A Luta de uma Mãe
Superando os Desafios e a Dor na Busca pela Justiça e pela
Filiação
Por Patrícia Monken Mexias 3
Patrícia Monken Mexias
Sinopse:
A Luta de uma Mãe é um relato autobiográfico intenso e necessário sobre maternidade, violência, silenciamento e resistência. Nesta obra, Patrícia Monken Mexias expõe, com coragem e lucidez, a trajetória de uma mulher que enfrentou abusos dentro do lar, falhas institucionais e um
sistema judicial que, muitas vezes, puniu quem buscava proteção. É um relato real, intenso e profundamente humano sobre maternidade, dor, resistência e a busca incansável por justiça.
Ao longo dos capítulos, a autora narra sua luta pela segurança e dignidade do próprio filho, atravessando relações abusivas, crises emocionais, internações, disputas judiciais e acusações injustas. Mais do que uma
história pessoal, o livro revela como mães podem ser desacreditadas, julgadas e silenciadas ao tentarem cumprir seu papel mais básico:
proteger. Cada capítulo revela não apenas os fatos, mas as emoções de quem viveu a dor de ser desacreditada, julgada e afastada da própria
criança — sem jamais desistir.
Com uma escrita sensível, firme e profundamente humana, A Luta de uma
Mãe denuncia a violência institucional, questiona os limites da justiça e transforma a dor em consciência. É um testemunho sobre resistência,
reconstrução e a força que permanece mesmo quando tudo parece ruir.
Esta obra não oferece respostas fáceis, mas dá voz a muitas mulheres invisibilizadas. Um livro para mães, profissionais do direito, da saúde e para todos que acreditam que justiça, cuidado e dignidade não deveriam
ser exceção.
ÍNDICE
Capítulo 1 – Introdução à Luta
Capítulo 2 – Um Lar Conturbado
Capítulo 3 – O Relato dos Abusos
Capítulo 4 – O Reencontro e a Sensação de Liberdade
Capítulo 5 – A Queda na Estrada
Capítulo 6 – Enfrentando a Crise e as Internações...
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Superando os Desafios e a Dor na Busca pela Justiça e pela
Filiação
Por Patrícia Monken Mexias 3
Patrícia Monken Mexias
Sinopse:
A Luta de uma Mãe é um relato autobiográfico intenso e necessário sobre maternidade, violência, silenciamento e resistência. Nesta obra, Patrícia Monken Mexias expõe, com coragem e lucidez, a trajetória de uma mulher que enfrentou abusos dentro do lar, falhas institucionais e um
sistema judicial que, muitas vezes, puniu quem buscava proteção. É um relato real, intenso e profundamente humano sobre maternidade, dor, resistência e a busca incansável por justiça.
Ao longo dos capítulos, a autora narra sua luta pela segurança e dignidade do próprio filho, atravessando relações abusivas, crises emocionais, internações, disputas judiciais e acusações injustas. Mais do que uma
história pessoal, o livro revela como mães podem ser desacreditadas, julgadas e silenciadas ao tentarem cumprir seu papel mais básico:
proteger. Cada capítulo revela não apenas os fatos, mas as emoções de quem viveu a dor de ser desacreditada, julgada e afastada da própria
criança — sem jamais desistir.
Com uma escrita sensível, firme e profundamente humana, A Luta de uma
Mãe denuncia a violência institucional, questiona os limites da justiça e transforma a dor em consciência. É um testemunho sobre resistência,
reconstrução e a força que permanece mesmo quando tudo parece ruir.
Esta obra não oferece respostas fáceis, mas dá voz a muitas mulheres invisibilizadas. Um livro para mães, profissionais do direito, da saúde e para todos que acreditam que justiça, cuidado e dignidade não deveriam
ser exceção.
ÍNDICE
Capítulo 1 – Introdução à Luta
Capítulo 2 – Um Lar Conturbado
Capítulo 3 – O Relato dos Abusos
Capítulo 4 – O Reencontro e a Sensação de Liberdade
Capítulo 5 – A Queda na Estrada
Capítulo 6 – Enfrentando a Crise e as Internações
Capítulo 7 – Navegando no Labirinto Legal
Capítulo 8 – Alianças e Influências
Capítulo 9 – O Período de Silêncio
Capítulo 10 – A Retomada da Voz
Capítulo 11 – Resistir para Existir
Capítulo 12 – Entre a Esperança e a Exaustão
Capítulo 13 – Quando a Justiça Falha
Capítulo 14 – O Peso das Consequências
Capítulo 15 – Aprendizados da Dor
Capítulo 16 – Reconstruindo Caminhos
Capítulo 17 – A Força que Permanece
Capítulo 18 – A Luta Continua
Capítulo 1 – Introdução à Luta
Meu nome é Patrícia Monken Mexias, tenho 46 anos. Sou técnica de
enfermagem, graduada em Estética e Cosmetologia, Publicidade e
Produção Publicitária. Sou também estudante de pós-graduação em
Biomedicina Estética, Farmácia Estética, Nutrição Aplicada ao
Emagrecimento em Estética, Sexualidade e Psicologia, Psicologia Infantil,
Enfermagem Forense, Psicologia Criminal Forense e Investigação Forense.
Ao longo da minha trajetória, acumulei mais de 470 cursos livres em
diversas áreas.
À primeira vista, tudo parece fácil, glorioso e satisfatório — mas não é.
Venho de uma criação rígida, onde muitas vezes é fácil confundir as coisas.
Como diz a sabedoria popular, as aparências enganam e nem tudo o que reluz é ouro. Quem me vê hoje não imagina a luta que foi chegar até aqui.
O processo foi árduo, longo e doloroso.
Hoje vivo uma situação que não desejo nem ao meu pior inimigo. Sou mãe de dois filhos biológicos. Separei-me em dezembro de 2017 após anos de abusos, agressões físicas, verbais e psicológicas praticadas pelo meu ex-
marido e pelo filho dele, que à época tinha apenas 12 anos.
A decisão de lutar pela guarda do meu filho não era apenas uma questão
de direito. Era algo que pulsava dentro de mim, uma necessidade visceral
de criar um ambiente seguro, onde pudéssemos respirar liberdade e amor, longe do medo que a minha própria história havia construído. A
cada passo, eu desenhava uma nova narrativa para nós dois, onde mãe e filho eram protagonistas de uma nova chance.
O desespero me invadia constantemente, mas havia dentro de mim uma
luz que não permitia que a esperança se apagasse. A cada amanhecer, eu
despertava determinada a seguir em frente. Sabia que a luta não seria fácil e que as adversidades tornariam cada pequena vitória ainda mais
significativa. Era essa disposição incessante de transformar dor em
combustível que alimentava minha determinação.
Mesmo diante da sensação frequente de desamparo, o amor e a coragem me empurravam adiante. Eu sabia que estava iniciando um caminho que me transformaria não apenas como mãe, mas como mulher —
renascendo a cada desafio enfrentado.
Capítulo 2 – Um Lar Conturbado
As separações não são apenas físicas; elas consomem também a estabilidade emocional que existia dentro de um lar. Em dezembro de
2016, exausta das agressões físicas e morais praticadas pelo meu ex-marido e pelo filho dele, decidi sair de casa. Deixei tudo para trás, levando
apenas os prejuízos emocionais e financeiros. Meu ex-marido deixou uma
dívida de aproximadamente R$ 72.000,00 feita em meu nome.
A separação trouxe consigo um pesadelo que eu jamais imaginei viver. Em
2018, conheci uma pessoa que assumiu a mim e ao meu filho, então com
dois anos de idade. Casei-me novamente e, no início, acreditei ter
encontrado a pessoa ideal. Em meio ao desespero, buscava sentido na
confusão e tentava encontrar esperança nas memórias que se formavam
sob um novo teto.
No entanto, a fragilidade daquele lar logo se revelou. As discussões
constantes deixavam meu filho confuso e me deixavam exausta. O peso da
culpa batia à porta em silêncio, principalmente nas madrugadas, quando a
casa dormia e minhas lágrimas eram minhas únicas companheiras. Eu me
perguntava: “O que estou fazendo com a vida dele?”.
O ambiente familiar, antes fonte de apoio, transformou-se em uma rede
de julgamentos silenciosos. Amigos e parentes, ao invés de oferecerem
acolhimento, muitas vezes se tornavam fontes de pressão. Tudo o que eu
desejava era um ouvido atento, alguém que me permitisse falar sem
medo de ser julgada.
A dificuldade financeira agravava ainda mais a fragilidade emocional da
família. Minha maior preocupação sempre foi proteger meu filho da
dureza da realidade que nos cercava. Cada sorriso dele se tornava uma
pequena vitória e um motivo para continuar lutando.
Nesse contexto, compreendi que a resiliência não é um estado
permanente, mas uma sucessão de momentos — alguns de extrema
vulnerabilidade, outros de esperança. Mesmo diante da escuridão, havia
dentro de mim a certeza de que era possível construir um futuro
diferente, dia após dia.
Capítulo 3 – O Relato dos Abusos
Foram quatro anos — 2013, 2014, 2015 e 2016 — vivendo sob terror
psicológico, acreditando, a cada novo episódio, que os abusos não se
repetiriam. A esperança de mudança era constantemente alimentada pela
negação, especialmente por se tratar de uma criança. Meu enteado
chegou à minha vida aos oito anos de idade. No início, parecia tudo
normal, mas, com o passar do tempo, a situação foi se tornando
insustentável.
Influenciado pela mãe biológica e, principalmente, pela avó materna, seu
comportamento tornou-se agressivo e perturbador. Eu fiz tudo o que
estava ao meu alcance, mas, ao invés de melhorar, a convivência piorava
dia após dia. O convívio tornou-se emocionalmente insuportável. Era
difícil aceitar que uma criança pudesse agir daquela forma, mas a
realidade se impunha de maneira cruel.
Em setembro de 2014, engravidei. A partir desse momento, a relação
dentro de casa se deteriorou ainda mais. Meu enteado tornou-se cada vez
mais agressivo e perigoso. Naquela época, não existia a facilidade de
gravações ou registros digitais, o que dificultava qualquer tipo de prova
que pudesse me resguardar.
No dia 18 de maio de 2015, nasceu meu filho. Ali, vi a chance de viver a
maternidade de forma plena, de oferecer amor, cuidado e proteção.
Aquele pequeno ser representava esperança, recomeço e sentido para
continuar.
Em 16 de dezembro de 2016, ocorreu o episódio que marcou
definitivamente o fim daquela relação. Fui agredida fisicamente pelo meu
ex-marido, a ponto de sangrar no rosto, diante do próprio filho dele, que à
época tinha 12 anos. O que mais me marcou não foi apenas a agressão,
mas a expressão de satisfação estampada no rosto daquela criança ao
presenciar a violência. Naquele instante, compreendi que não havia mais
nada a ser feito. 9
Patrícia Monken Mexias
Decidi dar um basta. Peguei apenas o essencial e voltei para a casa da
minha mãe. A relação entre mim, minha mãe e minha filha mais velha
nunca foi fácil, mas eu não tinha outra opção. Dividir o mesmo espaço
significava reviver conflitos antigos e lidar com barreiras emocionais
profundas.
