Projeto Heranças e Lembranças
Depoimento de Benjamin Roitman
Entrevistado por Karen Worcman
Rio de Janeiro, 12 de julho de 1988
Realização Museu da Pessoa
Entrevista: HL_HV031
Revisado por Bruna Ghirardello de Oliveira
P/1 - ...E a medida que o senhor for se lembrando das coisas também pode me dizer, tá? Estão aqui.
R - Você vai guardar?
P/1 - Eu vou guardar, não se preocupe não.
R - Isso é muito interessante esse grupo. Muito interessante. "Chalutzim". De 1930. Sabe o que é "Chalutzim"?
P/1 - Sim. Os jovens que iam para Israel, né?
R - Primeiros jovens que foram para Israel.
P/1 - Para colonização, né?
R - Isso.
P/1 - E o senhor fez parte de algum grupo desse?
R - Eu não. Eu não fiz parte não.
P/1 - Então, eu vou deixar aqui...
R - Eu fui lá quando estava tudo pronto. (risos)
P/1 - O senhor foi pra Israel. Mas vamos voltar mais pra trás. Eu gostaria que o senhor me contasse um pouco de onde o senhor nasceu, né, e com o que trabalhava seu pai.
R - Bom, eu nasci na aldeia chamada Chersemi. Esta gravando?
P/1 - Esta gravando. Mas não tem problema nenhum. Como era a aldeia que o senhor...
R - Aldeia chamava-se Chersemi. Chersemi.
P/1 - E como é que foi? Era perto de onde essa aldeia?
R - Kishinev [atual Chișinău, capital da Moldávia]. Até os 12 anos, trabalhava em casa, ajudava a mãe.
P/1 - Essa aldeia era uma aldeia grande, era pequena, era como?
R - Regular.
P/1 - Regular. E o seu pai trabalhava em quê?
R - Olha, meu pai era negociante. Ele embarcou para a América em 1914. Eu só me lembro dele depois que eu vim pro Brasil, você entendeu? Lá na Europa, quando conheci ele, que ele embarcou em 1914.
P/1 - E o senhor nasceu quando?
R - Em 1908. Eu tinha seis anos.
P/1 - 1908. Quando o senhor nasceu, exatamente? Era em que mês?
R - Como?
P/1 - Quando, em que mês, qual é a data do seu aniversário?
R - Maio. 16 de maio.
P/1 - 16 de maio de 1908. Então, quando ele emigrou, o...
Continuar leituraProjeto Heranças e Lembranças
Depoimento de Benjamin Roitman
Entrevistado por Karen Worcman
Rio de Janeiro, 12 de julho de 1988
Realização Museu da Pessoa
Entrevista: HL_HV031
Revisado por Bruna Ghirardello de Oliveira
P/1 - ...E a medida que o senhor for se lembrando das coisas também pode me dizer, tá? Estão aqui.
R - Você vai guardar?
P/1 - Eu vou guardar, não se preocupe não.
R - Isso é muito interessante esse grupo. Muito interessante. "Chalutzim". De 1930. Sabe o que é "Chalutzim"?
P/1 - Sim. Os jovens que iam para Israel, né?
R - Primeiros jovens que foram para Israel.
P/1 - Para colonização, né?
R - Isso.
P/1 - E o senhor fez parte de algum grupo desse?
R - Eu não. Eu não fiz parte não.
P/1 - Então, eu vou deixar aqui...
R - Eu fui lá quando estava tudo pronto. (risos)
P/1 - O senhor foi pra Israel. Mas vamos voltar mais pra trás. Eu gostaria que o senhor me contasse um pouco de onde o senhor nasceu, né, e com o que trabalhava seu pai.
R - Bom, eu nasci na aldeia chamada Chersemi. Esta gravando?
P/1 - Esta gravando. Mas não tem problema nenhum. Como era a aldeia que o senhor...
R - Aldeia chamava-se Chersemi. Chersemi.
P/1 - E como é que foi? Era perto de onde essa aldeia?
