Projeto Diversidade Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Bernadette Lyra
Entrevistado por Luíza Gallo e Maria Muriel Entringer Pagotto
Vitória, dia 22 de abril de 2026
Código: DCC_HV020
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Vamos lá. Então, antes de tudo, eu vou começar lendo a claquete e aí a gente começa, tá bom?
R – Tá bom.
P/1 – Entrevista de Bernadette Lyra, entrevistada por Luíza Galo e Maria Muriel Entringer Pagotto. Vitória, dia 22 de abril de 2026. Projeto Diversidade Cultural Capixaba. Entrevista número DCC_HV020. Bernadette, primeiro eu queria te agradecer demais por estar aqui com a gente, por ter escolhido uma livraria para contar sua história e por nos receber também. E queria te dizer que é um convite para você navegar suas memórias, esse tempo que a gente estiver aqui. Então, quanto mais histórias, melhor. Conte o que você quiser, da maneira como você quiser. Se quiser fazer alguma pausa, a gente esticar o corpo, tomar uma água, ir ao banheiro, é só avisar, a gente pode dar pausas. Os meninos, a cada meia hora, também vão dar uma pausa rápida por conta da bateria da câmera. O importante é a gente curtir esse momento. Então, primeiro de tudo, eu queria que você começasse se apresentando, dizendo o seu nome completo, a data e o local de nascimento.
R – Bom, obrigada por ter me chamado. Estou muito feliz de estar aqui. Obrigada, obrigada por ter me chamado para isso, com a equipe tão bonita. Estou muito feliz de estar aqui. O projeto é lindo. Fiquei muito encantada. Eu me chamo Bernadette Lyra. Eu sou de Conceição da Barra, extremo norte do estado do Espírito Santo.
P/1 – E qual é a sua data de nascimento?
R – Eu sou de 21 de outubro de 1938. Estou com 87 anos de vida, numa nave extraviada, batendo aqui e ali naquelas margens. É o ano em que Hitler invadiu a Polônia. Começou a Segunda Guerra Mundial. Ficou marcado assim.
P/1 – E te contaram como foi o...
Continuar leituraProjeto Diversidade Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Bernadette Lyra
Entrevistado por Luíza Gallo e Maria Muriel Entringer Pagotto
Vitória, dia 22 de abril de 2026
Código: DCC_HV020
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Vamos lá. Então, antes de tudo, eu vou começar lendo a claquete e aí a gente começa, tá bom?
R – Tá bom.
P/1 – Entrevista de Bernadette Lyra, entrevistada por Luíza Galo e Maria Muriel Entringer Pagotto. Vitória, dia 22 de abril de 2026. Projeto Diversidade Cultural Capixaba. Entrevista número DCC_HV020. Bernadette, primeiro eu queria te agradecer demais por estar aqui com a gente, por ter escolhido uma livraria para contar sua história e por nos receber também. E queria te dizer que é um convite para você navegar suas memórias, esse tempo que a gente estiver aqui. Então, quanto mais histórias, melhor. Conte o que você quiser, da maneira como você quiser. Se quiser fazer alguma pausa, a gente esticar o corpo, tomar uma água, ir ao banheiro, é só avisar, a gente pode dar pausas. Os meninos, a cada meia hora, também vão dar uma pausa rápida por conta da bateria da câmera. O importante é a gente curtir esse momento. Então, primeiro de tudo, eu queria que você começasse se apresentando, dizendo o seu nome completo, a data e o local de nascimento.
R – Bom, obrigada por ter me chamado. Estou muito feliz de estar aqui. Obrigada, obrigada por ter me chamado para isso, com a equipe tão bonita. Estou muito feliz de estar aqui. O projeto é lindo. Fiquei muito encantada. Eu me chamo Bernadette Lyra. Eu sou de Conceição da Barra, extremo norte do estado do Espírito Santo.
P/1 – E qual é a sua data de nascimento?
R – Eu sou de 21 de outubro de 1938. Estou com 87 anos de vida, numa nave extraviada, batendo aqui e ali naquelas margens. É o ano em que Hitler invadiu a Polônia. Começou a Segunda Guerra Mundial. Ficou marcado assim.
P/1 – E te contaram como foi o dia do seu nascimento?
R – Me parece que tinha vento sul, o que é muito difícil. Em Conceição da Barra, o vento sul encrespa, as ondas do Cricaré. O Cricaré forma ondas, né? Porque o vento vem de lá para cá e dá foz para correnteza do rio. Me contaram que tinha vento sul muito forte. Eu aproveitei, porque o vento sul era um espetáculo lá. Eu aproveitei agora, no meu livro novo, que deve sair na primavera deste ano, é a história de uma menina, o nascimento, e depois quando ela se vê quase moça. E eu aproveitei para dizer que ela nasceu num dia de vento sul, mas não sou eu a menina da história.
P/1 – E como foi o seu nascimento? Você sabe dessa história?
R – Foi em casa. Foi em casa. Em Conceição da Barra, tinha parteiras, né? Que é uma profissão que parece que está em desuso. E foi bem antes das operações que se faz hoje para tirar o bebê do vento da mãe, as cesarianas. Então, minha mãe me teve assim, em casa, na cama dela. De tudo que eu me lembro, é uma memória muito vaga, porque são muitos anos do nascimento, mas eu tenho uma vaga lembrança de eu gritando, porque era mergulhada na água. Isso é muito importante para mim, porque a água é um elemento muito presente na minha literatura. Mesmo porque Conceição da Barra é uma ponta de areia entre o mar e o Cricaré. Então, eu nasci entre as águas. A casa em que eu nasci, que ainda está lá em Conceição da Barra, ela dava frente pro rio Cricaré. Tinha um pátio do sobrado, famoso sobrado, que é a marca registrada da minha cidade, e depois desse pátio do sobrado, que tinha laranjeiras e roseiras, era o rio já. Então, eu cresci inclusive ouvindo tanto o barulho do mar quanto o deslizar do Cricaré, que é manso, mas faz um barulhinho. É disso que eu me lembro, muito vagamente, dos primeiros dias. E teve um detalhe muito curioso. Quando eu fiz um aninho de idade, já estou num aninho, fizeram a festinha. Cidade do Interior, sabe como é? Os parentes todos fizeram lembrancinhas, bonequinhos, bolinhos. E isso me foi relatado por uma tia. E exatamente no dia 21 de outubro, quando ia ser a minha festa, nasceram os gêmeos, meus irmãos. Uma menina e um menino acabaram com o meu aniversário. Acho muito curioso isso, né? Então, somos três no mesmo dia.
P/1 – E como é a relação com seus irmãos?
R – A minha irmã já morreu. O irmão mora no Rio. É um bom vivão. Está bem no Rio. Casou, descasou, teve uma filha linda, que era minha sobrinha, que também já morreu. Está lá, mas a relação era muito boa. Tem várias fotos com eles. Meu pai gostava muito de fotografar. Era um fotógrafo amador, lógico, mas tinha muitas fotos de infância com ele, com os dois, Orfeu e Neia. Orfeu, nome curioso, porque Orfeu Lyra, e Orfeu é o Deus, é aquele que vai no inferno tocando o lira para buscar a amada dele, na história grega. Orfeu Lyra e a minha irmã, Neia. Já se foi também.
P/1 – E, Bernadette, como você descreveria a sua mãe? O jeito dela, os ensinamentos...
R – A memória que eu deixei, inclusive, fixada numa crônica de um livro meu chamado Água salobra, sempre água salobra. Eu digo o que me ficou na memória dela. Ela acendendo o lampião, porque não tinha luz elétrica. E aquele vulto dela, muito doce. Minha mãe era muito doce. Dona Dora. Ela era muito meiga, muito religiosa também, como convém, né? E a minha mãe teve um baque muito forte quando o caçula dela morreu. Além dos gêmeos, ela teve mais um filhinho e ele se foi. No interior, sempre é muito difícil tratar de diarreia etc. E eu acho que minha mãe ficou muito tocada, porque ele pedia água. Era um bebê quase, bem novinho, e ela contava isso. A maior dor dela é que, quando ele pedia água, o médico que tinha vindo tratar dele dizia: “Não. Deixa ele sem água para poder cessar a diarreia”. E isso eu me lembro. Ela parecia guardar com ela essa dor. Não posso afirmar, porque a coisa era dela, mas ela era muito meiga, muito doce no trato com todas as pessoas. E ela era muito apaixonada pelo pai dela, o meu avô, que era mulato e era filho de uma filha de uma ex-escravizada. E ela era apaixonada muito pelo meu avô. Meu avô era muito brilhante. Ele era autodidata. Ele dizia que era um pobre quitandeiro do interior, porque ele tinha uma vendinha de secos e molhados. E a minha mãe dizia que ele era um poeta e era um poeta. Você imagina que ele fez um concurso no hino do Espírito Santo. Ele entrou também com a letra e ficou em segundo lugar. Eu andei pesquisando por que ele não ganhou, porque a letra do hino, com devido respeito, a letra do hino do Espírito Santo, aquela história de nossos braços são fracos, que importa, me incomoda até hoje. Mas a letra do meu avô era muito melhor, porque, na letra dele, nossos braços não eram fracos. Então, ele fica em segundo lugar. E reza a lenda, não posso afirmar, que ele não ganhou porque o primeiro lugar era um político ilustre. E ele também, meu avô, tinha um problema, um defeito de cor. Ele era mulato. para você ver como a minha ancestralidade, desse ramo de meu avô, carrega, com todo orgulho como ele tinha, de ser mulato e carrega essa dor, que é uma dor constante no nosso país, que nos acompanha até hoje. Essa dor da ancestralidade preta, como se isso fosse uma marca. Hoje, está mais diluído, né? Porque, com o avanço também, digamos, até das leis, isso ficou diluído, mas, na minha infância, eu sabia disso já. Nessa vendinha de secos e molhados dele, ele fazia escambo com o pessoal do quilombo, porque a mãe dele era respeitada, porque era filha de uma ex-escravizada. A minha bisa não tinha sobrenome, porque não permitiam. Ela se chamava Geraldina Maria Júlia. Três nomes de mulher, sem sobrenome, porque era filha de uma escravizada. Esse é meu começo de vida. São as lembranças mais remotas que eu tenho da minha infância, mas eu era uma criança muito feliz. Era ruivinha, muito branca. Eu diria que é um tanto recessiva nos genes, porque tem isso também. Você tem sangue preto, sangue de preto, sangue de branco. A mistura dá alguma coisa assim como eu [risos]. Então, é isso. Eu me lembro muito remotamente da minha mãe, essa doçura infinita dela, essa meiguice. Eu sempre achei que estava vendo em minha mãe uma dor secreta, que eu, atualmente, eu penso que pode ter sido a perda do caçula dela, filhinho dela, por falta de água.
P/1 – E o seu pai?
R – Meu pai era pernambucano. Nascido em Gravatá de Bezerra. Tinha muito orgulho de ser pernambucano. Ele arribou em Conceição da Barra. Eles vieram. A família do meu avô paterno e minha avó, que era uma paraibana terrível, e meu avô era alagoano e meu pai, pernambucano. Ou seja, nordeste todo está aqui também, né? E meu pai, eles vieram nesses paus de arara, que saiu com a grande seca, no interior. Apesar de a cidade em que ele nasceu é considerada de clima muito bom em Pernambuco. Todos sabem disso. E meu pai chegou. Meu avô foi trabalhar em Nova Venécia com a família, foi para lá. E meu pai ia muito a Conceição da Barra, depois de rapaz [corte na gravação].
R – Então, vamos.
P/1 – Você estava falando do seu pai.
R – Pegamos aqui, então, dois pedaços. Meu pai, minha avó paraibana, meu avô alagoano, meu pai pernambucano e a família toda vindo pro Espírito Santo, naqueles caminhões que vinham os nordestinos. Meu avô trabalhando em Nova Venécia e meu pai indo a Conceição da Barra, que é pertinho de Nova Venécia, e encontra aquela moça rodando a praça, porque era costume das garotas do lugar, da Conceição da Barra, dar voltinhas na praça, me contou minha mãe. E aí, ele ficou tão encantado que ele rompeu o noivado com uma senhorita de Nova Venécia e pediu minha mãe em casamento. Então, foi uma coisa muito rápida, uma paixão muito rápida. Eu acho que, como meu pai era uma pessoa muito agreste, digamos assim tanto quanto nordestina, é uma pessoa nordestina, ele ficou encantado com a doçura de mamãe. Era a famosa doçura de dona Dora. Ela era muito meiga mesmo. Muito meiga, muito gentil com todos, com crianças, com bichos, com as árvores da chácara em que nós morávamos. Não a casinha em que eu nasci, mas já uma chácara que meu pai tinha comprado, e nós nos mudamos para lá. E ali, eu vivi parte da minha meninice trepando em goiabeiras e cajueiros e depois parte da minha juventude também. Então, esse foi meu pai, trabalhador. Tinha uma moto, uma motocicleta, depois, tempos depois. Logo que ele casou, não, mas tempos depois, eu já era grandinha, meus irmãos também, e ele tinha uma moto e levava a gente de moto pela praia. Até lá na Guaxindiba, na foz do Rio Itaúna. Ele levava, eu me lembro disso, numa moto com meu pai. Ainda criança era eu e indo de moto, que era deserto a praia. Conceição da Barra tem cinco quilômetros de mar aberto. A cidade fica entre dois rios. Foz de dois rios. O Itaúna na Guaxindiba e o Cricaré na Bugia. Então, essa história minha tem muito esse envolvimento com o mar, com a água, sobretudo. Água doce e água salgada ao mesmo tempo, ou seja, água salobra, que era a água de uma cacimba que não tinha água encanada. Todos nós bebíamos água da cacimba e a água da cacimba tinha um leve gostinho de sal, porque Conceição da Barra é só meio metro acima do nível do mar. Então, o subsolo dela é sal. Essa é a história do meu pai. Ele se chamava Álvaro, Álvaro Lyra. Era respeitado. Também foi vereador da cidade. Era um cargo importante, era elegante. Gostava do seu terninho de linho branco. Eu me lembro dele assim. São lembranças muito boas que eu tenho da minha infância. Eu fui uma menina muito feliz, mas a figura máxima na minha vida é meu avô.
P/1 – Por parte de pai ou mãe?
