Entrevista de Daniel Dumont Praxedes Garcia
Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 21 de janeiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV010
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
00:00:20
P1 - Daniel, qual o seu nome completo, sua data e local de nascimento?
R - Meu nome é Daniel Dumont Praxedes Garcia, tenho 27 anos. E moro aqui na região de Interlagos, na Zona Sul de São Paulo. Eu sou nascido aqui em São Paulo mesmo.
00:00:42
P1 - E qual a data do seu nascimento?
R - 6 de maio de 1998.
00:00:47
P1 - E me conta qual o nome dos seus pais?
R - Meus pais são Marlene Gomes Praxedes Garcia e José Roberto Garcia.
00:00:55
P1 - E como é que você descreveria eles?
R - Então, minha mãe sempre foi uma mãe bem super protetora. E o meu pai, eu descreveria ele como uma pessoa que, acho que minha mãe precisava estar com ele pra que de fato ele fosse a pessoa que ele era, uma pessoa que participava bastante da minha casa, da minha família. Eu descreveria ele como uma pessoa muito feliz assim da forma dele.
00:01:39
P1 - E o que eles fazem? Faziam.
R - Meu pai era operador de máquinas, aí ele acabou tendo um problema psiquiátrico, e teve que se aposentar. E a minha mãe era empregada doméstica.
P1 - Sua mãe ainda trabalha ou não?
R - Não minha mãe, desde 2004, 2005, ela não trabalha mais em casa de família, mas ela acabou montando uma ONG, para ajudar as crianças aqui da comunidade que fica na rua de cima.
P1 - E como é que é essa ONG?
R - Essa ONG é uma ONG que, inclusive, eu cresci lá, pra mim é algo muito especial, porque na minha trajetória de vida eu não consigo lembrar de algo que não tem a ver com a ONG também, foi um projeto que começou dentro de uma igreja que minha mãe, minha irmã, minha família de fato era evangélica, minha mãe e minha irmã ainda são; e elas levavam crianças que eram de lá para se apresentar...
Continuar leituraEntrevista de Daniel Dumont Praxedes Garcia
Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 21 de janeiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV010
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
00:00:20
P1 - Daniel, qual o seu nome completo, sua data e local de nascimento?
R - Meu nome é Daniel Dumont Praxedes Garcia, tenho 27 anos. E moro aqui na região de Interlagos, na Zona Sul de São Paulo. Eu sou nascido aqui em São Paulo mesmo.
00:00:42
P1 - E qual a data do seu nascimento?
R - 6 de maio de 1998.
00:00:47
P1 - E me conta qual o nome dos seus pais?
R - Meus pais são Marlene Gomes Praxedes Garcia e José Roberto Garcia.
00:00:55
P1 - E como é que você descreveria eles?
R - Então, minha mãe sempre foi uma mãe bem super protetora. E o meu pai, eu descreveria ele como uma pessoa que, acho que minha mãe precisava estar com ele pra que de fato ele fosse a pessoa que ele era, uma pessoa que participava bastante da minha casa, da minha família. Eu descreveria ele como uma pessoa muito feliz assim da forma dele.
00:01:39
P1 - E o que eles fazem? Faziam.
R - Meu pai era operador de máquinas, aí ele acabou tendo um problema psiquiátrico, e teve que se aposentar. E a minha mãe era empregada doméstica.
P1 - Sua mãe ainda trabalha ou não?
R - Não minha mãe, desde 2004, 2005, ela não trabalha mais em casa de família, mas ela acabou montando uma ONG, para ajudar as crianças aqui da comunidade que fica na rua de cima.
P1 - E como é que é essa ONG?
R - Essa ONG é uma ONG que, inclusive, eu cresci lá, pra mim é algo muito especial, porque na minha trajetória de vida eu não consigo lembrar de algo que não tem a ver com a ONG também, foi um projeto que começou dentro de uma igreja que minha mãe, minha irmã, minha família de fato era evangélica, minha mãe e minha irmã ainda são; e elas levavam crianças que eram de lá para se apresentar no grupo de coreografia que tinha. E a partir disso elas viram que não tinha só que trazer essa noção religiosa para eles, eles precisavam estar em um lugar que acolhesse eles dentro da comunidade, já que a comunidade não tem campo de futebol, não tem área de lazer. Então ela foi e montou a ONG que fica dentro de um prédio que tem dentro da comunidade, e é cedido pelo dono, minha mãe fez todo o trâmite de correr atrás e afins. E hoje o principal objetivo da ONG é trazer atividades voltadas a reforço escolar, atividades artísticas e coisas do tipo, para que essas crianças tenham o que fazer fora da escola também.
00:03:37
P1 - E me conta um pouco como foi a sua infância nessa ONG e fora dela. Como que foi um pouco da sua infância?
R - Eu sou o filho mais novo dos outros dois irmãos, tem uma diferença muito grande de idade do meu irmão do meio, minha irmã tem 42 anos, eu acho, meu irmão tem 37 e eu tenho 27. Então eu cresci num lar de pessoas mais velhas que eu, e o que acontece? Eu tive uma infância em que eu brincava bastante com os meus primos, eu tinha primos que eram da mesma idade que eu, vivia bastante na casa da minha avó, na ONG também, eu brincava bastante lá na ONG, pra mim era algo divertido, eu gostava bastante dessa ideia de ficar lá na ONG com a minha mãe, e eu nunca me senti uma pessoa que tinha dividir a minha mãe com outras crianças, eu sempre tive essa ideia muito tranquila na minha cabeça. E eu sempre fui uma criança que gostava de conversar, bem extrovertida no geral. E acho que era isso.
00:04:57
P1 - E o que você gostava de fazer lá na ONG?
R - É engraçado que como a ONG iniciou com acompanhamento escolar, que era o reforço e aulas de capoeira, eu acho, capoeira e dança, acabava que quando a ONG não tinha aula eu ficava brincando de professor; ficávamos eu e os meus amiguinhos que estavam ali, que inclusive, a gente acaba crescendo e não mantém tanto contato por conta da correria do dia a dia e afins. Mas eu brincava bastante de professor com os alunos.
00:05:37
P1 - E voltando um pouco, você sabe como seu pai e sua mãe se conheceram?R - Pelo que minha mãe contou, meu pai e a família do meu pai foram os primeiros moradores aqui da favela aqui em cima que é do Morro da Macumba, e a minha tia que hoje em dia é falecida, irmã mais velha da minha mãe, havia sido atropelada. Minha mãe morava em Minas Gerais e teve que vir de Minas Gerais pra cuidar dessa irmã. E eles acabaram, parece que meu pai foi a pessoa que levou minha mãe até a casa dessa minha tia. Aí começaram a conversar e começaram a namorar e se casaram. Eles tinham 43 anos de casados.
00:06:32
P1 - E me conta, como é que era, você falou que tem uma diferença muito grande entre você e seus irmãos, mas como é que era a convivência quando você era pequeno com seus irmãos?
R - Ah, pra mim eu era o bebê da casa, estava ótimo, porque meu irmão trabalhava e comprava coisas pra mim, minha irmã também trabalhava e comprava coisas pra mim, então era como se fosse filho único, só que com irmãos. Eu tinha aquela ideia de ser único, ter as coisas de criança só pra mim, mas ao mesmo tempo eu tinha meus irmãos e por conta disso, acabei me tornando uma criança muito madura pra minha idade, porque eu convivia só em meio a adultos. Acabava sempre sendo uma criança que queria conversar com adultos, que se metia em conversas de adultos, eu ficava nessas ideias. E é engraçado que hoje em dia, por conta de crescer mesmo em um lar que pessoas eram mais velhas que eu, já adultas, eu tenho muito mais facilidade de conversar e ter amizade com pessoas que são mais velhas, do que com pessoas da minha idade. Eu tenho meus amigos que estudaram comigo no ensino médio e hoje em dia, quem são meus amigos também, eu tenho muitos amigos na escola, que já tinham 10 anos de (trabalhando no) Estado quando eu nasci. Então a gente consegue ter essa manutenção da amizade de uma forma bem legal. Então eu tenho bastante facilidade de lidar com pessoas mais velhas.
00:08:07
P1 - E você chegou a conhecer os seus avós?
R - É, o meu avô por parte de pai e mãe, sim. Meus avós por parte de mãe, não. Minha avó faleceu um pouco antes de eu nascer e como minha mãe já tinha 38 anos, e ela não sabia que estava grávida de mim, ela teve aquelas questões da gestação. Ela já era uma mulher de 38 anos, e não sabia que estava grávida, porque ela tinha feito aquela cirurgia de laqueadura e isso tudo favoreceu que ela achasse que não engravidaria mais; e ela descobriu só com 8 meses que estava grávida, então ela passou mal a gestação inteira, teve aquela questão de pressão alta, e coisas do tipo. E ficou impossibilitada, no momento em que minha avó faleceu, de conseguir ir até no velório dela. Meu avô, por parte de pai faleceu quando eu tinha 7 anos, eu tenho imagens bem vagas assim do meu avô. Minha avó, ela faleceu tem 2 anos também, faleceu em 2022, acho que as imagens da infância que eu tenho são muito mais relacionadas a ter a minha avó mais presente do que meus avós, que já eram falecidos. Na época que eu era criança, meu avô por parte de pai já era doente, já fazia vários tratamentos, então as visões mais recentes que eu tinha dele enquanto eu era criança, era dele já acamado, porque ele, por um tempo, antes de falecer ficou acamado, teve que usar fraldas, foi bem complicado... E é engraçado que eu tenho algumas visões assim... porque a minha mãe e minha irmã eram da igreja, e a visão mais fresca na minha mente é que minha irmã acabou levando algumas pessoas da igreja para fazer uma oração por ele, e é engraçado que... mostra muito essa questão do apego religioso que a gente tem quando está em uma situação de vulnerabilidade, né? Porque minha tia é católica e minha mãe e minha irmã eram evangélicas, e minha tia aceitou naquele momento, que o pastor, que era da época da igreja da minha mãe, fosse fazer uma oração pelo meu avô, por conta dessa questão mesmo, do desespero de não saber o que que estava acontecendo, por estar incerto ali, tudo que estava acontecendo, mesmo a gente sabendo que ele estava com câncer, e de fato... Acho que uma das memórias mais recentes que eu tenho da minha infância com os meus avós é essa questão.
00:11:05
P1 - E tem algum cheiro, alguma comida, alguma festa que lembra a sua infância?
R - Nossa, uma coisa que desde que minha avó faleceu, nunca mais comi o arroz dela. O arroz... Nossa, o tempero, era um tempero que eu nunca mais vi; a comida dela, ela usava coisas tão simples pra preparar a comida, mas tinha um gosto tão diferente, sabe? E é uma comida que eu sei que nunca mais vou experimentar. Mas a minha memória afetiva mesmo eram os almoços que tinham na casa da minha avó. Durante muito tempo a gente foi uma família muito unida, mas só que como todo mundo foi crescendo e foram formando suas famílias, minhas primas acabaram se casando, arrumando namorados, namoradas e afins, cada um foi pro seu canto e, momentos que a gente tinha em família acabaram se tornando, tipo, Natal, Ano Novo ou coisas do tipo. Mas eu lembro bastante de épocas que a gente fazia churrasco, épocas que tinham festas de aniversário, e como eu morava em apartamento, a gente não conseguia fazer festa de aniversário minha lá, aí a gente acabava fazendo na casa da minha avó. Então, as memórias que eu tenho, voltadas pros meus aniversários, até os 10, 11 anos, eram voltadas pra fazer festas na casa da minha avó.
00:12:38
P1 - E como era a casa da sua avó?
R - A casa da minha avó, eu achava um lugar que era bem legal pra brincar com os meus primos, nós éramos 3 crianças bem agitadas, atentadas que só, então a gente aprontava bastante, mas era um lugar que a gente tinha bastante coisas pra fazer. Como a rua da minha avó era uma rua sem saída e logo no fim ficava a comunidade, então a gente conseguia brincar ali, não tinha aquele perigo de ser atropelado ou coisas do tipo. Então eu ia mais na casa da minha avó porque era o único lugar que eu tinha de socialização mesmo, na minha infância, era o lugar onde tinha pessoas da minha idade. Aqui na minha casa, meus irmãos eram mais velhos, meus pais também, então era o momento que eu tinha ali, em que eu era criança de fato.
P1 - E como era? Você estava contando que a primeira casa que você teve foi apartamento, né?
R - Aham.
00:13:41
P1 - Como era o bairro? Eu sei que é aqui próximo, mas como era naquela época?
R - Então, nos anos 2000, aqui a comunidade era um pouco perigosa, tinha várias questões, às vezes tiroteios e eu tenho algumas memórias de um dia em que teve um tiroteio e minha mãe pegou e colocou o sofá na porta (para bloquear a entrada). A gente morava no prédio, mas como era CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) e às vezes não tinha manutenção, o prédio era totalmente aberto. Era o prédio, mas só que era meio que uma extensão da comunidade que por muito tempo, até, sei lá, os meus 5, 6 anos, era uma comunidade perigosa as vezes eu saía, mas só que minha irmã tinha que ir comigo. O lugar em que eu me sentia mais seguro, era na casa da minha avó mesmo, mas eu sempre ia acompanhado, ou da minha irmã, ou do meu irmão.
Aí depois, as coisas foram melhorando lá, na questão da casa da minha avó e da comunidade que começou a ficar mais tranquila e, aí sim, eu comecei a conseguir ter uma vida de criança mais autônoma de fato.