Ainda assim, em meio ao caos, comecei a perceber o valor das pequenas
vitórias. Cada dia em que eu conseguia seguir em frente era um passo em
direção à liberdade. A vida, antes marcada por sombras, começou
lentamente a ser iluminada por novas possibilidades.
Passei a compreender que a superação não é um caminho linear. É um
processo contínuo, repleto de aprendizados, onde cada erro se transforma
em oportunidade de crescimento. Minhas feridas passaram a ser
reconhecidas como parte da minha história, não como o seu fim.
Mesmo marcada por traumas, fui sendo moldada pela luta, pelo amor e
pela esperança. Cada batida do meu coração carregava a certeza de que
eu precisava continuar — por mim e, acima de tudo, pelo meu filho. 10
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 4 – O Reencontro e a Sensação de Liberdade
Após experiências que deixaram marcas profundas, cada detalhe daquela
nova rotina parecia um pequeno milagre. As risadas que ecoavam pela
casa, os olhares cúmplices e os gestos simples tornaram-se lembretes de
que a vida ainda podia oferecer acolhimento, leveza e afeto.
Em 2018, permiti-me conhecer uma nova pessoa. Ele assumiu a mim e ao
meu filho, então com dois anos de idade. Em pouco tempo, nos casamos.
No início, acreditei ter encontrado alguém capaz de oferecer segurança
emocional e estabilidade — não apenas para mim, mas também para meu
filho.
A presença desse novo parceiro representava um porto seguro. Aos
poucos, minha autoestima, abalada por anos de violência e incertezas,
começou a ser reconstruída. Era um processo lento, mas perceptível. Meu
filho, ao observar minha felicidade, também passou a se sentir mais
confiante. Ele aceitava aquela nova figura com naturalidade e o chamava
de pai.
Os momentos simples ganharam novos significados. Um café da manhã
compartilhado, um passeio no parque ou uma conversa despretensiosa na
cozinha tornaram-se rituais de reconexão com a vida. Havia leveza nas
risadas, conforto nos silêncios e esperança nos planos que começávamos a
construir.
Permitir-me amar novamente não foi fácil. A vulnerabilidade ainda
causava medo, mas havia algo diferente: desta vez, eu me sentia
escutada. Essa escuta trouxe alívio, validou sentimentos e fortaleceu
laços. Aos poucos, comecei a acreditar que não precisava apenas
sobreviver — eu poderia, enfim, viver.
A relação com meu filho também se transformou. Com mais segurança
emocional, tornei-me uma mãe mais presente, mais afetuosa e mais
consciente. O sorriso dele, ao perceber minha tranquilidade, era uma
confirmação silenciosa de que eu estava no caminho certo.
Essa fase representou um reencontro comigo mesma. A sensação de
liberdade não significava ausência de problemas, mas a possibilidade de
caminhar com menos medo. Cada amanhecer trazia a esperança de que o
passado não definiria o futuro.
Mesmo carregando cicatrizes, aprendi que era possível reconstruir
sonhos. O amor, quando saudável, tornou-se um pilar de sustentação. Eu
começava a compreender que liberdade emocional é, acima de tudo, a
permissão de ser quem se é — sem culpa, sem medo e sem silenciamento. 12
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 5 – A Queda na Estrada
A vida parecia finalmente seguir um caminho promissor. Havia risos nas
noites de sexta-feira, brincadeiras na sala e a sensação de que, apesar das
cicatrizes do passado, um novo começo estava sendo possível. As
esperanças eram alimentadas pelos pequenos gestos do cotidiano,
mesmo sabendo que a vida jamais é isenta de desafios.
Aos poucos, porém, uma sombra silenciosa começou a se infiltrar em
nossa rotina: o alcoolismo. No início, eram sinais sutis — uma garrafa
esquecida, mudanças no tom de voz, conversas interrompidas por
silêncios desconfortáveis. Meu coração ainda se agarrava às lembranças
felizes, mas um frio constante começou a se instalar. Algo estava
mudando.
As saídas tornaram-se frequentes, as promessas passaram a ser adiadas e
a presença emocional deu lugar à ausência. O olhar antes acolhedor
começou a se perder em névoas. Nosso lar, que havia se tornado um
espaço de afeto, passou a carregar o peso da incerteza.
Enquanto isso, o pai biológico do meu filho permanecia completamente
ausente. Nunca buscou contato, nunca contribuiu financeiramente, nunca
demonstrou interesse em exercer a paternidade. Essa ausência reforçava
ainda mais a sensação de abandono e solidão.
As noites tornaram-se longas e angustiantes. Eu me via esperando
acordada, observando o relógio avançar lentamente, sem saber se ele
voltaria e em que condições. A distância emocional crescia a cada dia, e
eu, aos poucos, assumia não apenas a responsabilidade pelo lar, mas
também pela estabilidade emocional de todos.
Meu filho, ainda pequeno, era a âncora que me mantinha em pé. Sua
inocência contrastava com o caos que se instaurava ao nosso redor. Eu 13
Patrícia Monken Mexias
tentava protegê-lo, mesmo sentindo que minhas próprias forças estavam
se esgotando.
Conversei, tentei ajudar, busquei compreender a dependência. Procurei
apoio em leituras, em grupos e até junto à família dele, mas encontrei
apenas negação, raiva e descaso. O alcoolismo avançava, e com ele, a
deterioração do nosso relacionamento.
O lar tornou-se um espaço de tensão. As noites silenciosas eram
preenchidas por preocupações e medos. Eu me perguntava até quando
conseguiria suportar aquela situação sem que tudo desmoronasse.
Em meio a esse cenário, compreendi que havia limites que não poderiam
mais ser ultrapassados. Proteger meu filho e a mim mesma deixou de ser
uma escolha — tornou-se uma necessidade. A esperança, ainda que frágil,
sussurrava que mudanças seriam inevitáveis. 14
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 6 – Enfrentando a Crise e as Internações
Eu sabia que estava me afundando. Os pensamentos se embaralhavam em
um nó sem fim, e o silêncio da casa amplificava tudo aquilo que eu
tentava esconder. Admitir que não estava bem parecia impossível. O
estigma de pedir ajuda pesava como uma sentença invisível: o que
pensariam de mim? Como uma mãe poderia falhar?
Mas bastava olhar para o meu filho para que qualquer resistência interna
começasse a ruir. Ele era pequeno, dependente, inocente. Precisava de
mim inteira, viva, presente. E foi esse amor que me impediu de afundar de
vez.
A primeira internação aconteceu como um choque. Estar em um hospital,
cercada por corredores frios, pelo cheiro constante de desinfetante e por
vozes abafadas, trouxe uma mistura estranha de medo e alívio. Medo por
reconhecer minha fragilidade. Alívio por, pela primeira vez, não estar
completamente sozinha.
Durante esse período, vivi uma ruptura profunda com a imagem que eu
tinha de mim mesma. Eu, que sempre fui forte, resolutiva e cuidadora,
agora precisava ser cuidada. Aceitar isso exigiu uma coragem diferente —
a coragem de reconhecer limites.
A segunda internação foi ainda mais difícil. Voltar para aquele ambiente
significava admitir que a crise era mais profunda do que eu gostaria. No
entanto, também foi ali que comecei a compreender que pedir ajuda não
é fraqueza, mas um ato de responsabilidade.
Enquanto eu tentava me reorganizar emocionalmente, meu filho também
sentia os impactos daquele momento. A relação entre mãe e filho, já
fragilizada por tantas rupturas, tornava-se ainda mais sensível. Cada
separação, cada ausência, deixava marcas silenciosas. 15
Patrícia Monken Mexias
As internações me obrigaram a parar. A refletir. A olhar para minha
história com menos julgamento e mais honestidade. Compreendi que
sobreviver não bastava — era preciso reconstruir.
Aos poucos, comecei a aceitar que cuidar de mim era também uma forma
de cuidar do meu filho. Que nenhuma mãe consegue proteger se estiver
emocionalmente destruída. Essa consciência não veio de forma suave,
mas foi libertadora.
Saí desse período marcada, mas mais consciente. Ainda havia medo, culpa
e insegurança, mas também havia uma semente de mudança. Eu sabia
que a caminhada seria longa, mas pela primeira vez consegui enxergar a
possibilidade de um recomeço real. 16
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 7 – Navegando no Labirinto Legal
O sistema jurídico se revelou um labirinto complexo, frio e, muitas vezes,
desumano. Para uma mãe que busca proteger o próprio filho, cada etapa
parecia mais confusa do que a anterior. Termos técnicos, prazos,
audiências e documentos se acumulavam enquanto minha vida emocional
já estava em ruínas.
Denunciar maus-tratos e situações de risco deveria ser um caminho de
proteção, mas, na prática, transformou-se em um percurso angustiante. A
cada nova denúncia, surgiam novas barreiras. A cada tentativa de
esclarecimento, mais dúvidas se impunham. Eu sentia que precisava
provar o óbvio: que era uma mãe tentando proteger o próprio filho.
Em conversas com advogados, ouvi repetidamente que o sistema é lento,
falho e sobrecarregado. Ainda assim, eu precisava acreditar que a justiça
existia. Entrar em um fórum pela primeira vez foi uma experiência
avassaladora. O peso das acusações, a frieza dos procedimentos e o olhar
de desconfiança tornavam tudo ainda mais doloroso.
Com o tempo, percebi que o processo não era apenas jurídico — era
profundamente emocional. Cada audiência reabria feridas, cada
documento trazia à tona lembranças que eu lutava para sobreviver. A
sensação de impotência era constante. Eu me perguntava como a verdade
poderia se perder em meio a tantos papéis.
O Ministério Público do Rio de Janeiro moveu uma ação contra mim,
imputando a responsabilidade de três acidentes domésticos como se
fossem um único fato intencional. No processo, constavam acusações
graves e irreais, como a alegação de que eu dopava meu filho para causar
danos e que buscava atendimento médico com o objetivo de obter
benefícios sociais.
Essas acusações me devastaram. Saber que tais afirmações constavam
oficialmente em um processo, mesmo com a existência de prontuários 17
Patrícia Monken Mexias
médicos, laudos e documentos que comprovavam o contrário, era uma
violência institucional. Se uma sindicância adequada tivesse sido realizada,
a verdade estaria evidente.
Durante as longas esperas em tribunais, conheci outras mães em situações
semelhantes. Compartilhar histórias tornou-se um alívio momentâneo.
Entre lágrimas e desabafos, percebi que não estava sozinha naquela dor.
Ainda assim, cada uma carregava sua própria cruz, sua própria batalha
invisível.
A pressão emocional aumentava a cada dia. Provar minha inocência
tornou-se uma obsessão necessária. Não era apenas uma defesa jurídica,
mas uma luta pela minha dignidade, pela minha identidade como mãe.
As noites sem sono tornaram-se rotina. Eu me perguntava como reagir,
como me defender, como não enlouquecer diante de um sistema que
parecia não enxergar a realidade. A luta judicial passou a ser também uma
luta interna — entre a exaustão e a resistência.
Mesmo assim, segui em frente. Cada passo, por menor que fosse, era um
ato de coragem. Navegar nesse labirinto exigia força, lucidez e
persistência. Eu sabia que desistir significaria perder não apenas
processos, mas a chance de ser ouvida. 18
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 8 – Alianças e Influências
A luta que eu enfrentava nunca foi solitária, mas também nunca foi justa.