R – Por parte de mãe, que era filho da Geraldina Maria Júlia e tinha um retrato da minha bisa no quarto dos meus avós, na casa dele. Quando eu ia lá, ainda criança, eu ficava olhando para aquele retrato. Ela era uma mulata linda e o cabelo que hoje as meninas usam para cima assim era o cabelo dela. Ela prendia aqui e ficava chumaço para cima. Linda. Esse retrato tem uma história. Já depois de muitos e muitos anos, morte de avô, morte de avó, morte de um setor da família de uma certa idade etc., eu pretendi recuperar esse retrato, que era a única lembrança que eu tinha dela, além da certidão de casamento dele, que tinha o nome dela, só o nome dela, porque você sabe que filha de escravizada não tinha pai, porque tanto podia ser um escravo. Quanto podia ser o próprio senhor, que violentamente usava e abusava das suas escravizadas. Então, esse retrato, quando as minhas tias vieram para capital trabalhar aqui, eu tinha uma tia muito inteligente, brilhante, chamada Glorinha Cunha. Pintora, fazia poemas. Quando as tias vieram para capital, já com o meu avô falecido, parece que deixaram o retrato com uma prima distante. E a prima morava numa casa muito precária, pobre, choveu, inundou a arquinha onde estava o retrato, e foi-se o retrato. Jogaram fora na época. Isso me foi contado pela filha dessa prima, de mamãe. E o retrato sumiu. Era a única coisa que eu tinha da minha bisa e desapareceu. Essa é uma história muito curiosa também, porque a filha, a irmã do meu avô, filha também da Geraldina Maria Júlia e não sei se com o mesmo pai, porque ela teve três maridos diferentes. Mulherzinha ousada. Eu não sei se era irmã do meu avô. Quando ela morre, ela deixa todos os filhos e pede pro meu avô tomar conta. E a minha avó, casada com o meu avô, ela tinha 16 anos e foi tomar conta daquela ranca de criança. A minha história é salpicada de histórias. Então, eu tenho a impressão de que isso tudo é o que me fez escrever. E por que meu avô entrou nisso? Porque meu avô, nessa vendinha dele de secos e molhados, que ele fazia escambo com o pessoal do quilombo, que vinha lá do sapé e que trazia abóbora, macaxeira, mandioca, trazia beiju, trocava com ele, trocava por querosene, por açúcar. Era tudo uma coisa muito africana, que tinha na vendinha de meu avô. Ele dizia: “Eu sou um pobre quitandeiro”. Mas era brilhante. E detalhe nessa história toda: aqui, em primeiríssimo plano, eu, sentada, criança, embaixo da mesinha que ele tinha, onde ele escrevia poemas, num recanto da vendinha dele, lá dentro, chamava o escritório de seu Cunha. Lá dentro, eu sentada embaixo da mesa, dedilhando livros, revistas, tudo que ele tinha numa estante de frente de vidro, uma estante de vidro que ele tinha. Ele era autodidata. Ele lia francês, ele lia espanhol. Ninguém sabe como esse homem aprendeu aquilo tudo lá no interior. E ele me dava os livros. Ele sabia que eu não sabia ler, que eu era uma criança de cinco, seis anos, não podia ler. Só que, aos cinco anos, eu já estava descobrindo que eu podia juntar o nome das revistas que ele dizia com outros nomes que tinham os mesmos caracteres. Então, eu posso até afirmar que, de maneira muito precária, eu fui alfabetizada pelo meu avô aos cinco anos de idade. Acho essa história linda. E eu disse para mim mesma, eu me lembro: “Vovô, quando eu crescer, eu vou fazer histórias, contar histórias”. Olha só. Eu disse isso para mim, mas eu tenho a impressão de que eu disse em voz alta. Eu não posso afirmar. Eu me sentava no balcão e ele contava lendas para mim, lendas do norte do Espírito Santo, lendas do tempo em que a mãe dele era viva em Itaúnas. A vinda da tal fazenda de escravos que tinha havido lá, que ainda tem as ruínas. Tem uma parede ainda da casa do barão e tem a marca da senzala. Que, aqui entra uma história curiosa, dizem os mais antigos de Itaúnas que ali tinha até uma edificaçãozinha ainda, mas houve um prefeito em Conceição da Barra que comprou uma fazenda, tirou as pedras todas para levar para lá, porque a Barra não tinha pedra. Então, ele queria fazer uma casa, tirou as pedras e carregou. Não sei se é verdade. Estou contando fofocas também, né? As histórias incluem fofocas. Mas, de toda maneira, esse meu avô é uma marca na minha vida. Eu me sentava no balcão da venda. O balcão lustroso, de tão velho, a madeira velha, com aquele buraco onde ele jogava as moedas. Eu me lembro disso. E ele punha... Isso já foi minha mãe que me contou. Eu não me lembro, mas que ele colocava a mão na minha cabeça e dizia: “Se eu pudesse passar para essa cabecinha tudo o que eu tenho, tudo o que eu penso”. E eu acho que ele passou. Então, por isso, eu digo, que esse meu avô, Manoel Cunha, mulato, filho de uma filha de uma escravizada. Tudo ali em Conceição da Barra. Tudo naquele território entre o mar e o Cricaré. Esse meu avô marcou minha vida demais. Marcou. E eu acho que a minha literatura hoje... E eu digo com uma certa certeza, eu não faço literatura para sensibilidades, eu faço para sensações, porque eu me lembro de sensações. A diferença é que a sensação, ela não tem, como o desejo, ela não tem direção. Ela é enlouquecida. Então, qualquer um pode ser tocado por aquilo. E se não for tocado, não tem importância, outro será. É isso que eu faço da literatura hoje. E tudo muito eu devo a essa infância que eu tive em Conceição da Barra, ao fato de eu ter nascido em Conceição da Barra e ao fato de eu ter tido um avô materno como aquele que eu tive e de eu ter, na minha ancestralidade, um povo preto, e ter todo o orgulho disso.
P/1 – Ainda pensando na sua infância, eu queria entender mais esse cenário. Então, das brincadeiras, a sua casa, as recordações dos cheiros, dos sabores, dessa infância entre águas, das brincadeiras, da natureza.
R – Brincadeiras de roda, muito, né? À noite, não tinha luz em Conceição da Barra, não tinha luz elétrica. Então, a luz era difusa ou de estrela ou de lua. E a gente brincava de roda nas ruas que não tinham asfalto também. A rua tinha areia. Conceição da Barra é em cima da areia. Eu digo que a cidade é a minha flor de areia, porque ela era areia, e é areia ainda até hoje, né? E a gente brincava nas ruas de areia de roda, muitas cantigas de roda. Eu me lembro. Muitas, muitas, muitas.
P/1 – Quer cantar uma? Você se lembra?
R – [entrevistada canta] “Onde mora a bela condessa? Filha de França, onde nasceu? O que queres com a bela condessa? Filha de França, onde nasceu? Senhor rei mandou-me aqui escolher uma de vossas filhas para com ele casar”. Aí, uma das meninas dizia: “Minha filha eu não dou nem por ouro, nem por prata, nem por sangue de alemão para casar com esse ladrão”. Uma bela cantiga de roda. Mostra bem o espírito do pessoal de Conceição da Barra [risos]. É linda, não é?
P/1 – E aí, você foi crescendo, sendo mais moça. Como foi essa passagem? Você ainda estava em Conceição, quando você…
R – Lá só tinha o curso primário. Eu ansiava por continuar estudando mesmo, porque eu queria ser uma escritora.
P/1 – Sempre?
R – Sempre, sempre. Queria contar histórias. Eu não faço poema, embora digam o contrário, às vezes. E me pegaram também pelo pé, porque, quando eu estava começando a escrever, todo mundo começa com o poema. É invariável. E eu fiz alguns poemas que até ganharam prêmios, mas eu digo que não faço mais poemas. Eu conto histórias. Eu sou uma contista. Até meu romance, o Piana. A Glória… Eu não sei se eles têm aqui o Piana. Acho que não. O Piana, porque ele ficou entre os dez finalistas do Prêmio Oceanos, que é um prêmio importantíssimo. Onze países concorrendo. E aí, do Espírito Santo, apareceu um livro e ficou entre os dez. Até esse romance, que conta a história de uma velhinha que se suicida aos 80 anos, que se atira do décimo andar, porque minhas histórias não são docinhas. Com a minha experiência de vida, feliz, alegre, mas sempre encarando e respeitando a dor das criaturas, a dor da humanidade. Eu tenho, na minha literatura, esse lado um pouquinho pesado, perverso até. O Piana é um romance, foi premiado como romance internacionalmente. Tenho muito orgulho desse prêmio, inclusive, mas eu considero que ele é um amontoado de histórias, que as histórias vão brotando assim, sem mais nem menos, porque eu sou uma escritora de fôlego curto. Eu não sei prolongar romances de quinhentas páginas. Eu sei fazer fragmentos. Fragmentos, eu digo sempre, são as únicas formas em que eu confio. Nada é uma coisa só. Tudo é fragmentado. Inclusive, na minha vida, inclusive na minha história, como vocês estão vendo. Os fragmentos vão se juntando, vão montando um quebra-cabeça e vão ficando por aí mesmo.
P/1 – Você estava contando da escola.
R – Aí, a escola não havia nada além do curso primário. E como eu tinha muito essa vontade de ser escritora, que eu acabei inserindo aqui como um fragmento, eu pedi a papai para deixar que eu viesse estudar em Vitória fazer o ginásio, na época era o ginásio. Eles não tinham muitas posses, mas meu pai fez um sacrifício imenso e me botou interna no Carmo. O colégio do Carmo é um colégio de freiras. Era um colégio de freiras. As vicentinas, as chaperonas, que tinham aqueles… Eu ficava encantada, parecia duas asas acima da cabeça das freiras. Então, é isso que me encantava nelas, né? Não acordar às cinco da manhã para ir para a igrejinha, que aliás é linda, ainda está lá até hoje. Aí, eu vim fazer o ginásio interno. No começo, os dez primeiros dias, eu chorava cântaros, mas eu disse: “Eu fico”. Dei uma de Dom Pedro: “Diga ao povo que fico”. Saudade, eu só sabia que minha mãe estava sofrendo. Depois, ela me disse que sofreu muito quando eu vim, mas aí eu fiz todo o ginásio aí, no internato do Carmo. E aí, a gente só tinha saída um domingo por mês, porque eu aproveitava para ir ver filme nas matinês. Essa é minha outra vertente, a do cinema. Meu avô tinha um cineminha na beira do rio Cricaré, lá embaixo assim, na beirinha mesmo. E era um barracão, que ele montou um pequeno cinema, com bancos de madeira, aqueles bancos assim. E eu era levada, desde criancinha, no colo da minha mãe ou das minhas tias, para ver filme em preto e branco. Filmes mudos, que era acompanhado ao bandolim de uma senhora que tocava bandolim lá. É muito interessante todo esse jogo que construiu a minha infância. Os meus modos de brincar, os meus divertimentos. É muito curioso para mim mesma. Eu já pensei até em fazer uma autobiografia, mas eu penso assim, e u vou me endeusar muito, então, é melhor não fazer [risos]. Quem sabe alguém possa fazer, daí para frente, pensar muito e dizer que vai fazer a biografia da Bernadette. Biografia não autorizada. Digo de logo, se alguém quiser fazer, não está autorizado. E as brincadeiras eram essas. As crianças do interior têm muita oportunidade de brincar. Eu brinquei muito também. E tem um detalhe ótimo, acho que vocês vão gostar desse detalhe, desse fragmentinho. Quando eu tinha sete anos, que eu já escrevia e já lia, eu fiz uma peça de teatro para representar embaixo das caramboleiras da chácara de minha mãe, onde nós morávamos, que era cheio de goiaba, carambola. E eu fiz uma peça. Cada amiga minha ganhou um nome na peça, mas todos começavam por Z. Ah, não me pergunte por quê. Eu não sei. O Z me vinha com uma força. Aí, todas ganharam para representar. Eu dou graças aos deuses e às deusas da literatura que essa peça que meu pai anotou todinha, os cupins comeram, porque senão até hoje tinha pesquisadores de ponta dizendo assim: “Olha aqui, a primeira obra de Bernadette Lyra”. Se algum dia eu for famosa, e é um vexame. A peça era. Tem uma amiga minha que tem uma escola aqui em Vitória chamada São Domingos, que era uma das representantes. Ela lembra, ela diz: “E a peça em Bernadette? Como é que a gente não pôde representar?. E depois os cupins comeram. Acho que você está mentindo, não foram os cupins, foi você que rasgou”. Não foi, foram os cupins. A casa velha, a casa de chácara velha etc., deram o cupim e comeram a peça. Essa peça teatral foi a minha primeira grande obra, grandiosa obra de Bernadette Lyra. Grandiosa e única [risos]. Mas essa é a minha vida de infância, de brincadeiras, como você perguntou, de brincar de roda numa cidade que não tinha luz elétrica. Olha como eu devo à Conceição da Barra esse posicionamento hoje de escrever que eu tenho. Tirar da meia luz, da sombra, da zona de sombra, o que é humano, porque como dizia Nietzsche, eu repito: “Tudo que é humano me interessa”. A primeira frase do meu livro de contos, A pata do rinoceronte branco, nós temos ele até aqui. Eu posso mostrar aqui. A primeira frase do meu conto que dá nome a esse livro é a seguinte: “Eu nunca entendi muito bem o terror que escorre desta palavra: humanidade”. Isso já desenha o que é a minha literatura, se há interesse nisso, né? Se vocês têm interesse, podem ler até o conto depois. Esse é o livro. É um livrinho de contos.
P/1 – Pensando nessa sua trajetória dentro da escola, ainda como aluna, teve algum professor muito marcante para você?
R – Ah, teve. Foi muito bem lembrado, porque teve. Ele se chamava professor Guilherme dos Santos Neves. Tem outra história para contar para você saber, porque ele marcou minha vida. Eu estava na quarta série do ginásio e ele era professor de Língua Portuguesa. Ele era uma figura muito interessante, muito baixinho, simpático. Chamava a gente de manducas, manduquinhas. As meninas, só tinha menina no internato, né? Ele era o único. Raros homens davam aula. As freiras não confiavam nos homens. Enfim, ele era um dos que dava aula. Ilustre, ilustre, criatura dedicada ao folclore. Estudava o ticumbi de Conceição da Barra. Ia lá, tem fotos dele comigo vestida de pastorinha, que é uma festa de Conceição da Barra. Todas as minhas coleguinhas com chapéu bonitinho, arrumadinho e o meu virado para trás. De toda maneira, a foto existe e está, inclusive, na Secretaria de Cultura de Conceição da Barra. Eles botaram essa foto lá, mas o doutor Guilherme, como a gente chamava, era meu professor. Um dia ele pede uma redação para dar nota. Todas nós fizemos a redação. E ele disse: “Na semana que vem eu trago as notas. Tudo bem?”. Na semana que vem, ele trouxe as notas e disse: “Eu vou começar das mais altas notas pras mais baixas, para não constranger”. Qualquer coisa assim, deixar constranger, mas a nota mais baixa dele era sete. Essa coisa assim, cinco, sete. Ele começou. Aí, chamou o nome de uma fulaninha lá, uma menina: “Nove e meio, menina”. Eu pensei: “Eu devo ter recebido uns sete, oito, sete”, eu pensei. Oito já me consola, oito me consola. Aí, ele começou. Começou, depois passou para oito, depois passou para sete e meio, depois passou para sete e encerrou. Eu falei: “Pronto. Ganhei zero”. Enfiei a cabeça na minha mesinha, que tinha a cadeira e a mesinha. As carteiras eram assim. Eu só senti a mão dele aqui no meu ombro: “Menina, dez. Você é uma escritora”. Isso é um selo. Quarta série do ginásio, com uma redação sobre um garotinho que eu vi sentado na rua pedindo comida. Já era pesadinha as minhas redações também, porque eu fui escolher, as outras falaram das flores da primavera, da alegria de ter umas amigas. Mas eu falei do garotinho, sentado numa calçada pedindo comida. E ele ficou tão encantado que ele tinha participação num caderno literário de A Gazeta e ele publicou a minha redação. Aí, quando eu me vi publicada, eu digo: “Eu quero ser publicada”. Daí para frente, eu não parei, foi mais. Eu devo a doutor Guilherme esta frase: “Menina, você é uma escritora”. Eu conto isso para todo mundo, onde eu vou que me perguntam: “Como é que você começou?” e tal, eu conto isso, porque ele foi um destaque na minha vida. Anos depois, no meu curso de Cinema, eu não dava aula ainda de Cinema na USP, eu fazia o doutorado. Eu pensei em fazer um curta-metragem contando a vida dele ou pegando pelo menos ele contando fatos, porque ele morreu. Ele chegou a fazer a orelha do meu primeiro livro, que é As contas no canto, premiado pela Associação Brasileira de Imprensa, inclusive [pausa para ajustar o microfone].
