CARTA ABERTA
Queridos irmãos,
Não sei se vocês sabem, mas acabo de completar 66 anos. Sei que minha partida é viável então não posso evitar de me preocupar com questões como a Biblioteca, meus netos, principalmente o Abnael, que é mais que um neto, é meu filho de coração. Logicamente todos sabem, criei o Ariel, pai do Abnael, da Ariele e da Ayra. Mas minha preocupação com o Abnael é maior, porque sempre esteve ao meu lado. É um jovem muito calmo e durante o período de isolamento social, ele era a companhia constante de minha mãe, enquanto eu cuidava dos afazeres. Quando minha mãe faleceu, viajamos para Manaus. Queria recuperar meu equilíbrio. Durante duas décadas eu vivera apenas para cuidar dos velhos. Abnael tinha quatorze anos e se considerava bastante adulto afirmando que iria trabalhar para nós. Aguentou pouco, as crises de ansiedade foram determinantes para voltarmos. Ademais, como ele sempre dizia, para onde formos a dor vai também.
Então voltamos, e o pesadelo adiado começou. Tudo na vida tem um preço e a minha conta chegou alta demais. O fato de viver dependendo economicamente dos meus pais, deixou-me sem saber como suprir as despesas da casa, pagar contas contraídas, despesas da reforma da casa recentes. Todas minhas economias eu gastara na reforma e acredito que muitos pensem: que dinheiro, se ela vivia da aposentadoria dos pais? A verdade não é bem assim e minha irmã que esteve sempre presente durante o crepúsculo dos meus pais pode testemunhar isto. O dinheiro gasto nesta última reforma, em 2021, resultava de trabalho, orientando estudantes universitários, ganhava até CR$ 5.000,00, ganhei um concurso do MAISPAIC, vendei uma moto ganha num consorcio. Era uma boa quantia. Também tinha a venda de livros que com a pandemia, passei a vender online. Resumindo, eu estava preparada para a reforma da casa. Não estava preparada era para as cobranças da família, achando que eu não estava...
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CARTA ABERTA
Queridos irmãos,
Não sei se vocês sabem, mas acabo de completar 66 anos. Sei que minha partida é viável então não posso evitar de me preocupar com questões como a Biblioteca, meus netos, principalmente o Abnael, que é mais que um neto, é meu filho de coração. Logicamente todos sabem, criei o Ariel, pai do Abnael, da Ariele e da Ayra. Mas minha preocupação com o Abnael é maior, porque sempre esteve ao meu lado. É um jovem muito calmo e durante o período de isolamento social, ele era a companhia constante de minha mãe, enquanto eu cuidava dos afazeres. Quando minha mãe faleceu, viajamos para Manaus. Queria recuperar meu equilíbrio. Durante duas décadas eu vivera apenas para cuidar dos velhos. Abnael tinha quatorze anos e se considerava bastante adulto afirmando que iria trabalhar para nós. Aguentou pouco, as crises de ansiedade foram determinantes para voltarmos. Ademais, como ele sempre dizia, para onde formos a dor vai também.
Então voltamos, e o pesadelo adiado começou. Tudo na vida tem um preço e a minha conta chegou alta demais. O fato de viver dependendo economicamente dos meus pais, deixou-me sem saber como suprir as despesas da casa, pagar contas contraídas, despesas da reforma da casa recentes. Todas minhas economias eu gastara na reforma e acredito que muitos pensem: que dinheiro, se ela vivia da aposentadoria dos pais? A verdade não é bem assim e minha irmã que esteve sempre presente durante o crepúsculo dos meus pais pode testemunhar isto. O dinheiro gasto nesta última reforma, em 2021, resultava de trabalho, orientando estudantes universitários, ganhava até CR$ 5.000,00, ganhei um concurso do MAISPAIC, vendei uma moto ganha num consorcio. Era uma boa quantia. Também tinha a venda de livros que com a pandemia, passei a vender online. Resumindo, eu estava preparada para a reforma da casa. Não estava preparada era para as cobranças da família, achando que eu não estava tratando corretamente da minha mãe.