00:15:07
P1 - E você estava contando como era o apartamento, eu queria que você contasse um pouco como era essa primeira casa da sua infância.
R - É engraçado que todas as vezes que eu sonho, eu estava até conversando sobre isso com uma professora que era a estagiária da escola em que eu trabalhava no ano passado; ela também tem o mesmo tipo de sonho que eu, em todos os sonhos que eu tenho eu não tô morando aqui, eu tô morando lá no apartamento. Então pra mim a memória afetiva do apartamento é o que sempre aparece nos meus sonhos, foi um lugar que eu gostei por muito tempo de morar lá, mas só que como a gente foi crescendo e aconteceram várias mudanças nas nossas vidas, tivemos que mudar para um lugar maior. Era um lugar que por conta da questão de que o Projeto Cingapura (Iniciativa habitacional de baixo custo que visava substituir favelas por prédios de apartamentos, na década de 1990) tinha sido descontinuado, ele foi meio que um projeto abandonado pela pasta da prefeitura, então era uma situação um pouco mais precária, no sentido de que o prédio na minha infância, até é tipo 2012, antes de uma revitalização que teve, os prédios eram todos pichados. A questão é típica, acontece sempre em CDHU, e eu vejo, como eu sou formado em Ciências Sociais e fiz uma mini pesquisa na faculdade, voltada para essa questão da habitação, e eu pesquisei um pouco sobre essa questão do Projeto Cingapura, que é um projeto inspirado nos prédios de Singapura (Malásia, Sudeste asiático) de fato, mas de certa forma, ele é inspirado e é referência, porque ele é o maior Conjunto Habitacional Popular da América Latina, aquele que tem no Zaki Narchi (Cohab na zona Norte de SP) e o Tiradentes (Cohab Cidade Tiradentes Zona Leste da cidade de SP), mas são prédios que foram descontinuados e o que aconteceu? Era muito precário, então as pessoas pegaram as garagens, onde a gente tinha vaga de garagem, dividiram e venderam as garagens. E isso perdurou por muito tempo, era um lugar que ao mesmo tempo era um prédio, mas era aberto pra qualquer pessoa que quisesse, de certa forma, adentrar. Por muito tempo foi um lugar onde a gente passou um pouco desse perrengue, mas aí depois conseguiram fazer a revitalização, ficou bem bonito. Inclusive agora com a nova síndica tem melhorado muito mais, está ficando muito bonito o prédio, e eu tenho bastante carinho de ter morado lá. Foi uma infância em que a gente teve algumas dificuldades de fato, mas foi um lugar em que a gente era feliz, porque um se apoiava no outro e a gente conseguia seguir.
00:18:16
P1 - E lá você brincava com outras crianças? Tinha outras crianças ou não?
R - Tinha. Geralmente eu brincava bastante também na casa da minha avó e às vezes no prédio. No prédio tinha algumas pessoas lá, alguns amigos que eu tive também que eu brincava bastante com eles, mas como essas pessoas acabaram se mudando, eu perdi o contato, a única pessoa que de certa forma mora lá ainda, que mora lá desde que eu nasci, são as meninas que moram no apartamento de baixo, no quarto andar que são as filhas da… o apelido dela é Nana.
P1 - E você morava no quinto andar?
R - Eu morava no quinto, a gente morava no último andar e lá não tinha elevador.
P1 - E lá escada?
R - É escada, a gente subia todos os dias com compra, às vezes, pra passar móvel, se comprava móvel, tinha que subir tudo pela escada. Terror.
00:19:16
P1 - Eu fico pensando no ambiente que você cresceu, eu queria que você contasse um pouco como era o entorno, o que você via de prédio, se era rua, se a rua era tranquila, se era movimentada de carro. Se tinham animais na rua que você brincava. Como é que era esse espaço fora da sua casa?
R - É engraçado que... O que que acontece? Quando a gente vai fazer essa análise, depois que a gente tem um pouco mais de maturidade... A gente vê que estávamos no mesmo lugar, que era de fato uma comunidade, mas só que começamos a ver diferenças, porque as pessoas que moravam no (Projeto) Cingapura que de fato é um terreno que também faz parte um pouco da comunidade. As pessoas que moravam no Projeto Cingapura não consideravam que moravam na favela. Então essas pessoas acreditavam que elas estavam em um patamar acima. Tanto que se vocês forem perguntar pra minha mãe, na cozinha se ela morava na favela? ela vai falar que - não, eu não morava na favela - porque ela acredita que o Projeto Cingapura não faz parte da comunidade de fato. Mas, é engraçado, porque a gente tinha essa ligação muito grande, até porque acabava a grade do prédio, e por muito tempo nem teve grade, e já era uma viela, e a gente brincava, as pessoas do prédio com as crianças que moravam na comunidade. Eu sei que eu rodava comunidade quando eu era pequeno, brincava, andava de bicicleta com meus primos, caia de bicicleta, a questão de amizade, que eu tenho mesmo, que de fato eu lembro muito, que são referências muito grandes, são meus primos mesmo. Hoje em dia a gente, por conta da correria do dia a dia, eu vejo meu primo às vezes a cada 6 meses, e meu outro primo tem, eu acho que 1 ano e meio que eu não vejo ele. A vida de adulto acaba afastando às vezes a gente, né?
00:21:25
P1 - E me conta como era na escola. Você gostava de ir? Como que você ia pra escola?
R - Eu me encontrei na escola no ensino médio, já no segundo ano do ensino médio. Mas é engraçado que no Fundamental II eu odiava, é uma loucura, porque eu me tornei professor! No Fundamental II… Hoje em dia o Estado tem uma plataforma que chama “Aluno Presente”, e eu seria o terror do “Aluno Presente”, porque eu faltava muito, eu tinha muito problema com falta e às vezes era pra ficar em casa jogando no computador, ou acordava tarde e não queria ir pra escola, mas eu sempre fui um aluno que não tirava notas ruins, ao mesmo tempo que eu faltava eu conseguia tirar nota, isso facilitava. Eu sempre fui um aluno que tive um pouco mais de facilidade em linguagens e humanas, e matemática sempre foi o problema que eu tive. Durante o ensino médio, eu era estagiário do (programa) “Acesso à Escola” que era um programa do Governo do Estado que iniciou, acho, que em 2010 e terminou em 2014, 2015 eu acho, e eu fui um dos últimos estagiários que estiveram no programa, e de certa forma, você era o professor que ficava ali na sala de informática, inclusive a sala de informática por muito tempo foi descontinuada, então deixaram os computadores lá e eram os diretores que faziam as manutenções, então foi ali que, tendo contato com os professores e vendo a escola de um outro olhar, eu comecei a participar da escola de fato. Em 2015, teve aquela reorganização (nas escolas do Estado), quando iam fechar várias escolas, e inclusive agora estão tentando novamente reorganizar, em 2015, iam fechar minha escola também, e os alunos do Grêmio se mobilizaram e fizeram paralisações, os professores se uniram, e (foi) ali que eu comecei a entender qual era o meu papel de aluno; e foi ali que eu comecei a ver a articulação que tinha no momento com os alunos ocupando as escolas. E quando eu fui para a faculdade, vários alunos que foram alunos na época das reorganizações, e do movimento dos secundaristas, eles eram também pessoas que ocuparam as escolas, a nossa escola, o Grêmio não teve que ocupar, mas era uma escola que ia fechar de fato e o pessoal (reagiu e) foi na TV, deram entrevistas, coisas do tipo e não fechou a escola, e a escola vive até hoje aqui no final da rua, a (Escola Estadual) Euzébio de Paulo Marcondes.
P1 - Super conhecido, né?
R - É, super conhecido. E é engraçado essa questão da escola, é uma escola que ela é nosso patrimônio. Eu acho que é um patrimônio material que a gente tem, porque meu pai estudou lá quando era uma escola de madeira, minha mãe estudou, meus irmãos se formaram lá, eu me formei lá, eu até tentei mudar de escola, mas eu não me adaptei a outra escola e acabei voltando. E foi a escola onde eu fiz estágio, eu dei aula lá, foi a minha professora de sociologia que assinou meu estágio, era muito legal eu ir no estágio da faculdade, e ela mostrar com orgulho, que eu tinha sido aluno dela e que eu ia dar aula no lugar dela quando ela se aposentasse e teve um momento que ela até virou coordenadora, hoje em dia ela é a coordenadora do Eusébio de fato, e ela tentou até me puxar, para pegar as aulas dela de Sociologia, para ficar no lugar dela. Só que na época tinha essas questões, os trâmites de contrato da Secretaria de Educação e acabou não rolando. Mas aí depois, assim que surgiu a oportunidade, eu fui Proatec (Projeto de Apoio a Tecnologia e Inovação) lá, fui professor de eletiva (componentes curriculares optativos), a gente fez vários trabalhos legais, e eu tenho um carinho muito grande pela escola. É um lugar que eu sempre volto, sempre volto lá ou para trabalhar em alguma coisa, ou ajudar em alguma coisa, é um lugar que eu tenho um carinho muito grande, que me formou como ser humano, de fato.
00:26:12
P1 - E você estava contando que você se descobriu na escola e que começou a gostar no ensino médio. Foi por conta das ocupações do movimento contra a reorganização?
R - Então, o que aconteceu naquele momento? Eu acho que a gente se tornou protagonista mesmo, e a gente assumiu aquele papel de defender o que era nosso. Então, eu comecei a pesquisar sobre as coisas, eu comecei a ver como era o trabalho da educação e comecei a me interessar muito mais. Até o segundo ano, minha ideia era fazer História, pensava em fazer licenciatura em História durante todo o terceiro ano também; e, até então, não se falava sobre o Projeto de Vida. Hoje em dia, na Secretaria da Educação, tem uma matéria que chama Projeto de Vida; na minha época, há 10 anos, o Projeto de Vida era basicamente voltado para: "- Ah, vou fazer alguma faculdade"; ou "- Ah, vou fazer um curso técnico"; "- Ah, vou abrir alguma coisa"; não se falava muito sobre essa Organização que a gente tinha, essas questões, o que estava acontecendo em São Paulo e em alguns outros estados naquele momento, porque estavam acontecendo não só as ocupações, mas vários outros movimentos também, que me fizeram ter um olhar diferenciado e me mostraram também que era algo interessante. Ao mesmo tempo que era algo que fazia parte da escola, também fazia parte de matérias que eram da escola, como Sociologia. Em Sociologia, a gente estudava movimentos sociais, a gente estuda ainda, e foi por conta disso que eu comecei a pesquisar cursos que faziam parte disso; aí eu achei História, achei Ciências Sociais. No terceiro ano do ensino médio, eu fiz o Enem e tirei uma nota que, na primeira chamada, no primeiro semestre, eu tinha conseguido uma bolsa de RH na Unisa (Universidade Santo Amaro). Aí eu pensei: "Como eu trabalhava no escritório, o que aconteceu?". Assim que eu terminei o ensino médio, eu já terminei e já fui trabalhar; eu fazia um curso também durante a tarde, que era um projeto de trabalho educacional, que era um trabalho voltado para essa questão mesmo do mercado de trabalho: "quais competências que você tinha que ter, o que falar na entrevista de emprego, como você podia se portar, quais roupas que eram adequadas"; e o legal é que era um trabalho colaborativo e era inspirado mesmo em algumas empresas com as quais eles fazem trabalhos com jovens aprendizes e estagiários, que chamava Job Rotation, que é, basicamente, (o jovem) passa por várias áreas, esse estagiário, ele não é estagiário fixo de determinada área. Então, a Tiemi, que era professora, trouxe esse projeto para o Sal da Terra, que era um centro educacional aqui perto. E a gente tinha várias colunas: uma pessoa cuidava do lanche, outra cuidava da página que a gente tinha, que era, na época, ainda do Facebook; outro fazia a questão de receber os palestrantes que vinham; outro preparava a organização; e a gente, ao longo do curso, ia participando, e a ideia era que o aluno que estava matriculado tinha que passar por todas essas estações. E era muito legal, era muito proveitoso. E é o momento que você acaba descobrindo outras características, como eu, no final do curso: a gente tinha ido no NURAP, que era o núcleo de estágios, que é basicamente similar ao CIEE (Conselho Estadual de Educação), ESPRO (Ensino Social Profissionalizante) e afins. Tinha uma vaga lá de aprendiz no setor de TI, não tinha nada a ver com a área que eu queria ingressar, mas eu falei: "- Ah, vou tentar!". Aí eu fiz a entrevista, passei em todas as etapas; naquele momento eu até gostava bastante, porque eu sempre tive facilidade com tecnologia, e é engraçado que eu trouxe essa facilidade com tecnologia para a sala de aula: "Hoje em dia eu gosto de trabalhar com tecnologia, mas dentro de sala de aula"; e aí eu trabalhei no setor de TI durante 1 ano e 5 meses, e naquele momento, de certa forma, eu achava que eu tinha que fazer alguma coisa que me mantivesse na empresa, porque, querendo ou não, eu era, até naquele momento, o único filho na minha casa que tinha trabalhado em escritório, e era uma multinacional. Era uma empresa muito renomada na época, então eu achava que eu tinha que pensar mais na questão do desenvolvimento profissional do que no meu sonho. Então, eu me inscrevi pra o (departamento de) RH, eu até cheguei a fazer a matrícula, mas aí eu pensei bem e falei: "- Hum, não é o que eu quero"; e comecei a pesquisar ainda mais, pesquisei grades da faculdade. Inclusive, é uma coisa que hoje em dia, no ensino integral, a gente tem um programa que se chama Tutoria, que basicamente é o aluno escolher o professor para ser o tutor dele. Tutor, ele vai te ajudar na sua jornada acadêmica; então, enquanto você fica ali, e a cada ano você pode trocar de tutor, se você quiser, é o aluno que escolhe, às vezes tem gente que influencia e tal, mas o aluno escolhe, é você que vai guiando ele: "- Ah, qual que é o seu projeto de vida? Como você pode fazer? Qual curso você pode fazer? O que você vai pesquisar?". E é engraçado que esse passo a passo que eu fiz, de procurar grade de faculdade, sem muito conhecimento, sem ter tanta orientação, eu passo pra eles até hoje, é algo que é interessante. E o que que acontece? Em Maio, Junho, comecei a pesquisar mais sobre licenciatura em Ciências Sociais, e eu vi a grade e tinha lá uma matéria que era voltada pra Movimentos Sociais; aí foi algo que eu vi e falei: "- Ah, vou me matricular nesse mesmo"; eu fui e entrei pagando, fiz o Enem de novo e, no próximo ano, no ano seguinte, eu consegui, pela lista de espera, a bolsa 100% no ProUni (Programa Universidade para todos), e o engraçado é que uma coisa ligou a outra, porque depois meu contrato acabou e, como eu estava num curso de licenciatura, não iam conseguir me efetivar; eu acabei ficando, eu fui demitido, acho que em abril, e em maio eu consegui a bolsa e consegui terminar a faculdade.