P/1 – Você estava contando do prêmio?
R – Do meu primeiro livro. Esse não tem aqui. Ele está esgotadíssimo, né? As Contas no canto não tem, não, mas ele consta duas partes. Não, não precisa. O livro não tem, esse aí, não tem a orelha do doutor Guilherme, que ele fez para mim. Logo depois, ele morreu, ele teve Alzheimer em alto grau. Já estava esquecendo de tudo. Ele não reconhecia as pessoas, mas ele deixou a minha, cravado, a orelha do meu primeiro livro, premiado, e que tem uma história dentro desse prêmio. Você vê que história, puxa história, e que eu vou desdobrando esses fragmentos. Eu fui ao Rio receber esse prêmio, um prêmio importante, pelo livrinho de contos que eu tinha mandado. Eu era aluna ainda da UFES [Universidade Federal do Espírito Santo]. Sim, porque eu fiz a UFES muito tardiamente. Mas eu fui lá, para ir na Associação Brasileira de Imprensa, receber ali na Rio Branco. Eu acho que… Não sei se ainda fica lá. E aí, eu botei meu vestido melhor que eu tinha, bonitinho, vestidinho de domingo, coloridinho, lembro que tinha as florzinhas estampadas. Estava toda feliz. Meu cabelo era muito ruivo e estava eu ruivinha lá. E entro no elevador, feliz da vida de estar no Rio, para ir receber um prêmio etc. Entram duas senhoras no elevador, eu olho assim e digo: “Gente, quem é essa?”. Vocês não imaginam quem era. Clarice Lispector. Quando eu vi que era Clarice Lispector, vestida de verde, com um casacão e um broche de prata de todo o tamanho aqui, recém-chegada de um congresso de bruxaria na Colômbia, conversando com a outra, que era nada menos que Nélida Piñon. Então, subi eu, aquela quase moçoila, né? Toda bonitinha no meu vestidinho de gente do interior, de manguinha fofa e tudo, com aquelas duas figuras icônicas. Eu só faltei me ajoelhar e eu ouvi algumas coisas delas, que eu não vou inclusive falar, porque não me interessa. Mas eu ouvi e fiquei ouvindo aquilo como quem escuta música. Era Mozart para mim a voz daquelas duas criaturas. Ela foi receber um prêmio também, na mesma BI que eu. E eu era aquela novatinha recebendo um prêmio bastante interessante pelos meus continhos do As contas no canto, que está esgotadíssimo. Não adianta querer o livro, mas ele está compilado nesse último livro meu que lancei em dezembro, que é o Ooparts. Ele está aqui, porque esse livro, a editora colheu quatro livros de contos meus esgotadíssimos e velhos e publicou um novo [corte na gravação]. Então, está aqui dentro do Ooparts.
P/2 – Eu queria perguntar à senhora como foi a sua vida no internato com as amigas. O que vocês faziam, além do cinema para se divertir, além da…
R – Não tinha cinema não.
P/2 – Quando a senhora saia.
R – Ah, quando saía, sim. Um domingo por mês só. Aí, eu ia para casa de um tio, que morava lá no Santo Antônio. Um tio que era primo, na verdade, da minha mãe, mas foi criado pela minha avó, como eu já contei essa história da criançada que ela teve que criar desde 16 anos. Mas lá no internato era muito curioso. Espera aí. Olha. A cena, né? Plano geral. A menina toda tocava a sineta do recreio. Saíamos nós pras varandas do Carmo, a varanda do recreio, para comer, lanchar e depois ir para varanda. Eu me lembro muito bem, agora pela sua pergunta, as colegas, algumas colegas, em volta de mim, para eu contar o filme que eu tinha visto no domingo em que eu saí. E eu contava, não só contava, como imitava. E eu tinha amigas muito, muito, muito queridas. No meu livro As contas… Não. No meu livro O jardim das delícias, o segundo livro meu de contos, eu tenho um conto chamado “Letícia”, que é mais ou menos o que eu senti quando eu cheguei no internato que eu encontrei essa amiga, Letícia. Ela tinha operado o coração. Então, no meu conto, que eu espero que vocês leiam, ele está ali no Ooparts também, eu me lembro a sensação, as freiras mandavam a gente fazer nhanduti. Nhanduti, aquela coisa, é Paraguai, né? Paraguaia, aquela rendinha é Paraguai. E também a gente vendia bombom para pegar o dinheiro e mandar pros frades que estavam na África. Eu não sei se elas mandavam, mas a gente vendia o bombom umas pras outras, porque não tinha nada com exterior. E eu me lembro desse dia que está no meu conto, em que Letícia, que é um nome postiço, não é o nome dela, ela tinha aberto o peito e já tinha feito uma operação. Eu me lembro do dia em que ela caiu na varanda. E eu que acudi, eu abri a blusa dela e passei a mão aqui em cima do seio para sentir aquela cicatriz. Então, acho que isso te dá uma ideia do meu relacionamento com as minhas amigas do carro, com as minhas colegas. Eu tinha colegas muito queridas ali. A Letícia era muito especial para mim. E a gente vinha lá, fazia daquilo a nossa vida, né? Isso ali tinha entre recreio. Uma coisa muito curiosa também ali é que nós, as internas, que as alunas do Carmo em geral, ganhavam medalha, medalha de bom comportamento, medalha de nota. E eu era carregada de medalha, porque eu fazia todo o empenho em ser ótima aluna, em ser bem comportadíssima para sair no domingo, porque quem não tinha nota não saía e para ir ver outros filmes. E eu me lembro também mostrando: “Ó, ganhei essa hoje”. Era uma maneira de a gente sobreviver. E quando chegava, o pessoal de Santa Tereza mandava, tinha uma família que mandava uma torta maravilhosa para minha colega que era interna também. A gente fazia uma festa, porque a comida do internato não era essas coisas, não. Era uma banana, um pão e nós pagávamos os caros, os nossos pais pagavam. E tinha também o orfanato. No Carmo, tinha orfanato de meninas que não tinham pais e que as freiras acolhiam e elas faziam o serviço de servir o café, servir o almoço. E aquilo me deixava alucinada. Eu me lembro bem disso. Eu não consegui entender por que as órfãs tinham que estar no nosso serviço. Nunca entendi isso. As freiras tinham que ter suas razões. Talvez, era como se elas pagassem por estar ali e ter a comida, o pão de cada dia e ter a dormida. Não sei, não sei. Eu não quero nem entrar nesse pensamento. Mas eu me lembro como eu sentia aquilo. Viviam as órfãs trabalhando e nós lá sentadas comendo e elas nos servindo. Disso eu me lembro, no internato. Respondi?
P/1 – E, Bernadette, como eram as paqueras?
R – De que época?
P/1 – Nesse momento, ainda saindo da escola e saindo para o mundo, já formada.
R – É, você tocou num ponto muito frágil na minha vida. Deixa eu pensar. Eu voltei para Conceição da Barra depois de formada como professora. Eu fiz o curso normal, mas já externa, não era interna mais. Minha tia que veio morar aqui me colocou na casa dela. Então, eu já tinha uma casa para ficar no Carmo também. E eu já, professora, voltei para Conceição da Barra para trabalhar, porque nossa família não era rica. Fui dar aula na escola, mas eu me lembro que colegas que ficaram aqui, de Vitória, me diziam: “Bernadette, vem fazer a Fafi”. Na época, a Fafi tinha abriu a faculdade de Letras. Olha só que coisa interessante. Só Letras ali. Não havia o campus da UFES. Não havia. Então, tinha assim, a universidade era espalhada. Não sei se vocês sabem que essa ideia de juntar a universidade toda num campo só foi coisa da época da ditadura, porque era mais fácil controlar, né? É claro. Em São Paulo, sobretudo, tem o caso famoso da Maria Antônia. A faculdade que era da Maria Antônia que se revoltou fez um auê. E aqui também tinha curso de Engenharia, curso de Direito, mas tudo separadinho, e de Letras na Fafi. Aí, uma amiga minha me mandou dizer: “Bernadette, vou fazer a Fafi, venha também para estudarmos juntas”. Aí, eu: “Papai...”. Entrou a atriz agora. “Papai, me deixa ir para Vitória fazer a Fafi. Eu quero estudar, fazer faculdade”. Resposta do meu pernambucanão: “Você já tem tudo que uma moça precisa. Professora. Agora, minha filha, é encontrar um bom rapaz e se casar”. Há uns detalhes também muito curiosos, mas que eu não vou revelar. São coisas muito minhas, mas acabou que eu me casei com um rapaz que meu pai achou que era o rapaz de boa família, e era de boa família. Não há dúvida. E que depois estudou advocacia, virou advogado e me proibia de escrever, mas, de toda maneira, foi isso, as paqueras. Eu não tinha muita paquera, não, porque eu não sabia namorar. A minha irmã, a gêmea com meu irmão, até os rapazinhos mais apetitosos, assim, né? A minha irmã era muito bonitinha, ela... E eu ficava sempre a ver navios. A minha maneira, né? Na minha maneira de ser. Eu sempre fui uma pessoa... Acredito que eu nunca tive grandes paixões, não. Acredito que não. Alguma coisa, algumas paixões até que não seriam muito convenientes de ter para época, mas eu posso ter tido. Então, essa minha vida amorosa foi assim. Casada, depois eu tive dois filhos lindos. O mais velho eu perdi quando ele fez 32 anos num acidente brutal e bobo de carro aqui em Vitória e ele ia se formar em Direito naquele ano. Esse é um laceramento de meu coração. O mais novo era atrevido, andava numa moto, cabelo na cintura, calça rasgada. Está aí até hoje, casou três vezes. para você ver o que é o destino, o que é o karma das pessoas, o que é, né? É isso. Então, acho que as paqueras não parecem nem muito nos meus pontos, não.
P/1 – E você sempre escreveu desde a redação da escola? Você continuou escrevendo?
R – Continuei, continuei, continuei mandando até depois que eu fui para Conceição da Barra dar aula, eu continuei mandando para esse professor, porque ele tinha a entrada fácil no caderno literário de a Gazeta, um o velho caderno literário que acabou. Tem muita crônica, eu acredito que a Gazeta deva ter no seu arquivo, porque são crônicas e mais crônicas perdidas. E são crônicas e mais crônicas muito sobre água, Conceição da Barra, água salgada, coqueiro, aquela coisa, areia ardendo, cajueiro, é muito isso, era muita paisagem do que eu estava reentrando como professora. Eu alfabetizei turma. Eu fui alfabetizadora como professora [pausa para ajustar o microfone].
P/1 – Os seus textos dessa época [barulho de caminhão dando ré].
R – Bom, vamos, o que você perguntou?
P/1 – Você estava contando dos seus contos, desse cenário da revista Gazeta.
R – Caderno literário da Gazeta. Eu mandava de lá para ele e ele publicava. Então, eu tenho muitas crônicas perdidas. Eu acho difícil, mas eu tenho a impressão de que a Gazeta pode ter no seu arquivo, né? Porque a Gazeta tem muita coisa também no arquivo dela. Continuei. Nunca parei de escrever. Nunca. Depois, eu só fui fazer faculdade depois de casada com dois filhos. Eu era a mais velha da minha turma, porque eu enfrentei o senhor, meu marido, que disse que “Mulher minha não precisa de faculdade, nem trabalhar”, que Deus o tem na santa paz. Eu não vou dizer o resto… E que não o traga nunca mais, pronto falei. Que Deus o tenha. Era uma pessoa nobre, bem. Ele era bisneto do barão de Timbuí. Uhum. Mas o retrato do barão eles tinham, a família toda tinha e existe até hoje. Tem um sobrinho dele, que aliás eu prezo muito, que é o Cacá, que mora aqui em Vitória. Você conhece? Ele mora com o namorado dele ali perto do Shopping Vitória e ele tem até hoje o retrato que tinha na minha casa. O retrato do barão, de espadim, dragões e tudo. A família do meu esposo era nobre, assim. Só que eles falavam muito do barão, mas não falavam da avó, da bisavó, porque o barão tinha aquele costume de se aproveitar. Barão, que me desculpe a memória dele, eu estou falando, porque era o boato que corria, que eu aprendi, que era assim. Inclusive quando ele, isso é histórico, isso acho que está até no Google, se vocês jogarem, não sei. Não sei onde. Ele, quando ia pro chamado do imperador, que ele ia para capital federal, ele escolhia as escravas mais bonitas e levava com ele. Ele nunca se casou. E dizem que os escravos também. Ele escolhia os mais bonitos e levava com ele. Mas ele nunca se casou, mas tinha essa família toda. Familião que a família do meu primeiro marido, ex-marido, não sei como dizer, era bem ligada ao barão de Timbuí, com direito a retrato, com direito a selo de nobreza, com direito ao orgulho próprio deles. Era gente muito boa. Isso é verdade. Era uma gente bem respeitável e tal. Eu até digo o seguinte. Eu acho que o meu marido, isso é uma coisa da minha vida, por isso que eu estou contando, ele teve um erro: foi casar comigo. Ele casou com mulher errada. Ele seria tão feliz com uma esposa, sabe? Meio socialitezinha etc. Assim, mais submissa um pouco, talvez. E eu bati o pé, fui fazer a faculdade, retomando aqui o fio da meada. Fiz a faculdade, fiz português francês, me formei na UFES e acendi o rastilho, toquei fogo no passado e parti para frente.