R - Kishinev [atual Chișinău, capital da Moldávia]. Até os 12 anos, trabalhava em casa, ajudava a mãe.
P/1 - Essa aldeia era uma aldeia grande, era pequena, era como?
R - Regular.
P/1 - Regular. E o seu pai trabalhava em quê?
R - Olha, meu pai era negociante. Ele embarcou para a América em 1914. Eu só me lembro dele depois que eu vim pro Brasil, você entendeu? Lá na Europa, quando conheci ele, que ele embarcou em 1914.
P/1 - E o senhor nasceu quando?
R - Em 1908. Eu tinha seis anos.
P/1 - 1908. Quando o senhor nasceu, exatamente? Era em que mês?
R - Como?
P/1 - Quando, em que mês, qual é a data do seu aniversário?
R - Maio. 16 de maio.
P/1 - 16 de maio de 1908. Então, quando ele emigrou, o senhor nem lembra dele, então, né?
R - Só o conheci bem quando ele veio ao Brasil.
P/1 - Ele emigrou pro Brasil?
R - Emigrou pro Brasil, levou toda a família.
P/1 - Quer dizer, ele era negociante. Ele negociava o quê?
R - Compra e venda de cereais. Cereais, com que todos os judeus se ocupavam.
P/1 - Mas... O senhor pode me contar. O senhor nasceu, logo depois ele emigrou. O senhor ficou lá com a sua mãe. E como é que foi?
R - Isso. Ajudando ela na arrumação da casa. E ela... Nós éramos nove irmãos. _________ cada vez ia um pra estudar em Rascov [Rostov do Don, cidade russa às margens do Mar Negro], na casa da tia. De lá, ia pra Odessa pra ir pra faculdade.
P/1 - Pra ir pra faculdade?
R - Primeiro em Rascov, Talmud-Torá. Depois ia pra Odessa, pra escola técnica. E depois ia... E aprendi a ler lá.
P/1 - Ia pra lá pra casa das tias, né, estudar na Talmud-Torá...
R - Depois passei pra Odessa.
P/1 - E o senhor foi estudar o que em Odessa?
R - Mecânica.
P/1 - Era uma escola técnica lá? Não era uma faculdade, né, era uma escola...
R - Escola técnica.
P/1 - E depois o senhor iria pra uma faculdade?
R - Não deu tempo. Embarquei pro Brasil em 1920.
P/1 - Em 1920, o senhor veio pro Brasil? Ah, 1925.
R - E nem sei como embarquei pro Brasil.
P/1 - E o senhor tinha nove irmãos?
R - Éramos nove.
P/1 - Certo. Eram nove. Então, o senhor tinha oito irmãos.
R - Um pereceu na Revolução Russa.
P/1 - De quê?
R - Stálin matou.
P/1 - E isso quando? Logo... Ah...
R - Em 1936. Os outros não.
P/1 - Dos nove, quantos vieram pro Brasil?
R - Todos.
P/1 - Todos? Em 1925 vieram todos?
R - Não, não, não. Só vieram em 1940. Espaçadamente.
P/1 - Então, vamos começar lá do começo de novo. O senhor nasceu, ajudava a sua mãe na manutenção da casa. E cada vez... O senhor era o irmão mais velho, o irmão do meio? Como era? Era o primeiro irmão?
R - Como é?
P/1 - O senhor era o irmão mais velho da casa? O mais novo?
R - Era o mais novo.
P/1 - O senhor era o mais novo.
R - O mais novo. Na Odessa ficava um. Assim que chegava à idade de ir a Talmud-Tora, ia pra Rascov.
P/1 - Certo. E depois ia estudar alguma coisa, né?
R - Claro.
P/1 - E o senhor vivia de quê? O seu pai mandava dinheiro daqui do Brasil pra lá?
R - Não, não. Eu trabalhava com um irmão.
P/1 - Trabalhava em quê?
R - Fazia fivelas.
P/1 - Faziam-se fivelas? Lá na sua cidade?
R - Em Odessa.