00:33:25
P1 - E onde que você estudou?
R - Eu estudei aqui no Eusébio de Paula Marcondes.
P1 - Não, depois, na faculdade?
R - Ah, Faculdade? Eu estudei na FMU. Na FMU do Campus da Liberdade.
00:33:38
P1 - E me conta um pouco, antes de ir pra para a época da faculdade, você contou que quando você era pequeno você brincava de ser professor, você tinha esse sonho de ser professor? Quando você era pequeno, você tinha sonho de ser alguma coisa? Era uma brincadeira pra você que depois veio a se tornar o seu trabalho?
R - Ah, é que quando a gente é criança, a gente quer ser várias coisas, e são sempre posições assim de holofote, né? Para mim, Professor era aquela pessoa que estava ali na frente, e era a pessoa que comandava a sala. Eu sempre fui uma criança que gostava de mandar. Era um terror, porque eu sempre gostei de mandar, então, eu gostava de brincar de professor, porque ficava brincando de mandar nas outras crianças, criança é um cão também, né? Então, isso acabava facilitando, mas durante a minha infância eu quis ser bastante coisa. Quis ser veterinário porque eu gostava de animais, na adolescência, eu quis fazer psicologia. É engraçado que até hoje eu tenho uma inclinação para a psicologia e eu estudo, eu gosto de ler bastante os teóricos da psicologia. Gosto de pesquisar bastante e de fato era uma sementinha que já estava ali, sabe? E ela só foi crescendo. Eu acho que eu entendi o sentido, lá no ensino médio mesmo.
00:35:16
P1 - E me conta, nessa época da infância e adolescência, você teve algum animal de estimação?
R - Tive. Eu tive a Lulu, que era uma cachorra Poodle, ela cresceu comigo, quando ela faleceu eu tinha acho que 12, 13 anos, mas ela já tinha 2 anos quando eu nasci, na minha casa, ela era minha amiga também, era a única “pessoa” que eu tinha ali que poderia brincar comigo, porque meus irmãos estavam na correria, trabalhando. Minha mãe, no momento que eu já tenho algumas memórias de que minha mãe já ficava em casa, minha mãe já era uma pessoa que já tinha 50 anos, já era uma pessoa de mais idade, uma idade mais avançada, 50 não, acho que 45, 46, mais ou menos nessa faixa etária. A Lulu era a pessoa com quem eu ficava brincando, eu brincava com ela, ficava brincando de pega-pega, ela era preguiçosa e eu queria fazer igual aqueles cachorros de filme que você joga a bolinha ele pega e traz na sua mão, mas a Lulu não fazia isso. Então eu ficava nessa brincadeira mais de pegar e carregar ela no colo, às vezes eu a colocava pra dormir e ela não queria dormir, e eu falava: - Você vai dormir sim. Aí ficava mais ou menos assim, mexeu muito com a gente quando a Lulu faleceu. Porque durante todos os momentos que a gente teve no apartamento, ela estava com a gente; ela acabou tendo um câncer de mama, e esse câncer de mama foi avançando, e a gente não viu, e aí no final acabou… (Intervenção) E esse câncer foi avançando, e teve um dia que a gente chegou em casa e a casa estava lavada de sangue porque o câncer tinha estourado. E minha irmã pegou e ficou a noite inteira ela e meu pai procurando veterinários, gastou naquela época R$500, reais eu acho levarem até o veterinário, porque naquela época não tinha Uber, 99 ou aplicativos assim, foi de táxi mesmo. Então só a ida e volta do táxi já deu uma pancada de uns R$200, fora a consulta e coisas do tipo, já viu que o câncer estava em metástase; depois daquele momento, a gente de certa forma deu muito mais conforto pra ela, e ela viveu por muito tempo, ela viveu mais 3 anos, eu acho, com a gente fazendo todas as coisas, tentando dar uma vida de qualidade pra ela e ela conseguiu viver bem ainda uns 3 anos. Aí o câncer começou a tomar ela de uma forma muito complicada ela parou de andar, só chorava, a gente acabava tendo que às vezes acordar à noite pra dar dipirona pra ela, depois a dipirona começou a não fazer mais efeito e ela acabou falecendo mesmo.
00:39:16
P1 - E essa perda impactou vocês em querer ter outros animais naquele momento? Como é que foi?
R - Naquele momento a gente tinha decidido até que a gente não ia mais ter animais, e a partir disso, durante muito tempo, a gente não tinha animais na minha casa. E eu achava chato, porque uma casa sem animais é uma casa sem vida, eu achava uma casa muito sem vida, porque a gente tinha uma rotina monótona em que cada um ia pro seu trabalho, meu pai ficava em casa porque ele já era aposentado, mas a gente não tinha aquele afeto que a gente poderia ter, que no final do dia um animal pode proporcionar pra gente... Depois disso chegou a Mia, em 2018 chegou a Mia pra gente.
00:40:13
P1 - Antes da Mia chegar, eu queria falar um pouco sobre como foi esse momento da adolescência e depois ir para a faculdade, o que você fazia para se divertir durante a adolescência?
R - Os meus amigos até hoje, são os meus amigos do ensino médio, e a gente ficava o dia inteiro um na casa do outro. A gente jogava joguinhos, tanto que hoje em dia a gente tem, o mais velho de nós tem 32 anos, eu acho, mas a gente ainda se reúne pra ficar jogando videogame, coisas desse tipo. Durante muito tempo, na minha adolescência, eu andava mais com os meus amigos, eu ia em shopping, em cinema, andava em São Paulo. Foi com eles que eu aprendi a andar em São Paulo.
00:41:12
P1 - É, geralmente nessa época as pessoas começam a desbravar São Paulo sozinhas, aconteceu com você também?
R - Foi o momento em que eu comecei a andar em São Paulo, comecei a ir para os lados da Paulista, comecei a frequentar lugares que eram além daqui da região do Campo Grande e Shopping Interlagos, que são os lugares de referência, que são pontos de socialização aqui do lugar em que eu moro.
00:41:45
P1 - E me conta, como é que foi esse momento da faculdade, quando você entrou, o que você experienciou pela primeira vez na faculdade?
R - Eu fui o primeiro filho da minha mãe a frequentar a universidade, então, pra mim, foi uma experiência que eu nunca tinha visto antes e que ninguém nunca tinha me contado. Um tempo depois, minha irmã entrou na faculdade, meu irmão também; minha irmã termina agora e meu irmão trancou o curso, ele fez vários cursos, já tentou Educação Física, Gestão Hospitalar e afins, mas ele ainda não conseguiu se encontrar nessa carreira do ensino superior. Mas, pra mim, foi um momento em que eu pensei: "Nossa, agora eu vou fazer faculdade. Agora é o meu ano"; foi um momento de muitas descobertas, conheci muita gente nova, conheci professores que foram excelentes na minha jornada e, até hoje, eu fiz aquela prova, o PND (Prova Adicional Docente), que é a prova do processo de professor, que é o programa do Governo Federal lá. E, nesse caso, tinha várias coisas que eu, fazendo a prova, fui lembrando dos meus professores. Aí eu saí da prova e mandei, eu tenho o telefone até hoje de um professor de antropologia, que é o Fábio, eu mandei: "Nossa, Fábio, eu lembrei de você na minha prova". Ele respondeu: "Que bom, espero que você tenha acertado, fiquei feliz por isso". Pra mim, aquele momento da universidade foi quando eu comecei a me desenvolver enquanto um jovem; acho que o que eu tive na faculdade, na questão dos professores, das aulas, do que a gente tinha também fora da faculdade, os amigos que eu fiz, me formaram enquanto um jovem.
00:43:40
P1 - E você estava contando o que você fez no estágio em TI, além desse estágio, tem algum outro que tenha te marcado? Ou nesse mesmo tem alguma história que tenha te marcado?
R - É, acho que a experiência que mais me marcou e que inclusive eu acabei voltando, é a do (programa) Acessa Escola, que é um projeto que foi dentro da escola, e eu trabalhava na escola que eu tinha estudado. Então, pra mim, quando eu voltei lá como professor, pra me apresentar no planejamento, eu citei isso, que na sala em que estava acontecendo aquele planejamento, eu tinha sido estagiário naquela sala há 10,11 anos atrás, por isso foi um momento pra mim que foi muito importante assim, sabe? Me marcou bastante porque a gente tinha aquela... como que a gente pode dizer? Naquele momento a gente tinha um momento em que a gente não era o aluno do professor, mas a gente era um colega de trabalho. E tinha uma... naquela época a coordenadora era a Raquel, que foi minha professora de História no terceiro ano, e a gente era muito apegado a Raquel, a gente vivia atrás da Raquel. Raquel andava a escola inteira e a gente ia atrás dela como estagiário, e inclusive a gente tem contato até hoje, com ela, com a Elza, que foi a minha professora de Sociologia. E acho que foi uma experiência muito válida e que foi algo que ajudou a crescer ainda mais aquela sementinha de professor que estava ali, sabe?
00:45:27
P1 - E que ano que você começa a atuar como professor?
R - Eu comecei em plena pandemia, em 2021. Foi o momento ali que, no caso, tinha mudado a legislação para o professor, até então, o professor, se ele estivesse no sexto semestre (do curso), ele podia pegar aula, e meu curso tinha acabado de mudar pra 4 anos. Então eu tinha que... Se eu não me engano, podia a partir do quarto semestre na legislação antiga, e eu tive que esperar até o sexto semestre para fazer; só que o sexto semestre, como eu entrei no meio do ano, ele era no meio do ano e não tinha processo seletivo. Então eu tive que aguardar até o sétimo mesmo, eu queria ter ingressado em 2020 mas, por conta de tudo que aconteceu, iniciou a pandemia, e eu só consegui ingressar como professor em 2021. A primeira escola em que eu dei aula foi uma escola que era lá na Cupecê, que se chama Martins Pena (Escola Estadual Martins Pena).
00:46:39
P1 - Antes de contar um pouco sobre essa primeira experiência de você dando aula, eu queria saber como foi a sua formatura, se você teve uma formatura, como foi esse momento de ser o primeiro da família a se formar?
R - Então, é engraçado porque era um momento em que eu estava me formando, mas, ao mesmo tempo, estavam morrendo 1.000 pessoas por dia por conta da Covid, e, por isso, a minha formatura teve que ser remota, eu fiquei atrás da tela. A FMU fez a formatura, tentou fazer tudo que faz parte da formatura de fato, mas não deu muito certo porque todo mundo ficou por trás da tela, foi uma formatura que, ao mesmo tempo, eu tive, mas não tive. Mas que bom que eu me formei, né? E eu lembro que, na época, quando falou lá, eu tinha que ficar no computador pra aparecer na câmera, e minha irmã espelhou na TV também, do celular dela, e quando apareceu meu nome lá: "Daniel Dumont Praxedes Garcia, formando em Ciências Sociais", eu lembro que, do quarto da minha irmã, todo mundo começou a gritar: "Êêêê!". Então foi algo bem simbólico da pandemia. Mas, ao mesmo tempo, eu vejo que a última formatura que eu tive de fato, eu conto essa (da faculdade) como uma formatura, mas a formatura que eu levo mesmo como o momento em que eu fiquei muito feliz e que eu realmente consegui me formar foi no ensino médio.
00:48:30
P1 - Como é que foi?
R - Então, no ensino médio, a formatura realmente aconteceu, não tinha nada do que estava acontecendo em 2021, 2020, teve festa, teve o momento ali que a gente entrava com os nossos pais. Eu que fui escolhido pra ser o orador da turma, foi bem legal, bem simbólico e é engraçado que eu tenho um álbum de formatura até hoje
00:48:58
P1 - Eu queria que você me contasse um pouco se você chegou a trabalhar em outras áreas depois dessa experiência que você teve na empresa, em outras áreas que não a licenciatura, se existiu outro tipo de trabalho.