Ao longo do processo, fui compreendendo que, no sistema em que eu
estava inserida, alianças e influências pesam mais do que verdades
documentadas. A presença de advogados, procuradores, conhecidos e
relações pessoais criava um jogo silencioso de forças que eu não
dominava.
Nem todos os profissionais que cruzaram meu caminho estavam
verdadeiramente comprometidos com a justiça. Alguns advogados
demonstravam empatia e dedicação; outros pareciam apenas cumprir
protocolos, mais atentos ao relógio do que à gravidade da minha história.
Essa diferença se tornava evidente a cada reunião, a cada audiência, a
cada promessa não cumprida.
Passei a perceber que a justiça não é cega — ela escolhe, muitas vezes,
para onde olhar. Essa constatação foi dolorosa, mas necessária. Entender
o funcionamento real do sistema me fez abandonar ilusões e adotar uma
postura mais estratégica, ainda que emocionalmente exaustiva.
As relações humanas ao meu redor também se transformaram. Algumas
pessoas se afastaram em silêncio; outras surgiram oferecendo apoio
inesperado. Amigos, conhecidos e até estranhos tornaram-se peças
importantes nesse tabuleiro emocional. Cada palavra de incentivo era
uma âncora em meio à tempestade.
Entretanto, nem toda ajuda vinha sem custo. Opiniões, julgamentos
velados e conselhos não solicitados passaram a fazer parte da rotina. Em
muitos momentos, eu precisava filtrar vozes externas para não perder
minha própria voz. Aprendi que nem toda mão estendida vem para
sustentar — algumas apenas empurram.
Meu ex-marido também exercia influência direta nesse cenário. Utilizando
conexões pessoais, ele transformava a disputa pela guarda em uma arena 19
Patrícia Monken Mexias
de intimidação. Conversas simples tornavam-se tensas, carregadas de
ameaças implícitas e jogos psicológicos. Era mais uma camada de desgaste
sobre uma estrutura emocional já fragilizada.
Com o tempo, compreendi que minha maior aliança precisava ser interna.
Fortalecer minha lucidez, preservar minha saúde mental e manter foco no
essencial — meu filho — tornou-se prioridade absoluta. Nem todas as
batalhas precisavam ser travadas, mas a principal jamais poderia ser
abandonada.
Assim, entre alianças frágeis e influências poderosas, aprendi a caminhar
com cautela. A luta não era apenas contra pessoas ou instituições, mas
contra a tentativa constante de me silenciar. Permanecer de pé, mesmo
quando tudo parecia conspirar contra mim, passou a ser um ato diário de
resistência. 20
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 9 – O Período de Silêncio
Houve um tempo em que o silêncio não foi escolha — foi imposição. Após
tantas batalhas, denúncias, audiências e tentativas de ser ouvida, fui
empurrada para um lugar onde falar parecia perigoso. Cada palavra podia
ser usada contra mim; cada desabafo, interpretado como fragilidade.
Assim, calei.
Esse período foi marcado por um isolamento profundo. Amigos já não
sabiam o que dizer, familiares evitavam o assunto e eu mesma não
encontrava forças para explicar o inexplicável. O silêncio se tornou um
mecanismo de sobrevivência. Era a forma que encontrei para proteger
meu filho e a mim mesma de novas violências.
Dentro de casa, a rotina seguia de maneira mecânica. Eu cumpria tarefas,
organizava horários, mantinha compromissos. Por fora, tudo parecia sob
controle. Por dentro, travava uma batalha diária contra o medo, a culpa e
a sensação de injustiça permanente.
O silêncio também trouxe reflexões duras. Foi nele que percebi o quanto a
sociedade espera que mães suportem tudo sem falhar. Qualquer cansaço
vira negligência; qualquer dor, exagero. Eu me perguntava quantas
mulheres haviam sido silenciadas antes de mim, esmagadas por um
sistema que confunde resistência com submissão.
Meu filho sentia minha contenção emocional. As perguntas dele, simples e
diretas, atravessavam minhas defesas. Eu respondia com cuidado,
tentando preservar sua infância, mesmo quando a minha própria já
parecia distante. Cada abraço dele era um lembrete silencioso de por que
eu precisava continuar.
Nesse período, aprendi a ouvir mais do que falar. Observei pessoas,
comportamentos, instituições. Entendi que o silêncio pode ser também
um espaço de preparo — um terreno onde a força se reorganiza antes de
voltar à superfície. 21
Patrícia Monken Mexias
Embora doloroso, esse tempo de recolhimento me ensinou a diferenciar
quem realmente estava ao meu lado de quem apenas observava de longe.
Algumas ausências doeram mais do que ataques diretos. Ainda assim,
resisti.
Quando comecei a recuperar a voz, ela já não era a mesma. Estava mais
firme, mais consciente, menos ingênua. O silêncio não me apagou; me
lapidou. E, naquele momento, eu soube que não permaneceria calada
para sempre. 22
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 10 – A Retomada da Voz
A retomada da minha voz não aconteceu de forma abrupta. Ela veio em
fragmentos, em pequenos atos de coragem cotidiana. Um pedido de
esclarecimento aqui, uma recusa ali, uma resposta firme onde antes havia
apenas silêncio. Falar novamente exigiu enfrentar o medo de represálias e
o cansaço acumulado de anos sendo desacreditada.
Percebi que minha voz havia sido abafada não apenas pelo sistema, mas
também pela culpa que me ensinaram a carregar. Culpa por adoecer, por
não corresponder às expectativas, por lutar. Libertar-me dessa culpa foi
um processo doloroso, porém necessário. Eu não precisava mais pedir
desculpas por existir ou por proteger meu filho.
Passei a organizar documentos, registrar acontecimentos e buscar
informações com mais clareza e estratégia. Cada passo era pensado com
cuidado, não por insegurança, mas por lucidez. Aprendi a falar quando
necessário e a silenciar apenas quando estratégico — nunca mais por
medo.
A retomada da voz também significou enfrentar olhares de reprovação e
comentários velados. Algumas pessoas não aceitavam minha postura mais
firme. Outras se incomodavam com o fato de eu não me calar diante de
injustiças. Ainda assim, segui. Descobri que incomodar pode ser um efeito
colateral da verdade.
Meu filho acompanhava, à sua maneira, essa transformação. Ele percebia
minha postura mais segura, minha fala mais clara e minha presença mais
constante. Ser exemplo passou a ser parte da minha missão: ensinar, pelo
comportamento, que ninguém deve aceitar ser silenciado.
Ao recuperar minha voz, recuperei também partes de mim que haviam
sido fragmentadas pela dor. Voltei a reconhecer meus limites, minhas
forças e minha identidade. Já não era apenas uma mulher reagindo aos 23
Patrícia Monken Mexias
golpes da vida, mas alguém que escolhia, conscientemente, permanecer
de pé.
Essa retomada não significou o fim dos conflitos, mas marcou o início de
uma nova fase. Uma fase em que eu não implorava mais para ser ouvida
— eu falava. E falava com a convicção de quem sabe exatamente por que
está ali.
A voz que emergiu não era frágil nem agressiva. Era firme, consciente e
necessária. E, naquele momento, compreendi que jamais permitiria que
fosse retirada novamente. 24
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 11 – Resistir para Existir
Resistir deixou de ser uma escolha e passou a ser uma condição para
existir. Cada dia exigia de mim uma força que eu não sabia mais de onde
vinha, mas que se manifestava sempre que eu pensava no meu filho. Ele
era a razão pela qual eu não podia desistir, mesmo quando tudo ao redor
parecia ruir.
A resistência não se dava em grandes gestos heroicos, mas em atitudes
silenciosas e persistentes: levantar da cama quando o corpo pedia para
ficar, cumprir compromissos mesmo exausta, estudar processos, reunir
documentos, comparecer a audiências. Era uma luta diária contra o
cansaço físico, emocional e mental.
Passei a entender que resistir não significava endurecer. Pelo contrário,
exigia sensibilidade para reconhecer dores, limites e fragilidades. Eu
precisava me permitir sentir para não adoecer novamente. Aprendi que
força verdadeira não é ausência de lágrimas, mas a capacidade de seguir
apesar delas.
O sistema continuava a me testar. Decisões injustas, atrasos processuais e
interpretações distorcidas dos fatos se acumulavam. Em muitos
momentos, senti que resistir era lutar contra uma maré infinita. Ainda
assim, eu permanecia. Cada recuo seria uma perda irreparável.
Meu filho crescia observando essa luta silenciosa. Mesmo sem
compreender todos os detalhes, ele percebia minha constância, minha
presença e minha insistência em protegê-lo. Isso me fortalecia. Eu sabia
que, independentemente do resultado jurídico, ele aprenderia que amor
também é resistência.
Houve dias em que pensei em desistir de tudo. Dias em que o peso da
injustiça parecia insuportável. Nesses momentos, eu me agarrava à
certeza de que minha história não poderia terminar ali. Eu precisava 25
Patrícia Monken Mexias
continuar não apenas por mim, mas por todas as mães que foram
silenciadas antes de mim.
Resistir para existir tornou-se um lema interno. Uma reafirmação diária de
que eu tinha direito à voz, à dignidade e à maternidade. Mesmo ferida, eu
seguia. Mesmo cansada, eu permanecia.
Essa resistência não me tornou invencível, mas me manteve viva. E,
enquanto eu estivesse viva e consciente, a luta continuaria. 26
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 12 – Entre a Esperança e a Exaustão
Viver entre a esperança e a exaustão tornou-se o meu estado
permanente. Havia dias em que eu acordava acreditando que a justiça
finalmente se manifestaria; em outros, o cansaço me paralisava antes
mesmo de começar. Essa alternância constante desgasta, confunde e
cobra um preço alto de quem insiste em permanecer de pé.
A esperança vinha em pequenas doses: uma decisão aparentemente
favorável, uma escuta mais atenta, um gesto humano em meio à frieza
institucional. Esses momentos, embora raros, eram suficientes para
reacender a chama que me mantinha em movimento. Eu aprendia a
celebrar avanços mínimos como grandes conquistas.
A exaustão, por sua vez, se acumulava silenciosamente. Não era apenas
física, mas emocional e psicológica. O corpo dava sinais claros de desgaste,
e a mente, sobrecarregada, lutava para não sucumbir. Ainda assim, eu
seguia. Parar não era uma opção.
Conciliar a maternidade com a batalha judicial exigia escolhas difíceis.
Havia dias em que eu precisava decidir entre uma audiência e um
momento simples com meu filho. Cada ausência doía, mas cada presença
era um lembrete do porquê daquela luta. Eu tentava transformar culpa
em propósito.
O apoio profissional foi fundamental para que eu não desmoronasse.
Terapia, acompanhamento médico e redes de apoio tornaram-se pilares
de sustentação. Reconhecer a necessidade desse suporte foi mais um
passo de maturidade e autocuidado.
Meu filho, com sua sensibilidade, percebia minhas oscilações. Em seus
gestos de carinho, encontrava forças renovadas. Ele me ensinava, sem
saber, que esperança também mora nos detalhes: em um sorriso, em um
desenho, em um abraço apertado. 27
Patrícia Monken Mexias
Entre avanços e retrocessos, compreendi que a esperança não elimina a
exaustão — ela a atravessa. Aprendi a respeitar meus limites sem
abandonar meus princípios. Seguir em frente passou a ser um exercício
diário de equilíbrio.
