquele hospital, passou a entender o médico e a enfermeira que cuidavam dela como se fossem seus próprios pais. Foi o tempo que ficou internada que fez isso: dois anos é tempo suficiente para uma criança pequena reorganizar, na cabeça, quem são as pessoas que cuidam dela todos os dias.
Gasolina em frente ao delegado
O medo de perder o pai marcou os filhos de formas diferentes. Conceição, quando José foi preso, tomou gasolina na frente do delegado — um gesto desesperado de menina, feito na esperança (ou na súplica) de que aquilo fizesse o pai ser solto.
Casa Verde
Com o tempo, a família passou a morar na Rua Marambaia, na Casa Verde. Ali, os filhos cresceram dentro de uma rotina dura: começavam a trabalhar aos 10 anos de idade.
José, o primogênito, era um adolescente que não bebia nem fumava, era criativo, inventava perfume para vender, tinha uma veia de comerciante, gostava de trabalhar em vendas e trocas de produtos. Às vezes, nestas disputas de negociação, desagradava pessoas. Ninguém sabe ao certo, mas aos 28 anos foi embora de casa e nunca mais voltou.
Em meio a tudo isso, a vida de criança seguia com as poucas alegrias possíveis: a diversão dos pequenos era a matinê no cinema, aos domingos, um respiro de leveza dentro de uma infância que não tinha sido fácil para nenhum deles.
Capítulo 3 - A Casa Própria e os Onze Caminhos
Um endereço que não mudaria mais
Depois de tantas mudanças — da fazenda para o mato, do mato para Catanduva, de Catanduva para o porão emprestado no Brás, do Brás para a Casa Verde —, a família finalmente conseguiu comprar uma casa própria, na Zona Norte de São Paulo.
A casa ficou no nome de Antonia. E ela se orgulhava disso mais do que de qualquer outra coisa. Não era apenas um imóvel: era a garantia, finalmente, de que não precisaria mudar de endereço nunca mais. Depois de uma vida inteira sendo carregada de um lugar para o outro — pela fazenda, pelo marido, pelas circunstâncias —, ter uma casa no próprio nome era, para ela, uma forma de segurança que ninguém mais poderia tirar.
Sem estudo, mas com trabalho
Nenhum dos filhos teve a chance de estudar além da 4ª série. Mas todos sabiam ler, e todos, um a um, foram se ajeitando na vida: arrumaram trabalho, encontraram seus amores, formaram suas próprias famílias. Onze filhos, onze caminhos diferentes — alguns mais leves, outros marcados por dores que a família carregaria por muito tempo.
José — o primogênito que nunca voltou
José, o primeiro filho, o que saiu de casa aos 28 anos, nunca mais deu notícias. Antonia não desistiu: anunciava o nome dele nas rádios, na esperança de que ele ouvisse, de que voltasse. Carregou essa esperança no coração até o fim da vida — a certeza de que, antes de morrer, veria o primogênito de volta. Isso nunca aconteceu.
João e Geni
João casou com Geni e teve 5 filhos. Era um homem genioso, difícil, e sua vida foi marcada por internações — muitas vezes precisou ser internado no Juquery, o hospital psiquiátrico.
Henrique e Maria
Henrique casou com Maria. Tiveram dois filhos: Roberto e Elaine.
Paulo e Alzira
Paulo casou com Alzira. Tiveram quatro filhos: Reginaldo, Rogério, Rosana e Paulinho.
Miguel e Dolores
Miguel casou com Dolores — nome que, como tantos outros na família, atravessava gerações, vindo da bisavó materna. Tiveram cinco filhos: Miguel, Elisabeth, Renato, Dolores e Rosangela.
Carlos e Carmem
Carlos casou com Carmem. Tiveram três filhos: Célia, Cecília e Celso.
Mercedes e Antonio
Mercedes — a menina que quase não sobreviveu ao simioto, que passou dois anos internada na Santa Casa — casou com Antonio. Teve duas filhas: Cleide, adotiva, e Deisy.
Conceição e Ricieri
Conceição — a mesma que, menina ainda, tomou gasolina na frente do delegado para salvar o pai — casou com Ricieri. Tiveram quatro filhos: Marcos, Jorge, Vera (adotiva) e Elisabethe Triana.
Antónia e Walter
Antónia casou com Walter. Tiveram duas filhas: Valéria e Vânia.
Roberto e Ana
Roberto casou com Ana. Tiveram três filhos: Robson, Roberta e Roana.