P/1 - Ah, em Odessa. Depois que o senhor...
R - Você escutou falar em Odessa?
P/1 - Já escutei falar sim.
R - Uma cidade grande. Progressiva.
P/1 - E o senhor estudou... Aí o senhor ficou lá, trabalhava com seu irmão...
R - Eu estudava na escola técnica. Mas não terminei, não tinha diploma. Porque era a hora de embarcar.
P/1 - E por que que o senhor quis embarcar pro Brasil?
R - Porque toda a família já estava no Brasil. Toda minha família. Toda. Minha mãe, meu irmão. Toda. Eu era o único que fiquei lá.
P/1 - A sua mãe, pelo que eu vi na cédula de identidade, ela não veio pro Brasil. Ela foi pra...
R - Não. Ela esteve no Brasil também.
P/1 - E depois foi pra Argentina?
R - Ela foi. Porque eu tinha dois irmãos na Argentina. Mais velhos. Então, ela estava cambiando Brasil, Argentina.
P/1 - O seu pai morava aqui no Brasil?
R - Meu pai morava no Brasil
P/1 - E ela veio encontrar ele?
R -. Com mais três. __________ Só falta um que não está aí. Muito bem.
P/1 - Então... O seu pai era muito religioso? Ou a sua mãe?
R - Não. Era homem simples.
P/1 - E ele veio pra cá pra ganhar dinheiro.
R - Não, porque aqui era vida boa. Clientela. Sabe o que é clientela?
P/1 - Sei, sei.
R - Vendia tecido.
P/1 - E ele veio pra isso. A vida lá era muito dura?
R - Regular. Pra quem estava acostumado, estava boa. Pra quem estava acostumado, estava boa. Agora, pra quem pra quem não está acostumado...
P/1 - Nessa aldeia que o senhor nasceu existiam muitos judeus ou?...
R - Tinha umas dez famílias.
P/1 - Judias. E o resto não. O resto não era judeu?
R - Claro. Cristãos.
P/1 - Eram cristãos. Já havia algum problema de anti-semitismo?
R - Não. não se falava nisso não. Era tudo gente pacata. Agora, passei... Depois de vir ao Brasil, passei um tempo em Aracaju, Sergipe.
P/1 - Ah. O senhor emigrou para cá, veio pra cá, veio para Aracaju primeiro, então.
R - Passei uns cinco anos em Sergipe. E também em Buenos Aires.
P/1 - Depois o senhor foi pra Buenos Aires?
R - Eu viajava.
P/1 - O senhor trabalhava em quê?
R - Aqui no Brasil? Clientela.
P/1 - E por isso que o senhor viajava tanto?
R - No princípio, nessa época, entre 1925 e 1930. Depois montei uma fábrica, nessa loja aqui. Até que nasceu uma fábrica grande. Tarzan.
P/1 - Como era o nome da fábrica? - Uma fábrica de quê?
R - De móveis. Tarzan.
P/1 - Onde ficava essa fábrica?
R - No Engenho Novo.
P/1 - Mas no começo o senhor trabalhava com clientela, né?
R - Aqui. Contra meu gosto.
P/1 - O senhor não gostava não?
R - Contra meu gosto.
P/1 - E por que o senhor, então, ia para Buenos Aires? Pra vender coisas lá também?
R - Dois irmãos estavam lá estabelecidos.
P/1 - Sei. Aí o senhor ficava indo e voltando também.
R - É, se pudesse largar nesse instante para ir para Buenos Aires...
P/1 - Ah é? Eles ainda estão lá, seus irmãos?
R - Não. Só tem sobrinhos, tem três sobrinhos mais moços do que eu uns 3, 4 anos. Muito bem.
P/1 - Ai... O senhor casou lá ou aqui? O senhor casou?
R - Aqui. Por duas vezes.
P/1 - Casou por duas vezes. Com quem que o senhor casou?
R - Primeiro foi com Cima Filkenstein. Faleceu de câncer, em 1944. A segunda vez foi com a Rosa Lerner. Faleceu em 1984.