Seria bom que todos soubessem que durante mais de duas décadas, acompanhei os crepúsculos dos meus pais, deixando minha vida para depois. Cada irmão tinha sua vidinha e a minha, por viver em casa, cuidava dos velhos. Eu vivia em casa: eis uma delicada questão. De verdade meus pais era que viviam comigo. Explico: No período de 1993 a 1997 derrubei a casa velha dos velhos, que estava totalmente consumida pelos cupins. Se não tivesse feito isto, certamente meus pais teriam virado sem teto. Não pensei que futuramente algum irmão iria querer herdar ao menos uma telha ou cupim da casa velha. Nunca pensei em dinheiro, herança, pois viver sempre foi meu maior desafio. Então trabalhei arduamente visando apenas construir uma casa.
Em 1990, deixei o emprego, investi minhas economias visando construir uma casa para mim. Montei um comércio para meu pai, virei feirante. A inflação alta e descontrolada possibilitava que eu duplicasse meu dinheiro na poupança, sendo que graças ao meu instinto, saquei tudo antes do confisco do Collor. Passei a investir em compra de tijolos: o lucro chegava até a 300%, também criava porcos. Além disto, também organizei dois eventos que deixaram um lucro invejável. Resumindo, tinha um grande capital. Cometi o erro de não construir minha própria casa, mas derrubei a dos meus pais e no local, constrói a sonhada casa. Talvez isto tenha sido um tremendo erro, pois minha ideia era construir meu próprio espaço. Mas o orgulho de meu pai com a casa nova amenizou meus temores tipo assim: se os velhos morrerem, meus irmãos vão querer dividir a casa. Todavia pensei que morreria antes, afinal eu era a doente da família.
O destino quis que eles partissem antes e sem eles, fiquei sem saber, como suprir minhas necessidades. Depois que meu pai ficou inválido, tive que abdicar do comércio, pois o velho exigia cuidados constantes. Isto foi um erro tremendo… Com a morte dos pais fiquei sem chão. Não tinha nada, pois estávamos num período de isolamento social, no qual perdi muitas pessoas queridas. Isto não era tudo: eu estava exausta fisicamente, destruída moralmente, sem forças para continuar, cheia de dor e incertezas. Sinto o quanto dói perder sonhos, objetivos, ser desencorajada e entre outras decepções. Foi assim que cheguei em Manaus, tentando sarar das feridas.
A casa da minha sobrinha, onde fiquei hospedada, uma casa ampla, com um espaço arejado. Da sacada do segundo andar, vislumbrava a cidade, seus contrastes delineados principalmente na arquitetura: um aglomerado de construções do ciclo da borracha, sendo engolidas por construções modernas. Percebi que a beleza de Manaus hoje representa só tristeza. Um passeio, a sensação que senti foi de horror. Cada prédio antigo, abandonado, mais parece um museu, principalmente pelo chelro fétido que exala dos cemitérios super povoados das vítimas da covid19.
Entretanto, o imponente Museu de Manaus, retrata o requinte e riqueza do passado, enquanto os moradores de rua dormindo nas calçadas oferecem um retrato de profunda pobreza: Índios, ribeirinhos, viciados, uma realidade que não pode ser escondida.
Estávamos em Manaus em plena pandemia, mas voltamos para nossa realidade, para trilharmos um caminho cheio de percalços. A casa não era mais um lar, a família, de irmã invisível, não poderia esperar nada. Meus irmãos? Foram cuidar de suas vidas. Não os vi mais por aqui ou por aí. Existem várias formas de abandono e eu me senti só, sem puder arcar sozinha com meu fardo cansado Somente as irmãs não me abandonaram. Sofremos o tanto que só quem vive dependendo dos outros sofrem. O meu neto, com 14 anos, trabalhava para suprir necessidades essenciais e minha irmã garantia alimento. A apatia sucumbia minha vontade. Foi preciso dois anos. Finalmente estou começando a acordar do pesadelo que vive nos últimos anos. Mais o tempo faz cobrança: minha saúde que sempre foi frágil, foi muito combalida com o crepúsculo dos velhos. O tempo não passa por nós sem deixar suas marcas, mas a forma como lidamos com isso é o que importa. Ainda vou continuar cultivando sonhos...
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