Vera — a filha adotiva
Vera, a filha adotiva do casal José Pérez e Antonia, casou com José e teve uma filha, Sandra.
Capítulo 4 - A família Peres Virnes
Depois de muitas idas e vindas de cartório, o sobrenome da família acabou registrado como Peres Virnes. Peres, que também aparece como Peris, Virnes e Biruel. Mudaram-se as grafias, mas ficaram as histórias.
A casa de Antônia e José, era uma casa de fartura. Fartura de comida, de gente e de barulho. O quintal estava quase sempre cheio de crianças, os netos correndo de um lado para o outro, enquanto filhos e filhas, noras e genros se misturavam em volta da mesa. Ninguém parecia se preocupar muito em saber onde terminava uma conversa e começava outra.
Havia mesa no quintal, partidas de truco, risadas, provocações, gente falando alto e criança brincando. Era uma casa cheia. Daquelas em que a alegria não precisava ser organizada.
E havia sempre comida.
Antónia fazia a massa do macarrão com as próprias mãos. Fazia também os pães e preparava o molho de tomate. No quintal, mantinha uma pequena horta, onde plantava os temperos que usava na cozinha. Cuidava de tudo com mãos de fada. Talvez boa parte do sabor daquela comida viesse justamente dali, das coisas que ela mesma plantava, colhia e levava para a mesa.
José conservou por toda a vida um forte sotaque espanhol. Antónia, curiosamente, nem tanto. E meu avô gostava de cantar.
Entre as músicas que ficaram na memória da família, uma atravessou os anos: Cielito Lindo.
José gostava também de fazer gravações em fita cassete. Naquelas fitas ficaram registradas vozes que o tempo não conseguiu apagar completamente. As netas, Célia e Liz, cantavam com ele. Imagino aquele momento simples: o avô, as meninas e um gravador ligado, sem que ninguém soubesse que, muitos anos depois, aquela música ainda seria lembrada.
Talvez seja assim que uma família permaneça.
Não apenas nos documentos, nos sobrenomes e nas fotografias, mas no cheiro dos pães caseiros, do molho de tomate, na massa de macarrão feita em casa, nos temperos colhidos no quintal, nas cartas do truco batendo sobre a mesa, no sotaque espanhol de José e nas vozes de um avô e suas netas cantando Cielito Lindo.
Quando penso na família Peres Virnes, é essa casa que me vem à memória: uma casa cheia de gente, comida, música e vida.
Capitulo 5 - A despedida de José
José morreu aos 85 anos. Até então, estava bem de saúde. O que o entristecia profundamente era saber que Antónia estava no hospital. Ela havia passado por uma cirurgia delicada e seu estado era tão grave que os médicos já não davam muitas esperanças à família.
Naqueles dias, quem cuidava de José era sua querida nora, Alzira. Em um momento de quietude, Alzira achou que precisava prepará-lo para o que poderia acontecer. Com cuidado, contou que talvez Antónia não voltasse para casa.
José ouviu em silêncio.
Olhou profundamente para Alzira e para a neta Rosana, que tinha por volta de 14 anos, e disse:
— Eu não posso viver sem ela. Ela é tudo para mim. É melhor que eu me vá para que ela possa ficar. Ela ainda tem muito tempo para ficar por aqui.
Foi uma frase que ninguém esqueceu.
Naquela mesma semana, contrariando as expectativas, Antónia começou a melhorar. Seu estado apresentou uma melhora considerável e, pouco depois, ela recebeu alta. Estava voltando para casa.
Mas, quando Antónia chegou, José estava mal. Foi levado prontamente para o hospital.
E lá ele se foi.
Exatamente como havia dito.
Para quem ficou, era difícil não se lembrar de suas palavras. Parecia que, de algum modo que ninguém saberia explicar, José havia feito uma espécie de acordo com a vida: ele partiria, e Antónia ficaria.
E ela ficou.
Antónia viveu até os 104 anos.
Viveu lúcida, amorosa e cheirosa, como sempre havia sido. Continuou apaixonada por José, pelos filhos, pelas noras e pelos netos. O tempo passou, a família cresceu, muita coisa mudou, mas José permaneceu com ela na lembrança e no amor.
Antónia tinha um carinho especial por Alzira, a nora que esteve tão presente nos cuidados com os dois. Costumava dizer, com seu jeito próprio:
— Se não fosse a Alzirinha, eu estaria num mato sem cachorro.