P/2 – A minha pergunta era justamente sobre essa trajetória, como você saía, né, dessas proibições que veio para a vida acadêmica. Daí para frente, como foi essa vida na universidade? A trajetória?
R – A UFES me fez muito bem. Fazer o curso foi muito bom. Fazer Letras, né, ali eu fiz. Eu consegui um espaço de liberdade para pensar, para escrever. Até os poemas de que eu falava, foi um concurso da UFES que eu ganhei com os poemas. Na verdade, eram os poemas muito, assim, pincelados por Cecília Meirelles, eu confesso, porque eu sou louca por Cecília Meirelles, até hoje. Mas eu tinha muito, assim, eram uns poemas mais simbólicos, uma coisa assim. E eu ganhei esse prêmio que se chamava Angela Raquel von Randon. Angela Raquel von Randon. Era um prêmio da própria universidade para seus alunos. Cada vez que eu ganhava um premiozinho, eu ficava tão feliz, tão radiante. Eu me felicitava por estar rompendo um tecido de vida muito burguesa, muito acomodadinha, com uma pessoa legal, mas um bom marido, trabalhador, honesto, legal, mas que tinha, eu acho assim, não foi um encontro de almas, para dizer a coisa mais metaforicamente. Foi um acordo assim, toda moça precisa casar, meu pai achando que ele era uma excelente pessoa, e era uma excelente pessoa, mas para outra pessoa. Comigo não deu. Depois que eu me formei aqui na UFES, apareceu um concurso. Morreu um professor? Não, um professor se aposentou em Letras, e a UFES abriu um concurso interno. Na época, não era concurso oficial, como é hoje obrigatório fazer, que vira funcionário público. O concurso interno. Aí, eu me candidatei e eu ganhei a vaga. E aí eu fui dar aula na UFES. De aluna pulei para professora. Fui dar aula, tinha o tal famoso básico. Não sei se vocês já ouviram falar. A geração de vocês não pegou. Todo curso, se fosse de Matemática, Engenharia, Medicina, tinha que ter o básico. Era coisa do governo da época, do governo federal. E o básico era português, estudos brasileiros, essas coisas assim. E eu, mesmo sendo professora do Departamento de Letras, foi lá que eu entrei, eu dava aula pro básico, sobretudo assim que saiu o curso de Comunicação, porque ninguém queria dar aula para os alunos de Comunicação. Eram os capetas da universidade. Aí, eu aceitei, como sempre, né, andando pelos caminhos tortos, como eu digo, na minha nave extraviada. Eu aceitei e fui dar aula pro básico. Minha carreira na UFES começou aí. Depois, eu fui fazer o mestrado na UFRJ, né? Eu escolhi Comunicação, porque eu já estava tão acostumada com o espírito dos meninos de Comunicação [risos]. Todo mundo rebelde. Ali, não tinha ninguém que fosse assim, quietinho, cabecinha baixo. Eles tinham até um grupo. Como era o nome do grupo? Chegou o meu editor.
(Pessoa externa) – Minha musa inspiração, inspiradora. Uma mulher que usa palavra para definir um monte de coisa.
R – Eu estou adorando essa conversa, porque eu estou contando, estou contando tanta história aqui. Então, nós estávamos no grupo. O grupinho dos meninos que iam para pedra. Era curioso. Era o terror da universidade, aliás. Mas eles eram meus alunos. Aí, eu fui fazer mestrado em Comunicação. Aí, tive a sorte incrível de ter como orientador aceita por Muniz Sudré para ser aluna da UFRJ, lá na Praia Vermelha. Comunicação. O curso era ali. Não sei se isso aí é interessante para vocês. Isso marcou a minha vida. Munir marcou a minha vida. Sabe sobre o que eu fiz a dissertação de mestrado? O Ticumbi de Conceição da Barra. Todo mundo se espantou, porque as minhas companheiras de mestrado, meus companheiros e companheiras, faziam coisas assim: Lacan, Freud [risos]. E eu lasquei o Ticumbi de Conceição da Barra. Foi muito interessante a minha dissertação, porque a tese depois já foi cinema. A tese que eu fiz na USP. Eu fiz o doutorado na USP. E meu orientador foi Eduardo Peñuela Cañizal, que era um espanhol que fugiu também no tempo da ditadura espanhola e dava aula na USP. E foi Julio Bressane, um escritor maldito, um cineasta maldito, né? Era o cinema marginal da época. Eu adoro Bressane. Vem uma história aqui. Eu fui terminar, fazer uma entrevista, como vocês que são entrevistadoras fazem, com Bressane, no Leblon, na casa dele. Saí de São Paulo, porque eu estava fazendo o curso em São Paulo. Aí. fui para fazer a entrevista. O Ismael Xavier, grande professor de Cinema da USP, me avisou: “Bressane não é fácil, não. Não sei se ele vai te aceitar, não”. Aí, eu falei: “Eu vou tentar”. Pois, me aceitou bem. Me sentei na sala do Bressane, fazendo a entrevista sobre o uso de câmera dele, porque ele usou tal câmera dele, porque ele usou tal câmera. Metidinha a entendida de cinema. Aí, quando eu olho pro chão, lá vem uma tartaruga. Bressane tinha como bicho de estimação uma tartaruga. E eu, puxando as perninhas, com medo da tartaruga do Bressane. E a minha tese de doutorado foi... Eu batizei aquilo que eu pensava que era a minha vida: “A nave extraviada”. Uma nau extraviada. A nau dos insensatos. Batendo aqui e ali, pelas ribeiras das águas, virou livro. É um livrinho. É difícil encontrar. Ele não tem ai, não. Nem adianta. Ele está esgotado. É um livrinho publicado pela editora Annablume, da própria USP [Universidade de São Paulo]. E está ali. A tese causou um rebuliço, porque ela entrou na contra... A nave extraviada só podia causar rebuliço, que bate aqui, bate ali. Entrou na contramão de tudo. Eu me lembro disso. Foi comentadíssimo. E é sobre cinema de Júlio Bressane e com parceria em Machado de Assis [barulho de carro dando ré].
P/1 – Tem algum fragmento dessa dissertação?
R – Não, essa é a tese. A dissertação é o Ticumbi. A tese é “A nave extraviada sobre Júlio Bressane”.
P/1 – Tem algum trecho, alguma pessoa que poderia mencionar para gente?
R – Eu faço uma análise muito detalhada do filme, da obra toda dele, mas detalhada do Brás Cubas, de Machado de Assis. Mas por quê? Porque no filme, no livro, Machado de Assis usa um gráfico, o V de Vigília, que é a personagem central dele. Esse V me impressionava. Nunca consegui nada sobre isso. Por que Machado de Assis, no meio do romance, põe aquele V da Vigília? Por quê? Depois, me caiu a ficha. É o V de vulva. Feminino. E aí, eu explorei isso. No filme, Bressane faz a mesma coisa. Nas costas do Brás Cubas, ele crava um V. Ele era apaixonado pela Vigília, você sabe, na história, no romance. Romance Brás Cubas, que é contado por um morto, inclusive. Me bateu isso, o V de vulva, é a fêmea, era o feminino que estava ali. E os senhores jogaram como esse V. E aí, foi um certo atrevimento, mas eu fiz e ganhei 10, viu? Na banca. Passei com louvor. Meu doutorado foi com louvor. Tanto que depois, logo, a USP me contratou para dar aula. Eu dei aula de Cinema para pós-graduação só. Não pro curso de segundo grau técnico, não, mas para pós-graduação. Aí, eu pude dar aula sobre Greenaway, que é um cineasta inglês que eu adoro, adoro, sobre Godard, que é outro que eu amo, amo, amo. Não sei o que a nossa câmera gosta dele. E foi isso. Aí, veja, foi uma coisa entrando na rota, uma coisa puxando a rota normalmente. É como se fosse uma coisa que me atraía e eu sempre fui muito feliz nisso, porque eu sempre pude ser um pouco dona de mim. Isso é muito importante pras meninas, pras mulheres. Ser dona de você é importantíssimo. Importantíssimo, né? Nós temos o nosso Orí, que é uma força que nós temos. Então, nós temos que explorar isso. É isso. Nós somos aquilo. O orixá nada mais é do que uma força sobrenatural. Aliás, a cosmogonia africana é belíssima. Dá de 10 a 0 na grega que nós herdamos, no cristianismo. É lindíssima. É toda muito bem estruturada. O céu e a terra são duas cumbucas. É isso. Isso é geral na cultura africana, tanto nos nagô quanto nos bantos. Como eu sou de Conceição da Barra, minha família aveia é banta. Não é nagô. Nagô está na Bahia. Por que os nagô estão lá? Porque os nagô foram a última leva de escravizados que vieram pro Brasil. E eles se fixaram na Bahia e tiveram algumas vantagens que os bantos não tiveram, quando vieram para cá. E o Espírito Santo Norte é todo banto. Tem nagô lá também. Quer dizer, tinha nagô. Mas, assim, espaços, porque, na minha dissertação de mestrado, eu falo disso. A importância da cultura banto no Brasil e sobretudo no norte do Espírito Santo. Acho que agora tem gente explorando isso. Isso é muito bonito, porque tem uma... Eu conheci Itaúna a semana passada. Uma professora que veio sentar do meu lado para me perguntar que ela está fazendo uma dissertação de mestrado sobre o Ticumbi. Queria saber a origem do Ticumbi. É banto. Puro banto. Não tem nada dos nagô. Agora, o candomblé é nagô. Os orixás é a estruturação nagô do céu e da terra, do universo. Nos bantos, a gente tem os tatá. O tatá do vento, o tatá do mar, o tatá da terra. É a mesma coisa que o orixá. Só tem outra denominação, que é banto. Isso eu acho muito importante, sabe? Que as pessoas começassem a estudar isso, a ver isso no Espírito Santo. Nós temos uma cultura banto muito forte aqui. Muito forte. Quilombos bantos, eles nem fazem ideia. Ticumbi é banto. Aliás, o Ticumbi não é folclore. É uma recordação cultural que os escravizados tinham da luta entre um bocado de Bamba e o reinado de Congo. É histórico. Eu pesquisei e é histórico. Barleus, um ilustre holandês que estudou a África, ele diz isso, né? Existia o povo do Bamba, de Bamba, o Ducado de Bamba era uma região separada do reinado do Congo. E como a África sempre foi um campo de guerra, nós sabemos disso, as tribos se chocavam. Inclusive, muitos escravizados que foram vendidos pelos reis, sobretudo por esse rei de Congo, do Congo. O rei do Congo que no Ticumbi está lá. O rei do Congo. Olha que coisa curiosa. Vocês conhecem o Ticumbi? É uma luta entre dois reis para fazer a festa de São Benedito, que é o padroeiro dos santos pretos, dado pelos padres, é claro, porque os padres não podiam cultivar um deus africano. Então, os padres católicos com boa vontade, né? Com todo respeito eu digo isso, que é histórico, os padres deram São Benedito de padroeiro para substituir os deuses africanos, porque São Benedito foi um santo preto. Era cozinheiro. Então, os pretos têm verdadeira devoção para São Benedito, mas por trás, assim de uma maneira muito que talvez nem muitos que fazem o Ticumbi entendam, estão os deuses africanos.
P/3 – Você fala dos cultos de matriz africana também com muito sentimento, assim, e também com bastante conhecimento. Você teve alguma experiência dentro de religiões de matriz africana? Experiências, vivências dentro desse culto?
R – Pergunta boa, hein, menina? Vocês já ouviram falar da Cabula? Ela já, ela balançou a cabeça aqui já. Cabula. A Cabula era um culto banto que foi um bispo… Situada na região norte do Espírito Santo, a Cabula, e que foi exterminada assim cruelmente pela cultura religiosa de origem branca, digamos, para não dizer padre. Mas foi exterminada, foi perseguida. Os cabuleiros eram mortos. Ainda hoje existe uma leve fumaça da Cabula nos quilômetros de Conceição da Barra, com as mesas. A mesa de Santa Bárbara “Ah, Eparrei”. A mesa de Santa Bárbara é uma que é Yansã, mas não podia ter Yansã. Não podia ter, né? Enfim, agora vai a minha experiência. Então, você está me cobrando. Do quintal da minha mãe, lá da chácara, tinha um cajoeiro velho que subia e batia assim no muro da vizinhança e a vizinhança tinha uma cabuleira. E eu era, digamos, mocinha, como se dizia, meus 12 anos, assim, foi quando eu vim pro internato. Mas eu ouvia os tambores, que, aliás, amanhã vai ter tambor por aí tudo. Vocês sabem, São Jorge, Ogum Mejê. E aí, eu ouvia. Era curioso, porque aquilo me encantava, o bater dos tambores da Cabula. Uma ressonância do banto no Brasil. E eu ficava muito encantada com aquilo. Eu acho que aquilo influenciou nessa minha jogada para essas religiões africanas. Até também porque um pouquinho eu hoje estou já declarei isso, hein? Eu estou numa… Como chama? Essa união. Minha união estável com o preto, que é a figura mais linda do mundo. E é filho de Oxalá. Sabe aquela coisa de amor reprimido a vida inteira? De dor e de repente, puff, eu descubro. Sabe há quantos anos nós estamos juntos? Quarenta. É cineasta, é doutor também em Cinema.
P/1 – Onde vocês se conheceram?
R – Parte melhor . Ele foi meu aluno [risos]. Não é ótimo isso?
P/2 – E você lembra como foi o primeiro date de vocês?
R – Como ele era muito metido, as meninas da turma que eu estava dando aula vieram reclamar: “Ah, não quer fazer trabalho com ninguém. É metido. É não sei o quê”. Mas eu percebi o que era que elas estavam chamando de metido. Era resguardamento, resguardo, diante da fúria com que ele tinha sido massacrado a vida inteira por ser negro e pobre, nascido no morro. Eu percebi isso. Aí, eu comecei a dar uma atenção toda especial [risos]. Está tão engraçada essa entrevista, eu estou adorando. Daí para lá, mais ou menos, você sabe como é. Não vou explicar. Pois é, 40 anos juntos, enfrentando a vida. Fez filmes, ele também, deu aula em Angola. A TV angolana. Foi dar aula em Angola. E por aí vai. É isso.
P/1 – Bernadette, sabe o que eu queria te perguntar? Para a gente ir encaminhando para o fim, infelizmente.
R – Ah, que bom. Esse infelizmente que é o bom.
P/1 – Como é que a sua literatura, sua escrita, vai contando e se relaciona com as histórias daqui do Espírito Santo? Acho que tem alguns livros. Talvez a Capitu.
R – Capitoa.
P/1 – Capitoa, desculpa.
R – Ele está aqui.
P/1 – Como que essa história desse lugar, da onde você vem, se relaciona com a sua escrita?