R - Nossa, vários. Olha, eu já fui, depois que eu saí da I.T.W (Illinois Tool Works Inc.), que era a empresa, eu acabei ingressando aqui no Hospital Pedreira, meu irmão me indicou e eu fui escriturário lá. Só que, no momento em que eu fui contratado, eu estava fazendo a faculdade e eles tinham me contratado num horário que era das 10h às 19h, então eu acabei saindo no tempo de experiência, porque não deu muito certo. E, assim, eu vejo que me encontrei mesmo na profissão, porque, nos outros lugares em que eu trabalhei, eu não me sentia parte daquilo, sabe? Como escriturário, eu tinha bastante coisa pra fazer. Era um trabalho que era muito monótono, porque você só mexia com papelada, apoiar os médicos e coisas do tipo, mas eu não me via ali como uma pessoa que estava trabalhando de fato com o que ela tinha interesse. Logo após, eu consegui um novo emprego também de auxiliar administrativo no Hospital Albert Einstein, que era um novo sistema que estavam implementando lá. Inclusive, é engraçado que, na minha carreira profissional, sempre “pendulou” entre Professor e Ti, porque esse trabalho, por mais que ele não era um trabalho de TI... ele era um trabalho em que a gente estava implementando, dentro do Setor de Facilities do Albert Einstein, esse sistema que ia melhorar ainda mais os processos dentro da empresa, por exemplo, dentro desse sistema estava todo o sistema de uniformes, a questão de higiene, a questão que tinha das outras áreas, porque o Albert Einstein tem uma logística própria na questão de facilities, é dividida em 2 partes, uma parte é voltada pra essa questão de Soft skills, que é rouparia e afins, e a outra parte é voltada a mobiliário e coisas do tipo, e são áreas que, ao mesmo tempo que elas conversam, elas são totalmente diferentes, e o meu era da parte de uniformes, implementando o sistema em todas aquelas áreas; dividiram a área de Facilities em várias áreas e, assim, era um emprego em que eu tinha o celular da empresa, eu tinha o computador. Era uma empresa que era muito legal, o ambiente super descontraído, tinha toda aquela coisa que chama o jovem, conseguia conversar diretamente com a gerente, que era a Andressa, ela ficava na mesma sala que a gente, a gente conversava, dava risada o dia inteiro, só que, ao mesmo tempo, eu não tinha me encontrado ali, e foi um momento em que a gente estava passando ainda pela pandemia, isso foi em 2020 já, eu fiz bastante bico antes, fiz bico de professor, dando aula em um curso preparatório para auxiliar administrativo, e depois eu consegui essa vaga no Hospital Albert Einstein, e foi um momento em que a gente estava em casa e a gente não estava. Era o momento em que estava tudo quase voltando, que as pessoas já não podiam ficar em casa. E o sistema, naquele momento, eu não conseguia fazer home office, então eu assumi pra pegar e começar na segunda, já vendo o que tinha que fazer, pra na terça já trabalhar, era algo que precisava, estava atrasado inclusive o projeto, e, por conta de que eu tinha ficado muito tempo em casa, meu pai era diabético, minha mãe também tinha pressão alta, eram grupo de risco e minha irmã tem asma também. Eu tinha muito medo de sair de casa, de sair, trazer alguma coisa, contaminar e, sei lá, acontecer uma fatalidade e eu me sentir culpado, e isso começou a mexer muito no meu emocional também, e eu estava ali no último ano da faculdade, chegava correndo do trabalho, porque era um pouco contramão da minha casa pra onde eu trabalhava, que eu tinha que descer na Estação São Paulo-Morumbi e tinha que fazer todo esse trajeto aqui de ir até Jurubatuba, fazer baldeação. Eu chegava aqui 19h em ponto pra correr, ligar o computador e participar da aula online, estava também tendo o estágio obrigatório da faculdade e a questão da saúde mental também, eu já tinha uma saúde mental um pouco afetada, eu tive crise de ansiedade dentro do hospital onde eu trabalhava e acabei me sentindo muito envergonhado e não consegui mais ir trabalhar. Na época: "Nossa!". Quando eu tive a crise de ansiedade, eu lembro que o meu coordenador, era o Gabriel. O Gabriel me ajudou muito, ele tentou me acalmar, e eu chorava muito, nossa... mas eu fiquei muito envergonhado e acabei não voltando mais. E, por muito tempo, eu me senti muito culpado, porque era uma proposta de emprego muito legal. Eu sentia que a minha ideia era muito válida, eu conseguia dar ideias que elas se tornavam válidas, eu me sentia reconhecido, e eu me sentia muito culpado por ter deixado essa oportunidade escapar por conta dessa questão. Mas, hoje em dia, eu vejo que foi algo que tinha que acontecer para que eu entendesse que eu ia me encontrar ali na frente, porque, ao mesmo tempo que eu gostava, porque eu achava o lugar muito legal, naquele momento eu ainda estava com dúvidas sobre o que eu queria fazer. E porque, naquele momento, ainda teve aquele corte de matérias de Sociologia da grade curricular do Ensino Médio, por conta do novo ensino médio, e você ficava pensando: "Hum... Será que é bom eu terminar isso daí? Eu acho que eu vou terminar isso e vou fazer outra coisa...". Eu tinha pensado até em fazer uma pós-graduação que tinha no Einstein mesmo, que era voltada para essa questão mesmo de Facilities, uma Pós-graduação própria, montada pro ambiente de trabalho que eles têm, que são referência. Então eu até pensei... mas eu vi que o meu papel é em sala de aula mesmo. Enquanto professor, eu já participei de várias coisas, já fui para uma parte que é extra sala de aula, que é o CIEB, que é o Centro de Inovação da Educação Básica, não me adequei muito, porque não tinha muito a ver com o que eu gostava de fazer, e voltei pra sala de aula, e eu vejo que gosto bastante das salas de aula, no geral.
00:56:28
P1 - E me conta então, como foi essa primeira experiência durante a pandemia como professor? O que você sentiu? Como foi seu primeiro dia de aula? Como é que foi a recepção dos alunos?
R - Quando eu ingressei no Martins Pena, me chamaram lá, acho que dia 29 de abril, e é engraçado que eu comecei a dar aula, foi no dia do meu aniversário. O primeiro dia que eu pisei em sala de aula é 6 de maio de 2021, e era aquele momento da pandemia em que estávamos naquela situação de “volta, não volta” (atividades presenciais), e as pessoas que eram do grupo de risco estavam tentando dizer pro governador não deixar a escola como serviço essencial, mas foi deixado, e realmente é uma coisa que, querendo ou não, tem um pouco a ver, né? Mas eu acho que poderia ter sido organizado de uma forma que as pessoas não tivessem que ser expostas aos riscos, igual aconteceu naquele momento. E quem era novo contratado, como não estava no contrato que a pessoa tinha que trabalhar em modelo remoto - foi depois da resolução que foi lançada - no meu trabalho, pelo menos até junho, eu tinha que ir uma vez na semana na escola, só que depois abriu para todo mundo. Num primeiro momento, era plantão de dúvidas, iam 3, 4 alunos e, às vezes, eles nem eram meus alunos, eu peguei as aulas, de início, como Filosofia... A coordenadora, que tinha virado coordenadora, ela que me mostrou, a Ellen, que eram as aulas dela, eram as aulas que ela atribuía geralmente e, até então, eu ia nesses dias pra escola até junho daquele ano pra ficar tirando dúvida de alunos, fazendo conversas, ou até mesmo pegava alguma matéria que tinha um pouco a ver de Filosofia com História do Fundamental II, tinha época que eu estava dando aula pra aluno de 9º ano, sendo que eu tinha só 1º, 2º e 3º, só pra meio que falar assim: "Ó, tem professor aqui, para você não perder seu dia e ficar aqui sem fazer nada, só vir e perder viagem... Pega e dá aquelas aulas ali", e foi um lugar que eu aprendi muito, eu tenho um imenso carinho pela escola Martins Pena, porque foi lá que começou a me formar de fato enquanto professor. Foi um momento em que a gente conseguiu fazer projetos na pandemia, alunos não tinham acesso a meios de comunicação, porque é uma comunidade um pouco carente, tinha alunos que tinham dinheiro, tinham condições financeiras para ter internet e tudo o que precisavam durante a pandemia, e tinham alunos que não tinham acesso à tecnologia, então tinha gente que estava arrecadando celulares e fazendo vaquinha pra arrumar para deixar para aqueles alunos que não tinham condições, para que eles conseguissem acessar o CMSP (Centro de mídias de SP), que era a plataforma destinada; então a gente, mesmo com todos esses entraves, conseguiu um projeto que era voltado para a História, pensando mesmo na história da escola ali, falando sobre a história do bairro. O que que era ali, quem que era o Martins Pena, que inclusive era um, acho que era um jornalista e várias coisas do tipo, foi um trabalho que foi muito grandioso e a gente conseguiu integrar várias áreas, como Matemática, falando sobre o preço dos alimentos, as questões do inglês que apareciam na nossa língua portuguesa, como Lockdown, e várias coisas assim. Foi um trabalho muito integrado e foi a primeira equipe que eu tive enquanto professor titular de uma matéria e que eu guardo até hoje no meu coração. Porque, naquele ano, 3 professores se aposentaram, e eu tinha... a maioria das aulas de Filosofia, uma aula de Sociologia e uma aula de História. Então a professora de História que tinha se aposentado deixou todos os livros dela pra mim, a Jô, e eu peguei, até fui buscar depois alguns livros, mas tinha muito livro e acabei deixando lá com o pessoal também. Eu me senti acolhido naquele espaço, e a outra professora também, de Matemática, a Elaine, quando ela se aposentou, deixou o armário dela pra mim, já que os armários estavam todos ocupados. Então foi um lugar que eu me senti realmente muito acolhido. E eu tenho muito carinho por lá até hoje.
01:01:44
P1 - E depois do Martins Pena, você foi pra escola que você deu aula até o ano passado, ou não?
R - Não. Então, aqui no (trabalhar na educação do) Estado é meio que incerto, cada ano é um ano diferente, agora no ensino integral eles estão tendo a visão de que o trabalho do professor é contínuo, o professor, se ele fica mais tempo numa escola e ele mantém a carga dele em uma só escola, a qualidade do trabalho muda drasticamente. Eu tinha, no segundo ano, quando eu comecei para atribuição de aula, eu tinha aula numa escola que se chama “Dogival (Escola Estadual Dogival Barros Gomes)” e numa escola que se chama “Isaltino (Escola Prof. Isaltino de Mello)”, que foi uma escola onde, inclusive, eu estudei durante 3 meses, no ensino médio. Aí eu voltei pra lá como professor, e eu acabei não gostando muito, e eu puxei todas as aulas que eu tinha lá do “Isaltino” para o “Dogival”, que foi uma escola em que eu achei o ambiente muito acolhedor também. Só que em 2022 minha vida virou de cabeça pra baixo, porque em janeiro minha avó faleceu, e em fevereiro, no dia 14 de fevereiro, meu pai faleceu, com menos de 30 dias de diferença de um pro outro, eu perdi 2 pessoas que eram muito importantes pra mim e na minha família, e, naquele momento, eu peguei um atestado de 15 dias, porque eu fiquei bem… Foi bem complexo pra mim, porque o meu pai infartou, teve um infarto fulminante dentro de casa; então eu vi a cena, a Mia também viu a cena, inclusive isso mexeu um pouco com o emocional dela, e eu acabei saindo dessas 2 escolas e vindo para mais perto. Aí sim eu ingressei no Eusébio, foi uma vaga que caiu do céu, porque minha família estava precisando muito de mim, era um momento que estava todo mundo desolado aqui, porque a gente tinha perdido minha avó, tinha perdido meu pai, e a gente ainda estava em todos aqueles trâmites para passar o benefício do meu pai pra minha mãe, fazer inventário das coisas e verificar se não tinha alguma coisa faltando ali no dia. Nos 15 dias que eu fiquei de licença, eu não tive nem tempo de chorar, eu fui correr atrás disso; e no 13º dia desse atestado, que eu peguei porque no Estado tem uma outra coisa: a licença que eles chamam de “Licença Nojo”, você só tem 2 dias, então meu pai morreu no domingo e seriam 2 dias de licença: o dia em que a pessoa morreu e o velório, e o dia em que meu pai foi enterrado na segunda; então, na terça-feira, eu tinha que estar feliz e contente pra receber 40 alunos na sala, e isso era algo que eu não ia conseguir, eu sabia, porque já estava passando por aquelas questões da ansiedade e afins; e era um momento em que a gente estava segurando a minha mãe, foi o momento em que minha mãe mostrou a fragilidade dela, e minha mãe sempre foi uma pessoa muito forte, de não demonstrar medo, chorar, e ela começou a ter medo de dormir no quarto, e foi o momento que a gente teve que reorganizar a nossa vida. E, no 13º dia do atestado, minha coordenadora, que foi minha professora de Sociologia, ela mandou um recado falando que tinha uma vaga de professor de Apoio à Tecnologia e mais algumas aulas que iriam completar a carga. Aí ela perguntou: "Ah, você tem interesse?" Eu falei: "Eu tenho interesse sim, porque ficar mais perto de casa vai ser importante pra mim, vou estar aqui perto de casa, na rua da minha casa, e vou ter como ajudar a minha mãe", e eu fiquei lá durante 6 meses, foi um lugar em que eu aprendi muito, em 6 meses a gente conseguiu fazer muita coisa também. Eu lembro que a gente conseguiu fazer com o pessoal do EJA (Educação de Jovens e Adultos) e da sala de leitura um livro inspirado em uma autora que se chama Jarid Arraes, que é sobre mulheres brasileiras: “Heroínas negras brasileiras”, com vários contos sobre mulheres que foram importantes no Brasil, tentamos inventar uma forma de recriar aquilo, fazendo com que os alunos da Educação de Jovens e Adultos trouxessem seus próprios relatos, e aquilo que até então era um painel que tínhamos feito, foi se tornando um livro. Aí a gente mandou o livro pra gráfica, e da gráfica já se tornou uma noite de autógrafos, e foi muito legal, porque eu vi que era um momento em que o pessoal da Educação de Jovens e Adultos estavam sendo vistos de fato; porque, querendo ou não, o EJA dentro da escola é muito importante, mas são 2 mundos diferentes, porque são alunos que estão no Ensino Médio e pessoas que já passaram pelo Ensino Médio e pararam de estudar, trabalharam durante 20 anos e estão tentando ali recomeçar a sua vida, ou pararam porque estavam em um relacionamento abusivo, então tinha várias histórias assim voltadas a essa questão, e essas pessoas ficavam ali de canto; e esse foi um momento em que a gente conseguiu colocar todo mundo junto, juntar quem era do EJA com quem era do Ensino Regular. E a gente fez um projeto muito legal, dentro também dos Itinerários, era o momento que tinha acabado de ser lançado para o segundo ano os Itinerários Formativos (Parte flexível do Novo Ensino Médio no Brasil). Eu e a professora Vânia de Língua Portuguesa, a gente conseguiu fazer com uma sala lá um jornal, e os alunos colocaram matérias de dentro da escola mesmo para o jornal, a gente pegou e imprimiu o jornal e fez depois uma exposição contando a história também do bairro. Eu sempre gostei bastante de trabalhar essa questão de entender onde a gente está inserido, então a gente fez também esse projeto História do Bairro, aqui no Eusébio, ligando o Morro da Macumba, que é o lugar onde a maioria deles moram, o Shopping Interlagos e a Casa de Cultura Hip Hop Zona Sul, que é lá em cima, e é um espaço que tem bastante coisa e às vezes as pessoas não sabem que tem, e é gratuito e quando tem alguma coisa que tem que pagar, é um valor bem simbólico de R$5, R$10 pra ajudar na manutenção do espaço. Então os alunos foram pesquisar, procuraram fotos, pegaram com os pais deles relatos, e a gente fez um museu de um lado e um escritório de jornalismo do outro, com crachá e tudo, muito legal, eu tenho as fotos ainda desse projeto. Nossa, foi um projeto que... A culminância desse projeto foi o último dia que eu estive no Eusébio, depois eu fui pra escola em que eu fiquei até o ano passado.