Talvez Antónia tenha vivido tantos anos porque, além de sua força, esteve cercada por esse cuidado. Viveu por muitas décadas depois da partida de José, mas nunca deixou de amá-lo.
José partiu aos 85. Antónia chegou aos 104.
E, na memória da família, ficou para sempre aquela história difícil de explicar: quando parecia que Antónia partiria, José disse que iria em seu lugar. E foi.
Capitulo 6 - A vida de Antónia sem José
A vida de Antónia sem José foi marcada pela saudade. Ela nunca falava nada de ruim sobre o marido. Ao contrário, sempre se referia a ele como o melhor marido que poderia ter tido. E, para ela, os filhos também eram os melhores filhos. Era o seu jeito de olhar para a família: com amor, orgulho e gratidão.
Depois da partida de José, seguiu vivendo cercada pelos filhos, noras, genros e netos. Recebia visitas, comemorava os aniversários, o Natal e as outras datas em que a família se reunia. Eram pequenas homenagens que faziam parte de seus dias e ajudavam a manter a casa e a vida preenchidas.
Antónia continuou fazendo aquilo de que gostava. Fazia seus pães e os presenteava aos filhos e às noras. Com os netos, tinha uma preocupação muito particular: queria sempre saber se estavam precisando de alguma coisa.
— Se precisar, a vó tem cinquenta reais para te dar...
Era quase uma frase de costume. Talvez aqueles cinquenta reais não fossem muito, mas, para ela, significavam poder cuidar. Era uma maneira simples de dizer: a vó está aqui.
Foi assim durante muitos anos: carinhosa, gentil e preocupada com todos.
Antónia também tinha uma habilidade impressionante com as mãos. Aos 90 anos, ainda fazia crochê sem óculos. As mesmas mãos que durante tantos anos fizeram macarrão, pães, cuidaram da horta e da família continuavam firmes, trabalhando linha e agulha.
Em algum momento da vida, decidiu aprender aquilo que não tivera oportunidade de aprender quando jovem. Frequentou o MOBRAL, programa de alfabetização de adultos, e aprendeu a escrever o próprio nome.
Antónia.
Orgulhava-se muito disso. Para quem passou tantos anos sem saber escrever o próprio nome, poder assiná-lo com a própria mão era uma conquista que tinha um significado especial.
Com o passar do tempo, porém, começaram os pequenos esquecimentos e também o risco de quedas. Foi quando Alzirinha se tornou ainda mais presente. Cuidava dela dia e noite, preparava o almoço, levava comida, fazia companhia e assistia à novela com ela. Eram cuidados cotidianos, sem cerimônia, construídos na convivência.
Logo que Antónia ficou sozinha, depois da morte de José, a neta Rosana também dormia com ela. Talvez para que a avó não sentisse tanto o vazio da casa. Afinal, depois de tantos anos ao lado de José, aprender a dormir sem ele também devia ser uma forma dolorosa de solidão.
Antónia foi envelhecendo assim, amparada pela família e, ao mesmo tempo, oferecendo a todos o carinho que sempre tivera.
Chegou aos 104 anos.
Em setembro de 2010, soube que seu filho Miguel estava muito doente. A família havia preparado uma comemoração de aniversário no dia 15 de setembro, e Antónia foi vê-lo.
Ao encontrar o filho naquela condição, disse uma frase que a família guardou:
— Não é natural que um filho se vá antes da mãe.
Havia alguma coisa naquela frase que lembrava José.
Muitos anos antes, quando Antónia estava entre a vida e a morte, ele dissera que era melhor que ele partisse para que ela pudesse ficar. E assim aconteceu.
Agora era Antónia quem olhava para um filho doente e parecia não aceitar a possibilidade de vê-lo partir primeiro.
Poucos dias depois, Antónia morreu.
E Miguel partiu em 10 de outubro de 2010.
Antónia viveu 104 anos. Teve uma vida longa, atravessou gerações e conheceu alegrias e perdas. Depois de José, carregou a saudade sem transformar essa ausência em amargura. Continuou fazendo pão, crochê, oferecendo seus cinquenta reais aos netos, assistindo às novelas com Alzirinha, recebendo a família e dizendo que tinha tido o melhor marido e os melhores filhos.
No fim, talvez essa seja uma das lembranças mais bonitas que deixou: Antónia parecia sempre encontrar uma maneira de falar bem de quem amava.
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