Mesmo cansada, eu permanecia. Porque a esperança, ainda que frágil,
continuava viva. E enquanto ela existisse, eu encontraria forças para
continuar. 28
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 13 – Quando a Justiça Falha
Há um momento em que a fé no sistema começa a ruir. Não porque se
deixou de acreditar na justiça como valor, mas porque a prática insiste em
contrariar o que deveria proteger. Foi nesse ponto que me encontrei:
diante de decisões que ignoravam fatos, laudos e evidências, como se a
verdade pudesse ser relativizada.
A sensação de injustiça era avassaladora. Cada despacho desfavorável
soava como um novo julgamento moral, não apenas jurídico. Eu me via
obrigada a explicar, reiterar e provar repetidamente aquilo que já estava
documentado. A justiça, que deveria ser célere e protetiva, tornava-se
lenta e punitiva.
Quando a justiça falha, a dor se amplia. Não é apenas a perda de
confiança em instituições, mas o impacto direto na vida de quem depende
delas para sobreviver. Meu filho era o mais afetado. Cada decisão
equivocada reverberava em sua rotina, em sua segurança emocional e em
seu direito de ser protegido.
Passei a compreender que falhas institucionais não são exceções isoladas,
mas sintomas de um sistema que, muitas vezes, desumaniza quem deveria
amparar. A ausência de escuta qualificada, a leitura superficial dos
processos e a falta de sensibilidade transformavam vidas em números.
Houve momentos em que me senti completamente desamparada.
Questionava-me se continuar fazia sentido. Ainda assim, algo dentro de
mim se recusava a aceitar aquela realidade como definitiva. Desistir
significaria validar a injustiça.
A cada falha, minha responsabilidade como mãe se tornava ainda mais
pesada. Eu precisava compensar, dentro de casa, aquilo que o sistema não
oferecia: segurança, estabilidade e cuidado. Era um esforço diário para
que meu filho não carregasse as marcas de erros que não cometeu. 29
Patrícia Monken Mexias
Com o tempo, percebi que denunciar a falha da justiça também é um ato
de coragem. Tornar pública a dor causada por decisões equivocadas é
uma forma de resistência. Minha história passou a ser, além de pessoal,
um testemunho de algo maior.
Mesmo diante da falência institucional, eu seguia. Não por ingenuidade,
mas por consciência. Porque, se a justiça falhava, eu não poderia falhar
com meu filho. 30
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 14 – O Peso das Consequências
As consequências das decisões injustas não ficaram restritas aos autos do
processo; elas se materializaram no cotidiano. Cada determinação
equivocada produzia efeitos reais, profundos e duradouros. A vida seguia
sob o peso de escolhas que eu não fiz, mas que precisava suportar.
O impacto emocional foi imediato. A insegurança tornou-se companheira
constante, e o medo passou a orientar decisões simples. Planejar o futuro
parecia um exercício arriscado, pois tudo podia mudar de um dia para o
outro. A instabilidade corroía a sensação de chão.
As consequências também foram financeiras. Custos com advogados,
deslocamentos, laudos e tratamentos se acumulavam enquanto a renda
permanecia limitada. Eu precisava administrar a escassez sem permitir
que ela atingisse meu filho. Aprendi a fazer muito com pouco,
transformando necessidade em disciplina.
No campo social, vieram os afastamentos. Algumas pessoas se
distanciaram por não saber lidar com a complexidade da situação; outras,
por julgamento. A solidão, nesse contexto, não era ausência de
companhia, mas falta de compreensão. Ainda assim, mantive vínculos
essenciais — poucos, porém verdadeiros.
Meu filho absorvia, à sua maneira, os efeitos desse cenário. Mudanças de
rotina, interrupções inesperadas e explicações adaptadas à sua idade
faziam parte do nosso dia a dia. Meu maior esforço era preservar sua
infância, mesmo quando a minha parecia suspensa.
O peso das consequências também se manifestou no corpo. Cansaço
crônico, dores persistentes e sinais de estresse tornaram-se alertas
constantes. Aprendi a ouvir esses sinais como pedidos de cuidado, não
como fraqueza. 31
Patrícia Monken Mexias
Apesar de tudo, desenvolvi uma capacidade de adaptação que jamais
imaginei possuir. As consequências me ensinaram a reorganizar
prioridades, a escolher batalhas e a fortalecer o que realmente importava.
A maternidade tornou-se ainda mais consciente e intencional.
Carregar esse peso não me quebrou. Ele me transformou. Cada
consequência enfrentada ampliou minha clareza sobre quem eu era e
sobre o que precisava proteger. E, mesmo cansada, segui — porque o
amor não permite desistência. 32
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 15 – Aprendizados da Dor
A dor, quando atravessada com consciência, transforma-se em
aprendizado. Não foi imediato nem simples, mas, ao longo do tempo,
comecei a compreender que cada experiência vivida carregava uma lição
dura, porém necessária. Nada do que passei foi em vão.
Aprendi, primeiro, a reconhecer limites. Entendi que não posso controlar
decisões alheias, mas posso escolher como reagir a elas. Essa
compreensão me devolveu parte da autonomia que havia sido tomada
pelas circunstâncias.
Aprendi também a confiar mais na minha intuição. Muitas vezes, ignorei
sinais claros por medo, cansaço ou esperança excessiva. A dor me ensinou
a escutar com mais atenção aquilo que o corpo e a mente já sabiam.
Outro aprendizado foi sobre a solidão. Descobri que estar só não significa
estar abandonada, e que poucas presenças verdadeiras valem mais do que
muitas ausências disfarçadas. Passei a valorizar quem permanecia, mesmo
sem promessas ou garantias.
A maternidade ganhou novos contornos. Tornei-me uma mãe ainda mais
atenta, presente e consciente. Cada gesto de cuidado passou a ser
intencional. Meu filho me ensinou, diariamente, que amor também é
paciência, constância e exemplo.
Aprendi a pedir ajuda sem vergonha. Reconhecer fragilidades deixou de
ser sinônimo de fracasso e passou a ser sinal de responsabilidade. Cuidar
de mim tornou-se parte fundamental do cuidado com meu filho.
A dor também ampliou meu olhar social. Passei a enxergar com mais
clareza outras mulheres em situações semelhantes, outras mães
silenciadas e desacreditadas. Minha história deixou de ser apenas minha e
passou a dialogar com tantas outras invisibilizadas. 33
Patrícia Monken Mexias
Esses aprendizados não apagaram o sofrimento, mas lhe deram sentido.
Hoje, compreendo que a dor não me definiu — ela me lapidou. E, a partir
dela, reconstruí uma versão de mim mais lúcida, mais forte e mais
humana. 34
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 16 – Reconstruindo Caminhos
Reconstruir não significou apagar o passado, mas aprender a caminhar
apesar dele. Cada passo exigia cuidado, paciência e uma disposição diária
para recomeçar. A reconstrução foi silenciosa, feita de escolhas pequenas
e constantes.
Comecei reorganizando o que estava ao meu alcance. Estabeleci rotinas
mais estáveis, cuidei da minha saúde emocional e busquei retomar
projetos que haviam sido interrompidos pela luta judicial. Voltar a sonhar,
ainda que timidamente, foi um ato de coragem.
A reconstrução também passou pela ressignificação da minha identidade.
Eu não era apenas a mulher que lutava contra injustiças; era profissional,
estudante, mãe e indivíduo com desejos próprios. Recuperar essas
camadas foi fundamental para não reduzir minha existência à dor.
Meu filho participou ativamente desse processo. Juntos, criamos novos
rituais, novas memórias e novas formas de segurança. Cada momento
compartilhado era uma afirmação de que, apesar das perdas, ainda era
possível construir afeto e estabilidade.
Aprendi a aceitar ajuda sem culpa e a estabelecer limites com mais
clareza. Nem todos poderiam caminhar comigo, e isso deixou de ser um
problema. Reconstruir também é selecionar o que permanece e o que
precisa ficar para trás.
Os desafios não desapareceram, mas passei a enfrentá-los com outra
postura. Havia mais lucidez, menos impulsividade e uma compreensão
mais profunda de mim mesma. A experiência havia me transformado.
Reconstruir caminhos foi, acima de tudo, um exercício de esperança
prática. Não aquela idealizada, mas a que se constrói no cotidiano, com
esforço e constância. Eu sabia que ainda havia um longo percurso, mas já
não caminhava às cegas. 35
Patrícia Monken Mexias
Esse processo me ensinou que recomeçar não é sinal de fracasso, mas de
resistência. E, passo a passo, eu seguia — consciente, presente e
determinada a não me perder novamente. 36
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 17 – A Força que Permanece
Ao olhar para trás, percebo que a força que permanece não é a que grita
ou se impõe, mas a que resiste em silêncio, dia após dia. É a força que se
levanta mesmo cansada, que segue mesmo ferida, que escolhe amar
mesmo depois de tantas perdas.
Essa força foi sendo construída ao longo de toda a caminhada. Nas
quedas, aprendi a me levantar; nas injustiças, aprendi a me posicionar;
nas dores, aprendi a me escutar. Nada disso me tornou invulnerável, mas
me tornou consciente.
A maternidade foi e continua sendo a base dessa força. Meu filho é o
espelho que me lembra diariamente do compromisso com a verdade, com
o cuidado e com a dignidade. Em cada escolha, penso no exemplo que
deixo e no mundo que desejo ajudá-lo a construir.
Aprendi que força não é endurecimento. É flexibilidade, adaptação e
capacidade de seguir sem perder a essência. Houve momentos em que
precisei recuar para preservar a saúde mental, e isso também foi força.
As marcas do caminho permanecem, mas já não doem da mesma forma.
Elas contam uma história de sobrevivência e transformação. Carregá-las
não me diminui; me humaniza.
Hoje, caminho com mais clareza sobre meus limites e possibilidades. Sei
que a luta não se encerra com um livro, nem com decisões judiciais. Ela
continua na forma como escolho viver, educar, trabalhar e me posicionar.
A força que permanece é essa: a capacidade de continuar inteira, mesmo
depois de tantas tentativas de fragmentação. É a certeza de que minha
voz, minha presença e meu amor não podem ser anulados.
E enquanto essa força existir, eu seguirei — não por teimosia, mas por
consciência. Porque existir, para mim, sempre será um ato de coragem. 37
Patrícia Monken Mexias
Que este livro seja um abraço em quem lê. Um lembrete de que a
maternidade, mesmo ferida, pode ser lúcida, forte e profundamente
humana. 38
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 18 – A Luta Continua
A luta não termina com o fechamento de um capítulo, tampouco com a
última página de um livro. Ela continua nos dias comuns, nas decisões
silenciosas e na insistência em permanecer fiel à própria consciência.
Escrever esta obra não encerra minha história; registra um ponto de
passagem.
A realidade segue exigindo atenção, coragem e presença. Processos ainda
tramitam, desafios se renovam e a necessidade de vigilância permanece.
Aprendi que justiça, muitas vezes, não é um evento, mas um percurso
longo, cheio de curvas e resistências.
Continuo lutando porque meu filho cresce, observa e aprende. Cada
escolha que faço hoje constrói referências para o futuro dele. Ensinar,
pelo exemplo, que dignidade não se negocia tornou-se parte essencial da
minha missão como mãe.