01:09:48
P1 - E como é que estava a sua vida nesse momento? O que você estava sentindo na sua vida pessoal?
R - Olha, estava bem difícil, foi um momento em que eu tive que me manter de pé. Porque querendo ou não, estava todo mundo aqui abalado. Meu irmão estava dormindo no quarto da minha mãe, porque minha mãe estava com medo de dormir sozinha; esses 6 meses, foram 6 meses que o destino me promoveu pra que eu conseguisse arrumar minha vida aqui, sabe?
Porque foi quando eu consegui mudar de quarto com a minha mãe, minha mãe quis mudar de quarto comigo e foi o momento em que a gente conseguiu organizar tudo. Eu tendo um horário totalmente quebrado ali, então foi uma coisa que não era a correta a ser feita, mas eu mergulhei no trabalho para não... Eu meio que deixei o luto de lado pra viver o trabalho. Tanto que até hoje, eu tenho um carinho muito grande pelo meu trabalho. E de certa forma, foi o acolhimento dos alunos, o acolhimento das pessoas que estavam ali comigo que me fizeram passar por aquele momento tão difícil. Teve um momento lá em que a mãe do diretor tinha falecido também, acho que um mês e meio depois, fomos ao enterro dela, e foi no mesmo cemitério em que meu pai estava enterrado. Aí eu fui lá, vi o túmulo dele, chorei um pouquinho também. E foi um momento em que eu precisava ter aquele respiro. Depois eu acabei fazendo o processo seletivo no CIEBP, fui aprovado e já comecei na semana seguinte, e eu acabei não saindo mais de lá, e fiquei até o ano passado.
01:11:56
P1 - Foi um momento então de reorganização?
R - Foi. Foi um momento muito importante, e eu tenho um carinho muito grande também pelo Ângelo (E.E. Ângelo Mendes de Almeida, Dr.), porque foi um lugar que eu me senti muito acolhido enquanto professor, eu passei por momentos muito difíceis no meu processo de luto e como eu não sou uma pessoa que não choro fácil, foi muito mais complexo porque afetou o meu sono. Então quando meu pai faleceu, eu não dormia, depois de um tempo eu comecei a dormir demais. Aí, depois disso, eu comecei a engordar muito mais, então mexeu em toda a minha vida assim, minha vida virou de cabeça pra baixo. E lá foi um dos espaços em que as pessoas que estavam ali comigo me apoiaram nesse momento dando algum conselho, aquela palavra amiga, ou até mesmo na época da exumação do corpo do meu pai, eu tive muito apoio da escola. A Daniela veio me falar que ela passou por uma situação similar, mas só que o pai dela acabou falecendo na época da pandemia, a gente conversou bastante, a gente falou bastante sobre esse momento. Eu carrego esse carinho muito grande, porque eu acho que precisava desse momento para reorganizar, e precisava depois, daquele momento de acolhimento.
01:13:30
P1 - E me conta um pouco como foi durante esses últimos 4 anos as relações que você construiu com seus alunos.
R - É muito legal porque quando eu entrei no estado eu era, o quê? 5, 6 anos mais velho que meus alunos. Então eu era uma pessoa ali, era um jovem cuidando de adolescentes. E eu sempre consegui ter um bom manejo disso. Eu sempre consegui fazer os alunos terem aquela questão do acolhimento. Eu sempre fui uma pessoa muito acolhedora e isso facilitou muito que eu não estivesse embate na sala de aula, os alunos gostassem muito de mim. E isso favoreceu com que a minha relação com eles fosse uma relação muito positiva. O terceiro ano que se formou ano passado no Ângelo foi o meu terceiro ano que eu os peguei desde o primeiro, então eu vi eles pequenininhos assim, entrando na escola do primeiro ano do ensino médio e no terceiro, eu vi eles se formando, no último dia de aula, todo mundo chorou, a gente chorou, se abraçou. Na formatura todo mundo chorou de novo, então eu acho que essa é a característica que a gente tem no ensino integral, é essa questão da Pedagogia da Presença, a gente acaba se tornando muito próximo do aluno, e essa proximidade depois que a gente tem que deixar eles voarem e acaba sendo triste pra gente também. E no outro ano recomeça tudo de novo, quando você é professor de ensino médio, você acaba tendo essa relação muito próxima com eles, mas por um tempo muito curto o professor de humanas acaba sendo um em cada matéria. Eu sempre tinha aula com a escola inteira. Então em todas as formaturas eu tinha terceiro ano, todo ano, era um ciclo, quando eu me tornei professor lá no Ângelo em 2023 era o terceiro ano em que eu me apeguei a eles, e depois eles tiveram que voar, 2024 é a mesma coisa, 2025 é a mesma coisa. Só que eu acho engraçado que em 2025 foi uma coisa diferente, porque como eu tinha aula com eles desde o primeiro ano, eu era muito mais apegado a eles. Então a gente chorou, eu e a professora Patrícia de português, a gente chorou muito. Eles faziam cafés lá. Essa professora, estava passando por um momento muito complicado na família e ela estava também com um tumor no cérebro, que estava dando problema na visão dela. Foi um momento muito difícil em todas as questões dentro da escola, que a gente teve que recomeçar do zero. E foi o momento em que eu percebi que fui muito acolhido por eles, e sem um acolhimento que esses alunos tiveram conosco, a gente não ia conseguir passar por aquele momento, sabe? Então foi um momento muito importante, e mostrou que querendo ou não, você ser um professor acolhedor, que escuta, que tenta ver o aluno como uma pessoa que tem direitos e que ela pode sim, ser o que ela quiser, você constrói uma relação muito positiva, isso que me deu muito ânimo. Mesmo que a gente tenha várias situações adversas em relação à carreira de professor no estado de São Paulo, enquanto professor da rede pública. Eu tento me apegar nas coisas que são pequenas, porque se a gente acaba vendo lá as outras questões de plano de carreira, falta de direitos, que a cada hora alguém tira um direito da gente, a gente acaba perdendo o que realmente motiva a gente a ser professor, que é você motivar outras pessoas, eu sou uma pessoa bem crítica em relação a isso, mas eu não deixo essa criticidade corromper um aluno que não tem nada a ver, e que precisa de mim naquele momento, porque às vezes eu sou a única pessoa que é o apoio dele. E isso acontece muito no ensino integral, na regular, é que no ensino regular a gente fica só meio período, então a gente não tem tanto contato com o aluno. A gente dá a nossa aula e sai da escola, vai pra outra escola e dá sua aula, então, é uma relação que você consegue manter, mas ela não é muito próxima, que o aluno escolhe para contar da vida dele, contar os medos que ele tem. Esse é o diferencial que a gente tem no ensino integral, que acaba trazendo esses alunos próximo da gente, então teve momentos assim que foram muito difíceis enquanto professor do Estado, na questão da carreira, a questão da redução das aulas de Sociologia na grade, fechamento de sala que acontecia... Que bom que não aconteceu na escola que eu estava, mas aconteceram ali em várias escolas próximas, diretor quase sendo demitido se não entregasse meta. O período foi bem caótico e o apoio dos alunos mesmo, a gente explicar para eles o que estava acontecendo, e que realmente tinham coisas que a gente precisava fazer, e que não era porque a gente queria, mas que faziam parte do ofício e que mandavam de cima pra gente. Eles entendiam algumas coisas e isso facilitou para eles acolherem a gente também. Então foi uma via de mão dupla, essa questão, a gente acolhia eles por conta do terceiro ano do ensino médio, que é um momento decisivo e que é o corte do elo que eles têm ali, que é o mais forte, que é a escola. E a gente, por conta de tudo o que estava acontecendo com a gente, na nossa carreira, na estrutura da escola e no geral. Então é bem simbólico para mim.
01:19:56
P1 - E eu queria saber como a Mia entra na sua história. Como foi esse momento?
R - Legal, a Mia chegou na minha casa em 2018, e eu tinha feito uma tatuagem com a minha rescisão, né? Falei assim: "Hum, vou fazer uma tatuagem aqui"; eu tinha o quê? 19 anos na época. Então eu fiz minha primeira tatuagem e eu tinha visto essa tatuagem aqui que eu achava muito boa, muito bonita, e o traço do tatuador era muito fininho também, era muito legal. E esse gato, até então eu não tinha gato, eu fiz a tatuagem em fevereiro, eu acho, fevereiro ou março. Um tempo depois, umas semanas depois, inclusive estava até saindo casquinha quando eu adotei a Mia, meu pai tinha ido abastecer no posto, ele tinha ido abastecer o carro, e no posto também tinha um moço que vendia carros usados. As pessoas traziam carros que eram mais antigos, e esses carros, ele acabava vendendo para outras pessoas. E nesse carro, que o cara trouxe, parece que era do Embu das Artes estavam a Mia e a família dela inteira, dentro do carro. Então, eles vieram assim, que bom que a Mia não tinha nada de falha no pelo dela, mas poderia ter acontecido alguma coisa, porque eles vieram perto de radiador, partes do carro que esquentam. Meu pai foi abastecer o carro lá e abriu a capota do carro do cara, para ver como estava o motor. E saiu uma ninhada de gatos, saíram a mãe da Mia, a Mia, os irmãos dela e foram todos correndo. E eu acho que a Mia era mais pequenininha e mais bobinha e ela acabou ficando pra trás. Aí meu pai viu e meu pai achou que aquela gata era uma gata de raça, depois a gente viu que a Mia era uma gata sem raça definida, ela é mesmo, minha gata é uma vira-lata, tigrinha vira-lata. Então, meu pai acabou vendo ela e falou: "Nossa, ela é de raça, vou levar pra minha tia" minha tia, ela gosta de gatos também. Na casa da minha avó, uma das minhas memórias da infância é que minha tia sempre foi cheia de animais. Lá ela tinha antes vários cachorros poodle, gatos, sempre teve gatos, essa questão de animais sempre foi algo que é muito legal, sempre foi muito da minha família. Aí meu pai pegou a gata, conseguiu pegar ela, parece que a mulher que trabalhava no posto de gasolina, tirou o avental e conseguiu jogar o avental, e capturou a Mia. E meu pai levou ela pra lá, só que os outros gatos estavam estranhando-a, e ela era muito pequenininha, muito peludinha, pequenininha. Nossa, ela parecia uma bolinha de pelo... ela já era gordinha, assim igual ao que ela é hoje, mas só que ela era bem pequenininha mesmo e os gatos estavam batendo nela, eu olhei pra ela, eu olhei minha tatuagem e falei: "Nossa, ela parece minha tatuagem." Aí minha avó falou, minha avó olhou minha tatuagem e falou: "Nossa, ela parece com esse desenho que você fez no seu braço mesmo." Aí eu falei: "Nossa, legal, vou ver com a minha mãe se eu posso adotar ela." A Mia era muito pequena e estava dentro de uma caixa, eu tinha colocado a caixa no colo e eu acho que a Mia estava com vontade de fazer xixi, eu sei que ela fez xixi no meu colo inteiro, já marcou o território pela primeira vez. Aí eu peguei, levei e falei: "Ai meu Deus..." Falei pra minha mãe e tal, e minha mãe falou: "Não"; que eu não ia levar, peguei e levei sim e ela tá aí até hoje.
