"Uma arma na mão e um ódio no coração"
Gabriel sempre fora um filho muito amado. Tinha toda a atenção que uma criança exige, atendida sem contestação ou limites. Será talvez isto? Excesso de liberalidade? Cultivar um sentimento de onipotência desde pequeno?
Seja isto ou aquilo, fato é que na escola tudo era diferente, oposto mesmo: Gabriel era desprezado pela sua arrogância e egoísmo. Tolerado pelos professores, provocado e ridicularizado pelos colegas mais velhos e maiores, temido pelos menores, Gabriel traçou um plano:
- Eles não perdem por esperar, minha vingança não será jamais esquecida Irão me respeitar a qualquer preço Sabia que seu pai tinha uma arma em algum canto secreto do quarto e me procurou naquele feriado em que seus pais viajaram para visitar uma tia doente.
4 horas após suas buscas encontrou-a: embalada, ainda na caixa, um estojo soberbo, em veludo vermelho, madeira de lei, ornamentos dourados com prata, enfim uma jóia, um presente digno de Prometeu...
Retirou-a, colocou no lugar uma enorme tesoura para não deixar a caixa vazia, vai que seu pai pegasse nela... E colocou tudo no lugar, apagando o rastro.
Passou o resto do dia arquitetando e desfazendo planos, plantas e roteiros de falas e diálogos com seus algozes e inimigos imaginários. Pronto Faria amanhã mesmo Acordou, tomou um banho demorado, reviu suas táticas e estratégias. Queria algo inesquecível, algo como um medo e respeito digno de sua pessoa estampada nos olhos de todos os seus idiotas escolhidos a dedo.
Sinal do intervalo, hora do recreio, lanches e odores diversos, contraditórios, confusos. Suores e corre-corre, nos banheiros as conversas de sempre, os grupos e amigos de sempre, sem quebra de rotina, exceto por um estampido, ou melhor, 4
Gritos, choros, atropelos e fugas caóticas: o pátio esvaziara... Em perspectiva, apenas uma poça de sangue, ou melhor um pequeno córrego, filete que começava largo e ia se estreitando como a própria vida, só a...
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"Uma arma na mão e um ódio no coração"
Gabriel sempre fora um filho muito amado. Tinha toda a atenção que uma criança exige, atendida sem contestação ou limites. Será talvez isto? Excesso de liberalidade? Cultivar um sentimento de onipotência desde pequeno?
Seja isto ou aquilo, fato é que na escola tudo era diferente, oposto mesmo: Gabriel era desprezado pela sua arrogância e egoísmo. Tolerado pelos professores, provocado e ridicularizado pelos colegas mais velhos e maiores, temido pelos menores, Gabriel traçou um plano:
- Eles não perdem por esperar, minha vingança não será jamais esquecida Irão me respeitar a qualquer preço Sabia que seu pai tinha uma arma em algum canto secreto do quarto e me procurou naquele feriado em que seus pais viajaram para visitar uma tia doente.
4 horas após suas buscas encontrou-a: embalada, ainda na caixa, um estojo soberbo, em veludo vermelho, madeira de lei, ornamentos dourados com prata, enfim uma jóia, um presente digno de Prometeu...
Retirou-a, colocou no lugar uma enorme tesoura para não deixar a caixa vazia, vai que seu pai pegasse nela... E colocou tudo no lugar, apagando o rastro.
Passou o resto do dia arquitetando e desfazendo planos, plantas e roteiros de falas e diálogos com seus algozes e inimigos imaginários. Pronto Faria amanhã mesmo Acordou, tomou um banho demorado, reviu suas táticas e estratégias. Queria algo inesquecível, algo como um medo e respeito digno de sua pessoa estampada nos olhos de todos os seus idiotas escolhidos a dedo.
Sinal do intervalo, hora do recreio, lanches e odores diversos, contraditórios, confusos. Suores e corre-corre, nos banheiros as conversas de sempre, os grupos e amigos de sempre, sem quebra de rotina, exceto por um estampido, ou melhor, 4
Gritos, choros, atropelos e fugas caóticas: o pátio esvaziara... Em perspectiva, apenas uma poça de sangue, ou melhor um pequeno córrego, filete que começava largo e ia se estreitando como a própria vida, só a pólvora era eterna e resistia a toda efemeridade.
Ninguém nunca esqueceu até hoje. No pátio, há uma placa de bronze em homenagem às vítimas, 4 garotos que tiveram seus futuros abreviados por quem se sentia na condição de um Deus, ou melhor, um deus irado e ciumento como o do velho testamento. A frustação de quem viveu aqueles dias é a de perceber que um sentimento enorme, imenso e incontrolável de fazer justiça com as próprias mãos, de cumprir o olho por olho, dente por dente, está cada vez subjulgando o "Amai os vossos inimigos, Amai o vosso próximo como a vós mesmos". Até quando seremos espectadores desta inversão de papéis e valores?
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