R – Mas de Conceição da Barra ou do Espírito Santo?
P/1 – O que você quiser contar. Como está na sua escrita, na sua literatura, a história desse estado?
R – A história do Espírito Santo sempre me interessou muito. Sou muito louca pelo Espírito Santo. Aqui, vai mais um fragmentozinho. Eu estava morando em São Paulo, mas vinha periodicamente aqui a Vitória, porque meu filho, minha neta, mora aqui em Vitória. Eu estou dentro do avião, meus alunos diziam lá na USP: “A gente já sabe, passa a tanga e lá vai Bernadette”, porque toda vez eu dava um jeitinho de vir a Vitória, para ver a cidade e sentir o ar capixaba. E aí, uma vez venho eu, eu ficava olhando pela janelinha, sentava na janela e ficava olhando. Quando eu vi o rio Itabapoana, que é o limite Vitória-Rio, eu ficava feliz [barulho de carro de som]. Sim, mas nós estávamos falando…
P/1 – Da sua literatura de Espírito Santo.
R – Pois é, e eu estou contando essa historinha de que eu viajava muito de São Paulo para cá, né, pro Espírito Santo. Quando passava o rio Itabapoana, eu ficava olhando, feliz da vida. E uma vez venho eu, eu estava tão entusiasmada, porque eu estava chegando na minha terra, que eu disse: “Gente”, pro avião inteiro, “Olha, nós estamos entrando no Espírito Santo. Olha o rio Itabapoana, olhem na janelinha”. Me olharam como se eu fosse uma maluca. Claro, né? [risos] Tão entusiasmada. Quando eu vi o rio Tabapuana, meu coração disparava. Estou no Espírito Santo. E quando eu venho, quando vim assim, também de carro, às vezes, é muito curioso que, quando tem aquele jequitibá solitário na BR-101, entre Linhares e São Mateus, ele está lá. Está lá ainda. Eu pensava, estou chegando na minha terra, que era o norte. Ele é um guardião do norte. Está até hoje lá, o jequitibá. Sai de Linhares um pouquinho, ele está lá, né? Não destruíram ainda. É terrível. A minha relação com o Espírito Santo sempre foi de muita paixão, de muito amor. Eu amo o estado capixaba. Eu adoro o termo. O livro, a Capitoa, é sobre dona Luísa, a terceira governadora, digamos assim, da Capitania do Espírito Santo. Dona Luísa Grimaldi, Grinalda ou Grinaldi. Ela não tem o sobrenome, não é firme. Ninguém sabe qual é mesmo. Eu fui dar aula no Algarve, em Portugal, como professora visitante, eu pesquisei a origem dela. Ela era, talvez, viúva, quando casou com Vasco Fernandes Coitinho, filho. Não é o velho, é o filho, que foi o segundo donatário do Espírito Santo. Quando ele veio, ele trouxe a mulher e a casa toda. É o que ele diz no testamento dele, que eu consegui também lá, na Torre do Tom. E ela vem para cá, pro Espírito Santo, e ela... Quando ele morre, ele tinha um amante. Ela era estéreo, ela não tinha filhos. Ele tinha um amante, tinha filhos com a amante. Ela aguentava aquilo firme e forte, né? Mas, aí, quando ele morre, ela despacha a amante dele, inclusive, da capitania. Isso está no meu livro, Captoa. Não sei se é invenção da autora ou não. Mas, de toda maneira, os historiadores têm formigas quando leem esse livro. E aí, ela começa a governar. Ela governa quatro anos no Espírito Santo. 1583... Não. 1590... Mais ou menos por 1589, até… Governa por quatro anos e ela é demitida do governo pelo rei de Portugal sob a alegação de que uma mulher não tinha direito à posse de terra, nem a mando. E isso é histórico. Isso está registrado na história. Historiadores podem contar com mais propriedade do que eu, porque os historiadores sabem até a hora em que Vasco Fernandes foi fazer xixi atrás de um coqueiro, até uns minutinhos, mas os escritores só contam com o risco, gente. O risco da imaginação. E é isso que eu faço neste livro. Teve gente que disse assim: “Mas você disse que a Capitoa…”, que era como ela era tratada, a nossa ilustre terceira governadora, terceira donatária da Capitania do Espírito Santo, que é uma figura apaixonante. para ela governar, o rei deu a ela, o rei de Portugal e Espanha, que, na época, deu a ela um oficial, uma ordenança. Na verdade, porque não acreditava que ela, como mulher, pudesse governar. É lógico. E também a campanha lá contra ela era brutal, porque não acreditavam que uma mulher pudesse governar. Essa mulher botou para correr o pirata mais famoso. Pirata não, com todo respeito, o corsário. Pirata eram os pobrezinhos. Corsário era do serviço de reis, a rainha. O corsário mais famoso que, depois de destroçar a Capitania de Santos, veio bater com os costados no Espírito Santo, na Capitania do Espírito Santo. Não sei o que ele queria aqui. Só tinha limão, lama e índio. Mas, de toda maneira, ele veio, porque disseram a ele que era uma mulher que estava governando. Era muito fácil tomar. Quem tomou foi ele, no bom lugar. Porque… O que acontece? Dizem, diz a lenda, e às vezes a lenda é poderosa, que lá onde nós temos, nós, os capixabas, temos o Saldanha da Gama na curva do Penedo, ali na beira-mar. Vocês vão de passar por lá. Quando passarem, observem na frente do Penedo. Tem um prédio branco, que hoje tem até um restaurante e tal. É o Clube Saldanha da Gama e tem os canhões. Aqueles canhões são do tempo de dona Luísa, a Capitoa. E esses canhões eram para disparar contra os piratas, o corsário. O corsário da rainha da Inglaterra. Ele era o corsário famoso. E aí, nesse livro, eu descrevo isso. Diz a lenda que ela se viu de repente com uma guerra para enfrentar só com uma trupe de indígenas que estava a favor dela e com soldados mal vestidos que não tinham na capitania, soldados armados, para enfrentar aquele poderoso e belíssimo. Os retratos mostram, os retratos não, as pinturas mostram que ele era um homem muito bonito. Encantou de Elizabeth I da Inglaterra. Como ela ia fazer? Agora que vem a história que eu amo. Ela tinha dois naviozinhos pousados aí na Bahia de Vitória que vinha até aqui, à beira dessa calçada ou mais. Sabemos disso. Vitória foi aterrada, mas na época dela devia vir o mar. O mar vinha até cá. O mar da Bahia de navegação de Vitória. Ela mandou tirar as correntes das âncoras dos dois naviozinhos dela, emendou essas correntes e passou por baixo, que vai do Saldanha até o Penedo. Cravou na pedra, prendeu aqui. Vem a nau do nosso lindo corsário com um pranchão na frente. Um pranchão cheio de soldados. O pranchão bate na corrente que estava escondida embaixo d'água. A nau vem a outra e puff, bate no pranchão. E a terceira bate na segunda. É o primeiro engavetamento da Bahia de Vitória. Aí, reza a lenda que caiu soldado para todo lado e aí os poucos que ela tinha aproveitaram da coisa atiraram flechas e os que ela tinha a favor dela, os indígenas a favor dela e os poucos soldados dela também atiraram. Resultado: os poderosos corsários foram vencidos, bateram em retirada. E o corsário-mor, que eu esqueci até o nome dele. Você lembra o nome dele? Está aqui. Como era o nome do corsário da rainha da rainha inglesa? Cavendish [corte na gravação]. Mas eu posso continuar contando. Elas estão tão interessadas. O Cavendish foi morto, foi morrer na ilha da Trindade que faz parte das 33 ilhas de que Vitória também faz parte. É um arquipélago que nós temos aqui no Espírito Santo. Ele morreu lá. Dizem que ele morreu assim de uma flechada envenenada que ele recebeu. Coitado, né? Mas eu acho que ele morreu foi de vergonha. Foi derrotado por uma mulher. Essa é a minha convicção. Está aqui na Capitoa. Claro que a Capitoa como toda a minha literatura mesmo com fatos reais é a pura imaginação. Não acreditem em mim, porque literatura é mentira. Toda literatura é mentirosa. Mesmo que esteja contando a vida: “Vou contar a sua vida”. Mentira, vai aparecer mentira toda hora, porque depende muito da imaginação. Literatura é pura imaginação. Então, é a mais gloriosa mentira que a humanidade possa cometer. É isso. É uma arte.
P/1 – Vou pegar seu gancho. Desculpe interromper, gente, mas eles vão ter que voltar com 12h30. Uma. Pensando justamente na sua criação, nas criações, você falou dos termos que tem o cinema de bordas e a capitania perdida.
R – Eu adoro falar disso. Faz parte da minha semente criadora. Adoro. Vocês ouviram o Saulo dizer que numa palavra diz tudo. Eu adoro criar com as palavras. As palavras me odeiam. O Drummond de Andrade, Carlos Drummond, dizia que lutar com as palavras é a luta mais vã. No entanto, lutamos, mal rompe a manhã. Às três da manhã, está a Bernadette no seu computadorzinho, no seu Maczinho, criando com as palavras. E é muito interessante. E o cinema de bordas, eu vi que tinha todo um contingente, como eu sou professora de Cinema, doutora e pós-doutora em Cinema. Olha a metidez. Eu tinha conhecimento de todas as correntes de cinema, ainda mais que eu trabalhei com o cinema marginal do Bressan. E aí, eu vi que tinha todo um contingente de cineastas que eram barbeiros, metalúrgicos, pedreiros, e que com uma camerazinha vagabunda, trepada, toda amarrada, fazia filmes. E nesses filmes estava a comunidade deles, mas eram filmes de ficção, inventavam histórias, e a vizinha entrava como a atriz, o papagaio da vizinha entrava também, tudo isso [barulho de carro sendo ligado]. É a Kombi. Ele vai tirar. Essa Kombi roda o Espírito Santo todo, vendendo livro. O Saulo é um pioneiro, um guerreiro dos livros, sem dúvida. Lá se vai a Kombi. Agora, está vermelha. Era uma branca toda amarrada. Subiu na vida. Comprou uma Kombi vermelha [risos]. Mas é isso. Nós estamos falando do cinema de borda. Esse contingente de cineastas do Brasil inteiro, comecei a observar isso. Comecei a catalogar os filmes, pedir filmes. Tenho um acervo enorme de filmes de borda. Eles são lindos, são divertidos, são gozados. São tão primários. Nessa primariedade deles, eles são tão criativos. É uma beleza. E aí, eu estava dando aula numa universidade particular de São Paulo. A coordenadora de pesquisa criou uma festinha. Eu peguei filmes de bordas e mostrei na festinha. Ela ficou tão entusiasmada. Ela era amiga de um CEO do Itaú Cultural e falou: “Vamos propor a ele uma mostra?”. Fomos lá. O Itaú Cultural aceitou. Resultado: seis mostras de filmes de borda do Brasil inteiro. Eu como curadora. Foi uma lindeza. Tem cada coisa. Tem baú cheio de filmes de borda. São maravilhosos. São histórias do interior, né, que imitam os filmes de Hollywood. Meu Deus! Olha, é muito interessante tudo aquilo que eles fazem. Os filmes americanos de guerra, os filmes de... Enfim, heróis. Eles imitavam e ficava uma coisa interessante, porque era jogado nos lugares mais... projetavam no campo de futebol, na parede da igreja. É fantástico. Eu fico alucinada. Foram seis mostras seguidas que fiz lá. Lógico, o Itaú Cultural não pode ter um contrato muito longo, porque ele reveza, entra em outra coisa, mas eles me deram seis anos de trabalho. E temos três livros. Fundei um grupo e esse grupo estudou comigo esses filmes de borda. Tem três livros chamados Cinema de Bordas publicados. O Inácio da Folha, crítico do Cinema da Folha, gostou muito, foi lá. A Globo mandou uma repórter lá. Ela adorou. Se sentou do lado do seu Manelzinho, que era um cineasta de bordas aqui do Espírito Santo, e aí o termo pegou: Cinema de Bordas. É isso.
P/1 – Bernadete, em uma frase, vou te fazer. Quais são seus sonhos?
R – Continuar viva e escrevendo [risos]
(troca de fitas)
R – Pode perguntar, eu respondo. São boas as suas perguntas.
P/1 – Pode ficar completamente à vontade para ir contando muito além das minhas perguntas. A pergunta serve só para gente conseguir pensar.
R – Mas são boas as suas perguntas.
P/1 – Mas aí se você tiver outras perguntas que você queira compartilhar, que eu volto qualquer coisa.
R – Nós já estamos mesmo encaminhados para esse pedaço de mais maturidade, tanto na profissão de escritora quanto de professora de Cinema. Nesse meio tempo, temos a Secretaria de Cultura. Eu fui a primeira secretária. Estou aqui no meu ambiente.
P/1 – Na sua casa.
P/1 – Então, eu só vou ler a claquete e gente começa.
R – Ok.
P/1 – Entrevista de Bernadette Lyra, entrevistada por Luísa Calo, Vitória, 25 de abril de 2026, Projeto de Diversidade Cultural do Capixaba. Entrevista número DCC-HV020, parte 2. Bernadette, queria te agradecer demais por estar aqui novamente.
R – Imagina, sou muito grata.
P/1 – E queria te perguntar sobre as suas várias facetas, enquanto professora de Cinema e escritora de literatura. E aí, te pergunto também sobre os prêmios, alguns livros importantes.