01:23:53
P1 - E me conta como é que foi esse momento de convencer a sua mãe a adotar um gato?
R - Então, minha mãe não queria porque até então ela tinha um estereótipo diferente de gato. Ela achava que o gato era igual aos cachorros. Os cachorros geralmente precisam ensinar a ele qual é o lugar onde ele vai fazer xixi. Ele não tem essa autonomia que o gato tem de fato, e até então a gente só tinha tido cachorro. E cachorro a gente teve que fazer todo esse processo com a Lulu, a Lulu fazia xixi só na lavanderia, fazia as necessidades dela lá, ou quando a gente pegava e levava ela na rua. Então era um animal com quem a gente não tinha problema e com a Mia também, a gente não teve problema, minha mãe achou que ela ia fazer xixi na casa toda, ia mexer nos móveis, arranhar o sofá, ela falava: "E se ela fizer xixi fora do lugar? O que você vai fazer?" "Ah, eu limpo, eu tô em casa nesse momento." "Ah, mas e se ela começar a arranhar o sofá?" "Não, eu compro um arranhador pra ela." Aí em cada empecilho que minha mãe colocava eu dava uma resposta para ela. Ela falou: "Mas você não vai trazer não." Aí eu trouxe, e como ela já estava lá e não tinha acontecido igual a um gato que eu tinha antes, que não se deu muito bem com o cachorro, a Lulu, porque o gato estava querendo bater nela mesmo. Aí eu acabei levando ela, e devolvendo pra minha tia. Tinha pego de uma ninhada dos gatos da minha tia mesmo. Nesse momento já não tinha outro animal que fosse o empecilho para aquilo, ou animal que eu tivesse em casa e ficasse doente, ou coisa do tipo. Então eu sempre levo em consideração essa questão das emoções dos animais, porque o animal sente muito, ele sente dor, ele sente tristeza quando as pessoas o maltratam, ele também tem sentimentos. E eu sempre fui uma pessoa que sempre tive muita empatia pelos animais. Então eu devolvi o gato que eu tinha na infância, por conta de que eu fiquei com medo da Lulu ficar doente pelo fato de ter trazido um outro animal. Eu não tinha esse problema dessa vez, e foi através disso que a Mia ficou na minha casa. Mas só que ela veio infestada de pulgas, ela veio infestada de pulgas... Eu lembro que ela veio toda... nossa, como ela veio dentro do motor do carro... Ela era uma gata clarinha, clarinha, e o pelo dela escureceu então, quando eu dei banho nela, apareceu um outro gato, era um gato com uma pele toda clara, o pelo dela era totalmente claro, mas o engraçado é que quando eu fui secar com o secador, chovia a pulga pela casa. Aí eu tive que fazer remédio, tive que comprar remédio pra tirar as pulgas dela. E por conta dessa questão das pulgas como eu não tinha tido gato antes, eu não sabia quais eram os procedimentos e ela teve um problema com verminose que ela teve que passar pela primeira cirurgia dela.
P1 - Isso aí foi bem cedo.
R - Isso bem cedo, fazia 3 meses que ela estava na minha casa. É engraçado que ela, desde pequena, sempre dormiu com a gente. Ela subia na cama e ficava lá deitada. Eu tenho muitas fotos em que ela pegava e se deitava de barriga pra cima. E ficava deitada aqui, no travesseiro. E o que aconteceu, a Mia começou a ficar estranha, começou a dormir demais, não estava brincando, comia e vomitava. Eu falei: "Nossa, tem alguma coisa estranha aqui, vou levar lá no veterinário." Na época, eu levei ela no veterinário à noite, de madrugada e a consulta de madrugada dobra o preço... Aí ele passou um remédio pra ela e falou: "Ó, retorna no outro dia e a gente vai fazer esses exames." Aí fizeram nela o exame de sangue, já fizeram o teste pra ver se ela tinha Fiv (Imunodeficiência Felina/AIDS felina) e Felv (Leucemia Viral Felina), como ela era um gato que veio da rua… Mesmo que ela tenha passado só um pouquinho de tempo assim na rua, e que ela teve vida de madame, eu acho que os primeiros 40 dias dela foram dias difíceis. Mas depois que ela veio pra gente, ela sempre teve vida de madame, tanto que ela escolhe a ração que ela quer comer, tem petiscos que ela não come, tem sachê de sabor específico que ela não come. Então, ela tem esse poder de escolha aqui, e ela fica enterrando, quando ela não gosta! Fala tipo: "Nossa, o que você me deu aqui, tá uma merda, olha." A gente fez ultrassom nela, e viu pelo ultrassom que tinha colado as alças do intestino, e tinha uma verminose dentro. Aí teve que fazer todo o processo da cirurgia, e nesse processo da cirurgia ela ficou internada, o bom é que ela nunca foi uma gata tão enérgica, então a cirurgia dela foi muito tranquila, o pós-cirúrgico, e a gente morava no apartamento, com uma porta sanfonada e ela não podia ficar correndo, e nem pular em cima do sofá, que senão vai estourar ponto. Aí eu acabei comprando, inclusive tá até aqui fora, aquela caixa; porque, o que eu fazia? Na maior parte do tempo eu ficava atrás dela, então se ela ameaçava pular em cima do sofá ou das cadeiras, eu colocava ela em cima do negócio. E quando eu ia ao banheiro, ou ia tomar banho, ou ia fazer alguma coisa, eu colocava ela dentro da caixinha aqui, foi a orientação da veterinária, ela falou: "Ah, leva uma caixinha porque dependendo, se ela começar a correr, se você trancar ela no banheiro pra ela ficar lá, pra ela não se machucar, ela vai abrir a porta, porque a porta é sanfonada. Então é melhor você pegar e deixar alguma coisinha pra trancar ela por um momento, quando você precisar fazer alguma coisa, e que você não estiver de olho nela." E é bom que meu irmão, nesse momento, estava de férias também. Então a gente revezava, eu ficava, e quando eu tinha que ir pra faculdade, meu irmão ficava com ela. Aí em momentos que eu tinha que fazer alguma coisa, eu trancava ela dentro da casinha, e como ela era pequenita... nossa, ela era muito pequena, ela cabia e ficava, dava pra colocar pote de ração, água, tudo, dentro da casinha. Ela não ficava por muito tempo lá, ficava só o tempo pra ela não se machucar mesmo, se eu não estivesse vendo. Aí conseguiu retirar os pontos e um tempo depois a gente conseguiu mudar pra cá. E ela acabou vindo com a gente também, estranhou bastante a casa, eu lembro que como a casa estava uma bagunça ainda, ela se escondia no meio da bagunça e ficava miando, gritando, tipo: "Eu quero voltar pra minha casa." E lá no apartamento também, a gente tinha telado o apartamento, porque era muito alto, quinto andar, e a primeira coisa que a gente fez quando a gente mudou pra cá, foi telar, telamos aqui a casa e colocamos grades no portão, então... Nenhum dos meus gatos tiveram acesso à rua, isso possibilitou.
01:31:59
P1 - E como foi esse momento de adaptação, tanto sua quanto dela, a essa casa nova? Como foi esse momento da sua vida de mudança pra cá?
R - Olha, como a gente necessitava de mais espaço, eu acho que foi o momento que a gente pegou e pensou: - Nossa, a gente está morando em um outro lugar agora, porque minha família mudou pro apartamento em 1996 e ficamos até 2018 no apartamento, então eu nunca tinha mudado de casa, e foi uma experiência totalmente diferente do que eu tinha, então isso facilitou ter uma adaptação, e tinha mais espaço, então era realmente o que a gente queria.
No primeiro momento, a gente só tinha alugado dessa casa, aqui em cima e a filha do dono da casa, tinha ficado lá embaixo, a Daiane, depois que a situação melhorou um pouco, a gente alugou a casa por completo, sempre foi o nosso propósito alugar a casa completa, porque aí cada um teria seu espaço. Como eu me dava melhor com a minha irmã…(intervenção). Como a gente precisava de espaço, aqui era a casa ideal pra cada um ter o seu espaço. E isso facilitou, a gente pegou e alugou inicialmente essa casa aqui. Eu dividia o quarto com a minha irmã, que a gente se dava melhor. E meu irmão ficava no quarto sozinho, depois meu irmão passou lá pra baixo quando a gente alugou a casa completa e eu fiquei no quarto dele. Aí aconteceu a questão do meu pai falecer, e eu mudei pro quarto da minha mãe e minha mãe mudou pro meu quarto, aí eu tive que mobiliar um quarto novo de novo pra minha mãe.
01:34:07
P1 - E me conta como é a Mia no dia a dia dela, qual que é a personalidade dela. Como era quando ela era pequena?
R - Então, é engraçado que a Mia é totalmente diferente hoje em dia de quem ela era quando ela era pequena. Hoje em dia ela é uma gata séria, ranzinza... Nossa, ela gosta da companhia, mas só que ao mesmo tempo tem horas que se não gostar mais, ela já te morde pra sair. Então ela é muito assim, ela é uma gata séria hoje em dia, engraçado, e quando ela era pequena, acho que pela questão de (ser) filhote, eles gostam de ficar mais perto, ficar próximo. Eu vejo que tem aquele momento em que o filhote começa a ficar mais adulto e começa a querer dormir um pouco mais longe de você, ele escolhe a pessoa com quem ele quer dormir... Ela dormiu sempre com a minha irmã, é engraçado que eu adotei ela, mas ela adotou a minha irmã. Minha irmã, nossa! Ela fala: “Mia, vou dormir, tá?” A Mia já corre na frente e já vai lá pra cama dela. E ela dorme em cima da cama, ela não gosta de dormir no chão. E se tira ela de cima da cama, nossa, ela vira o bicho, ela vira o cão.
01:35:36
P1 - E você estava contando que foi seu pai que a resgatou, e eu fiquei pensando que do jeito que você estava contando, do seu irmão cuidar dela, e dela dormir com a sua irmã, me parece que foi um trabalho coletivo pra ter essa nova vida aqui.
R - Sim.
P1 - Com vocês, né?
R - Ah, sem dúvidas, foi um trabalho totalmente coletivo, todo mundo se ajudava. Na hora da Mia, a Mia teve que passar por 3 cirurgias , ela teve uma castração que deu errado, abriram ela pra fazer a castração, mas eu acho que não terminaram a cirurgia, a Mia continuou tendo o cio. Aí a gente levou de novo, eu levei em um outro veterinário e ele viu que realmente não tinha terminado a cirurgia. Tinha iniciado, mas só que tinha pedaços que ainda estavam ali. Aí eu tive que fazer uma nova dívida pra castrar ela de novo, foram todos esses processos assim, e naquele momento, a gente estava passando, quando a gente teve que castrar a Mia de novo, meu pai tinha acabado de falecer, e a gente tinha a dívida do velório dele e do enterro também e eu acabei passando a no cartão do meu irmão essa dívida da cirurgia da Mia, mas não tinha o que fazer. Tinha que ser feito isso porque ela, de certa forma, faz parte da nossa família e eu não consigo me imaginar sem ela. Tem horas que a gente está vendo na televisão animais, ou aqueles filmes tristes que o gato ou o cachorro morre no final e eu fico pensando: “Ai meu Deus, nossa! A Mia já está com 8 anos, eu não quero que isso aconteça”, eu e minha irmã, a gente fica falando: “Nossa, eu não sei nem como seria a minha vida sem a gordinha agora”. Que a gente geralmente chama ela de gordinha, né, a Mia? Aí a gente tem muito esse carinho e esse apego por ela, sabe?
01:37:57
P1 - E ela esteve presente em muitos momentos difíceis da sua vida, né? Você estava contando que ela sofreu muito com o falecimento do seu pai também, né? Como é que foi pra ela?