P/1 - Da sua primeira mulher, o senhor já conhecia ela lá? Ou o senhor veio conhecê-la aqui?
R - Não. Conheci ela aqui.
P/1 - Ah, conheceu ela aqui. A sua segunda mulher era daqui ou era de lá?
R - De Sukaron.
P/1 - Qual. A Cima ou a Rosa?
R - A Rosa.
P/1 - E o senhor também conheceu...
R - E a Cima também era de Sukaron.
P/1 - Todo mundo de Sukaron. E as duas o senhor conheceu aqui?
R - É e tenho mais dois filhos da Cima.
P/1 - Como é o nome dos seus filhos?
R - Nome? Samuel Roitman e Clarinha Chiniks. C-h-i-n-i-k-s.
P/1 - E o seu filho faz o quê?
R - Trabalha no setor bancário.
P/1 - E a sua filha?
R - Vendedora na H.Stern. Agora, eu estive três vezes na Europa, viajei a Europa toda.
P/1 - O senhor foi lá pra visitar a Europa?
R - E passeei ela toda.
P/1 - E...
R - Fui a Israel. Viajei quase um ano.
P/1 - E os seus tios, os irmãos, os parentes da sua mãe e do seu pai, eles continuaram lá na Bessarábia ou eles vieram pra cá também?
R - Se continuaram lá?
P/1 - É. O resto da família. Porque, pelo que o senhor disse, veio o senhor...
R - Todos vieram pra cá.
P/1 - Veio todo mundo pra cá? E por que emigrava todo mundo assim?
R - Naquele tempo não se fazia outra coisa, só emigrava. Você vê esses capitalistas, São Paulo, Tabacow e tudo, tudo era gente simples.
P/1 - Todo mundo de lá, né?
R - Todo mundo de lá. Quem chegou primeiro, abocanhou mais. Você tem pai e mãe?
P/1 - Tenho.
R - Você tem avó aqui?
P/1 - Avó aqui? Meu avô já faleceu. Mas...
R - Worcman. Que tem ”Arbeitsamt".
P/1 - O meu avô, ele faleceu. Ele era polonês. Era da Polônia. Por quê?
R - Não. Eu queria... Pensei que você tem alguém aqui. Eu estou confundindo Worcman com Arbeitsamt.
P/1 – Não, não é. É Worcman. Talvez seja outro nome.
R - Seu pai faz o quê? Agora sou eu que estou entrevistando. (risos)
P/1 – É, vamos voltar a entrevistar o senhor. (risos) Depois eu conto pro senhor, porque senão vai gravar minha vida, não interessa né. Eu queria saber mais da sua vida. E como era isso que o senhor trabalhava lá? Eu queria que o senhor me contasse um pouquinho da vida lá em Odessa, em Raskov.
R - Em Odessa é o seguinte. O meu irmão mais velho, um deles, montou uma fábrica de fivelas, artefato de metal. Claro, que eu era irmão, morava na casa dele, ele me dava comida e dormia, abrigo e tudo, então, eu trabalhava com ele. E trabalha com muita consciência. Nunca se estragava nada. Nunca. Nunca me descuidei do serviço. Até o dia que eu embarquei pro Brasil.
P/1 - E decidiu que o senhor ia embarcar pro Brasil. Foi o senhor mesmo?
R - Eu estou explicando. A minha família toda já estava no Brasil. Aí eu recebi uma chamada, uma chamada para vir, com passagem e tudo.
P/1 - Isso em 1925?
R - Aí eu tive que embarcar.
P/1 - Isso com quantos anos o senhor tinha? 15 anos?
R - 17 anos.
P/1 - 17 anos. E o seu irmão mais velho? Ele embarcou junto?
R - Qual irmão?
P/1 - Esse que o senhor morava com ele.
R - Devia ter uns 30 anos.
P/1 - Ah, e muito mais velho que o senhor, então.
R - É. É o segundo da família.
P/1 - Depois o senhor me dá o nome de todos eles? Se o senhor quiser, também não precisa tanto não.