R – Eu costumo dizer que sou dublê de professora, tanto de professora de Cinema quanto de escritora, porque essas duas coisas estão muito unidas na minha vida. Desde a minha infância, o cinema vem me acompanhando por causa do cineminha do vovô, que eu era levada no colo de mamãe ou de minhas tias para ver tudo em preto e branco, aqueles filmes antigões, cinema mudo. Muito bem. E a parte de escritora, eu devo também a esse meu avô, por causa da estante maravilhosa de portas de viso que ele tinha. Eu me sentava embaixo da mesa, da mesinha dele, no retiradozinho da loja dele de secos e molhados, e ficava vendo revistas que ele punha aí do lado. Me acostumei muito com isso. Eu sonhava sempre em ser escritora, não há dúvida. E depois, já contei também a história do professor Guilherme Santos Neves, que disse: “Menina, você é uma escritora”, e eu acreditei. Então, eu tomei meu rumo como escritora. Era o que eu queria ser, foi o que eu desenvolvi ao longo da minha vida, cada vez aprendendo mais, cada vez estudando mais, cada vez lendo mais, que, aliás, é um conselho que eu dou para quem quer escrever: leia. É a maravilha, é o que deslancha em você a sua imaginação, a sua técnica, porque eu não acredito só na imaginação. Eu acho assim, fazer literatura, nós temos assim 10% de imaginação e 90% de transpiração, que é o trabalho mesmo. A gente acordar, a gente pegar o trabalho, a gente mudar, eu sou dessa escritora que faço e refaço, faço e refaço. Eu não consigo escrever tudo de uma vez só, vai aos pedacinhos. Como escritora, eu tive várias alegrias na vida, inclusive prêmios literários importantes, como o meu Piana, que é um livro interessante, ele está aqui. É um romance, ficou entre os 10 escolhidos do prêmio Oceanos, que é um prêmio de todos os países de língua portuguesa, mais de 3 mil romances concorreram. O Piana ficou entre os 10 finalistas. Então, eu me senti muito feliz com isso, eu era a única do Espírito Santo e ficou, foi uma maravilha. É um romance sobre uma velhinha que de solidão se atira do décimo andar. Não é um romance fácil, é um romance em que a morte transpira a cada página, mas também transpira aquela coisa de que a morte deixa sempre um rastro que pode ser aproveitado pela esperança e pela vida. Isso é o Piana. E eu tenho um outro premiado também, que é do Jabuti. Ele ficou também, como semifinalista, quase ganhou, mas, imagina, quem ganhou foi muito importante. A pessoa que ganhou, o escritor. Mas é Memórias das Ruínas de Creta em que eu faço um paralelo entre Vitória, que é uma ilha, e a ilha de Creta. Vitória tem minotauros à meia-noite, estão lá pelas escadarias da cidade. Tem suas Ariadnes, seus Teseus. Enfim, é uma Creta que está aqui, é uma Creta capixaba, digamos assim. E também ele ficou como finalista do Jabuti, o que é o prêmio mais importante de literatura do país. Então, esses dois são muito bons. Agora, eu tenho também, além de ser escritora, de trabalhar com a literatura, eu fui, inclusive, gerenciei um escritório de literatura dentro da UFES. E eu tomava conta, o reitor me apoiou e criou aquilo, e eu trouxe escritores importantíssimos. João Antônio deu uma lavada aqui em todo mundo, maravilhoso. José J. Veiga, que era do meu coração, uma pessoa do meu coração, adoro a literatura dele. Nélida Pinon veio também. Então, eu consegui trazer pessoas que movimentaram. Isso está documentado nos anais da Gazeta. Os repórteres foram lá e entrevistaram os escritores e falaram sobre o meu trabalho. Eu sinto muito orgulho disso. Você sabe que eu tenho um prédio com o meu nome dentro da Universidade Federal do Espírito Santo. Eu sou muito grata por isso, mas é por causa de todas essas atividades literárias que eu tinha ali. Não é só pelos meus belos olhos e também não é só pela quantidade de livros que eu tenho. Crônicas eu publico desde 1956. A Gazeta tem ainda minhas crônicas. Publiquei no Jornal do Brasil há muito tempo crônicas. Publiquei na revista Vida Capixaba. Então, eu tenho um histórico de crônicas que hoje eu chamo de croniquetes. E as pessoas perguntam: “Mas por que é francês?”. Não, não é não. Eu tenho um amigo psicanalista que diz: “Bernadette, isso não são crônicas, são tão específicas, tem tanto sua alma aqui dentro que elas são crônicas de Bernadette, ou seja, croniquetes”. Eu aproveitei o nome e só chamo assim e parece que os leitores também gostam. Cadê a próxima croniquete? Então, é isso. Eu trabalho na literatura e no cinema. No cinema, não fazendo filme, mas sim como professora dada a minha formação de doutorado e pós-doutorado, que foi toda em cima do cinema e o período que eu dei aula para pós-graduação de cinema na USP, na ECA, na Escola de Comunicação e Arte da USP, que foi muito proveitoso, aprendi muito. Esse livro, por exemplo, é um livro que eu escrevi pros meus alunos, O jogo dos filmes. Então, assim, como se trabalha com o cinema, o que se faz, quais são os movimentos, isso, aquilo, aquilo outro, como adaptar isso à parte narrativa. Era essa a minha especialidade. Sobretudo, trabalhei com Godard Greenaway, Peter Greenaway, que eu dei um curso inteiro, que era o GG, o Godard Greenaway, lotado. E eu tive o prazer de ter muitos alunos que depois saíram por aí. Eu vejo filmes deles às vezes. De vez em quando está lá um nomezinho do realizador. “Ah, foi meu aluno!” [risos]. Isso é muito bom. Então, essa é a minha vida, minha duplicidade entre a literatura, que é a paixão, é o sal da minha vida, e o cinema, que eu trago desde o berço, graças ao meu vovô. Não sei se eu respondi.
P/1 – Muito! Queria aproveitar. Teve algum aluno, algum encontro, dentro da sala de aula, alguma aula foi muito marcante para você, enquanto professora de Cinema?
R – Sim, sim. Sim. Eu fui aluna de Ismael Xavier, inclusive, que é um grande professor da USP de Cinema, reconhecido internacionalmente. E eu tive o prazer de orientar alunos que estariam fazendo filmes, que estariam trabalhando com cinema para tirar seu doutorado. Então, isso, para mim, eu não posso nem especificar um ou outro. Eu estava aqui pensando no que veio aqui a Vitória quando eu era secretária de Cultura, porque eu fui secretária de Cultura do estado, fui a primeira [risos]. E ele veio aqui em busca, mas ele não sabia que era eu. Foi uma surpresa: “Oi, professora!”. Então, ele veio aqui também para trabalhar, porque ele estava fazendo uma recolha pro filme que a Fernanda Montenegro e o garotinho... Como é o nome do filme? Central do Brasil. Então, esse meu aluno estava como assistente do diretor. Foi uma surpresa muito boa. E dentro da sala de aula era muito legal, muito legal. Eles não queriam sentar lá no fundo, todo mundo enfiado na frente. Aí, de propósito, tinha alguns mais esnobezinhos que queriam mostrar a sua sapiência, o que é muito legal em pós-graduação. Um chegou a exacerbar lá uma vez, e eu disse: “Já pro fundo da aula”. Banquei a professora do primário dentro da sala de aula de pós-graduação na ECA, na USP. Então, todos eles foram muito marcantes. Minhas aulas, eu gostava muito, muito, muito de dar aula de Cinema. Sempre gostei muito. E depois eu criei o termo “cinema de bordas”, que é esse cinema de autodidatas que não têm formação alguma. São marceneiros, serralheiros, agricultores, pedreiros, que em determinado momento da vida resolvem fazer um filme, mas esse filme não é o cinema de ONG. Não é um filme social. É um filme de ficção que eles fazem com o pessoal que está em volta. Então, tudo entra no filme de bordas. A vizinha bonita sempre é... Aliás, a filha do diretor sempre é a atriz principal. E depois temos também o papagaio da vizinha que entra na história. Enfim, eles trabalham assim. Depois, eles projetam esses filmes tão raros, tão pobres, é um cinema pobre, tão feito de intuição, eles projetam no campo de futebol, na parede da igreja. Eles não têm um cinema. Um exemplo é o Manuelzinho, aqui de Mantenópolis. Ele era faxineiro do cinema local. Ele via os filmes e ele filmava à maneira dele, com a turminha dele ali da vila onde ele morava, na cidadezinha, ele filmava aquelas histórias à moda dele. Outro exemplo é o Rambo da Amazônia. Ele se chamava de Rambu. Eu trouxe o Rambo da Amazônia ao Itaú Cultural, que foi quem bancou minhas mostras de cinema em São Paulo, na Avenida Paulista. Aliás, essas mostras eram ótimas. Entrava todo mundo, porque era de graça. Entrava skatista com skate mais do braço, entrava repórter da Globo para me entrevistar. Era uma festa. E o Seu Manuelzinho é daqui, do Espírito Santo. Então, ele tem filmes fantásticos, assim, bem pobres mesmo. Ele não tem técnica, mas ele tem um amor tão grande às imagens que aquilo passa para gente aquela coisa. As histórias dele são incríveis, incríveis. Os faroestes de Seu Manuelzinho são incríveis. Valeria a pena, inclusive, uma mostra nova de cinema de bordas feita aqui. Eu fundei um grupinho para me ajudar, porque ninguém trabalha sozinho. Eu sou gregária, eu gosto de trabalhar com as pessoas. E um grupo de professores que gostaram da minha ideia. A mídia paulista também adotou a folha, já trouxe páginas e páginas, ainda mais porque era no Itaú Cultural. Eles foram logo lá, mas foi muito legal, muito, muito. O Itaú Cultural me deu seis mostras, seis anos seguidos. Eles não costumam fazer isso. Eles dão, às vezes, três anos para um tema, depois muda para mais três, para atender a todos. para mim, eles deram seis anos de mostra de cinema de bordas. Eu fui a curadora. Lotava, lotava. Uma coisa maravilhosa, de todos os estados do país. Eu tenho os filmes até hoje. Eu tenho os DVDs.
P/1 – E qual foi a primeira mostra? Qual foi a sua sensação?
R – A primeirinha, na verdade, não foi no Itaú, foi numa universidade paulista que eu dava aula, uma particular também. E a diretora de pesquisa e pós-graduação queria fazer uma festa na universidade. E, sabendo que eu era professora de Cinema, ela falou: “Bernadette, você não podia trazer uns filmes?”. Eu falei: “Bom, eu estou muito interessada em um tipo de cinema pobre, né?”. Em Cuba, se fala cinema pobre mesmo. É esse cinema mais, assim, instintivo. E ela falou: “Traz, traz”. Então, eu me lembro que o primeiro filme que eu mostrei foi de um bombeiro de Brasília. Meu Deus, foi um sucesso tão grande. Eu fiquei tão feliz que a universidade abriu aquilo para mim, eu montei, que daí, inclusive, desde aí eu já criei o grupinho de gente que se interessou, outros professores, e nós editamos três livros. Cinema de Borda 1, Cinema de Borda 2, Cinema de Borda 3. Editamos os três livros falando sobre esses filmes. Era muito pouca grana e muita gana, porque eles não tinham dinheiro. Eles faziam filme com 100 mil reais. Quem fazia um filme com 100 mil reais? Ninguém, mas eles faziam, e quando tinham os 100 mil, ainda se glorificavam, porque tinham os 100 mil reais para fazer. Assim foi. Então, essa parte do cinema para mim sempre foi essa paixão. E eu tenho uma arca cheia de filmes de borda do Brasil todo, porque saí catando. Aí, parece que a coisa pegou, porque era o Itaú Cultural e repercutia lá na Universidade de Pernambuco. Aí, um grupo de Pernambuco se interessou, os meninos maravilhosos, né? E mandavam para mim, eu dava o nome, eu ia atrás. De repente, era um vendedor ambulante que tinha um filme, era um madeireiro, era um rapaz que cortava madeira na mata de eucalipto, que fazia um filme, era um faxineiro, era qualquer coisa. Seu Manoelzinho, para mim, é o top de linha, porque ele era faxineiro de cinema, de cidade do interior, e ele, então, fazia os filmes, mas era muito interessante, muito. Ele tem um filme que tem um exorcismo, né? Então, o pastor vem fazer um exorcismo, mas o pastor não fazia o menor favor, pegava a cachaça e bebia, porque era o rapaz, o senhor que estava fazendo o pastor, bebia a cachaça, porque ele gostava da cachaça, não é que o pastor tinha esse papel, não. para você ver, era uma mistura da vida comum com o filme. Acho o cinema de borda apaixonante. A Lívia vem me ajudando nisso, e a gente já fez a curadoria aqui do Festival de Cinema de Vitória. Eles abriram uma janelinha para nós, né, Lívia? Uma janelinha desse tamanhinho, mas abriram. E aí, a gente mostrou alguns filmes e ficou assim. Eu espero que esse ano eles se lembrem de abrir a janelinha do cinema de bordo. Mas é isso, o meu trabalho com cinema mesmo é esse. A par dos belíssimos filmes que eu comento neste livro, que eu comento neste livro. Aqui, tem o Almodóvar, tem o Peter Greenaway, tem a Buñuela, tem filmes deles todos comentadinhos aqui dentro desse livro que eu fiz para meus alunos. É isso.
P/1 – E o que representa para você ser professora?
R – Ah, é muito importante. É muito importante. Eu fui alfabetizadora no interior, assim que eu me formei como professorinha, fui para o interior e vou dar aula numa escolinha como alfabetizadora. É um raro prazer você ver aquelas crianças começando a juntar as letras, lendo. Vivi viu a vovó. Isso é minha neta que diz. Ela é Vitória. Vivi viu vovó, de gozação comigo. Mas é muito humano, é muito lindo poder mostrar alguma coisa, porque livro é básico para humanidade. Os livros, eles conseguem jogar você naquilo que você tem de melhor ou de pior do humano. Então, você ensinar a ler ou você dar aula e trazer para mentes jovens ou não, adultos também, né? Há pouco tempo eu fui no colégio da CEEJA [Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos], que são adultos, senhoras e senhores. Fiquei encantada que eles leram meu livro e faziam perguntas. É muito prazeroso, muito prazeroso você ser professor. É uma, como eu disse, uma joia rara na vida da gente. E eu gosto de ir amontoando isso tudo. Eu sou múltipla. Eu sou dupla. Eu me divido, porque só assim, eu já falei para você, os fragmentos são as únicas formas em que eu confio. Só assim você vai espalhando pequenos fragmentos seus. Só assim vale tudo isso. Eu não sou escritora de vaidade. Eu mostro os prêmios, porque acho legal. É muito bom, mas não sou de vaidade, de glórias. Não aspiro a isso. Eu aspiro a ter gente que me leia ou ter alunos que partilhem comigo. Essa paixão pela vida. Essa dor de ser humana. Eu já falei, meu livro A pata do rinoceronte é um livro de dor da humanidade. Mas é uma dor, porque você é humano, você tem que ter dor, amor, alegria, tristeza. Tem que ser duplo. Nós todos somos seres duplos. É isso. Quando você é duplo, você pode ir repartindo melhor, se fragmentando bastante. Eu acho que ser professora, ser não só professora de Cinema, mas também, como já fui professorinha normalista, depois é que, com o correr da minha carreira, eu fiz todas as etapas de uma carreira acadêmica. Eu sou professora emérita da Universidade Federal do Espírito Santo. Ganhei o título. É outro título que muito me honra, porque eu já sou aposentada. Então, eu sou professora emérita. É o título maior que uma universidade pode dar para alguém, para um professor. Também sou isso, um pouquinho. Então, veja, eu sou múltipla. Isso me agrada.
P/1 – Bernadette, como é o seu processo criativo? Tem algum horário que você escreve? Tem alguma forma, algum jeito que você se sente mais confortável para escrever? Tem algum tempo que você fica sem escrever?