R - O dia que meu pai faleceu foi um dia que a gente tinha feito um churrasco aqui em casa, era um dia super feliz. E à noite meu pai chegou na gente e falou assim: "Ah... eu tô com falta de ar, nossa, o que tá acontecendo? Será que eu tô com gripe? Será que eu peguei Covid?" A gente disse: "Não, você nem tá saindo de casa, ninguém tá saindo de casa aqui..." Aí eu falei pra ele: "Será que não é o coração?" Porque ele já tinha tido um infarto há 12 anos atrás, ele teve um infarto em 2013, 2014, e nesse infarto, ele tinha ficado um mês internado. E foi um infarto silencioso, igual ao que tinha acontecido aqui, mas só que não tinha sido fatal. Então essa questão de que ele teve essa falta de ar, eu peguei e falei pra ele: "Ah, se arruma então, que eu vou te levar ao médico." Aí ele pegou e se arrumou, e ele ficou parado bastante tempo lá, parado porque ele estava muito cansado... Aí naquele momento, ele falou: "Ah, vamos agora, já me arrumei." Aí ele desceu aqui e na hora ele desmaiou, e meu pai era uma pessoa obesa, ele tinha 120Kg, era um dos fatores agravantes na questão da diabetes que ele tinha, pressão alta e as doenças que faziam parte da predisposição da família, mas que se agravavam com a obesidade, né? Então, ele desmaiou aqui, começou a ter como se fosse uma convulsão, a minha mãe gritou, tentou segurar ele, eu tentei puxar ele, mas meu irmão não achou a chave do carro. Aí a gente chamou o SAMU, sorte que no dia o SAMU chegou muito rápido, aí fizeram a massagem, levaram pro hospital, ele ficou lá entubado, mas não resistiu. Acabou que em um momento era uma festa, e no outro, se transformou em... Às 10h da noite eu estava ligando nos lugares para ver quanto custava o velório, quanto custava o caixão, avisando pra minha família.... Então realmente, literalmente, a festa virou enterro. E é muito complicado, porque a Mia viu tudo isso, e como a gente teve que abrir o portão da garagem, e a garagem não é telada, eu fiquei ali, ao mesmo tempo surtando, vendo que meu pai estava prestes a falecer e com medo da Mia fugir do portão. Aí eu estava no meio dessa situação, e é engraçado que, voltando a essas questões, dos sonhos eu sempre tenho… Eu acho que eu tenho muito essa ideia do espírito protetor, sabe? Porque meus pesadelos são o quê? "Alguém deixando o portão aberto e meus gatos fugindo." E nossa, eu acordo no outro dia pensando: "Meu Deus, ai que medo, espero que isso não aconteça." Então pra mim é realmente um pesadelo acontecer esse tipo de coisa, e eu fiquei realmente ofegante no dia, fiquei com medo. Peguei ela no colo, tranquei ela lá em cima, no quarto da minha irmã, pra ela não fugir. E realmente não aconteceu nada, e que bom que não aconteceu nada. Mas foi um momento muito doloroso, e depois ela começou a procurar meu pai em casa, porque os dois ficavam deitados no quarto. Meu pai ia assistir televisão e ela ficava deitada de barriga pra cima, perto dele, na altura da cabeça, e eles sempre ficavam na mesma posição, meu pai deitado, virado na cama assim, olhando pra televisão, e a Mia deitada com a barriga pra cima, do lado dele, ele conversando com ela. E ele gostava de quê? Meu pai conversava com ela, mas ele não ficava tocando nela, porque a Mia não gosta quando você fica tocando nela enquanto ela tá dormindo, ela gosta de dormir do seu lado, mas só que ela não quer que você fique tocando nela. E meu pai realmente fazia isso. Então ela ficava atrás do meu pai, meu pai pegava, ficava dando sachê pra ela aqui embaixo. Então ela era uma companheira do meu pai também enquanto a gente estava trabalhando. E quando ela perdeu ele, eu acho que mexeu muito com ela, ela ficou muito triste mesmo, no geral. Mudou o comportamento dela, ela começou a fazer coisas que ela não fazia em casa, tipo, marcando território, que é uma coisa que eu aprendi na semana passada quando eu fui levar meu gato ao veterinário, o Luke, que o gato por si só não marca território. Mas se ele de fato tá fazendo xixi fora do lugar, é porque está acontecendo alguma coisa. E os fatores que estavam levando ela, naquele momento a gente fez diversos exames e viu que não tinha nada, era essa questão emocional mesmo, a falta, né? Então ela subia lá pra cima, ficava miando sozinha até alguém responder, porque antes ela dava um miado e meu pai respondia... Foram coisas assim, essa perda do meu pai mexeu até com a questão dos animais, e até então eu só tinha a Mia e a Nina.
01:43:57
P1 - E eu queria que você contasse um pouco dessas outras adoções que você fez.
R - A Mia, eu adotei em 2018, e por conta dessas situações, em 2020, minha irmã adotou a Nina, que é uma gata tricolor, inclusive, ela tá escondida por aí, ela não gosta de muita gente. A Mia deve até aparecer aqui ao longo da nossa entrevista, mas a Nina chegou aqui muito pequenininha também, ela era de uma ninhada de gatos que estava passando por várias dificuldades, a família que tinha essa gata até doou a gata que era a mãe da Nina depois, porque não tinha condições de comprar ração e coisas do tipo. Então a Nina, ofereceram ela pra minha irmã e minha irmã adotou, só que quando a Nina chegou aqui, a Nina me adotou. Aí a Nina dormia comigo até o Luke chegar, o gato laranja. A Nina foi uma gata que cresceu aqui junto também. E ela, no início, como a Mia era a gata única da casa, mas só que a gente via que ela se sentia muito sozinha, e ela estranhou muito a Nina, muito, muito, e ficava rosnando para ela e a gente tinha medo de que ela pegasse... Por mais que a gente saiba que ela é bobinha e que ela não sabia bater, ela nunca tinha brigado na rua, porque a maior parte da vida ela tinha passado trancada aqui em casa, porque a nossa casa é toda telada. Ainda assim, a gente tinha medo de que ela, sei lá, arranhasse ela, machucasse… Aí a gente estava tentando fazer as duas se ambientarem na casa, mas de uma forma que ninguém brigasse e isso durou uns 15 dias. Só que a Mia tem o coração muito bom, tadinha, ela é um anjinho, então depois que ela viu que a Nina não ia embora e que a Nina não ia roubar o lugar dela, ela adotou a Nina. E ela tratava a Nina como se a Nina fosse uma cria dela, ela a adotou e carregava na boca, pegava a Nina para dormir em cima dela. Tem várias fotos assim de quando ela era pequena, da Nina dormindo em cima dela, as duas dormindo, tipo, elas iam dormir na cama da minha mãe, e a Mia dormia com ela, cabeça com cabeça, muito bonitinho, nossa, muito bonitinho mesmo. E as duas se tornaram muito amigas. Eu sei que nas primeiras semanas a gente achava que a gente tinha feito uma péssima escolha, porque a Mia estava fazendo muito barulho, tendo comportamento que ela não tinha tido antes, mas só que depois, quando as duas se acostumaram, nossa, foi a melhor coisa que a gente fez, porque uma ficava brincando com a outra, a Nina cuidava da Mia, a Mia cuidava da Nina, e nenhuma das duas estavam solitárias. A Nina chegou em 2020, na pandemia; a Nina chegou em fevereiro, eu acho, de 2020, logo depois a gente teve a questão da quarentena, e a Nina cresceu aqui em casa com a gente. Tanto que hoje em dia, uma das coisas que, de certa forma, a gente herdou da pandemia é que a gente não deixa nenhum deles sozinho. Como eles são acostumados sempre a ter gente em casa, eu sempre tentei organizar o meu horário de uma forma que eu chegasse do trabalho e meu irmão estava indo trabalhar. Aí a casa nunca ficava sem ninguém, ou quando, sei lá, eu tinha alguma coisa pra fazer, minha irmã vinha para casa. Porque eles se sentem muito solitários se a gente deixar sem ninguém aqui em casa. É engraçado que a gente tem 4 gatos e aqui a guerra é das meninas contra os meninos, mas quando os dois grupos estão sozinhos em casa, eles ficam os 4 gatos juntos, aí não tem briga, né? É engraçado que nunca tem guerra quando tá todo mundo amedrontado. E em 2020, a Nina chegou, ela foi se ambientando aqui em casa, e a gente fez a castração dela também, junto com a Mia, e foi um momento em que a gente achava que não teria mais gatos. Aí a gente falou: “Ah, vamos ficar só com as duas gatas mesmo e tá tudo certo…” só que eu sempre quis ter um gato laranja. Aí uma amiga minha, a Maria, a gata dela tinha fugido e tinha pego cria, e acabou tendo uma ninhada, e a Maria me mandou mensagem: - Nossa, minha gata tá tendo filhotes agora. Aí eu falei: “Ah, se sair algum gato laranja, pode reservar pra mim que eu adoto ele, tá?” Depois, quando nasceram todos, ela falou: “Nossa, você! Olha que boca santa!” E mandou uma foto, e era o Luke, o engraçado é que na época, como ela já tinha deixado certinho quem ia pegar quais gatos, ele ficou bastante tempo com a mãe dele, ele ficou ali até o tempo do desmame. E ele chegou aqui em casa, bem filhotinho também e a Mia fez o mesmo processo que fez com a Nina, de ficar lambendo, dando banho, a Mia sempre foi a mãezona deles. É engraçado que no mundo dos animais a gente tem essa noção de um cuidar do outro, sabe? Tem essa ideia, e a gente vê que a maldade mesmo tá na nossa ação humana, no mundo dos animais eles têm as desavenças deles, mas só que se ela vê o Kizaru, com quem ela tem rixa aqui em casa, miando lá na cozinha, ou o Luke está miando em outro lugar, ela já vai correndo pra ver o que tá acontecendo. Ela não quer ele muito perto dela, mas só que ela não quer que as pessoas maltratem ele também. Então é uma questão de solidariedade felina, e eu acho isso muito engraçado. O Luke, a gente adotou e ele é muito carinhoso, até a Mia, que não gosta de muito contato, às vezes fica com raiva dele e briga com ele, porque ele é muito carinhoso até com ela, ele chega nela, fica lambendo ela, cheirando ela. Aí tem hora que ela pega e fala assim: - Ah, eu não quero, e ela pega e dá uma patada nele assim e ele sai. Aí chegou o Kizaru, que é um gato que, inclusive, meu irmão colocou esse nome por conta da série, Né? One Piece, ele é fã do anime, e tem esse gato, ele tinha aparecido aqui na minha casa, ele não era um gato que aparentava estar na rua há muito tempo, sabe? Eu acho que ele deve ter sido adotado por alguém, e a pessoa se mudou e deixou ele pra trás. Porque querendo ou não, quando o gato, quando a pessoa pega e ele foge, ele consegue sentir o cheiro, e ele acaba voltando, então o gato, ele consegue, às vezes voltar para casa. E o Kizaru, ele tava aparecendo aqui sempre, e o meu irmão estava quietinho, alimentando ele lá embaixo, a cerca de um mês. Então, ninguém sabia da existência desse gato aqui. Até que meu irmão começou a ficar muito tempo aqui em cima e esse gato começou a aparecer na janela pedindo comida. Então ele chegava ali na janela que a gente tem, a janela do lavabo, que inclusive tem um telhado de vidro, então ele passava em cima do telhado de vidro e ficava ali na janela batendo e pedindo comida e miando. Aí meu irmão começou a falar: - Oxe, olha esse gato aqui, nossa, ele é muito bonitinho, olha ele ó, vou dar uma comida pra ele e depois que a gente adotou, porque a gente ficou com medo de fazerem alguma coisa com ele, né? Que a gente já tinha visto esse gato, ele era um gato que nosso vizinho tem um cacto que era gigantesco inclusive ele até cortou esse cacto que tinha cerca de uns 10, 15 metros, era muito grande mesmo. E o Kizaru, eu acho que ele não sabia e ele foi escalar. E ele escalou e escalou o cacto, então ele tava cheio de farpas no corpo, a gente tinha visto que ele estava preso no cacto, e a gente ficou... A gente antes adotar, ele já tinha aparecido ali na casa do vizinho, no cacto, e a gente estava até pedindo pro vizinho, pra tentar tirar ele. Porque ele estava em cima, preso no cacto em cima e estava bem alto e o cachorro do vizinho estava embaixo latindo pra ele. Então a gente ficou com muito medo, e acabou que no final, ele conseguiu mesmo por si só, pular e ir para outro lugar. Aí esse gato que estava ali, que a gente ficou com o coração na mão, vendo ele em cima do cacto e ele veio e escolheu a gente, então ele é um gato que, hoje em dia, ele tá aqui, ele não quer sair daqui. Ele dorme com a minha irmã também. Só que, ao mesmo tempo que ele é um gato que brinca muito, e ele é muito novinho também, ele era muito grandão quando ele chegou. A gente achava que ele era um gato adulto, só que quando a gente foi castrar ele, parece que pelos dentes dele, que estavam trocando, a médica falou: - “Não, ele é um gato filhote.” Então ele era um gato grande, mas só que ele era um filhote ainda, ele tem toda a energia. Ele e o gato laranja aqui, o Luke, nossa, os dois tocam fogo na casa. E ele é um gato que, ao mesmo tempo que gosta de carinho, gosta das pessoas tratando ele igual bebê. Mas ele não quer que os outros gatos vejam ele desse jeito. Então meu irmão pega ele no colo e fala: - “Ah, quem é o meu bebezinho?” e fica falando com ele com vozinha de criancinha, vozinha de bebê. Aí, se solta ele, se tiver algum gato olhando, ele avança no gato. Ao mesmo tempo que ele quer ser tratado como o bebê, mas ele não quer que os outros gatos achem que ele é um gato bebê. Entendeu? É muito engraçada essa lógica, porque… a gente vê que gatos têm muita personalidade, e eu, isso é uma coisa que eu acho muito legal, assim, que me motiva. Se eu pudesse, se eu tivesse dinheiro, eu teria, adotaria uns 100, 200 gatos, mas só que é muito caro pra você dar uma qualidade de vida adequada, dar o cuidado que você tem. Eu teria 3, mas como chegou o Kizaru... Ele é um presente da vida para a gente, então a gente aperta um pouco as contas e tenta dar qualidade de vida para todos eles. Então, já fiz o convênio deles de pet. Meu irmão vai fazer o convênio do Kizaru também, que inclusive era ele quem estava alimentando, então ele que vai ter que fazer o convênio. Inclusive, nas próximas semanas vão vir aqui microchipar também o Kizaru. Mas é muito caro se você quer dar uma qualidade de vida adequada para os gatos, e eu acho que eles não merecem nada menos do que isso, que eles sejam bem cuidados. É engraçado que eu vejo que às vezes as pessoas gastam R$10.000, R$15.000 para comprar um animal, sendo que você pode pegar um animal na rua, que estava vivendo em condição ruim… Você vai melhorar a vida dele, ele vai ter coisas que antes não tinha, e ele pode se tornar um gato ou cachorro que vai te dar o mesmo amor que aquele cachorro ou gato que você pagou R$15.000. Eu valorizo muito essa questão da adoção, e tem várias ONGs que fazem essa questão da adoção. Várias pessoas que são protetoras de animais tentam trazer essa ideia: de que é a mesma coisa. Se você está procurando amor, o amor vai ser o mesmo e, às vezes, até maior. Porque, nossa, meus amigos têm dois cachorros, que se chamam… é engraçado, um chama Gohan e o outro chama Apolo, os dois foram adotados, mas é engraçado qual era o destino. Um que era todo preto, que é o Gohan, antes ele chamava Apolo, aí eu devia colocar Gohan também, ele chama Apolo Gohan, e o outro é Apolo, pra não confundir o nome. São cachorros sem raça definida e, nossa, eu me divirto muito com eles. Eles são super amorosos. Quando eu chego lá, deito os dois no sofá, eles são gigantescos e ainda não entenderam que são cachorros grandes, então eles acham que são do tamanho de um gatinho, do tamanho da Nina. Então, deita um cachorro de 15 kg no meu colo e fica querendo lamber a minha cara, e eu acho isso muito fofo. É uma característica de todos os animais adotados. Acho que é um momento da gente tentar valorizar também, valorizar que não só a Mia, a Nina, o Luke, o Kizaru têm boas condições e pessoas que cuidam deles, mas que outras pessoas também adotem, porque o animal traz uma outra energia para casa. Eu gosto muito, porque eu tô sempre dando risada aqui, porque os gatos são como se fossem crianças que nunca vão crescer. Um bate no outro, aí ele vem chamar você pra defender ele, vem pedir comida. Aí faz alguma merda e fica com cara de que aprontou alguma coisa. É sempre assim, eles têm a personalidade de uma criança. Só que o único problema é que eles não vivem 100 anos, né? Eu queria muito que a Mia e a Nina vivessem muito mais do que a faixa etária que geralmente é até 25 anos. São coisas que, se eu pudesse, eu teria muito mais gatos. Teria muitos mesmo.