A luta continua também porque o silêncio não é mais opção. Tornar
visíveis histórias como a minha é uma forma de ampliar o debate,
provocar reflexão e, quem sabe, contribuir para mudanças. A denúncia
consciente é um ato de cidadania.
Há dias mais leves e outros mais pesados. Aprendi a reconhecer quando
avançar e quando recuar para preservar forças. Persistir não significa
ignorar limites, mas respeitá-los sem abandonar princípios.
Sigo caminhando com a certeza de que minha história não é isolada.
Muitas mães enfrentam batalhas semelhantes, muitas crianças dependem
da lucidez e da coragem de adultos para serem protegidas. Isso me
impulsiona a continuar.
A luta continua porque a vida exige presença ativa. E, enquanto houver
injustiça, descaso ou silenciamento, minha voz permanecerá disponível —
não por confronto vazio, mas por compromisso com a verdade. 39
Patrícia A Luta de uma Mãe
Superando os Desafios e a Dor na Busca pela Justiça e pela
Filiação
Por Patrícia Monken Mexias 3
Patrícia Monken Mexias
Sinopse
A Luta de uma Mãe é um relato autobiográfico intenso e necessário sobre
maternidade, violência, silenciamento e resistência. Nesta obra, Patrícia
Monken Mexias expõe, com coragem e lucidez, a trajetória de uma
mulher que enfrentou abusos dentro do lar, falhas institucionais e um
sistema judicial que, muitas vezes, puniu quem buscava proteção. É um
relato real, intenso e profundamente humano sobre maternidade, dor,
resistência e a busca incansável por justiça.
Ao longo dos capítulos, a autora narra sua luta pela segurança e dignidade
do próprio filho, atravessando relações abusivas, crises emocionais,
internações, disputas judiciais e acusações injustas. Mais do que uma
história pessoal, o livro revela como mães podem ser desacreditadas,
julgadas e silenciadas ao tentarem cumprir seu papel mais básico:
proteger. Cada capítulo revela não apenas os fatos, mas as emoções de
quem viveu a dor de ser desacreditada, julgada e afastada da própria
criança — sem jamais desistir.
Com uma escrita sensível, firme e profundamente humana, A Luta de uma
Mãe denuncia a violência institucional, questiona os limites da justiça e
transforma a dor em consciência. É um testemunho sobre resistência,
reconstrução e a força que permanece mesmo quando tudo parece ruir.
Esta obra não oferece respostas fáceis, mas dá voz a muitas mulheres
invisibilizadas. Um livro para mães, profissionais do direito, da saúde e
para todos que acreditam que justiça, cuidado e dignidade não deveriam
ser exceção.
ÍNDICE
Capítulo 1 – Introdução à Luta
Capítulo 2 – Um Lar Conturbado
Capítulo 3 – O Relato dos Abusos
Capítulo 4 – O Reencontro e a Sensação de Liberdade
Capítulo 5 – A Queda na Estrada
Capítulo 6 – Enfrentando a Crise e as Internações
Capítulo 7 – Navegando no Labirinto Legal
Capítulo 8 – Alianças e Influências
Capítulo 9 – O Período de Silêncio
Capítulo 10 – A Retomada da Voz
Capítulo 11 – Resistir para Existir
Capítulo 12 – Entre a Esperança e a Exaustão
Capítulo 13 – Quando a Justiça Falha
Capítulo 14 – O Peso das Consequências
Capítulo 15 – Aprendizados da Dor
Capítulo 16 – Reconstruindo Caminhos
Capítulo 17 – A Força que Permanece
Capítulo 18 – A Luta Continua
Capítulo 1 – Introdução à Luta
Meu nome é Patrícia Monken Mexias, tenho 46 anos. Sou técnica de
enfermagem, graduada em Estética e Cosmetologia, Publicidade e
Produção Publicitária. Sou também estudante de pós-graduação em
Biomedicina Estética, Farmácia Estética, Nutrição Aplicada ao
Emagrecimento em Estética, Sexualidade e Psicologia, Psicologia Infantil,
Enfermagem Forense, Psicologia Criminal Forense e Investigação Forense.
Ao longo da minha trajetória, acumulei mais de 470 cursos livres em
diversas áreas.
À primeira vista, tudo parece fácil, glorioso e satisfatório — mas não é.
Venho de uma criação rígida, onde muitas vezes é fácil confundir as coisas.
Como diz a sabedoria popular, as aparências enganam e nem tudo o que
reluz é ouro. Quem me vê hoje não imagina a luta que foi chegar até aqui.
O processo foi árduo, longo e doloroso.
Hoje vivo uma situação que não desejo nem ao meu pior inimigo. Sou mãe
de dois filhos biológicos. Separei-me em dezembro de 2017 após anos de
abusos, agressões físicas, verbais e psicológicas praticadas pelo meu ex-
marido e pelo filho dele, que à época tinha apenas 12 anos.
A decisão de lutar pela guarda do meu filho não era apenas uma questão
de direito. Era algo que pulsava dentro de mim, uma necessidade visceral
de criar um ambiente seguro, onde pudéssemos respirar liberdade e
amor, longe do medo que a minha própria história havia construído. A
cada passo, eu desenhava uma nova narrativa para nós dois, onde mãe e
filho eram protagonistas de uma nova chance.
O desespero me invadia constantemente, mas havia dentro de mim uma
luz que não permitia que a esperança se apagasse. A cada amanhecer, eu
despertava determinada a seguir em frente. Sabia que a luta não seria
fácil e que as adversidades tornariam cada pequena vitória ainda mais
significativa. Era essa disposição incessante de transformar dor em
combustível que alimentava minha determinação.
Mesmo diante da sensação frequente de desamparo, o amor e a coragem
me empurravam adiante. Eu sabia que estava iniciando um caminho que
me transformaria não apenas como mãe, mas como mulher —
renascendo a cada desafio enfrentado. 6
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 2 – Um Lar Conturbado
As separações não são apenas físicas; elas consomem também a
estabilidade emocional que existia dentro de um lar. Em dezembro de
2016, exausta das agressões físicas e morais praticadas pelo meu ex-
marido e pelo filho dele, decidi sair de casa. Deixei tudo para trás, levando
apenas os prejuízos emocionais e financeiros. Meu ex-marido deixou uma
dívida de aproximadamente R$ 72.000,00 feita em meu nome.
A separação trouxe consigo um pesadelo que eu jamais imaginei viver. Em
2018, conheci uma pessoa que assumiu a mim e ao meu filho, então com
dois anos de idade. Casei-me novamente e, no início, acreditei ter
encontrado a pessoa ideal. Em meio ao desespero, buscava sentido na
confusão e tentava encontrar esperança nas memórias que se formavam
sob um novo teto.
No entanto, a fragilidade daquele lar logo se revelou. As discussões
constantes deixavam meu filho confuso e me deixavam exausta. O peso da
culpa batia à porta em silêncio, principalmente nas madrugadas, quando a
casa dormia e minhas lágrimas eram minhas únicas companheiras. Eu me
perguntava: “O que estou fazendo com a vida dele?”.
O ambiente familiar, antes fonte de apoio, transformou-se em uma rede
de julgamentos silenciosos. Amigos e parentes, ao invés de oferecerem
acolhimento, muitas vezes se tornavam fontes de pressão. Tudo o que eu
desejava era um ouvido atento, alguém que me permitisse falar sem
medo de ser julgada.
A dificuldade financeira agravava ainda mais a fragilidade emocional da
família. Minha maior preocupação sempre foi proteger meu filho da
dureza da realidade que nos cercava. Cada sorriso dele se tornava uma
pequena vitória e um motivo para continuar lutando.
Nesse contexto, compreendi que a resiliência não é um estado
permanente, mas uma sucessão de momentos — alguns de extrema
vulnerabilidade, outros de esperança. Mesmo diante da escuridão, havia
dentro de mim a certeza de que era possível construir um futuro
diferente, dia após dia.
Capítulo 3 – O Relato dos Abusos
Foram quatro anos — 2013, 2014, 2015 e 2016 — vivendo sob terror
psicológico, acreditando, a cada novo episódio, que os abusos não se
repetiriam. A esperança de mudança era constantemente alimentada pela
negação, especialmente por se tratar de uma criança. Meu enteado
chegou à minha vida aos oito anos de idade. No início, parecia tudo
normal, mas, com o passar do tempo, a situação foi se tornando
insustentável.
Influenciado pela mãe biológica e, principalmente, pela avó materna, seu
comportamento tornou-se agressivo e perturbador. Eu fiz tudo o que
estava ao meu alcance, mas, ao invés de melhorar, a convivência piorava
dia após dia. O convívio tornou-se emocionalmente insuportável. Era
difícil aceitar que uma criança pudesse agir daquela forma, mas a
realidade se impunha de maneira cruel.
Em setembro de 2014, engravidei. A partir desse momento, a relação
dentro de casa se deteriorou ainda mais. Meu enteado tornou-se cada vez
mais agressivo e perigoso. Naquela época, não existia a facilidade de
gravações ou registros digitais, o que dificultava qualquer tipo de prova
que pudesse me resguardar.
No dia 18 de maio de 2015, nasceu meu filho. Ali, vi a chance de viver a
maternidade de forma plena, de oferecer amor, cuidado e proteção.
Aquele pequeno ser representava esperança, recomeço e sentido para
continuar.
Em 16 de dezembro de 2016, ocorreu o episódio que marcou
definitivamente o fim daquela relação. Fui agredida fisicamente pelo meu
ex-marido, a ponto de sangrar no rosto, diante do próprio filho dele, que à
época tinha 12 anos. O que mais me marcou não foi apenas a agressão,
mas a expressão de satisfação estampada no rosto daquela criança ao
presenciar a violência. Naquele instante, compreendi que não havia mais
nada a ser feito. 9
Patrícia Monken Mexias
Decidi dar um basta. Peguei apenas o essencial e voltei para a casa da
minha mãe. A relação entre mim, minha mãe e minha filha mais velha
nunca foi fácil, mas eu não tinha outra opção. Dividir o mesmo espaço
significava reviver conflitos antigos e lidar com barreiras emocionais
profundas.
Ainda assim, em meio ao caos, comecei a perceber o valor das pequenas
vitórias. Cada dia em que eu conseguia seguir em frente era um passo em
direção à liberdade. A vida, antes marcada por sombras, começou
lentamente a ser iluminada por novas possibilidades.
Passei a compreender que a superação não é um caminho linear. É um
processo contínuo, repleto de aprendizados, onde cada erro se transforma
em oportunidade de crescimento. Minhas feridas passaram a ser
reconhecidas como parte da minha história, não como o seu fim.
Mesmo marcada por traumas, fui sendo moldada pela luta, pelo amor e
pela esperança. Cada batida do meu coração carregava a certeza de que
eu precisava continuar — por mim e, acima de tudo, pelo meu filho. 10
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 4 – O Reencontro e a Sensação de Liberdade
Após experiências que deixaram marcas profundas, cada detalhe daquela
nova rotina parecia um pequeno milagre. As risadas que ecoavam pela
casa, os olhares cúmplices e os gestos simples tornaram-se lembretes de
que a vida ainda podia oferecer acolhimento, leveza e afeto.