R – Não, isso não interessa. Basta botar dois só.
P/1 - Então, diz.
R - Todos eles se radicaram em Buenos Aires. Gregório Roitman, o mais velho, também cursou a escola técnica em Odessa. Montou uma fábrica de artefato de metal.
P/1 - Lá em Buenos Aires?
R - Tudo em Buenos Aires.
P/1 - E o outro? Esse.
R - O outro, Leon.
P/1 - Também em Buenos Aires?
R - Se você botar Roitman... Ele mudou o nome no tempo da guerra, Olordoski.
P/1 - Por quê? Por que ele mudou de nome?
R - Porque ele era diretor do exército. Sabe como é naquele tempo _________, “se você for a Buenos Aires, fala comigo. Eu te recomendo o filho dele, Magnata.” E começou lá em Odessa.
P/1 - Começou em Odessa?
R - A fábrica começou em Odessa. Agora é a Magnata.
P/1 - Aqui em Buenos Aires.
R - Em Buenos Aires. Tem 900 operários.
P/1 - Nossa! E como que eles se deram tão bem? Por que o senhor acha que eles fizeram assim tanto dinheiro? Foi a situação da Argentina que ajudou? O que houve?
R - A indústria. Tendo a capitalizar o pessoal. Você trabalha hoje... Comprou por tanto, vendeu por tanto, fabricou, encheu. Ai sobrou. Então, cresce a indústria. E quando vê, já cresceu. Quando a pessoa abre a sua casa, muitas vezes chega a um ponto da casa, aí... Tudo abaixo. Tiveram sorte, pegaram um artigo bom para fabricar. Bastante praça. Mas a indústria tende a crescer. Olha São Paulo. Todos eles são ricaços. O que é? Indústria. Compra urna fazenda, uma peça de fazenda ________.
P/1 - O senhor me falou, não sei se o senhor gostaria de falar mais uma vez, mas que teve um irmão seu que Stalin matou, né. Mas isso foi em 1936. O senhor disse que era o único que estava lá na Romênia no fim, em 1925, e veio pra cá encontrar sua família. Quer dizer que ficou um irmão seu lá, então?
R - Não. Esse que morreu lá nunca veio pro Brasil.
P/1 - Ele ficou lá sempre?
R - Claro. Era comunista, dedicado ao Partido. Stalin matou milhões deles, não é só ele. Só isso.
P/1 - O senhor tem alguma lembrança de...
R - Ele era muito garoto.
P/1 - Ele?
R - É. No Exército. Mas, infelizmente, não foi o único.
P/1 - Não. Foi muita gente.
R - Não sei se você escutou falar na chacina de Stálin.
P/1 - Já. Já li bastante sobre isso.
R - Sempre levei uma vida boa, pacata, cumpridor do dever.
P/1 - Deixa eu lhe perguntar. Quer dizer que o senhor, atualmente... Aqui no Rio de Janeiro, o senhor chegou quando?
R - Quando?
P/1 - O senhor chegou ao Rio de Janeiro.
R - 1930.
P/1 - Em 1930. O senhor chegou ao Brasil, foi direto pra Aracaju?
R - Fui direto pra Aracaju.
P/1 - Por quê? Tinha gente da família lá?
R - A família toda estava lá.
P/1 - Ah, a família estava toda em Aracaju. E aí, quando o senhor veio pro Rio de Janeiro, a família também estava vindo pro Rio de Janeiro?
R - Não. Não. Eu me lembro, até no início me desliguei.
P/1 - Da família?
R - Fui procurar meu destino.
P/1 - E por quê? O senhor se desentendeu ou por que o senhor queria independência?
R - Não. Porque eu estava sonhando com indústria.
P/1 - Estava sonhando em fazer uma fábrica.
R - A minha fábrica. Eu sou um grande mecânico. Não é bom se falar de negócios? Tem que falar mesmo. Eu entendo muito bem de máquinas. Olha aqui a máquina.