R – Eu gosto de escrever de madrugada. Eu digo que é a hora da bruxa, né? Três horas. Adoro. Mas, de toda maneira, eu tenho uma técnica. Assim, eu digo que existe para mim uma partícula preciosa que está no mundo. O que é uma partícula preciosa? Pode ser até esse jeito que você fez com o seu pescoço. Virou um pescoço. Pode ser um olhar. Pode ser um sorriso. Pode ser uma criança pedindo pão. Pode ser um velhinho que te cumprimenta na rua e você nunca viu. Pode ser qualquer coisa. É como um alfinete que vai lá dentro da minha imaginação e pica. E aquilo desperta um mundo da imaginação. Aquilo eu acalento, essa partícula preciosa, e vou transformando por etapas. Primeiro, anotações. Eu sou uma escritora que anoto muita coisa. Tudo misturado. Tudo misturado ao mesmo tempo da vida. Depois, eu vou trabalhando isso. Aí eu tenho... Eu não sou escritora, já falei, de escrever de uma vez tudo. Eu sou escritora de faço, refaço. Faço, refaço. Então, para escrever um conto, o conto, coitado, na hora de publicar, ainda estou querendo pedir pro editor: “Traz para que eu estou mudando uma frase”. Então, minha técnica de escritura é essa aí. Mesmo depois dele pronto, já nas mãos dos editores, eu quero ainda renovar alguma coisa, mas parte dessa que eu chamo de partícula preciosa, porque ela é muito preciosa mesmo, um mínimo, às vezes. Um jogar de cabelo de alguém. Um olhar de alguém para mim, assim, na rua, passando, ou uma fala de carinho, ou um olhar de desconfiança. Enfim, uma tragediazinha que a TV mostrou, uma tragédia grande que a TV mostrou, pode ser uma partícula preciosa para mim. Tudo, para quem escreve. Dou, aliás, esse conselho sempre. Conselho sempre para a Livia, que é escritora também e está sempre comigo. Ela sabe como é que eu penso e a gente trabalha juntas sempre. Mas é isso. Esse é o meu modus operandi. É o modo de trabalho meu, né? Eu sou uma escritora de fôlego curto. Eu não sei escrever romances de 500 páginas. Não consigo. Então, eu digo que mesmo os meus romances... Não são muitos, mas eu tenho alguns. Mesmo eles são, eu considero que são pequenas junturas, histórias em cima de histórias de contos. Não é assim, porque você sabe que, para ser um livro, você tem que determinar o gênero, por causa da biblioteca nacional. Você tem que dizer se é de contos, se é de romances, se é de poemas, aqui na ficha do livro. Se não tiver essa ficha, não é livro. Um livro sem a ficha bibliográfica não é livro. Então, você tem que dizer. Então, eu aproximo o gênero que eu acho que mais acompanha. Por exemplo, Memórias das ruínas de Creta é contos, o que eu mostrei, o Piana, romance. Mas, de crônica, eu tenho também um chamado Guananira, que é sobre Vitória, a cidade. Guananira é o primeiro nome desta ilha, quer dizer, Ilha do Mel, em Tupi. Eu chamei de Guananira e eu falo da minha impressão de exilada. Ele foi feito todo em São Paulo e batia aquela saudade. Aí, a minha partícula preciosa era a saudade. E aí, é isso.
P/1 – Era isso que eu ia te perguntar. Se você se lembra de alguma crônica e qual que foi a partícula preciosa?
R – De qualquer conto?
P/1 – É. Algum que tenha te marcado muito.
R – A morte da atriz da Globo que se lançou atriz de novela. Me falhou o nome dela agora. Ela era... Eu até a conhecia. Ela estava sempre ali, em São Paulo, na Avenida Paulista, por ali, perto da Livraria Cultura. Ela se lançou... O marido dela morreu. Tinha morrido e ela estava muito só. Ela se lançou do décimo andar de um prédio e morreu. E era uma pessoa muito legal. Me desculpe, mas eu não me lembro o nome dela agora. Mas isso me marcou. Solidão. Pessoa se matar de solidão. Isso foi uma partícula preciosa. E aí eu trato esse livro como um roteiro de cinema. A abertura dele é como assim uma tomada do alto. Um plongê, que a gente chama em cinema, né? Você bota a câmera aqui e filma o que está lá embaixo. Isso é plongê ou contra-plongê, que é o contrário. Olha eu dando aula de cinema [risos]. Mas é isso. É partícula preciosa de qualquer coisa. Às vezes, fica latente. Não é no momento, mas lá uma hora, ela vem à tona e espeta meu coração. E a imaginação... Pá! E eu desenvolvo alguma coisa. Agora mesmo, o romance novo não é bem um romance, é quase uma novelinha. Novela tem que ter... Se você tiver 40 páginas, é novela. Também tem isso. Eu sou escritora profissional, então eu sei todos os detalhes da carreira, da minha profissão. E a minha nova história é sobre uma menina desde o nascimento dela até ela virar quase moça, ou seja, até a adolescência. E essa passagem da mulher desde o nascimento até ela sentir o primeiro amor da vida dela, a primeira emoção amorosa dela, é que está ali na vida dessa menina e a personagem é sem nome. A menina, sem nome, porque o pai queria um garoto, como todo o bom senhor burguês, mas ela vem menina. Aí, ele decide: “Então, ela não vai ter nome. Vai ser sem nome”. E por aí vai.
P/1 – Uau!
R – Deve sair na primavera. Tomara. E é a história da menina e de quando ela virou quase moça.
P/2 – E o convite para ser a primeira secretária de Cultura do estado de Espírito Santo?
R – Foi muito curioso. Eu estava hospedando minhas aulas, tranquila, que nem aquela bela Inês do Camões, né, que estava posta em sossego no poema de Camões: “Estava, linda Inês, posta em sossego”. Assim estava eu. Quando toca o telefone, eu vou atender. Era o secretário da Fazenda do Estado falando comigo, que ele era meu amigo, Rogério Medeiros, um grande fotógrafo. Um grande fotógrafo. Com Alzheimer em último grau, de doer o coração da gente. Aí ele: “Bernadette”, ele falava assim meio arrastado, “Nós estamos te esperando aqui”, “Para quê?”, “Porque o Bernardo vai criar a Secretaria de Cultura e seu nome foi o indicado. Nós nos reunimos, pensamos em você”, “Mas eu estou dando aula aqui na USP. Como é que eu vou poder estar aqui e lá?”, “Mas é o Espírito Santo. Sei que você ama o Espírito Santo”, “Tá bom, eu vou”. Peguei primeiro o voo, depois e eu fazia assim: eu acomodava minhas aulas. Depois das aulas, eu pegava o voo e vinha. Aí, aceitei. Fui Secretária de Cultura. Fiz o possível, porque a Secretaria, a parte que cabe neste latifúndio, a Secretaria de Cultura, é muito pequena. Então, verba, tamaninho assim. Mas, de toda maneira, a gente fez alguma coisa. Me rodeei de gente jovem e velha ao mesmo tempo. Me rodeei de gente que tinha paixão pela cultura. Ninguém tinha figurão nenhum. E até hoje, eles formam uma equipe, porque eu vejo que eles se entendem. Nasceu lá, na minha Secretaria de Cultura. Fizemos algumas coisas. Fiquei dois anos só. A política mudou e tal e Patati Patatá. E aliás, eu dei graças a Deus, quando mudou, porque eu já estava muito cansada, sobretudo dos assédios de deputados, que todo dia estavam lá: “É a nossa verba para não sei o quê. Olha, secretária, nós estamos…”. Menina, como deputado que atrapalha a gente. A gente que está no Executivo. É terrível, mas, de toda forma, fiquei amiga de muitos, né? E me saí bem. O governador lamentou. Ele me cortou, claro. Ele me demitiu como demitiu os outros. Ele mudou o secretariado, depois de dois anos. Alguns já estavam há mais tempo até. Eu que só estava há dois anos. Eu e a de Educação, também uma grande professora, que também entrou na leva, mas por força de política, pressionando. Isso acontece em todo o campo. Nós somos amigos até hoje. O governador e o ex-governador, somos amigos mesmo, até de WhatsApp. É isso.
P/1 – Bernadette, você morou fora?
R – Morei na França, para fazer o pós-doutorado.
P/1 – Como foi esse momento?
R – Eu adoro Paris. É muito bom. A França é legal. Eu cheguei lá num momento bem interessante. Meu companheiro é preto. E a França estava num movimento contra os africanos, os imigrantes africanos. Então, tem uma dessas historinhas que eu contei ao longo de toda essa bela entrevista que nós fizemos. Chegamos em Paris no outono. É a época das grandes mostras de arte, de muito teatro, aquela coisa toda. Estava assim. E nós tínhamos esquecido de fazer reserva, porque fomos fiados num hotelzinho que a gente já conhecia. Eu e ele. Então, com muita luta, até uma garota que era capixaba, filha de um taxista daqui, que era modelo na Escola de Belas Artes. Ela posava nua. Era muito bonita. Eu fui para casa do meu orientador de pós-doutorado, bati na porta e disse: “Estou sem entender para onde é”. Ele abriu a porta, nós entramos e lá ficamos até jantamos. Quando o telefone tocou, que era a menina dizendo: “Conseguiu um hotelzinho. Vocês querem ir imediatamente?”. Juntamos tudo e fomos pro hotelzinho. Bem, aí vem a história. Exatamente essa senhora, dona do hotelzinho, era racista. Então, quando eu apareço, uma senhora, não tinha cabelo branco ainda, meu cabelo ainda era ruivo, ao lado daquele belo príncipe africano. Ela nos olhou como quem olha um casal escandaloso, mas, tudo bem, ficamos lá. No café da manhã, ela veio com o café e jogou o café em cima do meu companheiro. A xícara de café. “Pardon, Pardon”. Vi que foi de propósito. Imediatamente, fechei a conta e fui embora. Aí, fomos para casa da secretária do meu orientador, Michel Martezoli, era o orientador da Sorbonne, que tinha um apartamento e alugava quartos. É muito comum isso para quem era estudante de lá. Aí, ficamos lá, o tempo todo que eu fiz. Depois, no outro ano, a gente veio embora, mas eu aproveitei muito Paris. Então, foi assim que eu fui. Mas a indicação do meu nome foi o Muniz Sudré, que tinha sido o meu orientador na UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] e ele sabia que a França tinha aberto bolsas de estudos, a Cofecub [Comitê Francês de Avaliação da Cooperação Universitária com o Brasil], como a gente chamava. Ele me orientou, eu fiz a prova de francês, eu fazia a aliança, eu fiz francês e português na graduação. E fomos. Foi um ano maravilhoso, aquela coisa toda, mas, seguindo essa trilha acadêmica de escola, fui pro pós-doutorado. Como a minha tese de doutoramento tinha sido em cima do Cinema Marginal Brasileiro, lá ele se interessou muito pelo Cinema Marginal Brasileiro. E aí, foi a sopa no mel. Eu fiz tudo muito bonitinho, muito bem e saí de lá com a diploma de pós-doutora embaixo do braço. É isso.
P/2 – Eu queria retomar uma parte que é de uma entrevista, caso você queira contar um pouquinho mais para gente. Você estava falando que, após a sua separação, você se tornou dona de si.
R – É.
P/2 – Eu queria, se você pudesse, falar um pouquinho mais desse momento da sua vida, de perceber e se tornar dona de si.
R – É muito interessante, porque nós, mulheres, estamos sempre adiando esse momento. Dessa percepção que você pode, sem desdouro pro outro, nem para você mesma, firmar alguma coisa pela qual você anseia. E foi isso que eu fiz. Eu fui percebendo que eu queria ser escritora. O meu primeiro marido, já falei que Deus o tenha. Não vou dizer o resto, q que eu digo sempre. Que Deus o tenha e não traga nunca mais [risos]. Mas isso é uma brincadeirinha entre ele, que já está lá, que já morreu, e eu. Mas com todo respeito, viu, Senhor? De toda maneira, eu fui percebendo. Ele era uma pessoa excelente, já falei isso, excelente família, família boa, gente boa, gente boa, gente educada, gente querida até, bem querida. A irmã dele era a melhor amiga da minha tia, uma tia muito querida. E tudo bem. Gente do interior, mas gente boa. Educada e tal e tal. Mas ele não queria que eu escrevesse. Então, veja, a mulher, às vezes, ela tem que ver por trás de pequenas coisinhas essa incompatibilidade e ela tem que se situar, porque, senão, ela vai ser infeliz a vida toda. Não adianta você fazer a vontade do marido. Isso é uma coisa muito antiga. Agora, então, com a geração Z, eu vejo, pela minha neta, Vitória, bem resolvida no namoro dela. E eles são outra história. Nem a geração de 80, que é a geração de Lívia, faz isso que a geração Z faz, em termos de ela se apropriar dela. Eu estou achando isso muito legal, inclusive. E meu filho teve que engolir, porque você sabe como é pai de menina, né? Teve que engolir. Mas, de toda maneira, essa pequena incompatibilidade, dizer que “Mulher minha não escreve, não, pode até publicar um livrinho de poemas, tudo bem, mas estar de parceria com outros escritores”, porque tinha um amigo, um grande amigo meu, o Fernando Tatagiba, e nós íamos publicar um livro juntos. Aí, meu primeiro marido, meu ex-marido, sei lá o que, meu finado marido, implicou com isso. “Não, não pode”. Aquilo foi somando, até que eu resolvi. Eu disse: “Não, não pode ser assim”.
P/1 – Você se lembra desse momento?
R – Lembro desse momento.
P/1 – E resolveu?
R – Resolvi.
P/1 – Como foi?
R – Eu não tinha ainda, não tinha outra pessoa na minha vida, por isso que eu disse que sou dona de mim. Essa outra pessoa, que está comigo até hoje, que é o amor da minha vida, apareceu depois, na sala de aula, né? Mas apareceu depois. E eu resolvi. Eu peguei minhas coisas, meu carrinho e saí de casa, simplesmente. Liguei pros dois filhos, falei: “Mãe saiu e a mãe não vai voltar”. Meus filhos resolveram também ir para onde eu estava. Aí, entramos num acordo, tudo ocorreu bem. Claro, sempre tem uns percalçosinhos no meio, né? Mas tem coisinhas que a gente joga para escanteio. O importante é você tomar essa decisão, dizer: “Eu vou”, e claro que houve tentativa de reconciliação por parte dele e tal, mas eu estava muito firme, ou escritora ou nada. Então, eu resolvi: “Eu sou uma escritora”, como disse o professor aquele dia na sala de aula para mim. É assim, nós mulheres precisamos de ter essa resolução. É difícil, não é fácil, a família da gente sofre. Minha mãe chorou, aquela coisa toda, a minha filha, “Gente tão boa, não sei o quê”. Tudo bem, com todo respeito, continuo respeitando, desejo que seja muito feliz, mas eu quero fazer isso. E tem uma coisa muito engraçada, quando eu saí de casa, sem levar nada assim, nada, eu fui dar aula de quimono na UFES, mas era um quimono assim, meio hippie, meio hiponga. Então, estava muito bonito. E meus alunos lembravam disso, até bem pouco tempo encontrei uma: “Aí, eu me lembro de você entrando assim, radiosa, com um quimono lilás na sala de aula”. Nada me parava, eu fui em frente. É isso. Eu sou determinada, eu sou de reconhecer meus erros, mas eu não sou de recuar quando eu tomo uma decisão.