Em 2018, permiti-me conhecer uma nova pessoa. Ele assumiu a mim e ao
meu filho, então com dois anos de idade. Em pouco tempo, nos casamos.
No início, acreditei ter encontrado alguém capaz de oferecer segurança
emocional e estabilidade — não apenas para mim, mas também para meu
filho.
A presença desse novo parceiro representava um porto seguro. Aos
poucos, minha autoestima, abalada por anos de violência e incertezas,
começou a ser reconstruída. Era um processo lento, mas perceptível. Meu
filho, ao observar minha felicidade, também passou a se sentir mais
confiante. Ele aceitava aquela nova figura com naturalidade e o chamava
de pai.
Os momentos simples ganharam novos significados. Um café da manhã
compartilhado, um passeio no parque ou uma conversa despretensiosa na
cozinha tornaram-se rituais de reconexão com a vida. Havia leveza nas
risadas, conforto nos silêncios e esperança nos planos que começávamos a
construir.
Permitir-me amar novamente não foi fácil. A vulnerabilidade ainda
causava medo, mas havia algo diferente: desta vez, eu me sentia
escutada. Essa escuta trouxe alívio, validou sentimentos e fortaleceu
laços. Aos poucos, comecei a acreditar que não precisava apenas
sobreviver — eu poderia, enfim, viver.
A relação com meu filho também se transformou. Com mais segurança
emocional, tornei-me uma mãe mais presente, mais afetuosa e mais
consciente. O sorriso dele, ao perceber minha tranquilidade, era uma
confirmação silenciosa de que eu estava no caminho certo.
Essa fase representou um reencontro comigo mesma. A sensação de
liberdade não significava ausência de problemas, mas a possibilidade de
caminhar com menos medo. Cada amanhecer trazia a esperança de que o
passado não definiria o futuro.
Mesmo carregando cicatrizes, aprendi que era possível reconstruir
sonhos. O amor, quando saudável, tornou-se um pilar de sustentação. Eu
começava a compreender que liberdade emocional é, acima de tudo, a
permissão de ser quem se é — sem culpa, sem medo e sem silenciamento. 12
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 5 – A Queda na Estrada
A vida parecia finalmente seguir um caminho promissor. Havia risos nas
noites de sexta-feira, brincadeiras na sala e a sensação de que, apesar das
cicatrizes do passado, um novo começo estava sendo possível. As
esperanças eram alimentadas pelos pequenos gestos do cotidiano,
mesmo sabendo que a vida jamais é isenta de desafios.
Aos poucos, porém, uma sombra silenciosa começou a se infiltrar em
nossa rotina: o alcoolismo. No início, eram sinais sutis — uma garrafa
esquecida, mudanças no tom de voz, conversas interrompidas por
silêncios desconfortáveis. Meu coração ainda se agarrava às lembranças
felizes, mas um frio constante começou a se instalar. Algo estava
mudando.
As saídas tornaram-se frequentes, as promessas passaram a ser adiadas e
a presença emocional deu lugar à ausência. O olhar antes acolhedor
começou a se perder em névoas. Nosso lar, que havia se tornado um
espaço de afeto, passou a carregar o peso da incerteza.
Enquanto isso, o pai biológico do meu filho permanecia completamente
ausente. Nunca buscou contato, nunca contribuiu financeiramente, nunca
demonstrou interesse em exercer a paternidade. Essa ausência reforçava
ainda mais a sensação de abandono e solidão.
As noites tornaram-se longas e angustiantes. Eu me via esperando
acordada, observando o relógio avançar lentamente, sem saber se ele
voltaria e em que condições. A distância emocional crescia a cada dia, e
eu, aos poucos, assumia não apenas a responsabilidade pelo lar, mas
também pela estabilidade emocional de todos.
Meu filho, ainda pequeno, era a âncora que me mantinha em pé. Sua
inocência contrastava com o caos que se instaurava ao nosso redor. Eu 13
Patrícia Monken Mexias
tentava protegê-lo, mesmo sentindo que minhas próprias forças estavam
se esgotando.
Conversei, tentei ajudar, busquei compreender a dependência. Procurei
apoio em leituras, em grupos e até junto à família dele, mas encontrei
apenas negação, raiva e descaso. O alcoolismo avançava, e com ele, a
deterioração do nosso relacionamento.
O lar tornou-se um espaço de tensão. As noites silenciosas eram
preenchidas por preocupações e medos. Eu me perguntava até quando
conseguiria suportar aquela situação sem que tudo desmoronasse.
Em meio a esse cenário, compreendi que havia limites que não poderiam
mais ser ultrapassados. Proteger meu filho e a mim mesma deixou de ser
uma escolha — tornou-se uma necessidade. A esperança, ainda que frágil,
sussurrava que mudanças seriam inevitáveis. 14
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 6 – Enfrentando a Crise e as Internações
Eu sabia que estava me afundando. Os pensamentos se embaralhavam em
um nó sem fim, e o silêncio da casa amplificava tudo aquilo que eu
tentava esconder. Admitir que não estava bem parecia impossível. O
estigma de pedir ajuda pesava como uma sentença invisível: o que
pensariam de mim? Como uma mãe poderia falhar?
Mas bastava olhar para o meu filho para que qualquer resistência interna
começasse a ruir. Ele era pequeno, dependente, inocente. Precisava de
mim inteira, viva, presente. E foi esse amor que me impediu de afundar de
vez.
A primeira internação aconteceu como um choque. Estar em um hospital,
cercada por corredores frios, pelo cheiro constante de desinfetante e por
vozes abafadas, trouxe uma mistura estranha de medo e alívio. Medo por
reconhecer minha fragilidade. Alívio por, pela primeira vez, não estar
completamente sozinha.
Durante esse período, vivi uma ruptura profunda com a imagem que eu
tinha de mim mesma. Eu, que sempre fui forte, resolutiva e cuidadora,
agora precisava ser cuidada. Aceitar isso exigiu uma coragem diferente —
a coragem de reconhecer limites.
A segunda internação foi ainda mais difícil. Voltar para aquele ambiente
significava admitir que a crise era mais profunda do que eu gostaria. No
entanto, também foi ali que comecei a compreender que pedir ajuda não
é fraqueza, mas um ato de responsabilidade.
Enquanto eu tentava me reorganizar emocionalmente, meu filho também
sentia os impactos daquele momento. A relação entre mãe e filho, já
fragilizada por tantas rupturas, tornava-se ainda mais sensível. Cada
separação, cada ausência, deixava marcas silenciosas. 15
Patrícia Monken Mexias
As internações me obrigaram a parar. A refletir. A olhar para minha
história com menos julgamento e mais honestidade. Compreendi que
sobreviver não bastava — era preciso reconstruir.
Aos poucos, comecei a aceitar que cuidar de mim era também uma forma
de cuidar do meu filho. Que nenhuma mãe consegue proteger se estiver
emocionalmente destruída. Essa consciência não veio de forma suave,
mas foi libertadora.
Saí desse período marcada, mas mais consciente. Ainda havia medo, culpa
e insegurança, mas também havia uma semente de mudança. Eu sabia
que a caminhada seria longa, mas pela primeira vez consegui enxergar a
possibilidade de um recomeço real. 16
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 7 – Navegando no Labirinto Legal
O sistema jurídico se revelou um labirinto complexo, frio e, muitas vezes,
desumano. Para uma mãe que busca proteger o próprio filho, cada etapa
parecia mais confusa do que a anterior. Termos técnicos, prazos,
audiências e documentos se acumulavam enquanto minha vida emocional
já estava em ruínas.
Denunciar maus-tratos e situações de risco deveria ser um caminho de
proteção, mas, na prática, transformou-se em um percurso angustiante. A
cada nova denúncia, surgiam novas barreiras. A cada tentativa de
esclarecimento, mais dúvidas se impunham. Eu sentia que precisava
provar o óbvio: que era uma mãe tentando proteger o próprio filho.
Em conversas com advogados, ouvi repetidamente que o sistema é lento,
falho e sobrecarregado. Ainda assim, eu precisava acreditar que a justiça
existia. Entrar em um fórum pela primeira vez foi uma experiência
avassaladora. O peso das acusações, a frieza dos procedimentos e o olhar
de desconfiança tornavam tudo ainda mais doloroso.
Com o tempo, percebi que o processo não era apenas jurídico — era
profundamente emocional. Cada audiência reabria feridas, cada
documento trazia à tona lembranças que eu lutava para sobreviver. A
sensação de impotência era constante. Eu me perguntava como a verdade
poderia se perder em meio a tantos papéis.
O Ministério Público do Rio de Janeiro moveu uma ação contra mim,
imputando a responsabilidade de três acidentes domésticos como se
fossem um único fato intencional. No processo, constavam acusações
graves e irreais, como a alegação de que eu dopava meu filho para causar
danos e que buscava atendimento médico com o objetivo de obter
benefícios sociais.
Essas acusações me devastaram. Saber que tais afirmações constavam
oficialmente em um processo, mesmo com a existência de prontuários 17
Patrícia Monken Mexias
médicos, laudos e documentos que comprovavam o contrário, era uma
violência institucional. Se uma sindicância adequada tivesse sido realizada,
a verdade estaria evidente.
Durante as longas esperas em tribunais, conheci outras mães em situações
semelhantes. Compartilhar histórias tornou-se um alívio momentâneo.
Entre lágrimas e desabafos, percebi que não estava sozinha naquela dor.
Ainda assim, cada uma carregava sua própria cruz, sua própria batalha
invisível.
A pressão emocional aumentava a cada dia. Provar minha inocência
tornou-se uma obsessão necessária. Não era apenas uma defesa jurídica,
mas uma luta pela minha dignidade, pela minha identidade como mãe.
As noites sem sono tornaram-se rotina. Eu me perguntava como reagir,
como me defender, como não enlouquecer diante de um sistema que
parecia não enxergar a realidade. A luta judicial passou a ser também uma
luta interna — entre a exaustão e a resistência.
Mesmo assim, segui em frente. Cada passo, por menor que fosse, era um
ato de coragem. Navegar nesse labirinto exigia força, lucidez e
persistência. Eu sabia que desistir significaria perder não apenas
processos, mas a chance de ser ouvida. 18
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 8 – Alianças e Influências
A luta que eu enfrentava nunca foi solitária, mas também nunca foi justa.
Ao longo do processo, fui compreendendo que, no sistema em que eu
estava inserida, alianças e influências pesam mais do que verdades
documentadas. A presença de advogados, procuradores, conhecidos e
relações pessoais criava um jogo silencioso de forças que eu não
dominava.
Nem todos os profissionais que cruzaram meu caminho estavam
verdadeiramente comprometidos com a justiça. Alguns advogados
demonstravam empatia e dedicação; outros pareciam apenas cumprir
protocolos, mais atentos ao relógio do que à gravidade da minha história.
Essa diferença se tornava evidente a cada reunião, a cada audiência, a
cada promessa não cumprida.
Passei a perceber que a justiça não é cega — ela escolhe, muitas vezes,
para onde olhar. Essa constatação foi dolorosa, mas necessária. Entender
o funcionamento real do sistema me fez abandonar ilusões e adotar uma
postura mais estratégica, ainda que emocionalmente exaustiva.