P/1 - Mas a sua loja foi de móveis, né? A sua fábrica foi de móveis.
R - Móveis muito ligadas à mecânica. Você pode costurar um botão com a agulha e pode costurar um botão com máquina automática. Tudo automatizado. Entendeu?
P/1 - Entendi. Entendi. E essa... Quando o senhor chegou aqui no Rio, o senhor morou aonde?
R - Na Praça XI. Até casar.
P/1 - Ah, o senhor morou na Praça XI. E foi quando que o senhor casou?
R - Em 1934.
P/1 - E como foi que o senhor conheceu a sua primeira mulher? Lá na Praça XI também?
R - O quê?
P/1 - A sua primeira mulher, a Cima, como foi que o senhor conheceu?
R - Também na Praça XI. Na família Guerman.
P/1 - O senhor está cansado já?
R - Mais ou menos. Ainda dá.
P/1 - Ainda dá?
R - Mas o resto, uma vida boa. Vira pra lá, da um pulinho pra cá, dá cambalhota, escapa de uma coisa, escapa de outra, entra numa fria. (risos) Essa é a vida.
P/1 - Que frias que o senhor entrou?
R - Às vezes a gente perde no negócio, perde dinheiro, é roubado. Enganado por sócios.
P/1 - A sua mãe aqui no Brasil ou lá na Argentina, ela não trabalhou não?
R - Trabalhou. Ela trabalhou.
P/1 - Trabalhou? Em quê?
R - Na cozinha.
P/1 - Ah, tá. Não trabalhava fora não, né?
R - Não.
P/1 - E na sua família tinha alguém que era muito religioso? O senhor é religioso? Não. Ninguém era...
R - Não.
P/1 - Não frequentava nenhuma sinagoga nem nada?
R - Aparentemente, não é. No fundo, no fundo, ninguém é religioso.
P/1 - O senhor chegou a frequentar alguma sinagoga?
R - Como é?
P/1 - O senhor frequentou alguma sinagoga?
R - Por força das circunstâncias... Feriados, dias santos.
P/1 - Certo. Que sinagoga o senhor frequentou?
R - O Templo.
P/1 - O Grande Templo?
R – É, o que eu aprendi com as viagens ao exterior.
P/1 - Quando foram essas viagens?
R - Quando? 1964, 1966, 1967.
P/1 - E quanto tempo o senhor passou em cada viagem?
R - Um ano.
P/1 - Em cada uma?
R – Não, ao todo.
P/1 - O senhor foi lá passear?
R – Passear, conhecer.
P/1 - E o senhor voltou lá na sua cidade natal?
R - Só voltei em Odessa. A minha cidade natal não fui, porque não tinha hotel. Eles não permitem... Os russos não permitem judeu fora do hotel que eles têm.
P/1 - Ah, sei, não permitem ir lá.
R - Não. Se a cidade não tiver hotel, não pode ir lá.
P/1 - E essa cidade não tinha hotel.
R - Em Rascov não tem.
P/1 - E agora o senhor está lendo o livro de Gorbachev, que eu estou vendo, né?
R - Estou lendo sim, senhora. Eu sou muito inclinado ao progresso ________ da Rússia. Como eu disse, eu gosto do país. Eu falo russo. Aprendi muita coisa na Rússia.
P/1 - Na Rússia? Mas como que o senhor... Isso, nna época que o senhor estava lá, já era ocupação russa, né? O senhor falava que língua lá?
R - Russo.
P/1 - Na escola era russo? Tudo russo?
R - Tudo russo.
P/1 - E em casa também se falava russo?
R - Tudo russo. Depois eu completo. Vou lhe arranjar mais umas fotografias.
P/1 - Tá certo.
R - Mas isso vai ser um trabalho ingrato. Cada pessoa, vai ter que fazer um caderno especial.
P/1 - Cada pessoa tem um caderno especial. Mas... É importante. Deixa eu ver se eu estou com uma cartinha aqui que eu vou deixar com o senhor...
[Fim da Entrevista]
Recolher