Sou Shirlene do Socorro Coelho Santos, também conhecida nos versos como Arara Cantadeira, como chamamos Cabloca Mariana no Pará. Professora,quilombola, mulher de terreiro, versadeira, filha de produtora de farinha d’água e mãe de Maria Sofia, aprendiz das folhas e guardiã das memórias que o vento leva e devolve.
Espero que cada verso aqui seja como uma folha sagrada, uma faísca acesa no escuro, capaz de tocar quem lê e abrir caminhos de coragem. Que vocês encontrem, nestas palavras, a força de sentir mais fundo, de se reconhecer, de (re)existir com firmeza e ternura, e de se perdoar pelas escolhas que nem sempre foram escolhas livres. E encontre, nos sufixos -eir, -eira e -eiro, a compreensão de uma potência: uma expressão linguística e cosmológica que reivindica a subjetividade e a força criadora de cada pessoa. Esses sufixos reconhecem que cada ser carrega em si uma capacidade própria de fazer, de criar e de transformar o mundo.
Estes versos são para quem já sentiu medo e, mesmo assim, seguiu.
Para quem ama com força, sabendo que o amor é ação e também um abraço.
Para quem carrega a pele marcada pelas batalhas do cotidiano,
mas ainda dança, sonha e planta encantarias no peito.
Que estas palavras entrem em suas casas, em seus corpos, em suas lembranças —
e que, juntos, possamos esperançar a vida, com mais prazer, mais poesia e mais fé.
Porque nós vamos viver.
Plantadeiras da vida
Minha família é de plantacultutas
Semeiam cultivam colhem gerações
Minha bisavó era plantadeira de curas
De bons Espíritos fez plantações
Plantou encantarias com devoção
Reservou uma ponta de mata
E fez das árvores sua oração
Grandes portes guardando a retomada
Angelins castanheiras samaumeiras
Lá não podia ninguém entrar
Era morada de encantarias primeiras Só elas podiam habitar
Minha vó era plantadeira de raízes
Uma batateira de coração
Batata baroa com doces matizes
Batata rainha...
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Sou Shirlene do Socorro Coelho Santos, também conhecida nos versos como Arara Cantadeira, como chamamos Cabloca Mariana no Pará. Professora,quilombola, mulher de terreiro, versadeira, filha de produtora de farinha d’água e mãe de Maria Sofia, aprendiz das folhas e guardiã das memórias que o vento leva e devolve.
Espero que cada verso aqui seja como uma folha sagrada, uma faísca acesa no escuro, capaz de tocar quem lê e abrir caminhos de coragem. Que vocês encontrem, nestas palavras, a força de sentir mais fundo, de se reconhecer, de (re)existir com firmeza e ternura, e de se perdoar pelas escolhas que nem sempre foram escolhas livres. E encontre, nos sufixos -eir, -eira e -eiro, a compreensão de uma potência: uma expressão linguística e cosmológica que reivindica a subjetividade e a força criadora de cada pessoa. Esses sufixos reconhecem que cada ser carrega em si uma capacidade própria de fazer, de criar e de transformar o mundo.
Estes versos são para quem já sentiu medo e, mesmo assim, seguiu.
Para quem ama com força, sabendo que o amor é ação e também um abraço.
Para quem carrega a pele marcada pelas batalhas do cotidiano,
mas ainda dança, sonha e planta encantarias no peito.
Que estas palavras entrem em suas casas, em seus corpos, em suas lembranças —
e que, juntos, possamos esperançar a vida, com mais prazer, mais poesia e mais fé.
Porque nós vamos viver.
Plantadeiras da vida
Minha família é de plantacultutas
Semeiam cultivam colhem gerações
Minha bisavó era plantadeira de curas
De bons Espíritos fez plantações
Plantou encantarias com devoção
Reservou uma ponta de mata
E fez das árvores sua oração
Grandes portes guardando a retomada
Angelins castanheiras samaumeiras
Lá não podia ninguém entrar
Era morada de encantarias primeiras Só elas podiam habitar
Minha vó era plantadeira de raízes
Uma batateira de coração
Batata baroa com doces matizes
Batata rainha batata doce
Cará roxo cresciam de montão
Tudo que brotava da raiz
Sua inteligência semeava
E a terra respondia feliz
A Batata se multiplicava
Minha mãe é plantadeira de água
Planta na beira do igarapé mirim
Sabe onde a nascente fininha guiava
Plantava cheiro verde
Maniva e chicória até
Tudo que é folha ela cultiva
Com o saber das Matas na fé
Sua colheita é sempre viva
Em verdes tons de aguapé
Minha prima é plantadeira da delicadeza
Planta colorido com leveza
Flores cheirosas de rara beleza
Flores brilhantes Uma riqueza
Tudo que floria ela produzia
Bordava pétalas com intenção
Cada manhã nascia em poesia
De seu jardim em expansão
Sou plantadeira das palavras
Professora Versadeira
Em mim Esperanças faladas
De uma colheita esperadeira
Uma floresta de ideias em construção
Mas já colhendo com emoção
A cada história um nascimento
Que brota do chão da educação
Crescem raízes de esperanças
Florescem frutos de uma geração
Tecem juntos a mudança
Cultivando nova direção
Alunas e alunos já universantes
Estudando ensinando com paixão
Plantando saber entre sementes
Gotejando sonhos no coração
Arara Cantadeira
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