As relações humanas ao meu redor também se transformaram. Algumas
pessoas se afastaram em silêncio; outras surgiram oferecendo apoio
inesperado. Amigos, conhecidos e até estranhos tornaram-se peças
importantes nesse tabuleiro emocional. Cada palavra de incentivo era
uma âncora em meio à tempestade.
Entretanto, nem toda ajuda vinha sem custo. Opiniões, julgamentos
velados e conselhos não solicitados passaram a fazer parte da rotina. Em
muitos momentos, eu precisava filtrar vozes externas para não perder
minha própria voz. Aprendi que nem toda mão estendida vem para
sustentar — algumas apenas empurram.
Meu ex-marido também exercia influência direta nesse cenário. Utilizando
conexões pessoais, ele transformava a disputa pela guarda em uma arena 19
Patrícia Monken Mexias
de intimidação. Conversas simples tornavam-se tensas, carregadas de
ameaças implícitas e jogos psicológicos. Era mais uma camada de desgaste
sobre uma estrutura emocional já fragilizada.
Com o tempo, compreendi que minha maior aliança precisava ser interna.
Fortalecer minha lucidez, preservar minha saúde mental e manter foco no
essencial — meu filho — tornou-se prioridade absoluta. Nem todas as
batalhas precisavam ser travadas, mas a principal jamais poderia ser
abandonada.
Assim, entre alianças frágeis e influências poderosas, aprendi a caminhar
com cautela. A luta não era apenas contra pessoas ou instituições, mas
contra a tentativa constante de me silenciar. Permanecer de pé, mesmo
quando tudo parecia conspirar contra mim, passou a ser um ato diário de
resistência. 20
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 9 – O Período de Silêncio
Houve um tempo em que o silêncio não foi escolha — foi imposição. Após
tantas batalhas, denúncias, audiências e tentativas de ser ouvida, fui
empurrada para um lugar onde falar parecia perigoso. Cada palavra podia
ser usada contra mim; cada desabafo, interpretado como fragilidade.
Assim, calei.
Esse período foi marcado por um isolamento profundo. Amigos já não
sabiam o que dizer, familiares evitavam o assunto e eu mesma não
encontrava forças para explicar o inexplicável. O silêncio se tornou um
mecanismo de sobrevivência. Era a forma que encontrei para proteger
meu filho e a mim mesma de novas violências.
Dentro de casa, a rotina seguia de maneira mecânica. Eu cumpria tarefas,
organizava horários, mantinha compromissos. Por fora, tudo parecia sob
controle. Por dentro, travava uma batalha diária contra o medo, a culpa e
a sensação de injustiça permanente.
O silêncio também trouxe reflexões duras. Foi nele que percebi o quanto a
sociedade espera que mães suportem tudo sem falhar. Qualquer cansaço
vira negligência; qualquer dor, exagero. Eu me perguntava quantas
mulheres haviam sido silenciadas antes de mim, esmagadas por um
sistema que confunde resistência com submissão.
Meu filho sentia minha contenção emocional. As perguntas dele, simples e
diretas, atravessavam minhas defesas. Eu respondia com cuidado,
tentando preservar sua infância, mesmo quando a minha própria já
parecia distante. Cada abraço dele era um lembrete silencioso de por que
eu precisava continuar.
Nesse período, aprendi a ouvir mais do que falar. Observei pessoas,
comportamentos, instituições. Entendi que o silêncio pode ser também
um espaço de preparo — um terreno onde a força se reorganiza antes de
voltar à superfície. 21
Patrícia Monken Mexias
Embora doloroso, esse tempo de recolhimento me ensinou a diferenciar
quem realmente estava ao meu lado de quem apenas observava de longe.
Algumas ausências doeram mais do que ataques diretos. Ainda assim,
resisti.
Quando comecei a recuperar a voz, ela já não era a mesma. Estava mais
firme, mais consciente, menos ingênua. O silêncio não me apagou; me
lapidou. E, naquele momento, eu soube que não permaneceria calada
para sempre. 22
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 10 – A Retomada da Voz
A retomada da minha voz não aconteceu de forma abrupta. Ela veio em
fragmentos, em pequenos atos de coragem cotidiana. Um pedido de
esclarecimento aqui, uma recusa ali, uma resposta firme onde antes havia
apenas silêncio. Falar novamente exigiu enfrentar o medo de represálias e
o cansaço acumulado de anos sendo desacreditada.
Percebi que minha voz havia sido abafada não apenas pelo sistema, mas
também pela culpa que me ensinaram a carregar. Culpa por adoecer, por
não corresponder às expectativas, por lutar. Libertar-me dessa culpa foi
um processo doloroso, porém necessário. Eu não precisava mais pedir
desculpas por existir ou por proteger meu filho.
Passei a organizar documentos, registrar acontecimentos e buscar
informações com mais clareza e estratégia. Cada passo era pensado com
cuidado, não por insegurança, mas por lucidez. Aprendi a falar quando
necessário e a silenciar apenas quando estratégico — nunca mais por medo. A retomada da voz também significou enfrentar olhares de reprovação e comentários velados. Algumas pessoas não aceitavam minha postura mais firme. Outras se incomodavam com o fato de eu não me calar diante de injustiças. Ainda assim, segui. Descobri que incomodar pode ser um efeito
colateral da verdade.
Meu filho acompanhava, à sua maneira, essa transformação. Ele percebia
minha postura mais segura, minha fala mais clara e minha presença mais
constante. Ser exemplo passou a ser parte da minha missão: ensinar, pelo
comportamento, que ninguém deve aceitar ser silenciado.
Ao recuperar minha voz, recuperei também partes de mim que haviam
sido fragmentadas pela dor. Voltei a reconhecer meus limites, minhas
forças e minha identidade. Já não era apenas uma mulher reagindo aos golpes da vida, mas alguém que escolhia, conscientemente, permanecer
de pé.
Essa retomada não significou o fim dos conflitos, mas marcou o início de
uma nova fase. Uma fase em que eu não implorava mais para ser ouvida
— eu falava. E falava com a convicção de quem sabe exatamente por que
está ali.
A voz que emergiu não era frágil nem agressiva. Era firme, consciente e
necessária. E, naquele momento, compreendi que jamais permitiria que
fosse retirada novamente.
Capítulo 11 – Resistir para Existir
Resistir deixou de ser uma escolha e passou a ser uma condição para
existir. Cada dia exigia de mim uma força que eu não sabia mais de onde
vinha, mas que se manifestava sempre que eu pensava no meu filho. Ele
era a razão pela qual eu não podia desistir, mesmo quando tudo ao redor
parecia ruir.
A resistência não se dava em grandes gestos heroicos, mas em atitudes
silenciosas e persistentes: levantar da cama quando o corpo pedia para
ficar, cumprir compromissos mesmo exausta, estudar processos, reunir
documentos, comparecer a audiências. Era uma luta diária contra o
cansaço físico, emocional e mental.
Passei a entender que resistir não significava endurecer. Pelo contrário,
exigia sensibilidade para reconhecer dores, limites e fragilidades. Eu
precisava me permitir sentir para não adoecer novamente. Aprendi que
força verdadeira não é ausência de lágrimas, mas a capacidade de seguir
apesar delas.
O sistema continuava a me testar. Decisões injustas, atrasos processuais e
interpretações distorcidas dos fatos se acumulavam. Em muitos
momentos, senti que resistir era lutar contra uma maré infinita. Ainda
assim, eu permanecia. Cada recuo seria uma perda irreparável.
Meu filho crescia observando essa luta silenciosa. Mesmo sem
compreender todos os detalhes, ele percebia minha constância, minha
presença e minha insistência em protegê-lo. Isso me fortalecia. Eu sabia
que, independentemente do resultado jurídico, ele aprenderia que amor
também é resistência.
Houve dias em que pensei em desistir de tudo. Dias em que o peso da
injustiça parecia insuportável. Nesses momentos, eu me agarrava à
certeza de que minha história não poderia terminar ali. Eu precisava
continuar não apenas por mim, mas por todas as mães que foram
silenciadas antes de mim.
Resistir para existir tornou-se um lema interno. Uma reafirmação diária de
que eu tinha direito à voz, à dignidade e à maternidade. Mesmo ferida, eu
seguia. Mesmo cansada, eu permanecia.
Essa resistência não me tornou invencível, mas me manteve viva. E,
enquanto eu estivesse viva e consciente, a luta continuaria.
Capítulo 12 – Entre a Esperança e a Exaustão
Viver entre a esperança e a exaustão tornou-se o meu estado
permanente. Havia dias em que eu acordava acreditando que a justiça
finalmente se manifestaria; em outros, o cansaço me paralisava antes
mesmo de começar. Essa alternância constante desgasta, confunde e
cobra um preço alto de quem insiste em permanecer de pé.
A esperança vinha em pequenas doses: uma decisão aparentemente
favorável, uma escuta mais atenta, um gesto humano em meio à frieza
institucional. Esses momentos, embora raros, eram suficientes para
reacender a chama que me mantinha em movimento. Eu aprendia a
celebrar avanços mínimos como grandes conquistas.
A exaustão, por sua vez, se acumulava silenciosamente. Não era apenas
física, mas emocional e psicológica. O corpo dava sinais claros de desgaste,
e a mente, sobrecarregada, lutava para não sucumbir. Ainda assim, eu
seguia. Parar não era uma opção.
Conciliar a maternidade com a batalha judicial exigia escolhas difíceis.
Havia dias em que eu precisava decidir entre uma audiência e um
momento simples com meu filho. Cada ausência doía, mas cada presença
era um lembrete do porquê daquela luta. Eu tentava transformar culpa
em propósito.
O apoio profissional foi fundamental para que eu não desmoronasse.
Terapia, acompanhamento médico e redes de apoio tornaram-se pilares
de sustentação. Reconhecer a necessidade desse suporte foi mais um
passo de maturidade e autocuidado.
Meu filho, com sua sensibilidade, percebia minhas oscilações. Em seus
gestos de carinho, encontrava forças renovadas. Ele me ensinava, sem
saber, que esperança também mora nos detalhes: em um sorriso, em um
desenho, em um abraço apertado.
Entre avanços e retrocessos, compreendi que a esperança não elimina a
exaustão — ela a atravessa. Aprendi a respeitar meus limites sem
abandonar meus princípios. Seguir em frente passou a ser um exercício
diário de equilíbrio.
Mesmo cansada, eu permanecia. Porque a esperança, ainda que frágil,
continuava viva. E enquanto ela existisse, eu encontraria forças para
continuar.
Capítulo 13 – Quando a Justiça Falha
Há um momento em que a fé no sistema começa a ruir. Não porque se
deixou de acreditar na justiça como valor, mas porque a prática insiste em
contrariar o que deveria proteger. Foi nesse ponto que me encontrei:
diante de decisões que ignoravam fatos, laudos e evidências, como se a
verdade pudesse ser relativizada.
A sensação de injustiça era avassaladora. Cada despacho desfavorável
soava como um novo julgamento moral, não apenas jurídico. Eu me via
obrigada a explicar, reiterar e provar repetidamente aquilo que já estava
documentado. A justiça, que deveria ser célere e protetiva, tornava-se
lenta e punitiva.
Quando a justiça falha, a dor se amplia. Não é apenas a perda de
confiança em instituições, mas o impacto direto na vida de quem depende
delas para sobreviver. Meu filho era o mais afetado. Cada decisão
equivocada reverberava em sua rotina, em sua segurança emocional e em
seu direito de ser protegido.