01:59:37
P1 - Você estava falando dessa relação dos gatos entre si, e eu queria saber como é a alimentação deles. Se todo mundo gosta de comer na mesma hora. O que eles gostam de comer. Como é a rotina deles de alimentação?
R - Então, aqui a gente acaba deixando à disposição mesmo a comida porque eles não comem assim, de passar mal, então a gente acaba deixando ali à disposição deles pra eles comerem a hora que eles querem, geralmente cada um come um horário diferente, é engraçado que na hora do sachê todo mundo vai lá e pede sachê na mesma hora, mas pra comida de ração seca, coisas assim, cada um vai no seu horário, a Mia fica pedindo pra você colocar ração nova pra ela, porque ela não quer comer a ração que tá lá, aí a gente acaba enganando ela, colocando só dois, duas bolinhas de ração nova, o gato laranja vai lá várias vezes por dia, come lá, inclusive ele tá ficando até gordinho também, a Nina come também, cada um tem o seu horário diferente e é engraçado que a gente deixa lá os 4 potes de ração perto, e aqui embaixo também tem pote de ração e cada um vai lá a hora que quer, não tem essa briga, tipo: "Ah, esse é meu pote", eles vão comendo nos potes que eles acharem melhor, e é engraçado que eles têm essa rixa entre eles, mas eles dividem tudo, a Mia jura que o território dela é o quarto da minha irmã, então todo dia, dorme o Kizaru e a Mia no quarto da minha irmã, e ela sobe primeiro e fica da ponta da escada, rosnando pro Kizaru pra ele não entrar no quarto, aí minha irmã acaba pegando ele e colocando ele lá, mas só que ele fica olhando assim pra cara dela tipo: "Ô, me ajuda aí, eu quero só dormir...", então é engraçado que eles têm essa questão do respeito também, né, por mais que o Kizaru seja um gato que ele sabe que ele é forte, e que ele viveu ali na rua, né, então ele tem a malandragem já da rua, de como sobreviver, coisa que a Mia não tem, mas ele não bate nela, ele tem esse respeito por ela, e é a mesma coisa, o gato laranja com a Nina, ele é meio bobinho também, ela dá uns tapinhas às vezes na cabeça dele pra ele sair fora, eles têm esse senso, eles têm as rixas deles, mas só que eles acabam dividindo tudo, e eu acho que tem essa questão do pertencimento também, a questão dessa estrutura deles e eles conseguirem dividir essas coisas, porque ficam os 3 deitados na cama, geralmente estão os 4 lá, deitados na cama da minha irmã, que é o polo principal deles, tem dias que o Kizaru e o gato Laranja dormem no meu quarto, aí tem dias que eles querem dormir no quarto da minha irmã, de tarde, porque dormem os 3 com a minha irmã, a Nina, no caso, ela é de lua, ela dorme lá em cima, às vezes ela dorme aqui na sala, tem dias que ela quer dormir no meu quarto, eu deixo ela livre pra ela dormir onde ela quiser, mas o gato laranja, ele dorme comigo, encostado em mim e eu não posso me mexer que senão ele me pula e se deita do outro lado onde está a minha cara, é muito engraçado, a Nina, quando a gente a gente adotou, ela dormia comigo e a Mia dormia com a minha irmã, chegou o gato laranja, ela pegou birra de mim e falou assim: "Ah, eu não vou dormir mais com você não", então eu coloco ela lá e ela começa a rosnar para ele, a querer ameaçar de bater nele até eu abrir a porta, aí eu deixo ela sair, pra ficar aqui no corredor e afins, mas assim, quando ela quer, ela vai lá e se deita lá às vezes também. Aqui é legal que eles tenham toda essa... A casa é deles também, eles dormem no sofá se eles querem, eles dormem na cama, pulam nos lugares se eles quiserem, eles fazem parte da nossa casa, fazem parte da nossa família mesmo. A gente trata eles como se eles fossem os bebês da casa.
02:04:27
P1 - Daniel, qual é a importância deles pra você?
R - Nossa, pra mim eles têm uma importância muito grande na minha vida, muito grande mesmo. Porque em dias em que eu tô muito triste... É engraçado que o gato, ele sente quando você tá triste, quando você tá passando por um momento complicado, nos momentos em que eles veem que a gente tá enfrentando alguma situação triste, ou que a gente vai chorar, ou alguma coisa do tipo, eles ficam perto da gente. Então, pra mim, eles são o meu apoio emocional, o Kizaru jurou que ele ia pegar e ia forçar para ser adotado, mas só que ele que virou o nosso apoio emocional aqui também, e todos eles, né? Eu acho que a gente trata eles com muita, assim…Todo mundo é igual, no sentido de que todo mundo tem direito a fazer as mesmas coisas. Todo mundo come sachê na mesma hora, ganha petisco na mesma hora. Se quer ficar na cama, fica na cama na mesma hora. Então, essa questão torna eles muito importantes mesmo pra nossa vida, para o nosso dia a dia, E eu não consigo me enxergar sem eles mesmo, de fato.
02:05:53
P1 - E como é que está a sua rotina hoje?
R - Então, hoje, o que aconteceu? No ano passado eu acabei mudando de escola, porque aconteceram algumas situações que acabaram me deixando chateado também e eu comecei a colocar na balança e foram mais pontos negativos do que positivos na minha função enquanto professor, e eu acabei optando por mudar de escola. Este ano eu inicio em um outro lugar, antes eu era do Ângelo Mendes, agora eu serei do Lauro Pereira Travassos (Escola Estadual Professor Dr. Lauro Pereira Travassos), que é o mais colado na (Vila) Missionária, que é uma escola próxima da comunidade também. E a minha ideia também, como professor de História, que esse ano acabei pegando o segundo e terceiro de história, a gente fazer de novo esse trabalho voltado a reconhecer a história do bairro em si, isso é uma forma de a gente tentar manter ali o que a gente tem como patrimônio imaterial mesmo, as histórias, algo vivo e tornar eles, em algo que seja material, que seja tátil, que as pessoas consigam ver. É uma forma da gente preservar mesmo as histórias, quando a gente fala dessa questão de memória, eu acho que hoje em dia, a gente acaba perdendo um pouco das coisas por conta dessas mudanças que tiveram nas redes sociais; falando de animais mesmo, eu tinha antes uma cachorra, que era a Lulu, eu tive a minha infância inteira ela, e eu não tenho fotos dela porque ficou tudo no Orkut, e eu acabei perdendo todo o acervo de imagens que eu tinha dela, que eram fotos assim, VGA, uma imagem super complicada, mas ao mesmo tempo eu queria conseguir ter essa memória de novo dela, mas são coisas que a gente acabou não conseguindo ter e o que sobrou foram só as lembranças, as memórias de tudo o que aconteceu, e ela também foi o nosso apoio emocional, devido à questão das adversidades. Então eu vejo muito que os animais fazem parte e tem uma importância muito grande nesse sentido de tirar esse peso do que é ser um adulto, ser uma pessoa que às vezes faz parte de grupos minoritários, ou que às vezes, vivem situações de exclusão, os animais, eles fazem... É momento que a gente chega ali e vê aquele animal a gente esquece como o mundo lá fora, às vezes pode ser cruel. Eu acho que é isso que é interessante.
02:08:47
P1 - E além dos gatos, eu queria saber o que é importante pra você na sua vida.
R - Ah, é uma pergunta que ela é bem profunda, porque quando a gente fala dessa questão da importância, o que eu acho muito importante é que você seja, de certa forma, valorizado, que as pessoas valorizem a sua individualidade; que você seja uma pessoa com quem as pessoas sejam verdadeiras, acho que a sinceridade e o respeito, o acolhimento são bases fundamentais, pra gente falar sobre essa questão da importância. Porque se a gente não respeita ninguém, se a gente não aceita o outro, ou até mesmo exclui as pessoas, a gente acaba tornando esse ambiente totalmente inacessível. Então é isso que eu tento trabalhar na minha vida: acolher todo mundo; ouvir com atenção as pessoas, tratar bem as pessoas, os animais, tudo isso, porque eles fazem parte dessa condição que é a gente valorizar mesmo a vida, de fato.
02:10:05
P1 - E você tem sonhos?
R - Olha, eu tenho bastante, viu? Eu tenho vários, um dos meus sonhos é tentar ingressar no mestrado, eu acabei ficando 4 anos sem estudar. Então, esse ano eu vou fazer uma Pós-graduação na PUC do Paraná sobre direitos humanos e questões étnico-sociais. Então a minha ideia é tentar utilizar essa pós-graduação para fazer uma monografia para projeto de mestrado, a ideia é tentar continuar seguindo essa vida acadêmica. E não é para sair da sala de aula, o meu interesse ainda é continuar na sala de aula. Por eu ter sido um aluno de escola pública, ter enfrentado condições adversas onde o governo já tentou fechar a minha escola, tive falta de professores, tive vários problemas voltados a uma questão da precarização mesmo do ensino, e acho que eu levo isso como uma tentativa de devolver ao mundo o que às vezes eu não tive. Então eu falo muito sobre isso com os meus alunos, quando a gente fala sobre essa questão de condições, de a gente às vezes ser uma pessoa que de certa forma tá fora da curva, às vezes é uma pessoa que tá ali numa situação que é melhor do que as outras pessoas. Então a gente pega e, de certa forma... Eu sempre tento trazer pra eles essa condição, tipo, eles tão enfrentando um momento em que é valorizado o protagonismo do aluno, é valorizado o ingresso na universidade. Existem vários outros programas sociais que tentam colocar esses alunos dentro da universidade. E é aproveitar, porque em vários momentos as pessoas não tiveram acesso a isso. Eu mesmo, só consegui terminar a faculdade porque eu consegui a bolsa 100% do ProUni. Porque senão meus pais naquela época, as condições que a gente tinha, morando lá no (Projeto) Cingapura, a gente não teria condições de eu estar formado hoje, ser professor, docente, foi muita batalha mesmo pra ingressar, e eu acho a educação algo muito válido também pra mim. É muito importante pra mim essa questão da educação, as pessoas, e tudo que está ali inserido naquele processo.
P1 - Tem alguma coisa que eu não te perguntei que você queria contar?
R - Ah, eu acho que não.
02:13:31
P1 - E tem alguma mensagem que você queira deixar?
R - Ah, a mensagem que eu quero deixar é que as pessoas, ao invés de comprar animais, elas adotem, ao adotar você acaba tirando animais do sofrimento, dando uma valorização da independência deles. E a gente tem que valorizar todo mundo que está à nossa volta, inclusive os animais que fazem parte da nossa família e que eles também têm sentimentos, é valorizar todo mundo que cerca a gente mesmo.
02:14:14
P1 - Como é que foi contar essa história hoje pro Museu da pessoa?
R - Olha, foi bem legal. Eu achei uma experiência muito interessante, porque eu fui lembrando de várias coisas assim que inclusive fazia anos que eu não contava pra ninguém. Então pra mim foi um processo muito interessante, e eu achei super leve, de tratar essa questão.
P1 - Então, em nome do Museu da Pessoa, em meu nome, do Natan, do Maio, do Ali, nós agradecemos muito, Daniel. Muito obrigada.
R - Muito obrigado.
Recolher