P/1 – E pensando na maternidade, quais são as dores e as delícias desse grande momento da vida de uma mulher?
R – É uma droga ter um filho, dói para caramba. Não é fácil, é um negócio terrível. Homem devia ter filho, para ele saber o que é a dor da maternidade. É uma dor horrorosa, gente. Você expulsa do seu corpo uma coisa, expulsa por um canal muito pequeno. O bebê tem uma cabeçona, em comparação com o seu canal vaginal, mas você expulsa o bebê e sofre muito com isso. Mas, na hora que você ouve aquele chorinho, gente, eu digo que é o minuto de ouro, que você esquece tudo. Nunca se pode explicar essa alegria depois de tanta dor. Você não rejeita seu bebê. É um pedaço seu que está ali, mas também, quando você perde esse pedaço seu, é muito doído. Eu perdi meu filho mais velho, num acidente de carro, foi muito terrível, 32 anos, se formando em Direito. Não estava nem no volante, estava do lado do motorista do trabalho. O motorista foi desviar de uma bicicleta noturna, bateu numa árvore, uma bobagem. Veja como a vida é rara e é preciosa a cada minuto, porque você não sabe, aqui num passo seu, numa descida de degrau, num golpe de volante, pode estar a morte te espreitando. Então, você tem que valorizar cada segundo da vida. Eu digo isso sempre pros meus alunos, sempre que eu posso: valorizar o hoje, valorizar o que você tem no momento, não ficar guardando dinheiro embaixo do colchão, porque vem um incêndio e acaba com o seu dinheiro todo. Isso aqui é uma espécie de metáfora. Eu digo assim: não ficar guardando para um futuro alguma coisa que você tem hoje, né? Você precisa viver isso. E o passado, ele dói, ele dói, com coisas saudosas, com lembranças, com mágoas, mas ele é o passado, o presente é o importante, e o futuro, como eu digo na TV, naquela propaganda do Banestes comigo, eu digo, o futuro sempre foi meu companheiro, e é mesmo, sempre foi. Ele está sempre aí, presente, presente, no presente, está o futuro, acho isso.
P/1 – E se tornar avó é diferente?
R – Se tornar avó é muito bom, porque não tem as dores do parto, né? A minha nora que sabe das dores dela. Eu tenho três netos. Meu filho, o que me ficou, que era assim, jeans rasgado, cabelo na cintura, motocicleta, está aí, vivo e bem. E o outro que ia se formar em Direito, todo certinho, inteligentíssimo, se foi. Mas meu filho, que está aí ainda, me deu três netos, um de cada esposa. Casou três vezes o danadinho, para você ver o que ele era, o que ele ainda hoje é. E tenho três bisnetos, um bebê lindo, um que é a inteligência, é menino, vivo demais, moram em Linhares, com o pai e a mãe, a mãe dos dois, e a menina, que é do primeiro casamento, também do meu neto, que está seguindo os passos do pai, mas eu espero que não sejam três. Duas é o bastante para ele. Mas eu tenho netos e bisnetos. E a neta, Vitória, que é a minha, meu bombom, meu bombonzinho, porque a mãe dela é filha de uma índia pataxó e o avô dela é preto. Como a gente diz, no sul da Bahia, retinto, o pai da mãe dela. Então, ela tem uma cor que é um negócio alucinante, ela é dourada, não é? É linda a minha neta, muito bonita, está fazendo advocacia, vai ser advogada, já diz assim brincando: “Olha, eu resolvo 3 mil aqui, ó”. Eu digo assim: “Você promete?”. Então, é isso. A minha vida de 87 anos é uma vida bem vivida, multiplicada, repartida, dividida, e isso é bom, é muito bom. Eu gosto de estar viva. Estou doentinha ou não, espertinha ou tristinha, isso acontece, né? Mas é bom estar viva, é bom olhar e dizer assim: “Poxa, fiz tanta coisa legal, eu sou legal”, e sou legal comigo mesma. Pode ter até alguém que não gosta de mim, não vou dizer que não, pode ter, tem, né, Lívia, será que tem? É raro, mas talvez tenha alguém, “Que mulher antipática” ou coisa semelhante, mas isso não me afeta, né? para mim viver é muito perigoso, como dizia Guimarães Rosa, mas é muito bom estar viva. E é meu sonho, é continuar escrevendo, permanecer viva, amar as pessoas, amar, amar sobretudo amar, porque a humanidade é muito cruel. A humanidade é muito pervertida às vezes, perversa, guerras, assassinatos, feminicídios, roubos, desavenças. A humanidade cria isso, como digo, A pata do rinoceronte branco, né, o terror que escorre dessa palavra humanidade, mas, ao mesmo tempo, você também é humanidade. Eu sou humanidade. Então, eu me incluo nesse terror também, e cabe a mim. dentro desse terror que a palavra me dá, fazer alguma coisa que sobreviva a esse terror, que traga frutos, que traga bem, que faça o bem. E o amor, essa palavra, é tão interessante, o amor é uma palavra, uma palavra que lateja, ela brilha. Às vezes dói, mas às vezes te dá uma alegria enorme. Então, mas amor aqui não é esse amor comum, eu digo assim, amor como um sentimento, amor pela literatura que eu tenho, amor pela minha profissão de escritora, amor pelas pessoas que me cercam, amor por vocês que estão aqui. Se eu aceito falar aqui, sabendo que várias pessoas vão ver, é porque eu tenho amor por isso, amor pelas pessoas. Acho muito importante.
P/1 – E o que a literatura te ensina?
R – Muita coisa, muita coisa. A gente aprende muito com os livros, com os escritores. Meu escritor predileto é o Vladimir Nabokov. É um russo que, com a Revolução Russa, saiu da Rússia, porque a família dele era nobre. E você lembra que os nossos coleguinhas da Rússia, quando houve a Revolução, de
outubro, mataram até o Tsar, né? Com as suas filhinhas, lembra da história de Anastásia, que até disseram depois que Anastásia estava viva, matou o Tsar, a Tsarina, os filhos. Mudou, mudou, mudou tudo lá, mas é isso. Nabokov foi embora pros Estados Unidos. Lá, foi dar aula e foi com a mãe, venderam todas as suas joias, porque a família era nobre, tinha muita coisa, e nunca mais voltou à Rússia, mas ele tem romances maravilhosos. Todo mundo conhece Lolita, é o único que todo mundo cita, mas não, ele tem romances. Lolita foi um achado na vida dele, que deu dinheiro para caramba, mas, nossa, ele tem, é um escritor que eu gosto. Ah, e José Lutzenberger também, com esse mundo fantástico, que atravessa a realidade com os livros dele. Eu gosto muito. Eu gosto muito de um americano chamado Donald Barthelme, contista, um contista de primeiríssima linha pós-moderno. Eu aprendi muito com ele. Veja, aprendi técnica, aprendi que o conto não é aquela historinha com começo, meio e fim, como Tchekhov faz, data venia, porque Tchekhov é um grande contista, mas o Barthelme subverteu isso tudo. E eu digo que minhas histórias são umas verdadeiras omeletes de tudo, mistura tudo ali, aprendi com Barthelme. A gente aprende, quando lê, cada vez mais. Então, é isso, técnica. Eu tenho uma técnica, minha, é difícil, como disse o meu amigo: “Lê uma crônica sua e já sabe que é sua. Então, é a croniquete, crônica da Bernadette”. E me dá muito prazer escrever, viu? Muito prazer. Tem gente que diz assim: “Ah, eu sofro para escrever”. Poeta então adora dizer isso, né? “Ah, é um sofrimento”. Faz aquela sofrência, mas não é não. É muito gostoso escrever. É muito boa, a mãe literatura, como eu chamo, é muito boa, é muito benéfica, distribui benesses para você. Então, eu gosto muito de ser escritora.
P/1 – E durante a sua infância, teve algum livro que tenha te marcado muito?
R – Muito, Alice, de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Esse livro é uma coisa, maravilhoso. Alice não é um livro para criança. Você pode ler em dupla visão, mas para mim é o máximo. Alice através do espelho, que ela viu lá, eu adoro também, mas eu gosto do País das Maravilhas. Gosto muito, marcou muito. E também Montero Lobato, com aquelas aventuras, os Trabalhos de Hércules, que ele tinha, havia uma coleçãozinha. Eu ficava sempre embaixo da mesa, até na escola, eu ia para baixo da mesa da diretora. A diretora era minha tia, e eu ia para baixo da mesa para ficar lendo os livrinhos da estantezinha da escola. E ali, eu li os trabalhos de Hércules, assimilei toda essa coisa. A literatura alheia me ensinou muito e está muito presente na minha literatura. Ninguém faz nada no vazio, nós todos somos herdeiros, somos de riquezas para nossa profissão. Nós todos devemos algo a alguém sempre, e reconhecer isso é muito legal.
P/1 – Como é seu dia a dia hoje?
R – É o dia a dia de uma escritora. Oito horas no mínimo em cima do computador escrevendo.
P/1 – Todos os dias?
R – Todos os dias. Por que eu estou com lesão no braço? Graças ao computador, todos os dias. A minha crônica é quinzenal no jornal. É um exercício que eu faço, um exercício. Estou sempre com um livro novo. Eu publiquei A pata do rinoceronte em 2024, O Ooparts em 2025, e agora em 2026 vem A história da menina. E eu estou sempre publicando. Eu tenho 16 livros. Eu tenho um livro que eu prezo muito, que se chama Tormentos ocasionais, é da Companhia das Letras. É da editora mais bem calibrada do país, né? Mas é um livro que muita gente não entendeu, acha muito hermético. Por quê? Eu uso muito a linguagem do tu, tu, tu, tu, aí o próprio editor meu, o Luizinho Chuvartes, ele falou: “Vamos botar você, não tu, porque você não é da gaúcha”. Aí, eu falei: “Então, eu retiro daqui e ponho em outra editora, porque o tu ali é a segunda pessoa da linguagem, não é ninguém, mas ele pensa”. Lendo parece que estou me referindo a alguém, mas não, é a própria linguagem. A linguagem que é importante nesse sentido aí. E tem um outro livro que causou espécie também, que se chama Aqui começa a dança. É de uma companhia, de uma editora, desculpe, chamada Marco Zero, do Rio. Era do Rio, depois foi para São Paulo. Que foi considerado pornográfico. É legal, eu virei a pornógrafa. É muito legal, o livro não tem nada, não tem nada de pornográfico, nada. Eu dediquei até a minha netinha, a primeira netinha que morreu. O livro é dedicado a ela. Então, foi ótimo, porque a própria Fernanda Montenegro entrou em nossa defesa. Foram três autores que, umas senhoras, conselheiras do Ministério da Educação, resolveram, porque a editora vendeu livros para essa coisa escolar, né, que as editoras vendem. Aliás, você não vê um tostão, o autor, mas as editoras vendem. As senhoras acharam o livro pornográfico. Eu estava em Paris, aí tinha vindo ao Brasil para fazer qualquer coisa, estava na casa do meu filho, esse caçula que eu ainda tenho, e ligo a TV. Na voz do Alexandre Garcia, que na época estava na Globo, ele diz assim: “Nos porões do Ministério da Educação, há milhares de livros pornográficos, segundo senhoras do comitê tal, tal, tal”. Eu disse: “Gente, o Brasil está adiantado, deram Carlos Zéfero pras criancinhas”. Carlos Zéfero era um escritor de desenhos pornográficos, na minha cabeça era aquilo. Aí, quando ele começa a dizer o nome dos autores, eu digo: “Eu?. Eu dormi sem ser pornográfica e acordei pornográfica?”. Foi muito interessante isso, mas o livro não tem nada de pornográfico. É um livro tão bonitinho, dedicado à minha neta. Mas tenho isso na minha carreira, e várias pessoas a defenderam. E também teve uma vantagem. Eu saí de norte a sul do Brasil falando sobre pornografia e literatura. Foi muito bom. É isso.
P/1 – E Bernadette, quais são os seus sonhos?
R – Eu já falei. Eu quero continuar viva e escrevendo, sempre, e quero que o mundo seja melhor, por favor. Por favor, que tenhamos paz, que as pessoas se entendam. Bom, eu vivi muitas coisas, sobretudo porque sou casada com um preto. Eu vivi até barrada de entrar no elevador com ele, no elevador social. O porteiro: “Não, não. O elevador de vocês é aquele ali”. Resposta minha: “Eu pago o seu salário, filho”, porque eu tinha um apartamento alugado, tive que ser grossa. Mas eu vivi muita coisa, de bem e de mal, mas isso tudo faz parte da vida da gente, né? Então, meus sonhos são continuar viva, até onde eu puder, e escrevendo, escrevendo, nem que seja as croniquetes.
P/1 – E a senhora gostaria de contar alguma passagem que não tinha perguntado ou deixar alguma mensagem?
R – Não, acho que o que a gente falou aqui são mensagens já, que eu fui deixando aos pouquinhos. E adorei as perguntas, ótima entrevistadora, parabéns. E adorei também os meninos aqui no câmera, desse belo câmera que nós temos aqui. Um querido ali, sentadinho, me ouvindo. E que bom, estou feliz de estar com vocês, estou feliz. Muito obrigada.
P/1 – Nós que estamos. E para finalizar as perguntas com uma bem rápida, se você pudesse escolher uma palavra que represente você ou a sua literatura, qual seria?
R – Imaginação. Literatura para mim é imaginação pura.
P/1 – Como foi para você lembrar, em duas etapas, das suas histórias, das suas memórias e compartilhar com a gente?
R – Foi uma experiência muito gostosa, deliciosa, porque a memória, ela vai sendo espetada também, ela vai largando assim, né? Você viu que eu sou caótica, eu misturo tudo, mas a história puxa a história. Então, eu gostei muito, estou muito agradecida. Foi uma experiência bem legal, mais uma experiência na minha vida.
P/1 – Querida, muitíssimo obrigada de coração.
R – Eu que agradeço. Eu que agradeço mesmo. A Lívia, minha fiel assessora, fez meu curso de Cinema na USP que eu dei lá, pós-graduação, está sempre firme, e é escritora também, né? A Lívia escreve, tem livro de poema, pelo menos ela já fez. Agora, ela está investindo em contos, com minhas bênçãos, porque eu digo sempre: sai da frente que atrás vem gente.
P/1 – Uau! Acho que nem tem mais o que a gente falar. Muito obrigada.
R – Imagina!
--- FIM DA ENTREVISTA ---
Recolher