Passei a compreender que falhas institucionais não são exceções isoladas,
mas sintomas de um sistema que, muitas vezes, desumaniza quem deveria
amparar. A ausência de escuta qualificada, a leitura superficial dos
processos e a falta de sensibilidade transformavam vidas em números.
Houve momentos em que me senti completamente desamparada.
Questionava-me se continuar fazia sentido. Ainda assim, algo dentro de
mim se recusava a aceitar aquela realidade como definitiva. Desistir
significaria validar a injustiça.
A cada falha, minha responsabilidade como mãe se tornava ainda mais
pesada. Eu precisava compensar, dentro de casa, aquilo que o sistema não
oferecia: segurança, estabilidade e cuidado. Era um esforço diário para
que meu filho não carregasse as marcas de erros que não cometeu.
Com o tempo, percebi que denunciar a falha da justiça também é um ato
de coragem. Tornar pública a dor causada por decisões equivocadas é
uma forma de resistência. Minha história passou a ser, além de pessoal,
um testemunho de algo maior.
Mesmo diante da falência institucional, eu seguia. Não por ingenuidade,
mas por consciência. Porque, se a justiça falhava, eu não poderia falhar
Capítulo 14 – O Peso das Consequências
As consequências das decisões injustas não ficaram restritas aos autos do
processo; elas se materializaram no cotidiano. Cada determinação
equivocada produzia efeitos reais, profundos e duradouros. A vida seguia
sob o peso de escolhas que eu não fiz, mas que precisava suportar.
O impacto emocional foi imediato. A insegurança tornou-se companheira
constante, e o medo passou a orientar decisões simples. Planejar o futuro
parecia um exercício arriscado, pois tudo podia mudar de um dia para o
outro. A instabilidade corroía a sensação de chão.
As consequências também foram financeiras. Custos com advogados,
deslocamentos, laudos e tratamentos se acumulavam enquanto a renda
permanecia limitada. Eu precisava administrar a escassez sem permitir
que ela atingisse meu filho. Aprendi a fazer muito com pouco,
transformando necessidade em disciplina.
No campo social, vieram os afastamentos. Algumas pessoas se
distanciaram por não saber lidar com a complexidade da situação; outras,
por julgamento. A solidão, nesse contexto, não era ausência de
companhia, mas falta de compreensão. Ainda assim, mantive vínculos
essenciais — poucos, porém verdadeiros.
Meu filho absorvia, à sua maneira, os efeitos desse cenário. Mudanças de
rotina, interrupções inesperadas e explicações adaptadas à sua idade
faziam parte do nosso dia a dia. Meu maior esforço era preservar sua
infância, mesmo quando a minha parecia suspensa.
O peso das consequências também se manifestou no corpo. Cansaço
crônico, dores persistentes e sinais de estresse tornaram-se alertas
constantes. Aprendi a ouvir esses sinais como pedidos de cuidado, não
Apesar de tudo, desenvolvi uma capacidade de adaptação que jamais
imaginei possuir. As consequências me ensinaram a reorganizar
prioridades, a escolher batalhas e a fortalecer o que realmente importava.
A maternidade tornou-se ainda mais consciente e intencional.
Carregar esse peso não me quebrou. Ele me transformou. Cada
consequência enfrentada ampliou minha clareza sobre quem eu era e
sobre o que precisava proteger. E, mesmo cansada, segui — porque o
amor não permite desistência. 32
Patrícia Monken Mexias
Capítulo 15 – Aprendizados da Dor
A dor, quando atravessada com consciência, transforma-se em
aprendizado. Não foi imediato nem simples, mas, ao longo do tempo,
comecei a compreender que cada experiência vivida carregava uma lição
dura, porém necessária. Nada do que passei foi em vão.
Aprendi, primeiro, a reconhecer limites. Entendi que não posso controlar
decisões alheias, mas posso escolher como reagir a elas. Essa
compreensão me devolveu parte da autonomia que havia sido tomada
pelas circunstâncias.
Aprendi também a confiar mais na minha intuição. Muitas vezes, ignorei
sinais claros por medo, cansaço ou esperança excessiva. A dor me ensinou
a escutar com mais atenção aquilo que o corpo e a mente já sabiam.
Outro aprendizado foi sobre a solidão. Descobri que estar só não significa
estar abandonada, e que poucas presenças verdadeiras valem mais do que
muitas ausências disfarçadas. Passei a valorizar quem permanecia, mesmo
sem promessas ou garantias.
A maternidade ganhou novos contornos. Tornei-me uma mãe ainda mais
atenta, presente e consciente. Cada gesto de cuidado passou a ser
intencional. Meu filho me ensinou, diariamente, que amor também é
paciência, constância e exemplo.
Aprendi a pedir ajuda sem vergonha. Reconhecer fragilidades deixou de
ser sinônimo de fracasso e passou a ser sinal de responsabilidade. Cuidar
de mim tornou-se parte fundamental do cuidado com meu filho.
A dor também ampliou meu olhar social. Passei a enxergar com mais
clareza outras mulheres em situações semelhantes, outras mães
silenciadas e desacreditadas. Minha história deixou de ser apenas minha e
passou a dialogar com tantas outras invisibilizadas.
Esses aprendizados não apagaram o sofrimento, mas lhe deram sentido.
Hoje, compreendo que a dor não me definiu — ela me lapidou. E, a partir
dela, reconstruí uma versão de mim mais lúcida, mais forte e mais
humana.
Capítulo 16 – Reconstruindo Caminhos
Reconstruir não significou apagar o passado, mas aprender a caminhar
apesar dele. Cada passo exigia cuidado, paciência e uma disposição diária
para recomeçar. A reconstrução foi silenciosa, feita de escolhas pequenas
e constantes.
Comecei reorganizando o que estava ao meu alcance. Estabeleci rotinas
mais estáveis, cuidei da minha saúde emocional e busquei retomar
projetos que haviam sido interrompidos pela luta judicial. Voltar a sonhar,
ainda que timidamente, foi um ato de coragem.
A reconstrução também passou pela ressignificação da minha identidade.
Eu não era apenas a mulher que lutava contra injustiças; era profissional,
estudante, mãe e indivíduo com desejos próprios. Recuperar essas
camadas foi fundamental para não reduzir minha existência à dor.
Meu filho participou ativamente desse processo. Juntos, criamos novos
rituais, novas memórias e novas formas de segurança. Cada momento
compartilhado era uma afirmação de que, apesar das perdas, ainda era
possível construir afeto e estabilidade.
Aprendi a aceitar ajuda sem culpa e a estabelecer limites com mais
clareza. Nem todos poderiam caminhar comigo, e isso deixou de ser um
problema. Reconstruir também é selecionar o que permanece e o que
precisa ficar para trás.
Os desafios não desapareceram, mas passei a enfrentá-los com outra
postura. Havia mais lucidez, menos impulsividade e uma compreensão
mais profunda de mim mesma. A experiência havia me transformado.
Reconstruir caminhos foi, acima de tudo, um exercício de esperança
prática. Não aquela idealizada, mas a que se constrói no cotidiano, com
esforço e constância. Eu sabia que ainda havia um longo percurso, mas já
não caminhava às cegas. 35
Patrícia Monken Mexias
Esse processo me ensinou que recomeçar não é sinal de fracasso, mas de
resistência. E, passo a passo, eu seguia — consciente, presente e
determinada a não me perder novamente.
Capítulo 17 – A Força que Permanece
Ao olhar para trás, percebo que a força que permanece não é a que grita
ou se impõe, mas a que resiste em silêncio, dia após dia. É a força que se
levanta mesmo cansada, que segue mesmo ferida, que escolhe amar
mesmo depois de tantas perdas.
Essa força foi sendo construída ao longo de toda a caminhada. Nas
quedas, aprendi a me levantar; nas injustiças, aprendi a me posicionar;
nas dores, aprendi a me escutar. Nada disso me tornou invulnerável, mas
me tornou consciente.
A maternidade foi e continua sendo a base dessa força. Meu filho é o
espelho que me lembra diariamente do compromisso com a verdade, com
o cuidado e com a dignidade. Em cada escolha, penso no exemplo que
deixo e no mundo que desejo ajudá-lo a construir.
Aprendi que força não é endurecimento. É flexibilidade, adaptação e
capacidade de seguir sem perder a essência. Houve momentos em que
precisei recuar para preservar a saúde mental, e isso também foi força.
As marcas do caminho permanecem, mas já não doem da mesma forma.
Elas contam uma história de sobrevivência e transformação. Carregá-las
não me diminui; me humaniza.
Hoje, caminho com mais clareza sobre meus limites e possibilidades. Sei
que a luta não se encerra com um livro, nem com decisões judiciais. Ela
continua na forma como escolho viver, educar, trabalhar e me posicionar.
A força que permanece é essa: a capacidade de continuar inteira, mesmo
depois de tantas tentativas de fragmentação. É a certeza de que minha
voz, minha presença e meu amor não podem ser anulados.
E enquanto essa força existir, eu seguirei — não por teimosia, mas por
consciência. Porque existir, para mim, sempre será um ato de coragem.
Que este livro seja um abraço em quem lê. Um lembrete de que a
maternidade, mesmo ferida, pode ser lúcida, forte e profundamente
humana.
Capítulo 18 – A Luta Continua
A luta não termina com o fechamento de um capítulo, tampouco com a
última página de um livro. Ela continua nos dias comuns, nas decisões
silenciosas e na insistência em permanecer fiel à própria consciência.
Escrever esta obra não encerra minha história; registra um ponto de
passagem.
A realidade segue exigindo atenção, coragem e presença. Processos ainda
tramitam, desafios se renovam e a necessidade de vigilância permanece.
Aprendi que justiça, muitas vezes, não é um evento, mas um percurso
longo, cheio de curvas e resistências.
Continuo lutando porque meu filho cresce, observa e aprende. Cada
escolha que faço hoje constrói referências para o futuro dele. Ensinar,
pelo exemplo, que dignidade não se negocia tornou-se parte essencial da
minha missão como mãe.
A luta continua também porque o silêncio não é mais opção. Tornar
visíveis histórias como a minha é uma forma de ampliar o debate,
provocar reflexão e, quem sabe, contribuir para mudanças. A denúncia
consciente é um ato de cidadania.
Há dias mais leves e outros mais pesados. Aprendi a reconhecer quando
avançar e quando recuar para preservar forças. Persistir não significa
ignorar limites, mas respeitá-los sem abandonar princípios.
Sigo caminhando com a certeza de que minha história não é isolada.
Muitas mães enfrentam batalhas semelhantes, muitas crianças dependem
da lucidez e da coragem de adultos para serem protegidas. Isso me
impulsiona a continuar.
A luta continua porque a vida exige presença ativa. E, enquanto houver
injustiça, descaso ou silenciamento, minha voz permanecerá disponível —
não por confronto vazio, mas por compromisso com a verdade.
Encerrar este capítulo é afirmar que sigo em movimento. Com
consciência, com amor e com a força que permanece. A luta continua, e
eu continuo junto com ela. 40
Patrícia Monken Mexias Mexias
Encerrar este capítulo é afirmar que sigo em movimento. Com
consciência, com amor e com a força que permanece. A luta continua, e
eu continuo junto com ela. 40
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